Cultura underground versus estrutura ruim.

No início, toda a contracultura ou a chamada cultura underground apresentava-se em tom de improviso, justamente porque era esse o limite possível naquele contexto. Em um ambiente onde era caro produzir a cultura “padrão”, esse feito limitava a expressão a quem detinha dinheiro ou influência, ou, ao menos, a pessoas que se sujeitavam aos modelos convencionais das grandes mídias ou mídias tradicionais. Criar e difundir conteúdo diferente, na contramão dessa correnteza de ideias moldadas, era achar uma brecha no tempo e no espaço, e fazer acontecer, nas condições que fossem possíveis. Faziam alguma coisa ruim em estrutura ou simplesmente não fariam nada.

Contudo, o cenário de cultura se ampliou significativamente e já não há uma barreira tão limitadora que renegue as pessoas a algo sempre sem qualidade na estrutura ou na técnica. Já é possível, por exemplo, ter um disco de música gravado com pouco recurso e disponibilizar para absorção ou venda via internet, praticamente sem custos. Pode-se ter credibilidade pra se defender uma temática alternativa como opção de negócio viável pra uma casa noturna, um bar, um comércio pautado em um estilo de vida tido como ‘incomum’, etc.

Claro que a cultura, muitas vezes, é exatamente o lado “ruim” que os ambientes ofertam e que o público aprecia, justamente pelo seu estilo, pela tradição, pelo clima do ambiente, pelas referências. Embora o improviso e a personalidade dos lugares tenham peso ímpar nessa equação, isso não significa que as coisas precisem ser ruins em tudo. É possível ter copos limpos, um banheiro onde não se afunde todo o sapato num lago de urina, funcionários minimamente educados e capacitados pra atender o público, etc. E isso é uma observação que faço mesmo sendo um dos que adora ambientes simples e detonados. Dentro da minha realidade de cultura gótica, indie, rock, punk ou qualquer coisa que permeie o meio urbano, é minha cara os becos, beiras de calçadas, esquinas, bairros afastados, apartamentos velhos, casarões sob risco, galpões abandonados, etc. Nem por isso, deixou de ser útil e importante, nos lugares onde isso é possível, um ajuste na estrutura que possa somar pra quem frequenta. Não é preciso sofisticar um lugar pra melhorar sua estrutura, mas não se deve cair no pensamento equivocado de que o ideal de “quanto pior, melhor” é algo pra se levar ao pé da letra e/ou em todos os quesitos.

Se décadas atrás era difícil conseguir ter expressão na sociedade com estas subculturas ou estilos, hoje em dia se tornou algo muito bem recebido dentro dos devidos segmentos. E é claro que isso não elimina a importância ou o papel de apoio pra tudo o mais que surge ainda em condições improvisadas. Ainda há muito underground pra ser expresso, mesmo abaixo de todos esses espaços que já estão bem sucedidos na sociedade. Espaços devem sempre ser gerados, independente de suas condições, afinal toda expressão é um sinal de que alguém quer voz, quer espaço, quer ter seu momento, sua ideia, seu destino, seu valor. Onde quer que olhemos, precisamos entender que tudo é dinâmico e único. Ao mesmo tempo em que alguns cenários querem simplesmente existir, outros já existem e podem progredir, mesmo quando optam por não fazer.

A impressão que tenho, às vezes, é que as pessoas estão, propositalmente, enterrando o investimento na subcultura por medo de ver aquilo se transformar em algo diferente da essência. De certa forma eu entendo esse medo, mas é preciso diferenciar com cautela o que é investir em subcultura / cultura underground e o que é matar a essência ou propósito desse nicho em troca de massificá-lo ou torná-lo a chamada ‘cultura de massa’ ou ‘cultura mainstream‘. Essa competição pra ver quem é mais anônimo ou restrito a pequenos grupos não é algo que deve ser levado a cabo por ninguém que tenha sensatez, afinal o que se espera da cultura, sempre, é difundi-la ao mundo todo, o quanto for possível (desde que isso não contrarie os princípios, claro), afinal, se alguém tem uma mensagem e ideologia expressa em uma letra de música, em um estilo de roupa ou no lefestyle, isso é o que se quer comunicar ao mundo como forma de alavancar reflexões, mudanças, ações, oposições, etc.

Penso que se estamos a nos opor a algo convencional, especialmente o modelo social, de mídia, e estamos tentando quebrar as correntes que limitam a nossa expressão de valores, verdades e ideologias, então devemos ser as pessoas mais engajadas em fazer acontecer essa concretização em nossos próprios espaços. No final das contas, apoiar a cultura alternativa, underground ou a ‘contracultura’ é nada mais que agir pra que a estrutura dela favoreça a permanência do próprio público adepto / simpatizante desses universos.

Relato com tristeza que, muitas vezes, a cultura alternativa se tornou um espaço que abandonou o interesse pelo aprendizado ou pela inovação. Vejo muita gente vestindo os crachás estritamente pela onda ‘cool‘ da aparência exótica e não exatamente pela sinceridade em viver essas realidades em termos de personalidade ou cenário cultural. Muitas dessas pessoas, infelizmente, estão tão viciadas na própria bobagem da pseudo-cultura forjada ao redor do mundo, moldados pelos padrões de pensamento, de moda, de ideias, de conduta, de objetivos, etc., que já não cumprem nenhum papel realista dentro dos cenários alternativos. Há muitos destes perdidos que tornam-se até mesmo famosos nesses meios, apesar da contradição berrante. São tempos onde o underground está perdendo o sentido ou, então, se reinventando em outros cantos ainda mais recentes e anônimos (desta vez por falta de opção).

Observo preocupado os lugares onde a essência é, por exemplo, combate a preconceito, mas borbulham nestes meios figuras completamente opostas a isso. Nada pode ser mais patético e desnecessário, ainda mais pra algo que é tão frágil e restrito como um nicho de subcultura. Talvez o encantamento pelo diferente seja a única coisa que faça essas pessoas se sujeitarem a estar onde sequer são bem-vindas. Talvez muitos destes nem entendam ou nem saibam o que é que cada nicho de cultura ou subcultura representa e, por isso mesmo, é importante que façamos um bom esforço em promover essas realidades, a fim de tornar isso mais visto, mais absorvido e discutido socialmente. Se nunca levarmos o underground pra fora dos subterrâneos da sociedade, talvez estejamos secando a fonte de cultura. Pense que as pessoas não vivem e não criam pra sempre e que a cultura não é só roupa, bebida, música e casa noturna. Vivenciar uma época, uma ideologia ou um estilo de vida é algo que exige das pessoas uma participação geral e full time.

Além de tudo isso que foi levantado é preciso dizer que, mesmo quando nos colocamos em preferência ao underground, a cultura dita ‘padrão’ ainda está ativa e predominante na sociedade, o que nos faz, muitas vezes, ter alguma dependência (seja pouca ou muita) para conseguirmos moldar alguma qualidade de vida, dignidade, etc., afinal, infelizmente, muita coisa ainda está na contramão do que idealizamos e não temos, ainda, todo controle sobre isso. Então, por conclusão, devemos fortalecer os nichos exatamente pra nos vermos a frente de opções que contemplem nossos próprios interesses, nossos objetivos, etc. Claro que não digo isso estritamente sobre os comércios, mas, eles também, afinal são um grande cenário de concentração de pessoas. Eventos e festivais também são  outro modelo similar com faceta de comércio, mas que ainda remete a um aspecto de difusão e comemoração da cultura muito mais do que um simples espaço de venda de ingressos e bebidas.

Em outros textos ainda terei oportunidade de falar sobre outros aspectos dessa temática, em especial sobre as relações humanas, as personalidades e as personagens de cada um nesse grande jogo incógnito que é viver e explorar o significado de tudo. Até breve!

Rodrigo Meyer

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Onde está Barbarella?

Este texto não fala sobre a personagem vampiresca, nem de outras menções a filmes e histórias em quadrinhos, mas sim de uma pessoa real que, com muita propriedade, vestiu esse apelido pra vivenciar realidades semelhantes. Falo de Barbarella, uma amiga que cruzou minha vida há muitos e muitos anos atrás.

Barbarella era um arabesco que flutuava pela cidade, escondida atrás dos fragmentos de luz. Entre um passo e outro, sentia-se seu perfume, apesar de todo acúmulo de nicotina tragada que lhe acompanhava. Vestida de veludo negro justo, marcava as formas pálidas de seu corpo anoréxico. Entre seus dedos, sentia que estava a um passo de trincá-los apenas por tocar.

Encontrei Barbarella em um acaso dos chats de portais de internet quando nem sequer existiam redes sociais. Atrás de um nome sugestivo, nenhuma foto e talvez um e-mail, cruzava-se o imaginário pela conversa e, com sorte, trocava-se um telefonema ou enviava-se uma fotografia scaneada com má qualidade, mas com muita personalidade. Aquilo era a essência máxima transmitida de cada usuário.

Da internet pra vida real, Barbarella surgiu em um telefonema com um convite pra bebermos. E fomos. Que dia magnífico poder experimentar aquela mente. Pessoa adorável, cheia de atenções, confortos e distorções. Lindamente posta sobre seu coturno e sempre abraçada aos copos de whisky que lhe davam sentido. Do dourado da garrafa ao negro do ambiente, sentia-me prestigiando joias.

Lindos tempos onde Barbarella ainda cortejava jovens, arrastando-os pra seu calaboço travestido de apartamento. Lá onde o sofá já tinha visto do bom de do melhor, as paredes escorriam pequenas obras. Tudo era tão demasiadamente simples e sincero que era impossível não sentir a essência do Movimento Gótico entre um detalhe e outro. O ambiente contemplava um pouco do vitoriano e do caótico urbano. Sempre tudo decadente, mas nunca demasiado.

Vazio como grande parte de seu corpo, tudo era apenas ossos e adornos. Somente o necessário. Aquilo me encantava como nada mais me encantou por muito tempo. Adorava olhar pra ela e sentir a possibilidade de traçar o contorno de seus próprios ossos, carregá-la num abraço ou deixá-la sentada em meu colo, desfrutando mistérios.

Aquilo sim deixa saudade. Deixa meu espírito com vontade de voltar no tempo e morrer de maneira semelhante, por desgaste, repetição, exageros. Lembro de Barbarella como o melhor referencial pra mim mesmo e pro estilo de vida que se escondia entre uma estação de metrô e outra. Andarilhos pelas noites, dividíamos esses bons momentos ouvindo música, bebendo e explorando. Pela manhã, quando já deteriorados com o bater do sol do lado de fora da porta, erguíamos força pra beber mais um pouco e ir embora.

Por muito tempo depois, ainda pensava em Barbarella. Por onde ela estaria? Pela última vez que a vi, parecia muito bem, apesar de todos nós sabermos que não é bem próprio esse termo pra quem sucumbia ao álcool e a anorexia. Estava de pé, ativa, embora estivesse por dentro morrendo a cada dia.

A verdade é que ela não sumiu; ela morreu. Barbarella passou tempos difíceis com as consequências de uma cirrose que a debilitou de vez. Ajudada por sua irmã, segundo o que soubemos, deixou pra trás uma filha de dez ou doze anos e uma marca indelével de seu estilo de vida. Até hoje, quando penso em Barbarella, penso em quem poderia ser ela atualmente. Não encontro outro rosto que se vista tão firmemente. O que ela não tinha nas carnes, tinha na mente. Da vez que lhe vi por último, completava 49 lindos anos de idade e uma vitalidade mórbida que, facilmente, lhe permitia ostentar muito menos idade, ainda que soubéssemos claramente que atrás daquele ar vampiresco o que mais ornava era a idade percorrida com todas aquelas histórias, aquela personalidade repetida, como vinho envelhecido, como tempero maturado.

Barbarella deixou pra mim um outro personagem, muito mais interessante, que nunca canso de explorar nos meus sonhos artísticos, histórias não contadas e na derivação sutil em alguma Fotografia ou conto. Estou sempre procurando por Barbarella em algum bar, alguma esquina silenciosa, um apartamento qualquer, alguém que se apresente primeiro como alma e depois como mulher. E cada vez que não encontro Barbarella, me pergunto onde está ela. Que reencarne logo, se é que já não fez, pois quero experimentá-la outra vez, mesmo que já não tenha os traços tão iguais, a mente tão loquaz e a sutileza doce e fatal do seu perfume. Em cada copo de bebida você está contemplada e convidada para festejar calmamente o lado sombrio da vida. Bom dia, querida.

Rodrigo Meyer