Crônica | Os três bandidos.

Ela, a quem chamarei de Fabiana apenas, para suprimir a identidade, era daquelas que adorava enaltecer a polícia e criticar bandidos. Porém, Fabiana comprava câmeras roubadas, apenas porque lhe convinha, era mais barato do que ter que trabalhar pra adquirir uma. Fabiana se sentia empoderada em criticar gente como ela mesma: bandidos. No fundo, eram todos unidos. em uma mesma cadeia de processos. O ladrão de câmeras roubava as pessoas usando armas conseguidas, direta ou indiretamente, com a própria polícia. O tráfico de armas sempre a serviço de mais e mais criminalidade. Fabiana alimentava tudo isso, desnecessariamente. Quando colocada diante da contradição, espumava de raiva por dentro a ponto de arquitetar ideias patéticas como inventar preferências por carreiras como na Polícia Científica. Por dentro eu ria, ao mesmo tempo em que lamentava a ignorância saturada. Que gente fraca, quanta desonestidade em um ser só. Como poderia caber? E o que são estas pessoas senão esse falso crachá de moralidade, só pra justificar ódio e egoísmo? O crime? Sempre esteve ao lado destes. Honestidade não é o forte de quem é peça indissociável do crime. Fabiana deve estar se amargando essa hora, mesmo depois de anos, ao lembrar que não tinha argumento válido pra sua ideia e conduta. Fabiana queria comprar câmeras de quem rouba câmeras, mas não queria que roubassem a câmera dela. Fabiana é muita gente. Fabiana é o câncer da ignorância que mata a sociedade todo dia.

Rodrigo Meyer

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Crônica | O homem invisível.

Entrei pela porta de vidro, senti o ar-condicionado. Não havia como eu não ser notado. Mais de 5 câmeras de vigilância e funcionário pra todo lado. No refrigerador, bebidas geladas. Peguei uma e paguei. Do lado de fora, mais gente, mais olhos presentes. Entrei no carro, voltei pra casa. No caminho, as pessoas pela calçada e os escravos da ronda armada. Dentro de casa, os barulhos da porta de entrada se abrindo e da porta do quarto se fechando, avisam os vizinhos que eu voltei. Eu não queria ser notado por ninguém, mas assim como eu os notei, me notaram também. A privacidade não existe. Viver em sociedade é viver observado e julgado. Posso até mesmo me esconder atrás de cortinas e paredes, mas até a minha ausência de imagem vai ser estímulo para lembrarem que eu ainda não saí de casa. Quando eu não quero que me notem, lembram de mim todo dia, mas se eu precisar de silêncio ou ajuda, aí eu consigo finalmente ser invisível.

Rodrigo Meyer