Crônica | Honestidade pra quê?

Até hoje me lembro daquela moça. A hipocrisia batia nos dentes. Apesar de evangélica, escolheu ir a um cartomante. Pra amenizar o papelão, decorou umas perguntas das quais nunca quis saber as respostas. Queria mesmo é saber de macho. Quem fica? Quem vai? Vale a pena tentar mais? Por dentro eu ria, por fora tentava explicar. A moça não entendia, fazia cara de quem estava bem-resolvida, mas era maior sua ansiedade em ouvir a resposta que ela queria do que ouvir a verdade. Por isso, insistia. Me perguntou umas cinco vezes o que é que ela deveria fazer. Não parecia pronta pra entender que estava toda errada, do começo ao fim. Tantos anos enroscada com um palerma e ele nunca havia apresentado ela para a família. Dois hipócritas, tentando fazer harmonia. Foi-se embora, mas fez sinal de que pretendia voltar. Estava realmente ansiosa pra ouvir eu ditar. Mal sabia ela que ditadura não tinha espaço por aqui.

Rodrigo Meyer

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Dificulte primeiro, facilite depois.

A imagem que ilustra esse texto traz a mensagem no cartão, em inglês, “Obrigado por ser você mesmo.”.

Vou dividir aqui algo qua aprendi na vida depois de muito me frustrar em ofertar ajuda cedo demais para quem não merecia. Também ocorria de tentar lecionar temas pra quem não estava realmente interessado e outras incompatibilidades similares. Depois de observar o resultado prejudicial que essas iniciativas estavam trazendo, percebi que isso se dava por estar aberto indistintamente por qualquer pessoa que se apresentasse. E faltava nesse ato um filtro.

Percebi que nem todas as pessoas estavam realmente à altura de receber aquilo que se predispunham. Às vezes não eram merecedoras, às vezes não eram confiáveis, às vezes não tinham capacidade, às vezes não tinham real interesse e, às vezes só o que tinham era interesses (no mal sentido). Então comecei a pensar como poderia evitar essas pessoas e passar a oportunidade para pessoas mais oportunas e recíprocas.

Entrou em prática a tática do que eu gosto de chamar de “Dificulte primeiro, facilite depois”. É como uma troca. Primeiro você se torna exigente ao extremo no filtro e diz às pessoas que quem estiver interessado procure. Quando algo é gratuito, muita gente se interessa imediatamente, mas por ser gratuito, também não valorizam como deveriam e muitos até acabam desistindo ou perdendo a atenção ao conteúdo, sem nenhuma culpa ou controle, já que não tiveram que gastar dinheiro algum naquilo. É mais ou menos como dizer que “comida gratuita, as pessoas jogam fora se não tiverem com fome”. Se não custou nada e não é delas, jogam fora com mais facilidade. Se tivessem pago por isso, talvez se interessassem um pouco mais em preservar ou tentar absorver, apesar das dificuldades.

Entendido essa lógica nestas pessoas, comecei a forçá-los a desistir logo de cara, colocando diversos empecilhos. Aliás, a cobrança de valores também é um poderoso filtro, muitas vezes. Mas, de forma geral, para pagantes ou não pagantes, a ideia essencial é dificultar o acesso ao benefício, seja ele qual for. Se você, por exemplo, leciona idiomas gratuitamente, estabeleça épocas únicas de cursos ou limite de vagas por cada grupo de aula. Isso fará as pessoas refletirem se vale a pena o esforço por algo que não querem tanto ou não valorizam tanto. Muitas delas descobrem coisas como: “É gratuito, mas não é tão perto de casa, então não quero.”, “É gratuito, mas só tem 10 vagas por grupo. Deixa as vagas pra quem queira mais que eu.”, “É gratuito, mas as primeiras aulas tem duração muito longa. Não quero.”. Esses foram só alguns dos exemplos hipotéticos de como dificultar o acesso à um benefício.

Uma vez que isso ocorre, essas pessoas menos interessadas e menos engajadas, tornam-se as primeiras a desistir daquela proposta e deixam o caminho livre para quem realmente quer e/ou merece aquela oportunidade. E quando você estiver em contato com essas pessoas, aí sim é a hora da mágica, pra finalizar o processo. Para estas pessoas você oferece todo o conforto e facilidade no que elas precisarem pra se adequar e absorver o benefício que você havia proposto. Então, tomando o exemplo hipotético citado do curso de idiomas, espere algumas vezes as pessoas frequentarem com as tais dificuldades e aquelas que estiverem firmes apesar de tudo, certamente estão lá porque estão muito interessadas e engajadas. E com elas você pode eliminar o filtro e começar a apoiá-las da melhor maneira que puder.

Se em um dia esporádico uma pessoa não pode estar presente por uma urgência ou doença, retribua o esforço dela com um presente ou uma surpresa. Se é um companheiro de trabalho dedicado, aumente seu salário ou dê um dia de folga remunerada mostrando como você aprecia a pessoa e o interesse que ela tem no que faz. Se é uma amizade ou um parente que enfrentou dificuldades pra permanecer do seu lado, demonstre sua admiração por essa postura, por essa honestidade e sentimentos. É assim que você mostra que as pessoas podem ser boas umas pras outras, confiáveis e viver sem pressões, ajudando um ao outro a superar barreiras, objetivos e conquistar espaço.

Antes que me julguem como aquele que nega oportunidades, vou dar dois exemplos que tornam claro o inverso.

Primeiro exemplo: Anunciei um determinado curso que, embora com preço acessível era pago e muita gente que gostaria de fazer não tinha condições de pagar. Ao conhecer essas pessoas, ofereci a proposta de trabalharem em 3 dias distintos em troca da gratuidade do curso. Muitos desistiram, mesmo tendo disponibilidade. Os poucos que aceitaram, vieram desfrutar do curso gratuitamente e, de quebra, aprenderam uma atividade extra que poderia ser útil em torno daquele curso ou potencial carreira adiante.

Segundo exemplo: Anunciei uma vaga de trabalho freelance como trabalho esporádico. O filtro seria sobre a dedicação da pessoa. Se cumprisse um bom trabalho ou tivesse se esforçado o máximo por aquela atividade, mesmo que avulsa, seria chamada pra ser a única opção de profissional sempre que houvessem novos trabalhos. Se houvesse constância no esforço de aprender o que faz e em trabalhar para entregar o melhor resultado que poderia, aí estava classificada pra receber a remuneração real, que era mais de 3 vezes o valor inicial. O sorriso no rosto dessas pessoas é muito gratificante. São pessoas que, como demonstraram, se esforçaram muito em suas carreiras, atingiram grandes potenciais, um bom reconhecimento em suas áreas e estão aí brilhando. Fico muito feliz por isso. Sempre que pude, apoiei essas pessoas em tudo que estava ao meu alcance. Elas mereciam e elas sempre retribuíram com o melhor delas, mesmo que eu fosse um desconhecido. É isso que eu valorizo.

Esse método funciona muito bem para inúmeras situações e setores da vida. Não só em trabalho e estudo. Eu costumo dizer que reciprocidade é arte. E acredito muito que a qualidade das pessoas deve ser priorizada para boas relações. E assim fiz. Para pessoas que não se entregaram com sinceridade e esforço no que faziam, eu fechei portas e mudei meu foco pra outra direção. Fica pra elas a lição de que, a única barreira à um apoio facilitado foi não estarem interessadas ou merecedoras o suficiente, pois cobro sempre nas relações que as pessoas sejam éticas, honestas, sinceras, esforçadas, estudiosas, engajadas, sem preconceitos, desprendidas financeiramente / materialmente, que sejam sensíveis e que estejam no mundo por relações e não por dinheiro. Em boas relações é evidente que o dinheiro faz sempre parte da equação de apoio. A vida é um constante investimento. Eu escolhi investir em pessoas nas quais eu me orgulho, mesmo que elas comecem pequenas, não tenham 1 centavo no bolso ou estejam enfrentando as maiores dificuldades na vida. Esse investimento nunca é caro e sempre dá bons resultados.

“Dificulte primeiro, facilite depois”. Pronto pra aplicar essa tática na sua vida?

Rodrigo Meyer