Quem parou de rir, parou de ir.

Quem já foi afetado pela doença da depressão ou conhece alguém que esteve ou está em similar situação, sabe como isso interfere drasticamente nos progressos gerais desse indivíduo. Pessoas com imenso potencial acabam subaproveitadas quando a depressão lhes toca, afinal ninguém consegue se engajar tanto nas atividades, se não sente prazer pela vida. Em situações mais brandas que a depressão (embora até ela tenha nuances), as pessoas podem estar com distimia, que é um transtorno depressivo com sintomas menos severos que a depressão em si, porém mais duradouro. De qualquer forma, seja lá qual for o momento, intensidade e duração com que deixamos de rir sinceramente na vida, estamos parando de caminhar.

Quando uma pessoa tem depressão por muitos anos, pode acabar criando uma imagem mental de si mesma completamente distorcida, por associar o histórico de vida com sua personalidade ou realidade nata. Entender a diferença entre o estado depressivo e o modo “normal” de ser, é uma tarefa difícil, principalmente se você praticamente não teve bons momentos desde a infância. A ausência de parâmetros de felicidade por longos períodos pode interferir na compreensão desse estado ou realidade, em termos de comparação com o estado depressivo. Embora as pessoas saibam que estão tristes, desmotivadas e sendo sugadas pela própria depressão, a felicidade e o prazer parecem coisas impossíveis de se conseguir ou até mesmo abstratas demais pra serem concebidas. Mas é importante lembrar que essa percepção de pouca ou nenhuma esperança é tão somente uma distorção gerada pela própria depressão. Indivíduos deprimidos, possuem uma alteração cerebral sobre o sistema químico, bloqueando ou não aproveitando as químicas que estão direta e naturalmente relacionadas a sensação de prazer. A grosso modo, seria como dizer que o sujeito está imune a felicidade, independente das coisas que acontecem ao redor.

Mas, esse não é um texto apenas sobre depressão. É muito mais abrangente que isso. A grande realidade que precisamos ver aqui é que, por qualquer que seja o motivo, se tivermos um modelo de vida e pensamento que nos priva do riso, estamos ativando outros fracassos na vida. Dizem que sorrir abre portas e que rir é uma das conexões mais intensas que o ser humano consegue traçar socialmente. Temos esse hábito social em comum com os macacos e alguns estudos mostram que algumas outras espécies de animais fazem proveito consciente de certas substâncias, para fins recreativos, assim que entendem a relação entre prazer e consumo. É também visto em algumas espécies, algo que, antes, achava-se ser algo exclusivo dos humanos: a realização do sexo por prazer e não só por instinto de reprodução.

De forma geral, pra todos os seres, sentir prazer pela vida é basicamente a mesma coisa que aproveitar o potencial de si mesmos e da própria vida, seja lá o que ela seja. Uma vez que não sabemos ao certo o que fazemos e quais propósitos realmente temos nessa existência misteriosa, tudo que temos de garantia são nossos sentidos e percepções da realidade. Nossa presença social e também como indivíduos cobra de nós que estejamos mais do que em harmonia, cobra de nós que estejamos felizes o suficiente pra fazer valer os momentos vividos. Embora muita gente tenha tido uma vida longeva em estados menos entusiasmados, é fato que, na média, a tendência é que as pessoas com pouco prazer pela vida levem um estilo de vida mais destrutivo, menos saudável, com diversas somatizações. Quando a mente não vai bem, muito disso se transforma em implicações no corpo físico. Especula-se, por exemplo, que doenças como o câncer estão intimamente relacionadas com outros quadros e experiências, entre eles, as emoções contidas. Pessoas que estão amarguradas ou insatisfeitas por muito tempo, podem acabar somatizando esses e outros dramas em um câncer, devido ao desequilíbrio do sistema imunológico.

O lado bom da vida se expressa pelas coisas que nos dá diversão, felicidade, prazer e motivação em continuar a ser e fazer, especialmente quando permite que outros indivíduos ao redor experimentem esse contexto, tal como se todos estivessem compartilhando de uma mesma festa. Pessoas felizes constroem sociedades com grande interesse de preservar e fomentar felicidade. Através da empatia podemos dividir com outras pessoas as alegrias e dramas. As emoções humanas são possíveis de serem compreendidas e replicadas, em certo sentido, para que outra pessoa sinta aquilo. Essa conexão que temos configura um padrão natural e sadio, pois isso promove o bem-estar nas relações humanas e deixa as portas abertas para que os indivíduos possam exercer suas vidas com satisfação, liberdade e desejo em viver mais. Quando essa conexão não existe ou é altamente corrompida, as pessoas começam a não se importar umas com as outras, gerando um ambiente de desprezo, infelicidade, ódio, violência e pouco ou nenhum respeito e/ou valorização pelas demais pessoas.

Um padrão de vida que externaliza hábitos nocivos pra si e pros outros, invariavelmente, reforça um desequilíbrio que nasceu internamente no indivíduo, devido a inúmeras possíveis origens, inclusive, diversas delas, externas. Sociedades que oprimem, por exemplo, plantam a própria ruína, uma vez que geram pessoas insatisfeitas, infelizes e reativas a opressão. A receita garantida de aumentar problemas, ao invés de solucionar. A ausência do riso ou da felicidade, está intimamente ligada ao fracasso das expressões humanas, afinal realizamos tudo em dependência da motivação da própria vida. Precisamos ver sentido ou ter imenso prazer, ou perdemos a disposição ou interesse de desenvolver ou participar de algo. É assim que a vida deixa de ser uma opção interessante quando somos afetados pela depressão e, exatamente por isso, muitos depressivos podem vir a se tornar suicidas.

Embora pareça óbvio, ainda estamos em tempos em que obviedades precisam ser ditas. Então fica a mensagem de que ser feliz e estar em paz é melhor do que estar infeliz e incomodado. Mesmo que as pessoas digam que querem uma boa vida pra elas mesmas, elas se esquecem de que em nenhum momento conseguirão isso através da violência, da corrupção, da guerra, da opressão, do preconceito, da desconfiança, da perda de qualidade, da má educação e da valorização de arquétipos destrutivos. Enquanto as pessoas estiverem enaltecendo pessoas, instituições ou ideias que reduzem o ser humano em seu potencial de felicidade e bem-estar geral, estarão freando a própria sociedade e a si mesmas, impedindo que desfrutem de um ambiente favorável. O nome disso é “atirar no próprio pé e se queixar da dor.”.

Aquele que não é capaz de entender que é parte inseparável da equação, não conseguirá perceber que seu estado doentio é parte do que bloqueia e impede a sociedade de ser plena e satisfatória. Assim como o desequilíbrio nas químicas afeta o cérebro do deprimido, indivíduos desequilibrados em certos aspectos sociais afetam a sociedade. Partes adoentadas ou danificadas não cumprem a mesma função em uma máquina, seja ela um cérebro, um motor ou uma sociedade. Se não estamos rindo e expressando prazer, estamos sofrendo e estagnando, tanto individualmente quando coletivamente.

O próprio sentido de família e amizade, embora abstratos, explica como e porquê o ser humano depende de bons momentos pra conseguir existir coletivamente e ver sentido em si mesmo como peça dessa engrenagem maior. No fundo, tudo o que o ser humano são deseja é estar bem e compartilhar o bem. Qualquer desvio dessa premissa, confere, por vários motivos, patologias psicológicas ou psiquiátricas que devem ser devidamente cuidadas para não transbordar impactos e prejuízos aos demais indivíduos. Em teoria, as sociedades já fazem esse controle, ao estabelecer vigília, tratamento ou detenção a sociopatas ou a indivíduos que, de alguma forma, estão inaptos a viver em sociedade. Porém, bem longe do ideal, a realidade prática é que, ao invés das pessoas inadequadas e perigosas estarem controladas, elas figuram entre os cargos de maior relevância e impacto na sociedade. Não deveria ser surpresa nenhuma de que há uma lista interminável de criminosos de todo tipo, na política, na polícia, no comando de corporações, em pseudo instituições religiosas, etc. E é exatamente por estarem livres pra agir, que deixam esse legado tóxico ao mundo, em tudo e todos que tocam. Não é, portanto, exagero classificar esse tipo de membro da sociedade como um câncer que afeta as células sadias e destrói a saúde geral do organismo ou sociedade.

Sempre ouvimos a expressão “rir é o melhor remédio.” e de fato é. Se pudéssemos escolher clicar em um botão e mudarmos automaticamente para um padrão de felicidade, certamente faríamos. Ninguém gosta de sofrer. E se ninguém é feliz sofrendo, isso inclui não só o próprio indivíduo, como todos os demais. Ser racional e fazer uso da lógica a favor do próprio bem-estar emocional, físico e social é lutar extensamente para que nosso ambiente ao redor seja melhor, mais feliz, mais livre, com mais riso e menos dor. Trabalhos conscientes nesse sentido, incluem desde cidadãos comuns que escolhem um jeito de viver e de se expressar mais positivo, até indivíduos que entram pra alguma causa ou ação social que visa amenizar o sofrimento e suscitar mudanças de ação e de pensamento. Iniciativas como os ‘Doutores da Alegria’, que visitam pacientes em hospitais, vestidos de médicos-palhaços, ajudam os enfermos a se reposicionarem diante da própria situação e terem mais disposição de enfrentar seus dilemas. Estar doente é um contexto duro de se experimentar e sob isolamento ou pouco prazer, pode tornar-se um fator crucial na piora do quadro clínico.

Outras ações, como as que ocorrem em algumas ONGs ou iniciativas avulsas de assistência social, podem ser gratificantes a quem tenha visão sobre a teia que somos, mas também pode impactar bastante, uma vez que plantar a ajuda quase sempre implica em absorver a dor alheia por conta da empatia e do convívio contínuo em ambientes e contextos de sofrimento, guerra, doença, abandono social, etc. São frequentes as notícias de depressão entre psicólogos, médicos, psiquiatras, professores e ativistas sociais. Muitas vezes a mudança é tão gradual ou camuflada pela própria atividade, que eles não se dão conta do desfecho drástico a que estão submetidos quando afetados emocionalmente e psicologicamente por aquele ambiente. Por razão similar, estudantes de Psicologia, por exemplo, precisam ter alta antes de serem liberados para exercer a profissão. Embora seja altamente necessário e sensato tal filtro, na prática isso é feito de forma simbólica, distribuindo no mercado uma multidão de profissionais sem uma verdadeira alta de seus quadros psicológicos, sendo um terrível risco a saúde psicológica dos pacientes e, portanto, da sociedade em si. Pelo simples motivo de que você não colocaria um estuprador para atender pacientes que foram vítimas de estupro, você não colocaria certos formandos para clinicarem na área da Psicologia.

Assim, todos os dilemas que temos em nossa sociedade são mero reflexo das conturbações de cenários menores, como os países e suas gestões, as cidades e suas realidades, as condições de um bairro, o círculo de amigos, o ambiente de trabalho, a composição familiar, os relacionamentos ditos “amorosos” e, por fim, o universo interno do próprio indivíduo. Não se pode analisar a felicidade do mundo, sem antes, pensar extensivamente na felicidade do próprio indivíduo. Sociedades que ignoram o problema das peças, jamais poderão manter a totalidade da máquina estável. Simples assim.

Apesar de estar escrevendo com certa frequência, o que pra mim é relativamente fácil e interessante, por vezes eu não me sinto disposto ou apto a fazer o necessário. Enfrentei depressão a vida inteira e ainda não me vi seguramente distante desse malefício a ponto de dizer que não voltará a ocorrer. Neste meio, diz-se que depressão é o tipo de coisa que uma vez que se tenha, nunca mais há garantias de que não poderá recair. Sou o claro exemplo de quem parou de ir, porque parou de rir. Sempre fui uma pessoa com bastante senso de humor, ironizando o mundo com piadas e comentários sarcásticos, mas, apesar disso, estive infeliz, arrastando a doença da depressão por todos esses longos anos.

Deixar de rir, no sentido de não estar feliz por padrão, me impediu de ter momentos além daquelas exceções onde ria estritamente em determinados casos, especialmente com ajuda de fugas e estilos de vida que me deixassem vagando pelo tempo. A infelicidade me impediu de socializar, de estudar, de trabalhar, de lutar pelos meus objetivos e potenciais. A infelicidade deixou marcas indeléveis no meu histórico e também na minha saúde. Ela me tomou tempo, levou meu dinheiro e cavou um buraco de insatisfação onde eu não encontro mais amparo. Talvez seja a depressão tocando a campainha novamente, talvez seja a minha análise realista de que um ambiente tóxico e cada vez pior não pode ser viável pra quem deseja boas coisas nessa vida. Fico em dúvida, pois sempre me lembro dessa frase de Freud que nunca me canso de repetir:

“Antes de se autodiagnosticar com depressão, verifique se não está apenas cercado de idiotas.”

Quem tenta inventar bem-estar onde não tem, colocando princípios ilusórios de valores ou ideologias, está tão somente aumentando a própria cova. Sociedades que visam controlar aspectos superficiais, ignorando a origem dos problemas, estão apenas enxugando gelo. Se as pessoas realmente quisessem se ver livres e felizes, fariam exatamente o oposto do que está sendo feito coletivamente na maioria dos lugares. Ideologias que se preocupam em apagar incêndios locais com gasolina, sempre terão que lidar com incêndios e incêndios cada vez maiores. A estupidez e o egoísmo nunca foram soluções pra coisa alguma. Discordar disso é ser a prova disso. Premissas básicas de pensamento e relações precisam, necessariamente, incluir felicidade e liberdade sinceras. A felicidade falsa, expressa sem sinceridade pode ser muito mais tóxica que a tristeza sincera. Em depressão, por exemplo, eu continuo fazendo o melhor possível por mim e pelos outros. Mas uma pessoa em expressão insincera da felicidade, só está enganando a si mesma e iludindo milhões de outras pessoas de que a vida consiste nessa busca rasa, inútil, superficial e doentia de coisas que, na verdade, não deixam ninguém feliz de fato.

Se alguém parece satisfeito demais em um contexto inóspito, pode estar com Síndrome de Estocolmo, onde nega o sofrimento ou opressão experimentados, em defesa de seu próprio opressor. A opção menos provável é de estar em paz, apesar do caos percebido ao redor, o que, com plena certeza, é o caso de raríssimas pessoas e, portanto, não é algo que deva ser exigido por padrão. Não cobre das pessoas que elas estejam sempre de bom-humor, entusiasmadas, dispostas a trabalhar e lutar pelos objetivos e potenciais pessoais, enquanto elas estão enfrentando uma batalha inominável de sobrevivência a própria dor, a dor do mundo e a desnecessidade de tudo isso. Sempre que alguém tenta justificar os insucessos de uma pessoa deprimida, a colocando como culpada, eu, como deprimido, me sinto, ao menos, motivado em não ser tão cego e ignorante a ponto de achar que a vida de um indivíduo e sua bela e rosa exceção, tem qualquer relação com a realidade fora dessa bolha. Não tem, nunca terá e discordar não vai te fazer mais consistente nessa ausência de raciocínio e lógica.

Hoje eu simplesmente gostaria de rir, mas a tudo que olho, me parece insosso, desnecessário, sem graça, estúpido e doentio. Tal como alerta Freud, sinto como se estivesse cercado de idiotas e, portanto, com ou sem depressão não me veria em um contexto favorável. Existir nessa realidade intragável me obriga a repetir: melhorem!

As pessoas devem tentar ser o tipo de pessoa que elas gostariam de conhecer. Foi exatamente isso que eu fiz a minha vida inteira, exceto pela depressão que é algo ao qual não escolhemos e pouco ou nada controlamos. Se não puder sorrir para o mundo, tente pelo menos ser útil e sincero, sempre pautar suas ideias e ações em princípios de lógica e bem-estar coletivo, senão acabará infeliz do mesmo jeito e ainda será a razão principal da infelicidade dos demais. Acorde ou será acordado, pois bolhas estouradas não voltam a se regenerar. Aprenda a conviver com a realidade fora da bolha e perceberá que a solução interna é também a solução coletiva.

Rodrigo Meyer

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A máscara do trabalho.

Quando entramos em um comércio, normalmente somos atendidos de forma respeitosa e cordial, afinal o estabelecimento segue normas em relação a isso com o objetivo de atrair e agradar clientes, exatamente porque são estes clientes que trazem dinheiro pra empresa e pra todos os funcionários envolvidos. Esse aparente paraíso do mercado de trabalho, embora necessário, por vezes é somente uma máscara, onde as pessoas se sujeitam a essas boas práticas no contexto do trabalho, mas abandonam tudo isso assim que terminam seu turno. Isso reflete uma contradição visceral na sociedade.

Se os comércios entenderam que as pessoas gostam de ser bem tratadas e respeitadas, então porque negam isso em outros momentos? Em princípio, as pessoas quase nunca se respeitaram, mesmo em ambientes de trabalho, mas quando as pessoas são vidradas em dinheiro e percebem que há regras claras pra se ganhar ou perder clientes, então elas se sujeitam ao necessário pra tal. Por muito tempo a humanidade estuda o comportamento humano, através da Psicologia, Sociologia e Antropologia, para definir preceitos de Publicidade, Comunicação e até mesmo de Política. Tudo que o ser humano faz de forma “profissional” na sociedade está baseado, em algum grau, neste aprendizado sobre a própria humanidade.

Ironicamente, por mais que as pessoas tenham aprendido os fundamentos de uma boa relação com outros humanos, elas evitam colocar isso em prática. As razões pra tal conduta contraditória podem estar relacionadas com os vícios pessoais de cada um e o modo como as pessoas são covardes demais pra bancar suas próprias realidades. O que quero dizer com isso? Quando uma pessoa fica pressionada socialmente pela barreira do emprego, ela entende que para se manter no emprego ela precisa seguir as regras do trabalho ou acabará sendo demitida. Mesmo se for o caso de um autônomo, percebe-se que perde-se cliente se não traçar certas premissas de boas relações com o público e outros profissionais. Essa pressão por trabalho, toca no bolso dos funcionários da mesma forma que toca no bolso dos donos de empresas ou autônomos. No mundo atual, vive-se pautado pelo trabalho e, assim, conseguir um é a garantia pra se ter condições de viver. Diante desse ultimato de vida ou morte, trabalhar se tornou a principal fonte de valorização humana. Tanto é assim que, pra este modelo de sociedade, quem não conseguir trabalho (caso seja a única opção de fonte de renda), está automaticamente fadado a uma vida miserável, de abandono, marginalizado à socialização e visto como um ser humano de segunda classe.

Dito isso, voltamos pros estudos pra entender que, a princípio, nenhum ser humano deseja ser considerado inferior ou de “segunda classe”. Logo, quase cada um deles se esforça pra, pelo menos, ter uma condição de permanecer em um emprego ou função de trabalho que lhe permita bancar os custos da vida. Do outro lado da moeda (me perdoem o trocadilho), estão as pessoas que, de uma forma ou de outra, não fazem parte do mercado de trabalho. Mendigos, por exemplo, em dependência da contribuição voluntária de outras pessoas, pautam suas vidas praticamente no acaso. Parte desses, caem pelas ruas, por ausência de emprego, por abandono familiar, por marginalização da sociedade, por vícios em droga ou álcool, por preconceitos alheios, etc. Outra parte, pouco lembrada são os que estão nas ruas por opção própria, por estilo de vida, mas isso já é um tema a parte que foge ao propósito deste texto.

Chega-se a conclusão de que o ser humano se esforça pra trabalhar como uma forma de se render a própria vida. Quando ele entende que sem dinheiro ficará podado do acesso a comida, moradia, vestuário ou qualquer outro recurso pago que torne a vida, em teoria, digna, ele começa a almejar esse modelo de existência. Mas, muitas dessas pessoas não endossam os compromissos com a gentileza e a educação aos quais são treinadas a exercer no trabalho, simplesmente porque vieram de uma estrutura de humanidade onde tudo isso não é parte da realidade praticada desde muito e muito tempo. Em toda as classes sociais, com ou sem máscaras, as pessoas se odeiam, mentem, forjam, abusam e fazem todo tipo de conduta de desvalor, mesmo que, no fundo, não seja necessário. Esse hábito em ser incômodo e falho gera um coletivo de pessoas conflitantes entre si que, ao mesmo tempo que querem receber bom atendimento nos comércios, são pessoas que só ofertam bom atendimento em troca do dinheiro que este modelo “estável” de trabalho proporciona. A educação no trabalho se torna como o resultado de uma adestramento social bem sucedido em seus propósitos, condicionando seres humanos a agir contra suas próprias realidades anteriores, em troca do tentador “petisco” que é o trabalho e/ou dinheiro.

Chegamos a um entendimento de que o adestramento social é o principal motivo dessa máscara. A existência de uma vida dupla em termos de conduta é o mesmo que se observa quando um cachorro adestrado age conforme o que é exigido pelo tutor, a fim de obter seu petisco, seu reforço positivo, etc. As realidades anteriores da maioria esmagadora da humanidade é essencialmente a postura contaminada por traumas psicológicos, por baixa educação, por problemas familiares, por preconceitos próprios e alheios, por hábitos entre grupos de socialização (como a família, amigos e colegas de escola ou trabalho), entre centenas (literalmente) de outros fatores que transformam a mente humana, desviando os indivíduos de um começo neutro para um crescimento contaminado de situações. Essa realidade prévia, embora não seja a essência humana, está enraizada desde muito cedo na maioria dos modelos de sociedade, justamente pelo abandono que as pessoas dão a seus semelhantes, ao entorno, ao estudo humano, etc. Enveredados pelos vícios e erros das gerações anteriores e pelas gerações de seu tempo, acabam se saturando de si mesmos, como quem tenta sobreviver a um afogamento no mar, mas é atingido constantemente por mais água do que é capaz de gerir.

É esse conflito pessoal com a própria sociedade que gera o fenômeno dos trabalhadores contraditórios que reconhecem o valor das boas relações humanas, mas não são aptos a desenvolver isso fora do ambiente de trabalho. Muitos sequer acreditam na importância total disso, pensando que a gentileza no trabalho é apenas um chato artifício inventado por seu patrão, como um capricho exagerado que é permitido de existir apenas porque o inventor é o detentor do comércio, de maior dinheiro e “poder” sobre a classe de trabalhadores que o “respeita” nesse sentido. Se estes trabalhadores, descontentes com as práticas de boas relações humanas, estivessem livres da dependência financeira de seus empregos, certamente tornariam-se as pessoas que normalmente já são fora do ambiente de trabalho. Como dizem, é nos bastidores que se guarda as máscaras do teatro. É por trás das cortinas do espetáculo que se conhecem os atores sem figurino, sem maquiagem, sem roteiro predefinido. Muita gente se surpreende ao ver quão incisiva é essa verdade, quando tenta uma aproximação a um funcionário que deixou seu turno há segundos atrás e se depara com uma receptividade completamente diferente ou até ausente.

Por mais que seja importante a educação no trabalho, quando não é espontânea é prejudicial, em última análise, pois essa prática como padrão reforça as máscaras da humanidade, deixando o ser humano cada vez mais embebido nos bastidores sórdidos da vida. Tal hábito torna o ser humano cansado das relações humanas e, muito rapidamente, corrompe o indivíduo até mesmo nos momentos em que ele está tentando vestir a cordialidade em seu emprego. Essa alternância de realidades tão opostas desgasta o ser humano pelo contraste e pela evidenciação de que a qualidade humana que é plantada nos modelos de atendimento do trabalho não existem nos bastidores. Muita gente se apercebe como menos educado, menos culto, menos gentil, menos prestativo, menos interessante, menos agradável e menos desejável, ao se comparar com a personagem exercida profissionalmente. Isso leva muita gente a abandonar uma das figuras. Normalmente, abandonam a figura profissional, por ser secundária e não espontânea. É quando, por exemplo, o atendimento cai em qualidade e as pessoas começam a ofender clientes ou outros funcionários, sem se importar com os riscos de perda de clientes ou do próprio emprego. Outros, contudo, aproveitam o aprendizado no trabalho, para moldar um pouco mais suas características pessoais. E quem não consegue nem uma coisa e nem outra, acaba estressado em aguentar essa pressão de ter que trocar de máscara frequentemente. Dessa pressão, nascem casos de depressão, de distimia, de aumento no consumo de álcool, drogas ou de qualquer prática que tenha a finalidade de ser uma tentativa de escape para as tensões da vida e da mente.

A boa notícia é que as pessoas podem viver uma mesma realidade, sem máscaras, desde que aceitem transformar a parte menos útil e/ou menos lapidada em algo próximo daquilo que apresentam no trabalho. Eu, por exemplo, tenho o hábito de prestar informações para as pessoas, mesmo que isso não seja uma relação profissional. A satisfação em ajudar ou mesmo o impulso automático de querer ver outro ser humano bem, me mantém nessa postura, independentemente se é trabalho ou vida pessoal. Quando nos tornamos conscientes de nosso valor e desvalor, o caminho essencial é buscar as mudanças que nos permitam ser vistos como agradáveis e úteis no mundo. Assim como as empresas fazem suas adaptações para uma melhor imagem diante do público, todo ser humano, trabalhador ou não, deve fazer isso na vida, como forma de aproximar pessoas para um ambiente e contexto mais acolhedores, mais interessante, mais tranquilo, mais cativante, mais prestativo, mais útil, etc. O mundo em que queremos viver é exatamente aquele paraíso estudado pelo mercado nos campos da Psicologia, Sociologia e Antropologia. Uma vez que sabemos que o caminho do bem-estar humano é esse, é ignorância não colocar isso em prática pra toda a existência no mundo. Paute suas relações por este viés e, rapidamente, o coletivo se transforma por um efeito manada. Se aprendemos as condutas ruins do ambiente, podemos aprender as boas também, bastando que o ambiente nos ofereça isso. Então, sejamos assim nos ambientes, ofertemos os exemplos de conduta que queremos ver absorvidos. Lógica simples. A matemática a serviço da área de Humanas é assim.

Rodrigo Meyer

No final das contas o que vale é ser feliz.

Depois que você vive 35 anos, tendo passado por alguns relacionamentos, muitos choques com a sórdida realidade, muitas decepções, conflitos, desgastes físicos e mentais, você acaba ponderando qual é o desfecho de tudo isso e como deveria ser o estilo de vida e pensamento. Vou dividir com vocês um pouco da minha caminhada.

Quando eu era criança, estava tão concentrado em minhas próprias realidades, que pouco ou nada queria me envolver com as obrigações ou pressões da família, escola ou sociedade. Eu simplesmente tinha, desde muito cedo, uma personalidade firme. Sempre muito decidido, defendia meu ponto-de-vista e minhas prioridades de maneira bem ‘teimosa’, por assim dizer. Me incomodava com as pessoas mentindo, debochando ou maldizendo.

Vivi em casas com perturbações paranormais e isso me abriu a percepção de mais incômodos. Insatisfeito com a família, com o sistema de ensino nas escolas e os próprios ambientes, fui me tornando cada vez mais fechado e desesperançoso pelas pessoas ao meu redor. Não compreendia os motivos das pessoas, resumindo tudo a estupidez. Contudo, como tinha muito tempo reservado em meu próprio mundo, me dei o benefício de refletir muito mais sobre as coisas. Gostava de cutucar assuntos além do que eram apresentados. Não me satisfazia em ler uma revista ou ver uma foto. Eu queria questionar, abrir detalhes, novas possibilidades, ir além. Talvez tenha sido esse ímpeto de busca que me fez não me conformar nunca com o pensamento raso.

Na adolescência, cursando artes e visitando algumas amizades recém-formadas tentava observar o que ninguém mais se interessava de ver ou pensar. Eu era um curioso nato. Desmontava computadores pra entender como funcionavam por dentro. Esmiuçava os sistemas, os livros, as fotografias, as paisagens, os retratos vivos das pessoas e da sociedade. Eu era, de fato, um observador. Aprendi muita coisa refletindo sobre o que surgia perto de mim. Mas, conhecimento ou reflexão trazem junto um problema. Quando você se apercebe da realidade que o cerca, você se torna decepcionado, infeliz, insatisfeito e inconformado. Mesmo na infância já tinha depressão. A adolescência foi uma fase grave, pois a medida em que ganhava alguma autonomia e mudava meus interesses e atividades, ficava cada vez mais distante da família. Esse contexto todo contribuiu pra que eu acreditasse que perpetuaria minha depressão e que, provavelmente, morreria jovem.

Algumas lembranças são demasiado tristes pra contar, mas fui uma pessoa com muitos impulsos suicidas, especialmente quando me vi esgotado e sem saída. Aos 14 anos tentei alguma oportunidade de morar em outro lugar. Queria independência, queria vida, queria me reconstruir. Não aguentava o ambiente, a vida, as pessoas. Estava claro pra minha mãe que estávamos chegando ao fim. Ela, cansada pelos motivos delas, em uma família que mais parecia um hospício, se enveredou pelo trabalho doméstico e a rotina de acordar cedo. Enquanto isso, eu, noturno desde nascença, madrugava a ponto de cruzar com ela nas escadarias de casa quando ela acordava pro café.

Aos poucos fui me desligando de tudo e de todos. Já não tinha pra onde erguer a mão. A vida se tornou uma mistura de 18 horas de sono, internet precária e a possibilidade de encontrar uma ou outra pessoa que me salvasse de tudo aquilo. Não esperava paraísos. Apenas queria dividir meu tempo com outras pessoas, longe dali, mesmo que fosse pra passar algumas horas em algum bar ou apartamento, bebendo para rir e esquecer. Quando conseguia algum dinheiro, gostava de ir ao centro da cidade explorar alguns sebos. Mesmo que não pudesse comprar tudo que queria, ficava empolgado em descobrir algumas preciosidades.

Entre livros, bebidas, artes e algumas tentativas falhas de aturar a escola, eu me via bem mais interessado no que não tinha. Estava sempre disposto a buscar novidades pra minha rotina. Era o maior inimigo do tédio e aceitava qualquer coisa pra me satisfazer um pouco. Uma companhia incompleta, um quase abraço, um prato repetido de comida, muito refrigerante e, sempre que possível, alguma bebida alcoólica. O tempo foi passando, passando e eu não via nenhuma boa perspectiva. Sinceramente eu romantizava a morte precoce como uma boa solução pra meu histórico desagradável de vida. Não me arrependia de mim, nem do que fiz, mas de ter que dividir o mesmo tempo e mundo com as pessoas em geral. Eram tão poucas pessoas interessantes e raramente algo que pudesse ser algo mais, que eu simplesmente investi em um estilo de vida marcado por essa melancolia, essa vida noturna, esse modo escasso de cruzar com uma ou outra pessoa no ano, sem fazer planos, sem ter nenhuma sensação de que meus dias seriam melhores, mesmo que só um pouco.

Isso começou a mudar um pouco quando conheci alguém que mudaria substancialmente minha vida na época. Além de professora, acabou por ser a pessoa a quem eu manteria uma espécie de casamento. Nos dávamos muito bem, ela era muito divertida, ríamos sem parar e nunca perdíamos nenhuma situação pra fazer uma piada. Eu não saberia dizer se sem a depressão eu ainda seria uma pessoa feliz. Mas sei que, pelos períodos onde me relacionei, foi quando finalmente pude me recompor em todos os setores da vida. Sem a depressão, me via trabalhando, estudando idiomas, socializando mais (ao meu jeito), tendo melhores expectativas para o futuro. O sentimento realmente era de grande felicidade, mas eu não sabia que não perduraria. Com a chegada inesperada da separação, tudo se desligou da noite pro dia. Não fazia sentido manter nada mais. Eu não tinha mais o que me fazia brilhar os olhos e a vida tinha me dado outra decepção mal compreendida.

Depois de tentar entender por longos três anos, era morrer de vez ou tentar renascer. Desde a época do casamento, havia investido no curso de Fotografia e nos meus primeiros equipamentos. Passaria meu tempo livre procurando clientes, amigos e modelos profissionais com os quais eu pudesse distrair a cabeça, mudar o foco da minha mente e tentar levar, finalmente, minha própria vida totalmente independente. Fotografei por uns 17 anos e sigo ativo, embora agora esteja estrategicamente mais parado na Fotografia, dando espaço pra outras áreas de atuação. Não foram anos muito gratos e eu tenho certeza que recaí em depressão, dessa vez, mais vivido, bebendo muito mais, sem nenhuma referência digna de limites. Praticamente fotografava, bebia e dormia, enquanto seguia o curso da Faculdade. Um desastre pra saúde, pra mente e provavelmente pro espírito. Simplesmente não posso dizer que foi realmente bom tudo isso, mas foi o que era bom de se fazer na época, naquela condição.

Destes momentos tristes e sofridos eu ainda carrego memórias e até gosto de pensar nas coisas que vivenciei por conta desse histórico de vida. Sei que teria sido muito melhor ter evitado diversas pessoas e ter diminuído o impacto da bebida e da comida, mas essas coisas não se escolhem quando você está fora de qualquer eixo, mesmo que imaginário. Eu simplesmente sobrevivia e tentava dar algum passo novo que pudesse ser a mágica saída. A verdade é que nunca dei totalmente esse salto, apesar de reconhecer que tive um ano muito bom lá por 2014, por exemplo. Eu praticamente me acostumei tanto com a depressão que isso moldou (ou deturpou) a minha personalidade. Me ver feliz, foi como estar em contato com um estranho. Não sabia como agir, não sabia quem eu era ou como deveria ser. Simplesmente embarquei na onda, aproveitei o entusiasmo e criei de tudo um pouco. Voltei a escrever em diversas mídias, dei um novo rumo pra minha Fotografia e me coloquei a vasculhar, novamente, tudo aquilo que eu realmente sempre quis ser mas nunca havia conseguido. Voltei a desenhar, a sonhar, a abrir portas pra novos contatos, novas parcerias. Devido ao último curso de Faculdade, atuo no momento como Designer Gráfico. Faço disso um pretexto pra ficar motivado, sempre em busca de novidades, reinventando mídias, reforçando o potencial do meu presente e tentando enterrar meu passado.

Estou passando por uma fase diferente atualmente. Não posso dizer que eu esteja em depressão, mas também não estou tendo o melhor dos meus dias, pois o país afundou de tal maneira que estou precisando, constantemente, repensar minhas opções. Carrego comigo muitas cicatrizes, muitas memórias incômodas, mas cada vez que estou criando, minha cabeça muda completamente de lugar e eu me vejo satisfeito em poder simplesmente me expressar. Era pra ter nascido outro livro este ano, mas imprevistos acontecem e acredito que a única hora de escrever é quando tudo favorece. Eu não me cobro de colocar uma frase sequer no ar, se não sentir que estou no momento propício de fazer. Deixar de lado o imediatismo e a impulsividade deveria ser receita pra todo mundo, seja lá em que atividade for. Estou tranquilo, apesar da vida incerta e de não ter ninguém ao redor com quem contar.

Felicidade todos desejam, mas não basta querer pra conseguir. Faz bem pouco tempo que eu consegui absorver a ideia e consequente transformação de que nada mais importa, pois o que vale mesmo é ser feliz. Uma vida triste, cheia de amarguras e conflitos nunca abriria as portas que eu realmente precisava, mas achava que não queria. Me desviei tantas vezes do caminho da tranquilidade e hoje, finalmente, estou de volta ao meu novo eu. Por perto fica quem soma, pessoas vivas, intensas, que não se sujeitam a ser mornas. Fica pelo caminho cada vez mais sabedoria, mudança de hábitos, flexibilidade extra pra lidar com as pequenas idiotices do dia-a-dia e rir, rir demais. Sempre que posso me acabo na risada. Tempo ruim não me leva pra onde eu quero ir. Acordo quando quero ou preciso, faço o que faço e sinto muito orgulho de tudo isso. Tenho buscado outras maneiras de reencontrar com aquela lendária amiga Felicidade. Sumiu por tantos anos da minha vida, que eu já tinha dado ela por utopia.

Não estarei feliz o tempo todo, mas certamente terminarei meus dias com uma média bem positiva. As coisas ruins eu rapidamente esqueço, porque não vai ser eu quem vai carregar um câncer, uma gastrite ou qualquer outra somatização. Comigo, quero boas conversas, pessoas que me façam pensar, que me façam rir além da conta e que eu possa dividir viagens, uma cerveja artesanal, um vinho ou um momento de arte. Eu não estou em busca de mil alucinações, como muitos passam a vida perseguindo em vão. Eu estou satisfeito de ter feito uma interessante história, provavelmente com o desfecho mais inesperado de todos, pra alegria de uns e pra grande surpresa de outros. E você? O que me traz de positivo por hoje?

Rodrigo Meyer

Uma vida ruim dá um bom filme.

O ser humano é sensível a todo tipo de emoções e, por vezes, está em busca de bons momentos, risadas e prazeres. Mas, existe satisfação também diante de conteúdos dramáticos, de dor e pesar. Desde que compreendemos as realidades sociais e as sensibilidades humanas, nos interessamos de absorver conteúdos que falem de tudo isso. Talvez sejam formas de solidarizarmos com pessoas ou ideias próximas daquela realidade ou mesmo de acessar nossas próprias dores interiores e nos vermos representados, compreendidos e considerados.

Não sei exatamente quais são os fatores que nos levam a degustar um filme, livro ou quadro que traga dramas e sentimentos tristes. Mas fazemos isso e gostamos disso. Isso não significa necessariamente apreço pelo sofrimento em si. É a experiência de ver a retratação do tema que nos aproxima desses conteúdos.

Muita gente já disse o mesmo e eu endosso a ideia de que uma vida ruim sempre dá um bom filme. A tragédia humana é um bom conteúdo pra ser exposto e compartilhado em uma obra. Somos pegos pelos braços e colocados diante de situações intensas que nos obriga a sentir o mesmo que sentiram os personagens, artistas e autores. Somos levados a sofrer por alguns instantes a mesma realidade difícil de algo ou alguém.

Relatos de guerra, de violência, de abuso sexual, de solidão, de loucura, de abuso de drogas, de abandono familiar, de prostituição, de fugas, sumiços, mortes, traições, medos, inseguranças, complexos, doenças. Tanta coisa pode ser listada e tanta coisa esquecemos de incluir, pois são imensas as possibilidades. Quase tudo na vida humana é um drama, um dilema, uma dor ou uma história de horror. Queremos sempre buscar entendimento dessas realidades, mas, acima de tudo, experimentamos a conexão direta com a emoção dessas realidades. Nos sobe um impulso imediato de empatia ou até mesmo de culpa, remorso, memória e percepção de nossas próprias posições de vítimas.

Por diversas vezes me vi encantado por filmes e livros de dramas pessoais. Essa recorrência óbvia na minha caminhada pelos conteúdos me fez produzir também. Alguns de meus primeiros ingressos na Literatura, por exemplo, se deu com temáticas densas de dramas ficcionais com imensa inspiração em fragmentos da realidade do mundo em geral. Acredito que todo autor, independente do segmento de sua criação, é um organizador de uma certa ‘colcha de retalhos’ onde utiliza a ferramenta de seu talento e cultura pra exprimir, de alguma forma, esses pedaços que permeiam a sociedade desde sempre. É difícil dissociar uma obra qualquer de um profundo conhecimento humano.

Por darem vazão fácil pra uma boa história, os dramas humanos às vezes são romantizados na mente das pessoas como boas formas de se levar a vida. Claro que, em geral, nada disso é saudável ou mesmo fornecedor dos resultados esperados. Mas, ocorre com certa frequência a aproximação das obras com a realidade das pessoas. É o caso de relembrar aquela frase que questiona se a vida imita a arte ou a arte imita a vida. Ocorrem as duas coisas o tempo todo. São inúmeros os casos de pessoas que sentem-se encantadas por um certo ‘glamour’ que imaginam a certos contextos de vida. Romantizam facilmente a dor como se uma vida feliz e tranquila não fosse intensa o suficiente pra ser memorável. Existe sim uma competição de dramas, onde é mais interessante aquele que sofreu mais em sua vida.

Para muita gente, inserir-se como vítima constante nos meios onde socializa, de certa forma, é como lhe conferir um status de personagem em uma boa história. As pessoas querem construir versões idealizadas de suas vidas, porém pelo viés de uma história de drama. O drama parece vencer, de longe, qualquer outro roteiro ficcional para inspiração da vida real das pessoas. A que isso se deve?

Diz-se que o ser humano só consegue ser feliz se tiver objetivos a alcançar. A estagnação de seus esforços pra conseguir algo, pode deprimi-lo. Em países onde certos aspectos da qualidade de vida já são facilmente alcançados, tende a aumentar o índice de suicídio e depressão. É um sinal de reação ao fato de que as pessoas não possuem ambições de progresso mais, que tudo está “tristemente” resolvido e que elas já não se sentem mais diante de uma competição que as faça buscar mais, melhorar, etc.

Pensando nisso, me surgiu a hipótese de que a busca pelos dramas humanos tenha relação com isso. Seria como se desejássemos absorver ou vivenciar realidades piores pra nos manter entretidos e ativos para a busca de soluções e melhorias. Em uma analogia rápida, é como se um profissional que tem satisfação em lapidar diamantes, sinta-se entediado e triste por só encontrar diamantes já finalizados, sem oportunidade de precisarem da ação dele pra qualquer melhoria. É como se uma vida feliz, por alguma razão, nos deixasse com a sensação de sermos inúteis em vida.

Claro que existe muito prazer em desfrutar felicidades e bons momentos, mas note que mesmo na comédia dos cinemas, há uma tendência a rirmos da imbecilidade dos personagens e não de desfrutarmos momentos ao lado deles. Somos sempre espectadores da fraqueza humana, das coisas bizarras, das cenas patéticas, das coisas desajeitadas, das falhas e insuficiências humanas. Não deixam de ser dramas humanos também, apesar de uma ótica diferente e talvez graus bem distintos dos dramas ‘convencionais’.

Não lembro se de fato já li algo sobre, mas tenho em mente a ideia de que a própria comédia surgiu derivada do drama. Será que somos realmente criadores de segmentações da expressão humana ou apenas descobrimos formas preexistentes de contemplar características humanas preexistentes, como, por exemplo, o apreço ao próprio caos? Como humanos, será que somos tendenciosos a querer nos ver sempre em situações difíceis? Será que, no final das contas, a felicidade e o prazer puro são utopias para a realidade? Em situações assim, cabe muito bem estudar Filosofia, Sociologia, Psicologia, Arte e permear muitos mundos, seja pelo Cinema, Literatura ou pela vivência direta com as pessoas, afinal a vida é uma grande obra em andamento a ser descoberta pouco a pouco. Acredito que a experiência de vida pode dar muitas respostas, mas também suscita muitas novas perguntas. No final das contas, nunca alcançamos a razão e sempre ficamos numa infinita dúvida sobre tudo.

Não sei se isso te ajuda, mas dizem que só a Arte salva. Tentemos.

Rodrigo Meyer

Facilidade pro humor é pré-requisito.

Quem já teve a experiência prazerosa de rir diante de algo, ao lado de alguém ou mesmo consigo mesmo, sabe que essa é uma das melhores coisas da vida e que, se estivermos equilibrados, estaremos abertos e desejosos por isso. Faz parte da realidade humana a busca por prazeres. É fácil ver que os relacionamentos mais bem-sucedidos levam consigo companheirismo, amizade, carinho, apoio e, claro, muita diversão. Quando a gente se entrega em uma amizade ou romance, os momentos de alegria e humor são constantes, afinal queremos ver o outro bem, rindo, tal como gostamos de brincar e se entreter nessa troca de prazeres que é o humor.

Não consigo imaginar relacionamento algum que não seja pautado em bom-humor. Tenho, pra mim, como pré-requisito pra tudo. Até mesmo diante do trabalho, desde que haja espaço e afinidade com as pessoas, é possível ofertar esse benefício. Acredito que isso transforma a qualidade dos momentos a ponto de reforçar e validar a conexão entre as pessoas. Claro que não basta ser muito criativo e engraçado pra que todo o resto brote, magicamente, mas sem o humor, com certeza fica difícil traçar qualquer conexão positiva.

Dispenso do meu caminho, conexões que não me fazem melhor, que não transformam meus momentos em prazer. E o humor é uma dessas formas. Mas há de se filtrar pra não cair no pseudo-humor ou no humor sem ética que se pauta pelo indevido, pelo preconceito, etc.

Lembro como se fosse ontem os momentos incríveis que dividi ao lado de vários amigos e as companheiras de relacionamento. As piadas, paródias, os comentários geniais, o modo de ver a vida e o descompromisso com a seriedade na maioria dos momentos. Isso é um ideal possível e nada utópico. Levo comigo o bom-humor e é isso que busco nas outras pessoas. São raros os momentos que, de fato, precisamos estar sérios e, portanto, torna-se desnecessário inventar seriedade onde ela não foi requisitada.

Infelizmente, olhando ao redor, sei que o humor está escasso. As pessoas já não sabem bem o que é rir. Muitas delas andam de cara amarrada por todo lugar onde passam. No trânsito, no caminhar das ruas, em casa, na internet, nos comentários, nas entrevistas, nos comércios, na família, nos relacionamentos, nos palcos de show. Isso cria uma atmosfera inútil de desprazer que não ajuda nem a eles mesmos e nem a quem cruza o caminho deles.

Prefiro  mil vezes ser a exceção que ri no trânsito com as loucuras que acontecem ao redor ou com minhas próprias memórias, insights, paródias de música ou qualquer humor criado de momento pra uma situação. O hábito de rir nos faz rir com mais facilidade e ativa uma visão humorada sobre as coisas ao nosso redor.

Acredito que pra sermos humoristas ou pessoas divertidas, temos que ser bons observadores, mas sem a pretensão de fazer grandes coisas. O humor é, essencialmente, o simples, o falho, a banalidade, a idiotice humana, e por aí vai. Não existem fórmulas garantidas pro humor, embora haja cientistas que até já tentaram equacionar a estrutura por trás de algo que nos faz rir. Seja lá que estrutura for essa, é claro que absorvemos e replicamos de forma natural. E essa naturalidade mostra muito da essência do ser humano. Por isso, pra mim, quanto mais divertido alguém é, mais humano me parece e, portanto, mais interessante soa pra mim.

Quando vejo pessoas buscando amigos ou romances dentro e fora da internet e seus “cartões de visita” levam a uma primeira impressão ruim, com uma cara fechada, palavras duras, objetividade acima de tudo, vejo que perde completamente o valor humano e, torna-se qualquer coisa indesejada que, com muito azar, alguém pode chegar a ter por perto.

Só queria deixar esse toque pra vocês. Quando a gente tem amor-próprio, a gente se dá coisas boas. Então, se dê esses bons momentos, se dê prazer, se dê risadas, se dê humor, se dê uma vida leve e com significado, olhando o mundo ao redor com outros olhos e tendo outra postura diante das pessoas. Por mais difícil que tenha sido sua realidade, se você ainda consegue acessar o conceito de humor e pode se ver diante de uma situação engraçada, faça isso, se permita, se solte, aproveite o momento, pois qualquer dor do passado não precisa necessariamente estar em todos os momentos do seu presente. Sempre haverá meios ou brechas pra você gerar suas próprias oportunidades de prazer e humor. Obrigado a todo mundo que acompanha os textos e vamos em frente. 🙂

Rodrigo Meyer