Crônica | O orgulho em ser inútil.

Fui ao estabelecimento. Tudo muito bonito, organizado, exceto por aquele atendente, com a cara toda fechada, um desgosto pelo trabalho, uma falta de educação e atenção. A cada simples pergunta sobre os produtos, uma resposta seca ou até mesmo resposta alguma em claro sinal de desprezo. Eu sabia que ele nunca mudaria. Já é um idoso e não fez nada pra aprender a ser melhor, mesmo depois de tanto tempo na mesma atividade. Praticamente um apêndice do próprio comércio, tal como o apêndice no órgão humano, mantido enquanto não dói, mas que pouco sabemos da utilidade. Meu alívio é saber que ele está cada vez mais perto de se aposentar, que o comércio terá que mudar ou fechar e que eu continuarei educado e útil por onde passo. Sempre gostei de trabalhar. O que me dá energia é saber que estou sendo útil pra algo ou alguém. Mas nem todos pensam igual. Eu sou só alguém que acredita que atirar no próprio pé não é uma alternativa. A maioria das pessoas, por se darem esse tiro, acham que eu estou errado. Ai de mim, pobre coitado.

Rodrigo Meyer

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Crônica | A vizinha fantasma.

Saí na varanda, olhei pro outro lado da rua. Que cena cansativa. Em dias normais, a idosa que mora quase que na casa em frente, fingiria arrumar a cortina só pra matar a curiosidade ingrata de saber o que os outros estavam fazendo. Mas hoje, um dia mais intenso, foi um pouco além, mesmo não sendo a primeira vez. Saiu e foi até o portão. Olhou como se tentasse matar o tédio de estar o tempo inteiro largada em casa sozinha. Saiu pra calçada em claro sinal de comprometimento da mente e se prostrou perto do portão do vizinho, surgindo sinistramente com seu rosto espiando pelo canto do portão, pra ver sabe-se lá o que. O que ela esperava encontrar? Uma festa onde todo planeta foi convidado, menos ela? Talvez estivesse depositando apreço demais nos vizinhos, por conta da ausência da própria família. Socialização não tem. Talvez seja isso que lhe falte. Mas, a ruína na mente talvez a faça confusa ou sem memória pra entender ou lembrar que seus parentes não a visitam nunca, exceto uma vez ao ano ou até a cada dois anos, provavelmente pra saberem se ainda está viva. Aos meus olhos ela já estava morta faz tempo. Uma vida vazia é pura ansiedade e sofrimento.

Rodrigo Meyer

A autoestima das pessoas de mais idade.

Logo de cara é preciso deixar claro que em todas as idades, inclusive entre os mais idosos, existe diversidade, em termos de autoestima, de qualidade de vida, saúde, contextos, etc. Não há como dizer que alguns exemplos isolados retratam toda a comunidade de idosos. Com este texto eu pretendo tão somente despertar o olhar sobre algumas pessoas, alguns episódios e alguns contextos.

Quando eu era criança, olhava para os idosos e me punha a pensar como seriam essas pessoas em suas juventudes. Talvez essa fosse a maneira de tentar desvendar quem eram essas pessoas no momento presente e porque eram de tal maneira. Na maioria das vezes, via idosos com uma expressão de cansaço, um ar sério ou triste. Algumas raras vezes encontrava alguns em condições diferentes. É de se imaginar que o tempo vivido, a condição de saúde e a própria idade avançada em si desse a estes tais características. Mas é preciso dizer, também, que algumas outras pessoas parecem burlar tudo isso, como se fossem mais resistentes fisicamente e/ou mentalmente.

Ouvia que algumas pessoas ‘envelheciam melhor’, como se prolongassem a juventude por mais tempo que a média das pessoas. Sempre achei isso intrigante. Lembro que quando eu tinha uns 15 anos, aproximadamente, vislumbrei uma moça na calçada, em frente a um salão de cabeleireiro. Alguém havia comentado que se tratava da dona do estabelecimento e que já tinha 70 anos. Na época, não consegui tomar como verdade, porque nunca tinha visto uma pessoa de 70 anos com aquela aparência tão jovem. Eu nunca fui bom em distinguir idades, mas mesmo pra mim, foi fácil ver que a aparência não estava nem próxima do número, segundo o que minha mente conseguia pinçar de referências anteriores. Ela era uma pessoa muito ativa, de postura firme, com um andar fluído, um rosto bonito, um olhar marcante. Uma pessoa realmente bonita e, inclusive, atraente. Embora eu não apreciasse o estilo de suas roupas, era fácil ver que, ao estilo dela, ela caprichava em cada detalhe.

Diversos outros episódios similares foram surgindo com o tempo. Várias das pessoas que eu conheci durante os tempos de ensino, eram pessoas entre 30 e 80 anos. Algumas, mesmo com a mesma idade de outras, destoavam na aparência, principalmente pelo semblante. Enquanto algumas pessoas de 40 anos pareciam irritadas com a vida, outras pareciam estar se divertindo. Sorriso no rosto e brilho nos olhos parecia ser o que movia a beleza e jovialidade de algumas delas, enquanto que em outras, as dores e padrões tóxicos as consumia também fisicamente. Começava a ficar claro pra mim que o modo de vida dessas pessoas tinha um peso na equação.

Devido ao meu apreço por pessoas mais velhas pra dividir conversas e interações mais produtivas, eu socializei com muitas dessas pessoas em diversos contextos. E assim eu pude conhecer de perto a realidade de muitas dessas pessoas. Era interessante ver como a autoestima de algumas ajudava a sentirem-se tranquilas e felizes o suficiente pra externar um semblante melhor. E, claro, rendiam elogios entre os mais atentos. Eu notava, inclusive, em como essas pessoas mudavam de postura sobre si mesmas, sobre a vida, sobre o espaço em que socializavam. Parecia que ganhavam uma carga extra de energia para exercer as tarefas do dia ou até mesmo ficavam mais imunes ao stress e as situações infrutíferas da vida e do trabalho. Muito provavelmente, isso as ajudava a retomar um condicionamento físico, refletido, talvez, pelas regulações de hormônios ou algo do tipo.

Com algumas pessoas, por eu não ter conhecido elas em fases anteriores, não sei dizer se foram transformadas para melhor ou se sempre foram daquele jeito. Também não sei dizer se esse padrão de envelhecimento é raro ou se só me parece incomum por eu não ter conhecido um número maior de pessoas. Tudo que sei é que, a autoestima pesa muito na vitalidade do ser humano. Não é preciso dizer que o fator mental e emocional podem levar pessoas a somatizar doenças ou a levar uma vida cercada de hábitos prejudiciais. Uma boa alimentação, atividade física (inclusive o sexo) são fatores impactantes. Não há como negar que essa jovialidade ajuda inclusive a levarem uma vida mais ativa e estimulante, o que as faz manter o vigor, numa espécie de círculo-vicioso.

Do lado oposto, as pessoas com baixa autoestima, parecem alimentar problemas na mente e no corpo. Por vezes, o aspecto pouco receptivo de seus semblantes, a saúde abalada e a pouca disposição, podem repelir contextos prósperos de socialização, atrações físicas ou até mesmo criar um efeito bola-de-neve onde a condição em que se está baixa a autoestima e as faz deteriorar ainda mais a mente e o corpo, chegando em resultados que vão criar mais descontentamento, repetidamente.

Eu tenho 35 anos e adoraria chegar aos 70 anos com o vigor de algumas dessas pessoas que eu conheci. As pessoas ao meu redor comentam, às vezes, que eu pareço ser mais jovem do que a idade aponta. Eu não sei endossar ou negar isso, pois, como eu disse, tenho dificuldade de diferenciar idades e aparências. Conheci pessoas com a minha idade que tinham aspectos melhores, piores, iguais. Eu não sei como é que deveria ser uma pessoa de 35 anos. Me olho no espelho e fico com a impressão de que o tempo não está passando. A única coisa que me mostra o passar do tempo são os pelos brancos na barba, o cruzar dos meses no calendário e o acúmulo de memórias de situações vividas. Não sei se estou envelhecendo bem do ponto de vista físico, mas sinto que vivi bem a minha vida, fazendo sempre coisas incríveis, dando o meu melhor em tudo. Apesar de eu ter boa autoestima, não sirvo como parâmetro sobre o impacto disso na minha saúde física e mental, pois tive um histórico longo de depressão e deterioração da saúde com comida, álcool e sedentarismo. Felizmente tudo isso ficou pra trás há um bom tempo e é perceptível o impacto dessas mudanças.

Há uma obviedade que precisa ser dita: o bem-estar gera bem-estar e como diz a frase célebre, “mente sã, corpo são.”. Ter a mente jovem ajuda demais. O corpo agradece por cada risada sincera e profunda que você deu e por cada estresse que você evitou, quando viveu apontado pra outras direções melhores e mais úteis.

Rodrigo Meyer

O que vem depois dos 30 anos?

Atualmente com 35 anos, observei mudanças significativas desde a aproximação dos 30 anos. Claro que não é exatamente a idade em si que traz essas mudanças, mas, pras muitas pessoas, é próximo dessa fase da vida que se costuma mudar um pouco as visões, as realidades e também as necessidades. E essas mudanças são diferentes pra cada pessoa. Em outra oportunidade talvez lhes conte meu histórico antes dos 30, pra poder ilustrar um pouco do que me levou até esse desfecho.

Aprende-se com a experiência vivida das fases anteriores aquilo que se precisa mais e o que precisa menos. Fica-se um pouco menos apegado a certas coisas passageiras ou certas bobagens e foca-se um pouco mais em outras questões. Talvez muitas pessoas custem a transformar a si mesmas desta mesma maneira e algumas cheguem a se transformar antes até. Deixo, então, a minha visão, pela minha experiência pessoal.

Aprendi aos 30 que muitos dos nossos sonhos e objetivos de infância eram poéticos, mas pouco realistas. Contudo, muito do que eu tentei construir desde criança, ainda são ideais que carrego pra vida toda. Aprendi que as vontades e objetivos da adolescência podem, frequentemente, perder o sentido com extrema facilidade ou se transformarem em algo diferente, com outras formas de exercer, em outros contextos. O que eu percebi aos 30 me fez abrir mão de muita coisa e de valorizar muitas outras. Por mais que eu me considerasse sensato quando mais jovem, é certo que eu tinha vivido tempo insuficiente pra sentir na pele alguns impedimentos concretos mais severos da existência e convivência nesse mundo.

Depois dos 30 me tornei mais seguro, mas também mais cansado. Me tornei mais exigente, mais crítico e, talvez, com menos perspectivas de me ver feliz. A saúde foi colocada em cheque tantas vezes que aprendi a resistir com mais facilidade às adversidades que eram difíceis nas fases anteriores. Pra mim, a morte nunca foi um tabu e envelhecer também não. Sei que, cedo ou tarde, todos morreremos e que não há nada demais nisso. A vida só se torna interessante e importante pelo que fazemos dela enquanto ativos.

Aprendi que importa mais aquilo que senti, os prazeres que tive, as alegrias divididas, os sorrisos, as lembranças duradouras de piadas e viagens, o conforto das noites de sono. Importa mais aquilo que deixei com meus pensamentos, minhas ideias propostas ao mundo, meus textos, minhas artes, minha marca de personalidade naqueles em que cruzei pelo caminho.

Importa mais é saber o que já fiz, quem sou, me descobrir como uma nova pessoa e não perder tempo mais com o que não vai me ajudar a chegar em dias bons. Passei a evitar redes sociais, a comentar muito menos as coisas que leio por lá, a interagir somente quando me parece justo e, portanto, necessário. Intervir com a palavra se tornou algo mais criterioso. Sei o quanto já falei demasiadamente na vida e, com isso, só perdi tempo e tranquilidade.

Depois dos 30 anos eu não quero visibilidade ou aceitação. Eu quero apenas minha própria realização. Continuo a ofertar aos outros aquilo que posso, dentro dos limites de cada situação, mas, com certeza, em muitos casos, sou eu mesmo o alvo da prioridade. Se dessa vida ninguém sai vivo, o que eu quero é tentar pelo menos aproveitar a viagem de alguma maneira.

Minhas visões ideológicas sobre política e estilo de vida se solidificaram, ou seja, se tornaram mais concretas. Ainda que sempre aberto a refletir e adicionar informações, a essência daquilo que parecia certo pra mim foi organizada e fortalecida em cada novo passo, cada novo detalhe, cada nova iniciativa. Quando mais jovem eu flexibilizava levemente a postura ideológica das pessoas, o que refletia também na minha, de certa forma. Com a mudança de fase, meu esforço não está em fazer sala pra quem não soma pra minha luta. Eles lá e eu aqui fazendo o meu papel de forma cada vez mais engajada.

Passei a ignorar muito mais as coisas que me tomavam tempo em vão e me dediquei muito mais nas minhas criações. Voltei a desenhar, voltei a sonhar em ter um piano um dia, voltei a estudar outros idiomas, voltei a escrever, voltei a deixar algo de positivo pro meu dia-a-dia e também um certo pequeno legado pra humanidade. Não me tornei uma pessoa conhecida, nem mesmo bem-sucedida. Fui só mais um no meio da multidão que enfrentou inúmeros desprazeres, mas que procura, sempre que pode, lembrar dos momentos felizes, porque aprendi que a vida é feita somente de momentos.

Hoje, estou em busca de soluções pra minha saúde e felicidade de uma maneira mais assertiva. Não quero me ver escapando da realidade pra ficar satisfeito. Não quero afogar os pensamentos críticos no álcool, mas sim resolver esse descontentamento com o mundo e tentar otimizar meus dias pra me ver um pouco mais em paz, mesmo que as situações ao redor sejam ruins. Gostaria que mais gente fosse como eu, que nunca se apegou a dinheiro e bens-materiais. Enquanto assisto essa trupe de perdidos se enforcando por tão pouco, eu quero é sentar e sentir prazer em viver, mesmo se não tiver 1 centavo no bolso.

O que parece difícil pra muitos, é a realidade fácil de muitos outros. A diferença? Querer. Agora com meus 35 anos, meu legado está espalhado pela internet, pelas pessoas que conheci na rua, pelas interações impactantes entre familiares, colegas de trabalho ou qualquer outra pessoa. Não fiz nada grandioso, principalmente se for sob o ponto de vista dos fracos inimigos. Mas fiz tudo com sinceridade, diferente deles. Eu vivi sincero, com orgulho de nunca ter enganado ninguém, de nunca ter sido um mentiroso ou usado os outros. Vivi com consciência tranquila, apesar de imenso desprezo pela conduta humana em geral.

Cheguei até aqui sem me dobrar e a única dificuldade estava nas barreiras que os outros queriam impor e não na execução em si da minha postura. Se todos tivessem a mesma postura (ou pelo menos a maioria), ninguém teria dificuldade de fazer o simples, o necessário. Tudo isso me veio ao longo da vida e ficou mais intenso depois dos 30. Para grande parte da sociedade, vão continuar envelhecendo até os 50, 70 ou 90 anos ainda idiotizados, imaturos, inseguros, egoístas, superficiais e patéticos. Essa é a prova de que não basta envelhecer para melhorar. Metal enferrujado só deteriora com o passar do tempo. Já os vinhos, cuidadosamente criados e armazenados no tempo, na posição certa, ficam cada vez melhores.

Rodrigo Meyer

O que eu gosto nas pessoas mais velhas.

Eu sempre tive uma certa identificação maior com quem tivesse mais idade que eu. Me dei conta disso logo no primário, quando acabei dividindo a escola com outras séries. Tenho lembranças de uma moça que, durante nosso horário de aula, pintava um mural dentro da classe. Enquanto nossa classe estava sendo alfabetizada, ela provavelmente já estava nos últimos anos de escola. Eu não sei bem no que consistia minha admiração, mas pelo pouco que entedia na época, me encantava saber que ela vivia outras realidades, trabalhava, entendia mais da vida. Talvez fosse alguma coisa associada com o conceito de ‘sapiosexual’, que é aquele que, resumindo, tem atração pelo intelecto alheio.

Como muita gente, tive também os chamados ‘amores platônicos’, por algumas professoras e acredito que isso seja algo mais comum entre todas as pessoas, principalmente nessas fases da vida onde estamos nos descobrindo. Comigo, porém, a admiração se estendia além dessa questão e eu me via sempre atrás de companhia de pessoas mais velhas. Se fossem pessoas de idade próxima ou até um pouco abaixo, eu preferia dividir meu tempo com quem se mostrasse peculiar, inteligente ou com um mínimo de mistério pra ser desvendado.

Não sei se foi coincidência dos ambientes que eu estive, mas quando eu olhava ao redor na classe, entre os parentes e pela vizinhança, me sentia em desprazer, com tanta gente perdida, com um pensamento curto, desinteressadas e desinteressantes. Embora eu não tivesse nenhuma sintonia com o sistema de ensino no Brasil em nenhuma fase, eu via pessoas que, embora tivessem algum potencial, não desviavam daquela bobagem toda e, talvez por isso mesmo, se afogavam no próprio sistema, sem o menor interesse de ser ou não ser. Pareciam totalmente apáticos com a certeza de que iam fracassar de todo jeito e só estavam cumprindo uma burocracia da qual não eram inteligentes sequer pra burlar.

Eu optei por seguir a contramão e ao invés de me importar em viver o sistema de ensino, simplesmente ignorei tudo isso e vivi a minha realidade. De início foi complicado, afinal, entregar provas em branco antes mesmo de todo mundo começar, era algo inesperado aos professores que ainda não me entendiam. Mas eu tive o prazer de dividir o período escolar com alguns professores(as) que foram cruciais pra eu ter seguido adiante. Foram pessoas que me enxergaram e me entenderam. Em certo momento eu é que tinha vencido e o sistema tinha desistido de tentar me endireitar à força. Eu simplesmente não me dobrava e acabei conquistando a amizade de vários professores, diretores e pessoas do meio administrativo de escolas e cursos, o que me possibilitou trocar a inutilidade por conversas muito mais engrandecedoras, momentos muito mais interessantes, em um outro patamar. Todo esse contexto me garantiu um caminho alternativo no sistema de ensino e eu segui o mesmo roteiro do pré-primário até o final da faculdade.

Talvez tenha sido essa necessidade de burlar o sistema de ensino que tenha me despertado admiração pelas pessoas mais velhas, nessa associação com os professores. Gostava de poder conversar com quem tivesse à altura pra dividir histórias e assuntos que a maioria das pessoas da minha idade não se interessavam. Acredito que algumas situações da minha vida tenham me tornado precoce e que isso tenha gerado essa busca e admiração pelo mundo acima. Pra mim, contudo, parecia natural e lógico, pois tudo isso estava suprindo uma demanda de conhecimento e socialização que só me trazia benefícios.

Não posso cair no erro, porém, de sugerir que as pessoas tentem imitar isso de forma artificial. Não é o caso de você tentar se enquadrar no mundo adulto antes do seu momento vir automaticamente. Existem muitas portas abertas, mas também nem todas as portas trazem aquilo que esperamos. Por vezes, quando somos acolhidos numa relação por alguém mais velho que nós, ocorre um certo domínio, consciente ou não, da pessoa que tem mais vivência. E isso pode ser perigoso se não percebemos esse “lado B” do disco. Também é preciso dizer que, inteligência ou vivência não é garantia de maturidade e que em todo momento da vida, estamos lapidando falhas, independente de como seja nossa precocidade.

Comigo, por acaso ou não, tive bons contatos com a maioria das pessoas. E aprendi muita coisa dividindo meu tempo com elas. Tracei muitas conversas, amizades, viagens, envolvimentos românticos e até um casamento. Não tenho como negar a importância de cada dia vivido ao lado de todas essas pessoas. Isso não significa, contudo, que eu não tenha dividido bons momentos ao lado de pessoas de igual ou menor idade que a minha. Tive e aprendi diversas coisas, mas, ao menos pro meu caso, esses dois grupos eram bem diferentes entre si. Foi então que nesses últimos tempos eu estava aqui tentando pensar em coisas específicas das quais eu gosto nas pessoas mais velhas e que ocorrem tão naturalmente ao longo do dia-a-dia que se não parasse pra pensar, passaria desapercebido do meu consciente.

Certa vez me propus a reflexão sobre o tema. Será que a admiração por pessoas mais velhas era, de alguma forma, um prazer pelo inalcançável? Seria uma busca pelo futuro? Seria uma tentativa de compensação pro nível de intelecto? Será que haveria uma busca pela relação de poder dos mais velhos sobre mim? Será que éramos uma espécie de troféu um para o outro? A conclusão que cheguei foi que, devido a diversidade de tipos de pessoas que eu conheci, de todas as idades, o mais provável é que eu estivesse apenas tentando me encontrar nessas outras pessoas. E talvez, durante essa jornada eu tivesse tido mais identificação com umas do que outras, seja por coincidência ou não, seja pela idade ou não. É possível sim, que o intelecto, a experiência de vida e conteúdo, das pessoas mais velhas, tenham pesado fortemente na equação, uma vez que há mais fatores pra se descobrir e comparar, justamente porque essas pessoas desenvolveram a vida por mais tempo, em mais setores, mais momentos, com maior profundidade e diversidade.

Mas é importante voltar a destacar que isso não necessariamente anula a admiração por pessoas mais jovens e a satisfação de dividir momentos com elas. Tudo depende de como cada pessoa é. Tanto é verdade que eu mesmo fui alguém mais jovem pra todas essas pessoas mais velhas que conheci. Então, fica claro que a importância se resume na qualidade dos momentos que dividimos e no potencial pessoal de cada indivíduo. O que está por trás de tudo isso é, simplesmente, a perspicácia da mente, a soltura do indivíduo diante da diversidade e a flexibilização de si mesmo pra se ajustar a outros universos que sintonizem com seu próprio. Precisamos, antes de tudo, nos descobrir e saber pra onde queremos ir, com quem queremos estar.

Eu passei minha vida buscando pessoas incomuns, com personalidade, que tinham a perspicácia de ousar com propriedade, de trazer ao mundo mistério e encantamento pelas formas ou motivos que, aos olhos das pessoas comuns, parecessem inusitados ou impensáveis. Estive sempre em busca de gente que vivenciasse o invisível ao meu lado, que entendesse meus pensamentos quando eu estivesse calado. Quis dividir momentos com quem trocasse olhares, entendesse e aceitasse uma tonelada de coisas sem que precisassem ser explicadas. Eu queria vivenciar o que só o ser humano podia fazer e isso não se encontra em pessoas rasas. Eu não queria tropeçar em vazios ou em pessoas entupidas de cimento. Eu queria alguém que, quando eu apontasse pras estrelas, não olhasse pro meu dedo. Queria alguém que fosse capaz de conversar sobre todo e qualquer assunto possível e imaginável no Universo e além. Eu não queria portas fechadas, queria janelas escancaradas e naves prontas pra rodar em alta velocidade. Eu queria ser surpreendido, ser encontrado e encontrar.

Rodrigo Meyer