Nenhuma ignorância ficará impune.

Independente dos sistemas sociais e das interações humanas, tudo aquilo que existe, traz consigo a inevitável consequência de sua existência. E o que isso quer dizer? Quer dizer que se existe uma fruta pendurada em uma árvore, haverá um momento em que ela cairá do galho ou será digerida por algum pássaro. Da mesma maneira, se uma pessoa chacoalha uma árvore carregada de frutos, alguns frutos poderão cair. Assim como nenhuma ação fica sem reação, a ignorância humana também não percorre sem consequências diretamente relacionadas.

Se pegarmos exemplos simples, já conseguimos demonstrar esse fato. Imagine que uma pessoa tente construir uma casa, porém sem nenhum domínio de engenharia, construção ou mesmo de física básica e empírica. Visualize uma pessoa tentando erguer 3 andares de pedras pesadíssimas, apenas apoiadas numa base frágil de bambu. O simples fato da pessoa desconhecer as propriedades de resistência do bambu, a torna ignorante nessa tentativa e traz como consequência a impossibilidade do feito e/ou um terrível acidente com as pedras quebrando o bambu e vindo toda obra ao chão.

Na vida, nem tudo que exige noção, conhecimento e controle da ignorância, são tarefas tão óbvias como estas. Ainda que estejamos em uma época dito “tecnológica”, ainda temos que enfrentar muita ignorância que sobrevive ou renasce do passado. A informação precisa chegar pra todos, porém vivemos tempos difíceis onde até a pouca informação começa a faltar e falhar. As pessoas já começam a crer, novamente, em ideias como ‘Terra plana’, resgatando um culto à ignorância que parece ser o centro de suas vidas. Haveria tempo pra simplesmente criticar essas pessoas, porém isso não contribuiria em nada para a melhoria do cenário. Deixemos que as críticas vazias fiquem somente entre os ignorantes. Tomemos pra nós, se objetivamos alguma melhora no mundo, o papel de transformar as pessoas ao nosso redor. Ainda que seja difícil fazer despertar o interesse pela cultura, sabedoria, intelectualidade, noção, razoabilidade, realidade, verdade, educação, etc., precisamos, pelo menos, tentar.

Tudo na vida tem um preço intrínseco que é dado automaticamente, conforme cada pessoa interage na realidade. Seja lá quem for e como for, tudo que for feito, pensado ou intencionado, trará uma proporcional consequência. Assim sendo, nada mais inteligente e útil do que tentar pautar suas ideias, ações e intenções em coisas coerentes, produtivas, positivas, que vão te retornar benefícios ao invés de prejuízos, que vão te abrir caminhos ao invés de lhe fechar portas, que vão lhe tornar alguém mais esclarecido ao invés de alguém mais facilmente enganado, que vão lhe dar mais paz ao invés de lhe tornar alguém que muito odeia e se torna inconveniente por isso.

Você pode jogar pedras para o alto, livremente. A liberdade é justamente poder fazer o que se quer, mesmo que seja uma idiotice completa. Contudo, em toda liberdade existe o preço da responsabilidade com a colheita obrigatória das consequências. Nada que fazemos vem sem consequências, mesmo que elas demorem a chegar ou a serem notadas. Inclusive, é justamente entre os ignorantes que estão as pessoas que menos notam a consequência das coisas, sendo isso, portanto, o principal motivo pelas decisões pouco inteligentes destes indivíduos. Quando assistimos conteúdos de humor, rimos, muitas vezes, das trapalhadas que o ser humano consegue fazer ou dizer. De alguma forma, rimos daquilo que nos parece incabível demais pra ser levado a sério. Contudo, séries de desenho animado como “Os Simpsons”, nos faz lembrar que grande parte da sociedade real é passível de piada. Se procurarmos com um pouco mais de sinceridade, certamente encontraremos em muitos de nós, inúmeras atitudes, pensamentos ou intenções, que nos tornam ridículos. Sabendo disso, precisamos estar preparados para lidar com essas questões, muito além do simples ato de rir e esquecer de tudo após o fim de um episódio televisivo.

A ignorância é o que faz, por exemplo, uma pessoa ser vítima fácil de uma notícia falsa ou um estelionatário. Quem desconhece a realidade, acaba por ser como um papel em branco que tudo aceita. Aquele que nada conhece sobre a vida, não tem parâmetros e nem memória pra se orientar sobre o que é suspeito, estranho, problemático, falho, inverídico, perigoso, etc. A criança que nunca viu o fogo agir, certamente, corre o risco de queimar a mão diante da curiosidade pela chama luminosa. O esclarecimento sobre os perigos do fogo e a reiteração de que o fogo é perigoso, através das demonstrações de como ele sobreaquece tudo, como ele destrói as coisas e como ele pode sair de controle se for negligenciado, são formas de instruir uma criança ou leigo sobre o funcionamento do fogo, o uso correto desta ferramenta e as precauções diante do tema. De maneira semelhante, instruir pessoas na sociedade sobre todas as demais questões, as ajudará a lidar melhor naquilo que elas não possuem, inicialmente, nenhuma prática ou afinidade.

Em situações difíceis como a do Brasil nos diversos setores, é preciso, mais do que tudo, investir pesado na transformação das pessoas, no discernimento da realidade, na valorização de si mesmas, na valorização do raciocínio, do conhecimento, da intelectualidade, do embasamento, do discurso, da reflexão e do preparo pra que estas pessoas transformadas sejam também agentes de transformação nos próximos indivíduos. É desse ciclo perpétuo que extrairemos alguma chance de nos tornarmos um coletivo que consegue desfrutar de cada vez mais qualidade de vida. Qualquer país com qualidade de vida (e, claramente, Estados Unidos e Brasil não são um deles), o investimento no que realmente importa é a prioridade sempre. No Brasil, a maioria dos políticos, por questões de agenda ideológica, parece ter como principal atividade a desvalorização de tudo que é urgente, justamente para enfraquecer a mente do brasileiro médio, tornando-o mais fácil de ser controlado e subjugado. É tarefa constante para tais políticos mencionados, ampliar, dia após dia, os mecanismos de cerceamento da autonomia, do aprendizado, da liberdade e da reflexão, tal como os exploradores da vida alheia que colocam cabrestos em cavalos e similares, para melhor poder conduzi-los até o destino, sem que os animais se distraiam com os perigos que os circundam. Aliado ao cabresto, está o freio, um mecanismo covarde colocado na boca do cavalo, que tensiona a língua para que ele desista de uma reação livre, pelo condicionamento à punição que é controlada pelas rédeas do explorador que o monta.

Para se ver próximo da tão sonhada liberdade e qualidade de vida, é preciso se aproximar de tudo que alguém lhe oferece rumo à transformação do seu ser. De nada adiantará ter acesso à uma Universidade, por exemplo, se sua consciência política e social é nula. De nada servirá um salário, se lhe falta discernimento sobre como fazer bom proveito do dinheiro. Toda conquista social deve incluir avanços paralelos em todos os setores. Entender seus direitos, seus valores e seus potenciais, lhe ajudará a tomar decisões mais inteligentes e úteis em tudo que você for fazer ou falar. Quando você tem bem claro na sua mente quais são as prioridades em determinado assunto, você consegue agir de forma coerente, se afastando da ignorância e, portanto, das consequências tristes dela. Em resumo, você ganha qualidade de vida, colhe coisas úteis por saber como plantar coisas úteis. Essa regra de realidade nunca vai mudar. Quanto mais você aprende, mais você reforça essa verdade. E quanto mais verdades um coletivo conhece, mais força tem pra exigir o necessário.

Se você observar a sociedade ao redor, verá um mar de gente errando e errando muito. Embora hajam todos os níveis de equívoco em uma sociedade, se a maior parte da população fica largada ao acaso, o grau dos erros começam a subir pra todos em velocidade espantosa. Por isso, a base é sempre a prioridade de uma ação. Você deve sempre tentar apoiar e instruir as pessoas que estão iniciando a jornada na vida. Repassar seu conhecimento e suas ferramentas de transformação para crianças, adolescentes, cidadãos que estão começando a ter noção de História, de Política, de Sociologia, de Economia, de Trabalho ou qualquer tema primário que afete ele diretamente em sua existência no coletivo. Você nunca conseguirá fazer uma pessoa vencer a si mesma, se negar-lhe o direito de se conhecer e de conhecer o mundo. Se a informação e o esclarecimento não chega em todos os cantos, é papel dos detentores da informação, levar isso a quem não tem. Mas, esteja atento! Isso não pode ser, jamais, um pretexto para o nefasto papel de levar ainda mais alienação às pessoas. Você não pode usar o pretexto da informação, para iludir pessoas, desinformá-las sobre a verdade, convencê-las a força de suas crenças ou preferências pessoais, fomentar pensamentos equivocados ou preconceitos, entre outros lixos tóxicos. Há uma frase de Paulo Freire que diz:

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”

A liberdade conquistada, quando realmente é uma liberdade, visa transformar o entorno em um coletivo igualmente livre. Aquele que desperta de alguma ilusão qualquer que seja, caso veja-se livre pela visão obtida, deseja que o próximo também tenha o direito a esta percepção. Mas, entenda que o direito não é um dever. Retornamos para a ideia de que as pessoas devem ser livres inclusive para errar, senão não é liberdade de fato. Montar uma casa em cima de um frágil bambu é um direito, mas tal ignorância de ato não virá sem uma consequência automática, como já explicado inicialmente. Dito tudo isso, quando uma pessoa conquista o direito de pensar o que quiser, ela arca com as consequências da gerência que faz de seus próprios pensamentos e atos derivados. Agora comece a pensar na consequência de tapar os olhos e a mente diante dos riscos de uma casa em cima de um bambu; de idolatrar políticos imorais que financiam notícias falsas pra tirar proveito fácil de ignorantes que acreditam em tudo; de pseudo-jornalistas que plantam o medo e a discórdia na população ignorante que torna-se facilmente reativa e inconsequente; dos carrascos que riem da cara de seus apoiadores que são pisados e usados em benefício próprio, etc.

A ignorância nunca lhe trará nada de bom, apenas prejuízos. Você nunca se verá livre, próspero, satisfeito, feliz ou com qualidade de vida, por manter-se ignorante sobre as coisas. Não conheço ninguém que prefira ser enganado por um estelionatário ou alguém que prefira ter a casa ruindo ao chão. Se ninguém quer levar prejuízo, porque é que algumas pessoas continuam fazendo as decisões erradas? Porque será que continuam construindo casas em cima de bambus e continuam desinformadas sobre a vida que lhes usa e abusa? A resposta é simples e direta: a ignorância está presente. A boa notícia é que ninguém precisa se contentar com a ignorância, podendo sempre dar espaço pra que ela venha a ser limpa, transformada e substituída em algo que agregue conhecimento, noção, valores, princípios, dignidade, compreensão, visão, velocidade de reação, etc. Quando você investe em você mesmo, se livrando da ignorância, você entende, entre outras coisas, que você é livre pra pensar sozinho, pensar fundo, pensar diferente, pensar de forma mais complexa e completa. Quando você rejeita a ignorância, você se ajuda, você constrói sua vida de maneira mais realista e assertiva. Foi assim com o pedreiro que aprendeu a fazer colunas e vigas, a montar lajes e paredes e a discernir a quantidade necessária de concreto, pra consolidar uma ideia de projeto. Tão importante quanto sonhar / desejar ter a casa construída, é saber como funciona a construção e quais os assuntos que você vai precisar dominar antes de se arriscar debaixo de toneladas de concreto.

Com essa analogia da construção, coloque-se no papel de morador de sua própria vida. Comece a construir sua sociedade, seu bairro, sua escola, sua família, seu grupo de trabalho, seu círculo de amizades, seu espaço de informação e apoio na internet, suas fontes de aprendizado, seu espaços para exercer arte, cultura, reflexão, interpretação de texto, interpretação da realidade, observação crítica e observação criteriosa. Comece a tomar voz para si e comece a ser independente. Como diz o ditado popular, a plantação é opcional às vezes, mas a colheita é sempre obrigatória. Então, escolha com muito carinho as sementes que você vai plantar, porque lá na frente, mesmo que você não tenha capacidade ainda de perceber, virão as consequências de tudo que você foi, fez, pensou, disse e apoiou. Não se deixe levar pelas coisas simplistas, evitando, assim, ser enganado e tropeçar justamente nos problemas que tentaram te vender como soluções. Abra o olho, senão vão implementar ainda mais projetos pra te manter em uma ignorância ainda mais funda. O sonho de muitos exploradores é ver seus explorados convencidos de que não estão sendo explorados, mas apoiados. As vítimas que se deixam levar por essa imensa ilusão, são descritas como tendo a chamada ‘Síndrome de Estocolmo’, onde o oprimido admira seu próprio opressor.

Esse texto se encerra subitamente, justamente pra criar o espaço necessário pra você exercitar sua autonomia e começar a completar o espaço com seus próprios pensamentos, a reflexão de tudo que aqui foi apontado e a oportunidade de, talvez, começar a planejar melhor o que é que você vai construir no presente, pra não se ver ainda mais derrotado no futuro. Seja lá qual for sua condição, estarei aqui pra continuar meu papel de luta, de esforço pela informação. Desejo que todos um dia, cedo ou tarde, encontrem-se no meio da realidade e consigam, pelo menos, compreender que precisam mergulhar mais a fundo e com sincera autonomia, pra conseguir chegar no bem-estar pessoal e coletivo que desejam, mesmo que estejam perdidos por uma vida confusa de conflitos e sentimentos desconexos, mesmo que tenham caído no equívoco do vício pelo ódio gratuito, pelas ações violentas ou desonestas. Se não é possível mudar as sementes plantadas no passado é, porém, possível escolher quais sementes plantar no presente e ter uma colheita melhor no futuro. Faça sua parte e, se precisar, solicite ajuda, sem precisar sentir vergonha, medo ou qualquer outra coisa que seja uma barreira pra sua mudança. Obrigado por ler e até breve.

Rodrigo Meyer

Crônica | Os três bandidos.

Ela, a quem chamarei de Fabiana apenas, para suprimir a identidade, era daquelas que adorava enaltecer a polícia e criticar bandidos. Porém, Fabiana comprava câmeras roubadas, apenas porque lhe convinha, era mais barato do que ter que trabalhar pra adquirir uma. Fabiana se sentia empoderada em criticar gente como ela mesma: bandidos. No fundo, eram todos unidos. em uma mesma cadeia de processos. O ladrão de câmeras roubava as pessoas usando armas conseguidas, direta ou indiretamente, com a própria polícia. O tráfico de armas sempre a serviço de mais e mais criminalidade. Fabiana alimentava tudo isso, desnecessariamente. Quando colocada diante da contradição, espumava de raiva por dentro a ponto de arquitetar ideias patéticas como inventar preferências por carreiras como na Polícia Científica. Por dentro eu ria, ao mesmo tempo em que lamentava a ignorância saturada. Que gente fraca, quanta desonestidade em um ser só. Como poderia caber? E o que são estas pessoas senão esse falso crachá de moralidade, só pra justificar ódio e egoísmo? O crime? Sempre esteve ao lado destes. Honestidade não é o forte de quem é peça indissociável do crime. Fabiana deve estar se amargando essa hora, mesmo depois de anos, ao lembrar que não tinha argumento válido pra sua ideia e conduta. Fabiana queria comprar câmeras de quem rouba câmeras, mas não queria que roubassem a câmera dela. Fabiana é muita gente. Fabiana é o câncer da ignorância que mata a sociedade todo dia.

Rodrigo Meyer

A diferença entre ideologia e supostos adeptos.

Um erro comum causado pelo preconceito é definir a qualidade de uma ideologia pela qualidade de uma pessoa que se diz adepta de tal ideologia. Não se pode dizer, por exemplo, que a Matemática é uma ideia equivocada, apenas porque um estudioso da matemática leva uma vida pessoal ou pública com condutas pejorativas. São coisas totalmente distintas e isoladas. Neste exemplo, a Matemática nada tem a ver com o indivíduo e, portanto, a qualidade ou veracidade da Matemática independe das características desse indivíduo.

De maneira igual deve-se tratar todas as ideias e ideologias no mundo. Dentro de boas ideias, sempre existiram pessoas que não tinha alinhamento suficiente a tal. Em diversas religiões, por exemplo, vemos, muitas vezes, mensagens de tolerância, bom comportamento, amor ao próximo, transformação pessoal, ao mesmo tempo em que vemos inúmeros casos de pessoas usando o crachá da religião pra cometerem inúmeros crimes e atos contrários aos próprios valores iniciais desta religião. No Brasil, inclusive, reina uma imensidão de hipócritas que se escondem atrás de um suposto cristianismo, pra pautar seus discursos de falsa moralidade e até de posicionamento político. Tragicômico ver, por exemplo, indivíduos que se intitulam cristãos, mas são alinhados com uma posição política de direita, quando, deveriam saber que o próprio Jesus Cristo, esta persona que alguns “cristãos” dizem seguir, é, possivelmente, a pessoa mais de esquerda possível.

No campo da política e das causas sociais, também existem inúmeras contradições berrantes. Entre as pessoas que dizem ser a favor da vida, são frequentes os casos de discursos de violência, pena de morte, entre outras formas de se eliminar a vida. Algumas pessoas dizem ser a favor da liberdade de expressão, desde que essa liberdade seja dada apenas pra elas proferirem discurso de ódio e não pra que todos os indivíduos tenham voz, especialmente os que quase sempre foram ignorados ou silenciados pela sociedade preconceituosa. Também será possível ver algumas pessoas falarem em respeito, desde que somente elas recebam o respeito sem nunca respeitarem os demais. Essas ideologias independem da conduta e do pensamento dos indivíduos. Podem carregar títulos, crachás e até erguer bandeiras para determinado grupo ou ideia, mas, na prática, continuam incoerentes e distantes dessas ideologias.

Por trás desses discursos de fachada, figuram muitas questões sociais, políticas e psicológicas. As pessoas que usurpam de um título ou temática, geralmente fazem isso por decisão fria de controle das pessoas ou por uma certa ignorância generalizada sobre o tema e a vida, de forma que acabam aderindo a estereótipos equivocados e ilusórios de outros indivíduos que fizeram semelhante adesão. É o caso, por exemplo, da pessoa que escolhe determinada religião pra “seguir” ou se dizer adepta, apenas como forma de se enquadrar em um grupo virtual onde reconhece condutas recorrentes que estão alinhadas com suas práticas ou pensamentos reais. Então, mesmo que, por exemplo, determinada religião nada tenha a ver com os ideais morais e políticos de um suposto adepto, ele escolhe essa religião, pois sabe que muitos outros indivíduos similares escolheram aquele rótulo inadequado antes, justamente pra dar nome e falso pretexto pra um encadeamento de ideias ou condutas que são de outro grupo, outro setor ou simplesmente de um aglomerado de indivíduos avulsos.

Um exemplo clássico de patetismo desenfreado é a usurpação da religião pelo grupo racista Ku Klux Klan (por vezes conhecido pela sigla KKK). É duro de acreditar, mas tais indivíduos se consideram cristãos. Imagine só se soubessem que a figura central do Cristianismo, Jesus Cristo, seria uma vítima fácil deles mesmos, posto que esta persona não era um indivíduo de pele clara e muito menos adepto do preconceito e violência. Nos Estados Unidos, de onde se origina essa utópica organização racista, vê-se pessoas alucinando dia e noite, replicando discursos de ódio ao mesmo tempo em que, supostamente, seriam cristãos. Seria pressuposto, pela lógica, que um cristão tivesse afinidade com os ideais e a postura de Jesus Cristo, mas, na verdade, muitos deles, odiariam ou até matariam qualquer indivíduo que tivesse aparência ou postura semelhante a de Jesus. Portanto, não há como dizer que os ideais propagados por Jesus sejam ruins, apenas porque uma quantidade enorme de supostos seguidores fazem exatamente o oposto do que ele propagou. Nem preciso dizer que a própria fundação da Igreja Católica como instituição já é uma aberração pela contradição com a origem do que se convencionou chamar de Cristianismo ou, mais ainda, com as práticas totais e/ou reais da figura de Jesus. Você se surpreenderia com a imensidão da lista de itens que os seguidores póstumos criticam e que na verdade eram as práticas do próprio Jesus.

Saindo um pouco desse exemplo, e abrangendo outros temas, podemos falar também de questões menores e corriqueiras. Você já deve ter visto gente fazer discurso bonito de como é errado e injusto o roubo. Repudiam ladrões, mas não abrem mão de comprar aquela câmera fotográfica advinda de furto ou assalto que estava com um preço mais acessível. Pessoas contraditórias assim são as que querem ter emprego sem serem assaltadas, mas não abrem mão de adquirir televisão por assinatura de forma ilegal, sem pagar pelo serviço. A moralidade pra essas pessoas vale só quando for conveniente e não como um ideal real. Logo a ideologia nada tem a ver de fato com essas pessoas. A ideologia de não roubar passa longe da mente daqueles que aceitam roubar, se for pra benefício próprio e não para perda diante de outro indivíduo. Percebe?

Cabem também nesta estrutura, aqueles que se dizem contra a corrupção, mas são os mesmos que sonegam impostos, furam fila, oferecem propina pra burlar a apreensão do carro, mentem pra uma mídia pra forjar vantagem a determinada ideia ou grupo, entre outras inúmeras possibilidades. No fim das contas essa conduta é o clássico da postura torta de grande parte dos humanos em todo o mundo, em quase todas as eras. Sobra na Terra indivíduos corrompidos, fazendo esse desvio de conduta parecer ser normal, de tão comum que é. Mas, a lógica nos obriga a esclarecer que: comum é diferente de normal. Se muita gente passa a construir rodas quadradas, essa roda não passa a ser normal, mas apenas comum. E pra que estejamos escolados e preparados para a vida, precisamos saber diferenciar uma ideia / ideologia de um indivíduo e/ou suposto adepto / seguidor. Quando você ver alguém criticar uma ideologia política, por conta do que um determinado governo ou país fez ou faz sob aquele rótulo, você já sabe que este alguém pouco ou nada entende do assunto e não tem intelecto e/ou maturidade suficiente pra lidar com tal conteúdo. Para se obter algo sólido e realista, é preciso que o conteúdo venha de alguém que não caia na tolice de misturar uma coisa com outra, pois pré-conceito (origem da palavra ‘preconceito’) e ignorância, que, na prática, são sinônimos, devem ser evitados.

Rodrigo Meyer

Onde não existir qualidade, seja breve.

A vida nos coloca em contato com muitas pessoas, muitos lugares, muitos conteúdos, muitas oportunidades, muitos momentos, muitas ideias. Chegando em uma livraria, são incontáveis os títulos. Vídeos pelo Youtube brotam aos milhares antes que você pisque os olhos. Na Terra somos mais de 7 Bilhões de pessoas e só no Brasil somos em torno de 200 Milhões. Gente e conteúdo é o que não falta, mas a qualidade de ambos é o que faz a diferença.

Uma vez vivos, todos estão aqui tentando se expressar, conviver e chegar a algum lugar. Bom seria que todos tivessem iguais condições, boa visão, noção de realidade, senso de justiça e honestidade. Um sonho pra um futuro distante, provavelmente. No presente, a realidade é outra. Não há muito pra se aproveitar diante do que é oferecido por grande parte dessas pessoas. Qualquer tema e setor da vida que você imaginar, será possível mostrar que estamos em crise.

O lixo social está em tudo. Nas mídias convencionais com o falso jornalismo e o entretenimento emburrecedor que coloca o público de forma passiva a tudo aquilo que o aprisiona. E destas mesmas mídias, famosos nascem sem nenhum motivo bom ou real pra sequer serem vistos. Muita propaganda, muita ilusão, pouco conteúdo, pouca qualidade. E de repente, depois de décadas de comunicação mal intencionada a desserviço do povo, eis que surge a internet.

A liberdade de criarmos nosso próprio conteúdo e interagir com os demais parecia uma boa promessa, até que, infelizmente, todas as mídias tradicionais abriram seus espaços em sites e redes sociais. Agora, temos o lixo ampliado e perigosamente mais próximo da interação do público. Com isso, as próprias pessoas também perderam ainda mais qualidade, uma vez que trocaram o uso útil da internet pela simples absorção e compartilhamento de todo tipo de entulho mal mastigado. Pela facilidade de colar um link ou arrastar uma imagem, sentem-se armados para fazer o que antes as mídias offline não permitiam. Munidos de preguiça, ignorância, ódio e credulidade exacerbada, espalham tudo, consomem tudo e se enforcam com tudo, desde que nada disso tenha qualidade ou veracidade.

Esses são os tempos em que vivemos. E dessas coisas todas, acabamos tendo que escolher ficar ou partir, afinal o que não soma nada pra nossa vida, não deve permanecer muito tempo conosco. Que sejamos breves nos lugares ruins, nos atendimentos mal prestados, nos serviços sem qualidade, nos ambientes familiares onde não há afeto e cordialidade. Que sejamos breves nas conversas vazias, nos autores sensacionalistas, nas comidas sem sabor disfarçadas com muito sódio. Não percamos tempo assistindo vídeos preconceituosos, mesmo que eles sejam de famosos. A unanimidade em uma população sem educação e cultura não serve de parâmetro pra quem quer atravessar pro outro lado. Se você almeja ter bem-estar em qualquer setor da vida, precisa repensar onde estar e como viver.

Precisamos atribuir filtros que nos façam sair de perto de tudo que não soma. Embora pareça drástico cortar todo entulho de nossas vidas, verá como é engrandecedor viver em contato apenas com o que nos faz bem. Não conheço ninguém no mundo que se queixe de ter prazer, de sentir-se respeitado, ouvido, valorizado, bem atendido. Não sei de nenhum caso de pessoa que tenha se decepcionado com um sorriso sincero, um abraço bem dado, uma memória positiva. Uma vez humanos, gostamos de ter o melhor que pudermos nessa vida. E porque, então, alguns insistem em ficar ao lado de coisas ruins? Pra quem nunca viu água potável, beberá água suja achando boa o suficiente. É isso que tem acontecido com a humanidade em diversos sentidos.

Isso deixa claro, portanto, que precisamos conhecer coisas novas para, eventualmente, descobrir coisas melhores. Nossos parâmetros mudam conforme nosso conhecimento. Quanto mais conhecemos, mais queremos conhecer. Estagnar em imediatismos, modas e saídas fáceis não levará ninguém a lugar nenhum. Pode parecer satisfatório no começo, dividir seu tempo com coisas sem valor, mas depois que você lapida a si mesmo, descobre que muita coisa é insuficiente pro seus filtros de qualidade. É assim que evoluímos, deixando de lado situações e pessoas que nos impediam de ascender.

Se no momento presente você ainda está buscando conformismo e aceitação do que não te faz bem, então é hora de rever sua postura e seu amor-próprio. Se achar que nem mesmo amor-próprio tem, é hora de repensar os porquês dessa visão desvalorizada de si mesmo. Muitas vezes acreditamos que não merecemos coisas melhores, porque nos avaliamos como inferiores depois de uma vida marcada por complexos. Em algum momento de nossas vidas, geralmente na infância, fragilizados por pressões, traumas e posturas equivocadas das nossas figuras de referência (geralmente pais, mães ou avós), criamos referências e crenças sobre nós mesmos em uma mistura de sentimentos e pensamentos mal estruturados. É quando ervilhas são lidas como elefantes em uma fase de nossas vidas onde a opinião de certas figuras nos pareciam importantes.

Não tenha receio algum de encerrar o vínculo com tudo que tiver pouco ou nenhum valor. Acostume-se com a ideia de que você tem potencial de ir além e que merece sempre o melhor que puder extrair da vida. Todos nós, por alguma razão que nem sempre conhecemos, desenvolvemos visões distorcidas da realidade e precisamos, então, refazer nossas análises, redescobrir os lugares, as cidades, as pessoas, as mídias, os produtos, as comidas, as ideologias, os livros, as artes, os relacionamentos, os próprios sentimentos e os sentimentos do mundo. Temos que nos reconectar com novas possibilidades e ficar de mente tranquila pra avaliar a qualidade real do que ali está. Sejamos, portanto, nós mesmos um exemplo de qualidade, recusando o que nos desvia da excelência.

Sinta-se livre pra deixar seus comentários, perguntas e sugestões. Todos nós estamos no mesmo barco, buscando melhores momentos, melhores soluções. Se você for curioso o suficiente e persistir com as barreiras que estão só na mente, fará o que muitos nem mesmo sonham e começará a desejar realidades maiores pra você e pros demais. “A mente que se abre pra uma nova ideia, jamais volta ao tamanho original” – Albert Einstein.

Rodrigo Meyer

Maiorias e minorias.

Há quem ache que quantidade é sinônimo de qualidade. E isso está bem longe de ser verdade. Grandes grupos sociais podem incluir ou não valores e pessoas de qualidade, independente de quantos sejam no total e quantos sobrem ao final com o filtro da qualidade. A qualidade é um aspecto que quase sempre tentam relativizar, por exemplo, atribuindo ela pro que se faz e não atribuindo pro que os outros fazem. Dessa maneira, por exemplo, os violentos acreditam ter qualidade apenas por assim serem, como forma de tentar justificar essa fraqueza.

Em todas as épocas, maiorias tentaram combater minorias por interesses sórdidos na política, na invasão de territórios, no extermínio de etnias, na escravização de povos, nos boicotes de outros modelos sociais, etc. O resumo máximo que se pode fazer sobre o tema é dizer que as maiorias, em muitos casos, são apenas uma maioria de medrosos e incapazes tentando se resguardar atrás de um coletivo numeroso pra não ter que lidar com suas próprias fraquezas individuais. Você não verá uma pessoa bem-resolvida se importar com o que outras pessoas estão sendo ou fazendo, desde que essas outras pessoas não estejam tirando a liberdade de ninguém. Somos todos livres e só não merece a liberdade que tenta tirar a de qualquer outro. Regra simples de convivência social.

Analisando o conflito de certas pessoas com certas minorias, é fácil ver que, geralmente, o desprezo por tais minorias vem de alguém que olha pra essas fatias sociais e se incomoda com o quanto os indivíduos dessas minorias conseguem ser relevantes, corajosos, vivos, persistentes e influentes, apesar de toda repressão, apesar de toda sociedade, apesar de todos os pesares. Inconscientemente invejam também a liberdade e ousadia que estes possuem em se assumir enquanto os fracos se incomodam até com o que o outro está sendo e fazendo dentro de algum tema ou setor na vida.

Em uma sociedade em que maiorias estão acostumadas com padrões plantados, é fácil ver como as pessoas se apegam à esses padrões como um porto seguro, um parâmetro confortável que lhes dita como proceder, ser, viver, vestir, pensar, agir, do que gostar, o que comer, como trabalhar, etc. Coitados os que vivem nessa fraqueza patética. Vemos, por exemplo, homens inseguros sobre suas próprias sexualidades, constantemente se agitando contra qualquer outro que não esteja formatado pelos mesmos moldes que ele, com a mesma orientação sexual ou concepção de gênero, pois, para o inseguro, tudo que estiver fora dos moldes ele não sabe lidar, lhe parecendo algo muito ousado, forte demais pra quem é apenas um robozinho acovardado e com preguiça mental e espiritual de existir em plenitude.

Com medo de serem tachadas de qualquer coisa diferente, a maioria das pessoas evita as possibilidades, como se o diferente fosse ruim. Coitadas dessas pessoas mal-resolvidas que transpiram montanhas de patetice por questões tão naturais. Certamente você já viu alguém assim, afinal eles estão em toda parte, já que são maioria atualmente nas sociedades. É o homem que não se atreve a ter cabelos longos, com medo de ser tachado de feminino (algo que pra estes é terrível) ou a mulher que evita os cabelos curtos com medo de ser tachada de masculina (como se masculinidade ou feminilidade estivessem no cumprimento do cabelo). É aquele rapaz inseguro que não consome nada de cor rosa porque acha isso inapropriado para homens. São as pessoas que acreditam fervorosamente que tatuagens são sinônimo de má índole, mas que, ironicamente, é a índole de quem pensa assim que tá ruim.

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.” – Paulo Freire

Podemos ver claramente que a pressão social nas massas privou os indivíduos de se expressarem com liberdade e lhe impuseram restrições sexistas, machistas, padrões corporais, moldes de pseudo-religiosidade, falsos valores e a ilusão de status inventado para profissões, graduações escolares, posses materiais e tantas outras coisas. Tristes robôs obedecendo e repetindo regras inúteis.

Ao se sentirem podados de suas próprias expressões naturais, os acovardados que não se rebelam contra essas privações, dividem-se em dois grupos. Uma parte é composta de indivíduos que se privam dessa expressão, vivendo enrustidos ou escondidos do resto da sociedade e outra parte é feita de indivíduos que, de tão inseguros com o tema, não se permitem nem questionar suas próprias realidades e, por isso, passam a vida tentando negar suas realidades e, por isso, precisando se reafirmar dentro dos padrões da maioria pra convencerem a si mesmos de que não são e não precisam ser aquilo de que não conseguiram lidar sequer no campo das ideias. Se possuem demasiada fraqueza de se questionarem e/ou se assumirem homossexuais, por exemplo, às vezes acabam se forçando à uma heterossexualidade falsa apenas pra não ter que lidar com o tema da homossexualidade em si mesmos. E como essas reafirmações são fruto apenas da insegurança, elas são feitas de maneira bem desproporcional e doentia. É assim que nascem os estereótipos patéticos de homens com postura sempre séria, atitudes violentas e machistas, com culto excessivo à características tidas como ‘masculinas’ na sociedade (cabelo curto, músculos desenvolvidos, conduta rude, etc).

E os padrões estão em tudo. Minorias religiosas sempre foram um incômodo pra quem era da maioria e estava mal-resolvido em suas próprias “escolhas” de religião. Também sempre foi assim com ideologias políticas, com hábitos de consumo, com posições sociais, profissões, etc. No fundo, o conflito interno das pessoas é, claro, somente delas. São elas que estão mal-resolvidas com o tema. Quem está satisfeito consigo mesmo não vê necessidade de se explicar o tempo todo e, por isso, quem está sempre em conflito com os livres está, afinal, em conflito com a liberdade. Assim que tiverem uma relação melhor com a liberdade, aceitarão ela como um caminho pra suas expressões e vivências.

O ser humano que se permite experimentar, pensar, refletir, se colocar no lugar de outros, ver possibilidades e dividir espaço com outros temas e realidades, mostra-se equilibrado, seguro de si, afinal sabe que se abrir pra análise e divisão do espaço com qualquer outra pessoa livre não o ameaça em nada. Somente o inseguro não tem essa segurança diante do diferente, das minorias, das coisas novas ou fora dos padrões. Quem facilmente se arma contra as coisas, está se sentindo constantemente ameaçado pela presença delas. E isso é a definição de estar mal-resolvido e inseguro.

Monstros imaginários são criados todos os dias por quem não sabe lidar com o natural. Para quem não tem coragem, um gato inofensivo parece um leão psicótico. Para quem nunca se permitiu olhar ou questionar sua própria sexualidade, a sexualidade dos outros parece ser vista com a mesma distorção. Algo inofensivo soa assustador e incômodo pra quem foi fraco demais pra lidar com a temática dentro de si mesmo. Mas há uma boa notícia nisso tudo: essas fraquezas podem ser revertidas e tratadas. Busque ajuda profissional de um terapeuta ou psicólogo / psiquiatra pra rever quais fatores te levaram a esses traumas e acovardamentos diante de tema tão simples. Ou faça uma análise sozinho e reveja suas realidades internas até conseguir lidar bem com elas.

Às vezes essas posturas exacerbadas diante dos temas são reações por ter medo de ser julgado. As pessoas sabem que a sociedade julga, pressiona e cobra, então, muita gente, com medo de ser excluída ou destratada, inconscientemente se molda aos padrões que são aceitos, com objetivo de garantir que estarão seguras e acolhidas diante da sociedade. Esse comodismo custa a liberdade de expressão, custa sua realização como pessoa, custa a sua felicidade e custa, infelizmente, os direitos e segurança de todos os outros que, mesmo se tiverem força e coragem de se apresentarem como minorias, precisarão lutar com barreiras que as maiorias mal-resolvidas criaram de forma doente e, portanto, desnecessária.

Reveja seus conceitos e se fortaleça por dentro, pois não há músculo, arma ou colete que preencha a falta de coragem de encarar o verdadeiro inimigo: você mesmo e seus monstros imaginários. Enfrente seus demônios internos e verá que ruim mesmo é permanecer na fraqueza sem necessidade. Se achar que não tem as ferramentas certas ou a energia necessária pra buscar resolver-se internamente, conte com ajuda de outras pessoas.  Já antecipo, contudo, que, possivelmente, essas ajudas estarão pelas palavras, ações e trabalho de pessoas vinda das minorias da vida, afinal, prestar não está na moda há muito tempo e se você quer se livrar da mesmice doentia das maiorias mal-resolvidas, terá que buscar ajuda fora delas.

Se você faz parte de certos padrões sociais, mas está bem-resolvido sobre isso, fique tranquilo que o objetivo não é e nunca foi converter ninguém à nada, mas apenas resolver os que estão mal-resolvidos. Ninguém quer transformar carros em bicicletas, nem bicicletas em carros. Apenas queremos que bicicletas sejam bicicletas, sem pressões sociais pra que sejam carros e que carros sejam carros sem pressões sociais pra que sejam bicicletas. Em resumo, seja você mesmo, se expresse, se manifeste, exista e persista. O que é natural vai sempre existir e o que tem que ser destruído é a fraqueza humana, a mentalidade tacanha, o cabresto, os moldes sociais forçados, os monstros inventados, as violências desnecessárias e o medo de viver livre e bem sendo quem se é. Muitas prisões já se fantasiaram de liberdade e é fácil ver isso até mesmo pelas contradições entre símbolos promissores e opostas realidades.

Rodrigo Meyer

Em qualquer que seja o assunto, a pergunta que não pode faltar é: porquê?

O mundo está aí ao nosso redor e as coisas seguem acontecendo e sendo. Vivemos um pouco melhor que as eras passadas justamente porque aprendemos um pouco mais sobre as coisas e seus porquês. Você pode fazer inúmeras questões sobre algo, mas se não perguntar o porquê daquilo, não terá aprendido o mais essencial do tema e estará ainda, sujeito a ser manipulado.

Mais importante que saber qual a data do Natal, é saber porque dessa data. Mais importante que saber a história por trás dos solstícios e equinócios é saber porquê disso. Você poderá se tornar um grande decorador de dados, datas e ocorrências históricas, mas saber História é mais do que isso. Entender o passado não é decorar suas ocorrências, mas conseguir entender o que levou a cada ação. A História estuda, sobretudo, o percurso humano e as motivações que o levaram adiante. É isso que nos cabe perguntar, no final.

Coisas acontecem todo dia. Mas, porquê? Quais são os porquês das mortes, dos acidentes aéreos, as guerras, a miséria, a fome, a exploração dos seres, os estelionatos, a corrupção, os estupros, as invasões de território, as manobras políticas, as edições nas mídias, os comerciais de televisão, as tecnologias criadas, as mudanças de leis, a criação das leis, os modelos de ensino, os parâmetros sociais, as divergências, as cobranças, as profissões extintas, as novas profissões, a exploração do Universo, a falta de vontade de comer, a ansiedade que nos toma, os gritos do vizinho, o latido dos cães na madrugada, os vícios, os complexos, os sentimentos, as saudades, os abraços, a posição das estrelas, os trens parados, o trânsito paralisado pela chuva, o erro de computador, o abandono familiar, as crises psicológicas, as amizades por interesse, os pequenos furtos, os grandes assaltos, os prêmios da loteria, as conversas monossilábicas, a desconfiança das pessoas, o medo, a angústia, a preguiça, o sono, a escolha de caminhos, a ausência ou excesso de caminhos.

Porque surge uma notícia na nossa frente? Há alguém interessado em saber aquilo? Quem tem interesse em dizer aquilo? Isso beneficia a quem? A quem isso prejudica? O que esse ato pode mudar em relação a tomada de decisão das pessoas? Como isso pode ser mais justo ou injusto pelo modo como se apresenta? Isso propositalmente induz a erro ou é honesto? Ao nos perguntarmos os ‘porquês’ das coisas, acabamos chegando em tantas outras perguntas pertinentes. Entender o mundo é navegar pelo ser humano que o compõem. Precisamos sempre dedicar esforço, tempo e atenção no que está por trás das coisas, pois as coisas são apenas as consequências das coisas mais profundas.

Quem é que vai nos explicar o mundo, se nos deixarmos levar apenas pelo que nos entregam mastigado e moldado? Você quer entender a realidade ou ser uma conveniente marionete de outras pessoas? Questione seu trabalho, seu salário, o modelo econômico do seu país, as empresas, os produtos, seu chefe, as classes sociais, seus empregos perdidos, as vagas apresentadas, sua família, seus parentes, seus amigos, as pessoas que você prestigia, as mídias que assiste. Lote tudo isso de ‘porquês’. Porquê eles existem? Porquê eles agem dessa maneira? Porquê alguns são piores e outros melhores? Porquê a corda sempre estoura do lado mais fraco? Porquê sempre vence quem dá as cartas no jogo? Porquê sofremos? Porquê sorrimos? Porquê vivemos? Porquê partimos? Porquê?

Até mesmo atrás de cada ‘porquê?’ tem outros ‘porquês’ pra serem feitos. Você precisa esmiuçar a origem das coisas até o momento que leve a interesses humanos e também quais contextos sociais e psicológicos levaram aquele indivíduo a seguir por aquele contexto. Se você para no meio do caminho da investigação da realidade, você comete um erro gravíssimo e perigoso. Lembre-se que meia informação é, sempre, mais perigosa do que informação nenhuma. É preferível nada saber sobre um tema, do que saber algo pela metade e acabar equivocado na conclusão precipitada. Ou seja: na hora de aprender sobre algo você precisa estar disposto a chegar até o final da realidade daquele assunto para assegurar-se dos reais motivos e contextos daquilo que era, antes, apenas uma aparência ou consequência.

Nunca fique preso na superficialidade do pensamento a ponto de ser como muitos que veem um furto e já deduzem toda a razão e motivação de atos semelhantes na sociedade. Não seja alguém que vê uma reação violenta e automaticamente endossa ou recusa sem questionar os ‘porquês’ dessa conduta. Não seja aquele que vê uma notícia com um título afirmando ou negando algo e já se coloca como entendedor do artigo que está por trás ou mesmo da verdade por trás do artigo. Não seja aquele que vê números distorcidos numa pesquisa e já determina valores ou defeitos sobre uma pessoa, empresa, gestão ou política. Simplesmente não seja aquele que vê coisas e não busca os ‘porquês’, senão estará atestando seu desconhecimento, sua falta de razão, a ausência de valor em si como parâmetro ou opinião sobre um tema.

Se você quer, verdadeiramente, ser levado em conta com o que tem pra dizer, pensar, ser ou fazer, precisa, antes, estar embasado na realidade. E isso só se consegue tocando a verdade, indo atrás de seus ‘porquês’. Nessa jornada, claro, você irá se deparar com questões que requerem profissionais, professores, livros, sites, dados complementares e também outras formas de aprendizado, como o empirismo, a vivência prática com certos meios e pessoas, além de uma infinidade de outras coisas. Em resumo, só conhece bem a realidade quem vive profundamente a aventura de descobrir o que está por trás dela. Quanto mais você avança no questionamento, menos equivocado você fica nas suas deduções ou nas suas afirmações e negações. Torna-se, portanto, mais realista por estar direcionado pro entendimento sincero das realidades, sem fachadas, sem máscaras, sem achismo, sem distorções, sem falácias, sem edições, etc.

Dessa maneira, todos temos a ganhar, sabendo que temos problemas pra entender e a visão assertiva de quais ferramentas usar para chegar num resultado real, sem enxugar gelo, prestando serviço útil à sociedade e a nós mesmos individualmente. Saber o que se está fazendo, vivendo e sendo, é basicamente o começo de todo entendimento maior que pode vir depois, sobre a própria existência. O sentido maior da vida talvez esteja por trás de cada vida. Procure entender e espalhe ‘porquês’.

Rodrigo Meyer

A cultura alternativa está cada vez menos alternativa.

De uma forma ou de outra, a chamada ‘cultura alternativa’ sempre existiu. Ela é como um contraponto da cultura convencional abrangente. Em toda sociedade, existem parâmetros em tudo. As pessoas determinam quais sãos as convenções aceitáveis para roupas, cumprimento de cabelo, cores, profissões, modificações corporais, estilos musicais, decoração dos ambientes, horários, estudo, profissões e tudo mais. É como se existisse uma realidade moldada conforme o que instituíram como “certo” ou “ideal”. Mas a cultura alternativa e as subculturas, existem justamente pra contestar esses padrões, para se desencaixar desse formato, quebrar essas normas e experimentar as próprias realidades.

Nos anos 60 e 70, manter os cabelos cumpridos pra um homem era um ato relevante em uma sociedade chafurdada em preconceitos e regras. Quem se via livre disso, era tido como ‘marginal’ ou desrespeitoso. Bandas de música, especialmente as que dariam seus passos no rock, deixaram legados importantes sobre conduta social e liberdade. Muito do que se vê como alternativo hoje, está de alguma forma conectado com movimentos artísticos em diversas áreas. O movimento punk, o pós-punk, movimento gótico, heavy metal, death rock e tantras outras vertentes e estilos deram, cada um, uma mensagem à sociedade convencional e também às próprias demais subculturas. Muitos desses movimentos foram dissidências de pensamento como forma de explorar novos caminhos ou direções e também de adequar nichos específicos em um modelo aparentemente já consolidado de cultura alternativa.

Em algum momento, chegamos ao máximo da popularização da música nos anos 80 com a vinda dos video-clipes e todo um conceito único que ficou marcado de forma atemporal na História. Os Anos 80 foram mais do que mais uma década no calendário. Eles se tornaram por si só uma realidade, uma entidade, desde o surgimento até hoje (e possivelmente pra sempre). Com a chegada da década posterior, os artistas cada vez mais massificados em shows e apresentações pela televisão, acabaram apresentando o alternativo para os não-alternativos de maneira mais abrangente. Com isso, muita gente supostamente aderiu aos movimentos apresentados sem de fato estar alinhado com os ideais e valores trazidos pelas subculturas. Começa aí um problema grande.

Enquanto a cultura alternativa procura ser a apresentação do diferente e do original, quebrando paradigmas, tabus, preconceitos e padrões sociais, algumas pessoas, encantadas com a possibilidade de fazer fama ou figurar um certo status nesse meio, entraram nesses nichos e literalmente os contaminaram. Cresceu em número e em intensidade os casos de violência, racismo, xenofobia, machismo, homofobia em grupos sociais onde não se pretendia e nem se esperava nada disso florescer. Em grande parte das vezes, os encontros em casas noturnas ou mesmo pelas ruas da cidade se tornaram simplesmente uma competição de quem tinha o melhor visual ou estilo mais aceitável. E isso nos lembra que a sociedade convencional buscava igualmente plantar cobranças e padrões sociais como muitos ditos ‘alternativos’ de hoje em dia tentam fazer no próprio meio underground.

Pelas minhas andanças em São Paulo e outras cidades e também acompanhando essas cenas pela internet, tudo que vejo e continuo a ver é um certo distanciamento do próprio significado de ‘alternativo’. As pessoas estão cada vez mais semelhantes aos moldes sociais, com iguais pensamentos, as mesmas posturas doentias, ausência de questionamento. os mesmos hábitos e condutas pejorativos, as mazelas gerais de uma sociedade fracassada, abandonada e consumida pela intolerância ao novo.

É alarmante o número de pessoas que, por exemplo, se escondem atrás do Movimento Gótico para praticar racismo. Cercados de pretextos, conseguem encontrar nesse meio tudo aquilo que contempla seus preconceitos. Em razão da estética relativamente predominante nessa subcultura, com muitos rostos pálidos, maquiagens embranquecidas para contraste com as roupas pretas, no clima fantasmagórico e sombrio dos filmes clássicos de vampiro (entre outras referências), formou-se um ambiente que cultiva o embranquecimento das peles, pelo baixo ou nulo contato com o sol, protetores solares, roupas de proteção ou até mesmo pessoas buscando intervenções químicas e médicas pra ficarem ainda mais brancas.

Não custou muito a vermos as festas e eventos góticos serem tomados por racistas e neonazistas. Equivocados sobre os alicerces dessas culturas e os motivos por trás da estética, muita gente se viu atraída por esses meios, especialmente por conta da facilidade de exercerem seus preconceitos e terem um pretexto pra disfarçá-los. De maneira semelhante, as festas de BDSM e Fetish, foram tomadas por leigos que viram a oportunidade perfeita de tirar proveito imaginário de um contexto que, pra estes, parece ser totalmente sexual e nada alternativo. Diversas casas noturnas tentaram contornar tal problema, restringindo os públicos pelos preços diferenciados conforme o cumprimento ou não das “regras” de vestuário. De certa forma isso tenta tornar o evento menos atrativo para os que são de fora da subcultura e tornar mais seguro e real para os que são de dentro. Porém, convenhamos, isso acentua a quebra da própria subcultura, uma vez que, novamente, padroniza realidades das quais ela mesma deveria estar contestando.

Nesses meios, figurava em algum momento a busca por diversidade e aceitação do diferente e atualmente, está contaminado de pessoas que estão lá pelos motivos errados. Já não há solidariedade entre os frequentadores, até porque conhecendo-os um pouco sabe-se bem quem é quem e porque estão ali. Grande parte, em busca de satisfazer fetiches pessoais em termos de estética, etnia ou hábitos sociais, aceitam se render à esses eventos mesmo não tendo afinidade com a cultura. Se ambientam de tal maneira que estão sempre presentes nas mesmas festas, nos mesmos endereços, da mesma maneira. São previsíveis como um animal que cai na armadilha toda vez em busca de comida.

Em alguns eventos específicos de rock, anos 80, gótico e death rock, devido ao tipo de música que será apresentada na ocasião, faz-se necessário até mesmo explicitar nos flyers a proibição / rejeição de visitantes neonazistas, tamanha é a certeza de que a música, a estética e a oportunidade atrairão esse tipo de pessoa em um ambiente onde, pelo evento específico da data, muitos outros serão o extremo inverso, podendo suscitar conflitos diretos. Nada disso é, porém, garantia de que não ocorrerão as presenças e os conflitos.

Sobreviventes são as casas que baseiam suas políticas de trabalho em diversidade e segurança e também em preservação das subculturas. Cada vez menos estão conseguindo se manter fixas em seu meio e estão se abrindo pra públicos cada vez mais convencionais. Aos poucos, o que estava alternativo, está tomando dimensões maiores. A princípio isso não é ruim. Fico feliz que estejam difundindo o acesso e a aceitação dessas realidades culturais para mais gente, pois quebra preconceitos também. Por outro lado, pessoas totalmente desinteressadas de aprender com esses meios, acabam contaminando a cena simplesmente para preencher seus próprios objetivos, anteriores e isolados à essas culturas alternativas.

O convencional já conhecemos e recusamos. A sociedade convencional é a sociedade onde meninos vestem azul e meninas vestem rosa, cabelos curtos são para homens e cabelos cumpridos para mulheres. A cultura convencional é aquela onde reina opressão, preconceito, violência, intolerância, desrespeito e ignorância. Mais do mesmo que está aos poucos encontrando espaço onde não deveria. Estamos aos poucos apagando o termo ‘alternativo’ das coisas as quais nos vinculamos em algum momento e que agora parecem ser apenas mais um momento comum do qual não queremos fazer parte.

Mas este não é o fim! Embora tudo isso esteja se transformando nessa direção, os que mantém a coerência diante das cenas, podem plenamente apontar seus novos nichos e vertentes, suas novas casas noturnas, seus espaços diferenciados, seus meios de burlar essa crise cultural e social pela qual todos estamos passando em todos os lugares do mundo. Podemos simplesmente quebrar as correntes com os velhos movimentos, os velhos cenários, assim como quebramos com a sociedade convencional. Em um mundo onde quase tudo se entorta e apodrece, é importante marcar bandeiras e destacar contraste, valores, diferenças. Precisamos cada vez mais reafirmar nosso espaço para que não sejamos esmagados ou misturados a nossos próprios inimigos.

Muitas das vezes a cena underground e a cultura alternativa são mal vistas exatamente por causa dessa presença contaminante de quem não é do meio. O estrago causado por quem está ali pra tirar uns quinze minutos de fama dura bem mais que isso. A apropriação das realidades para fins menos dignos pode colocar as pessoas de volta aos cabrestos pelos quais lutamos tanto tempo pra destruir. Faz-se necessário um pouco mais de reflexão e seriedade entre as próprias pessoas. Que deixem um pouco de lado esses vícios de personalidade por buscas narcisistas de aparência e comecem a se preocupar muito mais com as amizades com que fazem, a qualidade interna das pessoas com as quais dividem os eventos e também a quem atribuem notoriedade e destaque nesse meio. É preciso ter pulso firme e coragem de não só contrariar a sociedade de forma superficial e abstrata, mas, principalmente, contrariar os valores e condutas de cada pessoa dessa sociedade que estejam em desarmonia com o aceitável e proposto.

Vejo ao meu redor, pessoas que flexibilizam os contatos, aceitando neonazistas declarados, apenas por admiração à estética e ao “status” que certas pessoas tiveram na cena. Diziam tanto que a aparência não deveria importar e hoje se veem escravas da aparência. Buscavam aceitação social e usavam a dissonância estética como ruptura de valores e hoje se veem presos à pessoas e posturas nojentas por não conseguirem remar contra a adoração e os padrões visuais que eles mesmos estabeleceram. Correm o risco de serem tão inúteis e indesejados quanto seus supostos opositores do passado ou talvez ainda do presente. Difícil é saber de que lado estão aqueles que, por desinteresse ou cumplicidade, ficam permissivos e acabam apoiando todo tipo de lixo social, em diversos sentidos.

Precisamos ficar atentos, pois quanto mais subimos a montanha, menos gente nos acompanha. Muitos ficam pra trás, não acompanham o ritmo ou não desejam verdadeiramente subir naquele momento. Temos que vigiar nossas trilhas, nossos hábitos, nossos círculos de amizade, nossos trabalhos, objetivos, projetos e conteúdos. Estamos enfrentando batalhas duplas, com tanto inimigo infiltrado. Não fico feliz que isso soe alarmista, pois vai deixar muita gente ansiosa e insatisfeita, mas não há outro modo de pedir cuidado senão dizendo a realidade da situação.

Estamos assim no momento e não vejo um bom crescimento adiante. Parece que estamos perdendo o vigor e estamos rendidos. Números gigantescos de pessoas abandonaram esses meios, tanto por serem verdadeiramente deles e não se identificarem mais com aquilo em que o meio se tornou quanto por não serem de fato desses meios e acabarem cansados de dissimular pra ter tão pouco retorno e felicidade. Mas, velhos figurões ainda estão lá, caricatos ao extremo, com as mesmíssimas roupas, como se praticassem um personagem pra vida toda. Patético. Eu quero a ruptura, eu quero o novo, o diferente, gente de mente viva, que pensa, que age, que faz acontecer. Eu não quero preconceituosos atrás de fantasias feito palhaços de um universo paralelo. Eu espero gente que esteja engajada em viver caminhos maiores, caminhos melhores. O encurtamento do caminho só convém aos que querem reunir novamente as massas pro afunilamento rumo ao abatedouro social. E eu não aceito ter esse final.

Rodrigo Meyer

Porque as pessoas desejam sempre as mesmas coisas?

Em um mundo onde a maioria das sociedades são formadas por modelos de excessivo consumismo, é fácil ver que boa parte desses momentos de desejo de compra são puramente artificiais e se mostram como um claro reflexo da propaganda mal intencionada que é veiculada não só pelas mídias mas pela própria sociedade. Da mesma maneira que as marcas vendem-se como necessárias ou importantes pra vida das pessoas, algumas pessoas, tomadas por essa crença, espalham esse modelo de vida cobrando e pressionando outras pessoas a se adequarem nesses moldes doentes.

Havia um tempo em que os presentes de datas comemorativas eram embrulhados em papel de presente ou nem mesmo eram embrulhados. Hoje em dia os presentes são abertamente dados com as sacolas e embalagens das lojas, com suas marcas estampadas de forma bem visível, afinal é isso que estão doando na verdade. Antigamente, os produtos em si eram o presente, mas hoje, o status de marcas e lojas fazem as vezes de “produto” a ser consumido.

Sempre tínhamos a visão de que certas marcas eram pra público mais abastado financeiramente e que outras marcas eram deixadas como uma opção barata de produtos iguais ou similares. Em todo tipo de produtos ou serviços as pessoas sentem essa depreciação de valor e qualidade (ou de suposta qualidade). E com isso, gera uma certa vontade de compensar o prejuízo social tentando adquirir um desses produtos mais caros. É assim que surgem pessoas dispostas a loucuras como gastar todo o salário de um mês na compra de um único produto, apenas pra ostentar o uso daquela marca. Outros, um pouco menos ousados, buscam as imitações / falsificações que cabem melhor no bolso, mas que falham em outros fatores, tanto do ponto de vista da legalidade quanto da própria qualidade. E, convenhamos, ostentar uma marca da qual você não pode sequer comprar o original devido ao preço caro, é o mesmo que divulgar seu próprio explorador.

Diversas pessoas trabalham em empresas das quais jamais poderiam comprar o produto que elas mesmas fabricam. Empresas de produtos esportivos figuram em crimes de trabalho infantil e exploração de mão-de-obra em contextos de trabalho escravo, sendo o extremo da ironia por produtos tão caros, onde nem a matéria prima é cara e nem a mão-de-obra é dignamente paga.

E porque será que apesar de tanto contexto ruim nessas empresas e produtos, as pessoas continuam desejando sempre ter as mesmas coisas? Uma busca por igualdade através do produto ao invés da equiparação das rendas? Busca por igual status e suposto privilégio social ao invés de buscar real respeito e valorização no meio? Será que ter uma roupa de marca, comer no fast-food da moda, morar na região nobre da cidade ou comprar o carro do momento transforma alguém em algo melhor?

As pessoas não se perguntam muito isso, afinal se o fizessem teriam que admitir que nada disso é feito para elas, mas apenas pra mostrar pra sociedade que elas venceram. Traumas e complexos as fazem devolver exageros na postura e no consumo, pra cobrir a diferença entre não ter tido condições no passado para as possibilidades financeiras do presente. Alguns, cientes de que não poderão sequer chegar nesse ganho financeiro, compram as falsificações no camelô apenas pra desfrutar entre os amigos de igual situação social um “sub-status” dentro desse grupo social em particular.

Se resolvermos nossas fraquezas psicológicas, superarmos o passado e revermos o valor real das coisas, entenderemos que pra sermos mais prósperos não precisamos nos render a status ou marcas de renome. Não precisamos fazer o que a maioria faz e nem precisamos pensar como a maioria pensa. Qualquer ganho social, seja do ponto de vista financeiro ou de outros tipos, não precisam vir acompanhados dos mesmos vícios que todos os demais tiveram ao cruzar com aquelas realidades.

Você pode achar uma roupa bonita, dentro do seu estilo, sem que tenha que se render à formatos predefinidos do que é bonito e bom pra uma roupa, conforme as regras que plantaram em sua mente apenas pra explorar seu bolso. Em tempos de internet onde podemos acessar conteúdos de empresas tão distintas entre si, temos duas situações principais: por um lado colidimos entre nossas realidades e realidades opostas, mas o lado bom disso é que podemos, contudo, ter opções e reafirmarmos a possibilidade de substituir certas coisas por outras. O conhecimento é poder em muitos sentidos.

Esse desejo que muitas pessoas mal sabem de onde vem e que alguns até acreditam que são desejos legítimos e demandas reais por produtos e marcas, é, na verdade, uma grande indústria de trabalho psicológico explorando nichos e grupos cada vez mais específicos de pessoas, massificando de forma geral o consumo, levando cada pessoa a achar que precisa de uma ou outra coisa, conforme o que ela pode ter e, contudo, a desejar também o que não pode ter, pra que isso se torne, então, muito mais valorizado perante os que podem comprar, pois nasce, então, uma competição de que, se o pobre deseja e não pode ter, é papel de quem tem dinheiro pra tal, comprar pra demonstrar poder e oprimir, consciente ou inconscientemente, os que estão abaixo.

Talvez as pessoas nunca tenham se dado conta, mas existe essa batalha constante entre ter e não ter. As pessoas que conseguem adquirir um produto, serviço, cargo ou posição social de qualquer tipo, sentem-se com uma ferramenta de poder nas mãos capaz de diferenciá-los dos demais sem que eles precisem fazer nada de especial ou útil. São diferenciados apenas por poder destacar a diferença na posse, de forma opressiva, ostentando e mostrando ao mundo que poucos podem ter e a maioria não pode. É o estilo de vida das vitrines de shopping da classe média e alta em que não se aceita bem a entrada de pobres, especialmente os negros, pra figurarem ao lado de seus maiores opositores.

Os oprimidos deveriam, portanto, pensar que manter desejos e consumos por essa massa de desprazer que se fantasiam de empresas, produtos e clientes, é altamente danoso pra si mesmo. Em resumo, é Síndrome de Estocolmo, quando o oprimido sente-se admirado ou apaixonado pelo seu próprio opressor, passando a defendê-lo. Isso alimenta um contexto social onde empresas pouco éticas e quase sempre ilícitas e desnecessárias, lucram bilhões às custas dos pontos fracos (especialmente os psicológicos) das sociedades em que elas exploram.

Você tem, contudo, o poder de diminuir ou até eliminar isso de nosso meio, bastando que se oponha na prática. Cesse o consumo, o apoio, a propaganda gratuita estampada nos produtos que usa, a gana de querer igualar-se à outros por questões equivocadas como status e padrão social. A liberdade que você gostaria de ter e não tem, às vezes é conseguida por uma mudança de postura como essa. Talvez você não venha a enriquecer, mas independente disso, você não precisa apoiar quem lucra às custas de opressões de classes. Lembre-se que, embora grande parte dos consumidores de marcas caras sejam pessoas ricas, quem produz muito daquilo são pessoas em situações pouco dignas ou indignas e às vezes até ilícitas, em trabalho escravo e/ou infantil.

Você se sentiria confortável de gastar mais de R$ 500,00 num produto em que apenas 1 centavo é destinado a pessoa que fabricou tal produto? Talvez fique ainda pior se te contar que pra ela ganhar este único centavo por produto, ela precisasse passar horas enfurnada numa sala sem iluminação, sentada ao chão, sem condições de higiene ou segurança de trabalho, sem alimentação adequada, sem perspectivas de vida, sem outras escolhas. Tudo se agrava quando esse “funcionário” é uma criança de 7, 10 ou no máximo 14 anos, que nunca teve oportunidade de desfrutar a infância, dividir seu tempo com a família ou mesmo de poder planejar saídas pra sua própria situação. Em casos assim, a escolha da empresa em aceitar tais contextos é que determina o que existirá ou não em termos de modelos de trabalho.

Se nos enxergamos como inaptos pra certos produtos e serviços, fica fácil entender que, por vezes, quem os fabrica ou serve também não possuem condições de comprá-los. Pode haver sistema mais injusto e doente que este? Portanto não há motivos sadios pra se apoiar isso. Se eventualmente se sentir em situação de fraquejo diante dessas questões, busque repensar um pouco seus valores e suas reais necessidades na vida. Avalie se o que está fazendo em seus hábitos de consumo não são apenas uma tentativa falha de compensar complexos e traumas do passado. Sempre que achar necessário, busque ajuda de pessoas mais esclarecidas sobre o assunto, bons amigos que possam ser parâmetro e incentivo pra condutas melhores ou até mesmo de psicólogos e terapeutas que possam te ajudar a superar suas questões internas, pra que você realmente progrida socialmente e pessoalmente, ao invés de se enroscar em situações ilusórias sobre qualidade de vida. Tristes são as sociedades que confundem qualidade de vida com poder de consumo e que confundem consumo com consumismo e futilidade.

Rodrigo Meyer

O pior defeito é acreditar que seus defeitos são virtudes.

2017_mes03_dia26_15h00_o_pior_defeito_e_acreditar_que_seus_defeitos_sao_virtudes

Todos nós temos defeitos, em maior ou menor quantidade e em maior ou menor grau. Faz parte do ser humano estar envolvido em uma grande missão de transformação. Mas nem todos enxergam isso da maneira como é. Algumas mentes um pouco mais doentes conseguem ver ouro onde só tem lixo. Quando começam a classificar como virtude os próprios defeitos, enforcam as esperanças de que esses defeitos sejam eliminados.

De maneira mais sutil, todos nós começamos valorizando um pouco os nossos defeitos, sob a desculpa de que temos que ter um pouco daquilo porque somos humanos ou que precisamos reagir conforme a necessidade do momento. Tudo muito poético, mas a verdade crua por trás disso, sabemos, é que tudo isso são pretextos para o indivíduo autorizar seus próprios defeitos sem ter que lidar com a solução deles. O velho hábito de varrer tudo pra debaixo do tapete. Repito muito essa metáfora, porque é exatamente o que o ser humano mais faz em todos os temas da vida.

Quando temos uma característica que é bem notada pelos demais, formamos um pouco da nossa personalidade aparente. Mas somos, claro, muito mais do que isso. Não somos apenas as roupas que vestimos, nem o modo como falamos. Não estamos limitados ao nosso jeito de andar ou os lugares que frequentamos. Nossa personalidade é sempre muito mais profunda. E somente nós poderemos, eventualmente, ter contato com toda a gama de qualidades e defeitos de que somos compostos. Contudo, conforme vamos socializando, traçamos conexões entre outras pessoas e iniciamos conversas, atividades, relacionamentos e, então, escapam pelos dias, pistas do que temos no nosso interior. E assim vamos conhecendo ou suspeitando conhecer as pessoas. Chegamos a conclusões sobre defeitos e qualidades e começamos a fazer idealizações e comparações.

Entre relacionamentos saudáveis, quando, por exemplo, uma pessoa ansiosa convive com alguém que seja o oposto disso, acaba por aprender um pouco de si mesma. Ao colocar lado a lado pessoas tão diferentes na conduta, evidencia o que cada uma delas é. Assim podemos olhar pra algo externo e conhecermos um pouco das nossas próprias qualidades e defeitos e até mesmo uma certa noção de intensidade. Os parâmetros nos ajudam a escolhermos o que fazer de nossas próprias realidades, para onde seguir e com que intensidade mudar.

Em relacionamentos doentios, esses parâmetros não servem pra muita coisa ou são usados de forma deturpada para inverter o jogo. É quando, por exemplo, uma pessoa pacífica é julgada como inferior diante de outra que seja violenta. O problema está nos parâmetros e também em como a pessoa violenta classifica como virtude esse seu defeito. Eis o porquê é importante ser realista sobre suas próprias características. Perceba que, embora opostos, o pacífico não está tirando a liberdade de ninguém, enquanto que o violento está. Dessa forma, mesmo que o pacífico não seja incluso como ideal por alguns, a característica dele por beneficiar a si mesmo e não atrapalhar os demais, é marcada como uma virtude, enquanto que a característica do violento, independente de como seja classificada por ele ou pelos outros, será marcada como um defeito, porque prejudica a si mesmo e aos demais.

Não existe uma lei universal que determine como devemos ser. Essas virtudes e defeitos são questões filosóficas, psicológicas e de relacionamentos sociais. Quando essas interações entre pessoas não resulta em algo produtivo e harmonioso, é patológico, equivocado, marcado como pejorativo e ineficiente, posto que todo ser vivente deseja viver bem consigo mesmo e com o ambiente ao redor. É assim que chegamos a conclusão de quais características serão virtudes ou defeitos.

Da mesma forma que quando compramos um carro esperamos que ele funcione, nas sociedades é a mesma lógica. Você não quer que seu carro tenha rodas quadradas, nem que os bancos tenham espinhos. Conforto e eficiência se tornam as virtudes de um carro e quanto mais tiver, melhor. Em sociedade não é diferente. Esperamos das pessoas, condutas que sejam adequadas para o contato em sociedade. Não há como classificar como virtude a conduta de uma pessoa egoísta, por exemplo, pois isso, tal como a roda quadrada em um carro, não ajuda a termos um bom resultado para aquilo que nos propomos.

É comum as pessoas perderem a noção da intensidade das características e acabarem cruzando a linha entre virtude e defeito. Por exemplo, quando classificam o narcisismo como virtude, por acharem que é apenas amor-próprio. Por não terem muita noção dos limites, distorcem o próprio objetivo da característica e usam ela mesma como pretexto para exagerar pejorativamente.

Durante minha adolescência inventei o termo “caridófilo” para distinguir a pessoa que faz caridade da que, por motivos patológicos, doa por compulsão e se submete à todo tipo de prejuízo só para seguir fazendo “caridade”. Isso está longe de ser caridade e, por isso, usei muito o termo inventado para citar algumas pessoas com quem dividi o mundo. Ajudar outras pessoas é uma virtude, mas você não deve deixar de ajudar a si mesmo também, senão corre o risco de sequer ficar de pé pra continuar a poder ajudar qualquer outro. Seria como um médico que desmaia durante o atendimento de um desmaiado. Não será útil e seus conhecimentos de medicina não serão aproveitados como poderiam. Nesse modelo ninguém sai ganhando e, por isso, não marcamos como virtude.

O excesso é aquilo que está além do necessário, do possível ou do aceitável e por isso é defeito. Mas o que é excesso pra um pode não ser pra outro. Algumas pessoas diriam que beber dois copos de álcool é um excesso e outras diriam que não. Nesse caso, cada pessoa tem seus limites corporais e mentais diante da substância e é para cada um desses diferentes limites que se estipula o que é excesso ou não.

Todos nós fazemos escolhas sobre como vamos ser, o que vamos comer e beber, quanto vamos obter disso e em quais momentos. Também decidimos o conteúdo, o sabor, os motivos e as maneiras de nos portar diante desses consumos. Escolhemos, quando possível e se quisermos, os preços que pagamos e até mesmo se pagamos. Vamos construindo nossos valores e desenhando nossas ideologias, nossa personalidade, nossa gama de virtudes e defeitos. E é perfeitamente natural isso, enquanto nossas condutas estiverem alinhadas com nosso bem-estar, os princípios de liberdade própria e alheia e a convivência social de forma que nossas ações sejam uma expressão daquilo que lutamos para erguer como benefício geral. Dessa forma, muitas ações tidas como aparentemente extremas são iniciativas válidas para obtenção de um bem coletivo maior ou mesmo pela preservação de necessidades humanas básicas individuais.

O que não se deve fazer é marcar como virtude algo que é desnecessário ou que não visa o bem-estar coletivo. Assim, são defeitos, por exemplo, o egoísmo, a violência gratuita, os preconceitos, a ignorância, a intolerância com a liberdade, além de todas as características que se voltam apenas pro nosso interior, tal como a preguiça, por exemplo, que como os demais defeitos podem vir a se expandir, eventualmente, e começar a atrapalhar também o meio social. Em um primeiro momento seu estado de preguiça é algo que só atrapalha a si mesmo, mas se começa a se transformar em negligência no ambiente doméstico ou profissional, aí começa a afetar outras pessoas. Isso nos revela a importância da intensidade de cada defeito e em como ele se alia à outras de nossas características pra formar uma problema mais complexo ou não.

E as virtudes são tudo aquilo que nos ajuda a viver melhor em sociedade ou com nós mesmos. Podem ser citadas como tal: a paciência, o bom humor, a tolerância, a generosidade, a flexibilidade, a honestidade, a resiliência, o afeto, a sabedoria e o bom uso do conhecimento e das habilidades técnicas.

As listas de qualidades e defeitos são gigantescas e seria inviável e desnecessário tentar nos aproximar da totalidade delas. O melhor a se fazer para lidar com esse tema é ter uma vivência sincera com a sociedade e com o espelho para começarmos a olhar pra dentro de nosso ser e perceber aquilo que está ou não ajudando a vivermos melhor como indivíduo e como sociedade. Se nossos ideais estiverem apontando para melhorias, são bons ideais, mas se tudo que tiramos de nossas ações e pensamentos são conflitos e supremacia diante dos demais seres, então estamos equivocados. Se descubra, se interprete, mude tudo aquilo que pode e busque ajuda para mudar o que ainda não pode. Desse jeito, todos saem ganhando, principalmente você.

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Rodrigo Meyer

A música como ferramenta está sumindo?

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A imagem que ilustra esse texto é parte da fotografia de autoria de Koen Suyk, pela ‘Nationaal Archief’ feita da banda Sex Pistols em uma performance em Paradiso, Amsterdam em Janeiro de 1977. Na imagem estão Johnny Rotten e Steve Jones.

A música tem muitos propósitos e potenciais. A simples criação de uma ou o ato de ouvi-la já são finalidades completas pros seres. Mas a música também é comunicação, arte e ferramenta de transformação. Ela serve até mesmo como terapia. A musicoterapia, já famosa em outros tempos, teve um grande período de esquecimento e hoje em dia parece resguardada à pequenos nichos da sociedade.

Como instrumento de resistência política, ela já fez muita coisa em prol da liberdade, da crítica social, do engajamento político, da motivação pessoal para o enfrentamento das barreiras e da contemplação de dias melhores. Em tempos de censura da comunicação, a flexibilidade da música permitiu que brincássemos com trocadilhos, metáforas e sons simbólicos para todo tipo de mensagens que pudessem expor os fatos e conectar a população com a ação.

Mas, tenho a impressão que, passado os períodos mais turbulentos, as pessoas foram se distanciando dessa ferramenta até o ponto em que deixamos de ver a música como algo além de ritmo pra dançar ou ruído pra preencher a mente e impedir que pensemos na realidade. Se tornou, portanto, o oposto. Grande parte da culpa disso foram das próprias mídias que tentaram abafar o pensamento e a reação popular.

Em um ou outro canto, ainda se produz música com objetivos, mas estão cada vez mais raras. Caminhe pela cidade ou acione qualquer mídia e verá que o que está em voga pela sociedade é o completo desuso da música como ferramenta. Todos conseguem saber qual é a coreografia da vez, os “memes” e os estilos visuais de cada artista da música moderna, mas pergunte à eles algo mais profundo que isso e ficarão travados como estátuas. E corra, porque tocar nessa ferida deixará muita gente em posição de ataque, porque se incomodam de saber que estão varrendo os problemas pra debaixo do tapete por puro comodismo.

Aqui pelo Brasil, se lembrarmos das letras de Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, Chico Buarque, Caetano Veloso, Cazuza, Raul Seixas, Bezerra da Silva, Zé Ramalho e tantos outros, ficaremos nos perguntando o que aconteceu na geração seguinte.

Faça um tour pelas casas noturnas dos últimos 10 anos e procure alguma que tenha bandas ao vivo. A maioria esmagadora delas são covers de bandas estrangeiras consagradas e não se verá muita gente arriscando conteúdo nacional e muito menos autoral. Bandas autorais novas não estão surgindo praticamente. A grande maioria são covers como forma de garantir que haja demanda, pois já sabem do sucesso da banda original a qual fazem referência. E isso só sinaliza que o objetivo maior não é comunicar nada, apenas ter algum pequeno sucesso, visibilidade no pequeno meio social que atuam e algum trocado pra levarem a vida. Os objetivos maiores que esses não passam pela cabeça da maioria que faz essas escolhas na música.

A princípio, tudo bem que seja assim. As pessoas escolhem a música também para trabalho e entretenimento rápido e é bom que, ao menos, as músicas estejam sendo estudadas e passadas adiante. O que me preocupa mais é que essas pessoas não estejam conseguindo ter o mesmo direcionamento que as bandas originais à quem eles fazem os covers. Daqui uns dez anos olharemos ao redor e só conheceremos músicas do passado. Nada novo foi criado. As rádios ainda se valem de tocar os mesmos clássicos de sempre de tal forma que já decoramos todas as letras e ritmos e podemos até listar quais músicas surgirão nos nossos ouvidos, sem nem mesmo conhecer a playlist da emissora de rádio.

Me preocupa ir em casas de cultura underground e encontrar apenas mais do mesmo. Sei que as casas visam o lucro maior possível e, por isso, tentam sempre abranger o conteúdo das noites com algo que as pessoas reconheçam bem e gostem. Mas apresentar novidade não é necessariamente um empecilho para a aproximação do público. A novidade quando bem fomentada, só atrai a curiosidade de quem realmente faz a cena existir e crescer. Tomo por mim, que dava preferência aos lugares mais distantes com música autoral do que a comodidade de estar sempre no mesmo lugar próximo, onde só tocam gravações ou apresentam covers. E no final das contas, com essa iniciativa de trazer o novo, a casa ganha uma conotação diferente, pois ela fica associada com a produção cultural daquele nicho de público. E, de forma oposta, quando apresenta apenas mais do mesmo, ela acaba esquecida na história porque só é frequentada por quem não está focado no lado cultural do evento.

O entretenimento de muitos shows já deixou de ser o show em si. As pessoas querem os artistas pela fama que possuem. Isso explica bem porque as bandas de cover atraem muitas pessoas. É a forma mais próxima de estarem junto ao artista estrangeiro (e às vezes nacional), com o custo mais baixo possível. É como se estivessem ao lado de um representante do artista original. E, infelizmente, essa valorização é deturpada com a mistura de sentimentos e sensações que confundem a estética com o conteúdo, o cover com o original e a personalidade dos artistas originais com a dos artistas covers. Duas pessoas não são iguais nem mesmo quando gêmeas. Imitar é um ótimo exercício para o entretenimento de si mesmo e até dos demais, mas não deve se tornar a única forma de expressão musical de uma geração.

Se temos potencial de aprender a tocar músicas de terceiros, podemos, com toda certeza, nos esforçarmos e chegarmos a ter boas músicas próprias. Se é bom que tenhamos nossos artistas preferidos, é sinal de que a arte deles importa. Então, não podemos deixar de exercer aquilo que admitimos ter valor, caso tenhamos tempo e habilidades pra tal. Me sinto estrangulado de ver pianistas que dedicaram a vida toda a reproduzir obras clássicas sem nunca terem criado suas próprias obras.

Soa como se ninguém mais pudesse ter capacidades autorais depois do que já foi criado e passa a mensagem equivocada de que somente Haendel, Beethoven, Chopin, J.S. Bach e outros grandes nomes da música clássica fossem músicos de verdade. Estes surtariam de ver o cenário musical de hoje, onde as pessoas já não entram pra música com um propósito maior do que replicar. Alguns até transformaram o cover da música clássica como forma de obra quase autoral, fazendo suas versões, dando suas entonações e a preferida personalidade na interpretação dos originais. E isso me parece a desculpa perfeita pra continuarem restritos aos originais.

Pouca gente sabe, mas diversos artistas que depois foram considerados “gênios”, começaram suas carreiras sendo sucessivamente recusados e desprezados pelas casas de espetáculo e do público em geral. Eram tachados como ruins. E isso mostra que a persistência deles advém da real necessidade de fazerem o que fazem. Se um artista em qualquer área (seja música, pintura, literatura, dança ou o que for), tiver verdadeira vontade e necessidade de expressão, ele vai perdurar e chegar em algum lugar com isso. Assim foi com todas as bandas e cantores de sucesso do passado e, se você quiser repetir o feito, precisará ter isso bem claro na sua mente.

E o mais importante é saber que, assim como você supostamente gosta de apreciar as músicas, outras pessoas também gostam. E se a sociedade não estiver produzindo, estaremos todos um pouco mais vazios, tristes, caindo na repetição dos clássicos e amargurando essa ausência de oxigenação cultural. A comunicação é, inclusive, uma expressão forte do momento que o autor vive. E se isso não está ocorrendo, passaremos nossa história em branco, sem poder relembrar os erros e acertos de nossa sociedade.

Corremos o risco de repetir a história pelo abandono da memória dos momentos vividos. A música tem papel ainda mais forte do que a Literatura, pois ela entusiasma de forma instantânea, bastando que estejamos de ouvidos abertos para absorver algo. Assim como a rima das letras ajuda a decorá-la, o ritmo nos faz relembrar de uma música completa sem precisarmos consultar fonte alguma. Essa impregnação da música na nossa mente é que traz o potencial transformador. Pulsa no nosso inconsciente essas mensagens que nos levam a pensar e agir sobre as realidades. Quando nos entusiasmamos ouvindo uma música, em casa, no carro, em um bar ou em uma festa, nos colocamos à disposição de ajudarmos a nós mesmos, tanto individualmente quanto coletivamente. Todos saem ganhando. A cultura musical está nos chamando. Ela está se sentindo solitária.

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Rodrigo Meyer