Redefina os padrões daquilo que não te agrada.

Estar vivo, dentro ou fora da sociedade já nos coloca em um cenário em que precisamos observar e reagir diante das coisas. Tudo que nos cerca e também o que nós mesmos somos, passa pela nossa crítica. Para muita coisa, nossa análise passa desapercebida, pois são rotineiras. Mas para outras coisas, focamos uma grande atenção, principalmente sobre o que nos desagrada.

No campo das pequenas coisas, podemos reagir em desprazer pelo excesso de luz, de calor, da chuva, do céu nublado, do cansaço ou preguiça de cumprir uma atividade mais produtiva no nosso dia, a insatisfação com uma roupa que desbotou, um tropeço na calçada, a falta de bateria suficiente no celular, uma caneta que falha quando precisamos escrever, o barulho inconveniente na rua e por aí vai. Esses são alguns exemplos de coisas que nos traz algum incômodo, mas pouco significativo. Poucas vezes reagimos de forma mais consistente pra planejar mudanças sobre esses cenários. Não é algo que nos demanda muita ação, nem que nos priva de viver o total da nossa vida em outras coisas maiores.

No campo das grandes coisas estão nossas críticas mais incisivas, mesmo que nem sempre coerentes ou justas. Nossa visão sobre as pessoas, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre a política, sobre as relações de trabalho, de ensino, de aprendizado. Estão neste grupo o nosso dinheiro, nossas relações emocionais, nossos medos, nossos traumas, nossas doenças, os vícios, os erros, os acertos, as superações, as conquistas dos nossos objetivos materiais ou de outros setores da vida, nossa segurança, nossa satisfação em estar vivo ou em contato com o mundo com ou sem socialização. Muita coisa é pesada em graus diferentes para cada pessoa, mas certamente esses são exemplos muito comuns de faces da realidade e do nosso ser, que observamos com um grau maior de atenção, mesmo que tenhamos a visão distorcida ou a incompreensão do que cada uma dessas coisas de fato é para nós ou como funcionam.

Por tudo isso, entre pequenas e grandes coisas, nós estamos sempre traçando críticas sobre os padrões. Podemos, por exemplo, estabelecer que um determinado modelo de trabalho é nocivo e que gostaríamos que fosse diferente. A crítica sozinha é só um pensamento ou uma expressão dele, mas pra que algo mude, requer alguma ação. Você pode começar a transformar tudo o que não gosta no mundo, por meio do seu próprio exemplo. Seja vocẽ a mudança que gostaria de encontrar pelo caminho. Um bom caso, fácil de lembrar, foi quando Linus Torvald, um programador, decidiu fazer algo que julgasse melhor do que o que havia de estabelecido em sistemas operacionais. Foi assim que nasceu o Linux, um kernel (uma espécie do miolo de um sistema operacional) que hoje é tão aplaudido pela qualidade e pelo viés open-source e gratuito do projeto, que é a opção da um imenso número de empresas e usuários domésticos pelo mundo todo. Ainda que empresas grandes como Microsoft, Apple, Google e outras, tenham alcançado um enorme mercado nessas temáticas, Linus Torvald agiu e criou aquilo que achava necessário ser criado. O importante não é o tamanho do seu sonho e nem o retorno massivo do seu projeto. Importa mais é que você esteja satisfeito em ter transformado uma face da realidade em algo melhor que atendesse aos seus padrões, às suas expectativas e necessidades.

Em qualquer setor da vida, devemos ter igual iniciativa, transformando o modo como fazemos arte, reestabelecendo o significado da arte, colocando nossos textos e opiniões à frente e ao lado de outros para gerar contraste e renovação, ter uma estratégia inovadora para lidar com nossas amizades, nosso círculo de trabalho, as redes sociais. Temos que conseguir olhar pra um livro mal escrito ou incompleto e conseguir propor uma versão, o seu acréscimo ou supressão. Transforme as coisas e estabeleça o seu nível de qualidade. É importante não se contentar fácil com uma comida sem sabor e ir atrás de temperá-la ou criar seu próprio prato. Quando ocupamos uma casa, personalizamos ela ao nosso gosto. É isso que faz dela o nosso lar. Nascemos nus e desajeitados, crescemos cercados de pessoas nos dizendo como ser, o que acreditar, o que vestir ou comer. E com o tempo, vamos criando pequenos atritos e insatisfações, à medida em que ganhamos identidade, autonomia e percepção sobre nós mesmos. Passamos a querer nossas próprias coisas, do nosso próprio jeito, para nossa própria satisfação.

Nosso corpo, nossas roupas, nossa casa, nossos espaços simbólicos na internet, nossas artes, nossas falas, nossos pensamentos, nossas análises e estudos sobre o mundo, nossas viagens, nossas amizades e tudo que se conecta, de alguma forma, em qualquer grau, conosco, está alí pra ser visto, filtrado e transformado ou recriado. Quando você chega por aqui e se depara com um texto, você não é obrigado a concordar com nada e é, inclusive, incentivado a fazer tua própria interpretação e a ser também um escritor. Seja autor da sua vida, seja o protagonista de sua história, sua mensagem, sua realidade. Crie o seu mundo e apresente seu mundo ao outros. Viver só faz sentido se você acredita muito naquilo que você é e faz. Do contrário, o mundo lhe parecerá um fardo, pois estará sempre tendo que se sujeitar ao que é alheio e não te agrada. O mundo se torna melhor, quando você experimenta ele da sua própria maneira. E pode ser que a sua maneira seja algo interessante pra mais gente também.

Se você pode, comece hoje a dançar, a cantar, a desenhar, a escrever, a caminhar, a aprender algo novo, a ensinar algo para o mundo. Converse da tua própria maneira, com as tuas manias, tuas gírias, teu tom de humor, teus temas preferidos ou até mesmo o silêncio, caso lhe agrade. O padrão de qualidade das coisas, não precisa ser algo que você espera sentado e torce pra dar certo. Você precisa, antes de tudo, torcer pra você mesmo dar certo. Os outros estão fazendo as coisas ao modo deles (ou talvez não) e você não precisa embarcar no modo de ninguém, se isso não contempla suas exigências. Eu, por exemplo, quando me cansei de ver a inundação de conteúdos que eu não acreditava nem valorizava, fui atrás de ser eu mesmo um criador de conteúdo. E quando fazemos isso em sinceridade, pode ter certeza que vai prosperar. As mensagens se espalham, porque elas tocam alguém em algo sutil, mas muito poderoso, que é a conexão interior com uma verdade, com um sentido, com algo subjetivo, com algo inconsciente. O valor de uma pintura, por exemplo, não está necessariamente na qualidade técnica, mas sim em coisas como o traço, a mensagem, o estilo, o seu jeito transparecendo numa série de obras, etc. Isso cativa pessoas por algo que é quase invisível ou pouco compreensível, mas acontece e é poderoso o suficiente pra agradar, pra envolver, pra motivar, pra gerar aceitação. É isso que faz algo ser novo e forte.

Desligue-se dos medos, da inação, da repetição, do ‘mais do mesmo’, das fraquezas, dos complexos, das inseguranças, dos vícios, das manias prejudiciais pra sua vida e comece a ser verbo. Comece a fazer as coisas, a ser, aprender, sentir, criar, ver, entender, transformar. Enfim, viva a sua vida. Você é um indivíduo e o seu modo de fazer as coisas é e sempre será único. Há espaço para infinita diversidade no Universo. As pessoas podem aplaudir e apoiar coisas diferentes simultaneamente, sem que nenhuma delas perca o valor que tem. O valor das coisas está embutido nelas pelo que elas são e não por nenhum tipo de comparação ou competição. Satisfaça-se, porque tua satisfação renova o sentido da sua vida, tira o peso e pode ser inspiração pra outras pessoas.

Rodrigo Meyer – Author

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Até onde você explora sua mente?

O potencial humano pode variar muito, dependendo do ambiente, do histórico, das influências, da personalidade, das características genéticas e muito mais. Não sabemos exatamente o tudo que pode determinar a diversidade de pessoas que encontramos no mundo, com seus pensamentos tão variados. As pessoas são livres pra experimentar suas próprias transformações, mas sabemos que, apesar dessa liberdade, inúmeras barreiras são impostas pelas próprias pessoas, ao validarem a limitação imposta por outras pessoas e contextos.

Em tempos de internet, não há desculpas mais para deixar não expandir o conhecimento. Experiências de todo tipo, sobre todas as temáticas com pessoas do mundo todo, são uma realidade há umas duas décadas já. As pessoas se esquecem que a vida não é feita só das coisas populares, das modas e da superficialidade da cultura. Há um universo gigantesco de velhas e novas coisas ainda pouco exploradas, esquecidas nos porões da realidade onde poucos se empenham em visitar.

As pessoas se acostumam tanto com as grandes mídias que se esquecem que é justamente nas pequenas que estão grande parte das informações mais preciosas. Aquilo que não chega pelo mainstream e a seletividade perigosa de certas mídias maiores, acaba por ficar restrito em produções menores, de pessoas isoladas ou pequenos grupos que, embora não tenham tanta popularidade, figuram como grandes mentes, grandes personalidades, grandes criadores, peças-chave para a criação de ferramentas relevantes pra um mundo diferente, um mundo alternativo.

É preocupante ver que as pessoas se empenham em fortalecer conteúdos pobres ao redor, apenas porque se veem bem representados em suas próprias pobrezas de valores e conteúdos. Quem pouco pensa, pouco exige. Para um público idiotizado e que tem desprazer em pensar, é compreensível que prefiram ficar babando diante de seus próprios opressores, contemplando, tornando-os mais famosos, mais ricos, mais comentados, mais populares, mais poderosos.

Não é difícil perceber que existe um número assustador de pessoas que agradece por cada chicotada que recebe nos olhos. Confira as estatísticas do Youtube, por exemplo, e perceberá que a grande massa das pessoas se entretém sendo chamadas, indiretamente, de idiotas, sendo alimentadas com conteúdos falsos, coisas que não são de fato engraçadas, todo tipo de idiotismo, violência, ofensa, ostentação de luxo e lixo e todo tipo de conteúdo que não só não agrega pro intelecto, como também não agrega pra que as pessoas se tornem mais felizes, mais tranquilas, mais úteis, etc.

O entretenimento se tornou, com raras exceções, um aglomerado de pessoas desnecessárias, fazendo o desnecessário para um público igualmente desnecessário. Juntos, eles formam uma combinação explosiva que destrói as esperanças de qualquer país e até mesmo da humanidade de forma geral. Há quem pense que isso é um exagero. As pessoas desconhecem os números de como o mundo vai mal.

Fezes gravadas com iluminação profissional, um super microfone e efeitos de edição, transformam aquela mesma privada cheia de diarreia na nova forma de se lucrar muito dinheiro às custas das moscas travestidas de público que digerem empolgadas cada partícula daquilo. E se alguém chega pra se opor à essa terrível tendência, logo vira alvo de reações, afinal, ninguém que está nessa postura gosta de ser lembrado de que está. As pessoas querem ser idiotas, porém sem serem lembradas de que são. Essa contradição faz parte da idiotice, inclusive.

Por onde anda a mente das pessoas? Se do lado de lá, muita gente não está fazendo bom uso desse estranho recheio que ocupa o crânio, o que é que podemos fazer pra compensar isso ou se afastar dessa realidade? Muito. Somos pessoas com imenso potencial. Enquanto desperdiçarmos nosso tempo, dinheiro e energia com o que não agrega pro nosso crescimento pessoal, a lapidação de nossa personalidade, nosso conhecimento e nosso entendimento do mundo, jamais seremos merecedores de habitar o planeta. Animais equivocadamente classificados como “inferiores” por muitos seres humanos, despontam, desde sempre, em diversos aspectos, à frente de praticamente todos as pessoas e, mais que isso, sem nenhum grande esforço, já que agem, basicamente, sob os princípios mais elementares da necessidade, do bem-estar, da vantagem, do aprendizado e da socialização.

A razão disso parece ser que, embora o ser humano tenha imenso potencial para fazer grandes coisas no mundo com seu intelecto, ele subaproveita suas capacidades, limitando-se por opção. É uma preguiça somada à um efeito bola-de-neve de não incentivo a intelectualidade, ao necessário, ao justo, ao honesto, ao decente, ao interessante, ao relevante. Acostumados a tentar viver sempre na base da pequenez, perdem o interesse de fazer mais do que aquilo que já sabem que muita gente aplaudirá, mesmo sendo terrivelmente ruim e desnecessário. Assim, a bola-de-neve cresce e cresce e, mesmo depois de décadas, não veem necessidade de deixar de produzir e consumir a idiotice, pois sabem que ela continua a ter demanda e, portanto, a ser lucrativa.

Prometo que cada vez menos tocarei nessa ferida da realidade que tanto incomoda os que fazem parte desse tragicômico sistema. A cada novo texto que vou criando por aqui, como em todas as mais de 15 mídias de temas diferentes, vou apontando pra todos os novos tesouros que encontro pelo caminho, ao invés de anunciar em vão que o mundo está cada vez mais sem saída. Mas, para uma humanidade que tem Síndrome de Estocolmo, não há muito que possamos dizer ou fazer, porque os escravizados já se tornaram defensores ferrenhos de seus próprios opressores. Apaixonaram-se pela desgraça de tal maneira, que qualquer um que proponha bem-estar torna-se, automaticamente, o maior dos inimigos para tais pessoas.

Se chegarmos a qualquer beco popular deste mundo e anunciarmos qualquer coisa atípica, passaremos por esquisitos, presunçosos, elitistas. Seremos, geralmente, mal vistos, percebidos como inimigos invejosos que chegam apenas para criticar o “sucesso” alheio. Raras são as pessoas que terão condições de enxergar que nesse conflito habita a questão maior que é pouco vista e refletida, que é a própria Síndrome de Estocolmo e o idiotismo que chafurda nessa lama toda de vícios e equívocos. Poucos serão os seres humanos que admitirão que o vício em poder e ignorância os levou longe demais e que agora já não conseguem sequer se imaginarem bem com qualquer outra coisa que não seja estritamente isso, mesmo que apenas na eterna tentativa sem nunca terem de fato alcançado. Mas, mesmo quando não conseguem tal ideal, passam a defender quem conseguiu. Vira a cultura de culto ao inculto. E o oculto? Desaparece bem diante dos olhos dos que pensam ser videntes, na terra dos que não possuem sequer os dentes.

Vamos em frente. Vamos pela arte, vamos cruzando os países, enquanto as fronteiras ainda não estão fechadas ou fundidas pela colonização forçada dos povos, pelas guerras, pelo extermínio das culturas e dos focos de resistência. Vamos escrevendo, falando, lendo, pensando, exercendo. Vamos plantando sementes, deixando a fagulha cada vez mais próxima da gasolina. Vamos falar um pouco mais das verdades e tentar, assim, soterrar essa manada de mentiras. Vamos, enquanto ainda há paciência e energia, viajar pra perto das pessoas com as quais a inteligência contagia. Por hora, só vamos. Vamos?!

Rodrigo Meyer

O mundo das coisas comuns e previsíveis.

Eu “não sei” vocês, mas eu sempre vivi querendo ser surpreendido. Nunca me contentei com a mesmice, nunca me interessei pela rotina, pelas coisas comuns, pelas pessoas previsíveis, pelas situações banais. Três décadas e meia depois ainda estou a procura de algo que me surpreenda, principalmente por não ter encontrado muita coisa, apesar de tanto tempo passado.

Pra quem vive nessa realidade, é difícil se interessar pelo que acontece na Terra, porque aqui é o planeta da roda quadrada, onde, geralmente, nada de interessante acontece e tudo é tão óbvio que Nostradamus perderia a função ao tentar prever qualquer coisa, afinal todos já saberiam, com detalhes, o que ocorreria.

Querendo ou não, estou nessa sociedade que me faz bocejar. É fácil saber pra onde estão indo, o que estão pensando, até onde se estendem seus pensamentos, quais são seus preconceitos e suas vontades. Isso sem falar que, nas poucas vezes que algo ou alguém surpreende, uma grande parte é uma surpresa pra pior. Imagine quão restrita é a surpresa boa nessa equação. Simplesmente deixo as expectativas de lado e se algo ruim vier, não terá sido mais do que o já esperado e se algo bom ocorrer, ótimo. Dessa forma, não fecho as portas pras coisas boas, mas também não crio expectativas em vão pro restante. Menos expectativas, mais vida.

É preciso vigiar a nós mesmos, nossa realidade, nossas metas, nossas posturas. Às vezes nos damos conta de nossas falhas em um determinado dia, mas minutos depois já ignoramos o tema todo e seguimos errando. Assim não há progresso. Nisso também não há surpresa, pois não é preciso ser especial pra saber que o ser humano desiste muito rapidamente de suas tentativas de melhorar.

As pessoas acham que não fazer nada é mais cômodo, pois erraram tanto e tantas vezes que qualquer mudança parece um esforço sobre-humano.  É aquela velha analogia de ter varrido tudo pra debaixo do tapete e na hora de encarar aquela sujeira toda tem uma imensidão de lixo acumulado ali por baixo. Por isso, tão mais fácil é ir resolvendo os pequenos problemas ao longo do caminho sem ter que parar nem ter muito esforço pra melhorar. Subir uma escada do primeiro ao segundo andar é mais fácil do que dar um único pulo pra tal altura. Isso ninguém pode negar. E uma boa maneira de melhorar nesses quesitos é começar a rever quais das coisas você ainda é ou faz e aceitar as mudanças que forem úteis e necessárias. Deixe o passado pros arqueólogos.

Pra evitar um mundo comum e previsível, precisamos parar de postar as mesmas frases, de replicar as mesmas imagens, de usar as mesmas cores, de nos prender as mesmas fontes, de conversar com as mesmas pessoas, de tirar as mesmas fotos, com as mesmas poses. Se quisermos mudar o marasmo da repetição inútil e chata de tudo isso, precisamos agir. É preciso que seja extinto o conformismo com o vazio e superficial. Ou você dá sentido forte e verdadeiro à algo ou então é melhor deixar passar brevemente. Não perca tempo nas coisas sem valor. Dedique mais tempo num abraço sincero e apertado do que em horas e mais horas na companhia de quem não soma nada.

Às vezes de madrugada, onde não há carro algum pelas ruas, vejo gente parada no semáforo vermelho, sem a menor necessidade, feito zumbis amarrados a um cabresto. Não conseguem pensar por si só. Estão acostumadas a repetir o “pensamento” e a ação. Estão condicionadas a tudo, mesmo quando não precisam e/ou quando não deveriam. Tenho quase certeza que se colocasse um semáforo vermelho que nunca mudasse pra verde, no portão da casa das pessoas, elas parariam e nunca entrariam em casa. São incapazes de gerir suas próprias realidades. São inaptas pra vida. São só marionetes de algo que nem elas sabem o que é. Aguente o tranco, mas pra mim isso tem nome: desperdício de átomos.

Abro os grupos de Facebook com vontade de ver alguém dividir conhecimento e conteúdo, mas, claro, tudo que encontro por lá é mais do mesmo. É gente atoa que, por não saber o que fazer da própria vida, torna a vida dos outros igualmente inútil. Pela internet falta humor, falta argumento, falta arte, mas sobra preconceito, ignorância, mentes fracas. Todos querem, poucos oferecem. Todos podem, poucos fazem. Nenhuma surpresa.

Te desafio a contabilizar quantos grupos de Facebook possuem o mesmíssimo tema e função. Ao invés das pessoas ampliarem o potencial de um grupo, elas se espalham em milhares de outros idênticos, o que não ajuda, afinal, se faltou propósito para a criação de algo novo, esse novo já começou sem valor algum. União é vital se quiserem colidir com mais opiniões, mais pessoas, mais pontos-de-vista, mais possibilidades, mais diversidade. Tudo bem criar um ouro grupo, se achar que os valores e rumos de outro não satisfaz seus propósitos e ideais, mas criar centenas de grupos idênticos chega a ser patológico.

Abro os vídeos do Youtube e tenho vontade de me balear na cabeça. É um mar de entulho que não agrega absolutamente nada pra minha vida em nenhum aspecto. As pessoas já não conseguem raciocinar enquanto falam. Apenas falam. Chegam ao estado letárgico de apenas narrar o que veem. Olham pra uma parede e começam: “Aqui uma parede branca, do lado de uma parede também branca. E aqui, acima, tem o teto, branco também, como vocês podem ver.”. Fico torcendo pra surgir um guindaste pegando fogo pra interromper aquela inutilidade toda.

Felizmente sou salvo por alguns autores que quase sempre trazem algo legal de se absorver. Mas pense comigo: Não dá pra viver de meia dúzia de gente só. Essas pessoas não são uma fábrica infinita de conteúdo. Só a diversidade nos salvará. Precisamos de bilhões de pessoas produzindo e movimentando o mundo. Seria o equivalente a ler um livro de 200 páginas onde só seis páginas são interessantes e o restante são páginas em branco. Melhorem.

Vou procurar filmes e livros e aí descubro pra que serve a opção de fechar o navegador. Vou ao Google e, independente do que eu digite na busca, os resultados são sempre uma enxurrada de entulho. Notícias falsas, sensacionalismo, lunáticos empurrando produtos, cursos, vendas, mais vendas, vendas de novo e vendas. Se ao menos fossem cursos ou produtos bons. Geralmente é só mais do mesmo em um mundo onde a fraude reina. E, exatamente, as pessoas só podem oferecer o que possuem.

Recentemente um bar com música ao vivo fechou e eu me senti um pouco mais órfão de conteúdo, pois já não existiam opções por aqui onde eu moro e agora tenho que aceitar que a música também está morrendo. Aliás, vale destacar que apesar de ser um bar de música ao vivo, a maior parte das bandas que se apresentavam por lá eram covers, tamanha a previsibilidade do ser humano. Criar, jamais. Imitar, sempre. E ainda há quem chame isso de homenagem às bandas originais. Como uma cópia pode ser uma homenagem à originalidade? Chega de mais do mesmo!

Estamos em 2017 e ainda somos totalmente dependentes do passado. Ligamos o rádio pra ouvir clássicos, pois ninguém está produzindo nada de relevante atualmente. Antigamente os rádios é que apresentavam as músicas ao público e hoje em dia é o público que pede as músicas que quer ouvir na rádio. Assim, só escutam o que já conhecem. Deplorável.

Nos meses recentes fiz uma faxina geral na minha vida, dentro e fora da internet. Uma desconexão com uma tonelada de coisas que só estavam lá paradas, sem nenhuma função. O desvalor de tudo aquilo estava pesando. É o famoso peso morto. Odiamos carregar algo que não nos serve pra nada. É como carregar um guarda-roupas pesado nas costas, apenas pra irmos até o bar e voltar.

Por muitos e muitos anos venho praticando a ideologia do minimalismo com o lema “reduzir, reduzir, reduzir”. Isso tem me aberto muito espaço para criar. As pessoas se questionam como ou porquê tenho tantas atividades, em tantas mídias diferentes, diversas funções e profissões. Eu não consigo olhar pra escassez e não me sentir compelido a preencher com algo pra criar. Isso é o que me faz estar em tantas frentes ao mesmo tempo. Mas como consigo isso? Sobra tempo? Claro que sim. Especialmente porque na prática do minimalismo jogamos fora tudo que não tem serventia real. Depois que eliminamos todo o entulho, sobra tempo, espaço e vontade pra gerir as poucas coisas que de fato nos valem de algo.

Cabe a nós, então, aproveitar o momento e fazer com que essas coisas sejam realmente interessantes, fora do comum, não previsíveis. Não é fácil, especialmente depois que fomos moldados socialmente a viver feito zumbis, copiando tudo, incapazes de sermos nós mesmos e pior que isso, muitas vezes sem nem sabermos quem somos pra poder exercer nossa essência. Estamos literalmente mortos e só haverá alguma chance se um dia resolvemos nos opor a mesmice e começar a abrir os olhos e a mente para o novo, para a diversidade. Surpreenda o mundo, surpreenda-se. Todos saem ganhando.

Rodrigo Meyer