Porque atalhos são mais demorados?

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2006 das Pirâmides de Gizé, no Egito, de autoria de Ricardo Liberato.

Observando a sociedade, vemos muita gente a espera de vantagens. Elas querem, de alguma forma, um benefício que as impulsione além. Porém, quando se tornam tão obcecadas por isso, acabam ficando cegas e não discernem bem as ferramentas disponíveis e a eficiência de cada uma. Por vezes querem tudo pra ontem e brilham os olhos de entusiasmo quando veem um atalho pra supostamente conseguir o que se quer. Eis que são fisgadas pela falta de prudência.

Eu sempre costumo repetir que ‘se atalho fosse bom, já seria o caminho principal”. Se existe um trecho a ser percorrido e é possível escolher um trajeto que leve menos tempo do que o trajeto anterior, há de se pensar porque este trajeto é secundário e não o principal. Se as pessoas não usam o menor caminho como principal caminho, é porque há desvantagens no menor caminho. Por algum motivo, o caminho principal se tornou principal pois era o mais estável. Fazendo uma analogia, algumas jornadas de avião requerem uma parada em determinados países e/ou aeroportos específicos como parte da viagem total. Já imaginou se uma viagem que normalmente leva 12 horas, fosse feita em 7 horas, mudando a rota pra uma linha reta de ponto a ponto, sem paradas? Você consegue imaginar as desvantagens e riscos de se fazer uma alteração desse tipo? Pois bem, quem planeja as escalas de voos imagina.

Outro exemplo bem conhecido são as estradas que passam por montanhas. Ao subir ou descer a serra de carro, frequentemente se passa por curvas, algumas bem fechadas. Porque razão a estrada não é uma linha reta do ponto A para o ponto B? Existem alguns motivos. Um deles, talvez menos conhecido, é a estratégia de prevenção de acidentes, impedindo que o motorista passe muito tempo dirigindo em linha reta, pois isso o acomoda na monotonia e pode ser um risco de acidente bem maior do que obrigá-lo a lidar repetidas vezes com curvas e mudanças de direções. O outro motivo disso, é, claro, que para subir a serra, ângulos menos íngremes são mais fáceis de serem superados pelo carro. Você não verá ninguém brincar de alpinista pilotando um carro, a menos que seja um show de façanhas mortais. E para que se suba gradualmente uma montanha, o vai e vem das curvas conecta a estrada em cada gradação de elevação.

De maneira simplista, tendemos a acreditar que o caminho mais curto é melhor, mas na verdade, a menor distância e tempo não significam melhor caminho e, na verdade, quase sempre não são de fato mais rápidos. Imagine um carro tentando subir a montanha em linha reta. Certamente ele passará tanto tempo tentando sair do chão que seria o último a chegar no destino, se é que conseguiria chegar. E essa é a analogia que deve se carregar pra outras situações da vida.

Tudo que parece muito fácil ou cheio de benefícios adicionais, requer uma atenção sobre como isto será disponibilizado. Há algum tempo atrás lia com sorriso no rosto a notícia de que haviam conseguido o feito do teletransporte. Sim, sob um laboratório, conseguiram transferir madeira de um local ao outro, porém, o processo utilizado não reagrupou decentemente a madeira no destino final, deixando sua composição toda bagunçada, apesar de ter sido um sucesso o teletransporte em si. Esse é um exemplo de como tentar encurtar distâncias por atalhos tem problemas atrelados. Quando finalmente conseguirem executar um teletransporte com segurança, provavelmente este atalho se tornará o caminho principal. Se hoje, pegamos ônibus, trens e aviões para ir de um canto ao outro, talvez no futuro, faça mais sentido usar o teletransporte. Mas enquanto ele não for estável, não será o caminho principal escolhido pelas pessoas e, enquanto for mero atalho, não será tão bom ou útil quanto um caminho principal.

Saindo um pouco desses exemplos com distâncias e transportes, imagine setores da vida onde as pessoas tendem a desejar atalhos. Elas querem, por exemplo, enriquecer mais rapidamente do que apenas esperar que o trabalho ao longo dos anos traga algum retorno financeiro. Elas querem ter um relacionamento sem ter a premissa das fases de envolvimento com as pessoas, do conhecimento, da amizade, etc. Tudo isso só ressalta o despreparo e a ingenuidade dessas pessoas. A ansiedade em ter mais em menos tempo, faz as pessoas atropelarem a ética, a segurança ou outros valores que vão impactar na hora do processo ou desfecho. É o caso, por exemplo, quando as pessoas querem descartar o aprendizado pra ir direto para prática. Vejo muita gente entrar pra uma profissão da noite pro dia, sem estudar o necessário. Caem de paraquedas, desejando que a compra de um simples equipamento ou crachá, lhes farão profissionais habilitados. Com alguma sorte, as pessoas se apercebem da perda de tempo que isso representa. Terão, em algum momento, que voltar ao zero pras estudar o que não estudaram e, certamente, gastando mais tempo e mais dinheiro pra retificar a imagem negativa, os tropeços profissionais por conta do desconhecimento do que se faz, e assim por diante.

Inúmeros são os motivos pra não se buscar atalhos. Ignorar isso não vai te fazer chegar na frente. Embora o empirismo deva ser incentivado, ele nunca pode ser exercido com negligência. Uma coisa é você se colocar a fazer algo novo e experimentar as condições, o processo, os resultados e aprender sobre qual a melhor forma de se fazer ou não tal coisa. Outra, completamente diferente, é se colocar a fazer, buscando especificamente por redução de tempo, de impacto ou de custo. Você pode embrulhar uma pintura à óleo com a tinta ainda fresca, mas certamente vai borrar toda tinta em contato com a embalagem e gastará muito mais tempo pra refazer. Se não tiver disposição pra esperar a tinta secar, terá que aprender algum processo seguro que seque essa pintura em menos tempo. Nesse processo, talvez você descubra que deixar a tela próxima de uma fogueira ajuda a secar mais rápido, porém pode, eventualmente, descobrir que o calor intenso do fogo destrói os pigmentos da tinta ou causa rachaduras nas pinceladas. São essas pequenas possíveis reflexões que devem se fazer antes de promover um atalho a caminho principal.

Durante o avanço da sociedade, muita coisa mudou de processo e pudemos visualizar melhorias significativas na qualidade de vida das pessoas. Mas, em paralelo a isso, sempre se buscou refinar esses processos a fim de se garantir segurança e consistência nos resultados. Pra se viver de maneira inteligente, é preciso respeitar o tempo e o processo das coisas, especialmente no que diz respeito a saúde física e relacionamentos. Tudo que o ser humano deseja ser, ter ou fazer, precisa passar por um filtro simples de reflexão sobre motivos, resultados esperados e resultados obtidos. Assim que paramos de desejar o impossível, paramos de bater a cara no muro. Isso serve não só pra para proteger a nós mesmos de nossa ansiedade e descontrole, mas aos demais ao nosso redor que terão que lidar com o modo como vivemos em sociedade. Quando as pessoas se tornam mais realistas sobre o que desejam e fazem, o mundo se torna mais agradável de se viver, mais estável, mais tranquilo e mais seguro. A partir dessa base sólida é que se constrói a novidade, o futuro.

Vale citar até mesmo países que conquistaram avanços sociais únicos, simplesmente por nunca darem o passo maior que a perna e fortaleceram suas bases ao longo da história antes de desejarem ser o que hoje finalmente são. Assim como uma pirâmide, o maior tempo e esforço é no planejamento da estrutura e na construção da enorme base. É com essa visão que se chega ao cume das possibilidades, das invenções, dos progressos no estudo, etc.

Isso não significa, porém, que você deva se tornar desestimulado a progredir ou a ir além. É exatamente o inverso. É, exatamente, por deixar de buscar atalhos que evitará de andar em círculo ou de cair. Economizar tempo na vida é exatamente percorrer o caminho certo desde o início, pra não ter que refazer o percurso. Invista em você e respeite o valor de sua pessoa e do seu tempo. Nunca se sabote escolhendo opções tentadoras que, no final da contas, são só ilusões e prejuízos. Há uma frase que diz “Se algo está muito fácil, você está fazendo errado.”. Fica a reflexão.

Rodrigo Meyer

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Qual a próxima invenção de sucesso?

A imagem que ilustra este texto é a soma de parte da obra “New Inventions of Modern Times [Nova Reperta], The Invention of the Compass, plate 2” datada de 1.600, do artista Jan van der Straet (também conhecido como Stradanus) com a foto de um equipamento do ano de 1970 chamado “Videophone”, fabricado pela empresa Matra.

Uma fórmula simples de prever qual a próxima ideia, serviço ou produto que possivelmente vai ser sucesso, é determinar, antes, qual são as necessidades da sociedade, o que é que as pessoas estão precisando para resolver problemas reais. Por exemplo, se estivéssemos em uma era anterior a invenção da roda, certamente ainda teríamos inúmeros problemas ao tentar movimentar certos objetos. Entender o que gera a dificuldade, aponta pra solução. Se um cubo tem resistência em girar por conta do atrito com o solo, remover o máximo dos cantos possíveis, pode ajudar a resolver o problema de mobilidade. Assim, a invenção torna-se simplesmente a solução de problemas compreendidos. E torna-se um sucesso diante do público, se for algo que resolve o problema pra muita gente. A demanda pela solução é um chamado vivo para a invenção.

Há uma frase que diz que ‘a necessidade é a mãe da invenção’. E é basicamente isso. Entender o futuro é muito mais do que tentar adivinhar. As próximas criações que vão estar em uso ou demanda pelas sociedades, são itens dos quais já se tem necessidade antes mesmo da invenção. Claro que, não saberemos quais delas serão concretizadas primeiro, já que há muitas demandas, porém nem todas estarão prontamente resolvidas, devido as barreiras de compreensão dos detalhes dos problemas ou de dispor / encontrar da tecnologia, ciência ou meios necessários pra se aplicar essa solução em um projeto consistente, seguro, eficiente, etc.

Um exemplo simples de previsão tecnológica foi quando ainda usávamos botões físicos no celular ao invés da tela touchscreen com a sensibilidade ao toque e movimento. Embora já se pensasse nessa solução, ainda não se tinha a tecnologia necessária pra entregar isso de forma compacta pra um celular. Hoje em dia os smartphones são uma realidade tão comum que nem imaginamos um telefone celular que não disponha de touchscreen.

As próprias invenções também apontam novas necessidades. Pegando os smartphones como exemplo, depois que passaram a interagir com aplicativos de fotografia e vídeo como no Instagram, por exemplo, evidenciaram uma nova necessidade para muitos usuários, que seria um acessório de apoio para firmar os dedos por trás do celular, dando maior estabilidade pra filmar ou assistir, sem precisar segurar com os dedos fechados, reduzindo o risco de queda, inclusive. Foram criados, então, diversos plugs e acessórios para tal. O mesmo pode ser dito da película protetora de tela, da capinha de plástico e toda infinidade de acessórios. É sempre a necessidade que aponta a próxima invenção, a próxima tendência.

Torna-se mais difícil prever novidades no campo das ideias, uma vez que não conhecemos exatamente os problemas e demandas de cada indivíduo. A mente humana é muito diversa e, para algumas coisas, as necessidades podem não ser tão claras ou homogêneas entre toda a sociedade. Qual será a próxima ideia que vai conquistar grande número de adeptos? Difícil saber. Para isso precisaríamos conhecer mais como é formada a mente média das pessoas e estar muito atento a todo o cenário, as mudanças em termos de adições ou subtrações de informações, de cenários sociais, políticos, psicológicos, aspectos da cultura, descobertas científicas, questões históricas, entre outras coisas. Nesse sentido, o ser humano pode ser um tanto mais imprevisível ou difícil de prever com precisão.

Mas, se o objetivo for estritamente descobrir as próximas invenções de produtos e serviços, certamente é fácil entender do que já temos, o que nos é um problema e do que precisamos para resolvê-los. Diversos grupos, inclusive, usam da pesquisa de público pra se orientarem na comunicação ou na melhoria de seus conteúdos. Não existe, afinal, outro meio de acertar do que conhecer as pessoas a quem tentaremos levar nosso acerto. Por isso, nunca podemos parar de observar e tentar enxergar além das aparências e rasas deduções. Um olhar mais profundo sobre as motivações e os contextos psicológicos de cada indivíduo são indispensáveis para se alinhar com a realidade ao invés das fantasias ou preconceitos.

Sempre reforço em meus textos o quão importante é ser realista. Pessimismo é ilusão e otimismo também. Ser realista não te impede de estar em paz. Na verdade, penso que se tem algo que pode ajudar a ficar em paz, é aceitar a realidade. Uma vez que você não luta contra fatos, você está tranquilo o suficiente pra lidar com eles, observá-los, entendê-los e, então, poder fazer algo sobre. Esta deve ser a postura de quem quer ver os problemas do mundo reduzirem e as soluções aumentarem. Lutar por progresso é combater sentimentalismo vazio e pensar em dados concretos para entender onde estamos e pra onde queremos ir. Entender os problemas, as origens, as demandas e quais as soluções necessárias, as invenções futuras.

Deixe nos comentários uma criação que você gostaria muito de ver na sociedade.

Rodrigo Meyer