Sua roda de amigos é diversa?

Apesar do Brasil ser um país de bastante diversidade e mistura étnica, o modo como a sociedade se organizou, deixou um rastro de separatismo visível e invisível. Ainda que em certo convívio diário, ainda se vê estas claras separações sociais, isolando determinados grupos ou características, privando-os de acesso ou boa receptividade em determinados outros meios e grupos de pessoas. De forma geral, essas separações são fruto de uma cultura de racismo, machismo, preconceito de classes, entre outras mazelas humanas. Em decorrência desse modelo adoentado de sociedade, ocorre uma baixa diversidade nos grupos de interação humana, tanto nas amizades, relacionamentos amorosos, espaços de trabalho, espaços de lazer, de compra e os próprios espaços de moradia.

Lembro de um episódio de quando eu era pré-adolescente, onde um amigo de escola me chamou pra opinar sobre um dilema dele. Fiquei contente pela confiança prestada, mas não havia passado pela minha cabeça a possibilidade daquela indagação feita. Ele perguntava, ao modo da época, sob a ótica da idade, se ele seria considerado ‘negro’ ou ‘pardo’ na sociedade, pelos termos dele mesmo. Eu, surpreso pela pergunta, fiz uma breve análise e comentei a única coisa que sabia: que o tom de pele dele era mais escuro que o meu, mas eu não fazia a menor ideia de quais eram os pré-requisitos pra que aquilo fosse classificado ou determinado. Eu entendi que a inquietação dele diante do tema era reflexo da visão pejorativa que ele mesmo desenvolveu sobre sua característica ou condição, ao perceber que na sociedade racista em que vivíamos, quanto mais escuro fosse o tom de pele, menos prestígio social a sociedade atribuía ao indivíduo. Ele desabafava sobre se considerar ‘branco’ e se, não me falha a memória, filosofava sobre classificações, embora tudo aquilo, na época, não fazia muito sentido pra mim, já que estávamos em um ambiente onde haviam centenas, senão milhares, de tons diferentes de pele e qualquer que fosse o nome escolhido, continuariam diversos.

Esse episódio me marcou, provavelmente, porque foi a primeira vez que parei pra refletir por meses sobre diversos aspectos da psicologia humana, questões sociais e como a estrutura do racismo de fato agia na sociedade. Nesta época, ainda percorria anos em depressão e aproveitava meus momentos de intensa reclusão, para pensar. Isso me permitiu refletir sobre muita coisa e também de me tornar um observador engajado da conduta humana. Fechado em meu mundo, com muito poucos contatos e talvez nenhum amigo de fato, olhava para aqueles problemas e conseguia entender com grande facilidade. As coisas injustas, os equívocos e os interesses nefastos de grande parte das pessoas, saltava diante dos meus olhos, evidenciadas por si mesmas, bastando que eu estivesse ali, sem evitar de ver. No final das contas, ser observador, naquele contexto, era simplesmente viver com os olhos abertos normalmente, algo que a maioria das pessoas ainda não faz.

Era fácil ver a diferença em todo lugar, visitando a feira, andando pelo supermercado, folheando as revistas, acompanhando os filmes e programas da televisão. Se antes nunca havia parado pra pensar em quanta diversidade havia ou deixava de haver no meu círculo de convívio, com essa atenção voltada ao tema, foi instantâneo notar que, de fato, a sociedade estava fragmentada ao invés de unida indistintamente. As pessoas estavam separadas, basicamente, por conta de distorcidas visões de mundo, ideias, preconceitos, vontades, recusas, medos, erros, entre outras coisas. Eram tempos, talvez, nada diferentes de hoje, onde ainda vemos gente ostentando sobrenomes, profissões, crachás, diplomas, cargos e outras piadas de mal gosto.

Fato é que, podemos fazer uma análise simples das pessoas de nosso convívio e medir essa diversidade. Se você nasce em determinado lugar, mora em determinado bairro e frequenta determinadas escolas, as chances de seu círculo de convívio ser totalmente (ou quase) composto por pessoas similares é grande. No bairro onde passei minha infância, na mesma rua, convivia-se com diferenças entre os próprios vizinhos. A diversidade  de pessoas, escolaridades, classes sociais, idade, etnias, gêneros e outros aspectos, estava lá, viva e fluindo. Naquele tempo, saíamos de casa pra brincar, pra ralar joelhos nos carrinhos de rolimã, empinar pipa, comprar gelinho, jogar bola, inventar decoração de festa junina ou simplesmente convidar as pessoas da rua pra estarem na sua festa de aniversário. Ainda que isso fosse uma realidade, ao mesmo tempo era claro ver que o que uns consideravam normal, outros estufavam o peito pra desaprovar. O preconceito sempre esteve lá. As pessoas podiam estar todos os dias em nosso convívio, mas sempre haveria alguém plantando a semente do racismo, provavelmente pra tentar atribuir valor em si mesmos, mesmo que de maneira imaginária e doentia. Eu podia ouvir as pessoas destilando xingamentos, expressões pejorativas, exclusão prática, por mais que não fossem capazes, em momento algum, de esclarecer o sentido daquela conduta automática. Mal sabiam elas que foram marionetes frágeis, usadas por influenciadores que também foram marionetes de outras marionetes numa terrível sucessão histórica. Acostumados a não pensar, chamavam aquilo de pensamento.

Conforme fui crescendo, mesmo que em discordância de tudo isso, o peso do separatismo social preexistente ainda formava círculos de convívio pouco diversos. Ao percorrer por outros bairros, mudanças de casa, trocas de escola, cursos aqui e alí (principalmente os de faculdade), ficava claro o quanto ainda seguíamos segregados uns dos outros. Não compactuar com isso me permitiu cavar meus próprios caminhos para estabelecer conexão e convívio com a diversidade. Enquanto muitas pessoas ao meu redor ocupavam seus dias em falar mal dos outros, eu fugia cada vez mais desses cenários, pra não ter que conviver justamente com estes que se achavam melhores, mas que nada somaram pra mim. A cada vez que eu exercia a natural diversidade, aumentava o desprezo pelas pessoas preconceituosas, por ainda precisar dividir teto, festas ou alguma outra necessidade de socialização ou interação.

É interessante como, automaticamente, todos os estereótipos pejorativos que meus parentes tinham, rapidamente se converteu num imenso tapa na cara devolvido, quando eu cruzei a adolescência e a vida adulta. Para o desprazer de muitos, mas para o meu prazer, dividi ótimos momentos ao lado de pessoas de todo tipo. Moradores de rua, periféricos, ricos, escolados, desempregados, músicos, atores, dançarinos, prostitutas, boêmios, usuários de drogas, estrangeiros, gays, lésbicas, trans, andróginos, hippies, punks, góticos, rapers, skatistas, negros, brancos, amarelos e vermelhos. Se houvesse oportunidade de conhecer marcianos, animais falantes e robôs, certamente também teriam sido inclusos nas mesmas rodas de convívio. A minha vida se tornou basicamente andar pelas ruas, pelos bares, pelos apartamentos, pelas casas de amigos de amigos e, praças, casas noturnas e qualquer outro canto onde tivesse gente e alguma coincidente incompatibilidade com o resto do mundo. Estávamos lá, pra repartir alguns copos de bebida, uma música, risadas, conversas, fotos, aventuras, sexo e, para alguns, oportuna sincera amizade.

Hoje em dia, infelizmente, estes meios onde normalmente se via tanta gente alternativa, misturada e divertida, hoje não representa mais os mesmos valores. Nestes espaços passou-se a ecoar o ranço do preconceito, das pessoas superficiais, violentas, alienadas, imaturas, buscando apenas fama pela aparência em um mundo de status para os que nunca tiveram isso. Eles tinham tudo pra dar certo e somar pro mundo, mas se corromperam pelas mesmas bobagens que antes diziam combater ou desprezar. E foi assim, que, pouco a pouco, eu fui me recolhendo, voltando pro isolamento e para novas reflexões. Meu círculo de convívio continua diverso, mas muito mais restrito, infelizmente. Nem mesmo com o poder da internet consigo encontrar muita gente pra dividir bons momentos comigo. Não queria me tornar um chato saudosista, mas, infelizmente tem sido assim a realidade apresentada. São poucas as pessoas do cenário geral que refletem a diversidade que eu gostaria de ver. Talvez a globalização e a internet ajudaram a normatizar tudo e todos e, agora só existe uma grande salada de gente sem sal, sem conteúdo e sem quintal. Onde é que eu vou brincar agora?

E sua roda de amigos, como anda? O que você tem feito pra combater esse funil social artificial de separatismo e preconceito nesse modelo adoentado de sociedade?

Rodrigo Meyer

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Sobre empoderar-se.

Diversos grupos humanos ou tipos de pessoas passam por situações de desafio na vida, onde podem acabar depreciados indevidamente pelos outros e/ou por si mesmos. Diante dessa irrealidade, coletivos, famílias, grupos de amigos ou colegas de espaços na internet, frequentemente estão no papel de tentar desconstruir e reverter a visão depreciativa que foi plantada e, então, alicerçar sobre os indivíduos uma noção positiva sobre si mesmos. Tudo isso soa excelente e, a princípio, é exatamente isso que deve ser construído no geral. Contudo, precisamos falar sobre detalhes e nuances desse processo, para entender papeis, lugares, momentos, direções, significações, espaços, equívocos, entre outras coisas.

Quando se fala em empoderamento, especialmente nos tempos modernos de lutas sociais e pessoais em evidência nas mídias e nos espaços de apoio, cultura e educação, geralmente estamos falando em reconstruir um pensamento, uma visão ou um sentimento sobre o indivíduo (ou um coletivo) que, até então, sentia-se aquém de seus potenciais, valores, direitos, etc. Para deprimidos, mães solteiras, mulheres, idosos, enfermos, cadeirantes, neuro-diversos, homossexuais, trans, desempregados, como também determinadas etnias, classes sociais, nacionalidades e qualquer pessoa que disponha de qualquer característica ou condição que lhe afete, no sentido de reduzir a autoestima, a inclusão ou a sensação de valorização e respeito na sociedade, quando se usa a ideia de empoderamento, normalmente isso vem acompanhado de uma tradicional carga de reforços positivos com o objetivo de corrigir e enaltecer o que antes estava equivocado e desmerecido, por assim resumir.

Mas, é preciso pontuar que nesta iniciativa, deve-se vigiar de dentro pra fora o tipo de intervenção ou resultado que se está fazendo na mente ou na sociedade. Quando olhamos pra dentro de nós mesmos em busca de uma imagem melhor, não podemos simplesmente descartar os parâmetros de nossa própria realidade ou mesmo o respeito diante daquilo que consideramos um ideal. Da mesma forma que não devemos nos subestimar nem subestimar os outros, não devemos nos superestimar nem superestimar os outros. E qual é a medida realista para cada caso? Por sermos diversos, cada pessoa tem uma realidade e condição diferente, e é sobre esta realidade em particular que o indivíduo deve pautar sua reflexão ou parâmetro para entender quem é e o que deve ajustar para se expressar tal como é.

Muitas vezes as pessoas se sentem menos capazes ou menos aceitas para uma determinada tarefa, por exemplo, podendo se afastar de certas tentativas ou interesses, como um resultado de frustração, desistência, vergonha, medo, insegurança ou até mesmo por algum outro motivo que não saiba definir forma e origem. Crescer, dentro desse contexto, é empoderar-se no exato sentido de ganhar poder, o poder que antes não se tinha ou não se sentia ter. Não significa exercer poder sobre os outros, mas descobrir e exercer seu poder sobre si mesmo e sobre as atividades a que tem potencial para tal. É o caso, por exemplo, do indivíduo que se reconhece diante de si mesmo e do mundo, como uma pessoa habilidosa em Comunicação e usa esta habilidades com liberdade e orgulho para ocupar seus possíveis espaços, exercer sua personalidade, seu talento, sua vontade, seu estilo, seu trabalho, seu hobby, etc.

Em uma situação normal, essa habilidade já seria reconhecida e apoiada desde o início ou, pelo menos, não seria negada ou recusada de forma tão incisiva. Mas, em casos onde as pessoas são descriminadas, pode ocorrer ausência de apoio no círculo social, familiar, profissional, de amigos, etc. É nesse momento que a pessoa pode sentir um descompasso entre o que ela é e o que outras pessoas permitem que ela seja. Tal como um pássaro aprisionado em uma gaiola, que, embora tenha o impulso natural de voar, está limitado pelo cárcere. Por vezes, não notamos exatamente o que é que nos desvia de nossos potenciais ou objetivos e, tardamos a descobrir que nos sentíamos inferiores ou tolhidos em nossa expressão, devido a desvalorização desproporcional ou preconceituosa de outras pessoas ou grupos. Isso afeta até mesmo a nossa percepção de quem somos e quem gostaríamos de ser. É como se mudássemos nossa escala de parâmetros de realidade, aceitando como “realidade” um contexto que é, na verdade, ilusório.

É pela repetição que o ser humano detecta padrões em tudo. As condutas, as tendências, os resultados, as chances de vitória ou de fracasso, os conceitos subjetivos do que é bom ou ruim, do que é certo e errado, do que tem ou não valor, do que pode ou não ser feito. Porém, essas repetições podem estar presentes na vida mesmo não conferindo com a realidade. O preconceito e a repetição de padrões equivocados, forja um esquema social que transforma as condições e as oportunidades para determinadas pessoas, mudando completamente o tipo de realidade que elas terão repetidas vezes, até se tornar algum tipo de tendência para um padrão. Isso significa que, por exemplo, se a sociedade nega emprego a cadeirantes repetidas vezes, acabará gerando um grande coletivo deles em situação de desemprego e, em razão disso, torna-se padrão o desemprego acompanhado da condição de cadeirante. Mas perceba que esse padrão é forjado por uma determinada conduta externa e não pela condição do indivíduo em si.

Apesar de esclarecido isso, muita gente não se apercebe dessas amarras sociais e sente como se sua condição atrelada a alguma recusa ou insucesso, fosse algo “compreensível” e “normal”, uma vez que esse parâmetro se tornou comum / massificado na média de como as pessoas ao redor lidaram com o tema. Assim, as pessoas podem se depreciar, antes mesmo de terem tentado uma expressão em algo. Inúmeras vezes vimos frases similares a “eu não tenho nenhuma chance, sou apenas um qualquer, filho de … (insira aqui alguma profissão que normalmente é vista como secundária ou de menor valor na sociedade)”. A autoestima das pessoas vai ruindo a cada vez que elas recebem palavras, ações e recusas por parte das demais, pois o ser humano, como a maioria dos animais, é um ser social e, na exclusão, se vê podado de sua natureza, de sua essência e de seu direito nato de se expressar como indivíduo e como peça encaixada em um coletivo ou sociedade.

Quando a cultura local está comprometida a ponto de não conseguirmos fomentar ações de fora pra dentro ou do cenário macro para o micro, as ações nascem, da forma que podem, de dentro pra fora e do cenário micro para o macro. Porém, esta tentativa improvisada de resistência traz consigo algumas barreiras, como é de se esperar. Enquanto o coletivo convencional da sociedade ainda não está aberto para determinadas mudanças e realidades, toda iniciativa de empoderamento, chacoalha e incomoda o espaço convencional, porque evidencia nele a inação, o preconceito, as falhas, as fraquezas, etc. A cada vez que alguém se empodera em um grupo ou mesmo individualmente, isso repercute nas demais pessoas, quase que instantaneamente, pois estamos, saibamos ou não, interligados enquanto sociedade. Todo ser que divide este mundo, está agindo e reagindo em um cenário onde toda ação e percepção é compartilhada através dos vínculos nas relações físicas, emocionais, geográficas, profissionais, políticas, etc. Tudo que fazemos ou deixamos de fazer, afeta algo e/ou alguém e isso não pode ser anulado ou coibido, pois é um efeito automático e natural indissociável da existência no mundo.

Entendidas tais premissas, plantar empoderamento, sem levar em conta o cenário, é ignorar planos e objetivos no próprio ato de luta para a transformação da sociedade em favor de uma causa ou grupo. Partindo da premissa de que devemos suscitar mudanças para a realidade que gostaríamos de ver, não podemos acreditar que a repetição de erros já identificados possam, dessa vez, serem usados em tom de acerto. Há uma frase de Paulo Freire que fala exatamente disso:

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”

Por vezes, o empoderamento escapa pelos dedos da mão e as pessoas acabam usando o resgate de si mesmas como uma forma de vingança onde perpetuam um papel ou cenário que, no final das contas, não consolida a transformação desejada e, reforça uma certa validação social, mesmo que inconsciente, de que não há objetivos válidos, apenas lados buscando assumir a opressão, conforme melhor conseguirem se posicionar nessas batalhas imaginárias de tomada de espaços e valores acima de outros.

É claro que, devemos compreender também que o efeito de uma opressão enraizada por muito tempo, fomenta uma explosão de conduta e que deve ser compreendida tal como apontado pela frase que diz “Não se deve confundir a reação do oprimido com a violência do opressor.”, apontando exatamente que, nem toda reação “drástica” é uma violência por si só. A reação para uma ação não é uma ação por si só, mas um resultado da ação inicial do outro. Assim, não se pode esperar controle ou supressão de determinada reação ou vontade de reação, depois de já se ter demonstrado ações ou vontade de ações de forma arbitrária e gratuita. É exatamente isso que explica porque em um cenário de normalidade, não há reação a violência, posto não haver violência inicial para requerer algum tipo de reação. E de igual maneira, para uma violência inicial, a defesa na reação é o esperado, para equiparar em tom de justiça a equação que se desviou da normalidade ao brotar indevidamente. E é este exato caso que explica como e porquê expressões de fascismo não são toleradas. O empoderamento humano, sob a premissa da liberdade e da dignidade humana, combate a “célula cancerígena” no ambiente social, mesmo ainda se tratando de “célula” como as que ainda estão saudáveis.

Considerações importantes para o empoderamento humano exigem reflexão extensa e, certamente, dariam bibliotecas inteiras de conteúdos e questionamentos para mais desenvolvimentos. Enquanto o ser humano estiver cercado desse tipo de ambição de dominar e expor a realidade dos indivíduos, no âmbito pessoal e coletivo, teremos chances de corrigir equívocos não só na origem externa, como também os de origem íntima, como quando nos deixamos levar pela ilusão plantada pelos preconceitos e opressões da sociedade. Da mesma forma que há indivíduos buscando empoderamento para superar esses cenários onde foram vitimados de alguma forma e/ou em algum grau, há também pessoas precisando de extensa transformação para elas mesmas se redescobrirem como pessoas, fora daqueles espaços convencionais onde habitaram por muito tempo, iludidos por poder, violência, preconceito, ganância, etc.

Ainda que eu consiga ver com certa clareza esses dois espaços, jamais poderei negar a mim mesmo a necessidade de dar preferência aos massivamente vitimados por tais opressores, do que aos opressores que são, em última análise, também vitimados por algum outro cenário que os colocaram nesse terrível papel. Tal escolha, além de instintiva é a mais adequada do ponto de vista racional, bastando retornar para a analogia com o câncer e perceber que se quisermos ter alguma chance de salvar o total de um paciente, precisamos ponderar os limites entre a quantidade de células saudáveis, a quantidade de células cancerígenas a serem eliminadas e a resistência para o processo de combate. Assim, quanto mais cedo se intervém no câncer, melhores são as chances de cura, conforme os próprios médicos explicam tais estatísticas. E, para um corpo onde o câncer já se espalhou em tempo e quantidade, torna-se mais difícil ou impossível de reverter o quadro geral. Assim posto, todo esforço de ajuda deve abrir os olhos para prioridades, tempo, quantidade, efeitos, ferramentas e nível de ‘resposta’ do paciente a determinadas iniciativas de tratamento.

É sob esta expectativa que pauto minha estratégia para refletir e reagir ao mundo que me é apresentado. Não espere de mim um produto pronto e acabado, mas também não tome como garantida a falha por padrão, pois estou, constantemente, em batalha por mim mesmo e por tantos outros. Teoricamente, haveria espaço ilimitado para continuar a desenvolver o tema deste texto, porém, já está extenso o suficiente para a média do que tenho ofertado na maioria dos artigos desta mídia. Espero, contudo, poder retornar e pinçar este texto como referência de base para o que de novo eu puder adicionar. Acredito que, construindo a expressão ao longo de todos esse artigos já escritos, exige, proporcionalmente, que os que me leem se pautem pela cruza de informações que se pode ter no total dos textos e não apenas de uma publicação em isolado. Por isso, convido a todos vocês que chegaram até aqui por conta desse tema em específico, que visitem o restante do material, desde o início, assim poderão viajar junto nessa jornada. A minha missão, sobretudo, é sinalizar e apoiar a missão de todos vocês, enquanto houver algum norte em comum. Bem-vindos e obrigado por me “aturar”.

Rodrigo Meyer

O que nos cabe nas lutas alheias?

Quando pensamos em causas sociais, lutas pessoais ou coletivas ou qualquer campanha ou esforço sobre algum tema, precisamos lembrar de algumas premissas básicas. Inicialmente, se a luta em questão for específica pra um grupo ou fatia da sociedade, automaticamente essa luta tem protagonistas, que são os próprios interessados e beneficiados pelos resultados da causa.

Em outros casos, as lutas podem ser abrangentes a um coletivo mais genérico e, a princípio, todos podem se tornar ativos igualmente na ação. Há causas, porém, que apesar de não sermos os beneficiários diretos dos resultados, nos tornamos, de alguma forma, como os porta-vozes, devido a questões como ausência de voz ou liberdade daqueles a quem vamos representar (como causas de proteção à natureza, animais ou, então, pessoas que se encontrem em situações onde praticamente não podem responder por si mesmas, seja por razão de suas condições físicas, mentais, emocionais ou pelo contexto específico do problema ao qual estão submetidas).

Essas são algumas diferenças básicas. Nos segmentos de lutas humanas, encontramos os protagonistas e, por isso, é deles o papel de falar em nome da causa da forma que lhes for mais oportuna. Não se pode querer, por exemplo, falar em nome de um grupo ao qual não seja protagonista. Isso não quer dizer, porém, que devemos ser omissos ao assunto ou de não interferirmos diante de uma situação que cobra uma ação ou reação.

Da mesma forma que um astrônomo é escolhido pra falar de astronomia, nas lutas sociais, cada grupo torna seus próprios membros as pessoas mais indicadas a representarem o assunto do qual elas tratam. Na luta do Movimento Negro, por exemplo, não cabe aos demais dizer como essa luta deve ser feita. Para a luta do Feminismo, são as mulheres que dizem como as coisas serão encaminhadas pela causa. Assim o é para o movimento LGBT, para a luta de direitos de cadeirantes, para proteção de culturas e etnias (como entre os indígenas), entre tantos outros.

Para as pessoas que desejam se alinhar com esses direitos e não fazem parte dos grupos específicos, o papel que lhes cabe é de apoio, ou seja, ceder o espaço pros protagonistas de cada causa e apoiar socialmente, procurando intervir com ações somente quando notar que sua ação possa ser útil e/ou ao mesmo tempo a única ou mais provável opção pra evitar uma situação indesejada naquele contexto.

Cabe aos de fora, também, aproveitar os meios de socialização entre seus eventuais amigos e espalhar, dentro do possível, exemplos e correções a equívocos de pensamento ou conduta que estejam alimentando estereótipos, preconceitos, violências e outras abusos e desrespeitos. Muito mais pode ser feito, claro. E nada nos impede, enquanto pensantes, aprender e dividir mais dessas noções de realidade para aprimorarmos nossa conduta em toda a sociedade.

Há alguns anos atrás, especialmente com a consolidação do Facebook como rede social definitiva (aparentemente), foi possível observar um aumento significativo do uso desse palco como forma de expressão social de diversas culturas e grupos sociais. Devido ao acesso um pouco mais democrático que a internet tenta oferecer, pessoas de diversas classes sociais, diversas causas sociais, nichos culturais e com os mais variados conhecimentos e ideologias, puderam finalmente expor ao mundo suas realidades e abrir espaço na multidão, tornando-se mais visíveis.  E isso trouxe repercussões, tanto positivas quanto negativas.

De positivo, podemos citar o acesso e visibilidade dos assuntos, o que permitiu que muita gente se desconstruísse acerca das ignorâncias e equívocos que vinham sendo alimentados por outros meios sociais ou até mesmo sozinho em suas pobres deduções. Então, claro, mais informação transformou o cenário para um ambiente de maior autoestima e valorização desses grupos. Mas como todo opressor tem desprazer de ver seus oprimidos crescerem, é claro que toda essa visibilidade na internet ampliou o número de conflitos virtuais (pois os não virtuais sempre existiram em grande número). Inconformados de se verem expostos em rede e com o ilusório pensamento de proteção e/ou anonimato por trás de uma tela de computador, muita gente se colocou a despejar o entulho interno como forma de reação.

Empresas como o Facebook, Microsoft, Google e tantas outros grandes nomes da modernidade, sempre se mostraram receptivos às causas sociais e, frequentemente, expressaram publicamente este apoio. Devido ao tamanho e influência social que essas empresas possuem na vida de bilhões de pessoas, é possível prever que a tendência natural é que os espaços se tornem cada vez mais inclusivos, afinal, o público dessas empresas é, teoricamente, toda a diversidade de pessoas no mundo.

Embora isso pareça promissor e poético, é preciso manter a atenção, pois existem muitos casos de omissão ou superficial e/ou falsa atenção a casos de desrespeito à certas pessoas e grupos, especialmente em redes sociais, onde o que deveria ter sido repudiado, não teve o desfecho esperado por parte dos responsáveis pelas mídias. Isso não pressupõe exatamente que estejam sendo coniventes, mas que o sistema pelo qual filtram os conteúdos é falho. Digo isso especialmente do ponto de vista humano, onde, pode-se perceber claramente, que em certos casos, pessoas completamente inaptas pra avaliar abusos de certos nichos, estão entre as que trabalham como responsáveis nestas empresas e, por isso, acabam, desviando a justiça para benefício de seus próprios ideais de opressão.

Cabe ao indivíduo que não tem o mesmo poderio de interferir em grandes projetos como essas megaempresas, de fazer também novas pautas ou novas causas para tal finalidade. A omissão não pode ser o padrão, senão acabaremos tendo que nos sujeitar a decisão de alguns poucos alheios aos nossos próprios direitos e interesses. Faça parte do seu grupo local, seja do Centro Cultural do seu bairro, de um Coletivo, de uma ONG ou algum projeto de cunho social. Esteja à frente do seu grupo de amigos, da sua vizinhança, sua comunidade escolar, seus espaços na internet e onde mais achar que há meios de se ampliar seus objetivos. Esteja sempre engajado na política pessoal e coletiva e seja uma peça crucial de transformação do mundo ideal no qual você gostaria de viver.

Rodrigo Meyer