O que significa ser libertário?

Ser libertário é ter o pensamento ou a ideologia voltada para a busca e/ou preservação da liberdade dos indivíduos. Exatamente por ter essa premissa de liberdade, que ser libertário não significa deixar livre as pessoas que privam a liberdade alheia. Às vezes, algumas pessoas lançam a ideia de que fascistas ou pessoas em geral que privam a liberdade dos outros, deveriam ter a mesma liberdade de serem e fazerem o que quiserem. E essa tentativa falha de argumento só reforça do porquê fascismo e ignorância são indissociáveis. O fato estrito, simples e direto é que ser a favor de liberdade é exatamente não compactuar com os que se posicionam contra essas liberdades. Fascistas não passarão!

Ser libertário é fruto de uma visão de mundo que nos cobra, automaticamente, uma conduta social bem definida. Uma vez que se entende aquilo que o mundo é, vê-se, também, o que é aceitável e inaceitável em um convívio entre os seres. Sendo o mundo muito diverso, há também diversidade nas composições familiares, na personalidade das pessoas, na formação escolar e educacional, na influência de parentes e amigos, na cultura local, na política, no nível de intelectualidade e de compreensão da realidade e dos assuntos, assim como inúmeros outros fatores que podem transformar um indivíduo em uma pessoa diferente das demais. A única coisa que há em comum em indivíduos mentalmente saudáveis é o desejo natural de manter-se livre. Qualquer desvio do desejo de liberdade já é reflexo de um desvio psicológico, podendo ser originado de algum trauma, complexo ou mesmo confusão decorrente da incompreensão da realidade ou do tema.

Fomentar um pensamento consistente de respeito e bem-estar aos seres, depende, sobretudo, de como as pessoas se apercebem da importância e do significado da própria existência de cada ser e do convívio com outros. Se o indivíduo não estabelece uma conexão mínima de empatia com outro ser, diverge do que é natural e saudável, tanto psicologicamente quanto sociologicamente. Todo estudo que já se tenha feito sobre as relações dos seres, passa, necessariamente, por esse senso de preservação da dignidade, da liberdade, do bem-estar, do direito a vida e ao desfrute de seus potenciais. Qualquer pensamento ou ação que prive os seres dessas realidades natas, compõem uma opressão, um desvio das premissas básicas. Algumas pessoas entendem isso por extensão direta da empatia que possuem e outras, às vezes, tardam a admitir esse impulso natural, precisando do reforço, às vezes, do embasamento lógico e técnico. Mas, de toda forma, ambos chegam a mesma conclusão, pois isso não é questão de opinião individual, mas sim uma premissa natural intrínseca a todos os seres. Exatamente por isso que, indivíduos que figuram em fascismo e opressões em geral, são indivíduos com perturbações e desvios de conduta, de ordem psicológica, podendo ter a origem dessa visão ou conduta em uma variedade de fatores.

Muitas vezes o ser humano adoece de algo chamado ‘hipocrisia’. Podendo se resumir, grosseiramente, como sendo o vício em mentir, a hipocrisia é responsável pela contradição de pessoas que, por exemplo, dizem gostar de animais, ao mesmo tempo em que podem aceitar matá-los para um raso benefício próprio. Nesse caso em específico, entende-se que fatores culturais podem forjar uma naturalidade nesses hábitos coletivos, dando uma falsa sensação de “normal” e “correto” dentro do julgamento que o indivíduo faz de si mesmo naquele contexto. Isso fica ainda mais claro quando olhamos pra história do mundo e vemos que as práticas sociais deploráveis que eram propagadas como “válidas” por determinados grupos, épocas ou governos, só se mantiveram aceitas por outras pessoas, devido a extensa propagação desse modelo artificial como se fosse natural. É exatamente esse o caso de episódios como os raptos de crianças que eram filhos de presos políticos, para serem adotadas por famílias que eram simpatizantes da ideologia dos raptores em questão. Dessa forma, essas crianças eram nutridas com o mesmo vício de pensamento, as mesmas ignorâncias e falácias, preservando, assim, a perpetuação dessa sucessão de adoentados.

É como diz aquela frase: “uma mentira dita mil vezes, se torna uma verdade”. Essa frase refere-se a ideia de que aquilo que se torna tão comum nos ouvidos e na sociedade, acaba não sendo mais refletido pelas pessoas. Tudo aquilo que soa como natural, deixa de ser raciocinado. Ninguém para pra contar quantas vezes piscou os olhos ou qual é o processo específico que faz pra respirar. Tudo isso, por ser natural e intrínseco ao ser humano, é feito de forma automática pelo corpo, não demandando nenhuma interferência do indivíduo. De maneira similar, nas práticas sociais, muita coisa é replicada inúmeras vezes até se tornar tão comum que é vista e aceita sem resistência, sem filtro, sem análise.

Do que conhecemos da conduta humana e da própria história vivida e registrada, o ser humano é facilmente moldado a uma realidade diferente, bastando que seja inserido nesse contexto desde sempre e em um coletivo relativamente fechado e abrangente onde todos ou quase todos seguem, basicamente, o mesmo padrão de “realidade”. Isso é o que explica, por exemplo, as diferenças culturais entre países. Se crescemos em uma família e país onde vestir meias com chinelo é o hábito em comum de todos, provavelmente uma criança nascida nesse cenário seguirá a mesma prática, a mesma tradição. Mas isso não significa, de maneira nenhuma, que as pessoas tenham alguma razão individual pra decisão de usar as meias. Elas podem estar apenas seguindo a tendência coletiva e a tradição desse ato, sem questionar, já que todos que o fizeram, também não questionaram. Mas pra quem não nasceu num ambiente com a mesma influência, o uso das meias com chinelo pode parecer incomum, estranho ou até desconfortável. Tudo é uma questão de hábito e aprovação coletiva.

Sob essas mesmas premissas, um passarinho preso em uma gaiola desde sempre, pode ser levado a acreditar que aquele é o padrão de vida, o ápice de seus potenciais como pássaro. Se ele tem as asas cortadas e é engaiolado, não terá noção do que é expressar-se livremente em voo, pra ser aquilo que ele nasceu pra ser: um pássaro livre, que voa e que expressa seu potencial e sua característica própria. Para o ser humano, não é diferente. Os modelos sociais que privam o indivíduo de sua dignidade, liberdade e potencial, estão transformando esse indivíduo em alguém que pode vir a se acostumar com o padrão estabelecido pra si de pouca valorização. Mas, como o ser humano é um ser inteligente e permeia sociedades próprias que ele mesmo constrói, inclusive em subgrupos dentro de cada sociedade, ele acaba por disseminar reflexões e ideias que recondicionam os indivíduos a refletir sobre suas realidades, seus direitos, suas dignidades, seus valores e potenciais. As ideologias e políticas libertárias carregam exatamente esses objetivos para reforçar os princípios humanos em geral.

Em sociedades adoentadas, “comandadas” e arrastadas por políticos e membros mais convencionais da população, é comum vermos as pessoas desenvolverem uma certa desmotivação, perda da autoestima ou da esperança, sentindo que algo não está tão bem quanto elas acham que deveria estar, apesar de estarem, de certa forma, “acostumadas” com a escassez de vida que lhes cabe. Na verdade essa percepção de incômodo ou de incompletude é justamente a fagulha na memória e no instinto básico humano da busca natural e essencial de valores humanos como a dignidade, liberdade, bem-estar, etc. Se um indivíduo nota que na sociedade existem classes diferentes de pessoas, cabe a este refletir e esmiuçar as origens e motivos dessa diferenciação social. Porque algumas pessoas cometem crimes e ficam impunes e outras são presas? Porque algumas pessoas são mais aceitas nos espaços públicos e outras menos? Porque algumas pessoas recebem mais credibilidade no que falam do que outras? Porque algumas pessoas figuram massivamente nas mídias como exemplo de beleza, sucesso e “positivismo”, enquanto outras não? Enfim, qualquer que seja o viés da observação, é preciso questionar essa distinção e separação de grupos humanos. Quase sempre a origem e motivo disso está justamente nesse padrão de opressão plantado e perpetuado, tentando reduzir certos indivíduos, grupos, ideias ou características, para enaltecer aqueles que fabricam esse modelo artificial de separação.

Da mesma maneira, quando alguém aprisiona um pássaro na gaiola, está fazendo exatamente a mesma coisa, segregando um ser por conveniência própria, para desfrutar de maneira bastante egoísta e sádica, da servidão do pássaro em troca de seu canto ou exposição controlada de sua aparência. Além disso o ato do confinamento reforça a ideia de poder e posse, uma vez que o animal subjugado em uma gaiola é fruto de uma visão distorcida onde a o animal humano exerce domínio sobre outro animal, aproximando pra si um falso crachá de importância, de poder, de posição hierárquica, etc. Há uma frase de Mahatma Gandhi (apesar das polêmicas envolvendo seu nome) que traz uma boa reflexão sobre essa analogia e correlação entre a conduta diante dos animais e os conflitos sociais de humanos contra humanos:

“A grandeza de um país e seu progresso podem ser medidos pela maneira como trata seus animais.”

A abstenção da violência, da injustiça e do cumprimento cego das regras e tradições forjadas em sociedade, encaminha o ser humano, naturalmente, pra uma visão de coletividade e liberdade, onde as pessoas possam se tornar aquilo que nasceram pra ser. Mas, como já vivemos em um modelo social que replica muitos equívocos a tanto tempo, precisamos reconstruir na mente das pessoas, essa lembrança do que de fato é real ou não, o que é justo ou não, o que é natural ou não, o que é aceitável ou não. Uma das primeiras coisas que me vem na mente, quando falo nessa reconstrução, é o extenso trabalho que tem sido feito na moderna cultura da Alemanha, para varrer quaisquer possibilidades do retorno do trágico histórico de nazismo no qual o país figurou. O evento mundial que se tornou icônico pela organização, sistematização e frieza das práticas, deixou os próprios alemães envergonhados com o tema. Diante dessa percepção do absurdo, a própria comunidade se organizou para se posicionar de forma eficiente contra o fascismo, o nazismo e os preconceitos em geral. As crianças são ensinadas desde pequenas, nas escolas, sobre as mazelas desse período histórico, além de conviverem com inúmeras políticas públicas de combate e punição a qualquer fagulha de propagação relacionada a esse período nefasto. Determinadas expressões ou gestos, podem conferir prisão aos indivíduos. Felizmente, em um levante épico, a Alemanha pós-guerra conseguiu se reconstruir em um modelo de sociedade altamente receptivo a diversidade, sendo um dos países com maior expressão desse senso de respeito a individualidade humana. Essa mudança de postura em toda uma sociedade, só foi possível graças ao extenso trabalho de combate ao fascismo e a reeducação das novas gerações desde pequenas. Se hoje eles desfrutam de um espaço completamente diferente do período nazista, é justamente pela decisão consciente dos grupos de indivíduos de agir para frear esses desvios de conduta e pensamento das gerações anteriores.

Ironicamente, os Estados Unidos, apesar de ter sido o principal destino de milhões de fugitivos da era nazista, hoje acomoda na sua sociedade uma descontrolada proliferação de grupos racistas, xenófobos e nacionalistas, incluindo a expressão declarada de neonazistas ou de grupos específicos como a Ku Klux Klan. Essas contradições culturais  talvez se expliquem exatamente pela ação e inação a cada um dos países. Enquanto na Alemanha pós-guerra se tentou combater os problemas, nos Estados Unidos, parece ter havido uma ação menos engajada e mais flexível, provavelmente devido ao modelo de leis que dá brecha para disseminação de discursos e ideologias de ódio, na tentativa ilusória de que essa liberdade de expressão inclui qualquer expressão. Esse equívoco básico com um desfecho prático trágico, demonstra exatamente porque ser libertário não significa, de maneira nenhuma, ser permissivo com quem é contra a liberdade. O combate aos opressores e aos que lutam por ideologias de combate a liberdade humana, não podem estar livres para tal. Se queremos liberdade, devemos apoiar a liberdade e não o oposto dela. Ser permissivo ao fascismo e as demais opressões, não é reflexo de liberdade, sendo, apenas, o oposto deste objetivo. Entender essa lógica básica foi o que ajudou determinadas culturas e países a praticamente extirparem do seu meio os conflitos e preconceitos humanos, criando um ambiente mais próximo da liberdade e do bem-estar, afinal era esse o objetivo sincero por trás da iniciativa e é esse o desejo humano em essência, desde que ele esteja mentalmente saudável.

A luta pelo avanço das mídias e ideologias de combate ao fascismo ainda tem um longo percurso pela frente, mas já está bastante estruturada no mundo inteiro, de forma muito bem embasada e com amplo apoio popular. A cada dia que passa há menos espaço para o fascismo e ecoa cada vez mais alta a ideia de que fascistas não passarão! Diferente das divergências mais superficiais de gostos ou preferências, o combate ao fascismo é uma premissa que toca a essência do ser e, por isso mesmo, é algo que abrange facilmente todas as culturas e indivíduos, pois para a vida dos seres não há fronteira. Princípios humanos continuam sendo princípios em qualquer lugar do mundo. Aqueles que ainda figuram em opressão e desvio de conduta nesse sentido, enquadram-se tão somente em uma fatia social já classificada, já compreendida como falida, fracassada, adoentada e estúpida. O único caminho que o mundo saudável e instruído propõem a estes grupos adoentados é o remédio da reeducação pela informação e/ou a demonstração clara e objetiva de que tais indivíduos não serão tolerados livremente nos meios de convívio, enquanto insistirem na propagação dessas fraquezas. O mundo é daqueles que evoluem. Quem se acomoda na ignorância, colhe os efeitos disso, permanecendo marionete de outros, passando vergonha, perdendo tempo, felicidade e bem-estar. O que pode ser mais doentio do que atirar no próprio pé e sentir orgulho disso? Reflita.

Rodrigo Meyer

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Os robôs da cidade.

Observando pouco, muito pouco, você já consegue notar as pessoas perdidas em seus próprios hábitos. Repetem padrões desnecessários, que seriam facilmente evitáveis se tivessem alguma autonomia e autoconhecimento. Olhando ao redor, você nota que as pessoas estão todas agindo de maneira semelhante e cada vez mais artificiais. São, claro, por isso mesmo, completamente infelizes ou artificialmente ativas em uma falsa felicidade que nada mais é que a atenção diante das iscas à que são apresentadas todos os dias. Como um cavalo que persegue uma cenoura pendurada à sua frente, as pessoas vão caminhando em suas vidas, mesmo que não tenham um motivo próprio pra isso e mesmo que estejam infelizes.

Percorrem as escadarias, as calçadas, os elevadores e ocupam seus postos de trabalho. Todos os dias acordam ao mesmo horário, vestem-se do mesmo jeito, ganham o mesmo salário, conversam as mesmas coisas, veem as mesmas pessoas e falam os mesmos assuntos. Cercam-se dos mesmos desejos, dos mesmos hábitos, das mesmas maneiras e das mesmas pseudo-vontades.

Os robôs da cidade podem ser identificados nas casas lotéricas, persistindo em apostar em jogos improváveis dos quais não os tornarão mais ricos, mas levarão deles até as últimas misérias de moedas que lhes sobram de um salário ou aposentadoria já desesperador.

São também robôs na cidade, aqueles que entram aos supermercados e percorrem sempre a rota prevista pelos comunicadores, publicitários ou profissionais de marketing. Lá estão as pessoas levando uma infinidade de coisas das quais não precisam, mas são tomadas, por impulso, a levar sem questionar. Na frente dos caixas, onde apenas deveriam pagar, são novamente tentados a adquirir mais produtos, antes que se ausentem daquele labirinto tentador de produtos coloridos e bem embalados.

Esses robôs não sabem bem pra onde vão ou porque vão. Estão lá, com certa frequência, tão similar quanto a presença diante das telas do computador, celular ou televisão. Não entendem bem porque estão ouvindo aquelas pessoas falarem diante das câmeras, mas acomodam-se em serem telespectadores passivos de qualquer conteúdo, desde que não precisem pensar por conta própria. Assim como computadores, robôs precisam ser programados. Sem comandos não há ação. Se satisfazem pelo conteúdo mastigado, previamente organizado e propositalmente editado, como já refletido, para que sintam-se livres e leves, como um computador que não precisa mais de tanta memória, poder de processamento e energia pra calcular dados. Apenas armazenam conteúdos preexistentes e tornam-se, frequentemente, um bom player de todo áudio e vídeo que receberam.

Os robôs da cidade distribuem apoio financeiro e emocional a criadores de conteúdo questionáveis. Os mesmos que elevam individualmente suas vidas às custas de um público convenientemente ignorante e passivo. Muita gente disposta a ver, ouvir, replicar, compartilhar e disseminar, de todas as formas possíveis, mesmo que inconscientemente, cada um dos absurdos apresentados como se fossem a última obra prima do Universo.

Os robôs estão em todo canto. É fácil reconhecê-los. As roupas são iguais, as falas são as mesmas, a estrutura de repetição é previsível como encontrar água num oceano. São pessoas fáceis de compreender e difíceis de aceitar. Entre eles, entendem-se relativamente bem, o suficiente pra se sentirem unidos como uma grande família ou grupo de pertença. Mas, como todo robô, entra em conflito fácil com qualquer outro conteúdo que não seja compatível com aquilo que foram previamente programados pra aceitar e compreender.

Assim, ainda que iguais em certo sentido, são todos desiguais pelas incompatibilidades em suas particularidades. São unidos, contudo, pela idiotização massificada que, essa sim, é universal e propositalmente padronizada para que funcione em todo tipo de robô, independente do modelo.

Percebe-se, então, que o grande malefício é tão somente a ausência de pensamento autônomo. Não importa com qual programação sejam moldados, serão, enquanto robôs, sempre moldados sob a vontade de terceiros e nunca sobre sua própria vontade.

Robôs não conhecem, não sabem, não vivem. Robôs repetem, replicam, espalham. Robôs, tal como um boneco de marionete, depende completamente de comandos que não são dados por si mesmo. E há tantos outros robôs pela cidade, que já são tomados como normais, embora sejam apenas comuns, pois de normal não possuem nada.

Se um dia você se perguntar alguns porquês, talvez encontre robôs onde não imaginava encontrar. Você olha as pessoas respondendo mensagens ao celular, comprando roupas ou tentando fazer sucesso e percebe algo em comum nesses contextos todos. Condicionadas a fazer tudo da mesmíssima maneira que todos os demais fazem, replicam, principalmente, os erros grosseiros.

Falam de assuntos que não conhecem e de livros que nunca leram, mas opinam como se fossem grandes mestres, intelectuais de Janeiro a Janeiro. Concentram-se em rastejar em cima de alguma moda ou conteúdo popular na esperança de que serão inclusos nessa gigantesca máquina de exclusão social. Se sujeitam a vestir camisetas esportivas de instituições corruptas que levaram seus dinheiros e, mesmo assim, são veneradas como grandes instituições de grandes eventos de pseudo-cultura travestidas em vitrines de alienação e status.

Os robôs estão nas salas de aula, como sugerido pelo clipe “Another Brick in the Wall”, música de Pink Floyd. Em algum momento deveriam se rebelar, mas permanecem, na realidade, bem distantes do desfecho do clipe. São levadas a assimilar conteúdos fictícios já desmistificados, mas que não foram devidamente atualizados pelos professores que não foram reciclados. Médicos, advogados e letrados, repetem asneiras que já deixaram de ter sentido há bem mais que 3 décadas. E alunos formados, bem mais que deformados, acreditam que estão finalmente à par do conhecimento. Só lamento. Levarão adiante suas ignorâncias e estenderão essa confiança absurda para quando, infelizmente, tiverem a oportunidade doente de também darem aulas. Ensinarão, talvez, que não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, sem saberem que já comprovou-se a capacidade de permanência de um mesmo átomo em locais distintos. Talvez ensinarão que o teletransporte é mera ficção, sem saberem que átomos de madeira já foram teletransportados de um canto a outro. Enfim, ensinarão que aprender bobagens é importante e que buscar conhecimento novo é desnecessário.

Há robôs dirigindo. Bom se fossem apenas os carros automatizados da Google. Na grande maioria são apenas as pessoas robotizadas que, mesmo diante de uma rua vazia pela madrugada, firmam-se no asfalto esperando o semáforo abrir, mesmo que seja totalmente desnecessário. Condicionadas a somente andarem com o farol verde, ficam congeladas diante do farol vermelho, mesmo quando, por exemplo, uma ambulância implora a saída dos carros pela frente pra que possa finalmente passar como lhe é de direito. As pessoas se preocupam muito mais se levarão alguma multa imaginária dos fiscais de trânsito do que em abrir caminho para uma ambulância. A idiotização é um clássico dos robôs. São máquinas, não pensam por si mesmos. Não refletem o cenário sozinhas, a menos que tenham sido programadas pra fazer alguma análise. Mas sempre limitados, sempre repetindo dados predefinidos e nunca satisfeitos, nunca terminados.

Há robôs de todos os tipos, todas as cores, todos os tamanhos. Alguns andam armados, empacotados de cinza e velcro. Outros, obedecem pedidos estúpidos e egoístas de personalidades em vídeos propositalmente sem conteúdo relevante. Não há entretenimento para robôs, porque robôs aceitam o vazio calados. Tudo que eles precisam é de dados. E quando não há inserção de dados, ficam bugados como um computador que tenta ler um drive de CD e não encontra CD algum. Ficam como um navegador que tenta carregar um site para mostrar, sem saber que o servidor não tem nada para entregar. Ficam em erro, paralisados, olhando pra lugar nenhum, com uma enorme ampulheta girando à espera de alguma salvadora ‘solução”. E quando finalmente a conexão volta, seguem, como sempre, o roteiro que lhe era previsto.

E, por incrível que pareça, foram programados pra não se acharem burros, afinal, até no nome, um smartphone é esperto. Sentem-se muito capazes, afinal, veja quantos aplicativos conseguem carregar e quantas imagens podem registrar. Quanto mais robotizados são, mais autônomos e inteligentes pensam ser. E assim, cria-se uma legião de pessoas aptas pra nova era da Inteligência Artificial. Farão tudo que for útil e necessário aos seus criadores e nunca se lamentarão de coisa alguma, pois robôs são incapazes de sentir dores. Se sentirão modernos, plenos, totalmente encaixados na sociedade, pertencentes à uma casta muito nobre: a casta dos degenerados.

Pela cidade, como desde muito tempo, hoje e futuramente, veremos cada vez mais gente, com pouco, quase nada, mas transformadas, configuradas pra que, quando não prestarem pra mais nada, sejam simplesmente descartadas. Aposentadoria será tirada dos códigos de programação, pois robô não tem família, não tem vida e não precisa nem mesmo de pensão. Robô, se programar corretamente, aceita ficar doente, pobre, carente. Com uma ou duas linhas fáceis de programação, robô aceita calado a violência, o estupro, a morte ou a prisão. Aceita ser varrido pro lixo, pois como máquinas que são, se objetificam sem recusar tal condição.

Ah, os robôs. Dominarão o mundo, não acima de seus criadores, mas ocuparão uma escala absurda de quantidade. Serão como produtos fabricados em série e serão, eles mesmos, os consumidores de suas produções, não sem antes trocar todo o esforço de produção por silêncio, obediência e baixo consumo de energia de forma que precise de pouca ou nenhuma atualização. A eficiência da servidão os colocará como o ápice da involução. Mas tudo bem, afinal, porque não?! Se alguém pode ser programado pra inexistir, quem vai discutir que esse é seu propósito e razão?

Tá cansado de ser robô e quer ver sentido na vida? Que tal começar a dar pane e se desconectar da Matrix que lhe aprisiona? Ande na contramão e comece a dizer ‘não’ para aquilo que seu pensamento próprio não puder encontrar boa razão.

Rodrigo Meyer

As portas da percepção.

Em 1954, o autor Aldous Huxley escreveu o livro “As Portas da Percepção” onde ele detalha as experiências com os efeitos da mescalina. É por causa desse livro que surgiu o nome da banda “The Doors”. Esse texto, contudo não visa falar do livro e nem exatamente dos efeitos das substâncias. Encontrei nessa temática uma oportunidade de deixar reflexões sobre as possibilidades que o ser humano tem de explorar novas realidades e de ir além das limitações aparentes. Esse texto foi idealizado para incentivar que as pessoas enxerguem o mundo de maneira mais ampla.

Como o próprio nome sugere, as portas da percepção podem ser abertas e, como dizia Einstein, ‘uma vez que nossa mente se abre pra uma nova ideia, jamais volta ao tamanho original’. É nessa direção que gostaria de conduzi-los.

Em minha infância eu me sentia mais próximo de certas realidades do que hoje. Embora ainda esteja inserido em muitos meios e questões que explorava naquela época, quando infante, me sentia muito mais próximo das possibilidades do mundo do que agora. Falo sobre a exploração subjetiva do ambiente, do imaginário e do poder de nossa imaginação, das questões físicas e metafísicas, das transcendências e das realidades paralelas.

Acredito que toda criança tem, em algum momento e grau, uma certa habilidade em ir além do convencional. Distantes da limitação presente na maioria dos adultos, as crianças tendem a agir com sua própria filosofia sobre as coisas e, melhor que isso, deixar a prática inseparável de toda teoria ou possibilidade. Na infância, aquilo que possa ser real ou possível, torna-se mais forte e perceptível do que na fase adulta, onde, geralmente, descartamos ou camuflamos tudo isso.

Diz-se que na infância os canais de percepção estão todos abertos, até pelo menos os 7 anos de idade. E que depois disso, só permanecerão abertos se a criança for incentivada a permanecer ao invés de ser reprimida a padrões limitados para “crescer”. E a grande razão pra chegarmos a fase adulta diferentes é essa repressão que recebemos. Feliz da família que permite que suas crianças explorem o potencial da realidade livremente. Há muito que pode ser descoberto, bastando manter os sentidos ativos. Temos muitos sentidos que são completamente ignorados e, por isso, acabam atrofiados.

De outra maneira e, talvez num sentido mais intenso, podemos abrir outras portas por meio de práticas e substâncias específicas. É preciso, contudo, ter maturidade suficiente pra tratar desse tema, sem cair no erro de ser meramente um incentivador do uso dessas substâncias ou mesmo de não se atentar o suficiente sobre as limitações pessoais de cada indivíduo, pois é certo que isso interfere na qualidade das experiências e no potencial de utilidade / benefício. Há pessoas que não estão na condição ou fase adequada para permearem o consumo de certas substâncias e, à estas, o consumo não deve ser incentivado, pois vai gerar mais danos que benefícios.

Do açúcar, cafeína e álcool às medicações e substâncias psicoativas mais fortes, há de se entender que o benefício ou dano que elas podem ou não causar em cada indivíduo, relaciona-se muito mais com o estado psicológico e mental individual do que à uma regra geral. Mas, esse não é um tratado sobre substâncias, efeitos e comportamentos, mas sim sobre a aceitação da sociedade sobre a necessidade de se abrir para a própria possibilidade de novas opções. Vamos abrir portas para que outras pessoas possam abrir suas próprias portas? É nisso que quero chegar.

O papel social deve estar relacionado com quem o pratica e habita, que são as pessoas em si. Estruturar as premissas, regras, aceitações e controles sobre o que estamos fazendo ou permitindo no coletivo, tem que ser visto pela ótica do potencial libertador e evolutivo das capacidades e anseios de seus indivíduos enquanto indivíduos. Não devemos tratar unidades de consciência como um coletivo geral genérico. Toda cultura e sociedade é muito mais complexa que isso, justamente porque está lidando com seres humanos individuais, diferentes em conteúdo, grau, posição, interesses, valores e opções. Aliás, também em percepções. Por isso, é impossível regrar o outro a partir de nossas próprias concepções, pois não somos e não vemos o que o outro é e vê.

Diante dessa questão, o melhor a se fazer é deixar fluir um senso de liberdade de experimentação do próprio ser, da própria existência e consciência. Países como a Holanda, onde as substâncias foram legalizadas, conseguiu-se uma redução de diversos problemas sociais a ponto de fecharem os presídios por falta de presos. Ainda na mesma temática, podemos citar o Uruguai que, depois da legalização da Maconha, zerou as mortes por tráfico. Questões políticas e sociais como essas impactam no modo como enxergamos o acesso à essas substâncias e aos direitos inatos do ser humano de buscar suas próprias opções.

Comece a questionar quais são os países que estão envolvidos com a abertura do potencial humano e quais são os países que estão nadando na própria lama social, pela limitação dessas substâncias e das consequências nocivas dessa maneira de tratar as pessoas. O Brasil é um país escancarado para passagem de diversas substâncias, mas opta por torná-las ilícita como pretexto para o lucro com a inventada guerra ao tráfico, que na verdade, muitas vezes é financiado e mantido por seus próprios agentes e oficiais.

Enquanto apodrecemos em um oceano de corrupção, morte e preconceitos que exterminam negros, pobres e homossexuais, seguimos cada vez mais distantes das nossas próprias ferramentas de solução ou salvação. Nossas portas estão fechadas enquanto as fronteiras de nosso país estão mais do que abertas. Estamos condicionados a não questionar a proibição de nossos próprios direitos inatos como seres vivos individuais. Vivemos em sociedades que não representam o coletivo e aceitamos a opressão de poucos como se fossem relevantes em número, poder ou razão. O controle que damos a quem tranca nossas portas da percepção é o que nos distancia até mesmo do mérito de ganharmos tais portas. Não estamos preparados pra viver as realidades por estarmos ainda demasiadamente presos a inutilidades inferiores à tudo isso.

Começaremos a caminhar rumo à opções melhores quando tivermos a liberdade de decidir pra onde queremos ir. Não significa que a sociedade precisa ir, em massa, pro consumo de substâncias outras e da exploração de sua psique, mas que como coletivo social, precisamos dar aprovação e espaço pra que cada indivíduo chegue onde almeja chegar dentro de seus próprios espaços de existência e perspectivas, desde que isso não interfira na igual liberdade de outros. Holanda e outros países já descobriram essa chave e estão atuando com sucesso em diversos níveis.

Há benefício social, econômico, médico, psicológico. Há uma transformação completa e complexa sobre como experimentamos a existência e isso nos coloca num papel de autores de nosso destino enquanto humanidade. Quem é que vai determinar pra onde estamos navegando com o entendimento de nossa própria existência e de nossos valores e anseios enquanto pessoas? A Filosofia se dobra para o que o filósofo, enquanto indivíduo, tem a refletir e sentir. É tão somente do questionamento de tudo e de todos que chegaremos novamente a desfrutar da liberdade saudável que tínhamos na nossa infância. As realidades estão aí e será sempre escolha nossa ignorá-las ou nos aprofundarmos em cada uma de suas possibilidades. Não serei eu a te convidar. Convide a si mesmo, se assim desejar.

Rodrigo Meyer

O círculo vicioso da autoestima.

A autoestima é a valorização que damos a nós mesmos. É a nossa percepção de que somos alguém bacana, útil, interessante ou importante. Nos sentir bem com nós mesmos é o resultado de ter amor-próprio, é o gosto de ser quem somos e de ter confiança nos nossos próprios potenciais e características. E quando não nos enxergamos assim, é porque temos baixa autoestima.

Geralmente a baixa autoestima é uma visão distorcida da própria realidade, fruto de complexos e traumas, mas, às vezes, pode ser uma análise realista sobre nossas falhas e incapacidades. Porém, independente de qual seja o caso, podemos sempre fazer algo à respeito. Se você, por exemplo, tem potencial, mas não acredita ter, devido a influência de complexos e traumas, precisa buscar reconectar-se com a realidade, superando essas interferências que distorceram sua visão de si mesmo ou da vida. Já para os que de fato estão em defasagem de potencial, devem buscar contornar a situação de forma a tirar o melhor proveito de suas outras características ou até mesmo aprimorar os pontos fracos pra que se tornem pontos mais fortes.

Uma frase diz que se você avaliar um peixe pela capacidade de subir em árvore, acreditará que ele não tem potencial. Cada pessoa tem características próprias e um histórico de vida único e, por isso, cada pessoa precisa descobrir quais são seus talentos pra se encontrar no que faz. Se você tiver baixa autoestima e permanecer em postura pessimista sobre seus potenciais, acabará como o peixe que, por não subir em árvores, sente-se incapaz, sem valor. Se você descobrir que nasceu pra ser peixe, nade, pois provavelmente nunca subirá em árvores, assim como o macaco nunca viverá no fundo do mar.

Se você luta contra o fluxo natural das coisas, você acaba tendo posturas que não te favorecem na vida. Suas oportunidades ficam escassas quando você mesmo cria situações piores em torno da sua baixa autoestima. É o caso, por exemplo, de quando uma pessoa não se sente interessante o suficiente pra despertar um relacionamento com outra pessoa e, por isso, se sujeita a qualquer coisa pra obter uma companhia. Isso faz com que ela mesma crie um efeito bola-de-neve no problema, pois a postura que tem diante do tema, faz ela ficar ainda menos interessante pra disputar os relacionamentos sonhados. Com isso, a autoestima fica ainda mais baixa e assim a pessoa vai descendo rumo ao precipício emocional. Sinal de que não funciona e a estratégia deve ser invertida.

Mais do que mera poesia, acreditar em si mesmo e se valorizar é um ingrediente indispensável na receita da vida. Se você não gosta de quem você é, do que faz ou como faz, acaba sentindo-se inseguro, inapto ou desmerecedor das coisas e, por isso, deixa de buscar, de competir, de se apresentar com orgulho e vitalidade. Nas profissões, por exemplo, quando alguém não se sente bom o suficiente, tende a recusar diversas vagas, simplesmente por achar que não está à altura do que aquilo exige. Tudo bem recusar um trabalho do qual você de fato não domina, mas não está nada bem recusar trabalhos apenas por achar que não é capaz, mesmo tendo os conhecimentos e meios pra aprender ou desenvolver algo.

Eis a importância de sermos realistas. Raras vezes alguém de fora virá nos dar um feedback sobre nossas características, potenciais e talentos. Temos que tentar ver em nós mesmos com sinceridade aquilo que conseguimos fazer bem e o que não conseguimos. Podemos nos aprimorar nas falhas e nos inspirar nos acertos. O que não podemos é desistir de buscar nosso próprio sucesso. Temos que nos perceber como pessoas capazes de realizar coisas que só nós podemos fazer ou de chegarmos um pouco mais longe do que pensávamos estar predestinados pelas nossas limitações. A vida consiste em superar desafios, desfrutar do tempo com disposição pra fazer, ser e ter. Precisamos transformar os pensamentos e nos entender cada vez mais. Portanto, lembre-se que varrer os problemas pra debaixo do tapete não vai ajudar.

Inúmeros são os casos de pessoas que deixam de cursar um idioma novo por terem complexos sobre a própria inteligência ou cultura. Por vezes, são pessoas que, acostumadas com a visão pessimista e equivocada sobre si mesmas, não se sentem motivadas a se inscrever num curso, porque pensam que não darão conta, que passarão vergonha ou que fracassarão. Por anteciparem uma mentira, acabam não abrindo espaço para a verdade. Elas não se permitem descobrir o quão longe podem ir, pois sequer acreditam em si mesmas pra chegar a tentar. Essa espiral descendente da realidade é gerenciada por uma soma de pensamentos e decisões.

Quantas vezes vi pessoas se submeterem a trabalhos mal remunerados, apenas por acreditarem que não tinham as capacidades necessárias pra obter nada de maior valor. Acostumam-se a ver o mundo de forma limitada, onde somente alguns tipos de profissões ou pessoas é que ganham dinheiro e, por não se verem como iguais, não disputam essas oportunidades pra sua própria vida. Abrem mão do sucesso, da saúde, de bons relacionamentos, de bons momentos, de boas metas de estudo e trabalho, de certos temas ou realidades. Elas mesmas acabam se afastando das coisas que gostariam de ter e, por isso mesmo, cada vez menos figuram nessas e outras vitórias. Terminam reforçando a ideia de que são incapazes pra tudo isso e, então, é gerado um monstro que cresce infinitamente.

Dessa postura de reforço pejorativo, brotam mais complexos, mais dores, menos motivação, mais casos de depressão, ansiedade, falta de amor-próprio, possibilidade pra escapes como vícios, posturas desregradas, acobertamento de falácias, adesão à grupos ou ideologias destoantes da realidade ou do necessário e um life style que não soma pra encontrar sequer as portas e ferramentas pra sair do abismo em que tais pessoas se colocaram. Se já transcorreu demasiado tempo nessa espiral descendente, fica mais difícil sair dela. Mas isso não é motivo pra desistir da saída. Muito pelo contrário. É exatamente quando descemos demais que precisamos começar a brecar e subir de volta. Não é difícil se transformarmos primeiro a nossa visão de nós mesmos. Da mesma forma que existe o efeito bola-de-neve pra queda, existe para a subida.

Quanto mais estima você tiver por si mesmo, mais aberto estará para as pessoas, a sociedade, os relacionamentos, os trabalhos, os momentos, os estudos, as possibilidades do seu futuro e, assim, sua visão de capacidades e interesses se amplia drasticamente. É quando vemos pessoas se encontrando em algo que antes nem sabiam que podiam desenvolver com grande habilidade. Nascem, então, novos escritores, novos youtubers, novos professores, novos tatuadores, novos poliglotas, viajantes indo morar e trabalhar em outros lugares e culturas. Também é desta mudança de postura que brotam amizades melhores, namoros melhores, parcerias, projetos, oportunidades, vivências e experiências que estavam esperando alguém chegar.

Busque cercar-se de pessoas que te tragam um feedback realista sobre sua personalidade, seus trabalhos, seus hobbies, seus talentos, seus pontos fortes e fracos no modo como se relaciona, como leva seu dia-a-dia, sua saúde física e mental. Dê menos ouvidos à críticas que não trazem verdades nas palavras. Muita gente é pessimista conosco por também terem complexos e, por isso, acabam aconselhando um mar de gente a não sonhar alto, antecipando um cenário de fracasso pra todos como se isso fosse a realidade. Então, antes de aceitar a opinião de alguém, consulte mais pessoas, compare opiniões, observe o tema de forma fria e neutra e descubra se realmente aquelas opiniões todas condizem com a verdade.

Como exemplo pessoal, os momentos que eu mais fracassei na vida foram exatamente aqueles em que eu dei ouvidos pra quem me depreciou. Em vários casos demorei pra perceber que a opinião daquelas pessoas eram geradas com base em preconceito, opressão e ignorância / desconhecimento. Assim, se alguém diz que 2+2=5, é papel de cada pessoa analisar se isso tem algum fundo de verdade e porque alguém chegou a tal conclusão. Não demora muito pra vermos que essa pessoa não sabe do que fala e, propositalmente ou não, está te passando uma impressão falsa sobre a realidade.

Eu tive a oportunidade de me deparar com professores de dois tipos opostos. Um grupo deles me enxergava como alguém sem rumo, sem a concentração necessária, talvez sem futuro algum. Outro grupo de professores, mais esclarecidos, com visão mais realista e complexa sobre as nuances de cada aluno, conseguiam me ver além da média, cheio de potenciais. Porque análises tão distintas? Quem era o problema na equação? A quem eu deveria ter ouvido? Entenda que não é simplesmente acatar a opinião de quem te elogia. Trata-se de buscar a realidade e compará-la com ambos os lados. Às vezes os elogios são bajulações sem base na realidade e não nos ajudarão. Temos que ponderar e nos encontrar de fato diante daqueles sinais que nos dão.

Quando alguém te aponta um caminho de possibilidades pra sua vida, você deve tentar se imaginar neles e ir em busca de tudo que possa te levar até lá. Precisamos, claro, nos esforçar pra aprender o necessário pra converter potencial em algo concreto. Mas, é muito mais fácil esse caminho se tivermos motivação e autoestima. A família, a escola, os amigos, a sociedade em geral e os espaços de trabalho devem promover esse estímulo realista pra que todos nós possamos ser aquilo que podemos. Sou grato a todos que confiaram em mim, me enxergaram e apoiaram pra que eu me tornasse alguém melhor. Aos que desejaram o inverso, por fraqueza ou desconhecimento, só lamento pela situação em que se encontravam ou ainda se encontram com eles mesmos.

Esses dias estava acompanhando um pouco da história profissional de algumas pessoas que estão em destaque no momento pelo setor de criação. É interessante ver que começaram abraçando uma atividade e que logo se descobriram mais felizes realizando outras coisas. Isso é a descoberta dos seus potenciais e a adequação a eles. Desenvolver atividades que exigem mais da sua essência, te coloca em maior sucesso, pois você trabalha melhor, é mais criativo, mais engajado, mais apaixonado e esforçado por tudo aquilo, além de sentir-se mais confiante e capaz em fazer. O prazer em ser e fazer algo está diretamente relacionado à descoberta de seus potenciais.

Mas lembre-se que, embora você tenha algumas características principais, deve desenvolver outras características novas ou aprimorar as coisas das quais não é tão bom. Aliás, sempre recomendo que as pessoas invistam, principalmente, naquilo que não são boas, afinal no que elas já sabem, não precisa de muito esforço. É o caso, por exemplo, de quando alguém se descobre ótimo artista, mas tem dificuldade em se relacionar profissionalmente ou de planejar as finanças do seu possível negócio em torno da arte. Então, cabe ao artista dedicar um esforço maior pra essas defasagens, tornando-se mais completo e, principalmente, viabilizando o seu talento pra sociedade. Às vezes talentos incríveis são desperdiçados porque as pessoas esperam que eles bastem. Não adianta ser ótimo nos artesanatos, por exemplo, se for ruim como vendedor, ruim nas relações humanas ou ruim pra lidar com o planejamento dos custos e preços de suas criações.

Ficarei imensamente feliz de conhecer mais e mais gente por aqui. Pessoas de todos os cantos, inclusive alguns de Portugal e outras regiões fora do Brasil estão dividindo um pouco do tempo e de seus próprios talentos nessa gigante rede de contatos. É gratificante descobrir as profissões e hobbies de cada um, os livros que estão lendo, o que estão escrevendo, por onde mais estão trabalhando e estudando. É assim que acabamos conhecendo opções de realidade que nos motiva a fazer um pouco mais do nosso próprio trabalho ou de abrir novas portas para novas direções e ampliar as perspectivas sobre a vida, sobre nossos potenciais, etc.

Atualmente estou concentrado em eliminar as barreiras, os pesos, as portas fechadas, as falhas de comunicação, as posturas inadequadas, os vícios de pensamento equivocado, entre outras coisas. Buscando sempre ficar no realismo, estou sempre combatendo falácias, desafiando as questões ao colocar tudo a prova. Isso me fez preferir eliminar centenas e centenas de grupos e conteúdos que tomavam meu tempo e não somavam nada de real. Às vezes nosso potencial só não acontece porque não deixamos ele florescer. Precisamos dar tempo pra nós mesmos, pra nossos estudos, nossas atividades, nossos momentos de relacionamento, nossas amizades. Precisamos otimizar nosso dia de forma a termos uma semana melhor, um mês mais diverso, um ano com mais resultados e uma vida mais feliz, numa espiral ascendente. Vamos subir!

Rodrigo Meyer

Onde não existir qualidade, seja breve.

A vida nos coloca em contato com muitas pessoas, muitos lugares, muitos conteúdos, muitas oportunidades, muitos momentos, muitas ideias. Chegando em uma livraria, são incontáveis os títulos. Vídeos pelo Youtube brotam aos milhares antes que você pisque os olhos. Na Terra somos mais de 7 Bilhões de pessoas e só no Brasil somos em torno de 200 Milhões. Gente e conteúdo é o que não falta, mas a qualidade de ambos é o que faz a diferença.

Uma vez vivos, todos estão aqui tentando se expressar, conviver e chegar a algum lugar. Bom seria que todos tivessem iguais condições, boa visão, noção de realidade, senso de justiça e honestidade. Um sonho pra um futuro distante, provavelmente. No presente, a realidade é outra. Não há muito pra se aproveitar diante do que é oferecido por grande parte dessas pessoas. Qualquer tema e setor da vida que você imaginar, será possível mostrar que estamos em crise.

O lixo social está em tudo. Nas mídias convencionais com o falso jornalismo e o entretenimento emburrecedor que coloca o público de forma passiva a tudo aquilo que o aprisiona. E destas mesmas mídias, famosos nascem sem nenhum motivo bom ou real pra sequer serem vistos. Muita propaganda, muita ilusão, pouco conteúdo, pouca qualidade. E de repente, depois de décadas de comunicação mal intencionada a desserviço do povo, eis que surge a internet.

A liberdade de criarmos nosso próprio conteúdo e interagir com os demais parecia uma boa promessa, até que, infelizmente, todas as mídias tradicionais abriram seus espaços em sites e redes sociais. Agora, temos o lixo ampliado e perigosamente mais próximo da interação do público. Com isso, as próprias pessoas também perderam ainda mais qualidade, uma vez que trocaram o uso útil da internet pela simples absorção e compartilhamento de todo tipo de entulho mal mastigado. Pela facilidade de colar um link ou arrastar uma imagem, sentem-se armados para fazer o que antes as mídias offline não permitiam. Munidos de preguiça, ignorância, ódio e credulidade exacerbada, espalham tudo, consomem tudo e se enforcam com tudo, desde que nada disso tenha qualidade ou veracidade.

Esses são os tempos em que vivemos. E dessas coisas todas, acabamos tendo que escolher ficar ou partir, afinal o que não soma nada pra nossa vida, não deve permanecer muito tempo conosco. Que sejamos breves nos lugares ruins, nos atendimentos mal prestados, nos serviços sem qualidade, nos ambientes familiares onde não há afeto e cordialidade. Que sejamos breves nas conversas vazias, nos autores sensacionalistas, nas comidas sem sabor disfarçadas com muito sódio. Não percamos tempo assistindo vídeos preconceituosos, mesmo que eles sejam de famosos. A unanimidade em uma população sem educação e cultura não serve de parâmetro pra quem quer atravessar pro outro lado. Se você almeja ter bem-estar em qualquer setor da vida, precisa repensar onde estar e como viver.

Precisamos atribuir filtros que nos façam sair de perto de tudo que não soma. Embora pareça drástico cortar todo entulho de nossas vidas, verá como é engrandecedor viver em contato apenas com o que nos faz bem. Não conheço ninguém no mundo que se queixe de ter prazer, de sentir-se respeitado, ouvido, valorizado, bem atendido. Não sei de nenhum caso de pessoa que tenha se decepcionado com um sorriso sincero, um abraço bem dado, uma memória positiva. Uma vez humanos, gostamos de ter o melhor que pudermos nessa vida. E porque, então, alguns insistem em ficar ao lado de coisas ruins? Pra quem nunca viu água potável, beberá água suja achando boa o suficiente. É isso que tem acontecido com a humanidade em diversos sentidos.

Isso deixa claro, portanto, que precisamos conhecer coisas novas para, eventualmente, descobrir coisas melhores. Nossos parâmetros mudam conforme nosso conhecimento. Quanto mais conhecemos, mais queremos conhecer. Estagnar em imediatismos, modas e saídas fáceis não levará ninguém a lugar nenhum. Pode parecer satisfatório no começo, dividir seu tempo com coisas sem valor, mas depois que você lapida a si mesmo, descobre que muita coisa é insuficiente pro seus filtros de qualidade. É assim que evoluímos, deixando de lado situações e pessoas que nos impediam de ascender.

Se no momento presente você ainda está buscando conformismo e aceitação do que não te faz bem, então é hora de rever sua postura e seu amor-próprio. Se achar que nem mesmo amor-próprio tem, é hora de repensar os porquês dessa visão desvalorizada de si mesmo. Muitas vezes acreditamos que não merecemos coisas melhores, porque nos avaliamos como inferiores depois de uma vida marcada por complexos. Em algum momento de nossas vidas, geralmente na infância, fragilizados por pressões, traumas e posturas equivocadas das nossas figuras de referência (geralmente pais, mães ou avós), criamos referências e crenças sobre nós mesmos em uma mistura de sentimentos e pensamentos mal estruturados. É quando ervilhas são lidas como elefantes em uma fase de nossas vidas onde a opinião de certas figuras nos pareciam importantes.

Não tenha receio algum de encerrar o vínculo com tudo que tiver pouco ou nenhum valor. Acostume-se com a ideia de que você tem potencial de ir além e que merece sempre o melhor que puder extrair da vida. Todos nós, por alguma razão que nem sempre conhecemos, desenvolvemos visões distorcidas da realidade e precisamos, então, refazer nossas análises, redescobrir os lugares, as cidades, as pessoas, as mídias, os produtos, as comidas, as ideologias, os livros, as artes, os relacionamentos, os próprios sentimentos e os sentimentos do mundo. Temos que nos reconectar com novas possibilidades e ficar de mente tranquila pra avaliar a qualidade real do que ali está. Sejamos, portanto, nós mesmos um exemplo de qualidade, recusando o que nos desvia da excelência.

Sinta-se livre pra deixar seus comentários, perguntas e sugestões. Todos nós estamos no mesmo barco, buscando melhores momentos, melhores soluções. Se você for curioso o suficiente e persistir com as barreiras que estão só na mente, fará o que muitos nem mesmo sonham e começará a desejar realidades maiores pra você e pros demais. “A mente que se abre pra uma nova ideia, jamais volta ao tamanho original” – Albert Einstein.

Rodrigo Meyer

Será que desaprendemos a conversar?

Acredite se quiser, havia um tempo em que celular nem mesmo tinha tela. Usávamos pra telefonar e éramos obrigados a falar se quiséssemos nos comunicar. Não significa que isso seja necessariamente o único modelo possível e bom, mas retrata uma época em que, por falta de outras tecnologias, não podíamos abrir mão ainda da socialização. Atender o celular incluía interagir de fato com uma pessoa e não apenas com uma notificação virtual de que um usuário fez ou deixou de fazer algo. E nessa diferença, habita questões pros tempos de hoje.

Eu me recordo dos primórdios da internet no Brasil quando vivíamos atrás de uma conexão discada que só era gratuita depois da meia-noite. Sorte de quem tinha paciência, pois se conectar não era algo automático como ligar o computador e já sair navegando. Aspirávamos por conexões, mesmo que difíceis, pois elas eram a nossa oportunidade de socializarmos com pessoas e conteúdos no conforto de nossas casas, mas com pessoas que não moravam conosco. Trocamos boa parte dos telefonemas por conversas digitadas no ICQ ou no MSN Messenger, mas até mesmo antes disso tudo já conseguíamos um pouco de interação pelas salas de chat dos chamados ‘portais’.

Parecia tudo muito bom. As pessoas, ainda descobrindo as possibilidades dessas mídias todas, se colocavam no mesmo papel de pessoas e não de usuários. Dividíamos conversas como se estivéssemos de fato conhecendo alguém presencialmente. Ainda que muita gente se desviasse um pouco da qualidade, na média ainda íamos bem. Muitas pessoas formaram boas amizades e até relacionamentos amorosos a partir dessas interações. Conversar com alguém online ainda era um mero detalhe, pois certamente as pessoas acabariam se encontrando no mundo real para darem continuidade ao que foi começado. Bons tempos onde tecnologia ainda não era sinônimo de ruína social.

É triste termos que admitir, mas saímos dos trilhos e nosso trem tombou com carga e tudo e não temos a menor ideia de onde vamos. Estamos parados no meio do caminho, olhando o trem virado, mudos, olhando um pro outro, sem nada fazer. Estamos esperando um milagre que nos reconecte com a estrada, pois desaprendemos a andar sem trem, mas também não temos mais um trem que ande. Ficamos paralisados, quase como se estivéssemos em estado de choque.

Atualmente, com smartphone nas mãos, redes sociais e aplicativos intermediando tudo e todos, nem sabemos ao certo quem é que está do outro lado de uma foto de avatar, um nome ou conteúdo qualquer. Tudo nos vem já representado, mastigado, moldado, dobrado, adaptado pra servir como comunicação massiva, mas que de comunicação mesmo tem pouco. Conseguimos instantaneamente enviar mensagens para uma pessoa do outro lado do mundo, apenas clicando em alguns filtros de interesse. E esse é o lado bom da história toda, pois a coisa só fica triste quando essa comunicação de fato “começa”. É um começo com cara de fim e muitas vezes sem meio. Somos colocados pra interagir e agimos como se as pessoas fossem botões, ícones, nomes e avatares. Parece até mesmo que nós somos robôs tentando dar conta de linhas de comandos encontradas pelo caminho.

Por Facebook, Skype, Whatsapp ou um desses aplicativos de relacionamento, tentamos conhecer pessoas, mas chegamos à elas somente depois de algumas fotos e uma tabela com suas informações resumidas. Muita gente anda substituindo o “Oi” por simplesmente um clique no botão de “add”. Pra muita gente é suficiente que os sites ou aplicativos se encarreguem de informar que alguém lhes adicionou. E fazem absolutamente nada com essa informação, pois tornou-se apenas uma mera burocracia do ato de conectar-se virtualmente à usuários (já não vistos mais como pessoas reais). Imagine-se em um ambiente real onde você pressiona um botão para entrar em um comércio e ao invés de ser recebido por alguém, apenas é informado de que você agora está dentro do comércio. É claro que isso parece inútil e burocrático pois já descartamos a associação entre a conexão virtual com a conexão à uma pessoa real.

Mudamos drasticamente o modo como socializamos pela internet e, por isso mesmo, estamos perdendo nossa habilidade na socialização presencial também, afinal passamos tanto tempo nos computadores e longe das pessoas que temos dificuldades de conviver fora deste mundo individualista em que ficamos atrás de uma tela de celular ou computador, trancados em um quarto ou em um ambiente imaginário que se limita ao campo de visão diante do eletrônico, mesmo que estejamos em uma enorme sala, restaurante ou no meio da rua. Nos teletransportamos pra dentro do mundo virtual, tal qual os personagens do filme ‘Matrix’, onde a realidade já se confunde com o virtual (podendo ser até mesmo a mesma coisa), mostrando que tudo é mental e, portanto, relativo.

Passamos incontáveis momentos sem saber lidar com esses inícios de conversa. Os espaços de digitação de mensagens não estão mais presos à estrutura ou ritmo algum. Você diz algo hoje e semana que vem, quando você nem mais lembrava que havia escrito algo, alguém surge, lê (ou não) e inicia outra mensagem nova, desvinculada ao que foi escrito originalmente. Vivemos na base de links, emoticons, indicações, botões, lembretes virtuais, resenhas padronizadas, álbuns de fotos com legendas que nada dizem, mas oferecem links pra outras coisas que, por vezes, nada dizem também.

Claro que, por vezes, tudo isso nos economiza tempo. É verdade que é cansativo ter que nos apresentarmos tantas vezes, especialmente quando nosso tempo já foi totalmente roubado pela nossa procrastinação regada à atualizações de tela e navegações aleatórias em busca de postagens quaisquer que surjam automaticamente pela nossa frente. Acostumados a viver com o que nos entregam, já não buscamos mais nada. Sentamos e absorvemos passivamente. Perdemos muito das aspirações pessoais pelas questões da vida e até mesmo pelo mistério por trás de cada pessoa. Perguntas incomuns travam a maioria das pessoas nesse jogo moderno de botões de “Ok” e “Cancelar”. Qualquer coisa mais complexa que exija mais do que respostas afirmativas ou negativas já inquietam as pessoas e nos faz parecer uma grande perda de tempo pra essas pessoas que já se sentem sem muito tempo.

Isso me faz lembrar do relojoeiro dos contos de Alice no País das Maravilhas, sempre com pressa, correndo contra o tempo, sem poder parar pra qualquer explicação ou conversa. Estamos em tempos de aprisionamento a um modelo de vida que exige que sejamos tão rápidos quanto os computadores podem ser. E como isso não é possível, acabamos equivocados, reduzindo nosso tempo de sono, nosso horário de refeição e também nossas conversas, nossos momentos mais humanos e profundos. Parecemos com os extintos ascensoristas atendendo pessoas com base nos andares em que elas solicitam parar. Nos tornamos inúteis e superficiais pois queremos atender a demanda imaginária de 7 Bilhões de pessoas no planeta, mas sem entregar nada de relevante pra nenhuma delas, afinal o tempo é curto, fracionado e mal utilizado.

O desafio deixado hoje é que você consiga reverter seu estilo de vida, nem que seja começando por rever o ritmo de suas atividades. Você terá que repensar porque é que aquele seu projeto que normalmente levaria semanas, você quer muito terminar em 2 horas de um único dia. Pra quem é que você estaria realizando? O que é que está em jogo? A qualidade do projeto é menos importante que ter ele disponível o quanto antes na terra da visibilidade virtual?

Atender a demanda do Facebook e se moldar ao ritmo imaginário é o que está fazendo tudo ser mais pobre, menos útil e menos prazeroso, tanto pra quem cria quanto pra quem absorve essas criações. J.R.R. Tolkien, autor de ‘Senhor dos Anéis’, escreveu de forma intensa e completa sobre todo o universo por trás daqueles momentos. Chegou a criar o próprio idioma, além de inúmeros outros detalhes que fazem de sua obra algo completamente único, diferente da maioria dos conteúdos rasos da modernidade que muitas vezes não possuem sequer um propósito.

Temos que conversar, temos que olhar nos olhos, tocar, sentir, cheirar, viver. Temos que sentar ao lado das pessoas e rir, contar histórias, contar memórias, ter memórias para contar. Precisamos, intensamente, aspirar por momentos reais, ao lado de pessoas reais. Precisamos entender que não somos máquinas, nem linhas de programação, mas que temos consciência, tato, olfato, visão, paladar, audição e inúmeras outras capacidades sensoriais. Não espere que as pessoas sejam todas descartáveis, senão acabará igualmente descartado por elas. O sistema de sociedade e cultura que incentivamos entre as pessoas acaba prevalecendo e incluindo todos nós. Se não quisermos viver um mundo distante, frio, automatizado, feito às pressas e mal feito, precisamos nos desconectar de uma lista de ilusões que acreditamos fazer parte da modernidade.

Tempos modernos não excluem o ser humano da equação. Você pode fazer uso de tudo que a tecnologia proporciona, desde que coloque o bem-estar do ser humano como prioridade em tudo. De que serve poder conversar à distância por um eletrônico, se o conteúdo é fraco ou nulo? Qual é o ganho real? De que serve termos câmeras com ótima qualidade de imagem, se já não criamos comunicação pela Fotografia? De que serve estarmos conectados com milhares de pessoas, se não lembramos o nome de quase nenhuma? De que serve termos um Home Office, se na prática, não temos o esperado conforto de trabalhar em casa? Que qualidade de tempo temos? Que qualidade de conteúdo oferecemos? Que verdade há por trás de interações tão secas e virtualizadas? Quão feliz estamos vivendo essas regras que nós mesmos inventamos? Pra onde vamos? Porque vamos? Quem somos? O que queremos? O quanto podemos? E pra responder a tudo isso? Será que sabemos?

Rodrigo Meyer

Maiorias e minorias.

Há quem ache que quantidade é sinônimo de qualidade. E isso está bem longe de ser verdade. Grandes grupos sociais podem incluir ou não valores e pessoas de qualidade, independente de quantos sejam no total e quantos sobrem ao final com o filtro da qualidade. A qualidade é um aspecto que quase sempre tentam relativizar, por exemplo, atribuindo ela pro que se faz e não atribuindo pro que os outros fazem. Dessa maneira, por exemplo, os violentos acreditam ter qualidade apenas por assim serem, como forma de tentar justificar essa fraqueza.

Em todas as épocas, maiorias tentaram combater minorias por interesses sórdidos na política, na invasão de territórios, no extermínio de etnias, na escravização de povos, nos boicotes de outros modelos sociais, etc. O resumo máximo que se pode fazer sobre o tema é dizer que as maiorias, em muitos casos, são apenas uma maioria de medrosos e incapazes tentando se resguardar atrás de um coletivo numeroso pra não ter que lidar com suas próprias fraquezas individuais. Você não verá uma pessoa bem-resolvida se importar com o que outras pessoas estão sendo ou fazendo, desde que essas outras pessoas não estejam tirando a liberdade de ninguém. Somos todos livres e só não merece a liberdade que tenta tirar a de qualquer outro. Regra simples de convivência social.

Analisando o conflito de certas pessoas com certas minorias, é fácil ver que, geralmente, o desprezo por tais minorias vem de alguém que olha pra essas fatias sociais e se incomoda com o quanto os indivíduos dessas minorias conseguem ser relevantes, corajosos, vivos, persistentes e influentes, apesar de toda repressão, apesar de toda sociedade, apesar de todos os pesares. Inconscientemente invejam também a liberdade e ousadia que estes possuem em se assumir enquanto os fracos se incomodam até com o que o outro está sendo e fazendo dentro de algum tema ou setor na vida.

Em uma sociedade em que maiorias estão acostumadas com padrões plantados, é fácil ver como as pessoas se apegam à esses padrões como um porto seguro, um parâmetro confortável que lhes dita como proceder, ser, viver, vestir, pensar, agir, do que gostar, o que comer, como trabalhar, etc. Coitados os que vivem nessa fraqueza patética. Vemos, por exemplo, homens inseguros sobre suas próprias sexualidades, constantemente se agitando contra qualquer outro que não esteja formatado pelos mesmos moldes que ele, com a mesma orientação sexual ou concepção de gênero, pois, para o inseguro, tudo que estiver fora dos moldes ele não sabe lidar, lhe parecendo algo muito ousado, forte demais pra quem é apenas um robozinho acovardado e com preguiça mental e espiritual de existir em plenitude.

Com medo de serem tachadas de qualquer coisa diferente, a maioria das pessoas evita as possibilidades, como se o diferente fosse ruim. Coitadas dessas pessoas mal-resolvidas que transpiram montanhas de patetice por questões tão naturais. Certamente você já viu alguém assim, afinal eles estão em toda parte, já que são maioria atualmente nas sociedades. É o homem que não se atreve a ter cabelos longos, com medo de ser tachado de feminino (algo que pra estes é terrível) ou a mulher que evita os cabelos curtos com medo de ser tachada de masculina (como se masculinidade ou feminilidade estivessem no cumprimento do cabelo). É aquele rapaz inseguro que não consome nada de cor rosa porque acha isso inapropriado para homens. São as pessoas que acreditam fervorosamente que tatuagens são sinônimo de má índole, mas que, ironicamente, é a índole de quem pensa assim que tá ruim.

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.” – Paulo Freire

Podemos ver claramente que a pressão social nas massas privou os indivíduos de se expressarem com liberdade e lhe impuseram restrições sexistas, machistas, padrões corporais, moldes de pseudo-religiosidade, falsos valores e a ilusão de status inventado para profissões, graduações escolares, posses materiais e tantas outras coisas. Tristes robôs obedecendo e repetindo regras inúteis.

Ao se sentirem podados de suas próprias expressões naturais, os acovardados que não se rebelam contra essas privações, dividem-se em dois grupos. Uma parte é composta de indivíduos que se privam dessa expressão, vivendo enrustidos ou escondidos do resto da sociedade e outra parte é feita de indivíduos que, de tão inseguros com o tema, não se permitem nem questionar suas próprias realidades e, por isso, passam a vida tentando negar suas realidades e, por isso, precisando se reafirmar dentro dos padrões da maioria pra convencerem a si mesmos de que não são e não precisam ser aquilo de que não conseguiram lidar sequer no campo das ideias. Se possuem demasiada fraqueza de se questionarem e/ou se assumirem homossexuais, por exemplo, às vezes acabam se forçando à uma heterossexualidade falsa apenas pra não ter que lidar com o tema da homossexualidade em si mesmos. E como essas reafirmações são fruto apenas da insegurança, elas são feitas de maneira bem desproporcional e doentia. É assim que nascem os estereótipos patéticos de homens com postura sempre séria, atitudes violentas e machistas, com culto excessivo à características tidas como ‘masculinas’ na sociedade (cabelo curto, músculos desenvolvidos, conduta rude, etc).

E os padrões estão em tudo. Minorias religiosas sempre foram um incômodo pra quem era da maioria e estava mal-resolvido em suas próprias “escolhas” de religião. Também sempre foi assim com ideologias políticas, com hábitos de consumo, com posições sociais, profissões, etc. No fundo, o conflito interno das pessoas é, claro, somente delas. São elas que estão mal-resolvidas com o tema. Quem está satisfeito consigo mesmo não vê necessidade de se explicar o tempo todo e, por isso, quem está sempre em conflito com os livres está, afinal, em conflito com a liberdade. Assim que tiverem uma relação melhor com a liberdade, aceitarão ela como um caminho pra suas expressões e vivências.

O ser humano que se permite experimentar, pensar, refletir, se colocar no lugar de outros, ver possibilidades e dividir espaço com outros temas e realidades, mostra-se equilibrado, seguro de si, afinal sabe que se abrir pra análise e divisão do espaço com qualquer outra pessoa livre não o ameaça em nada. Somente o inseguro não tem essa segurança diante do diferente, das minorias, das coisas novas ou fora dos padrões. Quem facilmente se arma contra as coisas, está se sentindo constantemente ameaçado pela presença delas. E isso é a definição de estar mal-resolvido e inseguro.

Monstros imaginários são criados todos os dias por quem não sabe lidar com o natural. Para quem não tem coragem, um gato inofensivo parece um leão psicótico. Para quem nunca se permitiu olhar ou questionar sua própria sexualidade, a sexualidade dos outros parece ser vista com a mesma distorção. Algo inofensivo soa assustador e incômodo pra quem foi fraco demais pra lidar com a temática dentro de si mesmo. Mas há uma boa notícia nisso tudo: essas fraquezas podem ser revertidas e tratadas. Busque ajuda profissional de um terapeuta ou psicólogo / psiquiatra pra rever quais fatores te levaram a esses traumas e acovardamentos diante de tema tão simples. Ou faça uma análise sozinho e reveja suas realidades internas até conseguir lidar bem com elas.

Às vezes essas posturas exacerbadas diante dos temas são reações por ter medo de ser julgado. As pessoas sabem que a sociedade julga, pressiona e cobra, então, muita gente, com medo de ser excluída ou destratada, inconscientemente se molda aos padrões que são aceitos, com objetivo de garantir que estarão seguras e acolhidas diante da sociedade. Esse comodismo custa a liberdade de expressão, custa sua realização como pessoa, custa a sua felicidade e custa, infelizmente, os direitos e segurança de todos os outros que, mesmo se tiverem força e coragem de se apresentarem como minorias, precisarão lutar com barreiras que as maiorias mal-resolvidas criaram de forma doente e, portanto, desnecessária.

Reveja seus conceitos e se fortaleça por dentro, pois não há músculo, arma ou colete que preencha a falta de coragem de encarar o verdadeiro inimigo: você mesmo e seus monstros imaginários. Enfrente seus demônios internos e verá que ruim mesmo é permanecer na fraqueza sem necessidade. Se achar que não tem as ferramentas certas ou a energia necessária pra buscar resolver-se internamente, conte com ajuda de outras pessoas.  Já antecipo, contudo, que, possivelmente, essas ajudas estarão pelas palavras, ações e trabalho de pessoas vinda das minorias da vida, afinal, prestar não está na moda há muito tempo e se você quer se livrar da mesmice doentia das maiorias mal-resolvidas, terá que buscar ajuda fora delas.

Se você faz parte de certos padrões sociais, mas está bem-resolvido sobre isso, fique tranquilo que o objetivo não é e nunca foi converter ninguém à nada, mas apenas resolver os que estão mal-resolvidos. Ninguém quer transformar carros em bicicletas, nem bicicletas em carros. Apenas queremos que bicicletas sejam bicicletas, sem pressões sociais pra que sejam carros e que carros sejam carros sem pressões sociais pra que sejam bicicletas. Em resumo, seja você mesmo, se expresse, se manifeste, exista e persista. O que é natural vai sempre existir e o que tem que ser destruído é a fraqueza humana, a mentalidade tacanha, o cabresto, os moldes sociais forçados, os monstros inventados, as violências desnecessárias e o medo de viver livre e bem sendo quem se é. Muitas prisões já se fantasiaram de liberdade e é fácil ver isso até mesmo pelas contradições entre símbolos promissores e opostas realidades.

Rodrigo Meyer