Minha ideia sobre bons momentos acompanhado.

Embora seja fácil pra mim citar uma infinidade de cenários que me interessam, é importante antecipar que isso não restringe as possibilidades, nem torna o que foi citado como premissa. O que vem a seguir, demonstra, sobretudo, como as coisas podem ser diversas, diferentes, permeando desde o convencional ao exótico, indo de coisas simples até sonhos que exigem maior preparo. O importante nisso tudo é o que está por trás de cada momento, de cada interação, o que ocorre na mente de cada um, o que se abriga no sentido subjetivo, simbólico, emocional e ideológico por trás. Muito disso traz aspectos de liberdade, de ousadia, de cumplicidade, de transformação, de coragem, de tranquilidade, proteção, mudança, sinceridade, confiança, mistério e também a beleza dos dramas.

Pensar em bons momentos pra se viver, me fazem viajar em realidades das mais diversas. Eu sou uma pessoa diversa. Muito. Eu consigo permear inúmeras realidades e me sentir pleno em todas elas. Eu sei ver o que há de bonito em todo tipo de realidade. Eu consigo transformar a minha vida em diversas outras vidas. Eu sou uma biblioteca à ser escrita, podendo ter uma história diferente em cada livro. Eu não sei qual vai ser a próxima realidade que eu vou vivenciar, mas todas as realidades que me chegam, eu vivo intensamente, entregue totalmente, em sinceridade.

É um bom momento pra mim, andar pela cidade, lado a lado, em dois, em trio, em grupo e chegar recebido e convidado para um apartamento. Apartamentos são diferentes de casas. Eles tem uma atmosfera diferente. Sentar num chão é tão bom quanto sentar num sofá e ambos são mil vezes melhor do que sentar numa cadeira. Eu penso que seja o viés social e informal. Cadeiras são unitárias, enquanto o sofá e o chão são espaços coletivos. Cadeiras são construções formais para fins quase sempre muito específicos, enquanto que os sofás são um recanto de acolhimento, de conforto, de socialização e do imprevisto. Se quer me ver brilhar os olhos, me chame pra sentar no chão, beba junto comigo e me mostre algo bonito. Estejamos alí sem hora pra acabar. Deixa o tempo fluir, enquanto o dono da casa não tiver que sair pra trabalhar. Coloque uma música baixinho, vamos só sentir o momento. Olhares, muitos olhares. Isso é a base da melhor comunicação.

Outra possibilidade encantadora é viajar o mundo. Que eu acorde cedo, tarde ou mesmo de madrugada. Vamos cansar e descansar nas filas de estações de ônibus, nos trens, aeroportos, a pé ou de carro. Não importa como, a gente vai sair e chegar. Será ótimo ver o dia passar. E de repente apertar o passo, pra não perder o horário, mas tudo bem se não chegarmos à tempo e tivermos que mudar os planos. A gente sobrevive, dorme na calçada, segura o sono até podermos sentar, mas a gente faz, porque tudo isso é viver. Conversa comigo, observe as pessoas, vamos rir, vamos brincar, vamos imaginar. Me mande uma mensagem inesperada, no meio da madrugada e me peça pra ir aí. Os melhores dias começam assim. Gente intensa, gente viva, que percebe o segredo da vida nestes pequenos grandes atos. Se nada der certo a gente enfrenta junto. É preciso se entregar pra que coisas incríveis comecem a acontecer.

Também é bom estar em casa, deitado na cama, fazendo coisa nenhuma, recebendo um carinho, ouvindo conversas ao pé do ouvido, dormindo, ouvindo a chuva cair ou uma música de fundo que nos faça sorrir. Dividir uma pizza, uma bebida, um incenso, uma lareira, um vento na janela, uma cadeira na varanda, um chão, meu chão, o chão de quem vier. Vamos sentir a maciez do cobertor e o cheiro diferente que toda casa tem. Vamos redescobrir o sentido do tempo, se permitir sentir-se em casa na casa do outro, abrir a geladeira, tomar um banho, despir-se, usar a internet, convidar mais gente, inventar uma festa ou não ter ninguém e deixar espaço pra fechar os olhos e sentir. Não traga nicotina, tem coisa melhor pra se fumar. Se tens tempo, fica o dia todo, vira o dia, passa uns dias, volte quando precisar voltar.

Gosto também de estar mergulhado na noite, nas ruas, sentindo o movimento, a ação, a incerteza, a novidade, gente diferente, gente estranha, gente feia ou bonita, mas gente, muita gente, por onde possamos nos perder e encontrar novas portas, novos cantos, novas conversas, novas possibilidades. Vamos puxar assunto com alguém que acabamos de conhecer. Olho nos olhos, assistindo a linguagem dos corpos e vendo se tem alguém alí que pode nos acender. Vamos dividir uma mesa, brindar à beleza e descobrir só na hora pra onde vamos ir. Precisamos escutar bem as conversas, ouvir os detalhes. Lá habitam mundos. Pegue no braço, sinta os perfumes. Assim estaremos vivos o suficiente pra morrermos antes do sol nascer. Não deixe a janela aberta. A penumbra filtra o necessário pra que tudo seja mais aceitável. Não precisamos descobrir a coisas como elas são, mas só sentir o que elas podem ser por aquele momento.

Que lindo momento seria se houvesse um piano. Sentar um instante e matar saudade dos tempos de música. Entender que tudo fica mais fácil se estamos despreocupados com a vida. Apenas sentir os dedos encontrando as teclas, como se sempre soubesse onde precisa tocar. Brincar de poeta, inventar melodias, exercitar a alma. Fique por perto, sente na poltrona, use tua droga preferida e entre na viagem daquele momento. Mas não apague, não fique totalmente perdida, deixe pra se perder na sua vez de tocar o piano, de ser arte, fazer arte, fazer parte. Vamos vedar a casa, pra não incomodar os vizinhos ou morar num lugar onde eles apreciem nossos desvios. Que as janelas possam ser de vidro, porque quero olhar as luzes da cidade lá fora ou um espaço de natureza onde o vento agite uns galhos de árvore no meio da escuridão. Se estivermos acordados de dia, que possamos, pelo menos, sentir o laranja da tarde ou algum frio congelante que nos faça sentir melancolia.

Do outro lado da vida, ainda se vive a mesma vida, se não deixamos de ser a mesma pessoa. A vantagem em ser diverso é poder apreciar também um simples momento em família. Vamos visitar uns parentes ou desconhecidos, numa festa de aniversário, num evento beneficente ou qualquer coisa parecida. Vamos conversar com idosos, conhecer histórias, prestar memória, deixar aquilo ser algo bom pra se lembrar. Fazer ser importante pra quem recebe a presença e encontrarmos importância também no que eles podem nos dar. Vamos rir de crianças, das coisas bobas e bonitas que fazem, sentir ternura e relembrar como é bom essa fase. Vamos ver animais, abraçar cavalos, assistir uns patos, libertar passarinhos e inventar nomes pra uns gatos. Vamos espalhar uns panfletos na avenida, nas caixas de correio da vila, nos arredores das escolas. Vamos fotografar, escrever, desenhar, promover, apoiar. Vamos pras ruas em tempos de luta, chutar pra longe as bombas de gás lacrimogêneo. Vamos nos juntar a milhares de outras pessoas com vida. Amarra o coturno, apressa o passo, segura no braço, vamos se entrelaçar formando uma fila.

Em companhia, não fecho as portas pra nada. Não me importa se é um amigo, um mendigo, um perdido ou uma namorada. Por aqui você pode contar comigo, não tem tabu, não tem frescura, não tem perigo. Se está feliz ou triste, se perdeu a saúde ou precisa ser ouvido. Eu não sei qual é o seu momento, mas eu estarei lá pra fazer a minha parte. Pode me contar, eu vou ouvir, me pergunte, eu vou responder. Não tem problema nenhum se você é diferente, se sua vida anda meio perdida ou se você sente que não tem espaço pra se explicar. Aperta minha mão, dá um abraço, perde o medo, não tenha vergonha, fale do seu jeito, no seu tempo, o que achar que deve. Vamos conversar, vamos trocar. Estamos vivos, somos gente de valor, vamos se valorizar. Aceita um convite, deixa eu oferecer uma comida, talvez uma bebida, talvez um conselho pra dar. Me conte sua história, vamos dar a volta por cima, fazer isso ser motivo de glória e não motivo pra chorar. Incômodo são somente os outros que nos ignoram e não sabem nos fazer brilhar. Pode vir, com sua roupa furada, sua bagagem amassada, seu olhar maltratado, seu tesouro quebrado, sua insegurança, sua timidez, seus medos. Traga o que tiver e será suficiente. Aproveita o dia, pois todos merecemos. Fique tranquilo, encontre prazer em ser, em ter alguém pra chamar de amigo.

Há de se ver prazer também em cenários menos entristecidos. Vamos escrever cartas, cruzando distâncias curtas ou transoceânicas. Vamos agradecer, enviar desenhos, flores, histórias, pedaços valiosos de nossas próprias memórias. Vamos levar o nosso dia a dia pra alguém que nos seja importante. Dividir a vida à distância, pode ser tão ou mais vibrante do que pessoalmente. Tudo depende do que estamos fazendo e para quem. Pessoas incríveis encontram prazer e aventura em coisas que pra muitos é pura loucura. Vamos ter ideias, pensar junto, lembrar do outro, enviar um mimo, um presente, uma proposta, uma pergunta, um lembrete, um conselho, um elogio ou uma simples foto tirada na frente do espelho. Nos tornamos mais humanos quando conseguimos ser livres o suficiente pra aceitarmos múltiplos planos. Me surpreenda com um pacote de guloseima que só tem no lugar onde você vive. Eu vou me sentir feliz pela surpresa e lembrar disso vai me fazer me conectar melhor contigo. Não importa que nome isso tenha. Faça isso ser leve, intenso e sempre valerá a pena.

Também gostaria de momentos desafiadores. Conhecer o extremo nos lugares de neve, o calor pesado de grandes desertos e sumir por meio de vilarejos pequenos. Subir montanhas, descobrir cachoeiras, acampar por aí, deixar as aventuras serem elas mesmas. Me chama pra te ver acordando, de cara inchada, se espreguiçar olhando pro horizonte, sentar e contemplar. Vamos sorrir, abraçar, meditar, descobrir que pouca ou muita comida pode ser igualmente suficiente. Vamos lavar os pés no mar, deixar o sal limpar e o vento secar. Corre ali, volta com uma novidade, descobre um lugar, um bar, uma outra cidade. Vamos ficar, vamos partir, vamos dividir. Na praia, no campo e pra onde mais quisermos ir. Isso nos faz saudáveis, nos faz admiráveis, nos faz sorrir.

Trabalhar junto também é possível. Como em um jogo de vôlei, um levanta e o outro corta. Ser equipe, ser parceria é fazer a coisa funcionar de uma maneira que seja boa pra nós. É encontrar uma atividade que nos seja divertida, que dominemos e que tenhamos prazer em nos esforçar. Ver resultados não pode ser só uma meta a ser atingida, mas o cenário de quem tem objetivos pessoais naquela investida. É isso que nos faz investir, nos faz sentir seguros no que fazemos. Levante um dia com uma dúvida, uma proposta, uma pergunta, uma ideia nova. Me apresenta um livro, vamos comprar alguma coisa necessária qualquer pra tentarmos realizar nossos sonhos e loucuras. Faça tudo ser bonito, se empenhe, não se contente com algo inferior. Vamos fazer do trabalho um ato de amor. Se teus olhos não brilham pelo que você faz, vamos mudar de trabalho, vamos correr atrás de mais. Eu não preciso que teu trabalho seja fixo, nem me importaria se tivéssemos que esperar um pouco mais. Eu estou aberto, eu apoio, eu quero ver sorrisos, eu quero fazer parte, inclusive com bastante improviso, porque começar é apostar no que ainda não existe para os outros, mas já é realidade dentro de nós. Se mudamos de cidade, se perdemos a conexão com a realidade, tudo bem, a gente vai encontrar uma forma de nos fazer sermos percebidos, de vencer aquilo, pelo menos, no nosso interno desafio.

Você pode ser quem você quiser, encarar a vida de mil maneiras. Pode ser mãe, aprendiz, solteira, alegre ou infeliz. Você pode gostar de rock, de samba ou ser como eu que gosta de tudo que me faça sentir. Você pode preferir a noite, pra poder dormir de dia, pode inverter o jogo e me arrastar pra debaixo do sol. Eu vou estar lá, admirando a chuva, o vento, o sol, a paisagem, a casa quebrada, a porta velha, a cama improvisada, e também o teu imenso candelabro escondido na cera da vela. Você pode ser de toda forma, qualquer medida, qualquer estilo de vida. Mas, que seja confidente, que se entregue junto, que venha pros momentos pra ser gente como a gente. Que se permita errar, não saber, conhecer muito e me ensinar a ser. Você pode estar comigo, pra correr da noite, no meio de lugares desconhecidos, pode estar na paz de uma escada no alto de um prédio, dividindo um segredo, sendo você mesma um mistério. Pra ser companhia por aqui, é preciso estar sendo algo verdadeiro. Se simpatiza com a minha forma de ser flexível, temos o dobro de possibilidades. E se tua vida for um pouco mais restrita ou concentrada, vou adorar entrar nesses trilhos pra seguirmos juntos a mesma jornada. A vida não precisa ser de um jeito muito específico. A realidade que alguém escolher ter ou mesmo qualquer outra realidade que nos aparecer, eu vou encarar com gosto, vou me sentir protagonista, vou estar lá pra mergulhar fundo, experimentar a realidade daquele mundo. Eu não me incomodo com nada. Tudo que eu conheço da vida é que a vida está aí pra ser explorada.

Talvez você não enxergue em mim, logo de cara, tudo que eu posso ser em qualquer outro momento, em outro cenário, com outro pensamento. Talvez você não perceba que, do jeito que eu vim, é só uma das inúmeras possíveis facetas. Aquilo que somos não é necessariamente aquilo que estamos. A vida é sempre transição (ou não). E está tudo bem em permear mundos diversos. Se não experimentamos em profundidade uma determinada história, uma face da vida deixa de existir. Estamos aqui pra usufruir. Se você se permitir e se estivermos em sintonia pra dizer mais sim do que não, então, temos uma boa razão. Dividir bons momentos em companhia é ser companhia em qualquer momento. Não importa o cenário, nem importa o que é que vamos fazer das nossas vidas. Não sabemos. Chegamos lá e descobrimos o que temos e teremos. É sempre uma surpresa. E fica tudo melhor se quem nos surpreende também acredita nesse ideal. Assim a vida fica cheia de aventuras, até mesmo nos momentos em que nada acontece. Viver, por si só, se nos permitirmos sentir o momento, é aventura suficiente.

Rodrigo Meyer – Author


Anúncios

Sobre cercar-se de gente produtiva.

De forma simplista, a ideia de cercar-se de gente produtiva já parece interessante, afinal quando pensamos em pessoas produtivas, imaginamos algo positivo, mesmo sem nos atentarmos aos detalhes do que está sendo classificado como ‘produtivo’ nestas hipotéticas pessoas. Todo mundo, a princípio, acharia vantajoso estar cercado de tal gente. Contudo, na prática, isso pouco ocorre e, na verdade, muita gente descobre que não tem real apreço por gente produtiva. Faz-se necessário, então, explicar um pouco sobre as vantagens que este tipo de pessoa traz e, a partir disso, quais as vantagens que absorvemos por nos rodearmos delas, além de, claro, tornar esse processo espontâneo.

Pessoas produtivas são aquelas que estão sempre envolvidas em alguma criação, trabalho, ideia ou iniciativa. São as pessoas que estão sempre colocando pensamentos em prática, transformando sonhos e vontades em algo concreto. Estou falando, por exemplo, da pessoa que converte um sonho em uma série de desenhos, que observa o mundo e escreve sobre ele, que coleta material reciclável e converte em produtos reutilizáveis, que organiza ações de ajuda social, que conserta objetos quebrados, que restaura uma informação útil que estava perdida, que intervém em uma briga pra defender ou apoiar uma vítima, etc. Aqui são alguns pouquíssimos exemplos de gente produtiva no mundo. Mas, nem de longe isso resume a totalidade e diversidade do que são as pessoas produtivas. Existe algo de muito especial nestas pessoas e isso a gente só nota quando começa a identificar muitas delas e a perceber o que elas possuem em comum.

Enquanto alguns evitam o contato com pessoas produtivas, eu fixo meus olhos brilhantes sobre elas e agradeço pela oportunidade de conhecê-las. Fico feliz em saber o que cada pessoa faz, não apenas na profissão e estudos, mas, principalmente, nos hobbies, porque é o que a pessoa, aparentemente, ama fazer e de onde se pode, provavelmente, extrair oportunidades interessantes para atividades conjuntas a curto ou médio prazo. É fácil imaginar, por exemplo, que uma pessoa que compõem música, tenha maiores chances de se interessar por alguma proposta sua que envolva edição de som, restauração de instrumentos musicais ou mesmo de participar de um blog ou livro sobre arte. Por outro lado, se esta mesma pessoa fosse pouco produtiva, seria indício de que ela não está verdadeiramente engajada nessa atividade, seja por falta de tempo, de estrutura ou de paixão suficiente. Por isso, é importante diferenciar quem apenas está conectado à um assunto e quem realmente é produtivo nesse meio. Em uma analogia, uma coisa é o usuário comum de computador e outra, bem diferente, é o entusiasta de antiguidades da informática que vai tão fundo nisso que chega a restaurar os equipamentos para utilizá-los novamente, mesmo que tenha que aprender a soldar placas de circuito e a restaurar a cor envelhecida do plástico, sem desanimar se precisar reaprender comandos de um software estranho.

Mas, algo que sempre se vê em comum em pessoas produtivas é que elas nunca estão engajadas apenas em um tipo de atividade ou assunto. Como se estivessem eternamente curiosas e inquietas, se desdobram em tantas outras faces pra aprender segundas, terceiras e quartas profissões, outros idiomas, outros talentos, etc. São as pessoas que estão sempre à um passo de uma nova viagem, de um novo curso, de um novo livro, de uma nova conversa, outra amizade, outra cidade, outro modo de ver a vida. Essas pessoas estão sempre caminhando pra inúmeras direções, mas, sobretudo, estão consolidando cada uma dessas atividades. São pessoas, geralmente, de muito talento e esforço. Se dedicam muito em estudar e dominar um assunto com excelência suficiente pra serem admiradas. E é aí que entram as trocas. Pessoas assim, possuem a grata oportunidade de converter suas vantagens em mais vantagens. Quando você une dois entusiastas da Música, por exemplo, de repente tem-se uma banda por surgir. Ou, ainda, quando você é um talento na Fotografia e conhece um bom ator ou modelo que também aprecia Fotografia, você tem ali o caminho facilitado para falar disso, propor projetos fotográficos e ideias onde ambos possam fazer algo novo disso tudo, porém juntos.

Parcerias, como se pode ver, são frutíferas quando as pessoas possuem alguma afinidade. E pra que aumentem as chances de encontrar afinidades com alguém, nada melhor do que ter muitas áreas de interesse e estar em contato com pessoas que também possuem interesses diversos. Em um jogo invisível de tentativa e erro, vamos conhecendo pessoas, seus planos, seus sonhos, sua personalidade, suas manias, seus gostos, suas invenções e, quando menos se espera, estamos atuando junto em busca de satisfazer nossa curiosidade, completando incertezas, deixando questionamentos ou até mesmo apontando uma solução. É muito mais provável que estas interações resultem em um novo projeto, trabalho, produto ou até mesmo em um novo hobbie muito mais incrementado ou divertido. Por vezes, é a brecha que faltava pra que alguém elevasse o nível de uma prática que já fazia sozinho.

Com esse networking especial você está facilitando sua vida em todos os setores, sem saber em qual deles vai ter mais sucesso inicialmente, mas certamente será alguém mais satisfeito com a vida, porque terá preenchido seu tempo e sua mente com coisas e pessoas que realmente lhe instigam a ser e fazer mais. E mesmo que sua produtividade não cresça atrelada à uma parceria com estas outras pessoas, ainda sim será graças à elas que você terá desenvolvido seu caminho isolado.

Muito do que eu aprimorei em informática, por exemplo, se deu pela interação com pessoas que tinham afinidades comigo em outras áreas em comum. A troca de experiências possibilitou que ambos dessem o melhor de si em algo e recebessem o esforço do outro igualmente. É o milagre da multiplicação. Somar é fácil, mas multiplicar é arte. Ao longo da vida, estive em contato com muita gente, ficando particularmente encantado quando notava que a pessoa tinha disposição mental pra permear mundos diferentes, assuntos desconexos entre si e manter clareza em tudo que se propunha a investigar, estudar, compartilhar ou praticar. Isso me faz pensar que, em última análise, o sucesso dessas pessoas está atrelado a um enorme esforço que só é possível pelo imenso prazer que elas possuem em dedicar muitas horas em algo. E não seria exatamente essa paixão que faz delas pessoas produtivas em suas áreas de interesse? Penso que sim.

Pessoas comuns, torcem pro dia acabar logo, mas pessoas produtivas, não estão sequer olhando pro relógio. Conta-se que Albert Einstein, frequentemente, se trancava no quarto por dias, isolando-se de tudo e todos, até que pudesse sair dali com a resposta que precisava. Seu networking se deu, indiretamente, pelo contato com invenções que via e estudava durante seu trabalho no órgão de registros e patentes. Algo similar ocorria com Nikola Tesla que se motivava a descobrir novas possibilidades com a eletricidade, devido a discordância no trabalho de outros inventores e empreendedores. Não tão diferente, em tempos mais modernos, ocorreu o mesmo com os criadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, o criador da Microsoft, Bill Gates, e o criador do Linux, Linus Torvalds. E de maneira bem clara, vemos que eles concretizaram suas ideias pelo apoio de pessoas que estavam profundamente relacionadas com seus hobbies e trabalhos tão incomuns.

Talvez você nãos visualize de imediato ou tão facilmente as conexões possíveis entre as coisas que você faz ou gosta com as oportunidades que isso pode lhe render junto à outras pessoas. Mesmo assim, as oportunidades estão potencialmente presentes. Você precisa simplesmente dedicar tempo em viver um contexto diverso, desde que toda essa diversidade faça sentido pra você e seja espontânea. É muito possível que o estudo de idiomas, por exemplo, lhe renda contato com pessoas que já viajaram ou que gostariam de viajar. E quantas outras conexões se formariam, se o sonho de viagem de algumas dessas pessoas fosse pelo apreço em História, por exemplo? Quanto mais diverso é um indivíduo, mais caminhos lhe surgem. Quanto mais caminhos são absorvidos, mais produtivo o indivíduo se torna. Por fim, quanto mais produtivo, mais chances tem na troca com outros indivíduos produtivos e diversos. Sucesso garantido, pra uma vida que pode até não render dinheiro, mas provavelmente vai lhe manter vivo no melhor sentido do termo.

Dito tudo isso, cabe à você descobrir seus potenciais, seus campos de interesse e definir suas estratégias, por assim dizer, de como se relacionar ou permear o mundo das pessoas e assuntos que lhe parecem úteis. Mas, acima de tudo, esteja lá por verdadeiro gosto no que faz ou pensa, porque os insights e as oportunidades serão sempre frutos ocasionais e quase aleatórios de sua própria dedicação incansável e do seu mergulho despretensioso que lhe reverte suficiente prazer.

Rodrigo Meyer

Crônica | Os três bandidos.

Ela, a quem chamarei de Fabiana apenas, para suprimir a identidade, era daquelas que adorava enaltecer a polícia e criticar bandidos. Porém, Fabiana comprava câmeras roubadas, apenas porque lhe convinha, era mais barato do que ter que trabalhar pra adquirir uma. Fabiana se sentia empoderada em criticar gente como ela mesma: bandidos. No fundo, eram todos unidos. em uma mesma cadeia de processos. O ladrão de câmeras roubava as pessoas usando armas conseguidas, direta ou indiretamente, com a própria polícia. O tráfico de armas sempre a serviço de mais e mais criminalidade. Fabiana alimentava tudo isso, desnecessariamente. Quando colocada diante da contradição, espumava de raiva por dentro a ponto de arquitetar ideias patéticas como inventar preferências por carreiras como na Polícia Científica. Por dentro eu ria, ao mesmo tempo em que lamentava a ignorância saturada. Que gente fraca, quanta desonestidade em um ser só. Como poderia caber? E o que são estas pessoas senão esse falso crachá de moralidade, só pra justificar ódio e egoísmo? O crime? Sempre esteve ao lado destes. Honestidade não é o forte de quem é peça indissociável do crime. Fabiana deve estar se amargando essa hora, mesmo depois de anos, ao lembrar que não tinha argumento válido pra sua ideia e conduta. Fabiana queria comprar câmeras de quem rouba câmeras, mas não queria que roubassem a câmera dela. Fabiana é muita gente. Fabiana é o câncer da ignorância que mata a sociedade todo dia.

Rodrigo Meyer

Motivos para abandonar o Facebook.

Desde o surgimento do Facebook, como um projeto paralelo de universitários, a ideia da rede social já vinha imbuída de polêmicas. Como se não bastasse o nascimento conturbado da rede, a trajetória de fama da plataforma acabou por revelar vários escândalos relacionando vazamento de dados, manipulação de estatísticas e divulgações pagas nada realistas. Em resumo, o Facebook prometia aos olhos dos usuários a oportunidade de finalmente se conectarem, criarem seus espaços e se divulgarem ao mundo, mas logo se viu que nada mais era do que uma grande ferramenta de intermediar os interesses de governos e grandes empresas com a ingenuidade de uma massa de usuários no mundo todo.

Em 2013, conforme esta notícia da CNN, o Facebook servia como fonte de dados para NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos. Além do uso clássico dos registros telefônicos e registros de e-mail, a NSA usava também o Facebook para traçar conexões entre profiles e criar um mapa de conexões entre usuários, conforme dados de Edward Snowden, divulgados pelo New York Times. Mas este está longe de ser o único motivo para se deixar a rede social.

Com o extinto Orkut, o Brasil e uma parte do mundo aprendeu um conceito novo de interagir pela internet. Depois do fim dessa plataforma, houve espaço pro Facebook surgir e assumir o lugar. De lá pra cá, nunca havíamos nos expostos tanto na internet, com nossos dados pessoais, informações profissionais, gostos, costumes, personalidades, conexões de amigos e conhecidos, fotos, família e muito mais. Nos tornamos praticamente acessíveis a qualquer pessoa, até mesmo quando nosso profile está em modo fechado ou não-público, uma vez que existem ferramentas que burlam essa limitação tanto individualmente, quanto nos alegados vazamentos massivos que o Facebook faz com os dados dos usuários.

É surpreendente o crescimento rápido da plataforma e em como uma coisa simples, gratuita e, inicialmente, com pouco potencial de utilidade aos usuários, se tornou uma das principais mídias em toda internet. Tão famoso quanto Google ou Youtube, o Facebook parece ter conquistado a simpatia das pessoas. E nisso existe um componente perigoso. Em projetos dessa magnitude, não existe forma milagrosa que torne toda estrutura gratuita. Se por um lado usuários não precisam pagar pra acessar, por outro, alguém está bancando essa conta. E, claro, como em diversos outros meios de comunicação, a gratuidade é concedida em troca de uma cobrança massiva a anunciantes que estão sedentos pelo potencial de se conectarem com usuários. Mas não quaisquer usuários, afinal os algoritmos do Facebook permitem um filtro tão refinado de informações de cada pessoa que é praticamente possível personalizar todos os aspectos para entregar uma comunicação direcionada a cada tipo de indivíduo, elevando a eficiência nos objetivos, sejam eles quais forem. E aí entra um aspecto ainda mais perigoso.

Que as empresas tentam nos empurrar produtos dia e noite, isso não é novidade nenhuma. O problema é que, em escândalo recente, o Facebook foi surpreendido por estar envolvido no beneficiamento da candidatura de Donald Trump, por conta de acesso à dados de 50 milhões de usuários. Com a exploração destas informações de usuários e amigos de usuários, uma empresa, de nome Cambridge Analytica, criou um algoritmo capaz de formar um perfil ainda mais completo das pessoas e, assim, direcionar propaganda política altamente personalizada para eleitores indecisos, o que, certamente, impactou no resultado das eleições americanas. Confira a notícia de 20 de Março de 2018 aqui.

Até o momento, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, não se pronunciou sobre o assunto, seja porque não não tem algo de bom pra dizer em sua defesa ou seja porque não sabe o que fazer diante do escândalo. Com o ocorrido, o Facebook despencou as ações na bolsa e está sendo visto por muita gente como uma mídia sem futuro. Somente no Canadá, mais de 20 milhões de usuários abandonaram o Facebook. O Brasil, infelizmente, por conta da própria cegueira que predomina na média dos cidadãos, provavelmente, será um dos últimos países a sair massivamente da rede. Estes já são motivos suficientes pra se abandonar, mas ainda há muito mais.

Enquanto o Facebook engordava o bolso com bilhões, usuários do mundo todo se viram afundando em crises econômicas, perdendo desempenho em suas carreiras e deturpando o tempo diário diante do computador ou celular. Muita gente mergulhada em depressão, outras tantas desaprendendo severamente as premissas básicas de socialização tanto presencial quanto pela internet e enveredando por um caminho obscuro onde tudo que se tinha era um cabresto azul guiando as pessoas por uma tela cinza de timeline cheia de informações completamente irrelevantes que levavam as pessoas de lugar nenhum a nenhum lugar. Custou pra que as pessoas se dessem conta de que ceder suas vidas pessoais para empresas e usuários do mundo todo não era uma boa opção. Muita gente restringiu o acesso a seus profiles ou até mesmo suprimiu severamente as informações prestadas na internet para evitar esse abuso. Além disso, passar cada vez menos tempo na internet se tornou a meta de vários usuários, como forma de reaver o tempo perdido e investir mais em si mesmos, em suas carreiras e potenciais, principalmente retomando o contato físico e natural com as pessoas e os lugares.

Cada vez que a internet se torna mais e mais acessível, começa a permear pra dentro da rede a mesma diversidade de problemas que existe no mundo real. Desde um bom tempo que o Facebook se tornou alvo de todo tipo de crimes e pessoas mal intencionadas. Entre stalkers (pessoas que observam a vida alheia), estelionatários, divulgadores de notícias falsas, profiles fakes para forjar números e comentários falsos, traficantes de animais e drogas, falsificadores de dinheiro, estupradores, aliciadores para prostituição, pedófilos, além dos populares propagadores de ódio gratuito, fascistas e afins. Um verdadeiro bueiro de desgraça.

E se você é usuário brasileiro, a situação é ainda pior. Pelo mundo todo o brasileiro foi considerado o povo mais mal educado da internet. Não é de se espantar, considerando o nível deplorável nos setores de Cultura, Educação, estrutura familiar, estrutura psicológica e social. Tirar algum proveito da rede social nesse cenário, só se você estiver em busca de trocar chumbo entre usuários igualmente mal intencionados. Quem já se deu conta que a rede afundou não quer nem ouvir o  nome dela.

Uma parcela das pessoas tenta manter o Facebook para fins profissionais, alimentando e divulgando suas fanpages com o intuito de fomentar adesão a seus produtos, serviços, ideias, ONGs, causas sociais e afins. Contudo, mesmo para estes, o cenário nunca foi bom. Há vários anos que o Facebook limitou drasticamente a visibilidade dos conteúdos nas timelines devido a impossibilidade de se apresentar tudo para todos ao mesmo tempo. Para que um usuário consiga visualizar um conteúdo no horário em que ele habitualmente está online e predisposto a vagar pela rede, ele precisa receber uma certa quantidade máxima de conteúdos. Mesmo que cada usuário tenha suas próprias preferências previamente selecionadas em tipo de conteúdo, ainda é algo demasiado pra ser entregue. O que o Facebook faz, então, é suprimir 99% de tudo isso e entregar, geralmente, 1% de conteúdo ao usuário. O critério é basicamente a “relevância” do conteúdo, porém não pela análise do conteúdo em si, mas pelo quanto esse conteúdo já tem de presença numérica em termos de inscritos, visualizações, curtidas, etc. Em resumo, quem já está no topo, é visto, quem não está, é invisível. E, por isso mesmo, recentemente, empresas e criadores de conteúdo abriram um sorriso diante da notícia de uma novidade: a rede social Vero.

Diferente da premissa do Facebook que depende de anunciantes e acordos preocupantes com instituições, a Vero não se mantém com propaganda alguma e, por isso, é uma rede social que vai ser financiada pelos próprios usuários. Mas, anime-se. Os primeiros 1 milhão de usuários terão acesso pleno e gratuito de forma vitalícia e os que vierem depois disso poderão aderir por meio de uma taxa. Se por um lado é ruim que seja pago, principalmente por conta da exclusão de acesso a quem não pode pagar, por outro lado, quem entra tem a oportunidade de desfrutar de um ambiente sem manipulação de algoritmos. Ou seja, se você posta algo, você será visto. Simples assim. É orgânico, é real, é funcional. E é isso que tem atraído muita gente para essa nova ideia. Além disso, considerando o custo repartido entre os usuários, especialmente pela oportunidade de se desenvolver profissionalmente nesse meio, creio que valha a pena o investimento, ainda mais considerando que se a pessoa já tinha acesso pago à internet para acessar Facebook, certamente terá como manter essa nova plataforma.

Eu, como adepto do minimalismo há muitos anos, vim reduzindo tudo que podia em diversos setores da vida. No Facebook não foi diferente. Por razões de trabalho, ainda mantenho um profile e algumas páginas, mas, com toda certeza, o foco é sempre direcionar o fluxo para mídias externas, uma vez que eu já não passo tanto tempo no Facebook, não participo de mais do que dois ou três grupos e já havia previsto a queda dessa ferramenta. Atualmente, opções melhores (ou menos ruins) estão saltando aos olhos, especialmente dos que trabalham com internet ou que querem dar visibilidade e retorno pra seus projetos, sejam eles pessoais ou profissionais.

Abandonar o Facebook me tirou um peso das costas, desde que comecei o processo de redução de interação e de disponibilidade de dados e conexões com outros usuários. Isso me permitiu trabalhar melhor e de forma muito mais engajada nos meus projetos, tendo repercutido na criação de várias outras mídias próprias, uma volta a produção literária e várias ótimas surpresas que não convém contar antes do momento. Se eu pude fazer isso por mim, você pode pelo menos tentar por você. Alguns dos leitores aqui do blog já não fazem parte do Facebook e talvez isso explique também o engajamento destes nestas outras plataformas e conteúdos. Vamos em frente, porque pra trás sobram destroços.

Rodrigo Meyer

 

Crônica | Aprender ou perder.

Há tempos que não se tinha silêncio pelo bairro. Depois de sucessivas chuvas, devem ter descoberto que ficar em casa, por pior que seja, ainda é melhor que gritar pela rua de manhã até de madrugada. Talvez tenham descoberto que ajudarem a si mesmos seja melhor e, então, foram buscar trabalho, escola ou, pelo menos, ajudar a família em casa. Não. Nada disso. Foi apenas o feriado que esvaziou a cidade. Logo o inferno volta. Faz tempo que não sei o que é andar pela cidade, pois perdi o interesse, desde que parei de fotografar e de consumir. Atualmente eu apenas sonho e tudo que faço me guia pra algum outro lugar bem distante. Eu não sei exatamente pra onde eu vou, mas sei exatamente onde não quero estar. Na vida, todos os passos precisam ser silenciosos, pois estamos sempre rodeados de gente sem luz que anda em círculos pelos moldes do oportunismo. Estão sempre tentando alguma vantagem, mas estão sempre andando pra trás.

Rodrigo Meyer

Você é vítima de click bait?

Click bait é o termo em inglês para “isca de clique”. Como o nome sugere, é exatamente uma armadilha para tentar conseguir um clique do usuário na internet. Embora este termo e contexto específico seja algo próprio da internet, a essência por trás disso é antiquíssima em todo tipo de mídia, comércio e afins.

O que está por trás do click bait é a a ideia de que você precisa atrair pessoas para um “conteúdo” por meio de recursos artificiais que sejam apelativos a curiosidade ou ao impulso pouco controlado das pessoas. Isso ocorre com facilidade quando o público em questão é idiotizado o suficiente pra não ter esse filtro ou controle sobre si mesmo diante do que lhe é apresentado.

As formas mais comuns de click bait são: títulos sensacionalistas, títulos falsos, títulos dúbios, títulos de teor sexual, títulos agressivos, títulos contendo nome de personalidades como principal e/ou único recurso, além de imagens com expressões faciais exageradas, montagens sensacionalistas, etc.

A mesmíssima coisa pode ser vista em mídias impressas, televisões, comerciais, trailers de filmes do cinema ou até mesmo nos anúncios em voz ou texto dos supermercados. Contudo, a internet conseguiu massificar essa conduta, em razão do acesso instantâneo a milhares de usuários com uma única publicação, piorando, ainda mais, por conta da opção de compartilhamento e do hankeamento automático desses conteúdos em plataformas como Youtube e Facebook. A medida em que usuários incautos e pouco instruídos escolhem consumir esse material, as redes sociais interpretam essa crescente demanda por aquilo e dão visibilidade extra para o conteúdo, gerando um efeito bola de neve. É basicamente isso que fez uma horda de inúteis ganharem milhões às custas da ignorância alheia, fabricando entulho, não acrescentando absolutamente nada de útil e monetizando não só a si mesmos, como a própria plataforma junto com inúmeros outros anunciantes que vivem de empurrar anúncios e produtos para a massa.

Muita gente tem vergonha em admitir que usa do click bait em suas mídias, porque estão cientes de que as pessoas começam a se conscientizar do fenômeno que, por si só, é uma forma indigna de explorar a fragilidade alheia. Em um mundo onde muita gente não tem discernimento, cultura, educação e estrutura psicológica o suficiente pra saber desviar e recusar esse tipo de prática oportunista, é, no mínimo, um desserviço à sociedade e ao progresso da população. Mas, obstinados por lucro a qualquer custo, com pouca ou nenhuma ética, aceitam se dobrar a muitas práticas para chegar ao tão sonhado dinheiro.

Tão ruim quanto praticar o click bait ou ser vítima dele, é ter a tal Síndrome de Estocolmo que torna tais vítimas em defensoras dos próprios opressores, no caso, os criadores de “conteúdo”. Uma vez que se tornam cegas, viram uma massa de manobra vazia, moribunda e com uma mesma personalidade distorcida e mal constituída, moldada sobre preceitos pouco ou nada determinados, quase sempre seguindo a ilógica “lógica” do “porque sim”. Sem autonomia de pensamento e um fanatismo declarado, tornam-se os idiotas perfeitos para cumprir o papel de massa que faz esse enorme mecanismo funcionar. Enquanto alguns raros se tornam milionários, todo o restante da população, segue na mesma condição precária ou até pior. Gastam seu tempo nutrindo a vida alheia, ao invés da própria, pois, lhes parece muito mais interessante a fantasia fabricada nas mídias do que a própria realidade sórdida.

O mesmo conceito por trás disso é o que fomenta pessoas dispostas a ler tabloides ou revistas / sites de fofocas. Há uma frase que diz:

“Idiotas discutem sobre pessoas, inteligentes discutem sobre ideias.”

Além desse mecanismo psicológico onde o indivíduo prefere observar a vida alheia para desviar o foco da própria vida / realidade, existe também outro fator por trás dessas práticas. Quando o ser humano se torna adoentado em sua sensibilidade, empatia e bons valores, facilmente começa a apreciar o caos, como uma espécie de vingança pelos próprios dissabores vividos. É uma forma de vivenciar, através de cenas e ocorrências, uma tentativa (mesmo que falha) de esvaziar tais frustrações dentro de si. É o caso, por exemplo, quando uma pessoa foi alvo de um assalto e, por não ter lidado bem com o ocorrido, passa a ver prazer em toda cena em que um assaltante é mostrado em situação degradante ou de desproporcional violência. É um tipo de sadismo desenvolvido que dá espaço, por exemplo, pra um consumo fácil de toda e qualquer mídia que se anuncie com extremismos na imagem ou título. A armadilha está feita e os adoentados tem ingresso vip pra digerir as farpas e as toxinas dessa isca que os matará.

É evidente que o click bait não é apenas ruim pelo ato de enganar as pessoas para verter fluxo de visualizações nas mídias, mas também é um terrível dano pela ausência de conteúdo relevante ou saudável. É uma maneira garantida de encaminhar uma massa de gente para um abatedouro mental que, por vezes, repercute também na saúde física. Um lifestyle baseado nisso não resulta em um raciocínio melhor, nem em uma formação de visão apropriada sobre a vida, o mundo, as questões sociais, a própria realidade pessoal e muito menos sobre as próprias mídias. Tudo isso encaminha as pessoas para um modelo clássico de sobrevivência, mas não de vida em si. É um ato de desperdício do tempo, da saúde, do dinheiro, do potencial intelectual e de tudo que estiver, direta ou indiretamente, relacionado com os hábitos de vida em sociedade.

Em última análises, se arrastar por esse modelo de absorção de “conteúdo” é a maneira garantida de não absorver nenhum conteúdo real e ainda ser subjugado como cidadão de segunda classe, em diversos sentidos. Toda e qualquer história de sucesso que você pinçar sobre superação, aprimoramento e reposicionamento diante da sociedade, passa, necessariamente, por essa transformação de dentro pra fora. Exemplos ótimos da cultura do rap nacional, especialmente advindo das favelas e periferias, ensinam a importância de se discutir a sociedade, o sistema, as mídias, as condições da própria população, de cada indivíduo, etc. É este preparo que dá suporte para transformações a favor da própria população, pois se depender dos envenenados pelo preconceito de classes, pelo racismo, pelo fascismo e pelos corruptos, você não terá suporte nenhum, exceto se for pra piorar ainda mais.

Viver em uma sociedade que, basicamente, é composta por gente que odeia uma às outras, tratam-se como mercadorias, vítimas ou pontes, requer ter discernimento suficiente pra não tropeçar nesse lamaçal. Se você não ajudar a si mesmo, você já decretou seu fracasso. As mídias não vão te ajudar e quem te explora pra lucrar às tuas custas quer mais é que você continue ignorante, passivo e fanático. Um idiota constante é o maior aliado na perpetuação do sistema de exploração, pois não só ele é explorado, como também espalha como positiva a ideia da exploração para o resto do mundo. ‘Síndrome de Estocolmo’ é um termo que não vai sair da internet tão cedo, especialmente porque mesmo diante de tanta demonstração explícita dos problemas, as pessoas ainda conseguem tornar cada ano pior que o outro. Se você achou que 2015 foi um ano enojante, certamente repensou isso com a chegada de 2016 e ficou abismado em saber que tinha como surgir ocorrências como as de 2017, o que, certamente, não foi nem um átomo perto da galáxia de fezes que chegou em 2018 (e estamos apenas no terceiro mês). Espere o pior pra 2019, mas, mesmo assim, lembre-se que a culpa de tudo isso é a permissividade de um povo manipulado e sem nenhuma autonomia de pensamento e ação. São marionetes aguardando as cenas dos próximos capítulos, sejam lá quais forem.

Enquanto você se delicia assistindo pessoas defecando, transando e comendo, seja na internet, na televisão, nas mídias impressas ou na vida real, uma meia dúzia de gente está rindo tanto da sua cara, que é possível que à essa hora um ou dois deles já tenha até infartado durante a crise de riso. A melhor arma para o combate dos erros do mundo é a inteligência. Guarde seu tempo, sua saúde, sua atenção e seu dinheiro para coisas que possam lhe fazer alguém melhor e mais preparado pra sair da condição em que está. Pode ser cansativo ou até desencorajador no começo, mas você vai descobrir que, uma vez que dá esse passo com sinceridade, pessoas que você nem imaginava começam a se aproximar de você para investir no seu potencial e dividir apoio. As portas começam a se abrir e você verá como uma realidade ruim tem sempre o outro lado da moeda.

Rodrigo Meyer

Crônica | Pitada de esperança.

Um tom desbotado começava a tomar conta do clima da casa. Do lado de fora, a sensação de que alí já não tinha vida. Do lado de dentro, um vazio igual ou pior. O cansaço não permitia pensar de maneira organizada sobre o que fazer com aquilo. Por sorte, o minimalismo ajudou a reduzir as opções. A cada dia que passa, a casa torna-se, cada vez mais, apenas paredes. Quando completamente vazia, será motivo de festa. Talvez eu possa comemorar, talvez eu não esteja mais por aqui. Enquanto o futuro não chega em definitivo pra me dizer, eu sigo acordando e dormindo, sentindo o cheiro de tempero na comida da vizinha. Me parece alguém que gosta de cozinhar. Às vezes dá vontade de me auto-convidar para um momento desses, especialmente nos dias em que está mais frio. Nas outras casas do bairro, tudo parece tão enfadonho e monótono que chego a pensar que por lá nem comida se faz. Quando eu me mudar, quero voltar a cozinhar. Algo tão simples e com um significado tão importante.

Rodrigo Meyer