Crônica | Miséria e Luxo.

Na frente da loja de conveniência, um morador de rua sentado. Aos desavisados, parece não esperar nada, mas pra quem vive fora da bolha, eis alguém que decaiu não só pra rua, como pro consumo de droga pesada. Não faz mal a ninguém. A comunidade em torno o conhece e o respeita. É educado mesmo quando não está sóbrio. A droga não transforma, ela só potencializa a essência do indivíduo. Alí está um homem que tinha vergonha da sua condição, de pedir dinheiro, de estar entre os demais. Um dia lhe disse que não precisava ter vergonha de nada daquilo, pois muitos de nós já se encontrou sem saída e o importante é tentar tirar o melhor proveito dos dias. Lágrimas do lado de lá, de alguém que lembrava, claramente, que nunca tinha ouvido ninguém se solidarizar. As pessoas passam reto, não olham nos olhos, mal chegam perto. As madames com seus carros pretos de luxo, abrem a carteira e tentam encontrar alguma nota de baixo valor, quando lhes pedem alguma moeda. Moeda elas não possuem e talvez a menor nota delas seja só de R$ 10 ou R$ 20 reais. “Mendigo inoportuno que não tem máquina de passar cartão de débito”, devem pensar. Ele, sempre volta; elas, raramente. Elas preferem o conforto de casa, como um bunker, trancadas e inseguras, por conta dos monstros que elas mesmas fabricaram. Ele, pede porque não tem; pede porque a abstinência cobra o consumo da droga; pede porque, muito antes, foi esquecido pela sociedade; pede porque, se a vida estivesse, antes, estável, não teria que pedir coisa alguma; pede porque uma minoria da sociedade não abdica dos luxos herdados, dos privilégios e até da corrupção, quando notam que é mais fácil ser egoísta e inútil, do que reconhecer que não tem mérito nenhum aceitar como certo o que foi dado errado. Não trabalharam duro, apenas lapidaram um diamante bruto herdado. E, geralmente, um diamante roubado.

Rodrigo Meyer

Anúncios