[+18] Madame Satã, nudez e clássicos.

[+18] Esse texto apresenta assuntos que podem não ser adequados a todas as faixas etárias e públicos. Envolve assuntos sobre sexo, álcool, cultura underground e vida noturna.

Vários anos atrás, cursando faculdade de Comunicação Social pelo bairro da Liberdade em São Paulo, tive a grata oportunidade de dividir vários anos ao lado de alguns professores geniais e alguns colegas de classe que, bem ou mal, estavam fazendo parceria com o álcool. Pra mim, que já estava com o fígado afogado, qualquer pretexto pra beber estava valendo.

Nesse período de faculdade, a rotina era beber. Por vezes não havia dinheiro, mas sobrava vontade. Entrar com um copo de bebida pra assistir aulas era a forma de aguentar alguns professores que, por alguma razão do acaso, haviam conseguido tal profissão. Talvez fosse caridade do destino ou, o mais provável, a clássica falta de critério na sociedade. Nada que um pouco de humor e perspicácia não ajudasse a compensar.

Nos reuníamos em dois ou três e, raramente em mais que isso. Se não estávamos bebendo na própria faculdade, descíamos pra rua onde tinha bares e comidas. Pequenos mercadinhos abertos na noite podiam ser alcançados a um ou dois quarteirões. Em tempos onde toda moeda era importante, nem sempre dava pra pagar a bebida avulsa do bar, então garrafas eram a melhor opção. Obrigado Bianca pela presença nos financiamentos coletivos.

Ah, o álcool. Muita gente nem imagina a vida sem ele. Pra muitos é mais do que a ferramenta pra outras situações, sendo a própria situação. Infelizmente algumas pessoas cruzam o consumo de álcool por vício mesmo e ele já não se torna uma diversão eficiente. Mas, para maioria de nós, creio que o objetivo mesmo era anestesiar a mente, alterar um pouco a realidade sem sal e dar boas risadas. Foram ótimos dias.

A quem tivesse um pouco mais de interesse na noite, especialmente se curtisse um rock, anos 80 e estilo gótico, a opção mais sensata pra depois das aulas era caminhar até o Madame Satã, uma casa noturna de longa história em São Paulo. Pra quem só conhece ela atualmente, talvez não conheça as inúmeras versões anteriores do mesmo espaço. Hoje em dia ela já não tem absolutamente nada do que a casa um dia foi. E mesmo pra quem já viveu umas duas versões anteriores, talvez não tenha vivido os primórdios quando ainda estavam por lá bandas históricas e personalidades de peso.

Sexta e Sábado, principalmente, eram dias de “encaixotar”, ou seja, dia de ir pro “caixão”, dia de ir pro Madame Satã. Pra quem fosse do meio, aquilo era motivo mais que suficiente pra beber três vezes mais. Quando acontecia open bar, o estrago era garantido e indispensável. Aproveitava pra colocar em dia todo eventual descompasso. Bebendo, dançando, conversando, assistindo felinos cruzarem o meio do salão, observando as mentes que chegavam de tempo em tempos, cada um com suas características bem marcadas, suas roupas bem ornamentadas, escolhidas a dedo, personalizadas pra dar consistência praquelas horas todas. Funcionava muito bem.

A cara da decadência, em um ambiente escuro, cheio de personalidade e história, recheado por gente que sabia bem o que aquilo representava. Certa vez, a casa noturna surpreendeu todo mundo com o fechamento repentino, talvez devido a pendências com a prefeitura. Tempos depois, quando já estávamos sem esperança de que ela voltasse, ela foi reaberta em uma prometida festa, mas, tão rápido quanto anunciaram a volta, nos entregaram outro fechamento, deixando muita gente pelas calçadas esperando a decisão definitiva. Houveram voltas e, por fim, o casarão foi vendido pra um empresário que administrava outras casas noturnas, entre elas, a DJ Club. E esta foi a machadada final que encerrou a história legítima do Madame Satã, pois com o atual proprietário, a casa deixou de ter qualquer vínculo com a história e essência das versões anteriores. O público é totalmente outro e, ao menos pra mim, não vejo motivos pra pisar lá.

Lembrar de Madame Satã, pra mim, é reviver histórias que só eram possíveis e imagináveis na atmosfera das versões antigas da casa. Gostaria de dividir com vocês alguns momentos do casarão.

Em uma das noites, com a casa literalmente lotada, o público se espremia pra tentar dançar, sem esbarrar em pelo menos umas cinco pessoas ao redor. Mas, no escuro característico e no clima da música, as pessoas pouco se importavam com isso. Aliás, era bom momento pra extravasar e fazer valer o dinheiro gasto. Casa cheia era sinal de dia bom. Aqueles eram outros tempos, onde as pessoas estavam focadas em não ter certeza alguma sobre certos detalhes, mas estarem plenamente “certas” sobre avançar limites na noite.

Neste dia, lembro que estava acontecendo uma performance perto da área onde ficava o DJ e pra todo espaço ao redor só sobrava luz ocasional por causa do movimento dos spots. Corria a informação de que o segurança tinha cedido a entrada gratuita pra uma ou duas prostitutas, em troca de “favores sexuais”. Tempos depois com algumas situações de conversas, caminhos cruzados pelo balcão do bar e os corredores dos banheiros, ficamos por saber de quem se tratava. E não demorou muito pra que chegassem, por opção própria, na pista de dança já nuas sem nem mesmo um anel nos dedos.

Ninguém estava incomodado ou impressionado. Fazia parte do contexto, ainda que, sejamos realistas, era o álcool que devia estar libertando impulsos pra muita gente que, se não estavam reprimidos, estavam explorando novos limites de suas liberdades preexistentes. Não vou entrar na análise do que seja liberdade e do quanto isso é ou não libertador no final das contas, mas na superficialidade do termo, era o que estava acontecendo por aquele dia.

Nudez na pista, pessoas dançando, mãos passando, beijos, abraços, bebidas, masturbações e sexo completo estava sendo a pauta da vez. Entre sobretudos e corseletes, via-se pessoas sumindo e reaparecendo entre uma sombra e outra enquanto outros pequenos prazeres vinham da surpresa por uma música específica que obrigava todo mundo a descer pra dançá-la. Depois de uma boa surra nos ouvidos com Depeche Mode, Joy Division e outros clássicos oitentistas, aumentávamos a dose de álcool pra dar conta, pois com tanto baque de satisfação era certo que a noite ia ser longa.

E como era bom entrar num lugar e saber exatamente quem eram muitas das pessoas. Os grandes figurões estavam sempre lá. Pela escadaria que separava a pista do bar, era comum encontrarmos o frequentador que, por convenção, era nomeado de “Louco” ou “Louquinho”. Um rapaz que, por estilo, compulsão ou outra razão, vestia duas camisas uma sobre a outra. Estava sempre sentado pela escadaria com um copo de bebida na mão. Não socializava muito e era silencioso, mas era indispensável pra compor a atmosfera do casarão. Aliás, se não fosse a certeza da naturalidade desses tipos por esses ambientes, diria até que ele era um ator contratado pela casa pra promover essa atmosfera lucrativa.

Por muito tempo quem atuava como DJ por lá era “Pé de Vento”, apelido de um dos famosos na cena. Nas mãos dele, mesmo quando a música falhava era épico. O público, acostumado e interessado sobretudo com o improviso, desfrutava um disco riscado, uma música que hesitava em entrar ou que subitamente parava. Era fervor na cabeça alcoolizada de uma turma que, se ainda tem fígado, é porque esqueceu de remover esse aglomerado necrosado de tripas.

As pessoas quase sempre já entravam embriagadas, pois na frente do casarão figurava um bar onde o público ia amaciando a cabeça enquanto esperava o casarão abrir. Histórias ótimas circulavam antes, durante e depois. Há quem viesse até de outros estados do país pra aproveitar uma noite no Madame.

Certa vez até “demos carona” pra um espírito perdido que estava pelo meio. Em muitas outras épocas o Madame Satã foi palco e sinônimo de underground puro, onde também circulava muitos usuários de drogas diversas. Certamente overdoses ocorreram e muita gente alimentou-se de muitos vícios por ali, da cocaína aos ácidos, passando, claro, pelo álcool, sexo e outros tapas mais pesados e certeiros que chegavam de forma injetável. O espírito de um desses falecidos, depois de uma longa noite de casarão, decidiu seguir junto conosco no carro e veio desembocar em casa. Posteriormente ele foi desconectado do ambiente e encaminhado pro lugar devido.

Em situações de menor atenção, possivelmente nos cercávamos de muita energia e presenças de quem estava ali pra mais uma dose de álcool apesar do pós-morte ou que simplesmente se alinhava com a egrégora do lugar, pela cultura ou público. A energia do casarão era muito intensa, como é de se esperar pela temática gótica. Fez muita gente dar exclusividade ao evento e até a propor uma ‘vaquinha’ pros momentos de crise da casa noturna.

Eu sou um entusiasta convicto da história do Madame Satã, mas, infelizmente, não me vejo mais frequentando o novo formato que ele se tornou atualmente. Ouço pelas bocas, eventualmente, que o próprio novo dono percebeu o mal investimento que fez ao tentar enquadrar Madame Satã no molde de negócios de suas outras casas noturnas que ele tinha fora desse nicho tão específico.

Na minha opinião, Madame Satã é algo completamente alheio aos padrões de uma casa noturna convencional e, ao contrário do que muitos empresários diriam, investir dinheiro pra modernizar o casarão é, na verdade, perder dinheiro, pois o público que frequentava queria mesmo era a decadência e a certeza de que, cedo ou tarde, desabaria um teto, gatos seriam parte indiscutível da frequência e que instalar um ar-condicionado não seria motivo suficiente pra agradar um público acostumado a ferver no sol com coturnos fechados até o joelho, sobretudos e roupas sintéticas pretas. A melhor opção pra manter vivo um espaço underground é simplesmente deixá-lo seguir sozinho, com suas falhas e sua personalidade construída ao longo do tempo.

E você? Tem boas lembranças dessas épocas? Vamos trocar memórias.

Rodrigo Meyer

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