Idade e Maturidade.

Dizem que, por conta de nossa sociedade machista, garotas estão mais sujeitas a desenvolver, mais precocemente, uma certa responsabilidade em relação aos garotos. Claro que essas coisas são diferentes da maturidade em si, e é partindo dessa separação que pretendo iniciar o tema. Primeiramente, isso que a sociedade impõem a maioria das garotas, a partir dos lares, acaba por forçar essas pessoas a “crescerem” em certo sentido, por adquirirem responsabilidades das quais nem sempre estão preparadas ou não são as pessoas a quem deveriam impor tais coisas. Cuidar de irmãos menores, aprender a cozinhar, limpar a casa ou  resolver problemas paralelos enquanto os garotos são apontados como isentos dessas funções, são algumas das coisas que me vem na memória.

Praticamente em todas as famílias que eu conheci a responsabilidade dos afazeres domésticos estavam restritos a mulheres, crianças ou adultas. Já para o homem adulto, frequentemente sobrava o papel de “chefe de família”, isenção de afazeres domésticos e um certo acobertamento da isenção dos garotos. É fácil ver que existe um incentivo forçoso pra que as garotas cresçam sobrecarregadas com essas premissas machistas na sociedade e adquiram, consequentemente, um certo domínio e responsabilidade pra certas questões. Contudo, essa suposta emancipação feminina tão precocemente, não configura maturidade em si. São coisas distintas. A maturidade é o desenvolvimento psicológico e mental aliados para trazer a pessoa, autonomia suficiente pra gerir a visão de mundo e sua presença no mundo. É também maturidade a estabilidade diante da própria condição, o discernimento de certo e errado ou da superação de posturas tidas como ‘infantis’, por exemplo.

Fala-se que as gerações estão amadurecendo cada vez mais cedo. Essa afirmação pode ser uma falácia. É preciso analisar. Embora eu não tenha dados concretos sobre tal afirmação, tenho ressalvas em aceitar isso, pois, pelo que observo, a sociedade em geral, em média, parece estar cada vez mais imatura, apesar da passagem de idade. Mesmo que não fosse esse o caso observado, é sempre importante destacar que aumento de idade não é pressuposto pra chegada da maturidade. Há muitas e muitas pessoas que seguem a vida adulta e envelhecem sem nunca terem amadurecido. O que mais se aponta como crítica social é o que se chama de ‘adultos-crianças’, ou seja, pessoas em idade adulta, mas que ainda são imaturos como crianças.

Para o contexto da nossa sociedade brasileira, e pra muitos lugares do mundo, a idade considerada como final da infância gira em torno dos 10 ou 12 anos, mudando para pré-adolescência e adolescência, a partir disso, chegando, por fim, na fase adulta, tida como 18 a 21 anos. Essas não são apenas convenções sociais aleatórias. Tais faixas etárias definem mudanças de fases bem claras de comportamento e de desenvolvimento humano. Em cada uma dessas fases, cada indivíduo médio vai adquirindo certas capacidades novas, formando seu caráter, sua personalidade e sua autonomia. Parte do que se considera amadurecer é obtido exatamente com essas transições que se dá ao longo das fases. É, portanto, improvável ou até equivocado pensar que uma pessoa fora dessas faixas etárias tenham a mesma maturidade que um adulto. Mas aí entra um trunfo interessante. Nossa sociedade, em grande parte, é cercada de adultos imaturos. Se comparássemos estes adultos com algumas crianças que se desenvolveram bem, provavelmente veremos elas se superarem em maturidade.

Pessoalmente eu pude conhecer pessoas de muitas idades e condições. Gostava de observar bebês, crianças, adolescentes, adultos, idosos. Vi pessoas com deficiências intelectuais, outras de intelecto considerável, outras, pessoas de baixa escolaridade, alta escolaridade, pobres, ricos, inteligentes, todo tipo de profissão, diversos modelos de família e educação e assim por diante. Mesmo com toda essa diversidade, na grande maioria as pessoas tendiam para a média triste de imaturidade, apesar da variação de grau em relação ao contexto e a condição paralela da pessoa, claro. Vi pessoas que apesar da conclusão do estudo, do início das relações sexuais, da conquista de trabalho e até mesmo da busca por casa própria, planos e afins, mostravam-se ainda pessoas imaturas. A responsabilidade e o início das atividades sociais, não tiverem nenhum impacto na maturidade em si. Claro que se tornaram, eventualmente, pessoas com certa habilidade em gerir suas vidas, mas, para muitos dos assuntos mais importantes, fora do escopo de conquistas materiais, pareciam tão perdidas como uma criança, com o agravante de se sentirem aptas por completo, por conta da idade e das vontades novas de interação social, como as amizades, relações sexuais, viagens, namoros, festas, adesão a álcool e drogas e tantas outras coisas.

Acredito que um dos grandes erros da formação cultural de nossa sociedade, em especial no Brasil, que é por onde posso falar com mais propriedade, é a interpretação de que certas coisas são exclusividades de adultos e proibidas a menores de idade. Isso tem um fundo de verdade, mas perde a medida quando pessoas já adultas ainda são imaturas pra decidir sobre estas tais questões reservadas para a “vida adulta”. Igualmente vejo pessoas mais jovens serem emancipadas antes da idade convencional, afinal, sim, pessoas podem, eventualmente, se desenvolverem mais rápido que outras. Os modelos pra isso ocorrer ainda são obscuros. Não se pode dizer, por exemplo, que atribuir responsabilidades adultas a uma criança, a fará acelerar rumo ao amadurecimento. Da mesma forma, a atribuição de contextos infantis para adultos maduros não os regride para a imaturidade. Talvez o que diferencie algumas pessoas de outras, ao final das contas, seja só uma lapidação pessoal e interior, uma tendência natural a cruzar certas fases um pouco antes da média esperada, teoricamente, pra cada faixa etária.

Tudo fica ainda mais confuso de definir, quando sabemos que a fase adulta não parece estabelecer um marco suficiente na maturidade de muita gente, o que nos faz crer que, além de questões naturais de cada indivíduo, deve haver, sim, alguma questão social, educacional ou cultural que interferem nesse ritmo ou nos caminhos percorridos, nas prioridades, nos valores, etc. E pensando bem, é o que mais faz sentido ao meu ver. Se as pessoas conseguem olhar pras condições próprias e o contexto do ambiente, das outras pessoas e das situações, elas conseguem extrair alguma reflexão, algum aprendizado e alguma mudança diante disso tudo. Acredito que crescemos a partir de nossa própria base, embora todo o contexto ao redor seja um incentivador ou molde que nos servem de parâmetro e delimitador de nossos potenciais. Parece que as pessoas com imaturidade se perdem num jogo social ilusório de falsas prioridades e valores e acabam se pautando no que é médio e frequente. Ao verem mais pessoas imaturas, aprendem a replicar o comportamento daqueles a quem leem como referências sociais ou grupais. Algumas vezes as pessoas são influenciadas, inclusive desde a infância, a apontarem líderes, ídolos e outros representantes aos quais elas atribuem valor e significado, por mais deturpadas ou impróprias que sejam aos olhos de uma pessoa mais madura.

Não é atoa que, por exemplo, algumas celebridades e subcelebridades do campo dos esportes, da política, do entretenimento ou de qualquer outra grande área de maior visibilidade estão cercadas por um público composto, em sua maioria, de adultos imaturos ou de crianças e adolescentes. É como se os ícones de exemplo na sociedade fossem escolhidos pela semelhança e/ou pela limitação em discernir melhor os valores e características indesejadas em uma pessoa. E isso, potencialmente, influencia massas, num efeito bola-de-neve, pois há o sentimento de pertença que faz com que pessoas de mente mais fraca tenham a tendência de aderir a coletivos já estabelecidos. Se uma sociedade forma quase sempre grupos imaturos, é isso que se espalha feito epidemia pelo mundo como parâmetro pra mais e mais pessoas. Com base nisso, eu penso que talvez estejamos fadados a uma imaturidade generalizada e crescente, com bem poucas exceções aptas a frear essa catástrofe.

Você pode achar utópico, mas uma criança adulta (ou um adulto imaturo, se preferir), conseguiu, ao mesmo tempo, ser eleito pro cargo de Presidente dos Estados Unidos e ter a prática patética e infantil de lidar com questões de relações internacionais, chamando o líder da Coreia de ‘gordo’, feito um garotinho do pré-primário tentando ofender outras crianças que, como ele, ainda urinam nas calças. Me conte qual é a perspectiva de futuro pra um mundo onde crianças assumem controle de coisas que não possuem maturidade pra lidar? Fica fácil ver que com eleitores imaturos, os ídolos de maior impacto são outros imaturos também, sejam adultos ou não. E assim, Trump foi colocado em cima de uma cadeira a qual nunca poderia sentar. É vergonhoso e deixa muito ser humano deslocado diante da ideia de que fazem parte do mesmo mundo, da mesma espécie humana. Para aliviar o peso da vergonha, temos sempre que recorrer ao estudo da origem dos problemas. Precisamos entender porque algumas pessoa amadurecem e outras se tornam eternas imaturas. E porque algumas amadurecem mais tardiamente que outras? Foi isso que tentei alavancar neste texto.

Pra finalizar, gostaria de suscitar algumas reflexões paralelas que talvez possam ajudar as pessoas de todas as idades a discernirem seus papéis e valores na vida, assim como o papel e valor da própria vida para elas. Então aqui vão algumas perguntas:

Quem é você? Como você se tornou quem você é hoje? Quem você deseja ser? Porque deseja ser? O quanto esse desejo reflete um impulso inconsciente ou pouco embasado no que é importante e necessário no mundo? Você pensa nas pessoas ou só em si mesmo? Você entende as nuances de um relacionamento humano? O que é a sociedade pra você? De que forma você evitará de ser usado pelas pessoas? Você tem estrutura pra não sucumbir diante da realidade sórdida? Enfim, você realmente sabe quem é você ou só acha que tem uma ideia sobre?

Rodrigo Meyer

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Ter conteúdo é sua salvação.

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Ter conteúdo não exige necessariamente ter escolaridade, estar envolvido em mil projetos ou “grandes” profissões. Ter conteúdo não significa nada além de ter algo interno que possa compartilhar. Quando uma pessoa é rasa demais, isso falta e ela encontra uma barreira que ela mesma criou e que impede a conexão com as coisas e pessoas de maneira mais profunda. A vida torna-se muito desagradável quando as pessoas tentam socializar e essa diferença se coloca no meio.

Quando conhecemos alguém, esperamos desenvolver uma relação, seja de amizade, trabalho, professor e aluno, pais e filhos,  ou mesmo um romance. E pra que isso flua bem, as pessoas envolvidas precisam estar alinhadas em pelo menos alguns objetivos em comum. Se alguém está buscando uma boa conversa, vai ser difícil traçar uma conexão se o outro lado não tiver conteúdo pra adicionar. As boas relações vivem de trocas.

Mesmo se alguém for um aprendiz numa profissão, por exemplo, poderá ter inúmeras outras coisas que troca nessa experiência com quem lhe ensina a atividade. É preciso que as pessoas consigam expor suas vontades, seus interesses e transmitir boas histórias, memórias, opiniões que fazem a diferença, ter conhecimentos gerais e um mar de outras coisas. Por muitas vezes, temos que mudar o rumo de conversas ou mesmo desistir do ensino de certos temas e profissões, quando as pessoas do outro lado não possuem cultura geral mínima pra absorver aquilo que pretendemos passar. E esse game over é triste.

Todos nós que temos acesso frequente à internet, temos a obrigação moral de fazer bom uso dela, pois é um desperdício ofensivo ter essa poderosa ferramenta e não utilizá-la bem, enquanto outros que sequer podem acessá-la penam pelo impacto da falta de informação e socialização em suas vidas. Compartilhar conhecimento, claro, não é feito apenas pela internet, mas esta é, com certeza, uma das ferramentas com maior potencial, pois permite usarmos vídeos, textos, fotografias, animações, links, além de podermos compartilhar diretamente com um grande número de pessoas e deixarmos isso disponível pra qualquer horário que quiserem acessar. Não dá pra negar que tudo isso é muito mais poderoso do que as demais formas de comunicação.

Mesmo assim, a internet não é (e não deve ser) o único meio de aprendizado, senão corremos o risco de definhar nossa própria compreensão do que é aprender. E conteúdo interno é, sobretudo, nossas experiências, nossa visão crítica, nosso humor, nosso jeito diferente de ser e pensar os assuntos, toda a bagagem que coletamos ao longo da vida e os rumos que damos para nossos relacionamentos através disso tudo.

O vocabulário de um indivíduo, por exemplo, cresce à medida em que ele mesmo se coloca diante da leitura e de novas conversas, pois não se pode conhecer palavras novas se nunca for exposto à elas. Ler o dicionário não é nenhum ato absurdo e deve, sempre, ser uma opção pra quando não temos muito traquejo para nos comunicar. Evite, porém, usar excessivamente as palavras que acabou de aprender como se já dominasse o extenso significado e contexto delas, senão corre o risco de parecer artificial e/ou pretensioso demais.

Uma professora da época de faculdade nos propôs de lermos uma certa quantidade de vocábulos do dicionário por dia e ao final do curso de Comunicação Social estaríamos bem distantes de onde começamos, apenas com esse simples ato. Sendo feito de pouco em pouco, diariamente, esse aprendizado não pesaria e como seria fracionado ao longo do curso todo, mesmo se interrompêssemos a prática, teríamos absorvido pelo menos algumas palavras à mais no começo da tentativa. Só tínhamos a ganhar.

Mas, conhecimento não se resume a conhecer palavras. Essas você pode ter facilmente a qualquer momento que quiser, perguntando à alguém ou consultando-as na enciclopédia, na Wikipédia, em um dicionário convencional impresso ou mesmo no Google. O que conta mesmo é o que você faz com as palavras. Mas para fazer algo com elas, é preciso conhecê-las, inevitavelmente. Lendo e escrevendo você pode refletir através de textos, poemas, frases, ou qualquer que seja o formato de conteúdo. E isso não é um mero capricho. Isso é sua vida, são suas chances, sua realidade, suas chaves e também a diferença entre derrotar-se ou ter meios para vencer. E isso se aplica em qualquer setor da vida.

Você pode, eventualmente, estar buscando um emprego novo, um namoro, bons amigos ou mesmo dividir um pouco do seu tempo com familiares ou desconhecidos em uma festa. Não há outro meio de se traçar conexões coerentes e mais profundas se não for através do seu conteúdo e a habilidade que tem de compartilhá-lo. Certa vez me apresentaram a ideia de que se pudéssemos ler as mentes uns dos outros, seríamos todos solitários e deprimidos. E mesmo no modelo de realidade onde não lemos as mentes de ninguém, podemos acabar chegando em similares situações apenas pelo que as pessoas expressam.

Com exceção da timidez, ninguém deveria ter dificuldades em se expressar. Com exceção dos naturalmente misteriosos, ninguém deveria ser confuso em suas expressões e intenções. Com exceção dos afetados por químicas, ninguém deveria perder a lógica ou a cadência em uma ideia proposta. Com exceção dos que não podem fazer mais por si mesmos, ninguém deveria ficar restrito ao vazio da falta de conteúdo.

Aquilo que somos por dentro é nossa salvação. É lá que habitam as trocas fundamentais para um aprendizado, uma conversa, uma análise de nós mesmos, da vida, da filosofia por trás das coisas, do sentido de nascermos ou morrermos. Está também no interno de cada um, as vontades, as ambições, os impulsos criativos, os pensamentos abstratos ou de outros tipos. São eles que nos fazem chegar à conclusões que mudam nossas vidas de uma só vez a cada vez. São essas grandes possibilidades que nos colocam em atividades maiores e melhores. Sem conteúdo interno não teríamos jamais inventado a internet, os computadores, as sociedades e suas culturas. O que expressamos adiante é fruto do que temos dentro de nós. Não há como dividir com o mundo aquilo que não se tem. As relações envelhecem melhor quando estamos cientes de que temos a melhor conexão.

Eu não estou dizendo que o conteúdo interno anula ou inferioriza as conexões emocionais. Mas, mesmo elas, são geradas e sustentadas por causa do conteúdo interno. Tudo que somos como pessoa e tudo que construímos de forma subjetiva entre seres, lugares e coisas, está relacionado ao que conseguimos enxergar para traçar um significado maior, mais profundo e, muitas vezes, intraduzível.

As pessoas rasas frequentemente se assustam ou se incomodam com qualquer quantidade que seja maior do que estão acostumadas a lidar. Uma bandeja suporta muito menos líquido que um balde. Se vertermos apenas metade da água de um balde cheio nela, ela transborda de imediato. Tudo que for vertido em excesso será um incômodo, um atropelo ou até uma angústia. As pessoas não querem sentir que estejam afogadas em coisas das quais elas não podem ou não querem lidar. Isso às faz perceber que são rasas e imediatamente ativam o possível complexo que possuem sobre isso. E se, por outro lado, voltarem a esquecer desse contato, tudo se normaliza e elas voltam a lidar apenas com as gotas de seus interesses. Mas, inevitavelmente vão se deparar com novas situações semelhantes e podem acabar defendendo a ideia de que baldes são excessos. Perigo à vista!

Não serei eu a impedir alguém de mergulhar em tais escolhas, mas o prejuízo pessoal de quem assim escolhe é imenso. Em um aparente benefício, essas pessoas buscam o caminho mais curto e fácil, mas passam a vida toda andando em círculos e chegam a lugar nenhum, enquanto outros, por andarem em linha reta com propósitos e objetivos, chegam mais longe. A velha tática de varrer tudo pra debaixo do tapete não anula a necessidade de ter que lidar com isso mais tarde e ainda amplia o problema, pois é mais fácil varrer umas migalhas por dia do que ter que carregar caçambas delas de uma só vez. No caso das pessoas rasas, o acúmulo é de vazios, que pesam mais que toda matéria do Universo.

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Rodrigo Meyer

A ilusão da casta dos intelectuais.

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A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia para o filme “The Heavenly Body” (1944) da MGM feita por funcionários, sem especificações da autoria. A atriz fotografada, Hedy Lamarr (nome artístico de Hedwig Eva Maria Kiesler) foi também a inventora do sistema de comunicação que se tornaria posteriormente o Wi-Fi.

As sociedades se acostumaram com a terrível convenção de que intelectuais são uma casta entre os humanos que foi predestinada a pensar, enquanto os outros apenas abaixam a cabeça em sinal de respeito. Que terrível. Todo ser humano é um intelectual, querendo ou não. Somos todos predestinados a pensar. A diferença é que nem todas as pessoas aceitam isso, a princípio. É evidente que temos diferenças culturais e sociais e a mente humana é extremamente complexa para explicarmos facilmente porque alguns se engajam mais que outros.

Com tanto que todos estejam entretidos em experimentar a vida, mesmo que amargamente com suas dores e distanciamentos, já se colocaram no papel de intelectual, pois se colocaram no papel de humanos. Humanos pensam, assim como os demais animais, cada um à sua maneira, mediante suas necessidades do momento. Quando inventaram essa casta invisível de humanos intelectuais, certamente tentaram abrir caminho para um poder operado através do status.

Recentemente vimos tantos casos de pessoas de fama pelo tal intelecto, que mostram-se apenas muito conhecedoras de palavras, porém com ideias e éticas que apodrecem com extrema facilidade. Se vendem por um punhado de vaidade e quando menos esperam, já não estão pensando nada de relevante. Misturado à estes, está também o falso intelectual, um indivíduo que, embora não tenha nenhum apreço em pensar e aspirar cultura, corre expor rótulos em si mesmo, para se engrandecer como ser inteligente.

O status que corrói à ambos desmascara um problema maior por trás que é a profunda ignorância. É sempre bem lembrado que inteligência, cultura e valor, não estão relacionados à escolaridade que o indivíduo teve. Há pessoas geniais que sequer foram alfabetizadas e há pessoas que, embora tenham se diplomado em universidades, chegam a assustar de tanto absurdo que jorram pela boca sobre aquilo que “pensam”.

No Brasil, país que perpetua a malandragem, é comum ouvirmos as pessoas dizerem idiotices como “você sabe com quem está falando?”. A pergunta almeja engrandecer o autor, mas faz o inverso. Expõem a pequenez do indivíduo, o ridiculariza diante de sua ignorância e soberba. Por trás de profissões tidas como especiais e acima da lei, as pessoas julgam que são o ápice do valor e até da inteligência. Pobres estas pessoas que tudo tentaram em vão na vida, até o ponto em que tiveram que apelar para crachás simbólicos de cargos imaginários dentro de uma hierarquia sonhada em um mundo inconsistente que só existe na mente dessas pessoas. Devem enfrentar uma enorme batalha interna, lutando contra monstros imaginários, todos os dias. Ou talvez estejam apenas ignorando o caos interno com preguiça de lutar.

A cultura e a intelectualidade estão acessíveis à qualquer indivíduo. Os pré-requisitos são simples: havendo saúde mental suficiente e vontade, absorve-se tudo aquilo que se pretende. Não há restrições sociais ou financeiras. O pensamento ainda é gratuito e não depende de ninguém. Você pode, se assim quiser, sentar-se e ver a mágica acontecer instantaneamente. É evidente que, ter tempo livre ajuda, afinal, é difícil pensar e absorver cultura enquanto sua mente está totalmente voltada para o trabalho obrigatório, por exemplo. Mas, mesmo assim, ainda é possível pelo menos iniciar seus momentos e ir até onde as circunstâncias permitem. O que não se pode dizer é que a intelectualidade vem de uma gravata, um diploma ou uma profissão lida socialmente como mais valorosa.

Antigamente cientistas eram pessoas comuns que levavam suas paixões ao extremo. Muitos deles eram pobres. Pintores clássicos de obras que hoje estão valendo milhões pelos museus, passaram a vida em pobreza e às vezes até sem valor social. Escritores atemporais que iniciaram seus livros em outros tempos, nos marcaram a alma com ideias e contextos que custamos a ter na modernidade. Estamos regredindo coletivamente em um certo desmerecimento de nós mesmos, de nossos próprios potenciais. Precisamos nos reconectar com nosso prazer em explorar o mundo.

Sei que parece confortável acabarmos nossos dias sempre atrás das mesmas coisas, tendo as mesmas ideias, as mesmas frases e os mesmos olhares. Mas esse conforto aparente pode ser uma tremenda ilusão. Esse mecanismo de defesa do ser humano pode ser uma receita eficiente de manter-se longe dos traumas e da possível infelicidade ao chocar-se com a realidade. Pensar é perigoso, pois nos leva a conclusões nem sempre boas sobre a vida e nós mesmos. Muita gente evita se aprofundar nas autorreflexões, pois sabe que se cavar muito, encontrará vazios enormes e outras coisas terríveis.

A velha busca pelo V.I.T.R.I.O.L. pode nos deixar inseguros, tal como quem cava demais o chão de uma casa e desestabiliza os alicerces da mesma. Mas é preciso mergulhar até o íntimo de nós mesmos, de nossa mente e de nosso espírito para entendermos, superarmos e voltarmos fortalecidos de tudo aquilo. É uma maneira de fiscalizarmos nossos alicerces e reformarmos aquilo que estava insólito para retornarmos à superfície com uma casa mais firme que antes, que nos entregue paz em habitá-la, sem medo do que ela possa ter ou ser. A vida, com isso, pode se tornar mais divertida, mais iluminada, mais densa, mais interessante. Quanto mais progredimos em nós mesmos, mais sentimos vontade de ver o mundo ao redor buscar o mesmo. Não as mesmas coisas, claro, mas a mesma busca individual para as transformações, sejam lá quais forem.

Acredito, contudo, que o primeiro passo para fazermos esse progresso é reconhecermos nossa ignorância nas coisas. Não é saudável para a equação mentir sobre nossas aspirações e personalidade. Não diga ser um leitor se não tiver apreço pela leitura. Não diga que gosta de cinema, se o tema não te desperta curiosidade. Não diga que é apaixonado por Fotografia, se gosta de ver apenas a estética e nada além. Não se anuncie nos formulários de redes sociais como alguém que adora conversar, se você for monossilábico.

Não procure impressionar ninguém com seus hobbies, sua área de formação educacional, sua profissão ou seu repertório musical, por exemplo. Isso tudo é falsa intelectualidade. E você pode exercer sua intelectualidade sem esses apelos falsos. Você pode simplesmente impressionar qualquer outro indivíduo, apenas sendo você mesmo e tendo suas opiniões, suas reflexões, seus gostos, sua personalidade, seu jeito de ser e fazer as coisas. O parâmetro social é ilusório. E quando você tenta mostrar que está alinhado à algo que não está, você destaca o inverso do que pretendia e prejudica à si mesmo, afasta as pessoas e se mostra desinteressante tanto pelo caráter quanto pelo que pulsa na mente.

Deixe que sua intelectualidade venha naturalmente, com suas próprias necessidades e interesses. Não procure forçar interesse naquilo que não tem. Mas lembre-se que pode, se quiser, desenvolver as coisas das quais não tem muito talento. Já escrevi sobre isso em outros textos, sugerindo que as pessoas precisam cobrir os pontos fracos que possuem para que fiquem mais completas. Ayrton Senna dizia, por exemplo, que pilotos de corrida precisam malhar o corpo, pra ter resistência física. Muitos se impressionariam que isso fosse importante num esporte em que se pratica sentado dentro de um carro, mas muitos não sabem que corridas longas como as de Fórmula 1, são provas que exigem muito mais resistência física do que habilidade técnica para controlar o carro. Um corpo saudável pode ser a diferença entre uma corrida subitamente encerrada ou mesmo perdida por distrações advindas da fadiga. Para o ser humano, quanto mais completa for a equação, melhor serão os resultados e a própria experiência.

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Rodrigo Meyer

De quem é a culpa pelos rumos de um país?

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A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de Marc Schlumpf, tirada em 3 de maio de 2009 do “Landsgemeinde”, uma das mais antigas formas de democracia direta que ainda são praticadas em lugares na Suíça.

Ainda que governos interfiram no andamento das coisas em um país, quem permite a existência ou permanência desse governo, é o povo. Mesmo em situações de invasão e golpes, o desfecho de qualquer país está diretamente relacionado com o quanto somos permissivos. Se nos recusarmos a manter certos tipos de políticos no governo, estaremos protegidos de outros oportunistas.

Na Islândia, o Partido Pirata conseguiu reverter uma situação inaceitável, tendo o povo como núcleo da transformação. Reunidos em defesa de si mesmos, demitiram todo o governo, sem nenhuma exceção. Simplesmente se livraram de tudo que ali existia. Além disso, prenderam cerca de 26 banqueiros. Essa decisão que muitos países acham incrível e impraticável, aconteceu por lá como resposta à corrupção. Uma vez que não aceitavam aquilo, uniram-se e tomaram uma iniciativa curta e direta, sem meios termos.

Mas porque outros países não fazem o mesmo? A diferença crucial está na população. A Islândia não é composta de brasileiros, nem de americanos. Ela é formada de islandeses. De onde vem esse engajamento e união dos moradores da Islândia? Vem de tudo aquilo que construíram ao longo do tempo pra si mesmos. Cultura entre as pessoas e valorização do indivíduo, dentro das escolas, das famílias e da sociedade em geral. Houve um esforço sincero de avanço nas questões sociais e psicológicas de cada pessoa e uma infinidade de avanços sociais como resultado de todo o verdadeiro interesse em construírem um ambiente bem-sucedido, onde todos se sintam interessados em continuar apoiando os benefícios e, portanto, apoiando a si mesmos.

O Brasil, contudo, é o inverso disso. Aqui o individualismo reina e nada temos em investimentos de psicologia, sociologia, educação, cultura e afins. O paraíso da Islândia não é um acaso, não é sorte e não é algo mágico que sempre existiu firme e forte. Países como a Holanda estão fechando presídios por ausência de presos. A criminalidade some e como consequência o controle social torna-se menos necessário. Qual é a mágica? Países como a Noruega, por sobrarem tantas vagas em presídios, chegam a importar presos, como forma de contribuir com outras comunidades ao mesmo tempo em que dão alguma serventia pras estruturas que já existem.

Mas a obtenção desses benefícios sociais não depende exatamente dos políticos ou governos. Quem dá abertura pra que essa realidade seja planejada e desenvolvida é a população, que determina aquilo que aceita ou não nos postos de trabalho, na sociedade ou fora dela. Unidos entre eles mesmos, eles decidem o que querem pra todos. Debates e conversas abertas entre todos os interessados vão apontar à eles se devem investir na raiz dos problemas ou se devem enxugar gelo, como muitos outros países fazem.

Certos países se beneficiam de um paraíso que eles mesmos se determinaram a construir. Já se perguntou quais são os países que possuem menos presídios, melhores escolas, índice zero em analfabetismo e fome? Quais são os países que estão derrubando corrupção e fechando presídios? Porque estão fazendo isso? Como estão conseguindo chegar nesse nível de solução social? Seria mágica? Será que demandou muito dinheiro? A verdade é que quando você para de enxugar gelo, você não joga dinheiro no lixo comprando pano toda vez que ele encharca. Investir certo da primeira vez economiza dinheiro ao invés de demandar mais gastos. Mas, os corruptos e exploradores querem continuar a vender panos para países como o Brasil, que passam a vida enxugando gelo e continuam na mesma situação há séculos. E é a população que permite que esses exploradores existam.

Entendo que boa parte dos brasileiros e da população mundial geral não possuem noção de potencial próprio, de união ou de cultura. Não há como esperar que estes desejem imitar a Islândia, por exemplo. Falta em muitos por aqui, infelizmente, vontade de honestidade própria ainda. Como poderemos, então, cobrar que os políticos sejam honestos? Que sentido teria um brasileiro corrupto querer demitir um governo corrupto? Que moral possui um brasileiro desse tipo pra cobrar qualquer coisa em seu próprio país? Onde se aceita o erro, não se cobra a correção. A equação não é mais complexa que isso. O povo é, portanto, o responsável pela situação de seu próprio país.

Claro que podemos nos dar as mãos, nos ajudar e começar a reverter isso. Podemos, se quisermos, repensar valores, repensar a ética, repensar os dramas psicológicos, as estruturas familiares, o desempenho educacional, o interesse pelo aprendizado, as transformações individuais e coletivas por meio de acompanhamento, apadrinhamento, amizades positivas, engrandecimento dos acertos, empoderamento das pessoas, valorização do indivíduo, inserção das pessoas nos meios sociais, reintegração das pessoas por meio de reabilitação física, emocional, psicológica, social, intelectual, funcional, entre tantas outras coisas.

Há muito trabalho pra se fazer e não serão os governos corruptos que terão interesse de ajudar nesse progresso. Muito pelo contrário. O que eles puderem fazer pra ampliar a miséria e a desigualdade social, farão, pois isso ajuda alguns poucos em termos de poder e dinheiro. A miséria dá lucro, a violência dá lucro, a ignorância dá lucro. Um país derrotado e afundado como o Brasil é uma mina de ouro pra uns poucos, na velha prática de se enxugar gelo.

Claro que as saídas não ocorrem da noite pro dia, mas isso não é uma deixa pra você voltar ao conformismo ou a desistência do tema. Pelo contrário. Sabendo que há muito pela frente, você precisa ser duas vezes mais engajado na transformação das pessoas. Pegue uma pessoa da sua família, do seu círculo de amigos, do seu meio social, do seu trabalho ou colégio e plante suas sementes. Você tem o potencial de fazer algo para alguns e deve se juntar à mais gente que faça o mesmo. Juntos estarão transformando multidões. A progressão matemática da união é a diferença entre gotas tentando lavar um quintal com lama em comparação com gotas unidas, formando uma enxurrada de água. Separados somos frágeis e pouco eficientes, mas juntos somos poderosos.

Não incentive as pessoas que batalham pela desistência da luta. Essa luta delas é, muitas vezes, fruto de más reflexões ou até mesmo ações coordenadas por quem quer dissuadir as pessoas da ação de transformação. Quando alguém tenta montar coletivos de transformação social, empoderamento e similares, logo isso começa a deixar corruptos inseguros, pois se muita gente fica consciente e engajada, podem acabar varrendo pra fora o entulho do país. A Islândia fez isso e quase nenhum país ou mídia teve interesse de anunciar o fato. Não houve nenhuma discussão sobre uma das ocorrências que considero mais relevantes no mundo moderno.

Pessoas ao redor do mundo estão fazendo seus papéis, conforme o poder de união que conseguem entre as pessoas. O brasileiro, enquanto for pouco receptivo para a ajuda, se verá longe da solução de seus próprios problemas. A cada vez que alguém estende as mãos, passa pelo Brasil toda uma oportunidade de surpreendermos o mundo. Não adianta ficar acomodado, esperando as coisas mudarem sozinhas ou pela ação dos outros. A sua ação é tão indispensável quanto a dos demais. A equação que funciona não é alguns fazendo e outros olhando. É preciso que todos façam seu papel e aceitem a interação proposta. Só assim você verá seu esforço ser revertido em algo que efetivamente funciona.

Em todos os textos, estou aqui estendendo minhas mãos em muitos sentidos. Através dos contatos que estamos traçando dentro e fora da internet, com os mais variados tipos de pessoas, nas mais variadas situações de vida, vamos construindo uma teia, uma rede de contatos. Sei que grande parte das pessoas sequer poderão acessar a internet para desfrutar dos textos, mas para os que podem, cabe o compartilhamento dos aprendizados, levando tudo isso ao maior número possível de pessoas.

Já escrevi em textos anteriores, sobre a importância de iniciativas no trabalho e nos estudos, promovendo acesso e função para nossos trabalhos e habilidades. Precisamos fazer algo mais de nossos talentos e conhecimentos, permitindo que eles sejam também ferramentas de transformação social. É muito mais interessante viver na Islândia do que no Brasil. Então façamos do Brasil uma Islândia ou qualquer outra coisa que entendermos como um ideal para nosso povo.

Somos mais de 200 milhões de pessoas atualmente. Você se pergunta quantas dessas pessoas tem condições e vontade de habitar espaços livres? Quantas delas buscam status e dinheiro como forma de se isolarem dos demais ao invés de buscarem a equalização da qualidade de vida pra todos? Quantos estão preferindo morar encarcerados na própria casa, por falta de interesse de resolver os problemas sociais pela raiz? Querem enxugar gelo a vida toda ou querem desfrutar do bem-estar da Holanda, Islândia, Noruega e afins? Pense diferente, pense melhor, pense pra frente, pense que você pode ser a diferença na equação. Mude a si mesmo e o mundo ao redor magicamente abre alguns caminhos bem tranquilos para retribuir.

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Rodrigo Meyer

O dinheiro te liberta ou te prende?

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Considerando as dificuldades sociais que a maioria da população passa, é compreensível que busquem por mais dinheiro. As pessoas querem melhores condições de vida, mais saúde, que não lhes falte comida, conforto, prazer. Mas será que lidamos bem com o dinheiro? Saberíamos usá-lo corretamente se tivéssemos mais? Podemos descobrir isso avaliando o que já fazemos com o pouco dinheiro que temos. O modo como enxergamos dinheiro acaba sendo o mesmo, independente da quantidade.

Se, por exemplo, vivemos por aparência e status, nosso dinheiro acaba indo embora rapidamente, mesmo que não seja tão pouco. Um salário some se o modo de vida inclui comprar marcas apenas pelo status ao invés de comprar produtos pela sua finalidade real. Você poderia comprar dezenas de produtos ao invés de comprar apenas um que promove status. Se seu dinheiro vai embora em bobagens assim, então o dinheiro não te liberta, apenas te prende.

Costumamos dizer, por humor ou verdadeira crença, que dinheiro traz felicidade. E pode até ser que seja verdade, em certo sentido, pois na sociedade atual o dinheiro compra certas facilidades pra nossa vida e nos permite fazer mais coisas. Embora isso possa nos trazer alguns prazeres, será que ele nos faz feliz de fato? Há diferença entre prazer e felicidade? Há sim. Um dia você acabará colidindo com o termo “hedonista fatigado”. O hedonismo é caracterizado pelo prazer como filosofia de vida, mas até um hedonista pode se ver cansado disso em algum momento. A razão pra tal é que prazer e felicidade não são a mesma coisa e mesmo rodeado de supostos prazeres, podemos nos encontrar sem felicidade. Pode-se especular, então, que esses prazeres não são prazeres reais.

O dinheiro pode te comprar uma cadeira melhor e seu corpo agradece. O dinheiro pode comprar uma casa maior onde os moradores não fiquem o tempo todo se esbarrando e tenham privacidade. O dinheiro compra viagens, comidas mais elaboradas, eletrônicos, cursos, móveis, artes, cirurgias e o que mais listarmos como importante pra uma vida que se avalie como sendo de qualidade. Mas qual é o limite entre qualidade de vida e escravidão perante o dinheiro?

O dinheiro te prende quando você começa a ter o que não precisa, comprar por impulso e até atropelar outras pessoas para obtenção de mais dinheiro ou ainda usar o dinheiro que tem pra controlar pejorativamente a vida de outro(s). O dinheiro te prende quando você começa a pensar que não consegue viver bem, apesar de já ter todo tipo de conforto. O dinheiro te prende quando você se torna uma pessoa que usa da ascensão financeira pra compensar suas fraquezas psicológicas, seus medos, seus complexos, sua raiva e assim por diante.

Existem casos onde um indivíduo passa a juventude toda em condições sociais ruins e ao conseguir algum dinheiro posteriormente, ostenta como forma de dizer ao mundo que agora é a vez dele de ter poder, de ter tudo aquilo que ele não tinha antes. Mas ostentar ultrapassa o limite do conforto e passa a ser uma conduta fraca e adoentada onde uma pessoa se enterra em um mar de coisas desnecessárias. Isso acontece como reação quase que automática do complexo que essa pessoa sente. Ela se sentia inferiorizada e com pouco valor na sociedade e transfere para os bens materiais toda a compensação disso. Como vivemos numa sociedade que superestima os bens materiais, o dinheiro e o status, esses elementos se tornam a ferramenta mais comum de “compensação” para as fraquezas humanas.

É assim que um cordão de ouro pra fora da roupa passa a ser mais importante que um cordão de aço por dentro da roupa. Mostrar que custou caro e deixar que todos vejam que você está usando porque tem poder de compra, é a tal compensação pretendida para quem tem complexo de seus passados. E isso precisa ser analisado e equilibrado, porque não beneficia ninguém, nem à você mesmo. E, da mesma forma que muitos tiveram juventudes difíceis financeiramente, a ostentação não ajuda a mudar essas realidades para outras pessoas. Ao contrário, quando alguém ostenta um cordão de ouro (ou diversos deles), faz as pessoas pobres sentirem-se tristes, menosprezadas, inferiores, incapazes. Também tira a oportunidade dessa realidade mudar, pois ao invés dessa fortuna ajudar pessoas a saírem da pobreza, converte-se em coisas sem função real, como cordões de ouro.

Tão mais interessante ao se ganhar dinheiro é buscar coisas reais, com função e, dentro das possibilidades, ajudar quem precisa sair das situações em que julgamos indignas pro ser humano. Estender uma mão quando se tem dinheiro, traz uma inabalável felicidade. Devemos tentar, mesmo que nossa “fortuna” seja pouca como um trocado que não nos pesa e que pode servir como refeição pra quem passa fome e frio pelas ruas. O seu dinheiro ajuda a quem? Se está escravo dele, não ajuda nem à você mesmo.

Progredir na vida é o que todos nós devemos almejar. E nem sempre isso é sinônimo de se obter mais dinheiro. Qualidade de vida não tem, necessariamente, relação direta com isso. Os padrões sociais e os modelos de política que adotamos pra gerir os grupos de pessoas em uma sociedade são escolhas e diversos modelos podem levar à um bem-estar coletivo. Não deixe de olhar as possibilidades e entenda que ser feliz é a prioridade do jogo.

Às vezes escuto pessoas especulando o que fariam se ganhassem o prêmio da loteria. Chega a ser engraçado de tão trágico. Há tão pouca noção do potencial do prêmio que as pessoas pensam naquele montante gigantesco como a oportunidade de comprar um carro, uma casa, quando na verdade o prêmio permitiria comprar uma frota inteira de carros e quase um bairro todo de casas. E, claro, ninguém precisa de 200 carros e 200 casas. Então o que farão com o dinheiro que sobra depois de comprar uma ou duas casas e os carros que pretende efetivamente usar? Será que gastariam tudo em chicletes e pizzas? Falta percepção da grandeza numérica, mas também falta noção do poder social que o dinheiro tem. As pessoas não conseguem prever a imensidão de vidas que o dinheiro pode salvar ou ajudar a crescer.

É plausível, porém, os momentos em que pessoas que tiveram ascensão financeira, dedicam-se à ajudar organizações de saúde, de combate à pobreza, de apoio à vítimas de abuso ou simplesmente abrindo possibilidades diretas pra que as pessoas deixem o cenário da pobreza. Quem tem dinheiro, tem poder. E o poder deve ser usado para, entre outras coisas, melhorar o ambiente em que vivemos e as relações que traçamos. É muito mais agradável viver numa sociedade em que as pessoas todas podem ter acesso à ensino de qualidade, comida saudável, roupas confortáveis, segurança física e emocional, lazer, cultura, espaço para desenvolver seus talentos e vontades. E se abrirmos essas oportunidades pra mais gente, certamente elas retribuirão isso quando elas mesmas também estiverem em uma condição melhor.

Todos podemos estar lado a lado e vencer igualmente. Existe um termo que vem se popularizando no mundo que é “ubuntu”. Refere-se ao conceito de união, de vencer junto pelo esforço coletivo ao invés da disputa egoísta. Lembro-me de uma anedota onde um fotógrafo viajou pro exterior para uma comunidade onde haviam muitos problemas sociais, fome e miséria. Tentando agradar e preencher o tempo até seu horário de viagem de volta, ele pegou um punhado de doces e propôs uma brincadeira com as crianças. Aquela que chegasse primeiro em uma certa árvore distante, ganharia todos os doces. Para surpresa do fotógrafo, as crianças se deram as mãos e foram andando calmamente até a árvore. Chegaram todas juntas, sem cansaço, sem brigas, sem problemas. Todas elas, por direito, chegaram primeiro e repartiram todos os doces que ganharam. O fotógrafo, viciado pelo conceito de disputa nas sociedades, aprendeu o termo “ubuntu”. Leve isso consigo ao pensar o valor do dinheiro e das coisas na vida. Felicidade pode ser tão simples quanto fazer a coisa certa do modo certo. Dizem que uma felicidade dividida é uma felicidade ampliada.

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Rodrigo Meyer

Não dependa da sorte.

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As pessoas que passam por dificuldades na vida, podem contar com muitas ferramentas para tentar mudanças, mas não devem ficar dependentes da sorte. Isso significa que você pode incluir a sorte no pacote, mas não deve depender dela pra desenvolver sua vida, mesmo porque além de relativa pra muitos, se ela vem, não é sempre e nem pra todos. Então, deixe essa inconstância e imprevisibilidade de lado e se concentre nas coisas que está efetivamente fazendo para mudar sua situação.

Se você anda triste, sem motivação ou até mesmo se enfrenta um caso de depressão, você precisa conhecer um pouco mais do seu problema, de si mesmo e das origens dessa situação. Não adianta esperar que as coisas simplesmente se resolvam magicamente com o tempo. Se você esperar sem fazer nada, o tempo irá agravar seus problemas.

Se você enfrenta algum problema de saúde ou está tentando alterar seu peso ou aparência, ações precisam ser tomadas. Você deve rever suas práticas, hábitos e se engajar em contextos que sejam indicados pra sua situação. Reclamar não ajuda, com certeza e, por vezes, o estímulo pra se fazer mudanças está em nós mesmos, mediante a forma como enxergamos nosso valor, nosso potencial e o quanto realmente estamos prontos pra começar a revolução que precisamos pra nós.

A sorte não conta muito na hora de fazer uma prova, um exame, um teste, uma visita ao médico. A sorte não influi quando a realidade está negligenciada. Se você não está tentando proporcionar as condições certas para os seus objetivos, eles possivelmente não vão tocar a campainha da sua casa como num filme de ficção. Mas isso não é motivo pra desanimar. É exatamente se colocando no papel da realidade que você começa a aceitar o espelho, ver com clareza os seus pontos fracos e fortes e tomar decisões em termos de ação.

Evite andar em círculos, sempre deixando de lado aquelas coisas que supostamente são importantes pra você: seus sonhos, suas vontades, seus desejos, seus ideais, suas alegrias, suas amizades.

Quando nos tornamos preparados pra caminhar, temos que estar cientes de quem somos e que potencial temos. Será que vamos mesmo andar ou vamos desistir mais uma vez? Eu me vi desistindo tantas vezes no passado e a única coisa que coletei disso foi desprazer e arrependimento. Hoje eu jamais me deixaria na mesma situação. Não importa o que os outros digam, a falta de apoio que recebo ou mesmo as barreiras que se colocam diante das situações. Eu digo sim pra mim e faço mesmo quando não estou no cenário ideal. Essa perseverança e motivação própria é fruto de estar psicologicamente pronto para se engajar nos próprios planos. Essa determinação é, sobretudo, amor próprio.

As pessoas tentarão te colocar pra baixo, porque a luz ofusca quem está na escuridão. Desacostumados pelas coisas boas, tudo que floresce parece vivo demais. Mas eu não me importo mais. Não se deve viver procurando agradar os descontentes. O que se pode fazer por eles é deixar seu exemplo, seu sorriso, a lembrança de seus momentos. Você pode ajudar muita gente a subir, mas apenas se você mesmo não tornar a cair. E, por isso, nunca aceite que a vida seja menos do que o entusiasmo que você sente em fazer as coisas.

Acorde no seu horário preferido sempre que puder, faça as escolhas que pode, na direção do que ambiciona. Se você gosta de arte e te recriminam por seus gostos ou escolhas, troque de sintonia, mude de ares, mude de pessoas. Ambientes melhores e maiores estão por vir, se você realmente tiver vontade de existir. Eu não posso garantir jamais que tudo será fácil e rápido. Geralmente é sempre o inverso, mas isso não é problema pra quem está buscando de verdade.

Eu não pude contar com a sorte. Ela nunca esteve presente. Respeito muito mais a observação dos cenários, das pessoas, do mundo, das realidades. Respeito a transformação pessoal, a educação, a sintonia entre as pessoas, a mudança de hábitos e o esforço de cada um. Até mesmo quando esperamos que alguém venha nos ajudar, precisamos estar aptos pra receber essa ajuda. Eu mesmo, carrego um lema pra vida: só ajude quem quer ser ajudado.

Não adianta esperarmos sentados pela iniciativa de fora, se a nossa própria conduta e pensamentos estão impedindo as melhoras. Se você está passando por qualquer dificuldade na vida, saiba estar aberto a receber. Isso significa que você precisa transformar-se minimamente ao ponto em que as pessoas possam chegar até você, possam te conhecer, possam entender seu problema, estender uma mão, oferecer uma oportunidade e te encaixar em algo que seja apropriado pra ambos.

E a sorte não vem se você fecha as portas e tinge tudo com um tom de desconfiança, desprazer e arrogância. As relações humanas devem ser simples. E se você não for igualmente simples, acabará espantando as mãos mais generosas. Aprende-se muito em atividades de Serviço Social (que inclusive é um curso universitário), tomando contato com as pessoas nas mais diferentes situações de necessidade de ajuda. Isso demonstra a importância que é fazermos alguma coisa diante das situações próprias e alheias, tomar uma iniciativa fora do campo das ideias e ir principalmente para a ação, para a mudança.

Escolher agir ao invés de se cobrir de atalhos, simbolismos e outras firulas pode ser um bom modo de levar a vida. E tudo bem se você não souber no momento como começar as suas transformações. A vida está aí pra ser dividida e as conversas serem feitas, as informações serem aprendidas e as portas ficarem mais abertas e mais bonitas. Há opções pra quase todos os problemas e até para os problemas sem solução pode-se fazer alguma coisa boa, como por exemplo, aceitar, superar e mudar o foco e a visão.

Eu sei que queremos tudo pra ontem e estamos muito cansados de vivenciar os desprazeres. Todos nós queremos trabalho, conforto, carinho, dinheiro, conhecimento, prazer e tempo livre que não seja tédio e agonia. Sei que todos nós queremos o melhor pra nossas vidas, mas a sorte não sabe e não faz muito por nós. Ela gosta mesmo é de chegar vez ou outra pelo acaso, sem muita regularidade. Bom mesmo é confiar no nosso esforço, traçar boas conversas, boas amizades, estar entre as melhores oportunidades. Precisamos engrandecer a qualidade de nosso pensamento, nossos hábitos e nossos momentos.

Eu desperdicei tanto tempo nos lugares errados e com as pessoas erradas que jamais me permitirei perder meu maior tesouro: o próprio tempo. Hoje, se eu pudesse recriar meu passado, faria tudo mais cedo e recusaria de cara todas as superficialidades nas relações, nos estudos, na diversão. Desprendemos muita energia e sentimento por situações que não valem tudo aquilo. Tiramos o foco da nossa própria saúde e acreditamos que só nos resta determinadas opções. E estamos, claro, repetidamente errados.

Comecei a me ver acertando, quando eu larguei de vez os velhos pensamentos pessimistas, as reclamações sobre a vida. Me foi mais valioso estar sozinho do que mal acompanhado. Me livrar das pessoas que nada queriam, nenhum propósito tinham e só estavam vagando pela vida, feito zumbis, tirando nossa atenção em busca de nossa energia. E sem perceber, você gasta mais da metade da sua vida toda sem nunca se permitir conhecer quão alto você realmente alcança. Os sonhos são pequenos porque as mentes sonham pouco. E param de sonhar com tanta frequência, que já não acreditam muito que viver é coisa boa. Tudo em que tocam ganha um ar amargo e esquisito que não nos motiva nem mesmo a encerrar a vida. Ficamos presos entre a dor e a morte e nem pra isso podemos contar com a sorte.

Temos que ser agradecidos pelas pessoas que seguram nossa mão com firmeza e prometem dar toda força que puderem pra tentar nos levantar. Temos que ser gratos e também retribuirmos isso com nossas atitudes. Esqueçam essa ideia de que dinheiro resolve tudo, porque isso é, na verdade, o motivo de tanta gente se ver entristecida pela vida. O que resolve mesmo é estarmos envolvidos com sinceridade uns com os outros, dando aspecto de família pra sociedade e formando amizades além daquela fina camada superficial.

As pessoas já não se permitem mais conversar, abraço saiu de moda e, se for apertado, chega a constranger. As pessoas tem medo de acordar e dizer ‘bom dia’, medo de parecerem idiotas ou ingênuas. E tudo querem da vida, mas nada querem dar. Elas querem que caia do céu uma fortuna todo dia, mas quando é a vez delas, elas não podem te ajudar. Essas inverdades cobram da gente um preço amargo e às vezes sem volta. Se você se deixa contaminar por essas pequenas coisas hoje, amanhã elas se tornam normais e você piora um pouco mais. Se não breca suas fraquezas com ação, em pouco tempo seu mundo fica viciado, cheio de falácias e desculpas pra continuar acomodado.

Eu não estou dizendo que você conseguirá tudo sozinho. É exatamente o contrário. É juntando-se aos demais, com sinceridade, que você conseguirá extrair algum retorno das suas tentativas. Os dilemas pessoais podem continuar sendo pessoais, mas você pode, eventualmente, sentir-se animado a trabalhar sozinho por inspiração de um abraço que recebeu, um sorriso que viu, uma memória agradável ou a certeza de que pode contar com alguém na hora do aperto. Essas facilidades da vida são construídas por cada um de nós, se assim quisermos, se assim permitirmos. Elas não vem do acaso, não são trazidas pela sorte. Não são anjos que batem na nossa porta oferecendo amizades, embora diversos amigos possam ter papéis tão dignos e relevantes que chegamos a vê-los como seres especiais.

Mas, quer saber? Essa especialidade que enxergamos em quem nos ajuda não é da pessoa. Exageramos nossos elogios e nossa visão admirada por algo que não vemos todos os dias. É verdade que você não encontra essas pessoas aos montes. E é sobre isso que precisamos por nossos olhos. A escassez dessas pessoas é reflexo de como estamos levando nossas vidas humanas. A inação que nos compete está tomando forma todos os dias e formando uma sociedade que não admiramos. Deixamos de ser “anjos”, porque escolhemos ignorar por completo tudo aquilo que poderíamos fazer por alguém o mesmo tanto que poderíamos receber. Viver em sociedade é, sobretudo, troca. E se as relações não forem profundas e sinceras o suficiente, as trocas também não serão. Quem perde com isso? Você, eu e todos nós, mesmo que não tenhamos nada a ver com isso.

Se você prometer que vai mudar eu te apoio. Mas se você demonstrar ação, eu te abro um sorriso, estendo a mão. Eu estou querendo ser surpreendido pelas pessoas. Quero ver quem vai poder dizer que a vida está injusta. Se você me mostrar que tem valor e que o fracasso veio apesar de você ter tentado, aí sim eu estarei do seu lado. Posso não ter todas as soluções que você precisa e nem pretendo, mas estarei lá com o pouco que eu tiver. Estou blindado apenas aos oportunistas e gente que só quer facilidades. Eu quero é gente disposta, que esteja pronta pra qualquer proposta. Quero por perto, gente que queira superar os problemas, dar tchau nas asneiras e solidificar o mundo. Eu não quero gente que busca dinheiro, mas pouco se importa com o que está fazendo. Eu não quero desperdiçar meu estoque de risadas com alguém que vai trocar esses dias por um status, um nome na placa do puteiro, um crachá de prata, uma vaga de emprego.

Aprendi que esse tipo de gente dá azar. Esses tiram nossos tesouros, em todos os sentidos, em todo lugar. Essas pessoas não criam, se apropriam. Elas não vencem, compram vitórias. Elas não aprendem, fingem saber e, acima de tudo, não querem mudar, pois pra ser um pouco melhor do que ontem é preciso mais do que teoria e dinheiro, é preciso ação. E como sabemos, ação não dá em qualquer lugar.

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Rodrigo Meyer

Persistência ou teimosia?

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Estar motivado para seguir adiante normalmente é bom. Tudo que se pretende fazer depende dessa dose de combustível. Mas nem todo combustível vem pela razão certa. Alguns se impulsionam contra a realidade pela gana e desespero em ter seu egoísmo atendido. E não terão, à menos que seja por alguém que está com sérios problemas de autoestima.

A persistência é boa, diferente da teimosia que geralmente é associada com a prática desgastante de tentar sem levar em conta o bom-senso e as pessoas ao redor. É um abuso, um conflito, um estorvo. O teimoso é enxergado como aquela pessoa que não se percebe como desnecessário mesmo depois de ter sido desaprovado sucessivamente.

De memória, tenho meus parentes pra citar. Quase todos eles, perdidos em meio a visão restrita do mundo e o foco constante apenas no que eles querem, se esquecem de ler os sinais ao redor sobre o que os outros querem, dizem e fazem. Frequentemente batem a cara em portas fechadas, duras e secas. Não compreendem a solidez da negativa, porque não perceberam ela nem quando ela era flexível. E a teimosia em seguir adiante os faz não só ignorantes sobre a própria realidade como também tóxicos para os que convivem junto.

Desde sempre eu tracei os meus planos de isolamento para contenção de danos. Com o passar do tempo, essas pessoas tiveram cada vez menos espaço na minha realidade. De que serviu a teimosia delas, senão para prejudicar a si mesmas? Eu, persistente em minhas metas, em minha busca de liberdade e paz pessoal, segui adiante, apesar dessas barreiras. Os teimosos estão por toda parte. Eles não querem ceder, não querem parar de bater a testa na ponta da faca. Já estão sangrando e desmaiando na vida, mas insistem em voltar e piorar ainda mais a própria situação.

Ser persistente é encontrar algo que se deseja fazer e colocar todo seu empenho naquilo. É ter confiança e ação para contornar barreiras, tentar mais uma vez e não desanimar apesar dos resultados iniciais. Mas persistência não tem relação com teimosia. A persistência ocorre visando a própria liberdade e não o atropelo de ninguém. Claro que às vezes, garantir nossa liberdade acaba sendo uma ação que priva a liberdade de outros. Quando você está em um cativeiro, por exemplo, e prende o sequestrador pra poder sair de lá, você acaba tirando a liberdade de quem tentava tirar a sua liberdade. Mas a persistência não tem isso como objetivo inicial, como premissa. Isso é (quando ocorre) uma consequência de nossas buscas. Aliás, nesse contexto o teimoso é o sequestrador que não se conforma em não ter e força a obtenção.

Ao persistir em algo você vai encontrar barreiras naturais. Para saber se o que você tem é persistência ou teimosia, precisa analisar o objetivo essencial por trás da sua ação. Vamos supor, por exemplo, que você está em uma situação onde um relacionamento não é correspondido. Você quer alguém que não quer você. Tentar que esse relacionamento aconteça forçosamente é teimosia, porque já se tem claro que a pessoa de lá está recusando suas tentativas. E livres como as pessoas precisam ser, é natural que toda teimosia acabe sendo “mero” estorvo.

O persistente sabe onde quer chegar, mas nunca deixa de lado a observação da sua própria realidade. Ele contorna barreiras ao invés de atropelá-las. Quando, por exemplo, uma pessoa persistente quer muito alugar uma casa e não encontra uma no bairro inicial, ela não deve roubar uma casa para resolver o problema. Ao contrário, ela repensa seu plano e tenta descobrir onde seria melhor para encontrar um espaço para alugar, talvez indo em outros bairros, mudando de imobiliária ou até mesmo estabelecendo outros parâmetros de busca no bairro inicial, como valores, localidade ou qualidade. Se é algo que e a pessoa quer muito e não está tirando a liberdade de ninguém, ela pode inclusive ser paciente, melhorar suas próprias condições e voltar em outro momento da vida para tentar morar lá novamente!

Já o teimoso é o inverso disso. Na mesma situação, ele teria continuado a tentar encontrar casas no mesmo lugar, sem mudar absolutamente nada de seus parâmetros. Ficaria tocando a campainha de todas as casas e, mesmo não tendo o necessário para alugá-las, continuaria. Em algum tempo ele seria o estorvo da cidade. E até mesmo onde ele poderia alugar uma casa, as pessoas começam a descartá-lo, porque ele já se tornou um problema como pessoa antes mesmo de ser um problema como inquilino. Os corretores de imóveis começam a deixar de atendê-lo, vão se afastando e com o tempo ele termina sozinho, triste e irritado. O teimoso não percebe que o egoísmo dele dá o que ele planta. Ele planta “eu” em tudo que pede, atropela os demais para conseguir isso e no final, fica ele com ele mesmo, pois todos os demais que não querem ser atropelados, já saíram de perto e o isolaram.

Na vida, você precisa ser o persistente e não o teimoso. Evite estar em cursos dos quais você não tem condições de estar, não tente vencer em profissões sem aprendê-las, não se entoque em relacionamentos que não tem futuro, não deseje pessoas que não querem você por perto, não fique buscando coisas e situações que não correspondem com suas capacidades, sua personalidade, suas reais vontades, etc. Deixar de ser teimoso é começar a se beneficiar, é se dar presentes, se dar coisas boas, se ver vencer. Acreditar que o que você precisa ter ou ser é aquela coisa que não se encaixa em você, é perda de tempo, ignorância e falta de amor-próprio. Lembre-se que reciprocidade é a chave.

Todos nós temos habilidades em uma ou outra coisa. Podemos aprimorar os pontos fracos e chegarmos a ter novas habilidades. Mas, nunca transforme suas fraquezas em ferramentas para busca das coisas. Isso não ajuda nem à você mesmo, nem aos demais. Com o tempo, as pessoas vão percebendo que quanto mais elas se resolverem por dentro, mais fácil é a vida lá fora e mais feliz e próspero fica o mundo todo. Viver bem em sociedade é, no final das contas, viver bem individualmente. Um indivíduo saudável é uma peça funcional e harmoniosa no coletivo.

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Rodrigo Meyer