Permita-se recomeçar.

Ouço muita gente citar o tempo como desculpa para a inação. Alguns dizem ter pouco tempo no dia, outros dizem ter pouca vida pela frente devido a idade e outros dizem que ainda são jovens demais para tomar certas decisões. Em todos os casos, usam o tempo como pretexto para uma inação, para fugir de situações das quais possuem, geralmente, medo.

Quando alguém está em um cenário de insatisfação naquilo que está vivendo, é comum que a pessoa desanime e não veja opções de recomeço. Mas sabe, apesar de tudo, que recomeçar seria algo benéfico, já que apontaria para um caminho de concretização de um ideal ou de uma possibilidade diferente daquela em que se via antes. A barreira para esse recomeço costuma se instalar na mente de muitas pessoas, tornando-as procrastinadoras ou negligentes sobre suas próprias realidades.

Em conversas com algumas pessoas, sondei o quão interessadas elas estavam em adotar recomeços em suas vidas, seja profissionalmente, no campo dos estudos, nos relacionamentos, na vida social, na troca de país, na iniciativa de escrever um livro ou começar um canal no Youtube, aprender a cozinhar ou terminar de ler aqueles livros que elas listaram um dia e nunca mais entraran em contato. Por mais engajado que eu estivesse em mostrar a realidade de todas essas opções, foi notório a reação exacerbada das pessoas em claro sinal de resistência para tudo isso. Algumas pessoas se declaravam desinteressadas de certas mudanças, mas não diziam explicitamente que era por conta de medo. Talvez admitir medo fosse, para algumas, uma maneira intragável de se verem sem a liberdade necessária sobre si mesmas. O medo paralisa e coisas paradas não repercutem. A pessoa que deixa de viver por medo, sofre em silêncio e muitas vezes sem nem saber porque sofre.

Outras pessoas, ainda que interessadas pelas mudanças, sugeriam repetidamente que mudar era difícil, que exigia uma lista de requisitos das quais elas não dispunham. Colidiam com qualquer tentativa minha de demonstrar que esses requisitos eram lendas e que a realidade disponível para as mudanças estava bem acessível. Contudo, eu deixava claro que a maior e única barreira pra determinados casos de mudança era simplesmente o ‘querer’ de cada indivíduo. Não se pode convencer ninguém a mudar se ele não quiser. A mudança, para todo e qualquer cenário da vida começa, primeiro, dentro do próprio indivíduo. É a mudança de paradigma, de pensamento, de postura e de valores que vai determinar as possibilidades de mudança no lado exterior, nas questões práticas da vida.

A exemplo disso, ninguém se atreve a mudar de país, por exemplo, se tudo na mente da pessoa ainda aponta que essa ação é errada, incerta, perigosa, pouco vantajosa, difícil ou impossível, dispendiosa, para poucos ou com qualquer característica de barreira que se atribua. Não ocorre a ação, se a mente não está minimamente alinhada com essa realidade hipotética. É natural que as pessoas tenham dúvidas sobre o dia de amanhã, sobre seus potenciais e sobre questões técnicas acerca daquilo que pretendem mudar, mas isso não é o mesmo que ter medo, insegurança ou desistência. Quando não sabemos nada sobre mudança de hábitos, por exemplo, procuramos a informação, antes de afirmar que é possível ou impossível, fácil ou difícil, interessante ou dispensável. Talvez algumas pessoas não saibam as opções existentes sobre novos modelos de trabalho, sobre como exercitar o corpo, como trocar de sistema operacional no computador, como abrir um comércio, como aprender um idioma, como adquirir o hábito da leitura ou como cozinhar com pouco dinheiro. Talvez não tenham a maior parte das informações que serão necessárias para a mudança em suas vidas, mas é exatamente por isso que a mudança é sinônimo de algo novo, de um passo em direção ao recomeço, ao aprendizado, à experiência, ao futuro, ao desenvolvimento, ao momento em que se olha para algo, se vivencia e se descobre mais daquele contexto. Fugir é que não ajuda em nada para aprender e vivenciar a mudança.

Quando eu era adolescente eu tive contato com softwares de modelagem 3D. Foi algo que me encantou por um tempo, devido as possibilidades de criação realistas de tudo aquilo que estava na minha mente. Embora eu não soubesse nada sobre meu potencial nessa área, nem soubesse nada especificamente das configurações atreladas a modelagem nos softwares, nem tivesse qualquer aspiração definida no campo profissional, eu me vi experimentando algumas opções. Assisti a tutoriais, entendi melhor os atalhos e me habituei a eles. Em pouco tempo, o que era improvável se tornou algo banal. Algum tempo depois, com a prática e o incentivo de um conhecido que também lidava com modelagem 3D, eu comecei a criar cenas mais complexas, experimentar materiais, efeitos, iluminações, recursos para renderização realista e até cheguei a montar um computador todo voltado pra esse alto desempenho requerido pra área. Não me tornei um artista 3D prolífico, nem dominei os softwares aos quais fazia uso, mas tive a grata oportunidade de gerar diversas imagens que me felicitam ainda hoje.

Olhar pra trás e ver que eu fiz algo na área, ativa a nostalgia e um orgulho somado com a memória positiva disso. Saber que fui capaz, que tentei e realizei, traz uma recompensa para o cérebro que me faz sentir prazer e motivação. Com isso eu me tornei muito mais ativo em outras atividades. Uma vez motivado, desenvolvi melhor meus desenhos em papel, minhas pinturas à óleo, minhas pinturas digitais, o desenho vetorial e o Design Gráfico, a própria Literatura e, claro, como fotógrafo, onde ampliei muito mais minha confiança artística, profissional, social, etc. Em resumo, ter me permitido aprender algo difícil como a modelagem 3D, repercutiu em toda a minha vida, porque mesmo que hoje eu não esteja mais modelando, todo o restante que eu faço, faço com motivação, com orgulho, com um histórico na memória e com um rastro de interação com as pessoas que conheci pelo caminho. Ter lembrado disso, me fez inclusive reabrir essa área no momento presente e voltar a estudar 3D, para, eventualmente, trazer essas modelagens como imagens descritivas de cenas nos meus livros ou até mesmo a criação de pequenas animações para os meus projetos paralelos. É improvável (ou pelo menos bastante incerto) que eu me torne um artista de 3D com os rumos que eu escolhi pra minha vida atualmente, porém eu nunca fecho uma porta, enquanto há a remota possibilidade de eu me beneficiar de algo em algum momento futuro.

Entendido o exemplo deixado acima, fica a reflexão para qualquer pessoa, em qualquer área da vida. É preciso estabelecer metas (até mesmo se a única meta for não ter metas definidas). Entender que a vida é dinâmica e que o futuro é uma surpresa constante, nos permite vivenciar mais profundamente cada um dos momentos presentes. Nada sei como será o dia de amanhã, mas quero que o dia de hoje seja o melhor possível. É isso que me coloca em uma postura aberta para a mudança. Se hoje aprendo algo que transforma meu pensamento, minha compreensão, meus valores, minha percepção, meus desejos, meus sonhos, etc., eu caminho, automaticamente, para uma realidade nova, para a mudança. E quando isso acontece automaticamente, acontece sem medos, sem barreiras, sem pesares, sem inseguranças. Mesmo sem saber nada sobre onde o rio vai desaguar, a água da nascente escorre com confiança e se entrega ao rio, percorre o rio, descobre as pedras pelo caminho, se molda por novas margens a cada distância que avança. O rio da nascente já não é o mesmo em nenhum outro ponto do caminho e a água se oxigena justamente por conta desse movimento. De certa forma ela é conduzida por uma série de contextos, mas é a força dela que registra o caminho possível de ser percorrido. Se a água for pouca e fraca, logo evapora, seca e o rio não se forma. Para viver uma vida intensa, com significado e prazer, é preciso deixar a vida acontecer.

Rodrigo Meyer – Author

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Redefina os padrões daquilo que não te agrada.

Estar vivo, dentro ou fora da sociedade já nos coloca em um cenário em que precisamos observar e reagir diante das coisas. Tudo que nos cerca e também o que nós mesmos somos, passa pela nossa crítica. Para muita coisa, nossa análise passa desapercebida, pois são rotineiras. Mas para outras coisas, focamos uma grande atenção, principalmente sobre o que nos desagrada.

No campo das pequenas coisas, podemos reagir em desprazer pelo excesso de luz, de calor, da chuva, do céu nublado, do cansaço ou preguiça de cumprir uma atividade mais produtiva no nosso dia, a insatisfação com uma roupa que desbotou, um tropeço na calçada, a falta de bateria suficiente no celular, uma caneta que falha quando precisamos escrever, o barulho inconveniente na rua e por aí vai. Esses são alguns exemplos de coisas que nos traz algum incômodo, mas pouco significativo. Poucas vezes reagimos de forma mais consistente pra planejar mudanças sobre esses cenários. Não é algo que nos demanda muita ação, nem que nos priva de viver o total da nossa vida em outras coisas maiores.

No campo das grandes coisas estão nossas críticas mais incisivas, mesmo que nem sempre coerentes ou justas. Nossa visão sobre as pessoas, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre a política, sobre as relações de trabalho, de ensino, de aprendizado. Estão neste grupo o nosso dinheiro, nossas relações emocionais, nossos medos, nossos traumas, nossas doenças, os vícios, os erros, os acertos, as superações, as conquistas dos nossos objetivos materiais ou de outros setores da vida, nossa segurança, nossa satisfação em estar vivo ou em contato com o mundo com ou sem socialização. Muita coisa é pesada em graus diferentes para cada pessoa, mas certamente esses são exemplos muito comuns de faces da realidade e do nosso ser, que observamos com um grau maior de atenção, mesmo que tenhamos a visão distorcida ou a incompreensão do que cada uma dessas coisas de fato é para nós ou como funcionam.

Por tudo isso, entre pequenas e grandes coisas, nós estamos sempre traçando críticas sobre os padrões. Podemos, por exemplo, estabelecer que um determinado modelo de trabalho é nocivo e que gostaríamos que fosse diferente. A crítica sozinha é só um pensamento ou uma expressão dele, mas pra que algo mude, requer alguma ação. Você pode começar a transformar tudo o que não gosta no mundo, por meio do seu próprio exemplo. Seja vocẽ a mudança que gostaria de encontrar pelo caminho. Um bom caso, fácil de lembrar, foi quando Linus Torvald, um programador, decidiu fazer algo que julgasse melhor do que o que havia de estabelecido em sistemas operacionais. Foi assim que nasceu o Linux, um kernel (uma espécie do miolo de um sistema operacional) que hoje é tão aplaudido pela qualidade e pelo viés open-source e gratuito do projeto, que é a opção da um imenso número de empresas e usuários domésticos pelo mundo todo. Ainda que empresas grandes como Microsoft, Apple, Google e outras, tenham alcançado um enorme mercado nessas temáticas, Linus Torvald agiu e criou aquilo que achava necessário ser criado. O importante não é o tamanho do seu sonho e nem o retorno massivo do seu projeto. Importa mais é que você esteja satisfeito em ter transformado uma face da realidade em algo melhor que atendesse aos seus padrões, às suas expectativas e necessidades.

Em qualquer setor da vida, devemos ter igual iniciativa, transformando o modo como fazemos arte, reestabelecendo o significado da arte, colocando nossos textos e opiniões à frente e ao lado de outros para gerar contraste e renovação, ter uma estratégia inovadora para lidar com nossas amizades, nosso círculo de trabalho, as redes sociais. Temos que conseguir olhar pra um livro mal escrito ou incompleto e conseguir propor uma versão, o seu acréscimo ou supressão. Transforme as coisas e estabeleça o seu nível de qualidade. É importante não se contentar fácil com uma comida sem sabor e ir atrás de temperá-la ou criar seu próprio prato. Quando ocupamos uma casa, personalizamos ela ao nosso gosto. É isso que faz dela o nosso lar. Nascemos nus e desajeitados, crescemos cercados de pessoas nos dizendo como ser, o que acreditar, o que vestir ou comer. E com o tempo, vamos criando pequenos atritos e insatisfações, à medida em que ganhamos identidade, autonomia e percepção sobre nós mesmos. Passamos a querer nossas próprias coisas, do nosso próprio jeito, para nossa própria satisfação.

Nosso corpo, nossas roupas, nossa casa, nossos espaços simbólicos na internet, nossas artes, nossas falas, nossos pensamentos, nossas análises e estudos sobre o mundo, nossas viagens, nossas amizades e tudo que se conecta, de alguma forma, em qualquer grau, conosco, está alí pra ser visto, filtrado e transformado ou recriado. Quando você chega por aqui e se depara com um texto, você não é obrigado a concordar com nada e é, inclusive, incentivado a fazer tua própria interpretação e a ser também um escritor. Seja autor da sua vida, seja o protagonista de sua história, sua mensagem, sua realidade. Crie o seu mundo e apresente seu mundo ao outros. Viver só faz sentido se você acredita muito naquilo que você é e faz. Do contrário, o mundo lhe parecerá um fardo, pois estará sempre tendo que se sujeitar ao que é alheio e não te agrada. O mundo se torna melhor, quando você experimenta ele da sua própria maneira. E pode ser que a sua maneira seja algo interessante pra mais gente também.

Se você pode, comece hoje a dançar, a cantar, a desenhar, a escrever, a caminhar, a aprender algo novo, a ensinar algo para o mundo. Converse da tua própria maneira, com as tuas manias, tuas gírias, teu tom de humor, teus temas preferidos ou até mesmo o silêncio, caso lhe agrade. O padrão de qualidade das coisas, não precisa ser algo que você espera sentado e torce pra dar certo. Você precisa, antes de tudo, torcer pra você mesmo dar certo. Os outros estão fazendo as coisas ao modo deles (ou talvez não) e você não precisa embarcar no modo de ninguém, se isso não contempla suas exigências. Eu, por exemplo, quando me cansei de ver a inundação de conteúdos que eu não acreditava nem valorizava, fui atrás de ser eu mesmo um criador de conteúdo. E quando fazemos isso em sinceridade, pode ter certeza que vai prosperar. As mensagens se espalham, porque elas tocam alguém em algo sutil, mas muito poderoso, que é a conexão interior com uma verdade, com um sentido, com algo subjetivo, com algo inconsciente. O valor de uma pintura, por exemplo, não está necessariamente na qualidade técnica, mas sim em coisas como o traço, a mensagem, o estilo, o seu jeito transparecendo numa série de obras, etc. Isso cativa pessoas por algo que é quase invisível ou pouco compreensível, mas acontece e é poderoso o suficiente pra agradar, pra envolver, pra motivar, pra gerar aceitação. É isso que faz algo ser novo e forte.

Desligue-se dos medos, da inação, da repetição, do ‘mais do mesmo’, das fraquezas, dos complexos, das inseguranças, dos vícios, das manias prejudiciais pra sua vida e comece a ser verbo. Comece a fazer as coisas, a ser, aprender, sentir, criar, ver, entender, transformar. Enfim, viva a sua vida. Você é um indivíduo e o seu modo de fazer as coisas é e sempre será único. Há espaço para infinita diversidade no Universo. As pessoas podem aplaudir e apoiar coisas diferentes simultaneamente, sem que nenhuma delas perca o valor que tem. O valor das coisas está embutido nelas pelo que elas são e não por nenhum tipo de comparação ou competição. Satisfaça-se, porque tua satisfação renova o sentido da sua vida, tira o peso e pode ser inspiração pra outras pessoas.

Rodrigo Meyer – Author

Sobre o medo de morrer.

Sei que muita gente teme a morte, mas certamente não sou uma dessas pessoas. Consigo entender que as pessoas correm da velhice e da morte e, de alguma forma, vê-se que estão apegadas a este mundo de uma forma tal que, deixar de existir e partir pra outra situação nova, totalmente desconhecida, as apavora. Seja lá o que encontremos depois da vida, como uma continuação ou um ‘eterno nada’ silencioso, reafirmando a brevidade da vida, pra quem tem medo da morte, não importa muito quais são as características da morte, além do fato de que nosso corpo simplesmente para de funcionar e, então, apodrece.

Via de regra, temos receio daquilo que não conhecemos. O mistério assombra muita gente. As pessoas se assustam mais com o que não podem ver do que com o que está bem diante delas. É exatamente o caso de quando as pessoas temem um ambiente sem luz, simplesmente porque não sabem o que há neste ambiente. Alguns se aterrorizam com a mera possibilidade das coisas, fazendo valer a ideia de que uma possibilidade já é mais que suficiente pra impactar alguém, mesmo que esteja distante da realidade.

De certa forma, é basicamente isso que constitui o pensamento e crença das pessoas, em torno da religiosidade, espiritualidade ou mesmo das superstições. Quando o homem vivia em cavernas e mal dominava o fogo, aproveitar o dia requeria dele a luminosidade do sol e algum controle sobre o que ele estava vendo e sentindo. Era possível entender facilmente que alguém estava tocando nele, vendo a presença da pessoa próxima de si, mas tornava-se uma incógnita sentir insetos ou pássaros triscando seus corpos no escuro. Dessa incógnita, a mente se assusta, porque ela não conhece e não compreende. Aquilo que ela tenta resolver e não chega em um resultado, gera uma ansiedade e um desgaste imenso para o cérebro. Um mecanismo de proteção automático da mente é evitar o desconhecido. Para tal feito, alguns se agarram em explicações sobre a vida, sobre a morte e/ou o desconhecido em geral.

Nossa mente consciente nada sabe sobre o desconhecido. Tudo que se constrói na mente sobre a vida, a morte ou o invisível, é uma especulação, uma crença, um palpite ou uma tentativa de dar vazão ao desconforto diante do que não se sabe e que se quer muito saber. Para algumas pessoas, a forma encontrada de lidar com a morte, é idealizar ou acreditar que depois do falecimento do corpo, chegaremos a algum local positivo, alinhado com o que julgamos ser de melhor qualidade ou com mais benefícios. As pessoas nunca imaginam, por exemplo, que a suposta continuidade depois da vida corpórea, seja um ambiente pior. Não seria confortável para a mente, saber que está se aproximando de algo ruim. Seria uma situação semelhante de quando os vivos se apavoram com a morte e evitam qualquer coisa que os deixe próximos dela. O medo de envelhecer, em última análise, é exatamente isso. Sabendo que a cada vez que envelhecem, ficam mais próximos do fim da vida, muita gente fica em desprazer de envelhecer, pois é o mesmo que se aproximar da morte. Essa estrutura de pensamento é abrangente e antiga, tanto que a ideia de um inferno como punição para uma vida fora das regras, deixou muita gente com medo dominada. Mas, felizmente, essa não é a única maneira de se encarar a vida.

Muita gente, inclusive eu, não vive com essa preocupação diante da velhice ou da morte. A morte chegará pra todos, sem exceção. Não se pode viver achando que evitará morrer. Não há porque correr da morte, pois ela é um processo natural que já foi presenciada inúmeras vezes. A impressão que tenho é que, ao evitarmos a morte, estamos atribuindo valor no período em que estamos vivos. É interessante pensar que, apesar das catástrofes do mundo, do modo doentio das sociedades e sistemas políticos, as coisas ainda nos parece com um valor tal, que lutamos para não sair disso. É de se pensar que, enquanto estivermos felizes na vida, veremos prazer em continuar fazendo nossas atividades e desfrutando das satisfações em convívio com outras pessoas e até mesmo com os assuntos infinitos que o mundo nos permite tentar conhecer. Talvez seja esse rompante de disposição e prazer que faça muita gente valorizar a vida. Sinceramente, eu ainda não tenho essa resposta e, por enquanto, não tem sido um desconhecimento que me causa angústia nem ansiedade por respostas. A incerteza sobre a vida sempre existiu e as pessoas continuam nascendo e vivendo. A única diferença na qualidade de vida do indivíduo está justamente como ele gerencia esse desconhecimento. A depender de como ele interpreta, supervalorizando ou não o “problema”, isso pode deixá-lo com medo do desconhecido ou não.

A imaginação humana é poderosíssima. Se você apontar pra um ambiente vazio e fizer uma expressão de medo perto de outra pessoa, mesmo que você não tenha visto nada, tanto quanto a outra pessoa não viu, sua encenação de medo vai representar um problema para a pessoa ao lado. Ela vai ler a sua feição e a mente dela vai entender que há algo de perigoso, assustador, ocorrendo no ambiente e, pra ficar ainda mais bizarro, caso ela não tenha visto nada de fato, deixará a mente completamente ocupada tentando preencher essa lacuna. A mente pode simplesmente entrar em pânico ou formar uma imaginação que resolva esse mistério. Entender porque tanta gente possui medo da morte é entender que elas possuem medo do desconhecido e a morte é um dos maiores ‘desconhecidos’ que existem. Estando vivo não se pode experimentar a morte. Logo, esse é um assunto do qual morreremos sem desvendar. Mas porque isso precisa ser um incômodo?

É compreensível que o ser humano, por conta de sua estrutura, carregue consigo vários mecanismos de autopreservação, estando incluso nisso tudo que possa evitar perigos ou situações que, conhecidamente, levam para a morte em si ou para situações próximas, como os ferimentos graves, grandes dores ou doenças debilitantes. O ser humano está configurado geneticamente pra agir com base no seu instinto de sobrevivência. Porém, uma coisa é evitar a morte por conta do instinto e outra coisa é ter medo da morte. Talvez, no meio dessa salada de experiências humanas, morrer tenha cravado em nosso código genético a associação entre morte e medo, como uma estratégia de eficiência pro instinto. Se passamos a temer a morte, certamente ficamos mais engajados em evitá-la ou em lutar para adiá-la o máximo possível. Consigo entender essa possibilidade, mas trago algo a mais. Há nuances desse medo que não são saudáveis e tornam-se, por isso mesmo, uma contradição. Se a pessoa quer viver mais, ela precisa, então, controlar  o medo exagerado da morte. Se passa a vida inteira com medo de morrer, certamente não está tirando proveito real dos momentos da vida, além de estar provocando uma série de problemas na saúde física e mental que vão degradar seu estilo de vida até o ponto em que, problemas derivados serão potenciais motivos para sua morte precoce.

Eu sempre tive em mente que ter medo da morte é a garantia de pararmos de viver. Se deixamos de fazer as coisas que gostamos, por medo de acabar morrendo, simplesmente paramos de fazer tudo, pois pra morrer basta estar vivo. Imagine, por exemplo, alguém que evita cozinhar, por medo de uma falha no botijão de gás ou medo de uma faca escorregar de sua mão. Embora esse seja um exemplo exagerado, é com essa mesma premissa de lógica que muita gente está deixando de aproveitar o potencial de suas vidas, por medo não só da morte, como de inúmeras outras coisas igualmente ‘banais’, por assim dizer. As pessoas evitam até mesmo quebrar as correntes do sistema que as aprisiona, exatamente pelo medo de que o sistema faça o que está programado para fazer: controlar as pessoas pelo medo da morte. As pessoas se calam diante da realidade, com medo de que algum incomodado venha brecá-las com a morte. Porém, as pessoas se esquecem que, se ninguém tiver medo da morte, inclusive em um cenário onde as mortes de fato ocorram, o próprio sistema de controle pelo medo deixa de funcionar e o objetivo inicial dos opressores desaba. Um sistema só sobrevive se as partes oprimidas cumprem o papel esperado delas no jogo.

Poderia estender essa filosofia pelo viés político e sociológico, mas, por hoje, não é o foco do texto. Queria, a princípio, levantar uma reflexão que é bastante pertinente, ainda mais nos últimos anos onde as pessoas estão começando a se abrir pra certas mudanças de pensamento e de postura. Mesmo que pareça que o mundo está retroagindo na velocidade da luz, alguns passos na direção certa estão ocorrendo e, cada nova geração, carrega um pouco mais de entendimento e liberdade que a geração anterior, mesmo que isso não seja em todas as pessoas. Apesar de ser perfeitamente compreensível e aceitável que as pessoas não consigam concretizar um levante contra seus próprios medos e inseguranças da noite pro dia (principalmente se não houver cumplicidade coletiva), é preciso sempre deixar uma fagulha acesa, pra que o fogo sempre possa ser erguido no momento que for oportuno. Esmiuçar as questões humanas, sobretudo quando toca nessas fragilidades, exige um certo tato pra que possamos trazer mais benefício do que prejuízo ao pinçar um problema e propor uma análise ou solução.

Não existe uma regra de que você deva se transformar na pessoa que eu sou, afastando seu medo da morte. Eu não sei dizer se em algum momento da infância eu tive esse medo e o abandonei ou se sempre fui assim, sem medo de morrer. Claro que isso não significa que eu me exponho em vão a situações desnecessárias. Não ter medo de morrer não significa que tenho ansiedade por morrer. Apenas é algo que não me gera preocupações ou inseguranças. Pra mim está completamente tranquila a ideia de que, em algum momento, seja cedo ou tarde, morrerei por alguma situação. Dalai Lama, em uma de suas frases alerta para o conflito clássico humano, onde as pessoas se tornam depressivas quando vivem demasiadamente no passado ou ansiosas quando vivem demasiadamente no futuro. A solução óbvia, proposta por ele, é viver no momento presente, pois ele é o único momento real. O passado já foi e não podemos mudá-lo, enquanto que o futuro ainda não existe. Em consonância com essa ideia, eu penso que não tenho que lidar com o tema da morte hoje, pois ela é um evento futuro (além de inevitável e natural). Assim, nas minhas mãos está somente o que posso fazer da minha vida hoje e, deste hoje, eu escolhi viver, agir, pensar, me expressar, me engajar naquilo que eu acredito, sem medo de que a mudança positiva que proponho possa ser freada pela minha morte. Lembre-se que não se pode jamais matar uma ideia. Corpos vão, ideias ficam. O mundo muda, cedo ou tarde. Perde tempo, saúde e evolução, aquele que tenta adiar a mudança. Inspirem-se em seus melhores ideais, estejam unidos aos seus semelhantes e façam a mágica acontecer.

Rodrigo Meyer

 

Internet: boas relações ou medo?

 

Com a ampla exposição de dados, costumes e da própria imagem na internet, estamos em uma era onde a privacidade está abalada para muita gente e o ambiente de socialização se tornou problemático e até inseguro. É compreensível que em meio a tudo isso, as pessoas estejam incertas sobre o que dividir com as outras pessoas. Mas, há uma grande contradição nisso tudo. Ao mesmo tempo em que as pessoas sentem-se com medo de dividir alguns aspectos de suas realidades, sentem-se livres pra fazer sobre outros aspectos. E o critério para filtrar parece pouco embasado.

Antigamente, quando os telefones celulares ainda não haviam substituído massivamente os telefones fixos, raramente compartilhávamos nosso número de celular, pois considerávamos algo mais pessoal e restrito. Com a popularização dos celulares como principal meio de envio de mensagens, de áudio e de acesso a internet, restringir esse contato foi perdendo o sentido. Atualmente, o número do nosso celular é um dado praticamente público na maioria dos usuários. Em contrapartida, tornamos a ocultar nosso telefone fixo, pois agora o consideramos mais pessoal. Deve haver algum sentido na conduta por trás dessa tendência, mas não há muita razão no ato em si, já que o celular é que é um aparelho de uso pessoal, enquanto que o telefone fixo, por vezes, é genérico para uma casa toda, podendo representar mais do que uma única pessoa.

Esse simples exemplo de mudança de hábitos é a pontinha de uma longa lista de mudanças que a internet parece ter inserido na vida dos usuários. Houve um tempo em que as redes sociais não existiam ou eram novidades pouco conhecidas como o extinto Orkut. Atualmente, com uma abrangência forte como no Facebook, as conexões se tornaram massivas e com bem menos filtros. Em pouco tempo as pessoas estão “dentro” da vida das outras, conhecendo uma versão planejada (ou nem tanto) de sua persona. Por estes profiles de internet, dividem suas fotos, seus dados escolares e profissionais, seus gostos e interesses e, por vezes, até mesmo sua rotina em tempo real pelos aplicativos que permitem anunciar o check-in dos lugares por onde estiveram, entre outras coisas. De fato, a privacidade anda abalada, mas é preciso dizer que a escolha está nas mãos do próprio usuário.

Estranhamente, depois de tanto dividirem sobre suas vidas no ambiente virtual, mesmo com aqueles a quem nunca conheceram pessoalmente, sentem-se com alguma necessidade de impor privacidade, sigilo, mistério, pra que a relação não se torne vazia em propósito. É como se, consciente ou inconscientemente, as pessoas estivessem percebendo que a internet queima etapas do processo de conhecer as pessoas, por conta de já termos todos os dados organizados e expostos em um ‘conveniente’ profile. Com isso, muita gente tem preferido voltar alguns passos e repensar o que vai dividir na interação com outros usuários. Penso que isso seja sensato e saudável, mas há de se pensar em como isso será feito.

Tenho notado um certo receio das pessoas em traçar conversas úteis e fluídas, simplesmente porque sentem-se deslocadas ou invadidas em uma entrega simbólica de suas próprias personalidades. De alguma forma, conhecer pessoas pela internet se tornou uma missão impossível, uma vez que o que está exposto, se tornou sintetizado pelos profiles, e o que elas escolheram tornar oculto e pessoal, são os exatos contextos de suas personas, suas razões, seus pensamentos, suas verdades, seus costumes, seus detalhes. Não digo que isso precise ser ou não assim, mas observo que tem sido assim no momento. Talvez esse medo de entrega virtual seja reflexo de uma certa insegurança e que, provavelmente, essa insegurança é abafada pela proteção de uma tela de computador que isola o usuário dentro de seu mundo. É como se, por trás de cada celular ou computador, as pessoas estivessem se escondendo da sociedade, ao mesmo tempo em que gostariam de ter algum benefício da interação com as pessoas. Tempos onde socialização está ganhando novas definições, por vezes cheia de contradições.

O que pude entender dessas observações é que as pessoas estão com medo de julgamentos ou de prejuízos em situações onde interpretam que estão vulneráveis em algum sentido. Exemplo disso é quando alguém evita dividir sua própria imagem em um vídeo ou em foto espontâneos, simplesmente por medo de como será lido ou “marcado” por aquela representação. É como se houvesse um medo entre o contraste da realidade com o planejado e polido avatar do profile, as selfies ultra produzidas, as fotos com efeito no Instagram, etc. É perceptível que as pessoas passam por uma insegurança atual. Elas tem uma vida idealizada na internet, onde controlam não quem elas são, mas quem elas gostariam de ser ou parecer ser diante do público. Não é novidade que fazemos isso até mesmo offline, pois nossa apresentação presencial, por vezes, é marcada por escolha de roupas, de cortes de cabelo, de maquiagem, de lapidações de expressões, poses ou até mesmo de nossas conversas e hábitos.

Dentro e fora da internet, escolhemos uma imagem que queremos compartilhar ao mundo, porém é na internet que estamos nos escondendo de maneira ímpar, uma vez que é mais fácil e barato desempenhar um personagem por lá. É possível ver pessoas em um mesmo ambiente físico, trocando mensagens via celular, ao invés de conversarem diretamente. Frequentemente as pessoas são lidas, primeiramente, como as pessoas da internet e somente depois as pessoas reais, como se a versão real fosse um erro, uma limitação da versão principal. As pessoas elegeram a fantasia produzida no mundo virtual para representá-las, enquanto renegaram ao porão da realidade, a própria realidade de si mesmas.

A repercussão disso é que agora vivem com medo de socializar e estão escolhendo uma maneira de se obter, com segurança e facilidade, aquilo que classificaram elas mesmas como inseguro e difícil. Dessa forma, parecem nunca conseguir alcançar seus objetivos e estão refletindo essa dificuldade pelo modo como conversam ou dividem seu tempo e suas ideias com outras pessoas. Ao invés de tentaram se envolver em um assunto, curtir um momento, dividir humor ou entrar em um contexto próximo do que a socialização presencial já foi um dia, escolheram substituir tudo isso por portas e janelas fechadas, onde estão ansiosos por ouvir a campainha tocar, mas estão cheio de incertezas sobre atender a porta. Assim, está sumindo a naturalidade do ser humano em conseguir olhar nos olhos, sentir o cheiro das pessoas, a sensação do tato, ouvir as vozes, perceber contextos próprios do espaço coabitado, entre outras coisas. Atrás de câmeras, microfones e telas eletrônicas, estamos muito mais androides do que os próprios robôs da ficção científica. Já estamos confinados a um estilo de vida pouco humano e pouco natural. Em pouco tempo, será possível nos vermos deprimidos e desinteressados por completo das relações humanas, por mais que, no fundo, esse seja sempre o nosso maior foco e interesse por conta de nossa natureza.

A conclusão mais óbvia é que não podemos ignorar nossa própria realidade, em troca de versões sintetizadas do mundo ou de nós mesmos. Em tempos onde é preciso dizer obviedades, volto a lembrar que o ser humano não se verá feliz, enquanto plantar sua própria infelicidade. Se quer ter o prazer e alegria da socialização com outros indivíduos, terá que fazer isso de forma sincera, real e intensa. Não se pode abandonar o potencial da vida, atrás de alguns bits fictícios e limitados. Um avatar na rede social jamais representará com profundidade o que um indivíduo é de fato. O preenchimento de um cargo profissional em um formulário virtual nunca representará o contexto e os pormenores desse profissional na prática. Você pode se encantar pelo aspecto organizado e profissional de um site, de uma mídia ou até mesmo de um vídeo ou foto planejados para ir ao ar, mas precisará de muito mais que isso pra conhecer e entender quem é uma pessoa. Quase sempre levamos anos ou até mesmo a vida inteira nos relacionando com amigos, parentes ou parceiros de romance e mesmo assim podemos não conhecê-los por completo. Então, se fizemos essa entrega na vida como premissa de socialização natural, é inconcebível que recusemos o mínimo a nós mesmos, em troca de ideais fantasiados na mente. Se permita dividir tempo com as pessoas, mesmo que você ache que está diferente do seu ideal virtual construído, afinal, a vida real continua, com ou sem a internet, com ou sem as fotos e vídeos produzidos, etc. Ninguém pode fugir disso e tentar pode levar a estresse e depressão por conta da constante decepção / frustração, já que é como tentar enxugar gelo. O impossível não deve ser desejado, pois o impossível não faz parte de nossa realidade. Viva a realidade, viva o momento presente e viva-os intensamente.

Rodrigo Meyer

Seu medo, seu inimigo.

Na temática da autossabotagem, o medo ganha disparado. Indivíduos que baseiam suas vidas em uma grade constante de medo, estão sempre paralisados e aquém de seus potenciais. O motivo é muito simples. A medida em que determinam aquilo do qual possuem incerteza, insegurança, receio ou pouca resolução, tornam-se resistentes a isso, no sentido de armar uma postura de defesa, de recusa. E, claro, se recusamos algo, ficamos sem.

O ser humano consegue desenvolver muitas nuances de medo e consegue controlar também como e quando isso o afeta, desde que esteja em domínio na causa do medo ou do tema ao qual ele se refere. Há pessoas, por exemplo, que possuem medo de se envolver emocionalmente com outras e, por isso, recusam as oportunidades, incluso as positivas, apenas porque automatizaram uma defesa. Tal mecanismo de defesa, extensamente conhecido na Psicologia, faz as pessoas serem vítimas de si mesmas, antes de sequer terem a chance de se tornarem aquilo que não queriam inicialmente: tornarem-se vítimas de algo ou alguém.

Mas é claro que nada é tão simples como apenas definir o que sentir ou pensar sobre as coisas. A mente humana gera situações, ideais e estruturas com base em traumas, complexos e outros contextos que fragilizam o indivíduo a ponto de colocá-lo fora da lógica ou da naturalidade. A exemplo disso, algumas pessoas se sabotam, consciente ou inconscientemente, fugindo de monstros imaginários. Há quem sonhe com estilos de vida, empregos e todo tipo de realidade de carreira ou vida pessoal e, quando colocados a exercer essa jornada, recuam sob inúmeros pretextos. Alguns lançam mão do artifício de sentirem-se inaptos ou insuficientes pra tal feito. Vão dizer que não há saída pra eles ou que não podem aderir a algo, simplesmente porque as condições não permitem. É hora de criar mil e uma fantasias pra tornar aquela realidade desejada, porém assustadora, algo inalcançável. Começa, então, um show de desvios pouco racionais.

Sinta-se a vontade pra rir desse caso que vou usar de exemplo. É o primeiro que me vem na mente de forma instantânea. Trata-se de uma pessoa que passou a vida toda se queixando da vida difícil, dos poucos recursos financeiros, ao mesmo tempo em que, sempre que tinha qualquer progresso ou brecha para melhorar de situação, tomava alguma decisão que eliminasse as chances de desfrutar daquilo. Foi o caso, por exemplo, de quando, diante de uma promoção de cargo no emprego, decidiu pedir demissão ao invés de usufruir de um trabalho com melhores condições e muito melhor remunerado. Qualquer pessoa mentalmente saudável e sensata acharia um disparate essa conduta. Mas, pra uma pessoa que morre de medo de tornar-se próspera, qualquer porta pra essa guinada na vida era motivo pra se afastar, sem pensar muito. O único motivo pra se considerar esses medos patológicos é justamente a característica de oposição ao bem-estar da pessoa e da ausência de motivos racionais pra tal. Se pratica, por opção própria, uma conduta que não a ajuda a se sentir melhor ou a viver em melhores condições, então vê-se aí uma situação doentia.

Ainda nesse exemplo citado, a pessoa sentia-se tão apavorada com a ideia de prosperar, que sempre que tinha a sorte de conquistar algum dinheiro, fazia o pior uso possível desse dinheiro, exterminando ele em pouco tempo com algo completamente desnecessário. Uma vez compreendida a estrutura desse tipo de autossabotagem, pode-se imaginar inúmeros outros casos em todas as temáticas da vida, onde as pessoas simplesmente inventam motivos pra continuarem insatisfeitas com a vida. Cutucando suas mentes, voltando ao tempo da infância (provavelmente), frequentemente encontram as razões pelas quais sentem-se pouco merecedoras dos benefícios da vida ou da própria liberdade em viver. Quase sempre é uma interpretação automática da mente depois de associar que a postura ou palavra depreciativas de alguma figura importante (como um pai ou mãe) tenham sido convertidos em uma espécie de impressão sobre si mesmo com base nesse critério. Em resumo, é como se a mente da criança complexada pensasse: “se meus pais não me enalteceram, então eu não tenho valor” ou “se meus pais me diminuíram, então não tenho valor” ou ainda “se meus pais estavam ausentes, é porque eu não era importante pra merecer a presença deles”. Esse tipo de associação fácil é comum, mas é uma falha da mente, especialmente na infância em pessoas com baixa autoestima ou de mente mais frágil.

Contextos similares podem fazer as pessoas terem condutas de autossabotagem sem perceber que tudo aquilo de que fogem, pode simplesmente ser uma fantasia desnecessária. Ao mesmo tempo em que sentem-se mal pelos reveses que elas mesmas criam, não conseguem parar de criar. Essa automação na mente e nas condutas diante das decisões, pensamentos e relacionamentos, pode gerar uma espécie de personagem que toma o lugar do indivíduo, como que se já tivesse se esquecido quem ele é ou poderia ser, depois de ter passado tanto tempo endossando a figura diminuída, frágil, lida como incapaz ou não merecedora. Reverter essa visão e essa automação é uma tarefa que o indivíduo está habilitado a fazer, se assim quiser. O sucesso disso depende de quanta noção e disposição ele tem pra varrer e transformar a si mesmo. Não é fácil encontrar-se diante do espelho e falar umas boas verdades, antes de se estar devidamente imune ao peso delas. O caso é que verdades só pesam para quem as evita. Tão imaginário quanto os equívocos dos complexos é essa visão de que verdades são incômodas. Quando estamos em posição de querer viver melhor ao invés de nos prejudicar, a verdade torna-se algo que desejamos com afinco a ponto de sentirmos prazer e alívio em lidar com ela. E é tão somente isso que deve ser a vida.

Agora que sabemos que o medo é nosso inimigo, se não quisermos paralisar diante de nosso potencial na vida, precisamos reforçar nossas escolhas, nosso pensamento, nossa autoestima, nossa mente, revendo nossos problemas de infância, nossas crenças, nossas aceitações e recusas diante das figuras que julgamos importante, inclusive a que deveria ser a mais importante de todas: nós mesmos. Se tomarmos a iniciativa de nos presentear todos os dias com coisas boas, evitamos de fechar nossas portas para uma jornada melhor, maior ou, pelo menos, mais interessante. Não é o caso de pensar que, apenas tendo autoestima e coerência com nossas decisões, já seremos as pessoas mais sortudas do mundo, mas sempre que estivermos diante de alguma situação de oportunidade, teremos, ao menos, condições de tentarmos, de aceitarmos o que nos vem e fazermos o nosso melhor com aquilo. O que estiver ao nosso alcance, devemos fazer pleno uso e o que não puder, tudo bem. A vida começa a fazer um sentido diferente, quando percebemos que ela não é nem o passado, nem o futuro, mas exatamente o momento vivido em cada ocasião. Sinta-se livre pra desfrutar da vida, pois é basicamente isso que determina o resultado da equação. Uma vida melhor, está atrelada ao quanto pudemos aproveitar dos momentos e ter isso como nosso histórico na mente e nas relações com o mundo. Como em um jogo de xadrez, cada novo passo que damos, interfere nas novas opções que teremos em seguida. Não jogar não nos faz vencer e nos sabotar nos faz perder sem necessidade.

Rodrigo Meyer

O medo de perder nos faz perder.

Algo muito comum de se ver são pessoas recuando em decisões, atividades ou relacionamentos pelo simples medo de perder. O que estas pessoas talvez não racionalizem é que este medo que as faz recuar, também as faz perder. Logo elas que não queriam perder, perdem antecipadamente por decisão delas mesmas. A princípio, uma contradição, mas o que explica isso é que, por trás do ‘medo de perder’, estão condutas automatizadas por traumas e condicionamentos que já afetaram a autonomia da pessoa. Assim, muitas dessas pessoas admitem abertamente estarem conscientes de que estão perdendo, mas preferem a certeza do ‘não’ do que a incerteza entre ‘sim’ e ‘não’, por puro medo da chegada do ‘não’. Mas como é isso? Como pode haver medo do ‘não’ se escolhem antecipadamente ele?

Geralmente, quando uma pessoa está neste contexto, ela traz consigo uma história marcante anterior que gerou esse trauma. Uma pessoa que tem medo de se relacionar por medo de perder o companheiro, evita entrar nesse relacionamento como uma forma de defesa inconsciente e, portanto, automática, devido a uma perda anterior, geralmente muito mais grave que um simples relacionamento de casal. Às vezes uma mulher que perdeu a figura paterna muito cedo ou em uma fase decisiva de sua vida, pode acabar tendo dificuldade de se entregar pra um relacionamento com outra figura masculina ou com qualquer pessoa que represente um vínculo ou laço afetivo muito grande. Ou seja, devido a possibilidade forte de que um relacionamento conduza a pessoa pra um apego ou envolvimento intenso com a outra, isso faz soar um alarme sobre um possível perigo, já que quando esteve apegada e envolvida intensamente com a figura que perdeu originalmente, terminou sofrendo com uma perda ou abandono.

A associação inconsciente nos traumas quase sempre é imprecisa e, devido ao impacto emocional intenso que o traumatizado verteu pra si, isso tudo tem menos racionalidade e mais emoção. A ocorrência original é sempre lida de maneira bastante simbólica e acaba por afetar, no futuro, contextos aparentemente diferentes, mas que, pela Psicologia, estão sempre vinculados como uma espécie de causa e efeito ou de simbolismo para o funcionamento da psique humana.

É fácil lembrar de casos de pessoas que, por exemplo, tiveram uma infância sofrida com problemas financeiros drásticos e que, por isso, desenvolveram algum trauma relacionado. De maneira similar ao exemplo anterior da perda de uma figura de referência, o trauma pela pobreza pode fazer uma pessoa ter medo de perder dinheiro. Torna-se, assim, avarenta ou muito controladora e, sobretudo, gananciosa ou ambiciosa. Embora nesse caso a pessoa esteja ganhando dinheiro ao invés de perder, ocorre um outro tipo de perda que não é financeira, que é a perda do bom uso do dinheiro. Uma vez que tem medo da perder tal riqueza, evita ao máximo aproveitar o que ganha com coisas prazerosas. Mesmo tendo condições, prefere não gastar com nada, já que toda compra potencialmente reduz seu dinheiro. Claro que esse medo é pouco racional, como todo trauma tende a ser, mas a pessoa pouco escolhe sobre isso.

Outro caso fácil de associar são os distúrbios alimentares. Pessoas que em algum momento se traumatizaram por seu peso corporal, podem vir a desenvolver uma obsessão pela magreza, chegando ao extremo da anorexia, por exemplo. Há casos de pessoas que abandonam a alimentação até figurarem em quadros médicos de vida ou morte. É tamanho o medo de engordar, que mesmo estando anoréxicas, podem ainda não ter uma visão correta de si mesmas na mente. Pessoas com este tipo de distúrbio podem ficar obcecadas com a perda de gordura que qualquer mínimo volume no corpo que não seja osso, as faz ficar em alerta automático, desejando ansiosamente por mais redução de medidas. Não é preciso dizer que isso é infindável e leva as pessoas a morte se não houver uma intervenção a tempo. De maneira igual, há pessoas que passaram fome em alguma fase da vida e pelo trauma sofrido desenvolvem uma compulsão por comida até se tornarem obesos mórbidos. Para ambos os casos, o tratamento psicológico do indivíduo é indissociável dos demais cuidados médicos.

Apresentei alguns exemplos de como traumas brecam a vida de um indivíduo. Este medo de perdas, seja de uma companhia afetiva, de um dinheiro, de um padrão corporal, de uma comida ou qualquer que seja o caso, leva a pessoa a ter outras perdas posteriores. É racional entender e respeitar que, por trás da conduta humana adoentada ou enfraquecida, estão questões que fogem ao controle de algumas pessoas e que, por isso, figuram em distúrbios e outras atitudes reativas. É compreensível que elas transformem-se em pessoas com algumas características mais acentuadas e é nosso papel estar de olhos e mente abertos, para poder recepcioná-las sem esperar delas mais do que elas estão dispostas a dar em cada momento. Sei que algumas pessoas não querem lidar com temas difíceis e muitas evitam qualquer tipo de ajuda psicológica, porque não querem tocar na ferida.

Tive a oportunidade de conhecer pessoas diferentes, cada uma com um destes diferentes contextos de trauma e pude ver de perto como isso impacta extensivamente o dia-a-dia delas. Ainda que  se escondam boa parte do tempo atrás de trabalhos, sorrisos e outras atividades, no fundo, vê-se, pelas reações e palavras, que estão em fuga de tudo que cutuque seus traumas de alguma forma. Vivem sob pressão do medo e frustram-se com a vida por estarem sempre em situação desfavorável para a vitória ou a plenitude. O emocional fica abalado, as pessoas podem desabar em depressão, vícios ou somatizar os problemas da mente em doenças e dores pelo corpo. Vi as pessoas armarem mil e uma justificativas para seus erros, medos, manias, vícios e até ataques, tudo fruto de uma vivência conturbada com o próprio inconsciente delas.

O medo afasta as pessoas do equilíbrio de si mesmas. Ele deixa as pessoas em estado de alerta ou paralisadas. Nunca as faz ficar tranquilas e felizes. O medo condiciona a mente humana a fugir de certos contextos, por mais que não seja a conduta ideal na vida. O medo priva as pessoas do bem-estar emocional, mental, social, assim como pode também ser uma terrível armadilha pra controle político e ideológico. É sob medo, que o pior acontece e é sob o medo que perdemos sempre. O primeiro passo pra nos livrarmos das perdas, é superando nossos medos.

Em casos de traumas por situações drásticas, a ajuda psicológica ou a reavaliação de si mesmo sozinho podem ser soluções que, uma vez alcançadas, você se tornará eternamente grato por ter tido a iniciativa de tentar. Para medos de cunho cultural, político e social eu recomendaria o exercício das próprias liberdades, procurando sentir-se pleno de seus direitos e poderes natos como humano livre que pretende ser. Ousar se torna a regra, se quiser superar as barreiras que antes tinham algum efeito sobre seu psicológico. A medida em que você vence monstros imaginários, percebe que eles são apenas isso: imaginários. Quando não conferimos valor ou poder a algo ou alguém que só detinha tal poder por um jogo psicológico, este algo ou alguém se dissolve no nada e, se for sensato, corre, pois, agora, ele é quem deverá ter medo dos que perderam medo dele.

Com este texto espero ter acendido em cada um de vocês uma motivação, um empoderamento para o controle de suas próprias vidas, para que tornem-se pessoas mais vivas, mais felizes, mais independentes, mais firmes psicologicamente e que, através das mudanças pessoais, consigam se tornar boas peças para a transformação social no mundo. Onde quer que você esteja, busque todos os recursos disponíveis para ficar de pé, burlando prejuízos e mergulhando fundo em seus potenciais. Apenas a motivação não garante nosso sucesso, mas sem motivação não chegamos longe.

Rodrigo Meyer