Prosa | Vermelho Cocaína.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, sendo parte de uma fotografia marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Quem é que sabe os motivos da vida? Algumas coisas acontecem sem que saibamos como reagir. Às vezes, queremos mudar o rumo das coisas, mas o tempo já passou e as coisas não querem mais serem mudadas. Custamos a entender que isso não é uma perda, pois não perdemos o que nunca tivemos. Você foi um desses episódios em um momento onde eu estava completamente perdido e descrente na minha vida.

Nos conhecemos na faculdade e foi fácil fazer amizade contigo. Estávamos conectados pelo que parecia ser um estilo de vida em comum. Tínhamos uma amizade em comum com quem dividíamos algumas noites de bar. Saíamos em pequenos grupos pra dividir a noite em diversos lugares. Era tudo muito bom, porque as companhias me prendiam a atenção. Dividimos muitas risadas, muitas conversas e muitas outras coisas em festas. Eu me encantava com o seu jeito, seu cabelo curto tingido de vermelho. Quando eu te olhava, a noite se preenchia com essa energia marcante. Quando estávamos no nosso restrito grupo, ninguém de fora era convidado. Construímos isso espontaneamente, sem ninguém ter falado.

Entre cigarros e bebidas, estava claro que, frequentemente, havia cocaína. E foi isso que, em pouco tempo, te deixou mais magra ainda. Te dei um apelido carinhoso por isso, porque, visualmente, você parecia muito frágil, muito pequenina. E foi totalmente verdade o que lhe disse certa vez: você sempre foi muito bonita e continuava, mas eu estava realmente preocupado com a progressão da sua magreza. Eu podia dar a volta em seu braço apenas com a minha mão. Você pode ter perdido o compasso com a sua ‘farinha’, mas eu só queria que você analisasse a situação e, se precisasse de ajuda, podia contar comigo, porque eu realmente queria te ver bem. Não toquei mais no assunto, porque, apesar de tudo, era só você quem deveria saber o que fazer da sua vida.

Se tem uma coisa que me lembro, como se fosse hoje, foram de todos os abraços que nos damos. Você parecia gostar que eu fosse maior que você. Talvez tivesse a sensação de ser totalmente acolhida quando se acomodava confortavelmente naqueles abraços. E quando eu te abraçava, eu podia te possuir inteira. Era realmente muito bom ter você apertada em mim. E eu admito, sem nenhum pudor, que, frequentemente, minha mente ia lá pra Lua e eu te imaginava nua, deitada comigo, cumprindo todo o potencial da química e da sintonia. Você me atraía de muitas maneiras, pela sua voz, o que pensava e dizia, seu semblante, seu cabelo, suas roupas, seu estilo de vida, seu jeito de se sentar e alguma coisa que derivava da sua silhueta e do meu imaginário do que seriam os seus dias. Não foi à toa que nos agrupamos desde os primeiros momentos. E nessas idas e vindas de uma noite e outra, acabou surgindo um incômodo dia que até hoje eu não sei bem como descrever.

Estávamos em uma mesa de bar, junto com mais uma ou duas pessoas. Éramos os mesmos de costume e desde sempre já nos sentíamos livres e confortáveis naquele pequeno grupo. Você estava sentada ao meu lado e, gradualmente, se aproximou sugerindo um beijo. Mas eu, apesar de todos os meus desejos e pensamentos, estava realmente muito perdido na vida. Antecipando tristes possibilidades futuras, eu desviei do seu beijo por achar que, se eu cedesse e, depois de um tempo, você não quisesse mais nada comigo, eu acabaria sofrendo e, provavelmente, ia tentar me afastar de você, pra frear o sentimento. E, imaginando tudo isso, eu realmente não queria fazer nada que pudesse eliminar nossa amizade. Foi estranho, eu reconheço, mas a minha vida naquele tempo estava tão perturbada, que eu estava sistematicamente evitando sentimentos e relacionamentos de casal, enquanto, ao mesmo tempo, estava preservando ao máximo qualquer amizade valiosa que surgia.

A minha reação de recusa te frustrou e te deixou, talvez, insegura. E tudo ficou um pouco mais confuso, porque eu te adorava e aquilo doeu em mim também. Eu te acolhi, te dei um abraço, puxei você pra perto de mim e tentei te reconfortar. Não havia nada de errado contigo. Era apenas eu que viajava em incertezas sobre a vida e recusava tudo, até o que não devia. Eu levei um tempo pra organizar tudo isso na minha mente e foi mais longo do que eu queria que fosse. Mesmo que eu tivesse me explicado à tempo, você, talvez, já não me aceitasse. E por não saber como explicar, eu deixei as coisas se perderem no tempo. Não sei o que a vida poderia ter sido, se tivéssemos reagido diferente. Tudo que eu sei é que, assim como você, eu também tinha uma série de questões nos bastidores. Eu fui te procurar, muito tempo depois, pra tentar me redimir ou, pelo menos, me explicar. Mas, nunca houve sua resposta e ficou implícito que só me restava seguir a vida e me conformar. Botei na minha cabeça que, se você não iria sequer me ler, sua opinião sobre o assunto já estava dada e encerrada.

Recentemente, relembrando tudo isso, me bateu a curiosidade. Fui ver que rumo tomou a sua vida. Grande parte dela, ainda me parece igualmente interessante, mas uma parte me deixou dúvidas. Às vezes é difícil distinguir se os seus interesses em determinados assuntos é seu universo pessoal ou mera necessidade da sua profissão. Como eu não vi nada muito claro que mostrasse qualquer posição diferente de tudo aquilo, eu preferi ignorar e deixar tranquilo o que já estava tranquilo. Não posso negar que você é intrigante e que rouba espaço nas minhas melhores memórias. Por isso, prestei esse texto da forma mais sincera que pude e, caso um dia resolva vir falar comigo, saiba que eu tenho tempo, tenho tranquilidade e quase tudo do meu passado já foi organizado e resolvido. Eu só queria mesmo que as pessoas que marcaram minha vida em pequenos grandes momentos estivessem ainda hoje por perto, pra que pudéssemos nos escutar, nos apoiar, como sempre fazíamos. Se ainda houver compatibilidade, eu serei o primeiro a manter a mão estendida. Mas, se nossos mundos forem inconciliáveis, mudemos de jogo e de jogadores, pra tentarmos ganhar nossas próprias próximas partidas.

Não vou me prolongar muito. Quero só dizer que estou de partida pra fora do país, que as condições estão bem estáveis e que, desde que eu percebi que perdi o que não deveria perder, eu tenho vivido sem nenhum medo ou restrição. Quando a gente perde tudo, não tem mais nada pra perder, então, nada mais nos assusta, nem nos impede de tentar. Eu não faço ideia se o destino ainda me reserva algum momento bom, mas eu vou continuar a fotografar tudo que eu puder e tentar conhecer o maior número de lugares desse mundo. Se alguém se sentir confortável de me acompanhar, é só chegar junto.

Enquanto eu escrevia esse texto, essa música me veio à cabeça: “Bem Que Se Quis”, na voz de Marisa Monte.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Cartas, saudades e novos substantivos.

Esse texto é ficcional, incluindo os personagens e os acontecimentos. Qualquer semelhança com pessoas e episódios reais é mera coincidência. A imagem que ilustra esse texto é meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Que saudade tenho de escrever cartas pra ela. Trocávamos correspondências como se fosse nossa única opção de contato, apesar da internet. Raramente nos víamos online. Me lembro como era gratificante abrir a caixa de correio e encontrar um envelope com a letra dela. Eu dedicava boa parte dos meus dias contemplando cada aspecto. Depois de retirar com o máximo cuidado a novidade da caixa de correio, levava pro quarto pra olhar mais de perto. Apesar da distância percorrida, o envelope se mantinha perfumado. Era como se eu estivesse conectado diretamente à ela, só de olhar para a carta.

Desde a primeira vez, adotei um padrão de corte na lateral, na intenção de preservar o máximo possível, quando fosse extrair a carta. Era caprichoso, quase que devotado. Adorava fechar os olhos e sentir o presente que eu havia ganhado. Observava o tipo de papel, o desenho das letras, o tom da tinta, os desenhos, a assinatura, os anexos cuidadosamente prensados, quase sempre flores ou folhas secas. Era agradável de ler, mas eu evitava de manusear por muito tempo, pois considerava o meu tesouro pessoal. Logo fui atrás de algumas pastas pra arquivar as folhas individualmente. Se tornou um ritual ou hobby e eu investi tempo e dinheiro nisso.

No final da noite, eu me sentava em uma sala fechada, ligava o rádio bem baixinho e deixava um abajur sobre a mesa. Enquanto ia relendo a carta dela, ia rascunhando a minha. Depois, quando acreditava ter dito tudo, fazia uma versão definitiva com a melhor letra que eu conseguia. Nem de longe eu alcançava a personalidade e a leveza da caligrafia dela, mas eu me cobrava pra ser legível e impor alguma beleza no que eu fazia. Fazia questão de escolher o tom da tinta e fechar o envelope logo em seguida, mesmo que só fosse enviar a carta no dia seguinte. Bons momentos em que estar ansioso era uma coisa positiva. Eu ficava entusiasmado, rindo sozinho e, se pudesse reparar, certamente veria brilho nos meus olhos.

Por muitas e muitas vezes repetimos esse processo de esperar pelo próximo contato, dedicar um tempo escolhendo alguns pequenos detalhes, desenhar palavras e prensar junto uma série de sentimentos e desejos. Ficava cada vez mais intensa a energia enviada e recebida naquelas cartas. Os envelopes quase que falavam sozinhos, tinha luz própria. E enxergar essa conexão tão peculiar com alguém, parecia ser a melhor e única forma de se viver a vida. Se pudéssemos, teríamos antecipado nosso relacionamento desde o primeiro dia.

Vivemos bons momentos, isso é inegável. A saudade que sinto hoje, me faz lembrar de cada um desses detalhes, porque tudo foi realmente muito importante. A saudade é exatamente isso. É saber que perdemos algo de imenso valor que queríamos ter por perto. Não quero especular como seria voltar no tempo e nem divagar sobre porque as coisas acontecem do jeito que acontecem. A vida se inicia, cresce, floresce e, claro, termina. Pessoas morrem, isso é natural. Cedo ou tarde, por um motivo ou outro, as pessoas deixam de nos fazer companhia. Lembrar que as pessoas não são eternas enquanto corpos, nos obriga a olhar pra nossa própria vida. Às vezes eu revisito minhas memórias, tentando me banhar desses momentos bonitos. Mas, se por um lado eles tem esse poder de nos encantar, por outro nos obriga a perceber que não temos mais aquilo. E, às vezes, isso dói, mas também há coisas que perdemos que são puro alívio.

Tenho saudade também pelo estilo de vida. Hoje já não tenho para quem escrever e, mesmo que tivesse, creio que não mais faria. Não é o tipo de interação que faz o devido sentido pra maioria das pessoas. Talvez o momento de escrever cartas já tenha passado e eu me tornei um triste saudosista. Talvez eu queira apenas reviver os sentimentos aos quais isso estava atrelado. Eu realmente não sei dizer. Sei apenas que são outros tempos, outras pessoas e até mesmo eu sou diferente. Me tornei alguém transformado por tudo que vi, vivi e venci, mas, sobretudo, por aquilo que não pude ver, não pude viver, muito menos vencer. Somos a soma de nossos acertos e erros, nossos fracassos e glórias. Se vivemos intensamente, é bem provável que tenhamos mais fracassos do que glórias. A vida não ameniza pra quem quer que seja.

O que faço eu com essa saudade? Onde enterro a minha vontade de escrever cartas? Talvez eu encontre outras formas de trocar tesouros, que não sejam simplesmente cartas manuscritas. Já pensei um bocado nisso e fiquei um tempo listando, de improviso, as coisas que eu gostaria de receber ou presentear, se houvesse alguém realmente digno desse momento. Muita gente não entende o valor das coisas, até que tenha recebido elas de alguém importante. Mesmo que seja um papel amassado, uma fotografia, uma peça de roupa ou um livro, tudo isso vira ouro, se nos causa um específico sorriso. São objetos que não possuem um valor especial em si, mas vindos das mãos certas viram tesouro no mesmo segundo. Foi muito bonito enquanto durou a sensação, mas depois de tantos anos, não havia mais nada que justificasse todas aquelas coisas acumuladas. Me livrei de cada uma delas, transmutando e ressignificando. Fica a saudade, claro, mas isso ainda pode ser discutido.

Quando olho pra esse buraco, sei que ele só existe, porque eu fiz disso algo que me ocupava mais do que devia. Se as coisas começam a pesar e nos impedir de seguir a vida, então é hora de mudarmos o valor que damos ao passado e nos empenhar mais naquilo que ainda temos pra fazer no presente. Não precisamos tentar apagar o que vivemos, pois nunca conseguiremos. Temos simplesmente que perceber que as coisas não são tão importantes como pensamos e que o peso delas na nossa mente, depende exatamente disso. Acho que é essa a resposta que eu preciso pra lidar com aquela saudade. Vou olhar pros meus próximos dias, tentando criar um mundo todo novo, longe daquelas velhas manias, aquelas histórias repetitivas. Tenho muito pra viver, muito pra dizer e, se eu não me sabotar, pode ser que eu vença a próxima partida. Vai depender dos novos hábitos que eu cultivar, das palavras escolhidas, das decisões que faço a cada dia. Eu mesmo dizia pra tanta gente quão importante era cuidar do próprio jardim e, por imenso descuido ou até acaso, eu parei de investir na minha própria vida. Mas, estejam avisados, principalmente eu mesmo, de que amanhã fará sol e eu serei minha própria notícia.

Rodrigo Meyer – Author

Na contramão dos aniversários.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Pra muita gente, aniversários são, talvez, uma das únicas datas festivas do ano todo. Pra mim, soma-se com o Natal e as festas de Ano Novo como igualmente incômodas. Nunca fui alguém que me sentisse compelido a comemorar nenhum desses eventos. Ao meu ver, não há nada de fato pra se comemorar, mas pra se lamentar. São marcos anuais de um regresso e não de um progresso. Além disso, essas festividades, geralmente, são feitas para os convidados, porque os próprios anfitriões pouco ou nada aproveitam.

Tem anos que eu simplesmente nem me lembro da aproximação do meu aniversário. E, às vezes, quando calha de eu ter que relembrar da data específica, figuro pensando rapidamente sobre isso e logo esqueço. Esses dias, ao acaso, vi um bolo e isso me fez lembrar de festas, até que uma coisa levou à outra e acabei vindo falar disso. Aniversários são, pra mim, uma lembrança triste onde sou obrigado a pensar na quantidade de anos em que eu permaneci sobrevivendo e sofrendo, quando a única coisa que eu realmente gostaria de comemorar era o fim de tudo isso. Ter arrastado uma vida permeada por depressão, praticamente desde sempre, faz com que eu não consiga ter lembranças positivas de nenhum desses eventos, nem de mim mesmo. Assim, o que é que eu teria pra comemorar sobre o meu nascimento?

Muita coisa da minha infância parece bloqueada na memória. Eu sinto como se nem ao menos tivesse vivido em boa parte dos meus dias no passado. Em parte porque não houveram episódios marcantes, mas também porque muita coisa eu fiz questão de esquecer de todas as maneiras que estavam ao meu alcance. Ainda hoje consigo me lembrar de breves cenas, dos lugares em que morei, das pessoas com quem eu conheci e me relacionei. Mas são sempre muito breves e esporádicas na sequência de tempo. Junto com essa memória corroída ou bloqueada, sobrevivem algumas cenas incômodas da minha infância e adolescência que eu preferia não lembrar. Fico arquitetando o que eu diria numa sessão de terapia ou algo assim. Tenho tanta coisa que eu gostaria que se resolvessem, mas que já moeram minha vida há tantos anos, que, não sei mais se faz qualquer diferença agora.

Quase quatro décadas de existência e não tenho nenhuma perspectiva sobre o meu tempo restante de vida. É difícil prever essas coisas. Li e ouvi muita gente dizer que imaginavam que jamais passariam dos 30 anos de idade, mas cruzaram idades elevadas. O estilo de vida exagerado de algumas pessoas, na contramão das probabilidades, os permitiu levar uma vida ativa até os 50 ou 60 anos e alguns, surpreendentemente, passaram da casa dos 90 anos. Pra mim isso parece mais assustador do que positivo, mas nunca sabemos o dia de amanhã. Às vezes alguma coisa muda em nossas vidas e ganhamos vontade de viver.

Na infância, por mero formalismo, minha mãe organizava festas ou, pelo menos, fazia um bolo. Eu nunca fiz questão e até me sentia um tanto constrangido de ter que figurar nesses momentos. E isso foi se ampliando com o passar dos anos, até que as festas deixaram de ocorrer, o bolo acabava sendo ignorado por mim na geladeira e tudo ia se enquadrando como se fosse um dia comum, como todos os outros do ano. Lembro que, às vezes, tudo isso era substituído por um dia de pizza em casa e, quase sempre, isso só representava alguma coisa diferente pra comer, seguido de longas horas de sono e isolamento. Quando eu comecei a trabalhar, pude comprar, esporadicamente, alguns presentes pra dar pra mim mesmo. Não importava se era meu dia de aniversário ou qualquer festividade. Se eu tivesse algum dinheiro sobrando em qualquer época do ano, eu saía pra comprar filmes, livros, alguma roupa, comida e bebida. Meu mundo era só eu, porque eu já não fazia parte do mundo há muito tempo.

Provavelmente trabalhei na maioria dos Sábados, Domingos e Feriados, que era quando as pessoas podiam pausar seus trabalhos pra vir participar do meu trabalho de Fotografia. Também estive à trabalho ou diversão em diversos momentos pelas noites de São Paulo, eventos, viagens, manifestações. A Fotografia me acompanhava todo o dia e dava algum sentido pra minha existência, então, talvez, eu devesse comemorar meus anos trabalhando nela. Se pude me realizar um pouco em alguma coisa nessa vida, certamente foi na Fotografia. Desde que pausei a atividade, a sensação de ser desnecessário na vida aumentou profundamente. Passei a escrever e a fazer outros tipos de arte, mas só o tempo irá dizer o que é que isso tudo tem potencial de ser. Tudo parece um tanto medíocre e sem propósito. A verdade é que muito do que faço fora da Fotografia é uma tentativa de desabafo. Já tentei trabalhar com muitas coisas, mas a verdade é que percebo que não tenho o necessário. Estou apenas dando o melhor de mim, mas pra uma pessoa destruída esse ‘melhor’ ainda é muito aquém do necessário.

Sim, isso me frustra, mas também me faz acordar pra realidade. É importante percebermos quem somos e do que somos capazes. Nada de grandes sonhos ou de supervalorizar a realidade. Assim como a vida e os tais aniversários, não são de fato grande coisa e, às vezes, a melhor forma de lidar com eles é ignorá-los. Nada de especial pra se comemorar, só mais um dia errante entre quase todos do ano inteiro. Dizem que um ano é composto de 365 oportunidades, mas se isso for verdade, certamente minha depressão me obriga a desperdiçar todas elas, porque não consigo aproveitar um dia sequer pra fazer algo que me satisfaça. Sei que estou quebrado por dentro, que minha alma está apagada. A cabeça desistiu de funcionar e já vejo novas consequências terríveis desse tempo todo em que fui esmagado, como se a cada novo ano eu tivesse um peso extra nas costas por não ter me superado no presente, nem ter superado o passado. Um histórico terrível é pendurado na minha frente todos os dias, me fazendo lembrar que estou chegando em quatro décadas de vida, sem ainda ter tido nenhum bom motivo pra comemorar.

Me acostumei a viver sozinho em meu mundo, passando reto pelos dias, bebendo, dormindo e, com sorte, trabalhando. Isso provavelmente me fez ignorar não só os meu aniversários, mas também de esquecer completamente a data de outras pessoas. Frequentemente, só me dei conta do aniversário de colegas ou companhias quando já havia ultrapassado um ou dois meses do ocorrido. E, independente do quanto eu me importava com essas pessoas, lembrar de datas nunca foi algo que minha mente se acostumou a fazer.

Eu não quero parabéns, porque ‘parabéns’ se dá pra quem teve uma conquista. Também não espero por presentes, porque a única coisa que eu realmente preciso e gostaria de receber é saúde mental e perspectiva de vida. Sem isso, nada do que eu pense, planeje ou faça, me trará sentido na vida. Acordo todos os dias com a vontade de voltar a dormir e o próprio sono já não me acolhe há vários anos. Me reviro na cama de um lado pro outro, desviando da dor física. Acordado ou dormindo, estou sempre perdendo. Nessa guerra não existe vitória e a única forma de sairmos dela é confirmarmos nossa derrota diante da vida, aceitando morrer.

Com alguma sorte eu vou levantar um dia e buscar medicação. Faz enorme diferença pra mim saber quem é que vai me atender. Enquanto isso, as pessoas que supostamente lutam do mesmo lado, ignoram, não possuem tempo ou interesse de responder. Fico sem ter esperança pelos próximos passos, sem respostas pra quem eu deveria recorrer. Quem detém a resposta, parece nem saber que eu existo. Há vários dias, talvez mais de um mês, escrevi pro Conselho Federal de Psicologia, buscando por informações que me ajudassem a filtrar um profissional. Mas nem ao menos sei se fui lido, porque nunca tive qualquer reação ao contato. Se essas são as pessoas que representam a Psicologia no Brasil, já dá pra imaginar o tamanho do buraco em que estamos. Se já sabíamos que não havia com quem contarmos entre as pessoas comuns da sociedade, fica ainda mais difícil quando descobrimos que nem mesmo os profissionais podem nos ajudar.

Os dias passam e a vontade de aceitar ajuda passa junto. Um dia estamos dispostos a escrever uma mensagem e no outro parece que aquilo já não faz mais sentido nenhum. Um dia estamos pensando que poderemos nos salvar com a medicação e depois entendemos que nada é tão simples assim. Existe um caminho constante nesse vai e vem, que é típico da depressão e que nos coloca à andar em círculo, sem mudar coisa alguma nos nossos dias. Aquilo que realmente seria importante e urgente, facilmente deixamos de lado, enterramos debaixo do tapete, varremos atrás de uma garrafa de bebida, uma noite de sono, um prato de comida. E vou empurrando meus dias, pra mais um ano de sobrevida, enquanto as pessoas se perguntam porque é que não estou comemorando meu aniversário. São explicações que nem mesmo gostaria de dar e que se juntam à inúmeros outros anexos de frustrações e memórias inglórias. Passei mais tempo explicando, justificando e desabafando minha sobrevida, do que buscando qualquer tipo de ajuda efetiva que me desse a honra de conhecer o que é viver. Já estive medicado e reerguido lá pelos meus 20 anos de idade, mas alguns anos depois eu já não sabia mais o que era viver.

Já não desejo ‘feliz aniversário’ pra ninguém, porque ‘feliz’ é um conceito que já virou mitologia na minha mente. Espero que as pessoas encontrem algum conforto e tranquilidade ou que obtenham sucesso em algo que elas queiram ser, ter ou fazer. Mas sempre me senti desconfortável em desejar felicidade em aniversários, festas de Natal ou Ano Novo, porque tudo isso parece uma grande ficção e falsidade, em especial no mundo destruído em que vivemos, independente de ter ou não depressão. Acho que o mundo precisa ser mais honesto, mais direto, mai realista e dizer aquilo que realmente sente, o que deseja, o que de fato acredita. Não vamos chegar à lugar nenhum alimentando a egrégora da mentira com todos esses depósitos de palavras, símbolos e energias, enquanto, na prática, estamos nos dizimando, todos os dias, em gestos, palavras, pensamentos, sentimentos, tudo do ruim e do pior, apodrecendo o mundo com um modelo de conduta que se opõem diametralmente à felicidade e cava fossos cada vez mais fundos, insustentáveis, cheios de violência, dor, agonia, ansiedade, miséria, guerra, conflito, preconceito, mentira e tudo aquilo que as pessoas fingem que não sabem, mas praticam de perto, e magistralmente, todos os dias.

Rodrigo Meyer – Author

Não tenho medo da morte. E você também não precisa ter.

Se tem algo que é natural e que certamente vai acontecer pra todos, é a morte. Nascemos e morremos e isso não tem razão nenhuma pra ser um drama. O medo que as pessoas tem da morte é um exagero adicionado ao instinto de sobrevivência. Uma coisa é você tentar preservar sua existência e outra, completamente diferente, é ter medo de morrer.

Falar de morte é um tabu em praticamente todas as sociedades. Posso dizer que isso não torna o tabu normal, apenas mostra como a humanidade, em sua maioria, está enfraquecida em seu próprio modelo criado. Se alimentam de medos, traumas, inseguranças e, quando isso viraliza a ponto de quase todos estarem nesse padrão, tendem a achar inaceitável tocar no tema sem um afastamento, medo ou desprezo. Não consigo imaginar bobagem maior.

Como eu disse inicialmente, o instinto de sobrevivência é diferente do medo da morte. Ele é, por exemplo, o que te faz correr quando um prédio desmorona perto de você. Você tenta ficar vivo pelo maior tempo possível, sofrendo o mínimo possível. Não há prazer no sofrimento que esses episódios catastróficos proporcionam e também não há nenhuma necessidade de passarmos por eles passivamente. Mas se você deixa de sair de casa com medo de que um prédio possa cair ao seu lado, então você precisa buscar ajuda psicológica.

Eu sei, perfeitamente, que em algum momento morreremos todos. Pode ocorrer subitamente, como em um acidente de carro, por exemplo. Pode ser gradual, como em uma enfermidade que termine em óbito. Pode ser algo um pouco mais previsível, como morrer de velhice ou até mesmo de forma planejada como um suicídio.

A medida em que as pessoas vão lendo este assunto, posso imaginar o desprazer de muitos, afinal é mesmo um assunto tabu pra muita gente. A humanidade não lida de forma confortável com a morte. De alguma forma é como se a morte fosse a representação de algo tenebroso que não deve nem mesmo ser mencionado. Eu não penso assim. A morte não muda por falarmos ou não dela. Aliás, falar dela, pode ser o começo de uma grande transformação pessoal sobre como lidar com sua própria vida.

Algumas instituições de cunho filosófico e espiritual ritualizam simulações teatrais de morte como forma de propor reflexões aos participantes sobre as questões da vida, os valores e até mesmo sobre sua própria análise do que venha a ser a partida da vida pro que, eventualmente, haja depois disso. Outros grupos, festejam a morte dando a ela um status de entidade, como se ela estivesse, de alguma forma, sendo personificada. Ela é tão natural e recorrente que as representações e simbolismos acerca do fim da vida deixaram uma vastidão de cultura em torno do tema.

Por ser o momento de transição entre a vida e o suposto momento seguinte, a morte sempre esteve envolta de mistérios. Pelo fato de nosso corpo morrer, encerramos as análises mais concretas nesse último momento de vida. Assim, médicos e cientistas validam a morte com base na ausência das características que são comuns durante a vida, tal como o pulso, respiração ou atividade cerebral. A partir do momento que um corpo é declarado morto, entra-se em território desconhecido e tudo adiante, então, torna-se especulação.

Seja do ponto de vista científico ou espiritual, são poucas as respostas sobre o assunto e por isso, podemos dar mais certeza e confiança na vida do que no que a morte nos deixa. No final das contas, o medo da morte é tão somente o medo do desconhecido. De maneira similar, as pessoas geralmente possuem um medo sobre o Universo e questões sobre vida extraterrestre. Por muito tempo o Universo sempre foi uma vastidão misteriosa não explorada que nos fazia pensar, mas que nunca nos trazia uma resposta satisfatória. Diante disso, fenômenos, aparições ou teorias que envolvem a entrada ou saída desse misterioso céu escuro, nos deixa inquietos, no mínimo.

O medo do desconhecido nos coloca num papel pouco proveitoso. Ficamos ansiosos, pois nosso cérebro tende a querer compreender o que se apresenta diante de nós e se algo não se soluciona de forma satisfatória, ele fica em um esforço infinito diante disso. Essa busca por resposta sem conclusão é a ansiedade. Isso é basicamente a cena de um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ele nunca alcançará seu próprio rabo, pois quanto mais avança, mais seu rabo “foge”.

O que muita gente faz pra contornar a ansiedade diante da morte é determinar uma resposta pra entregar ao cérebro quando estiver diante desse desconhecido. Ao não saber a resposta, coloca opções e elege uma para acreditar. Dessa forma se você colocar para seu cérebro a ideia de que depois da morte, você vai estar em Vênus, dançando suas músicas preferidas, então sua mente se sente confortável por saber a resposta, independente de ser real ou não. Outras pessoas preferem simplesmente crer que depois da morte tudo se encerra e nada mais ocorre e assim também aquietam a ansiedade do cérebro, dando uma resposta. Seja lá que resposta dermos, sempre será uma maneira de contornar o desconhecido e não cair em um surto de ansiedade. Nossa mente torna-se criativa para resolver o que a inquieta.

Embora não tenhamos que ter medo algum da morte, isso não significa que você deva propagá-la ou ser permissivo diante de atos perigosos. A razão é simples: uma vez que somos humanos com nosso instinto de preservação e que isso não é opcional, todo nosso bem-estar está pautado em certas condições e premissas. É compreensível que não consigamos, por exemplo, nos sentir bem se estivermos em situações de risco a vida, como, por exemplo, pendurados em um penhasco ou diante de uma área que está sendo bombardeada. A própria ansiedade que esses momentos geram pro nosso cérebro, por impactar em nosso instinto de sobrevivência, nos deixa em estados alterados. As químicas de adrenalina e outras nos fazem ter reações praticamente automáticas.

Diante disso, me vem a mente vídeos de pessoas corajosas andando tranquilamente por topos de prédios, sem nenhuma proteção, filmando saltos entre bordas e todo tipo de ação que julgamos extrema. Para muitos de nós isso causa aflição e ansiedade, pois imaginamos o perigo de queda e morte. Reconhecemos nas alturas, assim como em outros contextos, o ingrediente da morte em potencial. Isso figura na mente humana e de grande parte dos animais, como uma memória herdada que já está impregnada em nossas espécies, ao longo das gerações. Desde que diversas pessoas foram morrendo diante de cenários similares, fomos aprendendo o que era perigoso ou não. E assim, torna-se compreensível o medo ou aflição diante de alturas, especialmente quando não há uma proteção ampla.

Mas, pessoas no mundo todo superam ou mudam suas mentes diante desses padrões, quando, por exemplo, controlam ou anulam a ansiedade diante de um salto de paraquedas, a proximidade com animais peçonhentos como algumas cobras ou o controle emocional diante de um incêndio. Acredito que, a medida em que controlamos melhor nossa mente, vamos nos tornando menos vítima do lado pejorativo dos nossos instintos. Ter instinto é bom e faz parte do nosso progresso em vários sentidos, mas se tivermos capacidade de burlar exageros em prol do nosso próprio bem-estar, melhor.

Proponho que vivamos de forma mais intensa, com menos receios, menos medos, menos ansiedade. Incertezas sempre existirão sobre inúmeras coisas, mas isso não precisa ser motivo pra ficarmos apreensivos. Também devemos evitar pessimismo e otimismo e nos concentramos na realidade. Viver o momento presente é algo que exige que abandonemos expectativas sobre o futuro e que superemos traumas do passado. Pelo que posso observar do mundo e de minha própria jornada, a melhor receita pra ficar em paz é desfrutar o momento presente.

Sensatos os vikings que festejavam quando alguém morria, afinal era sinal de que completou mais uma etapa na evolução. Morrer é natural e triste mesmo é viver sofrendo. Se você sente saudade de um amigo ou ente querido que faleceu, tenha em mente que o que vocês vivenciaram durante a vida é o que oferta valor entre as pessoas e se isso já foi feito e compartilhado, não há pesar. Se pra você a vida se encerra com a morte do corpo físico, todo o momento que vocês poderiam ter pra desfrutar a companhia um do outro era aquele e tudo se cumpriu. E se você acredita que haja algum evento posterior a morte, estará vivenciando as possibilidades de interação em algum momento, de alguma forma, e este estágio da vida no corpo foi apenas uma fase concluída.

Quando lembro de alguém do meu passado ou que faleceu, tenho recordações dos bons momentos vividos. Isso só me traz alegrias e nenhuma dor. Não tenho remorsos ou dramas a serem superados pelo fato dessas pessoas não estarem presentes fisicamente em meus dias. Não estou, de forma nenhuma, condenando a emoção diante desses momentos onde nos sentimos separados de pessoas que estimávamos bastante. Tudo isso é parte de nossa realidade como seres humanos e nosso afeto está muito relacionado a querer proteger e ver bem as pessoas com quem criamos vínculos. Dessa forma, tendemos a sofrer, por extensão do instinto de sobrevivência, pelo dano a vida de uma outra pessoa. É isso que nos torna humanos e nos deixa emocionados diante da dor alheia, por exemplo. De maneira similar, a felicidade de alguém que estimamos nos tranquiliza e nos contagia, deixando um sentimento de alegria e bem-estar.

Quando chegar a sua hora, minha hora ou a hora de qualquer ser, procure voltar a sua atenção para o que você tem feito da sua vida, pois se tem algo que é recorrente em pessoas que estão próximas do momento de morte é o arrependimento sobre quem foram e como viveram. Chovem palavras de perdão, amor, desculpas e surge um brilho de consciência que os fazem ver que pesar na Terra é a maior perda de tempo, pois a morte chega pra todos e, portanto, enquanto estivermos vivos, é a única e melhor hora pra fazermos o melhor pra desfrutar de bons momentos e ver todo mundo bem e feliz. Façamos, então, nossas melhores ações, com nossas melhores posturas diante de tudo e de todos. Qualquer coisa diferente disso, é ignorar as estatísticas das pessoas infelizes em seus últimos dias de vida. Seja lá o que venha ou não venha depois da morte do corpo, viva seus dias pra ficar de consciência tranquila. Sua vida vai ser construída em cima de como você se sente diante da realidade. Você pode escolher a tranquilidade e o sorriso ou o incômodo no caos. Controle sua mente ou será controlado.

Rodrigo Meyer

Amigos sumidos, mudados, distantes e do outro lado.

Recentemente me deparei com o caso de uma garota que estava enfrentando solidão, se sentindo deslocada por não se enquadrar na sociedade e não encontrar semelhantes para dividir suas realidades. A pessoa estava já em busca de ajuda profissional pra este e outros fatores e, até mesmo nessa busca, encontrou barreiras, pois a pessoa que deveria prestar o serviço de ajuda, mostrou-se, ela mesma, um problema. Em resumo, a pessoa sentiu-se ainda mais solitária, pois nem mesmo com um suposto profissional ela conseguiu encontrar amparo. Note que tempos desnecessários que o mundo anda passando.

Ao falarmos de solidão, nos damos conta que muita gente está cercada de pessoas que não as preenchem ou de que, literalmente, estão sozinhas. A solidão, como é preciso saber, não significa estar sozinho, mas sim de sofrer por estar sozinho, pois muita gente está sozinha e não sente solidão. Estar sozinho, muitas vezes, é tudo que se quer e pode ser a melhor opção, muitas vezes. Pela quantidade indescritível de pessoas tóxicas e indesejáveis pelo mundo, é compreensível a sensação de alguns de estarem fora da realidade, de não pertencerem ao mundo, de não se sentirem contemplados por nada e ninguém.

Viver em uma sociedade onde não encontramos mentes parecidas que nos enxergue e nos compreenda tal como somos, pode nos fazer sentir que não somos humanos. Por padrão, a espécie humana é marcada pela característica da socialização. Almejamos isso e pautamos nosso bem-estar nisso. Quando não estamos inclusos ou bem-aceitos no meio em que vivemos, surgem os conflitos, questionamentos e crises. Muita gente passa por isso e desenvolve reações variadas, podendo ir da timidez, vício em substâncias, isolamento, depressão, atitudes extremas e/ou desequilibradas em termos de saúde, hábitos, práticas, pensamentos, etc. Ninguém ganha com isso.

Essa ocorrência e o conhecimento que tenho na temática, me fizeram associar, de imediato, com a questão dos amigos ausentes. Para maior precisão, alguns poderão chamar de ex-amigos, colegas, etc. O caso é que são pessoas das quais, por algum motivo, já não estão mais conosco, sejam presencialmente ou subjetivamente. Falo de pessoas que sumiram de nossas vidas, que mudaram o suficiente pra não termos mais a mesma intensidade ou tipo de contato, que estão fisicamente distantes pela mudança de casa ou por uma longa viagem e também das pessoas que, feliz ou infelizmente, faleceram.

Pensando nisso, me veio na mente vários exemplos de gente que conheci há muitos anos atrás e que hoje já não fazem parte da minha realidade. Gente que, sendo sincero, eu desprezei, eliminei da minha vida, ignorei, esqueci e diversos outros verbos possíveis. Algumas pessoas dizem que se amigos deixam de ser amigos, então é porque nunca foram. Isso pode ser verdade com a condição de que o falso amigo dessa equação seja alguém que, por motivos torpes, abandonou a companhia de alguém de valor. Mas não se pode dizer o mesmo de quem desfaz uma amizade por ver que o outro não é digno de sua companhia. E isso acontece demais. Às vezes nos doamos com sinceridade pelo outro, ofertamos companhia real, sentimentos reais e, ao menos de nossa parte, cultivamos uma amizade real, sem que isso impeça que nos livremos dessa pessoa, caso ela não se mostre digna ou merecedora de nossa companhia ou amizade. E quando isso ocorre, não significa, de maneira nenhuma, que ofertamos menos verdade ou valor em nossa amizade.

As pessoas precisam perder o péssimo hábito de acreditar e repetir em mentiras convenientes. Fala-se muito de que amizades precisam ser eternas como se fossem perdurar até mesmo diante do inaceitável, do absurdo e do não salutar. Tais pessoas, afirmam isso por conveniência, como quem quer desferir no outro um peso, que faça o outro sentir culpa por ter encerrado uma conexão. Se esquecem, convenientemente, que toda quebra tem um porquê e que ao contrário das pessoas que se livram de pessoas tóxicas, os seres tóxicos abandonados é que realmente mostram-se como não-amigos justamente quando, diante da quebra de conexão, não visam resgatar o contato, não sentem saudade, não refletem, não mudam, não se permitem a possibilidade de que eles mesmos sejam o motivo essencial daquela quebra de conexão. Firmam-se, de forma bem oposta, na posição de vítimas e acusadoras, como se tivessem sido abandonadas injustamente pelos demais.

Essa tentativa de inverter o jogo é algo velho na nossa sociedade. As pessoas, incapazes de olharem pra si mesmas, de degustarem horas e meses diante do espelho com sinceridade, optam pelo conforto de varrer tudo pra debaixo do tapete, fingindo que o problema são os outros e perpetuando seus malefícios praticados, sua toxidade, sua cegueira, seus falsos dramas e sua estranha relação com as pessoas que elas insistem em chamar de ‘amigos’, quando na verdade, são seus alvos turbulentos que, cedo ou tarde, notam-se atropelados e resolvem desviar para o acostamento dessa relação e partir para longe daquilo.

Falar dessas pessoas ausentes, deixadas para trás, cortadas ou transmutadas, é falar dos porquês da própria relação humana e de como as pessoas enxergam a si mesmas na vida, como pessoas, consciências, presenças ou personalidades. É importante que as pessoas aceitem, o quanto antes, o fato de que suas passagens pela vida dos outros não gira em torno dos outros, nem de si mesmas, afinal relações saudáveis são trocas e não um sistema de hierarquia onde um é mais importante que o outro. Somos seres humanos, todos tentando encontrar aceitação e espaço para nos expressarmos como indivíduos, mas também como personagens de um coletivo.

A pertença a um grupo pode ser fator crucial para o psicológico humano, assim como é também de inúmeros outros animais. A socialização nos aponta referenciais de estima, aceitação, valor, prazer, potencial, sucesso e dignidade. Tentar reduzir o ser humano a qualquer outra coisa abaixo da plena socialização é marcá-lo com o peso da desumanização e, portanto, com a quebra de valor e necessidade, desde a esfera física até as esferas mais sutis como a consciência ou alma (que, embora mais sutis, são provavelmente as mais pesadas, impactantes e relevantes pra cada indivíduo).

Desde sempre eu procurei filtrar minhas relações. Sem nenhum peso ou demora, removi e me afastei de tudo e todos que não se adequavam nem ao mínimo de minhas concepções sobre relações de amizade, trabalho, romance, etc. Apesar de sempre ser breve naquilo que não me interessava, me vi arrastando, desnecessariamente, tempo, energia e mente com expectativas e esperanças em romances ou pseudo-romances que, no final das contas, não se concretizavam tal como esperado e que deixavam sofrimentos e danos adicionais pela minha própria insistência em tentar dar outro desfecho ou visão para aquela situação. Imensa bobagem de minha parte foi achar que a sinceridade e as emoções fossem ser levadas em conta por pessoas que, no máximo, estavam administrando uma conexão apenas do ponto de vista racional, tal como um típico interesseiro faz.

Os tropeços na vida nos deixa escolados, nos faz perceber as nuances do ser humano. Enquanto muita gente tenta se arrastar pra perto da minha realidade, eu já estou planejando o corte de uma galáxia inteira, sem que eu precise descartar astronautas específicos com quem eu esteja valorando no momento. Nessa vida, aprende-se que não é por acaso o termo ‘indivíduo’. As pessoas são únicas e, portanto, cada uma delas é um caso único a ser considerado. Avalio pessoas e me relaciono com pessoas e não com massas estereotipadas. É nisso que habita a sinceridade, inclusive.

Já tive gente por perto que eu não quis mais, tive gente que nunca me quis por perto e que depois implorou aproximação e gente que, com bastante reciprocidade, foi embora enquanto eu também fui, sem nenhum drama. Mas, de todas as pessoas, as que valem mais são as que deixam algo pra se aprender, lembranças pra sorrir e boas sensações pra se reviver. Mesmo que distantes, mesmo que mortas, mesmo que ausentes e desconectadas de nossa vida atual, deixam em nós algo que talvez seja mais importante do que elas em si, que é a essência de si mesmas durante aqueles momentos que pariram boas marcas indeléveis. E, claro, também são especiais aquelas pessoas que permanecem ao nosso lado, crescendo na cumplicidade, na integridade, no valor, no respeito, no apoio e na sinceridade. Quando as pessoa mudam para melhor e nos incentivam a sermos melhores, aí sim temos uma relação duradoura e sadia. Foque-se nessas pessoas.

Se algo daqui te ajuda, seja bem-vindo(a). Agora há inúmeras mídias onde você pode compartilhar esse texto, inclusive Whatsapp e e-mail. Divida um conteúdo com uma pessoa que seja importante pra você ou mesmo deixe um alerta pra uma pessoa que possa estar pesando sem saber. Provoque o mundo, deixe sementes, aprecie momentos, faça algo acontecer. Um legado não sobrevive sem a coletividade engajada.

Rodrigo Meyer

Sempre tento imaginar a vida das pessoas que vejo na internet.

Não sei bem se isso é um exercício de imaginação, se é mania de autor das áreas criativas ou se é apenas um grande devaneio derivado de nossos micro-preconceitos. Deixe-me explicar. Eu não faço associações de valor às pessoas, mas tento imaginar o que há de vida e personalidade por trás daquelas fotos, nomes ou contextos expostos na internet. Muitas vezes eu até acerto, mas tem vezes em que eu sou surpreendido.

Às vezes vejo, por exemplo, uma pessoa sem foto no avatar do Facebook, um nome inventado que floreia demais ou faz menção à animais. É suficiente pra eu já imaginar uma pessoa de mais idade, talvez lá pelos 50 ou 60 anos, vivendo sozinha e meio entediada, atrás de jogos de navegador e dicas de culinária.

Mas, de onde saem esses “achismos”? A verdade é que são apenas imaginação e não tem nenhum compromisso com a realidade. Pode, eventualmente, ser o caso de algumas dessas pessoas, mas não existe, claro, uma relação direta entre as características do profile com o estilo de vida.

Outras vezes, vejo pessoas ostentando títulos junto ao nome, tal como cargo, profissão, hierarquia ou mesmo símbolos e termos que referenciam à pertença de uma organização, instituição ou qualquer coisa que seja. Nesses casos, vou ter que admitir, acho, quase sempre, patético. Lamento se esse é seu caso, mas a sensação me veem automaticamente e quando penso nos possíveis porquês das pessoas escolherem conscientemente usar aqueles artifícios nos nomes, só consigo pensar em poder e status. E, pra mim, essas duas coisas são um câncer inútil em nossa sociedade.

Veja que, querendo ou não, somos levados a pensar sobre o que vemos. Às vezes nosso referencial não é baseado em nada concreto e outras vezes é um parecer mais embasado. Claro que, como se vê, isso faz toda diferença. Mas as duas coisas ainda são coerentes e aceitáveis, pois apenas expressa a imaginação sobre as possibilidades de algo. O que seria ruim mesmo é um terceiro tipo, onde olhamos pra algo e fazemos juízo de valor, como, por exemplo, dizer que determinado fenótipo, etnia, gênero ou classe social corresponde ou não a valores sociais como honestidade, cultura, intelectualidade, generosidade, beleza, mérito, etc. Isso não é aceitável, nem condiz com a realidade. E justamente por eu não padecer desse malefício é que, talvez, eu fique fazendo tantos cenários de imaginação sobre aquilo que me surge pela frente.

Eu me permito fantasiar um pouco sobre como são as pessoas por trás da internet ou mesmo os anônimos que observo pela rua. Geralmente, nada sei sobre essas pessoas e, com base nas minúsculas pistas que escapam pelo caminho, eu tento montar esse quebra-cabeça. Não é uma tarefa fácil, mas eu gosto de tentar. Muitas vezes, conversando com as pessoas por um messenger, e-mail ou mesmo num post de rede social, eu fico pensando no ambiente em que essa pessoa estaria, qual estilo de roupa tem, que músicas estaria ouvindo, o que estaria comendo ou bebendo. Nada disso é realmente muito útil pra definir a realidade de alguém, mas não posso evitar.

Também faz parte de mim, imaginar a voz dessas pessoas em tempos onde já quase não conhecemos muita gente pessoalmente e mesmo com os áudios dos eletrônicos não temos garantias, pois a distorção e os ruídos são suficientes para transformar qualquer estilo em qualquer outro. A imaginação, sabendo dessas limitações todas, se vê ainda mais útil pra esses momentos e torna a viajar longe, pensando até mesmo no passado e futuro dessas pessoas. Às vezes me contam histórias de infância ou de pequenos causos do dia-a-dia e eu tento compor toda a sequência visual dos fatos.

Talvez eu devesse mesmo trabalhar com cinema. Por diversas vezes me realizei fazendo descrições minuciosas e longas pela Literatura em dramas ficcionais. O simples fato de poder imaginar já me coloca em estado de intensa imaginação. Não posso atestar que eu seja uma pessoa ‘criativa’, mas sei que, bem ou mal, imagino muito tudo e todos. Tenho em mim uma certa tendência e facilidade para a visualidade das coisas. Isso deve ter relação com a minha característica de memória fotográfica e também do meu apreço pelas artes visuais em geral.

Eu sempre estive atrelado a Desenho, Pintura, Arte Digital, Fotografia, Design, Comunicação Visual e várias outras coisas relacionadas à estas atividades, onde tive contato menos direto, como foi o caso da maquiagem, figurino e cenografia que eram muito necessários pro desenvolvimento de Ensaios Fotográficos. Depois de mais de 15 anos como fotógrafo, acho que ainda me vejo preso à essas realidades visuais. Mesmo quando escrevo, é um ato visual na minha mente. Claro, que, ao transpor pra escrita, estou também trabalhando intensamente sobre esse formato específico de linguagem, mas, toda a origem do que eu levo pros textos, quase sempre está no visual imaginado ou das memórias visuais.

Eu não sei dizer se isso é comum ou se é apenas uma característica de uma fatia da sociedade. Tudo que sei é que sou assim e não consigo deixar de ser. Todas as vezes que tentei absorver a realidade por outras maneiras, me via atravancado e sem gerar nada de satisfatório. E, como diz o ditado, não se mexe em time que está ganhando.

Com essa consciência sobre como eu olho o meu redor, brota, de vez em quando, a dúvida sobre como as pessoas me enxergam por esses filtros todos. O que será que meu nome suscita para elas ao se depararem comigo pela internet? Qual é a sensação que passa meu rosto, meus traços, minhas roupas e minhas expressões faciais? Minhas profissões impactam de que maneira sobre as conclusões que tiram de minha personalidade? Como é que seremos enxergados nessa teia de desencontros se tudo que temos é ilusões, deduções, expectativas, idealizações, preconceitos, imaginações, superestimações e subestimações?

Eu confesso que não me importo muito com essa limitação das pessoas. Geralmente elas quebram a cara sozinhas, pois quando validam essas crenças antes mesmo de saber, acabam por fazer isso também com as pessoas que elas julgam melhores e que não necessariamente são. Assim, paga-se o preço pelo achismo, independente pra que direção apontem. Em contrapartida, quando as pessoas se permitem descobrir ou redescobrir algo ou alguém, aí começam as verdadeiras possibilidades na vida. É somente assim que teremos informações mais sólidas sobre quem é que está por trás de todas aqueles substitutos visuais, textuais, simbológicos, etc.

Além da questão óbvia levantada sobre conceitos e preconceitos, é interessante emergir uma questão nessa temática que é a capacidade criativa das pessoas e a habilidade de traduzir realidades ou significados em imagens, símbolos, textos, nomes, etc. Por muito tempo meu trabalho como fotógrafo ao atender os clientes antes de agendar o dia em si da sessão de fotos, era tentar compreender o estilo e personalidade dessas pessoas para adequar sugestões pras fotos em termos de iluminação e cenário, como também ajudar na escolha dos figurinos e um pouco das expressões e poses.

Acredito que se formos bons construtores de mensagens, facilitaremos pra que a decodificação delas seja mais fácil e agradável. Esse é, provavelmente, o mais importante papel de um autor, seja nos textos, na Fotografia, no Design, Cinema ou em qualquer outro espaço de comunicação. O ser humano é um ser social e, como tal, vive muito pela comunicação como ferramenta de intermediação entre ele e os demais. Desde as pinturas rupestres, os gestos, olhares e sons, até as versões mais complexas da modernidade, estamos sempre em constante busca pela assertividade na nossa expressão e compreensão no meio social. Precisamos sempre questionar o poder e função da comunicação humana e dos respectivos poderes psicológicos e biológicos.

Hoje eu tô inventivo, com pinta de filósofo, bem-humorado e com disposição pra aguentar mais incertezas do que normalmente já aguento. Vamos fazer disso um bom momento pra arrastar novos temas, explorar parágrafos fora dos temas propostos e deixar o DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção) escalar o Everest. Até breve!

Rodrigo Meyer

Onde está Barbarella?

Este texto não fala sobre a personagem vampiresca, nem de outras menções a filmes e histórias em quadrinhos, mas sim de uma pessoa real que, com muita propriedade, vestiu esse apelido pra vivenciar realidades semelhantes. Falo de Barbarella, uma amiga que cruzou minha vida há muitos e muitos anos atrás.

Barbarella era um arabesco que flutuava pela cidade, escondida atrás dos fragmentos de luz. Entre um passo e outro, sentia-se seu perfume, apesar de todo acúmulo de nicotina tragada que lhe acompanhava. Vestida de veludo negro justo, marcava as formas pálidas de seu corpo anoréxico. Entre seus dedos, sentia que estava a um passo de trincá-los apenas por tocar.

Encontrei Barbarella em um acaso dos chats de portais de internet quando nem sequer existiam redes sociais. Atrás de um nome sugestivo, nenhuma foto e talvez um e-mail, cruzava-se o imaginário pela conversa e, com sorte, trocava-se um telefonema ou enviava-se uma fotografia scaneada com má qualidade, mas com muita personalidade. Aquilo era a essência máxima transmitida de cada usuário.

Da internet pra vida real, Barbarella surgiu em um telefonema com um convite pra bebermos. E fomos. Que dia magnífico poder experimentar aquela mente. Pessoa adorável, cheia de atenções, confortos e distorções. Lindamente posta sobre seu coturno e sempre abraçada aos copos de whisky que lhe davam sentido. Do dourado da garrafa ao negro do ambiente, sentia-me prestigiando joias.

Lindos tempos onde Barbarella ainda cortejava jovens, arrastando-os pra seu calaboço travestido de apartamento. Lá onde o sofá já tinha visto do bom de do melhor, as paredes escorriam pequenas obras. Tudo era tão demasiadamente simples e sincero que era impossível não sentir a essência do Movimento Gótico entre um detalhe e outro. O ambiente contemplava um pouco do vitoriano e do caótico urbano. Sempre tudo decadente, mas nunca demasiado.

Vazio como grande parte de seu corpo, tudo era apenas ossos e adornos. Somente o necessário. Aquilo me encantava como nada mais me encantou por muito tempo. Adorava olhar pra ela e sentir a possibilidade de traçar o contorno de seus próprios ossos, carregá-la num abraço ou deixá-la sentada em meu colo, desfrutando mistérios.

Aquilo sim deixa saudade. Deixa meu espírito com vontade de voltar no tempo e morrer de maneira semelhante, por desgaste, repetição, exageros. Lembro de Barbarella como o melhor referencial pra mim mesmo e pro estilo de vida que se escondia entre uma estação de metrô e outra. Andarilhos pelas noites, dividíamos esses bons momentos ouvindo música, bebendo e explorando. Pela manhã, quando já deteriorados com o bater do sol do lado de fora da porta, erguíamos força pra beber mais um pouco e ir embora.

Por muito tempo depois, ainda pensava em Barbarella. Por onde ela estaria? Pela última vez que a vi, parecia muito bem, apesar de todos nós sabermos que não é bem próprio esse termo pra quem sucumbia ao álcool e a anorexia. Estava de pé, ativa, embora estivesse por dentro morrendo a cada dia.

A verdade é que ela não sumiu; ela morreu. Barbarella passou tempos difíceis com as consequências de uma cirrose que a debilitou de vez. Ajudada por sua irmã, segundo o que soubemos, deixou pra trás uma filha de dez ou doze anos e uma marca indelével de seu estilo de vida. Até hoje, quando penso em Barbarella, penso em quem poderia ser ela atualmente. Não encontro outro rosto que se vista tão firmemente. O que ela não tinha nas carnes, tinha na mente. Da vez que lhe vi por último, completava 49 lindos anos de idade e uma vitalidade mórbida que, facilmente, lhe permitia ostentar muito menos idade, ainda que soubéssemos claramente que atrás daquele ar vampiresco o que mais ornava era a idade percorrida com todas aquelas histórias, aquela personalidade repetida, como vinho envelhecido, como tempero maturado.

Barbarella deixou pra mim um outro personagem, muito mais interessante, que nunca canso de explorar nos meus sonhos artísticos, histórias não contadas e na derivação sutil em alguma Fotografia ou conto. Estou sempre procurando por Barbarella em algum bar, alguma esquina silenciosa, um apartamento qualquer, alguém que se apresente primeiro como alma e depois como mulher. E cada vez que não encontro Barbarella, me pergunto onde está ela. Que reencarne logo, se é que já não fez, pois quero experimentá-la outra vez, mesmo que já não tenha os traços tão iguais, a mente tão loquaz e a sutileza doce e fatal do seu perfume. Em cada copo de bebida você está contemplada e convidada para festejar calmamente o lado sombrio da vida. Bom dia, querida.

Rodrigo Meyer

Perdi momentos em algum lugar. Estou procurando.

Já teve a sensação de estar em busca de uma experiência que não sabe bem o que é, mas que lhe faz falta? Talvez seja uma tentativa de replicar momentos muito bons do passado. Tem dias que me dou conta de que o que estou buscando já não existe mais. Não exatamente os momentos, pessoas e lugares que já passaram, claro, mas a essência desses momentos. Já passaram as fases, as oportunidades, as condições, os contextos, as idades ou qualquer coisa que seja a chave pra experiência em questão.

Nos últimos dias estive mais consciente disso, depois que já vinha arrastando essa sensação por muitos anos. As pessoas, muitas vezes, chamam de ‘nostalgia’, mas não sei dizer se é isso. Eu não me importo tanto que tenham sido ocorrências do passado e nem sou daqueles que vive dizendo que no passado as coisas eram melhores (embora, muitas vezes, até tenham sido mesmo). Mas o caso é que meu apego com esses momentos é uma saudade que poderia, perfeitamente, ser revivida nos tempos atuais, pois não depende de nada excepcional ou exclusivo só daqueles tempos.

Talvez eu esteja sendo simplista demais, pois, mesmo o simples é raro em nossa sociedade. Acredito que eu esteja em busca de momentos que eu perdi e não soube aproveitar. E hoje, com mais noção da realidade, quero a chance de me reposicionar sobre cada um daqueles minutos. Com certeza faria um espetáculo acontecer mesmo nas manhãs mais entediantes.

Sento na beira da cama e fico me perguntando onde é que estão as pessoas que cruzavam apartamentos no centro da cidade, com seus comprimidos, seus dinheiros amassados, suas valiosas compulsões, seus desleixos, suas roupas descosturadas, seus dentes poeticamente imperfeitos, suas manias, suas melancolias, suas doses diárias de sofá e lençol sujo. Onde estão as pessoas que, repetidamente, desperdiçaram tardes comigo em troca de tão pouco. Sim, são momentos simples, mas que deixaram uma marca de satisfação muito grande. Tantos anos depois ainda estou procurando o que é que deixei escapar enquanto segurava meus copos de bebida em outros lugares. Por que é que fui por um caminho e não por outro? Onde estão as pessoas que não sobreviveram a tão pouco?

Mas também não vou adoecer da mente apenas pelo que não vejo mais. Sei que essas pessoas também tiveram seus caminhos alterados e muitas delas já não estão sequer vivas pra contar suas versões. Talvez em algum lugar estejam sorrindo ou assombrando algum buraco no Centro da cidade. Por muito tempo imaginei que eu também teria um desfecho parecido, acreditando que morreria jovem e repentinamente, por álcool ou suicídio.

Durante a infância e adolescência, flertei muitas vezes com varandas e janelas. Meu sonho acordado preferido era me ver saltando delas. Mas eu não vim contar de momentos ruins, embora eu saiba que histórias tristes são sempre boas histórias. Eu queria refletir sobre o tempo, o momento, a saudade e qualquer mistério oculto que esteja entre essas palavras. Talvez eu não chegue a nenhuma conclusão, mas vou me satisfazer tentando.

Semana passada eu percebi que estava pronto pra recomeçar minha vida outra vez. As coisas que eu havia deixado pra trás já não tinham mais peso ou significado e, finalmente, tinha chegado a hora de eu limpar os resíduos dessas realidades. Minha memória estava favorável, me ofertando a certeza de que não errei em amputar coisas e pessoas do meu passado. E isso me motivou a construir coisas novas. Desde então, não parei mais de fazer.

Voltei a gravar trilhas sonoras, jingles e a reviver meu prazer com o piano. Em casa, tudo que não é realmente indispensável, está a venda. Estão surgindo novas pessoas, novos projetos, novos lugares, novos sentimentos. Esse ano concretizo coisas que há muito tempo não fazia. Estava com o talento guardado e provavelmente deixava de colocar em prática por desacreditar que poderia ou que valeria a pena. Hoje eu não me importo mais com as possibilidades de erro ou fracasso. Eu tento, faço, refaço, me mostro sem receio e vejo que isso é a melhor maneira de conseguir algum resultado.

Talvez os momentos perdidos que eu estava procurando sejam essas ações que antes eram mais sonho do que realidade. Talvez fossem aquelas peças gráficas estudadas lá pelos meus 13 ou 15 anos de idade, agora buscando expressão no meu trabalho como designer gráfico. Passados mais de 15 anos na Fotografia e depois da faculdade de Comunicação Social junto com a anterior tentativa de Ciências da Computação, deixei minha marca no passado e agora quero deixar uma marca nova no presente.

Revi tudo que era velho e reciclei o que podia. O restante foi diretamente pro lixo, já transmutado, sem rastro de vida. Hoje, o meu maior apego ao passado é apenas sobre a essência produtiva de cada momento. Mesmo aqueles momentos onde eu pouco fazia, mas que, de alguma forma, absorvi prazer e valor. Hoje eu me sento diante do computador e já não estou preso a coisa alguma. Até o smartphone perdeu a razão de ser.

Voltei a criar, voltei a vender, voltei a fazer acontecer. Estou gravando vídeos, escrevendo livro, criando música, esvaziando a casa e preenchendo a alma. Doei as minhas roupas; quero outras (e poucas). Estou conquistando novos espaços, novos abraços, novos motivos pra seguir meu caminho. Não alimento meu presente de passados, mas elejo o essencial de cada momento vivido e replico eles em coisas novas, pra que eu esteja sempre satisfeito em cada momento. A vida é feita da soma dessas boas memórias e é isso que eu quero fazer dos meus dias.

Chego a conclusão de que só perdi o que precisava ir embora e que agora, o momento oportuno, estou fazendo o possível e até um pouco do inimaginável. Estou encontrando o que sempre esteve comigo, estou deixando muita gente perdida que não entendeu que eu nunca estive em certos lados. Acredito que muita gente me enxerga ainda pelo que eu não fiz, sem saber que por trás de muita dor e inação, tinha muito mais do que um bêbado com um copo na mão. Eu não conto muito dos bastidores da minha vida. Eu prefiro o silêncio pra poder surpreender tal como um ninja.

De toda forma, convido cada um de vocês a descobrir um pouco mais da realidade. Em algum momento esbarraremos e viveremos experiências em comum. Lá você encontrará uma face ou fatia da minha personalidade. Que sobrevivam os capacitados e que não haja tempo de sermos alcançados. O passado durou uma eternidade e ao mesmo tempo escapou rapidamente pelas mãos em cada dia vivido. Hoje eu quero plantar mundos, sem perder a boemia suja daqueles olhos sem fundos. Parece dor, mas eu juro que é alegria. É o prazer de me reconectar a lugares onde eu nunca deixei de estar. Vamos lá?

Rodrigo Meyer