Prosa | Cozinhando o tempo.

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Às vezes, em um dia qualquer, de madrugada, vou à cozinha pra preparar alguma coisa. Não há muita diversidade, mas gosto de aproveitar o que está disponível pra misturar. Uma frigideira média, fogo alto, um pouco de óleo e as sobras de macarrão, podem ser um bom começo. Enquanto aquece, vou descascando uma cebola e fatiando pra obter os anéis. Em outra frigideira, as cebolas vão com um pouco de ervilhas. Se o dia permite, coloco um pouco de molho shoyu, apesar da bomba de sódio que isso é. Quando a cebola já está suficientemente mole, misturo com o macarrão e o prato está feito. Nada muito original, tão pouco difícil. Mas, a importância está no ato. Cozinhar é meu momento de me desconectar de todo o resto e pensar apenas naquilo que estou fazendo. É um dos raros momentos onde esqueço que a vida está trincada. Deve ser parecido pra quem pratica dança, faz artesanato ou algum esporte.

Sinto que quando o corpo está trabalhando em algo fácil e muito objetivo, há menos chances da mente sair navegando por outros mares. O trabalho manual traz esse contato com a realidade prática das coisas. Não sei se isso funciona da mesma maneira pra todo mundo. Eu encontrei esse refúgio ao acaso. Tem dias que cozinho de madrugada, mas às vezes me serve no final da tarde ou lá pelas nove da manhã. Depende muito mais do meu estado emocional prévio. Às vezes eu nem estou com fome, mas é bom ter algo pra fazer.

Se fosse apenas pra comer, bastaria uma mistura em temperatura ambiente ou vinda direto da geladeira. Nunca fui fã de comida quente. Tomava bebidas geladas inclusive no inverno e sempre tive muita frustração em queimar a língua quando estava desmoronando de fome, porque minha família tinha o hábito de fazer tudo fervendo de forma que ninguém podia jantar ou almoçar quando queria. Provavelmente isso incentivou que eu me dedicasse à cozinha desde muito cedo. Às vezes acordava de madrugada e ia cozinhar qualquer coisa, pra passar o tempo, ouvir um pouco de rádio ou assistir televisão. Nos últimos anos tenho feito isso novamente, com certa frequência. São momentos pra esquercer quem sou e onde estou, me concentrando apenas nos mecânicos atos de preparar a comida.


Já tentei os mesmos resultados por meio do artesanato, da pintura, da caligrafia e da música, mas nada disso me permitia me desconectar, porque eu me via obrigado a racionalizar diversas questões sobre aqueles processos e resultados. Com a comida me pareceu mais automático e descompromissado. Cozinhar parece ter um componente extra. Talvez seja a atenção ao ponto, ao fogo, o cheiro da comida ou qualquer outra coisa que a comida suscita. Então, eu cozinho e deixo esse espaço ser preenchido pelo estalo na panela, o barulho da faca e o ritual exercido pra que tudo dê certo.

Poucas coisas na vida têm essa simplicidade no ato. São coisas arraigadas na cultura média humana. Cozinhar nos lembra de todos os momentos em que dividimos a cozinha com gente querida ou, simplesmente, curamos a fome depois daquela ressaca de bebida. Comer é um ato universal e o momento em que estamos na cozinha nos conecta com esse lado essencial da vida. Também é assim no sono, no sexo ou quando ouvimos os animais ao redor. Talvez, de maneira similar, cozinhar seja um processo de reconexão com as coisas simples da vida humana, da natureza, da essência do que é viver.

Não sei se é exatamente a mesma coisa, mas percebo semelhanças entre o ato de cozinhar e aquelas cenas bucólicas que descrevemos sempre com um ar de poesia. O cheiro de terra molhada, o céu extremamente estrelado, as mesas rústicas de madeira, cidades simples, zonas rurais, pé no chão e pôr-do-sol entre as montanhas. Quando eu viajava pra lugares assim, eu esquecia do tempo, apenas sentindo cada momento e deixando a vida acontecer. Sem poder viajar, por enquanto, eu cozinho, escrevo meus pensamentos e me consolo com a possibilidade de um amanhã diferente.

É bom saber que estou escrevendo por um viés de esperança. Nem sabia que ainda poderia encontrar isso em mim. Talvez esteja dando certo a terapia na cozinha. Às vezes surge um cansaço ou um dilema e eu deixo passar, vou pra outro assunto, até o tempo trazer novidades. Uma noite de sono, um sonho diferente, às vezes, faz o amanhã ser melhor. Eu estava com muitas certezas sobre meus próximos passos, mas de um dia pro outro, uma conversa tirou minha firmeza. Agora estou ponderando o que me será mais fácil e mais palatável. Quero algo simples como o ato de cozinhar. Esse tem sido o meu modo de decidir as coisas na vida, depois de tantas frustrações.

Já não tenho disposição pra planos mirabolantes. Quero a tranquilidade no pensamento e uma vida simples. E isso não quer dizer uma vida sem aventuras ou emoções. Eu quero que a vida seja intensa, mas, sobretudo, que tenha consistência, espontaneidade, sinceridade e dignidade. Seria mágico se alguém me surpreendesse estendendo a mão e dizendo que tudo ficaria bem, mesmo que tivéssemos que atravessar o mundo escorados um no outro. A idade vai chegando e gera uma certa ansiedade estar à deriva. Sou alguém construindo novas portas nessa velha casa. Por algumas ainda se pode entrar, mas outras foram criadas apenas para sair.

Todo dia eu faço escolhas, tropeço, me escuto de perto, ouço novamente, mas nunca chego num veredito final. Eu sei que estou um tanto perdido, sem certezas de onde vou navegar. Os filmes que assisto me espantam com descrições fieis da realidade, quando mostram dramas psicológicos de pessoas mastigando a vida. Fora dos filmes, nos dizem pra mudarmos o foco da narrativa, prestar mais atenção nas coisas boas, nos momentos engraçados, mas eu ainda sigo cozinhando, tentando remendar meu cristal trincado. Talvez um pouco de silêncio na mente ajude. A vida pode não oferecer respostas, então, teremos que inventá-las, se quisermos ter algo pra acreditar que tudo vai melhorar. Mas eu fui teimoso, eu preferi a crueza da realidade e, nesse estilo de vida, não há doces ilusões que me desviem o olhar das coisas azedas e amargas. Talvez, a solução pra vida seja dançar com a ficção.

Podemos tentar largar as coisas ruins do mundo ou deixá-las mais afastadas do olhar e simplesmente nos concentrarmos em pequenas grandes ações. Quando estou muito destoante desse padrão estritamente positivista, sinto que estou fugindo de alguma coisa. Mas, do que é que eu estou fugindo? Quando eu fujo de tudo e de todos, talvez eu esteja fugindo de mim mesmo. Talvez, essa desconexão que eu sinto enquanto cozinho é a também uma fuga da realidade ou das coisas que não quero mais encarar. O mundo que, atualmente, parece intragável, nunca foi muito diferente do que é hoje. Então, a crise atual é só uma crise de saturação. Pode ser que essa minha angústia e a busca por novos lugares, momentos e sonhos, sinalize que algo dentro de mim está sempre me incomodando, me obrigando a correr pra longe de mim mesmo.

Prevejo que ainda tenho muito pra moer nas salas de terapia e escrever é parte desse processo, onde eu coloco pra fora meus pensamentos e questiono meus medos, inseguranças, defeitos, angústias, frustrações, desejos, objetivos e planos. Colocar tudo na minha frente me obriga a ver, a ler o que estou manifestando. Materializar o interior é extremamente importante. Quando vamos analisar a vida, não podemos nos limitar à textos técnicos ou críticas baseadas simplesmente na política e na História. É preciso tocar a natureza humana que nos habita, fazer reflexões profundas sobre nosso próprio ser e ver quais ferramentas temos à disposição para lidar com aquilo que encontramos. Melhorar a vida vai muito além de aplicar as ciências do lado de fora. Essa revolução interna é lenta, sem garantias e pode se arrastar por toda uma vida. Mesmo assim, tal como as revoluções políticas e sociais do lado de fora, devem ser feitas.

Quero que a vida seja um pouco mais palatável, mais fácil, mais amigável. Quero sentir algum prazer diferente, alguma emoção mais profunda, mais calor e um tempero novo, mas, também, a segurança de um trem que me leve pra casa depois de um dia difícil, uma fotografia que seja boa por muito tempo, um chuveiro quente, uma bebida esperando na geladeira, uma cadeira confortável, um abraço de quem se importe com a minha presença e sinta falta da minha ausência. Assim eu imagino que seja essa boa dança com a vida.

Para que eu me aproxime, novamente, dessas possibilidades, eu preciso continuar a sonhar e lapidar a qualidade do meu jardim. Sem os sonhos, todos nós já teríamos desistido de tudo e nos rendido às situações mais indignas, injustas e covardes. Precisamos enxergar nos nossos sonhos o componente da resistência, aquela fagulha que nos empurra pra frente. É importante ter a iniciativa e ir realizando, independente do tamanho dos nossos atos. Se pudermos ouvir o ritmo da música, precisamos nos manter dançando, criando, mudando. Mesmo com diversas saudades, eu não posso ficar preso no passado, senão meu futuro estará condenado. Para a comida não queimar, é preciso mantê-la em movimento. O corpo parado enferruja, assim como a mente, o coração, a razão, a cultura, a luta e a vida.

Estamos todos um pouco (ou muito) perdidos, tentando não adoecer em nossas próprias histórias. Mas viver do passado é sempre tarde demais. Se não vivermos o momento presente, não teremos nada além desse passado que não volta. Se é verdade que já não temos nada pra perder, vamos levando a vida no nosso ritmo até onde for possível. De repente, descobrimos um pedaço de bolo esquecido no fundo da geladeira ou alguém nos convida pra uma realidade diferente. Por mais que achemos que nada bom vai acontecer, temos que manter abertas as portas da alma, pois trancadas elas não nos oxigenam, não nos pulsa vida e não nos atrai nada. Nosso ser também é uma casa e para manter qualquer casa agradável, temos que varrer o chão, lavar as panelas, fazer outra comida, abrir as janelas, deixar o sol entrar, tomar um banho, mover o corpo e continuar nos expressando. E uma casa só emana vida quando tem alguém habitando.

Quando faço um pouco mais por mim, sinto que estou concretizando objetivos, mesmo que eles não sejam nenhum dos meus planos. São pequenas coisas no dia à dia que tornam nossa vida mais arejada, mais valiosa, mais digna de ser vivida. Se houver tempo, faça um macarrão e uma salada de brócolis, assista um filme desconhecido, cante uma música, escreva um texto, se permita algumas danças. Vista sua melhor roupa, confortável ou elegante e faça seu dia parecer especial e, talvez, ele acabe se tornando mesmo.

A bateria do carro descarregou de vez. Não teve mágica que desse conta. Reclamei por uns segundos, mas não havia o que fazer. Em breve eu dou um jeito, mas, por hoje, fiz meu dia terminar melhor. Ao invés de me render ao desprazer, fui comer algo gostoso, fiz um pouco de exercício e sentei pra escrever esse texto. Assim, me pareceu mais produtivo, fazendo algo simples pra que eu esqueça o problema e me mantenha no controle. Estou pegando o jeito da coisa. Se pensarmos demais nos revezes do nosso dia, a gente se afunda. “Cozinhando o tempo” é como nomeei esse modo de levar a vida. Sigo cozinhando o tempo pra ver o que me rende daqui umas horas, amanhã ou no fim do mês. Assim, nem vejo os dias passarem. Agora pouco era semana passada e, magicamente chegamos no começo de Agosto. Esse é meu plano pra chegar vivo do outro lado do mundo. Se a vida não me der muitos motivos pra sorrir, que, pelo menos, eu continue humano em cada minuto, me encantando, sentindo pequenas alegrias, apreciando piadas, aprendendo, ensinando, dividindo o tempo e suavizando o mundo enquanto for possível manter a mão estendida.

O que transmuta a dor da vida é tratar as pessoas com gentileza, oferecer carinho aos animais, olhar com curiosidade pra uma estrela que brilha diferente, descobrir um jogo novo, dar um livro de presente, olhar nos olhos de um amigo ou companhia, abraçar alguém que se sente invisível, entrar na brincadeira de uma criança, sentir o cheiro de uma planta, dormir debaixo do sol, elogiar a arte que te agrada, investir tempo em respirar corretamente, descobrir novas palavras no dicionário, ter sempre em mente que a diversidade é a melhor parte do mundo, cortar o próprio cabelo sem medo do resultado, passar menos tempo com aquilo que te irrita e dar apelidos aos gatos que encontra pela internet. Enfim, ressignificar a vida é se preencher de momentos pequenos, porém, melhores. É isso que eu tenho pra hoje. É isso que eu tive por muito tempo e ainda é isso que eu ainda gostaria de ter, talvez pra sempre.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Pessoas pelo caminho.

A imagem que ilustra esse texto é composta de diversas fotos fictícias, meramente ilustrativas e todas marcadas como livres para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Mesmo inteiro e, apesar de encontrar grande prazer em estar sozinho, às vezes penso quão bom é, também, dividir o silêncio com alguma companhia, onde a mente se encante de ver alguém que eu goste por perto. Quão bom é sentir um bom perfume, estar perto de alguém que olhe nos meus olhos enquanto me fala ou, simplesmente, sob a luz apagada, deixa que a voz chegue sozinha aos meus ouvidos, me forçando a prestar atenção, ao mesmo tempo em que relaxo quase à ponto de dormir. Incríveis sensações que gosto de relembrar com as pessoas que já estiveram comigo ou, tão bom quanto, com pessoas hipotéticas com as quais nunca me relacionei, mas imagino como poderiam ser. É tudo um jogo de saudades e idealizações. No final das contas, o que quero, sei bem, é alguém pra dividir o peso do mundo. Creio, firmemente, que duas pessoas caminham melhor se, ao longo da vida, tiverem alguém pra se refugiar. Pra mim, pessoas são casas, mesmo que extremamente temporárias. Elas são companhias e espaços de segurança com quem podemos contar pra alguma coisa, em algum sentido. E boas casas são o lugar perfeito pra passar o tempo e descansar, quando tudo o mais lá fora deixa de ser conveniente em algum momento. Podem ser apenas amizades comuns ou amizades coloridas, encontros casuais, romances, namoros, casamentos ou qualquer outra definição de companhia.

Nunca estive à procura de pessoas. Elas sempre apareceram espontaneamente na minha vida. Às vezes, eu facilitava o caminho cedendo logo no início, mas eram sempre elas que vinham me procurar. Não sei bem o que cada uma dessas pessoas viram em mim. Algumas diziam se encantar com o meu cabelo, meu olhar ou meu sorriso. Já me elogiaram pelo meu jeito misterioso, curioso e sensível. Já ouvi muitas possibilidades, mas é tudo demasiado fracionado e pequeno, ao meu ver, pra que alguém use como explicação pelo interesse. Talvez essas pessoas não soubessem descrever a química, a sintonia, a atração pelo perfume e o mais primitivo instinto em busca de satisfação da libido. Ou, talvez, seja um emaranhado psicológico agindo em busca de sinais inconscientes de compatibilidade.

Quando penso nas pessoas que cruzaram o meu caminho, fico ponderando se os eventuais próximos relacionamentos ocorrerão com pessoas similares ou se eu serei surpreendido por um futuro completamente novo. Depois que a gente entende que pessoas, além de diversas, também mudam ao longo dos meses e anos, seria bobagem esperar por realidades que só habitam a minha memória de um passado que, provavelmente, já não verei naqueles que cruzarem o meu caminho hoje ou daqui alguns anos. E, a bem da verdade, eu gosto disso. Todas as pessoas que eu conheci, tinham realidades muito distintas e surgiram em momentos da minha vida que também eram bem diversos. Já conheci pessoas diurnas, noturnas e indiferentes. Conheci pessoas de diversas aparências, diversas profissões e classes sociais. A própria mente dessas pessoas já eram um show à parte. A personalidade de todas as companhias sempre me surpreenderam em uma longa paisagem cheia de detalhes. Assim como pareciam interessantes em uma visão panorâmica, revelavam aspectos que demorei tempo demais pra perceber que estavam embutidos. Em muitos dos casos, foi isso que me fez perceber que, por mais bonito que seja um campo, se ele estiver repleto de minas terrestres, já não vale a pena ficar pra passear. Às vezes, quando descobrimos o risco, já é tarde demais e ficamos destroçados por uma dessas “explosões”. Por isso, aproveite o momento enquanto ele for bom, pois não sabemos quanto tempo vai durar.

Eu conheci pessoas com a sexualidade exagerada, pessoas românticas, frias, ingênuas, práticas, traumatizadas, melosas, tímidas, extrovertidas e também pessoas assexuadas. Conheci pessoas que tinham aversão apenas ao beijo, enquanto outras preferiam somente o beijo e nada mais. Conheci pessoas de pouco estudo e outras muito estudadas, pessoas com baixa autoestima, bem-resolvidas, sensíveis, artistas, dançarinas, musicistas, jornalistas, advogadas, desempregadas ou “donas de casa”. Estiverem por perto pessoas budistas, cristãs, umbandistas, kardecistas, bruxas, telemitas, ateístas e, claro, pessoas completamente indefinidas. Estive com pessoas de idades diversas e de muitos lugares. Com algumas dividi pouquíssimo tempo, por duas ou três noites, enquanto outras estiveram do meu lado por anos. As pessoas surgiram e ficaram por diversos motivos. Algumas queriam o amor que eu não tinha pra dar e outras queriam, explicitamente, apenas o sexo. Outras estavam confusas entre os dois mundos, diferente das que estavam bem decididas, mas muito mal intencionadas, fazendo teatro na esperança de me agradarem com uma fachada de mentira. Fui experimentando um pouco de tudo nessa vida, pra perceber a beleza e o horror que está em tudo, inclusive nas várias faces de uma mesma pessoa.

Haviam pessoas que eu raramente vi almoçarem, as que comiam o mundo sem nunca engordar, as que se ornamentavam ao extremo apenas pra trabalhar, as que saíam quase do mesmo jeito que acordavam, que estavam na vida por um pouco de aventura e as que queriam estabilidade. Estive ao lado de gente firme, centrada, maluca, deprimida, energizada, festiva, calada, prestativa, acomodada, megalomaníaca, sensata, xucra, simplista, viciada, alcoólatra, doente, quase morta, inocente e depravada. Havia gente do rock, do punk, do gótico, do samba, das raves, da música clássica e de outros meios. Passaram por mim pessoas tristes, felizes, desajustadas, grosseiras, desonestas, virgens atrasadas, mães, gêmeas, brancas, indígenas, mestiças, negras, asiáticas, de muitos tons, traços e etnias, com seus cabelos em tranças, dreads, longos, curtos ou raspados, pretos, vermelhos, azuis, verdes, cor-de-rosa, castanhos, loiros, ruivos, mistos e alternados.

Passaram na minha vida, pessoas genuínas, “de plástico”, com filhos, sem pais, trabalhadoras compulsivas, largadas, queridas, desgraçadas, lindas ou não tão bem lapidadas, almas boas ou nem tanto e pessoas que me deixaram confuso. Já pagaram as minhas contas e eu já paguei a conta de várias. Teve gente importante, desconhecida e intermediária, geeks, nerds, gamers, cosplayers, fetichistas, garotas de vida dupla, modelos e pessoas avulsas das quais nunca conheci nada. Houve gente que nunca achei que conheceria e que meus inimigos espumam até hoje por sempre terem desejado conhecer, sem nunca conseguir. A vida traça surpresas. Às vezes correr atrás das pessoas pode ser só uma forma de espantá-las ou de transformá-las num tesouro a ser conquistado por quem, antes, nem podiam notá-las. Relacionamentos tem muito do acaso. As pessoas certas, na hora certa, fazem o dia acontecer. Eu nunca fui de fazer planos. Decido minha vida em cima da hora. Se algo me cativa e merece meu tempo, eu fico pra ver o desfecho. Vi muita gente fazer planos gigantes e cheios de detalhes, mas, repentinamente, nada daquilo sequer havia sido possível e todo plano foi inundado de desnecessidade. Não há porque planejar relacionamentos, pois não controlamos o destino, muito menos as pessoas. As coisas fluem em seu modo particular e nosso único papel é se adaptar ao novo momento.

Se eu fosse tentar adivinhar quem seriam as pessoas possíveis pros meus dias atuais ou pro futuro próximo, eu teria que atropelar toda a razão e apostar numa figura randômica de qualquer lugar do mundo. Digo isso porque sei que não espero por ninguém, não tenho grandes exigências, exceto alguns valores e condições mínimas. Quero alguém que corra pelo lado da justiça social, que seja avessa à preconceitos e que esteja disposta a conhecer outros assuntos. Muita gente vai ler, mas não vai entender. Há quem vá olhar pra tudo isso e preferir acreditar em uma máscara, uma linda fachada ilusória, mas, na prática, não vai ter essa premissa, não vai saber como viver essa realidade de vida. As mesmas palavras, pra pessoas diferentes, suscita tantos significados divergentes que é quase que inútil descrever. Prefiro deixar, como sempre, a vida me surpreender. Que venham as pessoas que tiverem de vir e eu decido se o que elas têm pra oferecer é compatível comigo. E que elas façam o mesmo ao me verem passar. Relacionamentos deveriam se resumir à isso. Se há compatibilidade, reciprocidade, interesse e oportunidade, está feito o cenário pra se tentar uma companhia. E, no mais, ninguém é obrigado a ter uma companhia, nem a desejar uma pra se sentir vivo na vida. Façam dos seus momentos algo profundamente sincero, espontâneo e com o máximo de sentido pra você mesmo. Não fique à espera de agradar os outros só pra se encaixar em uma sociedade ou um relacionamento. Viver é, basicamente, o oposto disso. Se sentirá mais gente quando desfrutar, ao mesmo tempo, do prazer que quiser e da dignidade que precisa.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | A doçura do silêncio.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição utilizando parte da obra “Le Silence” (O Silêncio) de 1842-1843, uma escultura em gesso pintado do escultor francês Antoine-Augustin Préault (1809–1879), mais conhecido como Auguste Préault, exposta no ‘Baltimore Museum of Art’ cuja reprodução fotográfica é livre. A versão original em mármore se encontra no cemitério Pére Lachais, em Paris (França), adornando o topo da tumba de Jacob Roblès.

Tem algo de muito poético no silêncio. Nessa metrópole agitada é difícil encontrar um momento valioso desses. As pessoas parecem não se importar com o benefício que o silêncio traz ou, talvez, evitem o silêncio por se sentirem incomodadas com a pausa reflexiva que ele obriga. Quando estamos em pleno silêncio, sem ruídos que nos desviem a atenção, somos obrigados a lidar apenas com o que temos dentro de nós mesmos. Temos que olhar pra nosso corpo, pro nosso quarto ou pra linha do horizonte e atribuir algum sentimento ou pensamento sobre aquilo. E isso tudo seria completamente natural, se não tivéssemos criado uma infinidade de ruídos propositais para ocupar nossos olhos, nossos ouvidos e todos os outros sentidos.

As placas de comércio pela rua disputam nossa atenção, junto com o barulho dos carros, a música no rádio, os programas de televisão, a timeline das redes sociais e a conversa vazia entre as pessoas aglomeradas na rua, de noite ou de dia. É tudo uma maneira de nos desviar do silêncio. De forma intencional pelas marcas e personalidades buscando visibilidade ou de forma inconsciente pelo próprio público comum, fugindo daquele momento constrangedor que é ficar em silêncio e ter que preenchê-lo com alguma coisa que não venha de fora. É uma busca por automatismos confortáveis. Com o som do carro no último volume, não há espaço para pensar. A mente se ocupa por completo em tentar manter o carro livre de colisões enquanto tenta processar aquele ruído alto que já não é inteligível de fato, porque precisa não ser pra que funcione ao propósito.

Para uma sociedade que, majoritariamente, não fala outro idioma que não o próprio, é conveniente ouvir músicas em outros idiomas, pois aquilo que não é inteligível não permite que se faça uma análise do conteúdo ou uma reflexão. É praticamente isso que nos entregam todos os dias por meio das repetições quase que aleatórias da televisão aberta ou fechada e de uma esmagadora maioria dos conteúdos de internet. Você já deve ter ouvido a expressão de que a televisão faz companhia. É mais ou menos isso para muitas das pessoas. Elas utilizam esses recursos, traçando algum tipo de relação. É assim que fogem sempre do necessário silêncio. Necessário pra uns, pois pra outros é o mais puro terror. Vejo as pessoas correndo do chamado ‘silêncio ensurdecedor’. É compreensível que sintam esse incômodo, porque desligar tudo e prestar atenção em como as coisas realmente são, pode ser uma visão infernal. A realidade quase nunca é bonita, quando existem muitos monstros não dominados ou completamente desconhecidos dentro da mente das pessoas, das mazelas sociais, os dramas psicológicos, os traumas, medos e inseguranças.

Há um universo de gritos que surgem quando o silêncio é possível. São gritos que fazem muitas pessoas perceberem, por exemplo, que estão sozinhas, que são insuficientes, miseráveis, fracas, doentes, equivocadas, desnecessárias, inconsequentes, violentas, preconceituosas, ignorantes. Gritos que deixam a mente pensar, claramente, que essas pessoas estão perdidas, vivendo de aparências, cercada de amigos falsos, gastando dinheiro com o que não é importante e desperdiçando a vida com ilusões que fizeram elas acreditarem que as fariam se sentirem bem.

Mas, nem sempre o silêncio entrega os mesmos gritos. Isso é tudo questão de tempo, de costume e de lapidação. Para outras tantas pessoas, o silêncio é a oportunidade de aquietarem a mente, de terem de volta o tempo roubado pelos ruídos e, finalmente, produzirem algo novo, escrever um texto, ler um livro, fazer uma pintura, ativar memórias, se colocar diante do espelho e tentar encontrar seus erros e acertos. O silêncio pode nos entregar verdades duras, mas também podem ser a única forma de não negligenciarmos nossas realidades, nossas condutas, pensamentos, etc. Em última análise, só quem pode nos salvar é nós mesmos. Muitas pessoas poderão nos apontar as portas disponíveis, mas somente cada indivíduo é que pode atravessar essas portas para sua própria libertação e transformação.

Quando vamos à um psicólogo, analista, terapeuta ou psiquiatra, eles podem nos colocar questões que parecem simples, mas que carregam uma complexidade enorme quando tentamos atribuir uma resposta por nós mesmos. Não são eles que irão nos dizer as respostas para nossos dilemas, conflitos e medos. Eles estão lá apenas para nos fazer pensar, por uma trilha que pareça fazer algum sentido, dentro da linha de trabalho e conhecimento que eles possuem. A exploração da mente humana é, sobretudo, um trabalho de mastigação da realidade, onde somos obrigados a entrar em contato com nossos sentimentos e pensamentos. E não é exatamente isso que o silêncio nos proporciona? E não é exatamente por isso que esses profissionais da mente nos colocam pra falar enquanto nos ouvem pacientemente? É tudo uma questão de silêncio. Temos que nos ouvir, deixar a nossa voz interior falar, seja na frente de um profissional discreto, em uma sala convenientemente silenciosa ou durante alguma oportunidade no cotidiano, enquanto estamos tomando um banho, deitados na cama, parados em frente à janela, apreciando a madrugada ou viajando pra outro canto.

Infelizmente, muitos de nós não conseguem experimentar esses momentos, simplesmente porque vivem cercados de inevitáveis ruídos alheios. Eu mesmo, moro em um local bastante conturbado, em que qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada, o caos parece estar se renovando. É gente gritando o dia inteiro, carros de som no volume máximo vendendo itens que eu nunca quis comprar ou cuspindo uma música ensurdecedora que faz até os vidros da janela tremerem. É pura idiotice tentando chamar atenção. E se os criticamos depois de ficarmos enlouquecidos por não ter um mísero segundo de paz, corremos ainda o risco de sermos visto como os vilões. Nos roubaram o direito do silêncio, da paz, da reflexão, do sono, da dignidade. Não podemos mais nos conectar com nossas questões internas, sem que sejamos incomodados repetidamente por ruídos desnecessários. Somos reféns da falta de respeito alheia e, por fim, também perdemos a paciência que nos permitiria respeitá-los mais ou, pelo menos, detestá-los menos. Estamos em uma micro batalha diária, tentando simplesmente escalar as paredes pra fora do poço. Mas todos os dias somos jogados de volta ao fundo, simplesmente porque o silêncio assusta muitos e é desejado por poucos.

Em diversos países fora do Brasil, existem leis rígidas de regulamentação do silêncio que, felizmente, são levadas à sério na prática. O famoso ditado popular de que “o direito de um termina onde o do outro começa.” continua válido. As pessoas podem se expressar e serem quem elas quiserem, desde que não impeçam outras pessoas de fazerem o que lhes é de direito. E como é importante o direito ao silêncio. É um princípio que, se não está listado entre os Direitos Humanos, deveria ser incluso entre os primeiros itens. O silêncio não é só um capricho ou uma predileção. Ele é, talvez, a nossa única salvação. É por meio do silêncio que tentamos nos manter nos trilhos, de pé, sem desmoronar, sem nos perder pelos labirintos da vida. É nossa chance de, pelo menos, tentar tudo isso, mesmo que ninguém possa nos dar uma garantia de que vá funcionar. O direito ao silêncio é o direito de olharmos pra dentro de nossas próprias consciências, sentir o tempo, o peso e o valor das coisas. Há muito que se pode mudar no mundo coletivo e pessoal apenas pelo exercício do silêncio. E, talvez, por isso mesmo é que nos privam do silêncio em todo canto, a todo momento. Uma reflexão sincera sobre a vida pode nos fazer perceber quem e o que temos que derrubar ou apoiar. Quando vivemos explorados por uma minoria num mundo injusto, quem nos explora faz questão de que a massa de explorados não se aperceba das correntes que os impedem de conquistar a liberdade.

Lembre-se, contudo, que defender o direito ao silêncio, não significa censurar o barulho. As casas noturnas que vivem de tocar música pela madrugada, continuam a existir. Elas são feitas pra isso, construídas pra que o som alto de dentro não vaze pro lado de fora. Isso se chama respeito. Quando as pessoas podem escolher dançar e se divertir em um desses ambientes sem precisar acordar a vizinhança que quer dormir, o direito de ambos está preservado e todo mundo fica satisfeito. Comece a lembrar de todos os lugares onde o silêncio lhe é negado e você entenderá que nesses lugares não querem que você entre em contato com o sincero pensamento. Posso citar, de memória, as aglomerações ruidosas das pseudo-igrejas evangélicas, que empurram pela goela qualquer coisa que as preencha com um mar de ruídos. Melhor ainda se puder embutir o maior número possível de convenientes falácias que roubem a verdade do indivíduo e os devolva apenas o puro creme do preconceito, do comodismo, do fanatismo e da irracionalidade, até o ponto em que todos aqueles que se dizem cristãos, figuraram como os principais eleitores de um político fascista que, a bem da verdade, se visse Cristo pelas ruas, o mataria na primeiríssima oportunidade.

Por onde mais o silêncio não é entregue? Já tentou assistir um típico debate político na televisão, onde as pessoas mais gritam e se xingam do que apresentam suas propostas? O que é que essas pessoas estão fazendo ali, senão preenchendo o tempo do seu ouvido com o máximo de ruído possível? Vence a disputa no circo quem fala mais alto, quem dá a maior carteirada, quem soca mais forte, quem deixa sua orelha mais quente. Vence também os próprios canais de televisão que puxam sua atenção para algo completamente vazio de sentido, enquanto os verdadeiros problemas do mundo continuam acontecendo, longe das câmeras. Mas isso nenhuma grande mídia quer te mostrar, porque é só o constante ruído que importa. Querem te ver estagnado, mais burro, mais dominado, mais passivo e mais acomodado. Não querem que você se rebele e, se não puderem evitar que você sinta ódio por todas as injustiças da vida, tentarão te dizer que, nada disso justifica você quebrar umas vidraças, botar fogo numa praça, confrontar as quadrilhas fardadas ou derrubar os pseudo-políticos que invadiram teu país, tua sociedade, tua vida, tua casa e tua alma. Bom garoto! Um cão adestrado sempre ganha uns biscoitos, mas continua dormindo do lado de fora da casa.

Pois se não querem se conhecer e se libertar, continuem com o barulho, continuem se anulando dentro do seus próprios mundos. Apaguem suas histórias, suas memórias, suas verdades, suas dúvidas, suas indignações, seus incômodos e suas lembranças de injustiças. Se confortem com o som agudo do estalo do chicote, ecoando dia e noite sobre suas cabeças. Continuem a carregar dois pianos nas costas, rastejem por um prato de comida e sintam-se felizes de serem cuspidos na cara em mais um dia miserável, obedecendo aos mesmos modelos de vida, ditados por quem lucra bilhões sugando a vida da maioria. Façam do jeito que quiserem, mas lembrem-se de que varrer os problemas pra debaixo do tapete não os elimina. Cada dia de acúmulo a montanha de sujeira aumenta, atrai pragas e os contamina. Em algum momento, o entulho gerado será tanto que não haverá força suficiente nos braços pra se livrar de tudo aquilo em tempo. O relógio está correndo e eu só sei de tudo isso porque fiquei na doçura do silêncio por tempo suficiente. Volto pra ela sempre que posso e, se as pessoas do meu bairro colaborarem, volto e fico de forma quase permanente.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Cartas, saudades e novos substantivos.

Esse texto é ficcional, incluindo os personagens e os acontecimentos. Qualquer semelhança com pessoas e episódios reais é mera coincidência. A imagem que ilustra esse texto é meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Que saudade tenho de escrever cartas pra ela. Trocávamos correspondências como se fosse nossa única opção de contato, apesar da internet. Raramente nos víamos online. Me lembro como era gratificante abrir a caixa de correio e encontrar um envelope com a letra dela. Eu dedicava boa parte dos meus dias contemplando cada aspecto. Depois de retirar com o máximo cuidado a novidade da caixa de correio, levava pro quarto pra olhar mais de perto. Apesar da distância percorrida, o envelope se mantinha perfumado. Era como se eu estivesse conectado diretamente à ela, só de olhar para a carta.

Desde a primeira vez, adotei um padrão de corte na lateral, na intenção de preservar o máximo possível, quando fosse extrair a carta. Era caprichoso, quase que devotado. Adorava fechar os olhos e sentir o presente que eu havia ganhado. Observava o tipo de papel, o desenho das letras, o tom da tinta, os desenhos, a assinatura, os anexos cuidadosamente prensados, quase sempre flores ou folhas secas. Era agradável de ler, mas eu evitava de manusear por muito tempo, pois considerava o meu tesouro pessoal. Logo fui atrás de algumas pastas pra arquivar as folhas individualmente. Se tornou um ritual ou hobby e eu investi tempo e dinheiro nisso.

No final da noite, eu me sentava em uma sala fechada, ligava o rádio bem baixinho e deixava um abajur sobre a mesa. Enquanto ia relendo a carta dela, ia rascunhando a minha. Depois, quando acreditava ter dito tudo, fazia uma versão definitiva com a melhor letra que eu conseguia. Nem de longe eu alcançava a personalidade e a leveza da caligrafia dela, mas eu me cobrava pra ser legível e impor alguma beleza no que eu fazia. Fazia questão de escolher o tom da tinta e fechar o envelope logo em seguida, mesmo que só fosse enviar a carta no dia seguinte. Bons momentos em que estar ansioso era uma coisa positiva. Eu ficava entusiasmado, rindo sozinho e, se pudesse reparar, certamente veria brilho nos meus olhos.

Por muitas e muitas vezes repetimos esse processo de esperar pelo próximo contato, dedicar um tempo escolhendo alguns pequenos detalhes, desenhar palavras e prensar junto uma série de sentimentos e desejos. Ficava cada vez mais intensa a energia enviada e recebida naquelas cartas. Os envelopes quase que falavam sozinhos, tinha luz própria. E enxergar essa conexão tão peculiar com alguém, parecia ser a melhor e única forma de se viver a vida. Se pudéssemos, teríamos antecipado nosso relacionamento desde o primeiro dia.

Vivemos bons momentos, isso é inegável. A saudade que sinto hoje, me faz lembrar de cada um desses detalhes, porque tudo foi realmente muito importante. A saudade é exatamente isso. É saber que perdemos algo de imenso valor que queríamos ter por perto. Não quero especular como seria voltar no tempo e nem divagar sobre porque as coisas acontecem do jeito que acontecem. A vida se inicia, cresce, floresce e, claro, termina. Pessoas morrem, isso é natural. Cedo ou tarde, por um motivo ou outro, as pessoas deixam de nos fazer companhia. Lembrar que as pessoas não são eternas enquanto corpos, nos obriga a olhar pra nossa própria vida. Às vezes eu revisito minhas memórias, tentando me banhar desses momentos bonitos. Mas, se por um lado eles tem esse poder de nos encantar, por outro nos obriga a perceber que não temos mais aquilo. E, às vezes, isso dói, mas também há coisas que perdemos que são puro alívio.

Tenho saudade também pelo estilo de vida. Hoje já não tenho para quem escrever e, mesmo que tivesse, creio que não mais faria. Não é o tipo de interação que faz o devido sentido pra maioria das pessoas. Talvez o momento de escrever cartas já tenha passado e eu me tornei um triste saudosista. Talvez eu queira apenas reviver os sentimentos aos quais isso estava atrelado. Eu realmente não sei dizer. Sei apenas que são outros tempos, outras pessoas e até mesmo eu sou diferente. Me tornei alguém transformado por tudo que vi, vivi e venci, mas, sobretudo, por aquilo que não pude ver, não pude viver, muito menos vencer. Somos a soma de nossos acertos e erros, nossos fracassos e glórias. Se vivemos intensamente, é bem provável que tenhamos mais fracassos do que glórias. A vida não ameniza pra quem quer que seja.

O que faço eu com essa saudade? Onde enterro a minha vontade de escrever cartas? Talvez eu encontre outras formas de trocar tesouros, que não sejam simplesmente cartas manuscritas. Já pensei um bocado nisso e fiquei um tempo listando, de improviso, as coisas que eu gostaria de receber ou presentear, se houvesse alguém realmente digno desse momento. Muita gente não entende o valor das coisas, até que tenha recebido elas de alguém importante. Mesmo que seja um papel amassado, uma fotografia, uma peça de roupa ou um livro, tudo isso vira ouro, se nos causa um específico sorriso. São objetos que não possuem um valor especial em si, mas vindos das mãos certas viram tesouro no mesmo segundo. Foi muito bonito enquanto durou a sensação, mas depois de tantos anos, não havia mais nada que justificasse todas aquelas coisas acumuladas. Me livrei de cada uma delas, transmutando e ressignificando. Fica a saudade, claro, mas isso ainda pode ser discutido.

Quando olho pra esse buraco, sei que ele só existe, porque eu fiz disso algo que me ocupava mais do que devia. Se as coisas começam a pesar e nos impedir de seguir a vida, então é hora de mudarmos o valor que damos ao passado e nos empenhar mais naquilo que ainda temos pra fazer no presente. Não precisamos tentar apagar o que vivemos, pois nunca conseguiremos. Temos simplesmente que perceber que as coisas não são tão importantes como pensamos e que o peso delas na nossa mente, depende exatamente disso. Acho que é essa a resposta que eu preciso pra lidar com aquela saudade. Vou olhar pros meus próximos dias, tentando criar um mundo todo novo, longe daquelas velhas manias, aquelas histórias repetitivas. Tenho muito pra viver, muito pra dizer e, se eu não me sabotar, pode ser que eu vença a próxima partida. Vai depender dos novos hábitos que eu cultivar, das palavras escolhidas, das decisões que faço a cada dia. Eu mesmo dizia pra tanta gente quão importante era cuidar do próprio jardim e, por imenso descuido ou até acaso, eu parei de investir na minha própria vida. Mas, estejam avisados, principalmente eu mesmo, de que amanhã fará sol e eu serei minha própria notícia.

Rodrigo Meyer – Author

Conto | A casa 21.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia aleatória de metrópole, marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Todos os dias, voltando pra casa, percorria quase o mesmo caminho. Era inevitável notar uma certa casa, de muros baixos, sempre apagada. Parecia vazia. Não se via, nem ouvia, ninguém. Na frente, o mato tomava conta e as grades do portão já estavam bastante enferrujadas. Um dia resolvi diminuir os passos e olhar mais de perto. Foi quando me dei conta de que o telhado já corria o risco de se desfazer. Buracos no parapeito e uma certa deformação nas telhas, apontavam essa possibilidade.

Era estranho estar ali. Parecia que a casa é quem me observava. Me sentia até um pouco culpado de estar bisbilhotando. Mas, acho que muitas outras pessoas já tiveram a mesma curiosidade. Não seria possível que durante todo aquele tempo em que a casa ficou ao relento estragando, ninguém tivesse nem ao menos percebido que não havia mais gente morando. Dei uma última olhada e segui meu caminho, pensando um pouco sobre quem teria sido o último morador e porque a casa havia sido abandonada. Na falta de respostas, memorizei o endereço pra poder pesquisar mais tarde. Em casa, abrindo o mapa na internet, pude encontrar a rua, mas não existia aquele número. As imagens daquela rua não eram de mais do que dois anos atrás. E por mais que eu tentasse identificar pela arquitetura, não havia casa alguma que se parecesse com aquela.

Olho novamente o endereço, ando pelo mapa, pra tentar me localizar. Confirmo que estou na rua certa e até mesmo reconheço duas casas próximas. Tinha de ser ali. Onde foi parar aquela casa? Contava atentamente o número de cada casa, localizando o 20 e o 22. Do outro lado da rua, eram pra estar os números ímpares, mas seguia do 19 para o 23, sem nenhum sinal da casa 21. Quem olhasse apenas o mapa, talvez imaginasse que o vizinho comprou a casa ao lado e uniu sob o mesmo número. Mas, eu estive pessoalmente e lá estava a casa 21, bem diante dos meus olhos. Talvez fosse o inverso, eu pensei. Devem ter dividido novamente em duas casas, fazendo surgir novamente a casa 21. Mas, em menos de dois anos, como poderiam ter construído e abandonado uma casa que, na aparência, vê-se que está há muito tempo abandonada e deteriorando? Aquilo não se encaixava de jeito algum. Me esforçava pra entender qualquer outra possibilidade.

Achei que estivesse exagerando, afinal, deve haver uma explicação plausível para essa confusão. De certo, eu apenas não estava percebendo o óbvio. Decidi que na noite seguinte eu olharia novamente aquela rua. Tinha que voltar com uma foto, pelo menos, pra não haver dúvidas do que eu via. E assim o fiz. Voltando do trabalho, subindo a ladeira, não saia da minha cabeça esse momento. Entrei na rua com atenção redobrada, como se estivesse entrando em território proibido. E lá estava a casa, do mesmo jeito que ontem. Me aproximei e saquei meu smartphone para fazer umas fotos. Estava um pouco escuro, apenas com uma iluminação de um poste um pouco afastado. Mas era suficiente pra deixar marcado de forma legível o número da casa e a aparência da fachada. Aproveitei e registrei as casas ao lado. Talvez se eu não encontrasse uma resposta lógica, alguém poderia olhar as fotos e sugerir alguma explicação. Por via das dúvidas, pesquisei novamente o site de mapas e a casa continuava ausente. Olhando as imagens que fiz, tentei encontrar, então, as casas vizinhas. E lá estavam elas no site, tal como nas imagens que eu havia registrado presencialmente. Casa 19 e casa 23, vizinhas dividindo o mesmo muro, sem nenhum terreno ou casa 21 entre elas.

Ainda que igualmente estranho, parecia mais plausível que o site tivesse omitido ou censurado aquela casa. Mas que trabalho seria remover uma casa inteira, ao invés de simplesmente desfocar a fachada na imagem do mapa. Por outro lado, de que serviria ao site, eliminar essa casa, enquanto na vida real, ela continuava lá? Qualquer um poderia atestar sua presença, visitando a rua pessoalmente. Eu ainda não tinha uma resposta satisfatória e aquilo foi me incomodando. Ria na frente da tela, de nervoso e confusão. Talvez estivesse enlouquecendo. Alguém mais teria que saber daquela casa. Então, enviei as fotos e o link do site de mapas, pra uma amiga na internet. Se duas pessoas estivessem percebendo a mesma coisa, então teríamos algo concreto sobre o episódio. Alguns minutos depois, minha mensagem é respondida com um tom de humor e surpresa. De fato aquilo era estranho e nenhum de nós dois conseguiu entender bem onde foi parar a tal casa 21.

Rindo para não dar um nó na cabeça, comentei que parecia uma falha na Matrix ou algo assim. Pesquisei na internet se mais alguém já havia dito algo sobre essa casa, mas não encontrei nenhuma imagem ou comentário. Depois de um tempo olhando novamente as fotos e o mapa, volto para falar com minha amiga, mas fico ainda mais perdido ao não encontrar o contato dela. Era com se a conversa não tivesse ocorrido. Procuro pelo nome dela na lista de contatos e não está. Talvez, no meio da agitação, eu tenha conversado com outro contato, por engano. Olho as conversas recentes e a última é de ontem. Nenhum rastro do assunto conversado. Agora sim, senti pânico. Achei que estava enlouquecendo. Sumiu uma casa e agora sumiu uma pessoa. O que é que está acontecendo?

Me levanto da cadeira e sento na beira da cama, esfregando o rosto com as mãos, pra tentar me recompor. Me levanto preocupado, abro a janela e olho pelo bairro, pra ver se noto algo incomum. Tudo parece normal. Talvez eu estivesse sonhando e logo iria acordar. Me belisco, falo pra mim mesmo que quero acordar, mas tudo parece bem real, como sempre foi. Vou ao banheiro e lavo o rosto com água fria, mas nada disso muda a situação. Seria assim, tão repentinamente, que a vida me dobraria? Eu não tinha resposta alguma. Saí de casa sem rumo definido, andei pelo bairro, cheguei à avenida e segui caminhando. De repente os faróis de um carro me cegam por um instante e escuto ele derrapar. Não há tempo de reagir e percebo que vem na minha direção em um piscar de olhos. Da luz para uma imediata escuridão, sem me lembrar de mais nada depois disso, até o momento em que acordo em uma cama, com braços e pernas engessados, um colar cervical e dor pra todo lado.

Olho pro ambiente e não reconheço onde estou. É o quarto de uma casa que não é a minha, nem de ninguém que eu conheça. Não me recordo de ter passado por um hospital e começo a ofegar pensando como fui parar ali. Olho para os móveis no quarto, tentando encontrar minhas roupas ou o meu smartphone, mas não vejo nada que me pareça familiar. Um silêncio agoniante toma conta da casa toda. Sinto como se estivesse sozinho. As janelas estão fechadas e a única luz no ambiente vem do lado de fora do quarto, passando pela porta entreaberta. Chamo em voz alta por alguém, e minha voz ecoa pelo quarto. Não escuto ninguém. Penso que talvez eu tenha morrido e assim seria a realidade depois da morte. Mas, onde estariam os outros desencarnados? Tentei e não consegui me mover pra fora da cama. Estava quase que totalmente imobilizado pelo gesso e a posição. Tento voltar a dormir, na esperança de que mais tarde alguém apareça, mas a mente inquieta atrasa o sono até o corpo ser vencido pelo cansaço.

Depois de ter acordado pela segunda vez, me apercebo imediatamente que não estou mais com gesso algum e nenhuma dor. Ou foi tudo um pesadelo, ou muito tempo havia se passado desde minha última lembrança. O quarto parecia o mesmo, incluindo o terrível silêncio, exceto que agora parecia estar de dia, pela luz que vazava pela janela. Vejo que estou hábil pra caminhar normalmente, me levanto da cama e saio do quarto, tentando entender onde estou. A casa está toda mobiliada, mas tudo tem um aspecto antigo. Deve ser a casa de quem me socorreu. Mas, porque estou aqui e não na minha própria casa? Onde estão meus familiares? Não conheço ninguém que tenha uma casa como esta. Desço até o andar debaixo e encontro a porta da sala. Está destrancada e vou até a calçada, pra ver se reconheço ao menos o bairro. Imediatamente meus olhos arregalam ao ver que estou naquela maldita rua. Me viro pra ver a fachada da casa e é exatamente aquela casa 21. Meu coração acelera e sinto que algo de muito errado está acontecendo. Percorro a rua desesperado, olhando para as casas e retomando na memória o caminho que eu fazia todos os dias pra chegar em casa. Um tanto desorientado, levo um tempo até perceber em qual rua eu deveria entrar pra chegar na minha verdadeira casa. Encontro minha rua, reconheço meus vizinhos, mas não encontro minha casa. Novamente me vejo naquela mesma situação de antes, procurando os números, enquanto olho atento pra dentro da construções.

Toco a campainha das casas que conheço. Talvez alguém que eu conheça possa me explicar. Noto alguma movimentação em uma das casas. Alguém afasta as cortinas discretamente, mas logo fecha. Penso que logo apareceria na porta pra me atender, mas, depois de um bom tempo, vejo que fui ignorado. Aquilo não estava normal. Qualquer um dos meus vizinhos teria vindo falar comigo. Olho pro restante da rua e me lembro perfeitamente de tudo por ali. Apenas a minha casa não está mais. Me pergunto pra onde vou, se saio andando pela cidade, se espero aqui sentado. Tudo que sei é que não posso mais voltar àquela outra casa. Descalço, do jeito que saí da cama, caminhei pelo bairro, até encontrar alguma movimentação maior de pessoas. Reconheço os comércios e toda a cidade, mas não entendo o que aconteceu comigo. Sento em uma calçada, encostado no muro e fico por ali observando o movimento um bom tempo.

O tempo passa e percebo que terei de dormir na rua quando começar a anoitecer. Mas, me lembro de como tantos outros em situação de rua escolhem dormir de dia, pra terem mais segurança. Quando a noite vem, me esforço pra ficar acordado o máximo possível, até que a manhã chegue e eu possa encontrar um lugar pra dormir. Me sinto constrangido e apavorado. Eu tinha um trabalho, uma casa, eu tinha amigos, mas agora parece que estou em outra realidade e minha única opção é tentar sobreviver à todo esse desconhecido. Me pergunto se outras pessoas espalhadas pelas calçadas da cidade, debaixo dos viadutos, também não tiveram histórias bizarramente similares. Me parece mais preocupante não entender do que a eventual revelação dos fatos. Começo a frequentar os mesmos lugares, em busca de manter uma zona de conforto. À medida que novos dias surgem, começo a observar como as coisas funcionam pra quem vive na rua. Imito seus passos, tento fazer parte. E assim eu também desapareço no meio da sociedade. Hoje eu sei. É assim que as casas somem, que as pessoas se tornam invisíveis ou irreconhecíveis. É assim que nos roubam toda a personalidade, a sanidade e a humanidade. Somos expropriados da nossa própria vida, do nosso direito à realidade. Somos como fosse uma vida paralela, uma vida alternativa, uma outra sociedade. Somos pessoas que quase não se lembram mais dos verdadeiros nomes e, quando o passado é questionado, os olhos lacrimejam por sentir que existiram em algum momento, mas que já não sabem dizer se tudo isso foi loucura ou realidade.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Mais do mesmo.

Janela contra janela, duas casas lado a lado evitam de se olhar. Do lado de lá, a janela nunca se abre, provavelmente um hábito em busca de privacidade. Do lado de cá, fecho a minha porque evito a luz. Às vezes de noite, ou sempre que me sinto excessivamente sufocado, abro minhas janelas pra deixar o ar entrar. Não me importo que haja outra janela bem em frente, pois está sempre fechada, então tenho vantagem em abrir a minha sem perder a privacidade. E quando olho pra dentro do cômodo, confirmo a ideia de que não há nada pra se manter privado, porque nada relevante está acontecendo em nenhum momento. São só as cobertas desarrumadas em cima da cama, as garrafas de bebida em cima da mesa, nenhum quadro na parede, nada além de um indivíduo sentado numa cadeira, olhando pra tela do computador e procurando alguma surpresa que sabe que não virá. O smartphone se tornou inútil há muitos anos, se transformando num relógio de bolso, marcando, desnecessariamente, o tempo pra quem não tem compromissos ou horários demarcados. Qualquer momento do dia é completamente indiferente. Se acordo pela manhã ou pelo final da tarde, não muda em nada a rotina que se estende homogênea e inquietante por todo tempo. Não mudam as garrafas vazias de meses atrás, nem o computador constantemente ligado em cima da mesa, a cadeira sobrevivendo no mesmo lugar, a casa ao lado, o amontoado de casas sem reboco à se perderem na linha do horizonte, as canetas sem uso guardadas em uma caneca, a dor nos ossos, a fraqueza nas pernas, o cheiro de mofo, o chão frio, a angústia, a dor nos pulsos, o fígado inchado, as náuseas, o semblante destruído, a depressão corroendo a cabeça há décadas, a bagunça no banheiro, as marcas na parede, os longos períodos de sono seguidos por inquietantes horas acordado. Janela contra janela, sei o que tem atrás da minha. Mas, o que será que tem na janela ao lado? Passei tanto tempo me afundando no meu mundo que raramente me importei sobre o que estava acontecendo ao redor, desde que não me incomodassem com excessivo barulho.

Rodrigo Meyer – Author

Permita-se recomeçar.

Ouço muita gente citar o tempo como desculpa para a inação. Alguns dizem ter pouco tempo no dia, outros dizem ter pouca vida pela frente devido a idade e outros dizem que ainda são jovens demais para tomar certas decisões. Em todos os casos, usam o tempo como pretexto para uma inação, para fugir de situações das quais possuem, geralmente, medo.

Quando alguém está em um cenário de insatisfação naquilo que está vivendo, é comum que a pessoa desanime e não veja opções de recomeço. Mas sabe, apesar de tudo, que recomeçar seria algo benéfico, já que apontaria para um caminho de concretização de um ideal ou de uma possibilidade diferente daquela em que se via antes. A barreira para esse recomeço costuma se instalar na mente de muitas pessoas, tornando-as procrastinadoras ou negligentes sobre suas próprias realidades.

Em conversas com algumas pessoas, sondei o quão interessadas elas estavam em adotar recomeços em suas vidas, seja profissionalmente, no campo dos estudos, nos relacionamentos, na vida social, na troca de país, na iniciativa de escrever um livro ou começar um canal no Youtube, aprender a cozinhar ou terminar de ler aqueles livros que elas listaram um dia e nunca mais entraran em contato. Por mais engajado que eu estivesse em mostrar a realidade de todas essas opções, foi notório a reação exacerbada das pessoas em claro sinal de resistência para tudo isso. Algumas pessoas se declaravam desinteressadas de certas mudanças, mas não diziam explicitamente que era por conta de medo. Talvez admitir medo fosse, para algumas, uma maneira intragável de se verem sem a liberdade necessária sobre si mesmas. O medo paralisa e coisas paradas não repercutem. A pessoa que deixa de viver por medo, sofre em silêncio e muitas vezes sem nem saber porque sofre.

Outras pessoas, ainda que interessadas pelas mudanças, sugeriam repetidamente que mudar era difícil, que exigia uma lista de requisitos das quais elas não dispunham. Colidiam com qualquer tentativa minha de demonstrar que esses requisitos eram lendas e que a realidade disponível para as mudanças estava bem acessível. Contudo, eu deixava claro que a maior e única barreira pra determinados casos de mudança era simplesmente o ‘querer’ de cada indivíduo. Não se pode convencer ninguém a mudar se ele não quiser. A mudança, para todo e qualquer cenário da vida começa, primeiro, dentro do próprio indivíduo. É a mudança de paradigma, de pensamento, de postura e de valores que vai determinar as possibilidades de mudança no lado exterior, nas questões práticas da vida.

A exemplo disso, ninguém se atreve a mudar de país, por exemplo, se tudo na mente da pessoa ainda aponta que essa ação é errada, incerta, perigosa, pouco vantajosa, difícil ou impossível, dispendiosa, para poucos ou com qualquer característica de barreira que se atribua. Não ocorre a ação, se a mente não está minimamente alinhada com essa realidade hipotética. É natural que as pessoas tenham dúvidas sobre o dia de amanhã, sobre seus potenciais e sobre questões técnicas acerca daquilo que pretendem mudar, mas isso não é o mesmo que ter medo, insegurança ou desistência. Quando não sabemos nada sobre mudança de hábitos, por exemplo, procuramos a informação, antes de afirmar que é possível ou impossível, fácil ou difícil, interessante ou dispensável. Talvez algumas pessoas não saibam as opções existentes sobre novos modelos de trabalho, sobre como exercitar o corpo, como trocar de sistema operacional no computador, como abrir um comércio, como aprender um idioma, como adquirir o hábito da leitura ou como cozinhar com pouco dinheiro. Talvez não tenham a maior parte das informações que serão necessárias para a mudança em suas vidas, mas é exatamente por isso que a mudança é sinônimo de algo novo, de um passo em direção ao recomeço, ao aprendizado, à experiência, ao futuro, ao desenvolvimento, ao momento em que se olha para algo, se vivencia e se descobre mais daquele contexto. Fugir é que não ajuda em nada para aprender e vivenciar a mudança.

Quando eu era adolescente eu tive contato com softwares de modelagem 3D. Foi algo que me encantou por um tempo, devido as possibilidades de criação realistas de tudo aquilo que estava na minha mente. Embora eu não soubesse nada sobre meu potencial nessa área, nem soubesse nada especificamente das configurações atreladas a modelagem nos softwares, nem tivesse qualquer aspiração definida no campo profissional, eu me vi experimentando algumas opções. Assisti a tutoriais, entendi melhor os atalhos e me habituei a eles. Em pouco tempo, o que era improvável se tornou algo banal. Algum tempo depois, com a prática e o incentivo de um conhecido que também lidava com modelagem 3D, eu comecei a criar cenas mais complexas, experimentar materiais, efeitos, iluminações, recursos para renderização realista e até cheguei a montar um computador todo voltado pra esse alto desempenho requerido pra área. Não me tornei um artista 3D prolífico, nem dominei os softwares aos quais fazia uso, mas tive a grata oportunidade de gerar diversas imagens que me felicitam ainda hoje.

Olhar pra trás e ver que eu fiz algo na área, ativa a nostalgia e um orgulho somado com a memória positiva disso. Saber que fui capaz, que tentei e realizei, traz uma recompensa para o cérebro que me faz sentir prazer e motivação. Com isso eu me tornei muito mais ativo em outras atividades. Uma vez motivado, desenvolvi melhor meus desenhos em papel, minhas pinturas à óleo, minhas pinturas digitais, o desenho vetorial e o Design Gráfico, a própria Literatura e, claro, como fotógrafo, onde ampliei muito mais minha confiança artística, profissional, social, etc. Em resumo, ter me permitido aprender algo difícil como a modelagem 3D, repercutiu em toda a minha vida, porque mesmo que hoje eu não esteja mais modelando, todo o restante que eu faço, faço com motivação, com orgulho, com um histórico na memória e com um rastro de interação com as pessoas que conheci pelo caminho. Ter lembrado disso, me fez inclusive reabrir essa área no momento presente e voltar a estudar 3D, para, eventualmente, trazer essas modelagens como imagens descritivas de cenas nos meus livros ou até mesmo a criação de pequenas animações para os meus projetos paralelos. É improvável (ou pelo menos bastante incerto) que eu me torne um artista de 3D com os rumos que eu escolhi pra minha vida atualmente, porém eu nunca fecho uma porta, enquanto há a remota possibilidade de eu me beneficiar de algo em algum momento futuro.

Entendido o exemplo deixado acima, fica a reflexão para qualquer pessoa, em qualquer área da vida. É preciso estabelecer metas (até mesmo se a única meta for não ter metas definidas). Entender que a vida é dinâmica e que o futuro é uma surpresa constante, nos permite vivenciar mais profundamente cada um dos momentos presentes. Nada sei como será o dia de amanhã, mas quero que o dia de hoje seja o melhor possível. É isso que me coloca em uma postura aberta para a mudança. Se hoje aprendo algo que transforma meu pensamento, minha compreensão, meus valores, minha percepção, meus desejos, meus sonhos, etc., eu caminho, automaticamente, para uma realidade nova, para a mudança. E quando isso acontece automaticamente, acontece sem medos, sem barreiras, sem pesares, sem inseguranças. Mesmo sem saber nada sobre onde o rio vai desaguar, a água da nascente escorre com confiança e se entrega ao rio, percorre o rio, descobre as pedras pelo caminho, se molda por novas margens a cada distância que avança. O rio da nascente já não é o mesmo em nenhum outro ponto do caminho e a água se oxigena justamente por conta desse movimento. De certa forma ela é conduzida por uma série de contextos, mas é a força dela que registra o caminho possível de ser percorrido. Se a água for pouca e fraca, logo evapora, seca e o rio não se forma. Para viver uma vida intensa, com significado e prazer, é preciso deixar a vida acontecer.

Rodrigo Meyer – Author

Perdemos o que abandonamos.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2007, de autoria de Majorly, da ruína da prisão de Birkenau / Auschwitz, na Polônia.

Muitas das coisas na vida são baseadas num sistema de reciprocidade. É natural e automático que as pessoas queiram benefícios pra suas vidas, porém quando elas deixam de fazer o necessário em troca, elas acabam percebendo o distanciamento, o insucesso, etc. Um exemplo fácil é quando uma pessoa leva uma vida de pouco uso do cérebro e incorre em uma velhice com sinais de esclerose, demência, Mal de Alzheimer, entre outros. Médicos recomendam que as pessoas levem uma vida intelectual mais ativa para assegurar que futuramente não estejam nesses cenários citados. É claro que não é apenas a falta do exercício mental que leva pra esses desfechos. As doenças podem ter inúmeros fatores e boa parte é influenciada pela genética em tom de predisposição. Mas, em paralelo à isto, ocorre o chamado ‘fator ambiental’, que é só um nome bonito pra dizer que contextos, substâncias e ocorrências ao longo do crescimento da pessoa em sociedade (ou fora dela), podem funcionar como gatilhos que impulsionam ou ativam as doenças e características do corpo e da mente vindas da predisposição genética ou geradas de forma isolada ao longo da vida.

Se observarmos com um mínimo de atenção, logo vemos que isso se estende para inúmeros outros setores da vida. As amizades, por exemplo, se não cultivamos e não damos o devido valor, com o tempo deixam de existir. Aqueles números massivos de pessoas que os usuários nutrem nas redes sociais ou até mesmo “pessoalmente”, acabam se tornando só mais um número, se não houver um contato real, profundo e constante. A interação humana ganha sentido e valor quando ela consegue deixar um rastro no tempo. Claro que às vezes sentimos que algo já tem grande valor, mesmo que tenha sido breve, porém isso só se mantém intenso se for levado adiante. Perdemos facilmente os amigos, conhecidos, contatos de trabalho, simplesmente porque deixamos de participar da realidade deles e, consequentemente, eles da nossa.

Nos relacionamentos amorosos, vê-se bem como o abandono e o descaso, acabam por gerar a perda desse relacionamento. Mesmo que unidos pela formalidade ou um teto, inúmeros casais deixam de dividir cumplicidade, felicidade, amor e respeito, simplesmente porque alí já não era nutrido nada disso há muito tempo e adoeceu como um prédio em ruínas por falta de manutenção. O desgaste que vemos nas relações com as pessoas e o mundo são exemplos constantes para podermos observar e aprender que quando não somos mais ativos em algo, perdemos o direito da companhia, do desfrute, do amor, da alegria, do prazer, do significado, etc.

Outro exemplo de como perdemos pelo desuso, são os dons, talentos, habilidades ou similares. Se você é um artista e fica sem criar por muito tempo, é natural que você se torne menos capaz ou que tenha mais dificuldade para chegar nos mesmos resultados de antes. Tudo na vida exige que estejamos engajados o tempo todo, para não ficarmos pra trás. Se levarmos esse conceito para cenários políticos e sociais, também podemos perceber que negligenciar certos assuntos do país ou mundo, acaba nos tirando os benefícios, a qualidade de vida, as conquistas, as liberdades. Este ano, no Brasil, vimos como a ausência do pensamento crítico, da desconstrução dos preconceitos e da Educação em geral, pode gerar a ausência de todo ambiente sadio dessas temáticas. De tanto as pessoas negligenciarem a Educação, por exemplo, estão hoje, aos montes, aplaudindo um ignorante, que é fortemente embasado por um outro pseudo-intelectual que diz coisas insanas como “a Terra é plana” e sentem-se felizes de fazer parte de uma quadrilha que, em última instância, são tão ou mais ignorantes que seus próprios seguidores. Isso mostra que, se as pessoas não fazem uso do intelecto, o intelecto deixa de estar disponível pra elas. E quando isso ocorre, é só tristeza, pois não poderão perceber sua própria condição.

Ao menos nos outros setores da vida, nossas perdas podem ser um pouco mais fáceis de se notar, já que nem sempre comprometem a percepção e a intelectualidade. Um artista inativo, por exemplo, pode até reduzir suas habilidades em algum momento, mas, se tudo estiver bem com seu intelecto, ele saberá reconhecer sua condição, as causas disso e, se quiser, retornar para a condição anterior, treinando e se fortalecendo.

Nos últimos tempos eu estive distante de várias atividades práticas, mas nunca das temáticas em si. A Fotografia, por exemplo, que tive de pausar a prática, nunca deixou de fazer parte da minha realidade. Estive sempre aprimorando, estudando, vendo, compartilhando e pensando em Fotografia. Isso mantém minha mente ocupada com as informações, de maneira que o distanciamento não se concretiza. Enquanto sua mente estiver recebendo estímulos para uma determinada área do cérebro, para um certo assunto ou modelo de atividade, aquilo lhe será fortalecido automaticamente. Alguns gostam de fazer uma analogia entre o cérebro e um músculo, pois de maneira simbólica, o cérebro também pode “atrofiar” por falta de uso / exercício. A questão é que a mente humana é muito mais que simplesmente a parte orgânica. A estrutura invisível que não vemos é, talvez, a parte mais poderosa da nossa mente. É por meio dos nossos pensamentos e da organização das nossas sinapses em constelações de significado, que conseguimos definir se teremos uma mente mais poderosa, mais capaz, mais diversa, mais resistente ou se seremos levados a caminhos de degradação.

Gosto de associar a perda de vitalidade / saúde física e mental com a perda de direitos em geral, inclusive os direitos sociais e políticos. Se analisarmos os dois universos sob o mesmo preceito difundido à pouco, veremos que a inação de muitos diante de si mesmos e do mundo, os leva pra um caminho sórdido de Síndrome de Estocolmo, onde são manipulados por seus próprios opressores a se tornarem fiéis escravos, cegos e ignorantes de tudo que lhes ocorre de ruim. Não é de se espantar que recentemente, diante do desastre das Eleições de 2018, regadas à muita fraude, corrupção e Fake News, tenha surgindo a expressão ‘gado demais’ pra definir essa massa de eleitores sendo encaminhados para o abate social e intelectual, em troca de absolutamente nada. O triste é que, pela inação de uns, o prejuízo se estende também para os que sempre lutaram pelo uso e manutenção de seus direitos.

Por isso, fica a lição de que preservar e exercitar é sempre a melhor saída pra você não terminar ignorante, viciado, preconceituoso, fraco, equivocado, inexperiente, sem traquejo, doente, descontrolado e sem razão. Se você não quer se tornar um entulho na sociedade é preciso dedicar-se firme à sua própria transformação, dia após dia. Todo segundo que você abandona o seu potencial, você cava sua própria miséria. Seu sucesso pessoal (que é só o qual você tem algum controle), está relacionado com as ações que você faz pra si e pro mundo, numa relação de observação, contemplação, troca, ação, compreensão, transmutação, etc.

Tão importante quanto não ser teu próprio fardo, é não ser um fardo pra outras pessoas. Empenhe-se em ser alguém melhor todos os dias, longe de falácias, longe de discursos prontos, de bordões viciados e vazios, longe de pessoas mal intencionadas que transbordam ódio e reinam na escassez da intelectualidade, do bom-senso e da utilidade ao mundo. Fuja pra longe daquilo que te reduz, porque no final das contas, tudo que você vai precisar hoje, lá na frente e sempre, é estar de pé e pleno, mesmo que hoje você não ache nada disso tão preocupante ou iminente. As maiores desgraças da humanidade foram justamente as que foram negligenciadas e tratadas inicialmente como ‘não tão problemáticas’, ‘não tão absurdas’, ‘não tão nocivas’, ‘não tão extremas’ até que fosse tarde demais. O arrependimento foi certo e o passado não pode ser desfeito. Então faça algo de bom no momento presente e todos sairão ganhando, inclusive você.

Rodrigo Meyer – Author

Nenhuma ignorância ficará impune.

Independente dos sistemas sociais e das interações humanas, tudo aquilo que existe, traz consigo a inevitável consequência de sua existência. E o que isso quer dizer? Quer dizer que se existe uma fruta pendurada em uma árvore, haverá um momento em que ela cairá do galho ou será digerida por algum pássaro. Da mesma maneira, se uma pessoa chacoalha uma árvore carregada de frutos, alguns frutos poderão cair. Assim como nenhuma ação fica sem reação, a ignorância humana também não percorre sem consequências diretamente relacionadas.

Se pegarmos exemplos simples, já conseguimos demonstrar esse fato. Imagine que uma pessoa tente construir uma casa, porém sem nenhum domínio de engenharia, construção ou mesmo de física básica e empírica. Visualize uma pessoa tentando erguer 3 andares de pedras pesadíssimas, apenas apoiadas numa base frágil de bambu. O simples fato da pessoa desconhecer as propriedades de resistência do bambu, a torna ignorante nessa tentativa e traz como consequência a impossibilidade do feito e/ou um terrível acidente com as pedras quebrando o bambu e vindo toda obra ao chão.

Na vida, nem tudo que exige noção, conhecimento e controle da ignorância, são tarefas tão óbvias como estas. Ainda que estejamos em uma época dito “tecnológica”, ainda temos que enfrentar muita ignorância que sobrevive ou renasce do passado. A informação precisa chegar pra todos, porém vivemos tempos difíceis onde até a pouca informação começa a faltar e falhar. As pessoas já começam a crer, novamente, em ideias como ‘Terra plana’, resgatando um culto à ignorância que parece ser o centro de suas vidas. Haveria tempo pra simplesmente criticar essas pessoas, porém isso não contribuiria em nada para a melhoria do cenário. Deixemos que as críticas vazias fiquem somente entre os ignorantes. Tomemos pra nós, se objetivamos alguma melhora no mundo, o papel de transformar as pessoas ao nosso redor. Ainda que seja difícil fazer despertar o interesse pela cultura, sabedoria, intelectualidade, noção, razoabilidade, realidade, verdade, educação, etc., precisamos, pelo menos, tentar.

Tudo na vida tem um preço intrínseco que é dado automaticamente, conforme cada pessoa interage na realidade. Seja lá quem for e como for, tudo que for feito, pensado ou intencionado, trará uma proporcional consequência. Assim sendo, nada mais inteligente e útil do que tentar pautar suas ideias, ações e intenções em coisas coerentes, produtivas, positivas, que vão te retornar benefícios ao invés de prejuízos, que vão te abrir caminhos ao invés de lhe fechar portas, que vão lhe tornar alguém mais esclarecido ao invés de alguém mais facilmente enganado, que vão lhe dar mais paz ao invés de lhe tornar alguém que muito odeia e se torna inconveniente por isso.

Você pode jogar pedras para o alto, livremente. A liberdade é justamente poder fazer o que se quer, mesmo que seja uma idiotice completa. Contudo, em toda liberdade existe o preço da responsabilidade com a colheita obrigatória das consequências. Nada que fazemos vem sem consequências, mesmo que elas demorem a chegar ou a serem notadas. Inclusive, é justamente entre os ignorantes que estão as pessoas que menos notam a consequência das coisas, sendo isso, portanto, o principal motivo pelas decisões pouco inteligentes destes indivíduos. Quando assistimos conteúdos de humor, rimos, muitas vezes, das trapalhadas que o ser humano consegue fazer ou dizer. De alguma forma, rimos daquilo que nos parece incabível demais pra ser levado a sério. Contudo, séries de desenho animado como “Os Simpsons”, nos faz lembrar que grande parte da sociedade real é passível de piada. Se procurarmos com um pouco mais de sinceridade, certamente encontraremos em muitos de nós, inúmeras atitudes, pensamentos ou intenções, que nos tornam ridículos. Sabendo disso, precisamos estar preparados para lidar com essas questões, muito além do simples ato de rir e esquecer de tudo após o fim de um episódio televisivo.

A ignorância é o que faz, por exemplo, uma pessoa ser vítima fácil de uma notícia falsa ou um estelionatário. Quem desconhece a realidade, acaba por ser como um papel em branco que tudo aceita. Aquele que nada conhece sobre a vida, não tem parâmetros e nem memória pra se orientar sobre o que é suspeito, estranho, problemático, falho, inverídico, perigoso, etc. A criança que nunca viu o fogo agir, certamente, corre o risco de queimar a mão diante da curiosidade pela chama luminosa. O esclarecimento sobre os perigos do fogo e a reiteração de que o fogo é perigoso, através das demonstrações de como ele sobreaquece tudo, como ele destrói as coisas e como ele pode sair de controle se for negligenciado, são formas de instruir uma criança ou leigo sobre o funcionamento do fogo, o uso correto desta ferramenta e as precauções diante do tema. De maneira semelhante, instruir pessoas na sociedade sobre todas as demais questões, as ajudará a lidar melhor naquilo que elas não possuem, inicialmente, nenhuma prática ou afinidade.

Em situações difíceis como a do Brasil nos diversos setores, é preciso, mais do que tudo, investir pesado na transformação das pessoas, no discernimento da realidade, na valorização de si mesmas, na valorização do raciocínio, do conhecimento, da intelectualidade, do embasamento, do discurso, da reflexão e do preparo pra que estas pessoas transformadas sejam também agentes de transformação nos próximos indivíduos. É desse ciclo perpétuo que extrairemos alguma chance de nos tornarmos um coletivo que consegue desfrutar de cada vez mais qualidade de vida. Qualquer país com qualidade de vida (e, claramente, Estados Unidos e Brasil não são um deles), o investimento no que realmente importa é a prioridade sempre. No Brasil, a maioria dos políticos, por questões de agenda ideológica, parece ter como principal atividade a desvalorização de tudo que é urgente, justamente para enfraquecer a mente do brasileiro médio, tornando-o mais fácil de ser controlado e subjugado. É tarefa constante para tais políticos mencionados, ampliar, dia após dia, os mecanismos de cerceamento da autonomia, do aprendizado, da liberdade e da reflexão, tal como os exploradores da vida alheia que colocam cabrestos em cavalos e similares, para melhor poder conduzi-los até o destino, sem que os animais se distraiam com os perigos que os circundam. Aliado ao cabresto, está o freio, um mecanismo covarde colocado na boca do cavalo, que tensiona a língua para que ele desista de uma reação livre, pelo condicionamento à punição que é controlada pelas rédeas do explorador que o monta.

Para se ver próximo da tão sonhada liberdade e qualidade de vida, é preciso se aproximar de tudo que alguém lhe oferece rumo à transformação do seu ser. De nada adiantará ter acesso à uma Universidade, por exemplo, se sua consciência política e social é nula. De nada servirá um salário, se lhe falta discernimento sobre como fazer bom proveito do dinheiro. Toda conquista social deve incluir avanços paralelos em todos os setores. Entender seus direitos, seus valores e seus potenciais, lhe ajudará a tomar decisões mais inteligentes e úteis em tudo que você for fazer ou falar. Quando você tem bem claro na sua mente quais são as prioridades em determinado assunto, você consegue agir de forma coerente, se afastando da ignorância e, portanto, das consequências tristes dela. Em resumo, você ganha qualidade de vida, colhe coisas úteis por saber como plantar coisas úteis. Essa regra de realidade nunca vai mudar. Quanto mais você aprende, mais você reforça essa verdade. E quanto mais verdades um coletivo conhece, mais força tem pra exigir o necessário.

Se você observar a sociedade ao redor, verá um mar de gente errando e errando muito. Embora hajam todos os níveis de equívoco em uma sociedade, se a maior parte da população fica largada ao acaso, o grau dos erros começam a subir pra todos em velocidade espantosa. Por isso, a base é sempre a prioridade de uma ação. Você deve sempre tentar apoiar e instruir as pessoas que estão iniciando a jornada na vida. Repassar seu conhecimento e suas ferramentas de transformação para crianças, adolescentes, cidadãos que estão começando a ter noção de História, de Política, de Sociologia, de Economia, de Trabalho ou qualquer tema primário que afete ele diretamente em sua existência no coletivo. Você nunca conseguirá fazer uma pessoa vencer a si mesma, se negar-lhe o direito de se conhecer e de conhecer o mundo. Se a informação e o esclarecimento não chega em todos os cantos, é papel dos detentores da informação, levar isso a quem não tem. Mas, esteja atento! Isso não pode ser, jamais, um pretexto para o nefasto papel de levar ainda mais alienação às pessoas. Você não pode usar o pretexto da informação, para iludir pessoas, desinformá-las sobre a verdade, convencê-las a força de suas crenças ou preferências pessoais, fomentar pensamentos equivocados ou preconceitos, entre outros lixos tóxicos. Há uma frase de Paulo Freire que diz:

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”

A liberdade conquistada, quando realmente é uma liberdade, visa transformar o entorno em um coletivo igualmente livre. Aquele que desperta de alguma ilusão qualquer que seja, caso veja-se livre pela visão obtida, deseja que o próximo também tenha o direito a esta percepção. Mas, entenda que o direito não é um dever. Retornamos para a ideia de que as pessoas devem ser livres inclusive para errar, senão não é liberdade de fato. Montar uma casa em cima de um frágil bambu é um direito, mas tal ignorância de ato não virá sem uma consequência automática, como já explicado inicialmente. Dito tudo isso, quando uma pessoa conquista o direito de pensar o que quiser, ela arca com as consequências da gerência que faz de seus próprios pensamentos e atos derivados. Agora comece a pensar na consequência de tapar os olhos e a mente diante dos riscos de uma casa em cima de um bambu; de idolatrar políticos imorais que financiam notícias falsas pra tirar proveito fácil de ignorantes que acreditam em tudo; de pseudo-jornalistas que plantam o medo e a discórdia na população ignorante que torna-se facilmente reativa e inconsequente; dos carrascos que riem da cara de seus apoiadores que são pisados e usados em benefício próprio, etc.

A ignorância nunca lhe trará nada de bom, apenas prejuízos. Você nunca se verá livre, próspero, satisfeito, feliz ou com qualidade de vida, por manter-se ignorante sobre as coisas. Não conheço ninguém que prefira ser enganado por um estelionatário ou alguém que prefira ter a casa ruindo ao chão. Se ninguém quer levar prejuízo, porque é que algumas pessoas continuam fazendo as decisões erradas? Porque será que continuam construindo casas em cima de bambus e continuam desinformadas sobre a vida que lhes usa e abusa? A resposta é simples e direta: a ignorância está presente. A boa notícia é que ninguém precisa se contentar com a ignorância, podendo sempre dar espaço pra que ela venha a ser limpa, transformada e substituída em algo que agregue conhecimento, noção, valores, princípios, dignidade, compreensão, visão, velocidade de reação, etc. Quando você investe em você mesmo, se livrando da ignorância, você entende, entre outras coisas, que você é livre pra pensar sozinho, pensar fundo, pensar diferente, pensar de forma mais complexa e completa. Quando você rejeita a ignorância, você se ajuda, você constrói sua vida de maneira mais realista e assertiva. Foi assim com o pedreiro que aprendeu a fazer colunas e vigas, a montar lajes e paredes e a discernir a quantidade necessária de concreto, pra consolidar uma ideia de projeto. Tão importante quanto sonhar / desejar ter a casa construída, é saber como funciona a construção e quais os assuntos que você vai precisar dominar antes de se arriscar debaixo de toneladas de concreto.

Com essa analogia da construção, coloque-se no papel de morador de sua própria vida. Comece a construir sua sociedade, seu bairro, sua escola, sua família, seu grupo de trabalho, seu círculo de amizades, seu espaço de informação e apoio na internet, suas fontes de aprendizado, seu espaços para exercer arte, cultura, reflexão, interpretação de texto, interpretação da realidade, observação crítica e observação criteriosa. Comece a tomar voz para si e comece a ser independente. Como diz o ditado popular, a plantação é opcional às vezes, mas a colheita é sempre obrigatória. Então, escolha com muito carinho as sementes que você vai plantar, porque lá na frente, mesmo que você não tenha capacidade ainda de perceber, virão as consequências de tudo que você foi, fez, pensou, disse e apoiou. Não se deixe levar pelas coisas simplistas, evitando, assim, ser enganado e tropeçar justamente nos problemas que tentaram te vender como soluções. Abra o olho, senão vão implementar ainda mais projetos pra te manter em uma ignorância ainda mais funda. O sonho de muitos exploradores é ver seus explorados convencidos de que não estão sendo explorados, mas apoiados. As vítimas que se deixam levar por essa imensa ilusão, são descritas como tendo a chamada ‘Síndrome de Estocolmo’, onde o oprimido admira seu próprio opressor.

Esse texto se encerra subitamente, justamente pra criar o espaço necessário pra você exercitar sua autonomia e começar a completar o espaço com seus próprios pensamentos, a reflexão de tudo que aqui foi apontado e a oportunidade de, talvez, começar a planejar melhor o que é que você vai construir no presente, pra não se ver ainda mais derrotado no futuro. Seja lá qual for sua condição, estarei aqui pra continuar meu papel de luta, de esforço pela informação. Desejo que todos um dia, cedo ou tarde, encontrem-se no meio da realidade e consigam, pelo menos, compreender que precisam mergulhar mais a fundo e com sincera autonomia, pra conseguir chegar no bem-estar pessoal e coletivo que desejam, mesmo que estejam perdidos por uma vida confusa de conflitos e sentimentos desconexos, mesmo que tenham caído no equívoco do vício pelo ódio gratuito, pelas ações violentas ou desonestas. Se não é possível mudar as sementes plantadas no passado é, porém, possível escolher quais sementes plantar no presente e ter uma colheita melhor no futuro. Faça sua parte e, se precisar, solicite ajuda, sem precisar sentir vergonha, medo ou qualquer outra coisa que seja uma barreira pra sua mudança. Obrigado por ler e até breve.

Rodrigo Meyer

Quem é que avalia a genialidade de um gênio?

A imagem que ilustra esse texto, retrata Albert Einstein em seu escritório na Universidade de Berlim.

Quando olhamos os acontecimentos do passado, vez ou outra nos deparamos com figuras que foram classificadas, em algum momento, como gênios. Às vezes cientistas, filósofos, escritores, diretores de cinema, políticos, artistas, etc. A princípio, parece natural que alguém se destaque em determinado setor e seja apontado como um nome importante, uma personalidade de grande conhecimento, sabedoria ou estratégia naquilo que faz ou propõem. Ideias inovadoras surgiram derivadas da iniciativa destes que foram apontados em destaque como inteligentes, vanguardistas, líderes ou gênios. Mas, fica a a pergunta: quem é que avalia a genialidade de um gênio? Pressupondo que o gênio esteja acima da média das pessoas, sua genialidade só poderia ser compreendida por alguém de igual ou superior condição. E se fosse feito por alguém de superior condição, deixaria de enxergar, talvez, como gênios os que estão abaixo de seu patamar. Pensando estritamente na questão da hierarquia simples dos graus, um gênio está sempre acima dos que estão abaixo e, portanto, não cabe aos que estão abaixo medir ou compreender sua genialidade.

Que é certo que existem pessoas diferentes no mudo, isso não há de se negar, mesmo que quisessem. É verdade, também, que muitos dos que foram apontados como especiais em qualidades ou setores, de fato figuram como alguém que detém características e ações acima da média, fora do convencional. Portanto, se isso não muda, então há de haver mudança no modo como interpretamos a constatação da genialidade e da chamada “média da sociedade”. É o momento onde deve-se levar em conta que, entre as pessoas medianas, ou seja, entre as pessoas que detém pouca ou nenhuma variação se comparadas com a maioria de uma população, o parâmetro de classificação são elas próprias. Isso significa que uma pessoa mediana é apta a reconhecer outra pessoa mediana e fazer constatações sobre a similaridade entre estas. E, embora não sejam os alegados ‘gênios’, conseguem, por contraste, diferenciar uma pessoa mediana de um gênio, por conta de não conseguir enquadrar os ‘gênios’ no grupo das pessoas medianas. Em resumo, o simples fato de uma pessoa não se enquadrar no padrão mediano esperado, pode render à ela o título de gênio. E, claro, os gênios não são tidos como abaixo da média, pelo simples fato de que as pessoas medianas, por sua vez, já conseguiram compreender e classificar, a grosso modo, as pessoas que estão abaixo da média / abaixo delas.

Até aqui, pensamentos simples foram dispostos, dados óbvios ou quase óbvios foram esmiuçados a fim de deixar registrado o embasamento para o que desenvolverei a seguir.

Numericamente, a população mundial é sempre tida como mediana, mesmo que ao longo da evolução e história tenham desenvolvido habilidades, conhecimentos e tecnologias. Conforme a humanidade sobe de patamar em conjunto, a média humana também sobe. Bastaria citar que a capacidade do homem pré-histórico, deduz-se, era menor do que a do homem moderno, deixando claro que houve uma progressão coletiva. Assim como as pessoas medianas evoluem, os gênios também, seja pelo progresso individual, seja pela melhoria na capacidade de reconhecimento, aceitação e inclusão das figuras ‘geniais’ em destaque no coletivo mediano. De certa forma, o “gênio” só aparece quando as massas medianas estão minimamente prontas a notá-los e reconhecê-los. Quando digo isso, não significa que os “gênios” deixam de existir se não forem notados, mas que passam a figurar publicamente em destaque dotados do título de genialidade concedido quando há esse suporte das pessoas ditas ‘comuns’.

Há uma frase que diz “para os micróbios, o corpo humano é o Universo”. Muitos de nós, inclusive, nos sentimos particularmente assim, quando olhamos pra imensidão de estrelas, enquanto estamos presos em um planeta do qual não podemos sequer vê-lo por completo, sem ter que agrupar registros e lembranças ao longo de uma extensa e lenta caminhada por todos os cantos geográficos. Na questão da intelectualidade (ou da ‘genialidade’ se preferir), seguimos admirando qualquer coisa que nos pareça maior, porém somente até o ponto em que conseguimos compreender. Ou seja, para um leigo em astronomia, a Lua e o céu estrelado visível é a totalidade do Universo concebido, da mesma forma que a inteligência humana é vista até os limites da observação simples pelas pessoas de inteligência mediana. Ironicamente, a inteligência artificial tem mais chances de potencializar a si mesma do que o próprio ser humano que a criou. Fica a dúvida se isso é mérito da genialidade de quem desenvolveu a inteligência artificial na informática ou se é um acaso da própria Matemática fazendo o que nasceu pra fazer: formar potencial em si mesma de forma infinita, aguardando apenas a compreensão dos humanos.

Para a Matemática, os humanos são derivados e inferiores. Não somos infinitos em potencial e nem temos a precisão nata dela. Somos parte do que ela faz e do que ela é, mas temos pouco conhecimento e controle sobre ela. Precisamos, rapidamente, terceirizar nossas funções cerebrais pra que máquinas, robôs e computadores façam a difícil tarefa de tentar abraçar a imensidão de dados e complexidade das variáveis que dão realidade para a realidade. Em última análise, o Universo é simplesmente a manifestação completa, infinita e precisa de si mesmo, sendo, pelo menos até o momento, demasiado para a compreensão racional do parco ser humano. Nos limitamos, portanto, a contemplar o Universo não pelo que conhecemos dele, mas justamente pelo fato de que não é possível conhecer por completo o que é infinito. Tudo que se pode dizer do infinito é que ele é mais do que se pode compreender, por mais que se compreenda um tanto a mais a cada dia. O infinito é inatingível. Por outro lado, fora dessa poesia filosófica da cosmologia, nos limitando a falar superficialmente da realidade do ser humano e das nossas consciências enquanto cérebros formados e alimentados por conhecimentos, genética e químicas, tudo que sabemos sobre a genialidade humana é que ela é, a princípio, infinita em potencial, porém sem nos deixar ver quão longe ela pode chegar.

De forma divertida e mesmo assim, aparentemente, bem realista, Albert Einstein dizia:

“Só existem duas coisas infinitas: o universo e a ignorância humana. Mas eu não estou bem certo da primeira.”

Einstein, geralmente visto e classificado com um gênio na humanidade, em seu provável posto de visão, nota as falhas da humanidade e, mais do que isso, brinca com a ideia de que a ignorância humana é tanta que alcança a infinitude, mas que, por outro lado, nem o próprio Universo, a que se supõem ser necessariamente infinito, recebe de Einstein o título de infinito com todas as certezas, uma vez que o cientista reconhece a limitação dele em relação a infinitude do Universo, não podendo, portanto notá-la ou comprová-la, provavelmente pelo simples fato de que o infinito não é mensurável, uma vez que não tem limites a serem auferidos em definitivo. Essa simples afirmação de Einstein, nos coloca em reflexão sobre o que podemos observar, compreender, dominar e superar. De certo, a ignorância humana deveria ser possível de ser superada, mas, uma vez que compreendemos a infinitude das coisas, para qualquer direção que seja, recebemos como consequência o fato der que não se pode nunca superar em definitivo uma limitação. Isso vai de encontro ao que disse Sócrates, o filósofo grego:

“Só sei que nada sei.”

Sócrates, de maneira similar à Einstein, reconhece sua ignorância relativa, uma vez que vislumbra do alto da montanha de conhecimento e esclarecimento que subiu, todo o imenso horizonte além ao qual nunca sequer havia tocado ou visto de maneira tão abrangente e integrada. Assim, quando um astrônomo olha para a imensidão do Universo, entende, pelo menos, que aquele infinito é impossível de ser superado, por mais que se avance em estudos e explorações de mais e mais áreas. É preciso que alguém saia da condição de leigo, para erguer-se um pouco acima da multidão para constatar uma obviedade que antes não era percebida. Embora sejam obviedades depois de percebidas, eram ignoradas pelas massas, simplesmente porque difícil mesmo é enxergar o simples. Na vida, as pessoas seguem tentando ver as coisas como se dominassem o Universo, mas não dominam sequer a própria bolha de convívio em seu planeta, seu país, seu bairro, suas casas, suas famílias, seus relacionamentos e o interior de suas próprias mentes. Para não me prolongar demais, encerro esse parágrafo apenas dizendo que aquele que não reconheceu sua própria ignorância é o mais ignorante de todos.

Filosofar sobre a genialidade humana, principalmente quando elencamos só figuras clássicas, praticamente extraídas do mainstream, resulta em um texto um tanto quanto simplista. É verdade, contudo, que não se pode querer abarcar todo um assunto e nem mesmo se aprofundar tão mais longe que isso, quando estamos em um formato de mídia que exige ser conciso e objetivo. Um texto em um blog cumpre sua função enquanto conteúdo digital absorvível em certo contexto e tempo. Há muito que se falar sobre os potenciais humanos, as mudanças de paradigmas, as tecnologias, os aprendizados técnicos e práticos, as sabedorias, as filosofias, as propostas intelectuais e ideológicas de indivíduos e coletividades. Reconhecer que há essa imensidão pela frente é justamente fazer o mesmíssimo papel de Einstein e Sócrates de entrar com a progressão, sem deixar de reconhecer a própria limitação. Enquanto eu escrevo, eu dou voz para minha ignorância, mas também adiciono um pouco de reflexão, sabedoria e transformação a qualquer outro que desejar navegar junto em cada ideia anunciada. No final das contas, o ser humano encontra conforto na oportunidade de se ver acompanhado de outras figuras que acrescentem algum conforto ou que instiguem nele a curiosidade sobre algum tema ou sobre si mesmo. Desvendar os mistérios e as infinitudes dentro e fora de nós, nos permite tocar aquela área de contemplação das coisas geniais, sejam elas próprias ou alheias. É sustentando as discussões sinceras que conseguimos lapidar nossas limitações e sair dos cenários que não apreciamos. Podemos nunca nos vermos como completos, mas nosso desejo constante é tapar nossas incompletudes, mesmo que isso seja uma tarefa infinita. Só não deseja este mergulho constante, quem ainda não conseguiu enxergar em si mesmo a completa ignorância diante da infinita sabedoria. Perto da infinitude do Universo, somos explicitamente insuficientes, mas é exatamente por isso que não podemos parar de nos lapidarmos, senão corremos o risco de nos tornarmos incompatíveis com a coletividade que nos rodeia. Quando os absurdos da ignorância humana não fazem mais parte da maioria de um coletivo, os ignorantes acabam por ser dominados e afastados das questões que demandam competência.

Contudo, quando a ignorância se alastra demais, corre-se o risco de dividir espaços preocupantes com os esclarecidos. Uma sociedade que, por exemplo, é composta de 50% de ignorantes e 50% de esclarecidos, entra num conflito grande tentando dar prevalência para o bom-senso, a verdade e o conhecimento. É nestes cenários catastróficos, que um pouco mais de ignorantes pode acabar por arruinar uma sociedade que, provavelmente, vai tentar gerir o mundo conforme sua limitadíssima visão em oposição aos numericamente derrotados da oposição. Cenários assim podem ser vistos agora mesmo, sem uso de computadores especiais, sem grandes telescópios e sem a necessidade de teorias complexas de gênios como Einstein. Com praticamente nenhum recurso, estamos aptos a ver que, em vários lugares do mundo, as pessoas estão convencidas de que, aquela curta compreensão das coisas, é suficiente pra opinar sobre realidades das quais já foram vistas por pessoas melhor capacitadas. A única dica que posso dar é que procure encontrar sua própria ignorância para poder reconhecê-la. Se você realmente se considera inteligente e apto, vai adorar essa tarefa de observar-se com sinceridade e se, durante a tentativa, descobrir que não quer nem tentar, você já constatou que está inapto. Uma vez inapto, tenha ao menos a qualidade de caráter de deixar essas questões maiores para pessoas maiores e melhor preparadas. Não queira ser o leigo em Astronomia que se considera mais capaz que as pessoas de destaque dessa área. Não queira discordar de uma calculadora antes de ter noção mínima de como a Matemática funciona. Simplesmente não tente vencer naquilo em que você simplesmente não pode. Apenas lapide a si mesmo, amplie seu conhecimento, sua sabedoria e seus métodos de aprendizado. Somente quando se livrar de equívocos primários de lógica e argumentação é que terá os seus primeiros passos válidos rumo à qualquer direção que intente.

Rodrigo Meyer