Nenhuma ignorância ficará impune.

Independente dos sistemas sociais e das interações humanas, tudo aquilo que existe, traz consigo a inevitável consequência de sua existência. E o que isso quer dizer? Quer dizer que se existe uma fruta pendurada em uma árvore, haverá um momento em que ela cairá do galho ou será digerida por algum pássaro. Da mesma maneira, se uma pessoa chacoalha uma árvore carregada de frutos, alguns frutos poderão cair. Assim como nenhuma ação fica sem reação, a ignorância humana também não percorre sem consequências diretamente relacionadas.

Se pegarmos exemplos simples, já conseguimos demonstrar esse fato. Imagine que uma pessoa tente construir uma casa, porém sem nenhum domínio de engenharia, construção ou mesmo de física básica e empírica. Visualize uma pessoa tentando erguer 3 andares de pedras pesadíssimas, apenas apoiadas numa base frágil de bambu. O simples fato da pessoa desconhecer as propriedades de resistência do bambu, a torna ignorante nessa tentativa e traz como consequência a impossibilidade do feito e/ou um terrível acidente com as pedras quebrando o bambu e vindo toda obra ao chão.

Na vida, nem tudo que exige noção, conhecimento e controle da ignorância, são tarefas tão óbvias como estas. Ainda que estejamos em uma época dito “tecnológica”, ainda temos que enfrentar muita ignorância que sobrevive ou renasce do passado. A informação precisa chegar pra todos, porém vivemos tempos difíceis onde até a pouca informação começa a faltar e falhar. As pessoas já começam a crer, novamente, em ideias como ‘Terra plana’, resgatando um culto à ignorância que parece ser o centro de suas vidas. Haveria tempo pra simplesmente criticar essas pessoas, porém isso não contribuiria em nada para a melhoria do cenário. Deixemos que as críticas vazias fiquem somente entre os ignorantes. Tomemos pra nós, se objetivamos alguma melhora no mundo, o papel de transformar as pessoas ao nosso redor. Ainda que seja difícil fazer despertar o interesse pela cultura, sabedoria, intelectualidade, noção, razoabilidade, realidade, verdade, educação, etc., precisamos, pelo menos, tentar.

Tudo na vida tem um preço intrínseco que é dado automaticamente, conforme cada pessoa interage na realidade. Seja lá quem for e como for, tudo que for feito, pensado ou intencionado, trará uma proporcional consequência. Assim sendo, nada mais inteligente e útil do que tentar pautar suas ideias, ações e intenções em coisas coerentes, produtivas, positivas, que vão te retornar benefícios ao invés de prejuízos, que vão te abrir caminhos ao invés de lhe fechar portas, que vão lhe tornar alguém mais esclarecido ao invés de alguém mais facilmente enganado, que vão lhe dar mais paz ao invés de lhe tornar alguém que muito odeia e se torna inconveniente por isso.

Você pode jogar pedras para o alto, livremente. A liberdade é justamente poder fazer o que se quer, mesmo que seja uma idiotice completa. Contudo, em toda liberdade existe o preço da responsabilidade com a colheita obrigatória das consequências. Nada que fazemos vem sem consequências, mesmo que elas demorem a chegar ou a serem notadas. Inclusive, é justamente entre os ignorantes que estão as pessoas que menos notam a consequência das coisas, sendo isso, portanto, o principal motivo pelas decisões pouco inteligentes destes indivíduos. Quando assistimos conteúdos de humor, rimos, muitas vezes, das trapalhadas que o ser humano consegue fazer ou dizer. De alguma forma, rimos daquilo que nos parece incabível demais pra ser levado a sério. Contudo, séries de desenho animado como “Os Simpsons”, nos faz lembrar que grande parte da sociedade real é passível de piada. Se procurarmos com um pouco mais de sinceridade, certamente encontraremos em muitos de nós, inúmeras atitudes, pensamentos ou intenções, que nos tornam ridículos. Sabendo disso, precisamos estar preparados para lidar com essas questões, muito além do simples ato de rir e esquecer de tudo após o fim de um episódio televisivo.

A ignorância é o que faz, por exemplo, uma pessoa ser vítima fácil de uma notícia falsa ou um estelionatário. Quem desconhece a realidade, acaba por ser como um papel em branco que tudo aceita. Aquele que nada conhece sobre a vida, não tem parâmetros e nem memória pra se orientar sobre o que é suspeito, estranho, problemático, falho, inverídico, perigoso, etc. A criança que nunca viu o fogo agir, certamente, corre o risco de queimar a mão diante da curiosidade pela chama luminosa. O esclarecimento sobre os perigos do fogo e a reiteração de que o fogo é perigoso, através das demonstrações de como ele sobreaquece tudo, como ele destrói as coisas e como ele pode sair de controle se for negligenciado, são formas de instruir uma criança ou leigo sobre o funcionamento do fogo, o uso correto desta ferramenta e as precauções diante do tema. De maneira semelhante, instruir pessoas na sociedade sobre todas as demais questões, as ajudará a lidar melhor naquilo que elas não possuem, inicialmente, nenhuma prática ou afinidade.

Em situações difíceis como a do Brasil nos diversos setores, é preciso, mais do que tudo, investir pesado na transformação das pessoas, no discernimento da realidade, na valorização de si mesmas, na valorização do raciocínio, do conhecimento, da intelectualidade, do embasamento, do discurso, da reflexão e do preparo pra que estas pessoas transformadas sejam também agentes de transformação nos próximos indivíduos. É desse ciclo perpétuo que extrairemos alguma chance de nos tornarmos um coletivo que consegue desfrutar de cada vez mais qualidade de vida. Qualquer país com qualidade de vida (e, claramente, Estados Unidos e Brasil não são um deles), o investimento no que realmente importa é a prioridade sempre. No Brasil, a maioria dos políticos, por questões de agenda ideológica, parece ter como principal atividade a desvalorização de tudo que é urgente, justamente para enfraquecer a mente do brasileiro médio, tornando-o mais fácil de ser controlado e subjugado. É tarefa constante para tais políticos mencionados, ampliar, dia após dia, os mecanismos de cerceamento da autonomia, do aprendizado, da liberdade e da reflexão, tal como os exploradores da vida alheia que colocam cabrestos em cavalos e similares, para melhor poder conduzi-los até o destino, sem que os animais se distraiam com os perigos que os circundam. Aliado ao cabresto, está o freio, um mecanismo covarde colocado na boca do cavalo, que tensiona a língua para que ele desista de uma reação livre, pelo condicionamento à punição que é controlada pelas rédeas do explorador que o monta.

Para se ver próximo da tão sonhada liberdade e qualidade de vida, é preciso se aproximar de tudo que alguém lhe oferece rumo à transformação do seu ser. De nada adiantará ter acesso à uma Universidade, por exemplo, se sua consciência política e social é nula. De nada servirá um salário, se lhe falta discernimento sobre como fazer bom proveito do dinheiro. Toda conquista social deve incluir avanços paralelos em todos os setores. Entender seus direitos, seus valores e seus potenciais, lhe ajudará a tomar decisões mais inteligentes e úteis em tudo que você for fazer ou falar. Quando você tem bem claro na sua mente quais são as prioridades em determinado assunto, você consegue agir de forma coerente, se afastando da ignorância e, portanto, das consequências tristes dela. Em resumo, você ganha qualidade de vida, colhe coisas úteis por saber como plantar coisas úteis. Essa regra de realidade nunca vai mudar. Quanto mais você aprende, mais você reforça essa verdade. E quanto mais verdades um coletivo conhece, mais força tem pra exigir o necessário.

Se você observar a sociedade ao redor, verá um mar de gente errando e errando muito. Embora hajam todos os níveis de equívoco em uma sociedade, se a maior parte da população fica largada ao acaso, o grau dos erros começam a subir pra todos em velocidade espantosa. Por isso, a base é sempre a prioridade de uma ação. Você deve sempre tentar apoiar e instruir as pessoas que estão iniciando a jornada na vida. Repassar seu conhecimento e suas ferramentas de transformação para crianças, adolescentes, cidadãos que estão começando a ter noção de História, de Política, de Sociologia, de Economia, de Trabalho ou qualquer tema primário que afete ele diretamente em sua existência no coletivo. Você nunca conseguirá fazer uma pessoa vencer a si mesma, se negar-lhe o direito de se conhecer e de conhecer o mundo. Se a informação e o esclarecimento não chega em todos os cantos, é papel dos detentores da informação, levar isso a quem não tem. Mas, esteja atento! Isso não pode ser, jamais, um pretexto para o nefasto papel de levar ainda mais alienação às pessoas. Você não pode usar o pretexto da informação, para iludir pessoas, desinformá-las sobre a verdade, convencê-las a força de suas crenças ou preferências pessoais, fomentar pensamentos equivocados ou preconceitos, entre outros lixos tóxicos. Há uma frase de Paulo Freire que diz:

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”

A liberdade conquistada, quando realmente é uma liberdade, visa transformar o entorno em um coletivo igualmente livre. Aquele que desperta de alguma ilusão qualquer que seja, caso veja-se livre pela visão obtida, deseja que o próximo também tenha o direito a esta percepção. Mas, entenda que o direito não é um dever. Retornamos para a ideia de que as pessoas devem ser livres inclusive para errar, senão não é liberdade de fato. Montar uma casa em cima de um frágil bambu é um direito, mas tal ignorância de ato não virá sem uma consequência automática, como já explicado inicialmente. Dito tudo isso, quando uma pessoa conquista o direito de pensar o que quiser, ela arca com as consequências da gerência que faz de seus próprios pensamentos e atos derivados. Agora comece a pensar na consequência de tapar os olhos e a mente diante dos riscos de uma casa em cima de um bambu; de idolatrar políticos imorais que financiam notícias falsas pra tirar proveito fácil de ignorantes que acreditam em tudo; de pseudo-jornalistas que plantam o medo e a discórdia na população ignorante que torna-se facilmente reativa e inconsequente; dos carrascos que riem da cara de seus apoiadores que são pisados e usados em benefício próprio, etc.

A ignorância nunca lhe trará nada de bom, apenas prejuízos. Você nunca se verá livre, próspero, satisfeito, feliz ou com qualidade de vida, por manter-se ignorante sobre as coisas. Não conheço ninguém que prefira ser enganado por um estelionatário ou alguém que prefira ter a casa ruindo ao chão. Se ninguém quer levar prejuízo, porque é que algumas pessoas continuam fazendo as decisões erradas? Porque será que continuam construindo casas em cima de bambus e continuam desinformadas sobre a vida que lhes usa e abusa? A resposta é simples e direta: a ignorância está presente. A boa notícia é que ninguém precisa se contentar com a ignorância, podendo sempre dar espaço pra que ela venha a ser limpa, transformada e substituída em algo que agregue conhecimento, noção, valores, princípios, dignidade, compreensão, visão, velocidade de reação, etc. Quando você investe em você mesmo, se livrando da ignorância, você entende, entre outras coisas, que você é livre pra pensar sozinho, pensar fundo, pensar diferente, pensar de forma mais complexa e completa. Quando você rejeita a ignorância, você se ajuda, você constrói sua vida de maneira mais realista e assertiva. Foi assim com o pedreiro que aprendeu a fazer colunas e vigas, a montar lajes e paredes e a discernir a quantidade necessária de concreto, pra consolidar uma ideia de projeto. Tão importante quanto sonhar / desejar ter a casa construída, é saber como funciona a construção e quais os assuntos que você vai precisar dominar antes de se arriscar debaixo de toneladas de concreto.

Com essa analogia da construção, coloque-se no papel de morador de sua própria vida. Comece a construir sua sociedade, seu bairro, sua escola, sua família, seu grupo de trabalho, seu círculo de amizades, seu espaço de informação e apoio na internet, suas fontes de aprendizado, seu espaços para exercer arte, cultura, reflexão, interpretação de texto, interpretação da realidade, observação crítica e observação criteriosa. Comece a tomar voz para si e comece a ser independente. Como diz o ditado popular, a plantação é opcional às vezes, mas a colheita é sempre obrigatória. Então, escolha com muito carinho as sementes que você vai plantar, porque lá na frente, mesmo que você não tenha capacidade ainda de perceber, virão as consequências de tudo que você foi, fez, pensou, disse e apoiou. Não se deixe levar pelas coisas simplistas, evitando, assim, ser enganado e tropeçar justamente nos problemas que tentaram te vender como soluções. Abra o olho, senão vão implementar ainda mais projetos pra te manter em uma ignorância ainda mais funda. O sonho de muitos exploradores é ver seus explorados convencidos de que não estão sendo explorados, mas apoiados. As vítimas que se deixam levar por essa imensa ilusão, são descritas como tendo a chamada ‘Síndrome de Estocolmo’, onde o oprimido admira seu próprio opressor.

Esse texto se encerra subitamente, justamente pra criar o espaço necessário pra você exercitar sua autonomia e começar a completar o espaço com seus próprios pensamentos, a reflexão de tudo que aqui foi apontado e a oportunidade de, talvez, começar a planejar melhor o que é que você vai construir no presente, pra não se ver ainda mais derrotado no futuro. Seja lá qual for sua condição, estarei aqui pra continuar meu papel de luta, de esforço pela informação. Desejo que todos um dia, cedo ou tarde, encontrem-se no meio da realidade e consigam, pelo menos, compreender que precisam mergulhar mais a fundo e com sincera autonomia, pra conseguir chegar no bem-estar pessoal e coletivo que desejam, mesmo que estejam perdidos por uma vida confusa de conflitos e sentimentos desconexos, mesmo que tenham caído no equívoco do vício pelo ódio gratuito, pelas ações violentas ou desonestas. Se não é possível mudar as sementes plantadas no passado é, porém, possível escolher quais sementes plantar no presente e ter uma colheita melhor no futuro. Faça sua parte e, se precisar, solicite ajuda, sem precisar sentir vergonha, medo ou qualquer outra coisa que seja uma barreira pra sua mudança. Obrigado por ler e até breve.

Rodrigo Meyer

Crônica | Honestidade pra quê?

Até hoje me lembro daquela moça. A hipocrisia batia nos dentes. Apesar de evangélica, escolheu ir a um cartomante. Pra amenizar o papelão, decorou umas perguntas das quais nunca quis saber as respostas. Queria mesmo é saber de macho. Quem fica? Quem vai? Vale a pena tentar mais? Por dentro eu ria, por fora tentava explicar. A moça não entendia, fazia cara de quem estava bem-resolvida, mas era maior sua ansiedade em ouvir a resposta que ela queria do que ouvir a verdade. Por isso, insistia. Me perguntou umas cinco vezes o que é que ela deveria fazer. Não parecia pronta pra entender que estava toda errada, do começo ao fim. Tantos anos enroscada com um palerma e ele nunca havia apresentado ela para a família. Dois hipócritas, tentando fazer harmonia. Foi-se embora, mas fez sinal de que pretendia voltar. Estava realmente ansiosa pra ouvir eu ditar. Mal sabia ela que ditadura não tinha espaço por aqui.

Rodrigo Meyer

Nossas prioridades dizem muito sobre nossos valores e sentimentos.

Não é preciso ir muito fundo na observação pra saber que as pessoas tem prioridades diferentes. E os motivos por trás disso podem ser variados. Algumas pessoas priorizam o trabalho ao invés de relacionamentos, por exemplo. Outras pessoas, priorizam aparência sobre conteúdo. Há quem priorize o prazer acima das responsabilidades, há quem faça o inverso e há quem tente dar igualdade pra esses aspectos. Mas de que forma essas características podem contar algo sobre os valores e sentimentos das pessoas?

Se duas pessoas estão hospitalizadas e escolho visitar uma delas, crio uma prioridade. Se ambas estão na mesma gravidade de situação, a escolha pode ser baseada no valor ou sentimento que conferimos a estas pessoas. Priorizamos as pessoas e momentos a quem gostamos mais ou que nos dá aquilo que queremos mais. Pessoas interesseiras, por exemplo, podem, eventualmente, priorizar a companhia de quem lhe oferte dinheiro.

Outro dia, conversando com uma senhora sobre trabalho e relações sociais, ela me contava do descontentamento de receber convites para eventos que não tinha grande potencial de traçar contatos profissionais. Em resumo, se o evento não fosse recheado de pessoas influentes que pudessem lhe abrir alguma porta no âmbito profissional, ela simplesmente não tinha tempo, interesse ou paciência pra ir. Reclamava, inclusive, de quem prestava o convite a tais festas que ela julgava serem inúteis, afinal, sua prioridade naquele momento estava em trabalho e não em pessoas, amizades e diversão.

Deveria eu ter dito, com todas as letras, que a postura dela espantava as próprias oportunidades de trabalho. Costumo dizer que ‘suscitar trabalho exige não falar de trabalho.’ e que a melhor maneira de ser convidado para atividades profissionais é mostrar-se bom amigo, sincero e sem interesses. É muito mais sensato que as pessoas te valorizem como pessoa primeiro e que, por isso, estejam abertas a te incluir nas questões de trabalho. Quem vive por interesse, raramente percebe que nem todas as pessoas ao redor são como ela e que, muitas vezes, ela já foi desmascarada a tanto tempo que, por isso mesmo, há tempos não é convidada pra nenhum dos eventos que ela priorizava em razão dos potenciais contatos profissionais.

As pessoas precisam distinguir ‘relações de amizade’ de ‘relações profissionais’ ou, pelo menos, entender que relações profissionais, quando através de amigos, surgem depois da amizade preestabelecida. Logo, se quiserem ter benefícios advindos de qualquer relacionamento, precisam compreender melhor quem são as pessoas com quem estão lidando e quais as verdadeiras possibilidades ou prioridades que estão em jogo.

As prioridades das pessoas, apontam o que é que elas valorizam mais. Conto por experiência própria que as pessoas, geralmente, pouco se importam com as outras. Somos uma sociedade materialista e egoísta. As pessoas estão muito mais centradas em seus próprios interesses financeiros e bem-estar pessoal temporário do que em construir relações com o mundo, com as pessoas e com os valores que ajudam a mais gente viver melhor. Não é preciso ser um gênio pra ver isso.

Centenas de vezes estabeleci convites pra que as pessoas me visitassem, desde que mudei de casa. Queria que os amigos dividissem comigo meu momento de alegria pelo meu novo espaço de trabalho e moradia. Algumas pessoas se prestaram a isso e vieram olhar nos meus olhos novamente. Outras, pra evitar o desprazer de visitar quem elas pouco se importavam, simplesmente ignoravam a situação e seguiam suas vidas. Por vezes, entediadas em suas casas, mostravam que bufar de tédio ainda era menos ruim do que convidar um amigo pra sair, afinal, pra elas, esse “amigo” aí era qualquer coisa menos isso. Assim você descobre, facilmente quem são as pessoas que estão ao seu lado de verdade e as que só fingem proximidade enquanto você oferece o que elas queriam de fato. Por vezes queriam apenas dinheiro, bebida ou suas habilidades profissionais.

Pergunte-se onde estão as pessoas quando você está pobre, doente, morando longe, solitário, deprimido. As pessoas que queriam somente o oposto disso tudo e não a sua amizade, elas somem automaticamente. As que queriam sua amizade, sem interesses, continuam por perto, mesmo se você estiver na pior. E quando estamos felizes, saudáveis, atraentes, bem resolvidos financeiramente, as pessoas interesseiras brotam até dos bueiros para tentar uma reaproximação. Quando temos o que elas querem, elas aceitam cruzar metade do planeta só pra ir buscar essas migalhas. Triste.

Independente de como estejamos na vida, precisamos filtrar com cautela as pessoas com quem nos relacionamos. A maioria delas estão pelo mundo usurpando umas às outras, da forma que conseguem. Terminam sempre infelizes, acompanhadas de pessoas igualmente falsas em relações superficiais que não entregam nada além daquela pequenez que elas aspiravam desde o começo como prioridade. Essas pessoas descobrem, às vezes, quase sempre tardiamente, que essa prioridade delas não era a melhor das prioridades pra se ter.

Sempre vou me lembrar de quantas vezes me procuraram apenas pra pedir ajuda financeira. Pra algumas pessoas eu só tinha serventia pra isso e elas jamais pensariam em dividir uma atividade, uma saída pra beber uma cerveja ou uma conversa. Para essas pessoas, o dinheiro é prioridade. Se sobrar tempo elas fazem amigos reais. Para mim, a prioridade é fazer amigos. Se sobrar tempo penso em dinheiro. E com certeza, pessoas interesseiras não tem espaço na minha checklist. Qualquer coisa que eu faça no mundo é mais importante do que atender aos anseios de pessoas interesseiras. E ria comigo, por saber que muitas dessas pessoas buscavam migalhas, pois eu não era uma pessoa bem-sucedida. Pra essas pessoas, qualquer troco de pinga valia mais que uma amizade sincera. Pobre dessas pessoas que agora ficam sem o troco de pinga e sem a amizade.

Prioridades são grandes reveladores de nossos valores. As pessoas se mostram por dentro, quando, por exemplo, preferem namorar uma pessoa bonita por fora e feia por dentro. Mostram que se importam mais com a embalagem do que com o conteúdo. O prejuízo é todo delas, ao terem que conviver com um entulho embrulhado em papel de presente. Pra mim, vale mais encontrar uma pessoa bonita por dentro, independente de como seja sua embalagem. O benefício se torna todo meu.

As pessoas também se revelam interiormente, quando preferem perder um emprego do que serem coniventes com um preconceito, uma postura errada, uma fraude, etc. Quem se cala diante de um ato errado para manter seu emprego está dizendo que seu emprego vale mais que a honestidade e o respeito, por exemplo. Cada um é que sabe quais são suas prioridades. O mundo certamente seria um paraíso se as pessoas não tivessem essas podres prioridades. Eventualmente, problemas surgiriam, claro, mas seriam lidados sem conflito, sem desprazer, sem pisar ou usar os outros e sem colocar dinheiro, poder ou influência social na frente do respeito humano, do bem-estar físico e psicológico das pessoas.

E você? Quais são suas prioridades? Você atira no próprio pé apenas pra não deixar de atirar? Ou você é daqueles que valoriza mais a integridade de seu pé do que um banal e desnecessário disparo, ainda mais se for contra si mesmo? Pense sobre isso e vai ver que, todo aparente benefício passageiro e superficial, não leva ninguém a desfrutar de momentos realmente bons. Existe uma ilusão de vitória e bem-estar nas pessoas que tentam extrair somente benefícios egoístas das relações. No final das contas elas terminam sempre vazias, tristes e cercadas de pessoas que não as valorizam por dentro. Além disso, viver e propagar esse modelo, só faz com que o ambiente ao redor seja igualmente tóxico e completamente desinteressante. Em qual realidade você quer viver? A sociedade é apenas a soma dos indivíduos. Se a sociedade não é interessante, a culpa está em cada indivíduo dela. Se cada pessoa mudar a si mesma, o mundo mudará automaticamente.

Rodrigo Meyer

Dizer a verdade gera inimigos. Como proceder?

A imagem que ilustra este texto é parte da obra “Pain and fear, pain and fear for me, alive or dead, no hope, no hope.”, de Nicholas Nickleby (1875, talvez), obtido pelo “Fondo Antiguo de la Biblioteca de la Universidad de Sevilla”, na Espanha.

Qualquer que seja o ambiente ou situação, existe, infelizmente, uma barreira presente na sociedade diante do que é dito. Como já consagrado pelo ditado popular, existem as mentiras doces e as verdades amargas. E uma sociedade composta de imaturos prefere o aconchego do doce, mesmo que seja uma mentira. É compreensível, mas não é saudável, então é preciso que façam decisões sobre isso, pois nem tudo que parece bom ou ruim, é de fato.

Estabelecida essa premissa, precisamos entender um pouco mais sobre como as pessoas se relacionam com a comunicação. Quando conhecemos alguém, estabelecemos máscaras de comunicação que ofertam nossos ideais de interação e uma dose de respeito como premissa de convívio social e aproximação menos agressiva, pra não gerar afastamento e defesa. Queremos estabelecer contato e pra isso facilitamos o contexto pra que possamos ter mais sucesso na tentativa.

Começamos quase sempre tranquilos e sorridentes. De alguma forma isso contagia a pessoa e coloca o espectador a nossa frente também em postura mais tranquila. Desde que seja convincente, o outro lado sempre se molda ao que oferecemos. É impensável imaginarmos que alguém reaja violentamente à algo positivo e agradável, exceto se a pessoa tiver alguma tipo de distúrbio mental que cause reações anormais. Aliás, tocar nesse tema, nos faz lembrar que, embora não exatamente doentes no sentido mais drástico, a maioria de nós tem condutas patológicas em algum nível. E isso é tão comum que chegamos a dizer que é ‘normal’. Não é normal mas é comum de tal forma que aceitamos com menos ressalvas e assim vamos empurrando com a barriga os problemas sociais e psicológicos nessas relações pouco produtivas.

Uma das coisas mais difíceis da comunicação é plantar verdades. A verdade em si não é necessariamente agressiva, mas quando entra em contato com um receptor fragilizado e adoentado, ela age como um álcool em contato com uma ferida exposta. Faz arder, incomoda, revela que ali há um ser frágil com problemas que se contrastam com a ação do álcool. Mas, não podemos dizer que o álcool é agressivo. É apenas álcool. Se passado em uma pele sem feridas expostas, nada causa, além de frescor e limpeza. Então, claro, o problema está na ferida exposta. É a partir disso que precisamos entender a comunicação.

Quando entregamos uma informação realista pra alguém, há duas possibilidades. Ou essa pessoa está fragilizada e reage com incômodo diante da verdade / realidade ou aceita tranquilamente, reflete, tira o proveito possível e segue adiante. A pessoa saudável e equilibrada não está em situação que possa se sentir atacada por algo que não ataca. A verdade passa a não parecer ‘amarga’. Exatamente por isso, a pessoa acostumada a preferir verdades não tem interesse pela mentira que só acumula irrealidades inúteis. Então, de certa forma, a mentira é que se torna amarga. É o caso, por exemplo, quando desprezam um mentiroso, bajulador ou um contexto de enganação. E isso tem muito impacto em grupos e culturas. É preciso vigiar.

As pessoas gostam de ouvir que são as melhores, que são bonitas, inteligentes, divertidas, agradáveis, interessantes e capazes, mas nem sempre isso condiz com a verdade. Algumas vezes, se quisermos ajudar alguém, teremos que expor as realidades pra pessoa com objetivo de fazê-la entender onde ela precisa mudar ou melhorar. Com a mentira não conseguimos ajudar nada nem ninguém. Se alguém vai pleitear uma vaga de emprego e não preenche os pré-requisitos pra vaga, é inútil fingir o contrário. O mais assertado é dizer-lhe onde ele precisa investir pra chegar a ter o mesmo que a vaga exige.

A verdade é extremamente desejável por quem sabe que ela não é nada mais que a verdade e que, portanto, ela é indispensável pra quem quer parâmetros pro seu progresso. Quando recebemos feedbacks, podemos virar os olhos pra algo que não estávamos notando na ocasião. É importante que as pessoas digam o quanto estamos acertando em um relacionamento, em um trabalho, uma atividade, um projeto, uma conduta social, um papel, um modelo de encarar a vida, uma visão diante de um tema, etc.

Mas raramente isso vai ocorrer, porque a maioria das pessoas não está nesse patamar de equilíbrio diante das críticas. A maioria delas sequer está pronta pra aceitar avaliações sobre si, pois possuem complexos e inseguranças que as fazem resistir ao contato com a verdade, como uma proteção.

Ciente de que as pessoas não se ajustarão da noite pro dia, temos que lidar com o fato de que, por muito tempo adiante, a grande parte das pessoas ainda se converterão em nossos inimigos, caso tentemos expor verdades. Dizem que no topo é solitário. E essa é a exata expressão de como a subida pela montanha do progresso nos faz percorrer trilhas cada vez menos habitadas, justamente porque a maioria demora mais pra progredir, ao se prender a dores e receios que as coloca sempre na desistência do necessário. Recusam uma verdade hoje aqui, outras duzentas verdades ali, e quando se dão conta se afastaram de todos os importantes feedbacks que poderiam ajudá-las a se tornar pessoas melhores em menos tempo. Essa diferença de aceitação da realidade é que gera diferentes níveis de progresso entre as pessoas e é tão somente por isso que umas estão mais ao alto na montanha e outras mais abaixo. Mas todos temos potencial pra nos transformarmos. Basta pararmos de negligenciar o necessário e automaticamente vamos arrumando os problemas e avançando de nível na nossa própria vida.

Embora isso pareça fácil e óbvio, é complexo. E muita gente sabe que, embora seja o certo a se fazer, evita mudar, pois sabe que mudanças geram incertezas. Sabem, sobretudo, que se mudarem pra melhor, ficarão um pouco mais solitárias, pois há menos gente ao nosso lado quando somos um álcool pra tantas feridas expostas. Vamos torcer pra que as feridas se fechem e as pessoas superem a realidade, passando a usá-la como degrau e não como ofensa. Aprender é simples, mas como dizem, “difícil é fazer o simples”. Vamos mudar o mundo? Pra isso precisamos, primeiramente, mudar a nós mesmos.

Rodrigo Meyer

Vício em lixo é falta de amor-próprio.

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Todo mundo conhece alguém que já aceitou situações ou pessoas que não deveria. Conhecemos inúmeras pessoas que consomem produtos, mídias ou serviços que são absolutamente dispensáveis. Isso nunca foi novidade. O vício em lixo acompanha o ser humano há eras, pois a humanidade não mudou muito ao longo do tempo. Estamos claramente vendo que o ser humano aceita todo esse prejuízo porque não tem amor-próprio. E isso não precisa ser assim.

Pense da seguinte maneira: se você gosta de alguém, você dá um presente à essa pessoa, algo bom, interessante. Certo? Não há como dar papel higiênico usado como presente de aniversário pra alguém, à menos que você não goste da pessoa. Estamos entendidos?

E quais são as coisas que você anda se dando ao longo da vida? Quem são as pessoas com quem você está se relacionando? Em quais situações você se coloca? Que tipo de ocorrências você permite em seu meio? Você absorve as ofensas que lhe entregam ou as recusa? Você acredita na palavra dos opressores ou dos amigos? Qual a qualidade dos amigos que você mantém? Tudo isso (e muitas outras coisas) são os presentes que você dá pra si mesmo. Agora é só analisar se esses presentes são bons ou ruins.

Se estiver se dando muito lixo, então você não está se gostando. E se esse for o caso, precisa trabalhar sua mente, suas memórias e seus traumas. Porque razão passou a se ver sem valor a ponto de não gostar de si mesmo? O que te fez chegar ao sentimento de inferioridade que tem? E se isso veio de alguma situação ou pessoa, me diga algo simples: você quer se dar presentes bons ou a opinião de pessoas e situações que te reduzem? Se quer se dar presentes bons, terá, automaticamente, que apagar a importância dessas pessoas ruins que te fizeram sentir-se inferior ou sem valor. E, então, automaticamente, você se empodera, se recoloca no seu lugar e deixa de se sentir inferior. Você começa a se valorizar, se gostar, ter amor-próprio. Esse é o começo da sua nova vida. É daí que vai se estruturar pra se conhecer novamente, pois até então não se conhecia tal como é, mas apenas tal como outros queriam que você fosse ou como lhe fizeram acreditar que você fosse, mesmo não sendo. Hora de mudar e avançar!

Nessa equação, ajuda muito se você se desintoxicar de todo lixo e vício que tenha. Comece mudando seus hábitos na internet. Pare de assistir e ler coisas sem valor que só trazem lama e superficialidade. Comece a consumir coisas que te coloquem num patamar mais elevado, onde você realmente merece estar. Não se permita mais se rebaixar aos conteúdos ruins das televisões, revistas, jornais, sites, grupos e também das conversas entre seus contatos.

Repense também seu emprego, suas metas, seus objetivos e suas formas de se relacionar com as pessoas. Se está acostumado a ver sempre os mesmos grupos, isso pode ser uma segurança, mas se constantemente está criticando ou armando brigas nas conversas e comentários, então está viciado em lixo. Se as páginas só te servem pra humor de baixa qualidade e os vídeos do Youtube lhe parecem muito ruins, é chegada a hora de dar um basta e se livrar desses consumos.

Quando a gente se desintoxica de vícios, sejam eles psicológicos ou químicos (incluindo os alimentares), precisamos estar prontos para coisas novas. Não nos será permitido que retomemos a certas coisas, pois corremos o risco de desistirmos da solução e voltarmos rapidamente para mais lixo. E, sabemos, o amor-próprio não se relaciona com essa conduta. Para se ajudar, progredir e se sentir feliz e satisfeito consigo mesmo, terá que tomar a decisão mais difícil: aceitar-se ou destruir-se, amar-se ou odiar-se. E isso só você pode fazer por você mesmo.

Se eventualmente você achar que está passando por situações muito além do que consegue lidar sozinho, busque ajuda profissional ou ao menos entre em contato com bons amigos (esqueça os ruins) e comece a buscar as respostas sobre aquilo que precisa pra erguer-se de maneira coerente. Deixe de lado aquelas ideias simplistas de que pensar positivo e sorrir diante da guerra é tudo que se precisa. Quem te diz isso, pouco se importa com suas dores e problemas. Dê-se, até mesmo nessa fase de ajuda, as pessoas que realmente podem te fazer algum bem. Queira por perto pessoas que te dão, na cara, as realidades que você precisa absorver pra começar a retomar as rédeas da sua própria vida.

É preciso controlar-se para não tropeçar na terrível ilusão de que se vale menos do que de fato vale e, claro, de não acabar se superestimando além da realidade. Seja realista. Pare de alimentar monstros e comece a alimentar seus potenciais, seus talentos, sua personalidade, suas vontades e desejos. E trabalhe, trabalhe muito. Deixe sua marca no mundo e mostre à todos aquilo que só você pode mostrar. Se precisar de uma mão em algum projeto, me chame.

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Rodrigo Meyer

A ilusão da casta dos intelectuais.

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A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia para o filme “The Heavenly Body” (1944) da MGM feita por funcionários, sem especificações da autoria. A atriz fotografada, Hedy Lamarr (nome artístico de Hedwig Eva Maria Kiesler) foi também a inventora do sistema de comunicação que se tornaria posteriormente o Wi-Fi.

As sociedades se acostumaram com a terrível convenção de que intelectuais são uma casta entre os humanos que foi predestinada a pensar, enquanto os outros apenas abaixam a cabeça em sinal de respeito. Que terrível. Todo ser humano é um intelectual, querendo ou não. Somos todos predestinados a pensar. A diferença é que nem todas as pessoas aceitam isso, a princípio. É evidente que temos diferenças culturais e sociais e a mente humana é extremamente complexa para explicarmos facilmente porque alguns se engajam mais que outros.

Com tanto que todos estejam entretidos em experimentar a vida, mesmo que amargamente com suas dores e distanciamentos, já se colocaram no papel de intelectual, pois se colocaram no papel de humanos. Humanos pensam, assim como os demais animais, cada um à sua maneira, mediante suas necessidades do momento. Quando inventaram essa casta invisível de humanos intelectuais, certamente tentaram abrir caminho para um poder operado através do status.

Recentemente vimos tantos casos de pessoas de fama pelo tal intelecto, que mostram-se apenas muito conhecedoras de palavras, porém com ideias e éticas que apodrecem com extrema facilidade. Se vendem por um punhado de vaidade e quando menos esperam, já não estão pensando nada de relevante. Misturado à estes, está também o falso intelectual, um indivíduo que, embora não tenha nenhum apreço em pensar e aspirar cultura, corre expor rótulos em si mesmo, para se engrandecer como ser inteligente.

O status que corrói à ambos desmascara um problema maior por trás que é a profunda ignorância. É sempre bem lembrado que inteligência, cultura e valor, não estão relacionados à escolaridade que o indivíduo teve. Há pessoas geniais que sequer foram alfabetizadas e há pessoas que, embora tenham se diplomado em universidades, chegam a assustar de tanto absurdo que jorram pela boca sobre aquilo que “pensam”.

No Brasil, país que perpetua a malandragem, é comum ouvirmos as pessoas dizerem idiotices como “você sabe com quem está falando?”. A pergunta almeja engrandecer o autor, mas faz o inverso. Expõem a pequenez do indivíduo, o ridiculariza diante de sua ignorância e soberba. Por trás de profissões tidas como especiais e acima da lei, as pessoas julgam que são o ápice do valor e até da inteligência. Pobres estas pessoas que tudo tentaram em vão na vida, até o ponto em que tiveram que apelar para crachás simbólicos de cargos imaginários dentro de uma hierarquia sonhada em um mundo inconsistente que só existe na mente dessas pessoas. Devem enfrentar uma enorme batalha interna, lutando contra monstros imaginários, todos os dias. Ou talvez estejam apenas ignorando o caos interno com preguiça de lutar.

A cultura e a intelectualidade estão acessíveis à qualquer indivíduo. Os pré-requisitos são simples: havendo saúde mental suficiente e vontade, absorve-se tudo aquilo que se pretende. Não há restrições sociais ou financeiras. O pensamento ainda é gratuito e não depende de ninguém. Você pode, se assim quiser, sentar-se e ver a mágica acontecer instantaneamente. É evidente que, ter tempo livre ajuda, afinal, é difícil pensar e absorver cultura enquanto sua mente está totalmente voltada para o trabalho obrigatório, por exemplo. Mas, mesmo assim, ainda é possível pelo menos iniciar seus momentos e ir até onde as circunstâncias permitem. O que não se pode dizer é que a intelectualidade vem de uma gravata, um diploma ou uma profissão lida socialmente como mais valorosa.

Antigamente cientistas eram pessoas comuns que levavam suas paixões ao extremo. Muitos deles eram pobres. Pintores clássicos de obras que hoje estão valendo milhões pelos museus, passaram a vida em pobreza e às vezes até sem valor social. Escritores atemporais que iniciaram seus livros em outros tempos, nos marcaram a alma com ideias e contextos que custamos a ter na modernidade. Estamos regredindo coletivamente em um certo desmerecimento de nós mesmos, de nossos próprios potenciais. Precisamos nos reconectar com nosso prazer em explorar o mundo.

Sei que parece confortável acabarmos nossos dias sempre atrás das mesmas coisas, tendo as mesmas ideias, as mesmas frases e os mesmos olhares. Mas esse conforto aparente pode ser uma tremenda ilusão. Esse mecanismo de defesa do ser humano pode ser uma receita eficiente de manter-se longe dos traumas e da possível infelicidade ao chocar-se com a realidade. Pensar é perigoso, pois nos leva a conclusões nem sempre boas sobre a vida e nós mesmos. Muita gente evita se aprofundar nas autorreflexões, pois sabe que se cavar muito, encontrará vazios enormes e outras coisas terríveis.

A velha busca pelo V.I.T.R.I.O.L. pode nos deixar inseguros, tal como quem cava demais o chão de uma casa e desestabiliza os alicerces da mesma. Mas é preciso mergulhar até o íntimo de nós mesmos, de nossa mente e de nosso espírito para entendermos, superarmos e voltarmos fortalecidos de tudo aquilo. É uma maneira de fiscalizarmos nossos alicerces e reformarmos aquilo que estava insólito para retornarmos à superfície com uma casa mais firme que antes, que nos entregue paz em habitá-la, sem medo do que ela possa ter ou ser. A vida, com isso, pode se tornar mais divertida, mais iluminada, mais densa, mais interessante. Quanto mais progredimos em nós mesmos, mais sentimos vontade de ver o mundo ao redor buscar o mesmo. Não as mesmas coisas, claro, mas a mesma busca individual para as transformações, sejam lá quais forem.

Acredito, contudo, que o primeiro passo para fazermos esse progresso é reconhecermos nossa ignorância nas coisas. Não é saudável para a equação mentir sobre nossas aspirações e personalidade. Não diga ser um leitor se não tiver apreço pela leitura. Não diga que gosta de cinema, se o tema não te desperta curiosidade. Não diga que é apaixonado por Fotografia, se gosta de ver apenas a estética e nada além. Não se anuncie nos formulários de redes sociais como alguém que adora conversar, se você for monossilábico.

Não procure impressionar ninguém com seus hobbies, sua área de formação educacional, sua profissão ou seu repertório musical, por exemplo. Isso tudo é falsa intelectualidade. E você pode exercer sua intelectualidade sem esses apelos falsos. Você pode simplesmente impressionar qualquer outro indivíduo, apenas sendo você mesmo e tendo suas opiniões, suas reflexões, seus gostos, sua personalidade, seu jeito de ser e fazer as coisas. O parâmetro social é ilusório. E quando você tenta mostrar que está alinhado à algo que não está, você destaca o inverso do que pretendia e prejudica à si mesmo, afasta as pessoas e se mostra desinteressante tanto pelo caráter quanto pelo que pulsa na mente.

Deixe que sua intelectualidade venha naturalmente, com suas próprias necessidades e interesses. Não procure forçar interesse naquilo que não tem. Mas lembre-se que pode, se quiser, desenvolver as coisas das quais não tem muito talento. Já escrevi sobre isso em outros textos, sugerindo que as pessoas precisam cobrir os pontos fracos que possuem para que fiquem mais completas. Ayrton Senna dizia, por exemplo, que pilotos de corrida precisam malhar o corpo, pra ter resistência física. Muitos se impressionariam que isso fosse importante num esporte em que se pratica sentado dentro de um carro, mas muitos não sabem que corridas longas como as de Fórmula 1, são provas que exigem muito mais resistência física do que habilidade técnica para controlar o carro. Um corpo saudável pode ser a diferença entre uma corrida subitamente encerrada ou mesmo perdida por distrações advindas da fadiga. Para o ser humano, quanto mais completa for a equação, melhor serão os resultados e a própria experiência.

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Rodrigo Meyer

De quem é a culpa pelos rumos de um país?

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A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de Marc Schlumpf, tirada em 3 de maio de 2009 do “Landsgemeinde”, uma das mais antigas formas de democracia direta que ainda são praticadas em lugares na Suíça.

Ainda que governos interfiram no andamento das coisas em um país, quem permite a existência ou permanência desse governo, é o povo. Mesmo em situações de invasão e golpes, o desfecho de qualquer país está diretamente relacionado com o quanto somos permissivos. Se nos recusarmos a manter certos tipos de políticos no governo, estaremos protegidos de outros oportunistas.

Na Islândia, o Partido Pirata conseguiu reverter uma situação inaceitável, tendo o povo como núcleo da transformação. Reunidos em defesa de si mesmos, demitiram todo o governo, sem nenhuma exceção. Simplesmente se livraram de tudo que ali existia. Além disso, prenderam cerca de 26 banqueiros. Essa decisão que muitos países acham incrível e impraticável, aconteceu por lá como resposta à corrupção. Uma vez que não aceitavam aquilo, uniram-se e tomaram uma iniciativa curta e direta, sem meios termos.

Mas porque outros países não fazem o mesmo? A diferença crucial está na população. A Islândia não é composta de brasileiros, nem de americanos. Ela é formada de islandeses. De onde vem esse engajamento e união dos moradores da Islândia? Vem de tudo aquilo que construíram ao longo do tempo pra si mesmos. Cultura entre as pessoas e valorização do indivíduo, dentro das escolas, das famílias e da sociedade em geral. Houve um esforço sincero de avanço nas questões sociais e psicológicas de cada pessoa e uma infinidade de avanços sociais como resultado de todo o verdadeiro interesse em construírem um ambiente bem-sucedido, onde todos se sintam interessados em continuar apoiando os benefícios e, portanto, apoiando a si mesmos.

O Brasil, contudo, é o inverso disso. Aqui o individualismo reina e nada temos em investimentos de psicologia, sociologia, educação, cultura e afins. O paraíso da Islândia não é um acaso, não é sorte e não é algo mágico que sempre existiu firme e forte. Países como a Holanda estão fechando presídios por ausência de presos. A criminalidade some e como consequência o controle social torna-se menos necessário. Qual é a mágica? Países como a Noruega, por sobrarem tantas vagas em presídios, chegam a importar presos, como forma de contribuir com outras comunidades ao mesmo tempo em que dão alguma serventia pras estruturas que já existem.

Mas a obtenção desses benefícios sociais não depende exatamente dos políticos ou governos. Quem dá abertura pra que essa realidade seja planejada e desenvolvida é a população, que determina aquilo que aceita ou não nos postos de trabalho, na sociedade ou fora dela. Unidos entre eles mesmos, eles decidem o que querem pra todos. Debates e conversas abertas entre todos os interessados vão apontar à eles se devem investir na raiz dos problemas ou se devem enxugar gelo, como muitos outros países fazem.

Certos países se beneficiam de um paraíso que eles mesmos se determinaram a construir. Já se perguntou quais são os países que possuem menos presídios, melhores escolas, índice zero em analfabetismo e fome? Quais são os países que estão derrubando corrupção e fechando presídios? Porque estão fazendo isso? Como estão conseguindo chegar nesse nível de solução social? Seria mágica? Será que demandou muito dinheiro? A verdade é que quando você para de enxugar gelo, você não joga dinheiro no lixo comprando pano toda vez que ele encharca. Investir certo da primeira vez economiza dinheiro ao invés de demandar mais gastos. Mas, os corruptos e exploradores querem continuar a vender panos para países como o Brasil, que passam a vida enxugando gelo e continuam na mesma situação há séculos. E é a população que permite que esses exploradores existam.

Entendo que boa parte dos brasileiros e da população mundial geral não possuem noção de potencial próprio, de união ou de cultura. Não há como esperar que estes desejem imitar a Islândia, por exemplo. Falta em muitos por aqui, infelizmente, vontade de honestidade própria ainda. Como poderemos, então, cobrar que os políticos sejam honestos? Que sentido teria um brasileiro corrupto querer demitir um governo corrupto? Que moral possui um brasileiro desse tipo pra cobrar qualquer coisa em seu próprio país? Onde se aceita o erro, não se cobra a correção. A equação não é mais complexa que isso. O povo é, portanto, o responsável pela situação de seu próprio país.

Claro que podemos nos dar as mãos, nos ajudar e começar a reverter isso. Podemos, se quisermos, repensar valores, repensar a ética, repensar os dramas psicológicos, as estruturas familiares, o desempenho educacional, o interesse pelo aprendizado, as transformações individuais e coletivas por meio de acompanhamento, apadrinhamento, amizades positivas, engrandecimento dos acertos, empoderamento das pessoas, valorização do indivíduo, inserção das pessoas nos meios sociais, reintegração das pessoas por meio de reabilitação física, emocional, psicológica, social, intelectual, funcional, entre tantas outras coisas.

Há muito trabalho pra se fazer e não serão os governos corruptos que terão interesse de ajudar nesse progresso. Muito pelo contrário. O que eles puderem fazer pra ampliar a miséria e a desigualdade social, farão, pois isso ajuda alguns poucos em termos de poder e dinheiro. A miséria dá lucro, a violência dá lucro, a ignorância dá lucro. Um país derrotado e afundado como o Brasil é uma mina de ouro pra uns poucos, na velha prática de se enxugar gelo.

Claro que as saídas não ocorrem da noite pro dia, mas isso não é uma deixa pra você voltar ao conformismo ou a desistência do tema. Pelo contrário. Sabendo que há muito pela frente, você precisa ser duas vezes mais engajado na transformação das pessoas. Pegue uma pessoa da sua família, do seu círculo de amigos, do seu meio social, do seu trabalho ou colégio e plante suas sementes. Você tem o potencial de fazer algo para alguns e deve se juntar à mais gente que faça o mesmo. Juntos estarão transformando multidões. A progressão matemática da união é a diferença entre gotas tentando lavar um quintal com lama em comparação com gotas unidas, formando uma enxurrada de água. Separados somos frágeis e pouco eficientes, mas juntos somos poderosos.

Não incentive as pessoas que batalham pela desistência da luta. Essa luta delas é, muitas vezes, fruto de más reflexões ou até mesmo ações coordenadas por quem quer dissuadir as pessoas da ação de transformação. Quando alguém tenta montar coletivos de transformação social, empoderamento e similares, logo isso começa a deixar corruptos inseguros, pois se muita gente fica consciente e engajada, podem acabar varrendo pra fora o entulho do país. A Islândia fez isso e quase nenhum país ou mídia teve interesse de anunciar o fato. Não houve nenhuma discussão sobre uma das ocorrências que considero mais relevantes no mundo moderno.

Pessoas ao redor do mundo estão fazendo seus papéis, conforme o poder de união que conseguem entre as pessoas. O brasileiro, enquanto for pouco receptivo para a ajuda, se verá longe da solução de seus próprios problemas. A cada vez que alguém estende as mãos, passa pelo Brasil toda uma oportunidade de surpreendermos o mundo. Não adianta ficar acomodado, esperando as coisas mudarem sozinhas ou pela ação dos outros. A sua ação é tão indispensável quanto a dos demais. A equação que funciona não é alguns fazendo e outros olhando. É preciso que todos façam seu papel e aceitem a interação proposta. Só assim você verá seu esforço ser revertido em algo que efetivamente funciona.

Em todos os textos, estou aqui estendendo minhas mãos em muitos sentidos. Através dos contatos que estamos traçando dentro e fora da internet, com os mais variados tipos de pessoas, nas mais variadas situações de vida, vamos construindo uma teia, uma rede de contatos. Sei que grande parte das pessoas sequer poderão acessar a internet para desfrutar dos textos, mas para os que podem, cabe o compartilhamento dos aprendizados, levando tudo isso ao maior número possível de pessoas.

Já escrevi em textos anteriores, sobre a importância de iniciativas no trabalho e nos estudos, promovendo acesso e função para nossos trabalhos e habilidades. Precisamos fazer algo mais de nossos talentos e conhecimentos, permitindo que eles sejam também ferramentas de transformação social. É muito mais interessante viver na Islândia do que no Brasil. Então façamos do Brasil uma Islândia ou qualquer outra coisa que entendermos como um ideal para nosso povo.

Somos mais de 200 milhões de pessoas atualmente. Você se pergunta quantas dessas pessoas tem condições e vontade de habitar espaços livres? Quantas delas buscam status e dinheiro como forma de se isolarem dos demais ao invés de buscarem a equalização da qualidade de vida pra todos? Quantos estão preferindo morar encarcerados na própria casa, por falta de interesse de resolver os problemas sociais pela raiz? Querem enxugar gelo a vida toda ou querem desfrutar do bem-estar da Holanda, Islândia, Noruega e afins? Pense diferente, pense melhor, pense pra frente, pense que você pode ser a diferença na equação. Mude a si mesmo e o mundo ao redor magicamente abre alguns caminhos bem tranquilos para retribuir.

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