Um alerta de Esquerda pra Esquerda.

Durante esses tempos de disputa política, em especial após as Eleições de 2018-2019, acompanhamos o aumento do caos, devido aos imensos escândalos de corrupção, fakenews (notícias falsas), casos de ódio, disseminação de crimes de todo tipo e uma manifestação torta e desregrada pela internet. Esse cenário já é bem conhecido por ambos os lados dessa disputa polarizada que se tornou o Brasil nos últimos anos, mas algo tem me incomodado de forma igual ou até maior. Estou me referindo a certa ingenuidade por parte de diversas mídias e grupos da Esquerda que, embora desejem atuar como resistência, estão, ao meu ver, um tanto despreparados para entender o real motivo da ascensão do fascismo no Brasil e no mundo e o motivo pelo qual parte da população brasileira atrelada ao desgoverno do quadrilheiro Bolsonazi ainda permanece em apoio à ele, apesar de todos os crimes vinculados.

Sempre que vejo uma mídia decepcionada com o desgoverno do Brasil de 2019, predomina por lá um discurso de que os absurdos que a quadrilha de Bolsonazi tem manifestado são fruto de uma crença do próprio Bolsonazi e seus aliados em teorias da conspiração. Citam, por exemplo, que essa turma de fascistas se posicionam contra as coisas por acreditarem em ideias como terraplanismo, nazismo de esquerda, marxismo cultural, ideologia de gênero entre outras asneiras (infelizmente a lista é imensa demais pra citar num artigo só). Temos que deixar claro algumas coisas sobre isso:

Primeiramente, esses vagabundos que tomaram de assalto o Brasil não possuem crença alguma em coisa nenhuma. São céticos a tudo e todos e tudo que os importa é poder, violência, racismo, machismo, homofobia, corrupção e a perpetuação da ignorância no Brasil e no mundo para que se torne cada vez mais fácil manipular e explorar as pessoas enfraquecidas por essa ignorância. Porém, pra que possam fazer essa conexão entre a figura de poder deles e a massa de manobra na população, eles precisam se valer de ícones na linguagem da comunicação que evidenciem uma direção, uma ideologia e uma cultura, facilitando pra que, consciente e inconscientemente, as pessoas se sintam representadas e compreendam aquilo que lhes é proposto como figura e ideia de poder.

Por exemplo, quando a extrema-direita discursa insinuando que as escolas estão distribuindo a chamada “cartilha gay” ou “kit gay”, ela faz uso de duas mentiras (a mentira de que existe esse tal material e segundo de que a finalidade dele seria a de convencer pessoas a se tornarem homossexuais) para que a presença dessa ideia absurda em contato com pessoas com tendências preconceituosas, medos e muita ignorância as façam acreditar nessa lorota e, quase que automaticamente, se posicionarem em favor da extrema-direita e contra as figuras opostas (homossexuais, professores, grupos de direitos humanos, causas sociais, etc).

Uma vez que você tenha entendido esse exemplo da estrutura ou modus operandi da extrema-direita nos discursos criminosos e falsos que ela faz, basta estender isso pra todo e qualquer tema que eles lidam. Foi assim quando tentaram negar o aquecimento global, o incêndio na Amazônia, a própria corrupção no desgoverno da quadrilha, os crimes cometidos contra seus opositores políticos, o histórico criminoso e pouco punido da ditadura militar no Brasil, o machismo, o racismo, a homofobia, o ódio de classes, a xenofobia, a matança de indígenas, a destruição do meio-ambiente para favorecimento do agronegócio, o trabalho escravo, trabalho infantil, o tráfico de drogas, tráfico de armas, tráfico humano, o aumento do feminicídio, os vínculos criminosos da corporação militar nas polícias e exércitos, a corrupção e o desmantelamento das instituições do país como a Justiça, a censura nas mídias (comerciais, cinema, jornalismo, shows de música, etc), o assassinato de inimigos nas diversas esferas do poder, etc.

Poderíamos ficar dias listando aqui tudo que está vinculado às ações criminosas do desgoverno, porém seria mais eficiente listar o que não faz parte da lista. Pra simplificar, bastaria dizer que praticamente todo e qualquer assunto que chega ao conhecimento da extrema-direita e que não favorece a eles no objetivo de poder e controle das massas, eles geram uma narrativa absurda contrária para disseminar uma versão conveniente da realidade que, embora não acreditem, é super útil no objetivo de perpetuação da corrupção, poder e manipulação do público. Simples assim.

Chega desse papo de que eles estão indo longe demais nos absurdos por estarem convencidos dessas ideias e teorias da conspiração. Simplesmente não estão, mas é útil a eles discursar como se estivessem. Quando, por exemplo, eles sabem exatamente o que é Feminismo e sabem claramente que isso anula o projeto de machismo, combatendo o estupro, o abuso, as desigualdades entre gêneros, os privilégios de homens imbeciloides que se beneficiam de todo esse lixo, é claro que eles vão se opor pra perpetuar os benefícios e crimes a que eles são favoráveis. Não se espante, portanto, de ver que essas figuras estão atreladas a estupradores, feminicidas e outros tipos de escórias. Para fazer valer essa perpetuação criminosa eles vão usar artifícios clássicos como mentir sobre quem são e como agem as mulheres feministas, por exemplo, denegrindo sua imagem, forjando situações em que elas pareçam absurdas, exageradas ou equivocadas. Vão distorcer palavras, contextos e até mesmo dados técnicos de estatística, pra reforçar a ideia falsa que eles intencionam construir no discurso frente ao público deles.

Não se pode ser ingênuo de achar que isso é de fato a crença deles, menos ainda de que essa suposta crença é fruto de uma visão cega sobre a realidade. É extremamente o inverso. É por terem uma visão claríssima da realidade é que conseguem se posicionar contra a realidade, arquitetando discursos e contextos que os favoreçam em termos de corrupção, poder, crime, preconceitos, etc.

A pessoa que realmente tem interesse de aprender sobre um assunto para mudar seus pensamentos equivocados, ela simplesmente senta a bunda na cadeira e lê sobre o assunto insistentemente, até conseguir entender todos os pontos, questionando tudo e todos a todo momento. O sujeito que não tem muito interesse de questionar de tal maneira, certamente está acomodado no aprendizado pois é muito mais conveniente manter os próprios defeitos, sejam eles o racismo, a homofobia, a conivência com a violência gratuita, a criminalidade, a corrupção, etc.

Quais são as chances de você convencer um nazista de que xenofobia e racismo é algo absurdo, abominável e sem nenhum fundamento ou lógica? Zero. Você jamais vai convencer alguém desse meio a mudar essas posturas, exatamente porque essas posturas não são baseadas em lógica. É diferente de, por exemplo, tentar mostrar à um matemático que a equação dele está errada, demonstrando motivos matemáticos para o erro, justamente porque entre matemáticos, a lógica é desejada e é a base de toda a argumentação, tanto da pessoa que cometeu o erro quando da que vem pra apontar e corrigir o erro. Percebe?

Portanto, de nada adiantará você convencer um estuprador sobre feminismo, ou de convencer um racista sobre o combate ao racismo. Nenhuma figura que faz o que faz de forma consciente, sem empatia alguma, aceitará alguém que venha tentar mudá-lo, brecá-lo ou apontá-lo contra a parede. O termo “psicopata”, embora popularmente seja utilizado pra descrever um serial killer (matador em série), não se limita a isso. Um psicopata, basicamente é alguém que age de forma egoísta em seus próprios interesses, sem se importar com ninguém. É alguém que, por exemplo, vê as pessoas como algo totalmente irrelevante e sem valor diante da busca dele por um objetivo ou satisfação pessoal. Você encontrará facilmente essas pessoas em relacionamentos abusivos, em empresários, em pseudo-líderes religiosos, em políticos, juízes, bandidos fardados (alguns chamam de policiais), etc.

O indivíduo que não sente nenhuma culpa, remorso ou impulso de resistência diante do ato de prejudicar as pessoas é basicamente um psicopata. As pessoas só se tornam recuperáveis quando há a premissa de que podem desenvolver o arrependimento diante dos erros cometidos contra outras pessoas ou contra o mundo. Alguém que assiste crianças inocentes sendo assassinadas por bandidos fardados e consegue relativizar isso e falsamente sugerir que as vítimas não eram inocentes, basicamente é um psicopata, uma pessoa sem empatia alguma. O mesmo pode ser dito de quem assiste uma população negra ser dizimada e preterida na sociedade e não demonstra nenhum incômodo por esse crime e a disseminação disso em nível estrutural. A conivência nesses casos demonstra não a mera incompreensão da realidade, mas uma indiferença com as vítimas, uma falta de empatia e uma colaboração aberta ao erro.

Diferente dos psicopatas, em outro grupo de pessoas, há os que cometem erros por uma série de contextos em que foram submetidas e é evidente que, como tudo na humanidade, flui em graus. Há pessoas que, por exemplo, aceitam roubar, mas não aceitam matar. Entre os que roubam, há quem o faça por falta de opção ou até mesmo por uma deformação do contexto. Nem sempre são pessoas que ignoram o valor do outro. Muitas das vezes são pessoas que só estão tentando situações extremas como instinto da própria sobrevivência. Se ético ou não é outra história. Mas é bem diferente você tratar pessoas que estão em uma situação por uma série de contextos que nem elas mesmas gostariam de estar, com pessoas que, sistematicamente e irrestritamente, estão e gostam de estar nessas condutas, principalmente as extremas, uma vez que, no caso de psicopatas, a falta de empatia também estabelece uma ausência de limites sobre até onde as pessoas podem errar contra os outros em benefício próprio.

Citemos, por exemplo, o caso do golpe na democracia do Brasil, onde pessoas claramente psicopatas tomaram o governo sem nenhum arrependimento de terem colocado milhões de brasileiros de volta à miséria e pobreza, de terem incentivado direta e indiretamente a matança e estupro de milhares de pessoas, como também de ter colocado tantas outras em situação deplorável de desemprego, doença sem suporte, corte de direitos básicos, falta de dignidade humana em diversos setores e assuntos, entre outras coisas. Quem faz uma ação nessa direção sem nenhum pudor, freio, incômodo ou arrependimento, está frio o suficiente pra ser tachado de psicopata. Relembremos, por exemplo, a desgraça que foi o nazismo na Alemanha resultando em uma atrocidade tamanha que jamais conseguiremos apagar o estigma gerado ao país. O nazismo virou sinônimo do que há de pior no mundo e a vergonha que uma nação carrega por ter se envolvido em apoio é um tema sensível a eles até hoje. Para o que acontece no Brasil de 2018-2019 com a trituração da Constituição Federal e da Democracia no país, as ações e narrativas problemáticas que, em certos pontos, geraram danos irreversíveis configuram um crime contra a humanidade em vários níveis. A sede por poder a qualquer custo, não levando em conta nada nem ninguém, é o que faz um desgoverno cheio de psicopatas encontrarem respaldo em um eleitorado totalmente vinculado pela cultura em torno dos mesmos crimes e discursos. Essa sim é a única e real doutrinação ideológica que vem sendo plantada e encontrando muitos frutos, uma vez que o terreno está fértil, como todo terreno cheio de esterco está.

Pra finalizar, eu gostaria de esclarecer que eu compreendo a intenção de diversas mídias da Esquerda em tentar elucidar o cenário político e social do Brasil e do mundo, mas estou olhando de forma racional em como essas mídias estão falhando na percepção precisa dos problemas ou na origem dos problemas. Sem que se saiba exatamente o que está ocorrendo, é difícil ou até impossível de combater o inimigo. Se observamos que fakenews (notícias falsas) estão sendo espalhadas pela Direita, o papel da esquerda precisa ser mais do que apenas lamentar ou tentar esclarecer os fatos de forma verdadeira. É preciso identificar qual a real intenção por trás de quem cria essas mentiras e cortar essa ingenuidade de que disseminam essas informações por mera crença e não por que sabem abertamente que é mentira mas vai servir ao propósito deles. Por isso, peço encarecidamente às mídias todas da Esquerda que saiam um pouco dessa ideia viciada de que o que falta é informação. Não falta informação alguma. Pelo contrário. Sobra informação e a Extrema-Direita tem até mais informação que a própria Esquerda, se observarmos que eles saem na frente na criação das fake news (notícias falsas) surpreendendo a todos da Esquerda com tamanho absurdo e pauta. Se a Esquerda é surpreendida com essas asneiras, é sinal de que os dados preexistem na análise e compreensão por parte da Direita e, mais do que isso, são rapidamente convertidos numa ação contra a Esquerda pra tentar frear, denegrir, mentir ou desmentir, ridicularizar, minimizar, ameaçar, anular, censurar, etc. Enquanto a Esquerda continuar no papel de achar que tudo não passa de falta de instrução, vai levar chapéu dia e noite com cada vez mais desgraças acontecendo na prática, uma vez que nem as mídias e iniciativas da Esquerda dão conta de expor o ponto fraco e a origem doentia e fraudulenta da Direita.

Menos ingenuidade e mais ações e mídias combativas, investigativas e que façam um importante serviço de esmiuçar o miolo do problema e não só debater e lamentar os efeitos da permanência da quadrilha de corruptos no mundo. O mundo está infestado de gente adoecida em diversos sentidos, mas como dizia Martin Luther King, ativista negro: “O que me incomoda não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Rodrigo Meyer – Author

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Você é vítima de click bait?

Click bait é o termo em inglês para “isca de clique”. Como o nome sugere, é exatamente uma armadilha para tentar conseguir um clique do usuário na internet. Embora este termo e contexto específico seja algo próprio da internet, a essência por trás disso é antiquíssima em todo tipo de mídia, comércio e afins.

O que está por trás do click bait é a a ideia de que você precisa atrair pessoas para um “conteúdo” por meio de recursos artificiais que sejam apelativos a curiosidade ou ao impulso pouco controlado das pessoas. Isso ocorre com facilidade quando o público em questão é idiotizado o suficiente pra não ter esse filtro ou controle sobre si mesmo diante do que lhe é apresentado.

As formas mais comuns de click bait são: títulos sensacionalistas, títulos falsos, títulos dúbios, títulos de teor sexual, títulos agressivos, títulos contendo nome de personalidades como principal e/ou único recurso, além de imagens com expressões faciais exageradas, montagens sensacionalistas, etc.

A mesmíssima coisa pode ser vista em mídias impressas, televisões, comerciais, trailers de filmes do cinema ou até mesmo nos anúncios em voz ou texto dos supermercados. Contudo, a internet conseguiu massificar essa conduta, em razão do acesso instantâneo a milhares de usuários com uma única publicação, piorando, ainda mais, por conta da opção de compartilhamento e do hankeamento automático desses conteúdos em plataformas como Youtube e Facebook. A medida em que usuários incautos e pouco instruídos escolhem consumir esse material, as redes sociais interpretam essa crescente demanda por aquilo e dão visibilidade extra para o conteúdo, gerando um efeito bola de neve. É basicamente isso que fez uma horda de inúteis ganharem milhões às custas da ignorância alheia, fabricando entulho, não acrescentando absolutamente nada de útil e monetizando não só a si mesmos, como a própria plataforma junto com inúmeros outros anunciantes que vivem de empurrar anúncios e produtos para a massa.

Muita gente tem vergonha em admitir que usa do click bait em suas mídias, porque estão cientes de que as pessoas começam a se conscientizar do fenômeno que, por si só, é uma forma indigna de explorar a fragilidade alheia. Em um mundo onde muita gente não tem discernimento, cultura, educação e estrutura psicológica o suficiente pra saber desviar e recusar esse tipo de prática oportunista, é, no mínimo, um desserviço à sociedade e ao progresso da população. Mas, obstinados por lucro a qualquer custo, com pouca ou nenhuma ética, aceitam se dobrar a muitas práticas para chegar ao tão sonhado dinheiro.

Tão ruim quanto praticar o click bait ou ser vítima dele, é ter a tal Síndrome de Estocolmo que torna tais vítimas em defensoras dos próprios opressores, no caso, os criadores de “conteúdo”. Uma vez que se tornam cegas, viram uma massa de manobra vazia, moribunda e com uma mesma personalidade distorcida e mal constituída, moldada sobre preceitos pouco ou nada determinados, quase sempre seguindo a ilógica “lógica” do “porque sim”. Sem autonomia de pensamento e um fanatismo declarado, tornam-se os idiotas perfeitos para cumprir o papel de massa que faz esse enorme mecanismo funcionar. Enquanto alguns raros se tornam milionários, todo o restante da população, segue na mesma condição precária ou até pior. Gastam seu tempo nutrindo a vida alheia, ao invés da própria, pois, lhes parece muito mais interessante a fantasia fabricada nas mídias do que a própria realidade sórdida.

O mesmo conceito por trás disso é o que fomenta pessoas dispostas a ler tabloides ou revistas / sites de fofocas. Há uma frase que diz:

“Idiotas discutem sobre pessoas, inteligentes discutem sobre ideias.”

Além desse mecanismo psicológico onde o indivíduo prefere observar a vida alheia para desviar o foco da própria vida / realidade, existe também outro fator por trás dessas práticas. Quando o ser humano se torna adoentado em sua sensibilidade, empatia e bons valores, facilmente começa a apreciar o caos, como uma espécie de vingança pelos próprios dissabores vividos. É uma forma de vivenciar, através de cenas e ocorrências, uma tentativa (mesmo que falha) de esvaziar tais frustrações dentro de si. É o caso, por exemplo, quando uma pessoa foi alvo de um assalto e, por não ter lidado bem com o ocorrido, passa a ver prazer em toda cena em que um assaltante é mostrado em situação degradante ou de desproporcional violência. É um tipo de sadismo desenvolvido que dá espaço, por exemplo, pra um consumo fácil de toda e qualquer mídia que se anuncie com extremismos na imagem ou título. A armadilha está feita e os adoentados tem ingresso vip pra digerir as farpas e as toxinas dessa isca que os matará.

É evidente que o click bait não é apenas ruim pelo ato de enganar as pessoas para verter fluxo de visualizações nas mídias, mas também é um terrível dano pela ausência de conteúdo relevante ou saudável. É uma maneira garantida de encaminhar uma massa de gente para um abatedouro mental que, por vezes, repercute também na saúde física. Um lifestyle baseado nisso não resulta em um raciocínio melhor, nem em uma formação de visão apropriada sobre a vida, o mundo, as questões sociais, a própria realidade pessoal e muito menos sobre as próprias mídias. Tudo isso encaminha as pessoas para um modelo clássico de sobrevivência, mas não de vida em si. É um ato de desperdício do tempo, da saúde, do dinheiro, do potencial intelectual e de tudo que estiver, direta ou indiretamente, relacionado com os hábitos de vida em sociedade.

Em última análises, se arrastar por esse modelo de absorção de “conteúdo” é a maneira garantida de não absorver nenhum conteúdo real e ainda ser subjugado como cidadão de segunda classe, em diversos sentidos. Toda e qualquer história de sucesso que você pinçar sobre superação, aprimoramento e reposicionamento diante da sociedade, passa, necessariamente, por essa transformação de dentro pra fora. Exemplos ótimos da cultura do rap nacional, especialmente advindo das favelas e periferias, ensinam a importância de se discutir a sociedade, o sistema, as mídias, as condições da própria população, de cada indivíduo, etc. É este preparo que dá suporte para transformações a favor da própria população, pois se depender dos envenenados pelo preconceito de classes, pelo racismo, pelo fascismo e pelos corruptos, você não terá suporte nenhum, exceto se for pra piorar ainda mais.

Viver em uma sociedade que, basicamente, é composta por gente que odeia uma às outras, tratam-se como mercadorias, vítimas ou pontes, requer ter discernimento suficiente pra não tropeçar nesse lamaçal. Se você não ajudar a si mesmo, você já decretou seu fracasso. As mídias não vão te ajudar e quem te explora pra lucrar às tuas custas quer mais é que você continue ignorante, passivo e fanático. Um idiota constante é o maior aliado na perpetuação do sistema de exploração, pois não só ele é explorado, como também espalha como positiva a ideia da exploração para o resto do mundo. ‘Síndrome de Estocolmo’ é um termo que não vai sair da internet tão cedo, especialmente porque mesmo diante de tanta demonstração explícita dos problemas, as pessoas ainda conseguem tornar cada ano pior que o outro. Se você achou que 2015 foi um ano enojante, certamente repensou isso com a chegada de 2016 e ficou abismado em saber que tinha como surgir ocorrências como as de 2017, o que, certamente, não foi nem um átomo perto da galáxia de fezes que chegou em 2018 (e estamos apenas no terceiro mês). Espere o pior pra 2019, mas, mesmo assim, lembre-se que a culpa de tudo isso é a permissividade de um povo manipulado e sem nenhuma autonomia de pensamento e ação. São marionetes aguardando as cenas dos próximos capítulos, sejam lá quais forem.

Enquanto você se delicia assistindo pessoas defecando, transando e comendo, seja na internet, na televisão, nas mídias impressas ou na vida real, uma meia dúzia de gente está rindo tanto da sua cara, que é possível que à essa hora um ou dois deles já tenha até infartado durante a crise de riso. A melhor arma para o combate dos erros do mundo é a inteligência. Guarde seu tempo, sua saúde, sua atenção e seu dinheiro para coisas que possam lhe fazer alguém melhor e mais preparado pra sair da condição em que está. Pode ser cansativo ou até desencorajador no começo, mas você vai descobrir que, uma vez que dá esse passo com sinceridade, pessoas que você nem imaginava começam a se aproximar de você para investir no seu potencial e dividir apoio. As portas começam a se abrir e você verá como uma realidade ruim tem sempre o outro lado da moeda.

Rodrigo Meyer

O que significa ser libertário?

Ser libertário é ter o pensamento ou a ideologia voltada para a busca e/ou preservação da liberdade dos indivíduos. Exatamente por ter essa premissa de liberdade, que ser libertário não significa deixar livre as pessoas que privam a liberdade alheia. Às vezes, algumas pessoas lançam a ideia de que fascistas ou pessoas em geral que privam a liberdade dos outros, deveriam ter a mesma liberdade de serem e fazerem o que quiserem. E essa tentativa falha de argumento só reforça do porquê fascismo e ignorância são indissociáveis. O fato estrito, simples e direto é que ser a favor de liberdade é exatamente não compactuar com os que se posicionam contra essas liberdades. Fascistas não passarão!

Ser libertário é fruto de uma visão de mundo que nos cobra, automaticamente, uma conduta social bem definida. Uma vez que se entende aquilo que o mundo é, vê-se, também, o que é aceitável e inaceitável em um convívio entre os seres. Sendo o mundo muito diverso, há também diversidade nas composições familiares, na personalidade das pessoas, na formação escolar e educacional, na influência de parentes e amigos, na cultura local, na política, no nível de intelectualidade e de compreensão da realidade e dos assuntos, assim como inúmeros outros fatores que podem transformar um indivíduo em uma pessoa diferente das demais. A única coisa que há em comum em indivíduos mentalmente saudáveis é o desejo natural de manter-se livre. Qualquer desvio do desejo de liberdade já é reflexo de um desvio psicológico, podendo ser originado de algum trauma, complexo ou mesmo confusão decorrente da incompreensão da realidade ou do tema.

Fomentar um pensamento consistente de respeito e bem-estar aos seres, depende, sobretudo, de como as pessoas se apercebem da importância e do significado da própria existência de cada ser e do convívio com outros. Se o indivíduo não estabelece uma conexão mínima de empatia com outro ser, diverge do que é natural e saudável, tanto psicologicamente quanto sociologicamente. Todo estudo que já se tenha feito sobre as relações dos seres, passa, necessariamente, por esse senso de preservação da dignidade, da liberdade, do bem-estar, do direito a vida e ao desfrute de seus potenciais. Qualquer pensamento ou ação que prive os seres dessas realidades natas, compõem uma opressão, um desvio das premissas básicas. Algumas pessoas entendem isso por extensão direta da empatia que possuem e outras, às vezes, tardam a admitir esse impulso natural, precisando do reforço, às vezes, do embasamento lógico e técnico. Mas, de toda forma, ambos chegam a mesma conclusão, pois isso não é questão de opinião individual, mas sim uma premissa natural intrínseca a todos os seres. Exatamente por isso que, indivíduos que figuram em fascismo e opressões em geral, são indivíduos com perturbações e desvios de conduta, de ordem psicológica, podendo ter a origem dessa visão ou conduta em uma variedade de fatores.

Muitas vezes o ser humano adoece de algo chamado ‘hipocrisia’. Podendo se resumir, grosseiramente, como sendo o vício em mentir, a hipocrisia é responsável pela contradição de pessoas que, por exemplo, dizem gostar de animais, ao mesmo tempo em que podem aceitar matá-los para um raso benefício próprio. Nesse caso em específico, entende-se que fatores culturais podem forjar uma naturalidade nesses hábitos coletivos, dando uma falsa sensação de “normal” e “correto” dentro do julgamento que o indivíduo faz de si mesmo naquele contexto. Isso fica ainda mais claro quando olhamos pra história do mundo e vemos que as práticas sociais deploráveis que eram propagadas como “válidas” por determinados grupos, épocas ou governos, só se mantiveram aceitas por outras pessoas, devido a extensa propagação desse modelo artificial como se fosse natural. É exatamente esse o caso de episódios como os raptos de crianças que eram filhos de presos políticos, para serem adotadas por famílias que eram simpatizantes da ideologia dos raptores em questão. Dessa forma, essas crianças eram nutridas com o mesmo vício de pensamento, as mesmas ignorâncias e falácias, preservando, assim, a perpetuação dessa sucessão de adoentados.

É como diz aquela frase: “uma mentira dita mil vezes, se torna uma verdade”. Essa frase refere-se a ideia de que aquilo que se torna tão comum nos ouvidos e na sociedade, acaba não sendo mais refletido pelas pessoas. Tudo aquilo que soa como natural, deixa de ser raciocinado. Ninguém para pra contar quantas vezes piscou os olhos ou qual é o processo específico que faz pra respirar. Tudo isso, por ser natural e intrínseco ao ser humano, é feito de forma automática pelo corpo, não demandando nenhuma interferência do indivíduo. De maneira similar, nas práticas sociais, muita coisa é replicada inúmeras vezes até se tornar tão comum que é vista e aceita sem resistência, sem filtro, sem análise.

Do que conhecemos da conduta humana e da própria história vivida e registrada, o ser humano é facilmente moldado a uma realidade diferente, bastando que seja inserido nesse contexto desde sempre e em um coletivo relativamente fechado e abrangente onde todos ou quase todos seguem, basicamente, o mesmo padrão de “realidade”. Isso é o que explica, por exemplo, as diferenças culturais entre países. Se crescemos em uma família e país onde vestir meias com chinelo é o hábito em comum de todos, provavelmente uma criança nascida nesse cenário seguirá a mesma prática, a mesma tradição. Mas isso não significa, de maneira nenhuma, que as pessoas tenham alguma razão individual pra decisão de usar as meias. Elas podem estar apenas seguindo a tendência coletiva e a tradição desse ato, sem questionar, já que todos que o fizeram, também não questionaram. Mas pra quem não nasceu num ambiente com a mesma influência, o uso das meias com chinelo pode parecer incomum, estranho ou até desconfortável. Tudo é uma questão de hábito e aprovação coletiva.

Sob essas mesmas premissas, um passarinho preso em uma gaiola desde sempre, pode ser levado a acreditar que aquele é o padrão de vida, o ápice de seus potenciais como pássaro. Se ele tem as asas cortadas e é engaiolado, não terá noção do que é expressar-se livremente em voo, pra ser aquilo que ele nasceu pra ser: um pássaro livre, que voa e que expressa seu potencial e sua característica própria. Para o ser humano, não é diferente. Os modelos sociais que privam o indivíduo de sua dignidade, liberdade e potencial, estão transformando esse indivíduo em alguém que pode vir a se acostumar com o padrão estabelecido pra si de pouca valorização. Mas, como o ser humano é um ser inteligente e permeia sociedades próprias que ele mesmo constrói, inclusive em subgrupos dentro de cada sociedade, ele acaba por disseminar reflexões e ideias que recondicionam os indivíduos a refletir sobre suas realidades, seus direitos, suas dignidades, seus valores e potenciais. As ideologias e políticas libertárias carregam exatamente esses objetivos para reforçar os princípios humanos em geral.

Em sociedades adoentadas, “comandadas” e arrastadas por políticos e membros mais convencionais da população, é comum vermos as pessoas desenvolverem uma certa desmotivação, perda da autoestima ou da esperança, sentindo que algo não está tão bem quanto elas acham que deveria estar, apesar de estarem, de certa forma, “acostumadas” com a escassez de vida que lhes cabe. Na verdade essa percepção de incômodo ou de incompletude é justamente a fagulha na memória e no instinto básico humano da busca natural e essencial de valores humanos como a dignidade, liberdade, bem-estar, etc. Se um indivíduo nota que na sociedade existem classes diferentes de pessoas, cabe a este refletir e esmiuçar as origens e motivos dessa diferenciação social. Porque algumas pessoas cometem crimes e ficam impunes e outras são presas? Porque algumas pessoas são mais aceitas nos espaços públicos e outras menos? Porque algumas pessoas recebem mais credibilidade no que falam do que outras? Porque algumas pessoas figuram massivamente nas mídias como exemplo de beleza, sucesso e “positivismo”, enquanto outras não? Enfim, qualquer que seja o viés da observação, é preciso questionar essa distinção e separação de grupos humanos. Quase sempre a origem e motivo disso está justamente nesse padrão de opressão plantado e perpetuado, tentando reduzir certos indivíduos, grupos, ideias ou características, para enaltecer aqueles que fabricam esse modelo artificial de separação.

Da mesma maneira, quando alguém aprisiona um pássaro na gaiola, está fazendo exatamente a mesma coisa, segregando um ser por conveniência própria, para desfrutar de maneira bastante egoísta e sádica, da servidão do pássaro em troca de seu canto ou exposição controlada de sua aparência. Além disso o ato do confinamento reforça a ideia de poder e posse, uma vez que o animal subjugado em uma gaiola é fruto de uma visão distorcida onde a o animal humano exerce domínio sobre outro animal, aproximando pra si um falso crachá de importância, de poder, de posição hierárquica, etc. Há uma frase de Mahatma Gandhi (apesar das polêmicas envolvendo seu nome) que traz uma boa reflexão sobre essa analogia e correlação entre a conduta diante dos animais e os conflitos sociais de humanos contra humanos:

“A grandeza de um país e seu progresso podem ser medidos pela maneira como trata seus animais.”

A abstenção da violência, da injustiça e do cumprimento cego das regras e tradições forjadas em sociedade, encaminha o ser humano, naturalmente, pra uma visão de coletividade e liberdade, onde as pessoas possam se tornar aquilo que nasceram pra ser. Mas, como já vivemos em um modelo social que replica muitos equívocos a tanto tempo, precisamos reconstruir na mente das pessoas, essa lembrança do que de fato é real ou não, o que é justo ou não, o que é natural ou não, o que é aceitável ou não. Uma das primeiras coisas que me vem na mente, quando falo nessa reconstrução, é o extenso trabalho que tem sido feito na moderna cultura da Alemanha, para varrer quaisquer possibilidades do retorno do trágico histórico de nazismo no qual o país figurou. O evento mundial que se tornou icônico pela organização, sistematização e frieza das práticas, deixou os próprios alemães envergonhados com o tema. Diante dessa percepção do absurdo, a própria comunidade se organizou para se posicionar de forma eficiente contra o fascismo, o nazismo e os preconceitos em geral. As crianças são ensinadas desde pequenas, nas escolas, sobre as mazelas desse período histórico, além de conviverem com inúmeras políticas públicas de combate e punição a qualquer fagulha de propagação relacionada a esse período nefasto. Determinadas expressões ou gestos, podem conferir prisão aos indivíduos. Felizmente, em um levante épico, a Alemanha pós-guerra conseguiu se reconstruir em um modelo de sociedade altamente receptivo a diversidade, sendo um dos países com maior expressão desse senso de respeito a individualidade humana. Essa mudança de postura em toda uma sociedade, só foi possível graças ao extenso trabalho de combate ao fascismo e a reeducação das novas gerações desde pequenas. Se hoje eles desfrutam de um espaço completamente diferente do período nazista, é justamente pela decisão consciente dos grupos de indivíduos de agir para frear esses desvios de conduta e pensamento das gerações anteriores.

Ironicamente, os Estados Unidos, apesar de ter sido o principal destino de milhões de fugitivos da era nazista, hoje acomoda na sua sociedade uma descontrolada proliferação de grupos racistas, xenófobos e nacionalistas, incluindo a expressão declarada de neonazistas ou de grupos específicos como a Ku Klux Klan. Essas contradições culturais  talvez se expliquem exatamente pela ação e inação a cada um dos países. Enquanto na Alemanha pós-guerra se tentou combater os problemas, nos Estados Unidos, parece ter havido uma ação menos engajada e mais flexível, provavelmente devido ao modelo de leis que dá brecha para disseminação de discursos e ideologias de ódio, na tentativa ilusória de que essa liberdade de expressão inclui qualquer expressão. Esse equívoco básico com um desfecho prático trágico, demonstra exatamente porque ser libertário não significa, de maneira nenhuma, ser permissivo com quem é contra a liberdade. O combate aos opressores e aos que lutam por ideologias de combate a liberdade humana, não podem estar livres para tal. Se queremos liberdade, devemos apoiar a liberdade e não o oposto dela. Ser permissivo ao fascismo e as demais opressões, não é reflexo de liberdade, sendo, apenas, o oposto deste objetivo. Entender essa lógica básica foi o que ajudou determinadas culturas e países a praticamente extirparem do seu meio os conflitos e preconceitos humanos, criando um ambiente mais próximo da liberdade e do bem-estar, afinal era esse o objetivo sincero por trás da iniciativa e é esse o desejo humano em essência, desde que ele esteja mentalmente saudável.

A luta pelo avanço das mídias e ideologias de combate ao fascismo ainda tem um longo percurso pela frente, mas já está bastante estruturada no mundo inteiro, de forma muito bem embasada e com amplo apoio popular. A cada dia que passa há menos espaço para o fascismo e ecoa cada vez mais alta a ideia de que fascistas não passarão! Diferente das divergências mais superficiais de gostos ou preferências, o combate ao fascismo é uma premissa que toca a essência do ser e, por isso mesmo, é algo que abrange facilmente todas as culturas e indivíduos, pois para a vida dos seres não há fronteira. Princípios humanos continuam sendo princípios em qualquer lugar do mundo. Aqueles que ainda figuram em opressão e desvio de conduta nesse sentido, enquadram-se tão somente em uma fatia social já classificada, já compreendida como falida, fracassada, adoentada e estúpida. O único caminho que o mundo saudável e instruído propõem a estes grupos adoentados é o remédio da reeducação pela informação e/ou a demonstração clara e objetiva de que tais indivíduos não serão tolerados livremente nos meios de convívio, enquanto insistirem na propagação dessas fraquezas. O mundo é daqueles que evoluem. Quem se acomoda na ignorância, colhe os efeitos disso, permanecendo marionete de outros, passando vergonha, perdendo tempo, felicidade e bem-estar. O que pode ser mais doentio do que atirar no próprio pé e sentir orgulho disso? Reflita.

Rodrigo Meyer

O perigo do falso entretenimento.

O ser humano, assim como outros animais, busca por entretenimento. É uma necessidade natural e é buscada automaticamente pela mente. Exploramos o ambiente em busca de algo que possa prender nossa atenção e nos entregar alguma satisfação. Queremos ocupar nosso tempo de uma forma que faça valer o momento, simplesmente pra não nos sentirmos entediados ou sem propósito. Chegamos no mundo sem descobrir porquê e passamos nossa existência buscando ocupar da melhor forma possível esse intervalo misterioso até o falecimento do nosso corpo.

É nesse cenário que passamos a buscar entretenimento, às vezes assistindo um filme, conversando com alguém, dividindo uma piada, contemplando ou fazendo arte, se desafiando em um videogame, lendo um livro, escrevendo um poema, visitando a natureza ou mesmo observando o movimento na rua. Nossa mente precisa sempre se sentir ocupada pra que nossa existência faça algum sentido. Porém, infelizmente, muitos de nós se perde nessas buscas ou não encontra acesso ou interesse por variedades eficientes de entretenimento.

Quem já visitou um asilo de idosos alguma vez, provavelmente se deparou com uma cena desoladora. Ao menos dos que conheci no Brasil e os que pude deduzir pelas mídias de outros países, certamente é global a tendência de abandono pra essa fase da vida. Por vezes, sem recursos financeiros ou estrutura mínima pra essa comunidade, ficam sem ter como produzir algum entretenimento que contemple as necessidades, limitações e anseios dos tutorados. Não é preciso dizer que são frequentes os casos de depressão entre idosos. Estou citando essa parcela da população, justamente porque este contexto destaca uma questão primordial no ser humano de todas as idades. A sensação de não estar mais ativo, em uma espera passiva pelo dia da morte é o desprazer que mais assombra o ser humano. Enquanto jovem,  o ser humano luta para fugir basicamente de duas coisas: da velhice e da morte. E, claro, mesmo assim, sempre terá esse desfecho.

A vida nos exige que façamos algo dela e é exatamente por isso que estamos sempre em conflito com o que não ocupa o nosso tempo. Apesar de tantas coisas terem sido criadas para supostamente entreter o ser humano, muitas vezes isso não o está preenchendo de fato, podendo apenas estar conduzindo ele para uma morte passiva. Entenda que o problema não é sermos conduzidos até a morte, afinal isso é natural e todos nós chegaremos nela. O problema real é quando, eventualmente, a vida se torna tão somente a ligação vazia e direta entre nascer e se aproximar do fim. Esse intervalo é tudo que temos e por isso nos é sagrado, caro, de valor inestimável. Por isso, para todos nós, a vida não se resolve apenas por existirmos, sendo importante, portanto, exatamente aquilo que fazemos de nossa existência e quanta satisfação conseguimos obter dela.

Existem inúmeras formas de entretenimento para resolver o intervalo da vida junto da curiosidade humana. Em todas elas podemos experimentar momentos bons ou ruins, a depender da veracidade desses momentos. Dividir uma conversa, por exemplo, pode ser muito engrandecedor, mas se o assunto ou o interlocutor nos parece desagradável, podemos nos sentir entediados, cansados ou até irritados. Nesse caso, podemos facilmente identificar que tal entretenimento foi ruim e não nos preencheu, porém, existem outros tipos que, de tão comuns e maquiados pela sociedade, passam pela absorção do público sem o filtro da crítica. Ocorre, por exemplo, quando se trata de um programa de pseudo-humor com piadas sem graça, que ao invés de nos preencher o vazio,  apenas despeja referências rasas de sexo, preconceitos ou até discursos de ódio.

Por muitos anos na televisão aberta brasileira se via os quadros de programa como os de ‘videocassetadas’ onde se expunha uma compilação de vídeos de pessoas se machucando, caindo, escorregando, etc. Essa suposta demanda justificou, inclusive, a criação dos posteriores programas de violência ainda maiores e até mais explícitas, como os programas de tv nomeados de ‘policiais’, onde o público já insatisfeito se nutria de mais insatisfação, cultivando mais motivos pra odiar as pessoas enquanto enaltecia a violência até entrar no padrão mental do desprezo, do preconceito, da opressão, etc.

De tanto ver desgraça, mentira, preconceito e outros entulhos, dentro e fora da televisão, a mente fica insensível a todos esses estímulos, aceitando níveis cada vez piores de “conteúdo” e realidade. Manter a população acostumada ao inaceitável é a meta de muita gente que lucra as custas da ruína do público, durante essas milhares de horas diante desse falso entretenimento dentro e fora das mídias. Por isso, é importante filtrarmos aquilo que nos sujeitamos ou não a absorver ou vivenciar.

Você já deve ter ouvido a expressão “comer isopor” em referência a alimentos que, embora sejam visualmente volumosos, não sustentam o organismo, gerando, muito em breve, vontade de comer novamente. Da mesma forma ocorre com o falso entretenimento que, justamente por ser falso ou raso, te mantém vazio. Com este tipo de entretenimento, você tem a impressão temporária de preenchimento do vazio da vida, mas logo se apercebe que apenas “comeu isopor”. Esse hábito pode se tornar um vício e degenerar sua saúde física e mental. Enquanto a vida não para e o vazio continua, os viciados se tornam intolerantes com a ausência desse falso entretenimento, por efeito da crise de abstinência, similar ao que ocorre com o cigarro de nicotina que mesmo inútil, é requerido como se fosse necessário. Muita gente, inclusive, tem o ato de fumar nicotina, como equivocada tentativa de preenchimento do vazio da vida, perdendo saúde, tempo e dinheiro com algo tão vazio que nem mesmo dá “brisa” ou prazer real.

Quem em sã consciência compraria isopor para o almoço? Quem em sã consciência preencheria os dias de sua vida tentando rir do que não é engraçado ou tentando aliviar o estresse assistindo conteúdos estressantes? Se a conta não fecha, você está fazendo errado. Eu não quero dizer o que é que você tem ou não que escolher pra se entreter, pois isso é completamente subjetivo a cada pessoa. Algumas pessoas se ocupam em estudar idiomas, outras não possuem afinidade ou curiosidade por isso. Algumas se preenchem tocando um instrumento musical ou escrevendo poesias, enquanto outras podem preferir passar longe disso e desfrutar seu tempo cozinhando ou dividindo o prazer de uma refeição com alguém querido. Não importa que tipo de área se tenha interesse, desde que encontre meios sinceros de se entreter nessa atividade, pra não ser enganado com os tais “isopores” da vida. Descobrir aquilo que nos preenche, pode nos eliminar o medo desse incógnito vazio da vida e nos motivar em nossa missão, seja ela qual for.

Rodrigo Meyer

Não alimente o inimigo.

Embora muita gente concorde que na luta por determinadas causas e interesses, haja a necessidade de se combater problemas e fomentar soluções, muita gente ainda cai em um erro clássico que é compartilhar mídias originais dos inimigos pra, supostamente, criticá-los. Simplesmente não faça isso. Fique e te explico porquê.

Por melhor que seja a intenção de criticar e alertar mais pessoas sobre o quão ruim é determinada coisa, você deve fazer isso de maneira eficiente e que não seja como ‘o tiro que saiu pela culatra’. Quando você quiser que determinada mídia seque ou caia no ostracismo, você precisa, sobretudo, não ser parte da força que impulsiona essa mídia. E nas redes sociais, feliz ou infelizmente, o mecanismo que dá maior visibilidade pras coisas depende exatamente dos compartilhamentos e das visualizações que derivam disso e de novos compartilhamentos feitos, num esquema bola-de-neve. Quando nos damos conta, um post praticamente anônimo ganhou repercussão em grande parte da internet e quem nem sabia que uma asneira estava dita, agora sabe junto com diversos outros apoiadores e opositores, que, se compartilharam, ajudaram a tornar isso mais presente na atenção das pessoas, em detrimento de outros conteúdos melhores.

Lembre-se que tudo que há de ruim no mundo, como os preconceitos, os pensamentos equivocados, a violência, os discursos rasos e todo tipo de bobagem, foi replicado justamente por esse mesmíssimo efeito de propagação. Quando você não gosta de algo, há meios pra se falar disso, sem dar espaço pra mídia ou pra pessoa a quem você não concorda. Eis aqui algumas considerações:

Quando você encontrar uma foto que lhe pareça degradante, não há sentido em espalhar ela pra toda internet, com ideias como “vamos compartilhar esse absurdo até que algum responsável tome as providências”. Simplesmente não é assim que você conseguirá o suposto objetivo de fazer parar e de responsabilizar pessoas pelos erros já cometidos. Você não espalha um incêndio na floresta sob a ideia de querer que alguém seja impactado por um continente inteiro pegando fogo pra poder fazer algo sobre isso. Aliás, muitas das vezes quem faz esse tipo de pedido, faz com más intenções, esperando justamente que os incautos espalhem aquilo, objetivando ver o malefício se espalhar mesmo.

De maneira igual, vale pra tudo o mais. Se você encontra um vídeo que é ruim no Youtube ou no Facebook, compartilhá-lo, mesmo que com a boa intenção de fazer uma crítica ou um alerta, vai acabar dando mais visualização e destaque pra esse vídeo e o mecanismo das redes sociais começará a entender que esse vídeo é relevante e começará a ‘hankeá-lo’ melhor em relação a outros conteúdos. Como resultado, um número maior de pessoas verá aquele exato vídeo (por vezes sem ser do seu compartilhamento isolado com a crítica anexa) e, então, outros conteúdos bons que já tinham dificuldade de alcance, somem das timelines por causa do reposicionamento no hanking.  Isso é a receita garantida de plantar o que não se quer e secar as próprias boas sementes daquilo que se queria. Nada mais prejudicial que isso.

Outro detalhe importante é estender essa prática não só pras mídias mas para tudo que esteja relacionado aos contextos, pessoas, empresas ou lugares a que não compactuamos. Se você não quer que um político ganhe fama entre a população, simplesmente pare de colocá-lo nas notícias e nas redes sociais o tempo todo. Se o sujeito ainda é pequeno e anônimo, não faça ele se tornar grande e famoso. Deixe ele secar no ostracismo. Isso é uma lição que ajuda a moldar a própria sociedade sobre o que é válido ou não, o que recebe ou não atenção, o que tem ou não repercussão na internet, etc. Quando você não faz esse filtro, você permite que pessoas estúpidas consigam rapidamente saltar de um post anônimo isolado para uma comunidade que o cerca, o apoia, o endossa e o compartilha. Em pouco tempo, algo minúsculo se torna um problema enorme do qual teremos que lidar, como que um piano adicionado nas costas, pra quem já carregava diversos outros. Não é inteligente compactuar com esse modelo equivocado de lidar com pessoas, mídias, empresas e assuntos.

Saudável e necessário é focar-se naquilo que você quer ver prosperar. Se você quer que as pessoas conheçam mais sobre um determinado assunto, invista nisso, crie uma mídia própria ou compartilhe de uma boa mídia de terceiros aquilo que representa suas ideias, seus valores, seus objetivos. Em paralelo a isso, quando vir conteúdos inaceitáveis como xenofobia, racismo, violência gratuita, machismo e outros entulhos sociais, se esforce pra combater esses espaços pra que eles não voltem a existir e não se espalhem. Se quiser fazer uma crítica a eles, você pode, mas deve usar recursos que isolem completamente a mídia original. Pode, então, por exemplo, fazer um print de uma imagem e repostá-la dentro de um grupo pra que as pessoas possam saber o que ocorreu e, livremente, discutir sobre aquele assunto, entender e agir pra resolver. Outra forma possível é escrever uma matéria citando o assunto, sem que precise divulgar os criticados. Assim você combate o que há de ruim, sem dar visibilidade.

É claro que, muitas vezes, os inimigos já tem uma fama ou repercussão tal que é inviável não citá-los, afinal já são conhecidos pela maioria das pessoas, independente do compartilhamento, então, se referir a eles diretamente é útil. Quando já espalharam feito um câncer ou vírus, a tática já não pode ser apenas evitá-los, sendo preciso, agora, expor os absurdos como forma de usar o próprio peso do inimigo pra derrubá-lo. Tal como no judô, independente do seu porte físico, você pode colocar um oponente ao chão, apenas sendo habilidoso em verter todo o esforço e peso dele a seu favor no movimento, facilitando pra que ele praticamente caia sozinho. Isso é ser eficiente. Nas causas sociais, nas mudanças do mundo e até mesmo na disseminação de educação, seja na família, num debate na internet ou nas escolas, você tem o poder de fazer a coisa certa de um jeito que funcione e não gere mais problemas do que antes.

Se este texto lhe soa útil e realista, faça o papel de espalhá-lo. É assim que coisas melhores ganham mais espaço na memória das pessoas, no inconsciente, nas redes sociais, nos compartilhamentos, nas impressões sobre o mundo, na hora de transmitir valores aos amigos, as próximas gerações, etc. Aprender é indispensável, mas se não compartilhamos aquilo que aprendemos e/ou queremos ver no mundo, não veremos isso se espalhar como realidade. Se você quer MESMO que uma certa realidade positiva se estabeleça no mundo é seu papel fazer parte dessa epidemia proposital de fazer chegar pra mais gente.

Rodrigo Meyer

Ganhar livros? Tem novidade na área!

Você que é leitor ou autor, seja de blog, livro ou rótulo de shampoo, agora tem um novo lugar pra interagir. Mas, melhor do que apenas interagir é poder ganhar livros. Sim, isso mesmo. Você entra pro grupo Para Ler no Facebook e já está apto a participar dos sorteios que ocorrem por lá.

Sempre que um autor, editora, mídia ou outra empresa quiser anunciar para o público de leitores, será cobrado um valor simbólico que permita converter na compra de um livro para que o grupo possa presentear um sorteado. Bacana, né? Uma maneira simples e criativa de ajudar tanto leitores quanto escritores.

Uma comunidade de leitores e escritores é bacana, mas uma em que se pode ganhar livros é maravilha. Convido todos vocês aqui do WordPress, da fanpage do Blog no Facebook ou de qualquer outro canto, a participarem do grupo.

Nos vemos lá.
Rodrigo Meyer

Até que ponto a privacidade importa?

Todo ser humano tem, ou deveria ter, seus momentos pessoais, sua privacidade, seu tempo isolado do restante das pessoas. A depender do modelo de sociedade, isso pode ser mais incisivo ou menos, mas todos nós, em menor ou maior grau, tem ou precisa ter alguma privacidade. Nos tempos modernos, isso pode estar se perdendo devido ao vício em tecnologia em um modelo que incentiva a exposição de dados e a própria imagem.

Nas redes sociais como Facebook, Instagram e similares, parece haver uma disputa por espaço e visualizações que fisga, principalmente, os mais inseguros. As pessoas parecem usar a simbólica aprovação virtual nessas mídias como compensação pela necessidade de se sentirem importantes ou apreciadas na vida real. É uma espécie de efeito colateral da insegurança ou falta  de amor-próprio. A pessoa pode estar carente por atenção e validações positivas, mesmo que sejam apenas representações como o surgimento de um novo inscrito, seguidor ou uma sinalização de ‘like’ em uma mídia ou publicação.

Toda mídia nasce pra ser exposta, mas isso não significa que a exposição precisa ser da pessoa ou de sua privacidade. Uma coisa é um músico fazer um show diante de uma plateia e outra, completamente diferente, é expor publicamente sua rotina, sua imagem fora dos palcos. Mas, vivemos tempos onde os exemplos de sucesso na internet se tornaram uma meta de trabalho pra muita gente. As pessoas querem viver o sonho de poder ganhar dinheiro trabalhando com mídias a partir de suas próprias casas. A princípio isso não tem problema algum, mas começa a ser prejudicial quando as pessoas querem chegar em algum lugar, mas não possuem nada importante para mostrar. Na ausência de uma criação, elas acabam se tornando o próprio conteúdo da mídia.

Parece cômico quando descrevemos isso, mas existem milhares e milhares de pessoas que conquistam visualizações e fãs apenas por se exporem e não por criarem algo. Provavelmente seriam anônimos em tempos anteriores à internet ou às redes sociais virtuais, mas atualmente estão se tornando celebridades que vieram de lugar nenhum e caminham sabe-se lá pra onde. É compreensível que alguém veja um músico, goste do trabalho dele e torne-se interessado de ver seu site, suas fotos ou até mesmo algumas curiosidades de sua vida pessoal, mas o que dizer de alguém que não está produzindo nada? Por qual razão as pessoas estão dando validações à pessoas que ligam suas câmeras de vídeo, gravam qualquer aleatoriedade e sobem esses vídeos para internet em busca de algum sucesso? É preocupante o nível de quem assiste esses “conteúdos” e de que os cria. Estranhamente, essas duas pessoas foram feitas uma para as outras. E são muitas.

Resumidamente, as pessoas descobriram que a mesma curiosidade vazia e doentia que elas possuem das banalidades, outras pessoas também possuem e, então, esse seria um jeito fácil de atrair muita atenção na sociedade, agora que elas podem simplesmente ligar um dispositivo e alcançar milhares de pessoas no mundo, via internet. Com a remuneração vinda de sites como Youtube e similares, as pessoas estão  vidradas em querer chegar o mais rápido possível no objetivo ilusório da fama, da popularidade ou mesmo da riqueza financeira. Isso se torna especialmente danoso quando essas pessoas de fato alcançam essas metas e percebem que é possível ser fútil e ser recompensado com dinheiro, fama ou qualquer que seja o objetivo sonhado pela pessoa. Então, esse sistema incentiva pessoas já enfraquecidas da mente a intensificarem esse modelo de vida. E exemplos não faltam. Recentemente veio à tona o caso de um youtuber que, para conseguir visualizações, apelou para a extrema irresponsabilidade, gravando um vídeo em formato de vlog fazendo sensacionalismo, humor e deboche de uma área no Japão onde costumam ocorrer muitos suicídios. Há algum tempo atrás uma pessoa disparou um tiro em si mesma como forma de “conteúdo” para um vídeo pra internet e acabou morrendo.

Embora a idiotice humana esteja mais evidente nesses casos citados, ela está presente em inúmeras outras situações que talvez sejam menos notadas ou citadas, justamente porque causam menos repercussão social, já que não lidam diretamente com a morte. O ser humano parece ignorar os danos antes que eles se tornem drasticamente um assunto de vida ou morte. Mas você já parou pra pensar em quantas outras coisas “mais leves” essas pessoas já tentaram antes de apelar pra esse tipo de vídeo drástico? Você já pensou no tipo de obstinação que essas pessoas estão, atrás de mais e mais visualizações e lucro, a ponto de ignorar qualquer tipo de valor ou racionalidade, usando a imbecilidade como recurso de pseudo-entretenimento, apenas por saberem que sensacionalismo vazio pode finalmente tirá-las da miséria financeira? Que tipo de mensagem isso passa pra humanidade? Que tipo de pessoas serão formadas a partir desse público assistindo isso?

É fácil perceber que o futuro poderá ser assustador em um mundo onde as pessoas farão qualquer coisa por mais visualizações, mais dinheiro e mais atenção. Se elas já aceitam zombar do suicídio ou arriscarem-se a um tiro de arma apenas para atiçar a curiosidade das pessoas sobre aquele vídeo, imagina no que mais estarão dispostas, quando sentirem a pressão da “concorrência” em uma internet cada vez mais acessível, cada vez mais veloz e cada vez mais rasa. Lembre-se que alguns exemplos são apenas casos pinçados na memória dos últimos tempos e que é difícil mensurar quão mais longe isso vai em termos de quantidade e de má qualidade, mas as estatísticas dessas plataformas de “conteúdo” resumem bem pra onde estão indo a atenção social e o dinheiro. Infelizmente as notícias não são boas.

A privacidade morreu desde que as pessoas decidiram preencher formulários sobre seus gostos musicais, suas marcas preferidas, seus hobbies, seus espaços de trabalho, seus telefones, etc. O Facebook é um imenso compilado da vida de cada membro. A medida em que interagem pela exposição de suas privacidades, removem a última barreira entre elas e os anunciantes. Agora, governos e empresas podem ter, facilmente, informações valiosas pra determinar como manejar o público pra um determinado objetivo. Pode soar como alarmista, mas isso já é feito há muito anos na internet e já existia até mesmo, com menor eficácia, nos tempos de televisão. A internet, infelizmente, conecta o próprio consumidor diretamente com as mídias, fazendo ele se tornar um funcionário eficiente que não só entrega todo seus dados de graça como ainda paga pra fazer isso através das caras mensalidades dos serviços precários de acesso à internet.

Antes da era dos reality shows as pessoas se surpreenderiam de ver pessoas se expondo 24 horas por dia diante das câmeras para um grande público. Foi exatamente essa surpresa que atraiu também a atenção problemática para este tipo de programa nas televisões. O sucesso desse tipo de conteúdo inútil abriu um precedente desastroso pras mídias vindouras na internet. Agora as pessoas podem ter seus próprios reality shows feitos de suas próprias casas. Já não se importam de ligar a câmera e se filmarem almoçando, dormindo, usando o banheiro, viajando, interagindo com parentes. Perceba que a crítica não é para as pessoas que sentem-se livres e à vontade diante dessas atividades a ponto de não se importarem de dividir um vídeo com isso. A crítica é sobre as pessoas estarem se forçando a perder uma privacidade que antes tinham vergonha de expor e agora o fazem estritamente pela pressão pessoal e social de ganhar dinheiro e fama com esse acordo. Cada vez mais se permitem serem pisadas e também de pisar em troca do crescimento das estatísticas dessas mídias. Percebe a diferença?

Eu, por exemplo, não me imaginaria correndo atrás de fama e dinheiro usando minha rotina como ponte. Não é com esse tipo de ação que eu pretendo chegar a mais pessoas ou a algum dinheiro. Sendo bem simplista na analogia, a sociedade atual está fazendo com suas vidas pessoais e profissionais o mesmo que a indústria pornográfica fez com o Cinema: substituíram os roteiros e produções por cenas extremadas de algo que muitas pessoas desejarão ver, não pela qualidade, mas pela curiosidade ou impulso. Aliás, diga-se de passagem, o próprio Cinema fez e faz apelos sexuais para engajar plateias. Imagina quão pior está em mídias que já nasceram sem roteiros ou objetivos consistentes. Me desculpe por relembrar, mas o Youtube já foi palco pra uma pessoa beber água com fezes em um vídeo para viralizar em busca de fama. Se isso não é imbecil o suficiente em todos os sentidos, eu não sei mais o que seria.

Diante de tudo isso que foi dito, ficam algumas perguntas: Até que ponto a privacidade importa? Será que as pessoas realmente valorizam a privacidade? O que sobrará pra desvendarmos se tudo nas pessoas já está exposto de maneira automática praticamente? Quem serão essas pessoas daqui alguns anos, tentando se destacar no meio de outros sensacionalismos extremados? Que tipo de saúde psicológica e física essas pessoas terão debaixo desse modelo de vida que está se tornando tendência internacional? Que tipo de vida pessoal e social essas pessoas terão, se tudo que fazem na intimidade é recheio para o trabalho?

Se tornaram escravas por opção ao trabalhar 24 horas por dia, em condições questionáveis, para gerar um conteúdo dispensável, mas que, infelizmente, outras mentes vazias podem ter disposição de absorver pois vivem como zumbis acorrentados na frente de um celular ou computador. Muitas dessas pessoas já não filtram nem mesmo a privacidade sexual, em um mundo onde a troca dos chamados ‘nudes‘ se tornou tão corriqueira que as pessoas acreditam ser necessário e normal. Acostumadas a se exporem em formulários, interações, fotos e vídeos, chegam a cobrar dos outros que façam o mesmo. Uma triste maneira das pessoas se escolherem entre si com base em estereótipos, rótulos, fotos forjadas e todo tipo de alucinação que figura ao lado da realidade aberta dessas pessoas.

Estamos pulando fases importantes da socialização e da descoberta da vida. Nossas premissas de valor e objetivos estão escorrendo por entre nossas mãos, a medida em que tentamos segurar esse mar de ilusões pautadas em status, dinheiro, poder, aceitação, validação pública, etc. Extremamente danoso, extremamente perigoso, extremamente “humano” nos tempos atuais.

Rodrigo Meyer