Conto | A casa 21.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia aleatória de metrópole, marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Todos os dias, voltando pra casa, percorria quase o mesmo caminho. Era inevitável notar uma certa casa, de muros baixos, sempre apagada. Parecia vazia. Não se via, nem ouvia, ninguém. Na frente, o mato tomava conta e as grades do portão já estavam bastante enferrujadas. Um dia resolvi diminuir os passos e olhar mais de perto. Foi quando me dei conta de que o telhado já corria o risco de se desfazer. Buracos no parapeito e uma certa deformação nas telhas, apontavam essa possibilidade.

Era estranho estar ali. Parecia que a casa é quem me observava. Me sentia até um pouco culpado de estar bisbilhotando. Mas, acho que muitas outras pessoas já tiveram a mesma curiosidade. Não seria possível que durante todo aquele tempo em que a casa ficou ao relento estragando, ninguém tivesse nem ao menos percebido que não havia mais gente morando. Dei uma última olhada e segui meu caminho, pensando um pouco sobre quem teria sido o último morador e porque a casa havia sido abandonada. Na falta de respostas, memorizei o endereço pra poder pesquisar mais tarde. Em casa, abrindo o mapa na internet, pude encontrar a rua, mas não existia aquele número. As imagens daquela rua não eram de mais do que dois anos atrás. E por mais que eu tentasse identificar pela arquitetura, não havia casa alguma que se parecesse com aquela.

Olho novamente o endereço, ando pelo mapa, pra tentar me localizar. Confirmo que estou na rua certa e até mesmo reconheço duas casas próximas. Tinha de ser ali. Onde foi parar aquela casa? Contava atentamente o número de cada casa, localizando o 20 e o 22. Do outro lado da rua, eram pra estar os números ímpares, mas seguia do 19 para o 23, sem nenhum sinal da casa 21. Quem olhasse apenas o mapa, talvez imaginasse que o vizinho comprou a casa ao lado e uniu sob o mesmo número. Mas, eu estive pessoalmente e lá estava a casa 21, bem diante dos meus olhos. Talvez fosse o inverso, eu pensei. Devem ter dividido novamente em duas casas, fazendo surgir novamente a casa 21. Mas, em menos de dois anos, como poderiam ter construído e abandonado uma casa que, na aparência, vê-se que está há muito tempo abandonada e deteriorando? Aquilo não se encaixava de jeito algum. Me esforçava pra entender qualquer outra possibilidade.

Achei que estivesse exagerando, afinal, deve haver uma explicação plausível para essa confusão. De certo, eu apenas não estava percebendo o óbvio. Decidi que na noite seguinte eu olharia novamente aquela rua. Tinha que voltar com uma foto, pelo menos, pra não haver dúvidas do que eu via. E assim o fiz. Voltando do trabalho, subindo a ladeira, não saia da minha cabeça esse momento. Entrei na rua com atenção redobrada, como se estivesse entrando em território proibido. E lá estava a casa, do mesmo jeito que ontem. Me aproximei e saquei meu smartphone para fazer umas fotos. Estava um pouco escuro, apenas com uma iluminação de um poste um pouco afastado. Mas era suficiente pra deixar marcado de forma legível o número da casa e a aparência da fachada. Aproveitei e registrei as casas ao lado. Talvez se eu não encontrasse uma resposta lógica, alguém poderia olhar as fotos e sugerir alguma explicação. Por via das dúvidas, pesquisei novamente o site de mapas e a casa continuava ausente. Olhando as imagens que fiz, tentei encontrar, então, as casas vizinhas. E lá estavam elas no site, tal como nas imagens que eu havia registrado presencialmente. Casa 19 e casa 23, vizinhas dividindo o mesmo muro, sem nenhum terreno ou casa 21 entre elas.

Ainda que igualmente estranho, parecia mais plausível que o site tivesse omitido ou censurado aquela casa. Mas que trabalho seria remover uma casa inteira, ao invés de simplesmente desfocar a fachada na imagem do mapa. Por outro lado, de que serviria ao site, eliminar essa casa, enquanto na vida real, ela continuava lá? Qualquer um poderia atestar sua presença, visitando a rua pessoalmente. Eu ainda não tinha uma resposta satisfatória e aquilo foi me incomodando. Ria na frente da tela, de nervoso e confusão. Talvez estivesse enlouquecendo. Alguém mais teria que saber daquela casa. Então, enviei as fotos e o link do site de mapas, pra uma amiga na internet. Se duas pessoas estivessem percebendo a mesma coisa, então teríamos algo concreto sobre o episódio. Alguns minutos depois, minha mensagem é respondida com um tom de humor e surpresa. De fato aquilo era estranho e nenhum de nós dois conseguiu entender bem onde foi parar a tal casa 21.

Rindo para não dar um nó na cabeça, comentei que parecia uma falha na Matrix ou algo assim. Pesquisei na internet se mais alguém já havia dito algo sobre essa casa, mas não encontrei nenhuma imagem ou comentário. Depois de um tempo olhando novamente as fotos e o mapa, volto para falar com minha amiga, mas fico ainda mais perdido ao não encontrar o contato dela. Era com se a conversa não tivesse ocorrido. Procuro pelo nome dela na lista de contatos e não está. Talvez, no meio da agitação, eu tenha conversado com outro contato, por engano. Olho as conversas recentes e a última é de ontem. Nenhum rastro do assunto conversado. Agora sim, senti pânico. Achei que estava enlouquecendo. Sumiu uma casa e agora sumiu uma pessoa. O que é que está acontecendo?

Me levanto da cadeira e sento na beira da cama, esfregando o rosto com as mãos, pra tentar me recompor. Me levanto preocupado, abro a janela e olho pelo bairro, pra ver se noto algo incomum. Tudo parece normal. Talvez eu estivesse sonhando e logo iria acordar. Me belisco, falo pra mim mesmo que quero acordar, mas tudo parece bem real, como sempre foi. Vou ao banheiro e lavo o rosto com água fria, mas nada disso muda a situação. Seria assim, tão repentinamente, que a vida me dobraria? Eu não tinha resposta alguma. Saí de casa sem rumo definido, andei pelo bairro, cheguei à avenida e segui caminhando. De repente os faróis de um carro me cegam por um instante e escuto ele derrapar. Não há tempo de reagir e percebo que vem na minha direção em um piscar de olhos. Da luz para uma imediata escuridão, sem me lembrar de mais nada depois disso, até o momento em que acordo em uma cama, com braços e pernas engessados, um colar cervical e dor pra todo lado.

Olho pro ambiente e não reconheço onde estou. É o quarto de uma casa que não é a minha, nem de ninguém que eu conheça. Não me recordo de ter passado por um hospital e começo a ofegar pensando como fui parar ali. Olho para os móveis no quarto, tentando encontrar minhas roupas ou o meu smartphone, mas não vejo nada que me pareça familiar. Um silêncio agoniante toma conta da casa toda. Sinto como se estivesse sozinho. As janelas estão fechadas e a única luz no ambiente vem do lado de fora do quarto, passando pela porta entreaberta. Chamo em voz alta por alguém, e minha voz ecoa pelo quarto. Não escuto ninguém. Penso que talvez eu tenha morrido e assim seria a realidade depois da morte. Mas, onde estariam os outros desencarnados? Tentei e não consegui me mover pra fora da cama. Estava quase que totalmente imobilizado pelo gesso e a posição. Tento voltar a dormir, na esperança de que mais tarde alguém apareça, mas a mente inquieta atrasa o sono até o corpo ser vencido pelo cansaço.

Depois de ter acordado pela segunda vez, me apercebo imediatamente que não estou mais com gesso algum e nenhuma dor. Ou foi tudo um pesadelo, ou muito tempo havia se passado desde minha última lembrança. O quarto parecia o mesmo, incluindo o terrível silêncio, exceto que agora parecia estar de dia, pela luz que vazava pela janela. Vejo que estou hábil pra caminhar normalmente, me levanto da cama e saio do quarto, tentando entender onde estou. A casa está toda mobiliada, mas tudo tem um aspecto antigo. Deve ser a casa de quem me socorreu. Mas, porque estou aqui e não na minha própria casa? Onde estão meus familiares? Não conheço ninguém que tenha uma casa como esta. Desço até o andar debaixo e encontro a porta da sala. Está destrancada e vou até a calçada, pra ver se reconheço ao menos o bairro. Imediatamente meus olhos arregalam ao ver que estou naquela maldita rua. Me viro pra ver a fachada da casa e é exatamente aquela casa 21. Meu coração acelera e sinto que algo de muito errado está acontecendo. Percorro a rua desesperado, olhando para as casas e retomando na memória o caminho que eu fazia todos os dias pra chegar em casa. Um tanto desorientado, levo um tempo até perceber em qual rua eu deveria entrar pra chegar na minha verdadeira casa. Encontro minha rua, reconheço meus vizinhos, mas não encontro minha casa. Novamente me vejo naquela mesma situação de antes, procurando os números, enquanto olho atento pra dentro da construções.

Toco a campainha das casas que conheço. Talvez alguém que eu conheça possa me explicar. Noto alguma movimentação em uma das casas. Alguém afasta as cortinas discretamente, mas logo fecha. Penso que logo apareceria na porta pra me atender, mas, depois de um bom tempo, vejo que fui ignorado. Aquilo não estava normal. Qualquer um dos meus vizinhos teria vindo falar comigo. Olho pro restante da rua e me lembro perfeitamente de tudo por ali. Apenas a minha casa não está mais. Me pergunto pra onde vou, se saio andando pela cidade, se espero aqui sentado. Tudo que sei é que não posso mais voltar àquela outra casa. Descalço, do jeito que saí da cama, caminhei pelo bairro, até encontrar alguma movimentação maior de pessoas. Reconheço os comércios e toda a cidade, mas não entendo o que aconteceu comigo. Sento em uma calçada, encostado no muro e fico por ali observando o movimento um bom tempo.

O tempo passa e percebo que terei de dormir na rua quando começar a anoitecer. Mas, me lembro de como tantos outros em situação de rua escolhem dormir de dia, pra terem mais segurança. Quando a noite vem, me esforço pra ficar acordado o máximo possível, até que a manhã chegue e eu possa encontrar um lugar pra dormir. Me sinto constrangido e apavorado. Eu tinha um trabalho, uma casa, eu tinha amigos, mas agora parece que estou em outra realidade e minha única opção é tentar sobreviver à todo esse desconhecido. Me pergunto se outras pessoas espalhadas pelas calçadas da cidade, debaixo dos viadutos, também não tiveram histórias bizarramente similares. Me parece mais preocupante não entender do que a eventual revelação dos fatos. Começo a frequentar os mesmos lugares, em busca de manter uma zona de conforto. À medida que novos dias surgem, começo a observar como as coisas funcionam pra quem vive na rua. Imito seus passos, tento fazer parte. E assim eu também desapareço no meio da sociedade. Hoje eu sei. É assim que as casas somem, que as pessoas se tornam invisíveis ou irreconhecíveis. É assim que nos roubam toda a personalidade, a sanidade e a humanidade. Somos expropriados da nossa própria vida, do nosso direito à realidade. Somos como fosse uma vida paralela, uma vida alternativa, uma outra sociedade. Somos pessoas que quase não se lembram mais dos verdadeiros nomes e, quando o passado é questionado, os olhos lacrimejam por sentir que existiram em algum momento, mas que já não sabem dizer se tudo isso foi loucura ou realidade.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Por trás do fogo.

Na contraluz do fogo, escondido atrás de um laranja vivo, queimava forte o recado dado. De cima pra baixo, de baixo pra cima, pra ambos os lados. Os bons tempos voltaram. Não é o paraíso, pois isso não se pode esperar da Terra com estes hóspedes. Mas é mais uma viagem pra dentro de mim mesmo. O mundo pode acabar e eu ainda estarei de pé. Ruíram todos os outros, porque não sabiam o que era ter valor. Lá embaixo eles rastejam, em busca de sanar o tédio, enquanto eu já sou o meu próprio remédio. Por isso eu venci. Fora daqui, ninguém parece ter percebido que tudo mudou. Pra eles, mudou para pior, pra mim um novo degrau. Já subi muitas escadas. Vez ou outra calejei as mãos e ralei um pouco dos joelhos, mas nunca algo letal como quem rolou em queda livre sucessivas vezes como um vício ou um bug de computador. Ter olhos é tudo nessa vida. Por isso tenho três. Quando dois deles se fecham, o terceiro fica bem acurado. Não sou um privilegiado. Sou apenas alguém que decidiu não atirar no meu próprio pé. Por isso eu subo e eles caem.

Rodrigo Meyer

Crônica | Sou meu próprio presente.

Acordei sem dor. Sinal do corpo se adaptando. Foi uma ótima noite de sono. Sonhei como geralmente sonho: boas realidades intensas. Eu gosto muito mais é de sonhar. Lá as coisas são mais vivas. Acordado, mesmo na melhor das situações, é tudo sem sal, sem moral, sem aquele toque de mistério, de perspicácia. Meus sonhos são ocorrências inteligentes. Não sei se isso depende da minha inteligência ou se simplesmente sou contemplado com algo maior e melhor que eu. O que eu sei é que eu sempre fui muito grato aos meus sonhos. Aproveitei a oportunidade e sentei na cadeira pra escrever. Essa é a rotina que todo autor deveria ter. Hoje me sobra tempo, mas ainda não estou pleno. Sinto falta de me aconchegar com um café sobre a mesa e criar. O que liberta e dignifica não é o trabalho, mas o apreço por trabalhar. Em um mundo onde a maioria é infeliz com o trabalho obrigatório em uma atividade que detesta, eu prefiro a fome do que um tapa na minha dignidade. Prioridades.

Rodrigo Meyer

Onde estão as pessoas noturnas?

Sou uma pessoa noturna e fico me perguntando onde estão as outras. Embora eu consiga lidar bem com as atividades diurnas quando elas são necessárias, desde nascença eu fui noturno e essa tendência nunca sumiu. Eu gosto da noite e é o horário que naturalmente me sinto mais disposto e interessado em interagir e trabalhar. Por ser autônomo, muito do meu horário é definido por mim mesmo e, caso eu não precise fazer nada durante o dia, eu simplesmente opto pela noite imediatamente.

Na fase embrionária de diversas mídias que eu estou alavancando, a presença diária pra intervir manualmente em alguns detalhes me fazem ter uma certa rotina diurna, o que, muitas vezes, me tira a liberdade de dormir tarde e acordar tarde. É basicamente isso que faz muita gente que, em teoria, são noturnas, terem um estilo de vida moldado ao padrão diurno, por conta de estudo, trabalho ou socialização. A média das pessoas está mais ativa durante o dia, provavelmente como resultado de uma convenção social global que, desde os primórdios da humanidade, fixou-se no período de maior incidência de luz para gerir as atividades, deixando a noite para o sono e descanso, já que nesse período pouco poderiam fazer no ambiente.

Nas sociedades que se desenvolveram de lá pra cá, estabeleceu-se até mesmo um certo padrão de horário pra se acordar e trabalhar, funcionando como uma faixa de tempo em comum para as pessoas poderem fazer comunicação e trabalho de maneira mais abrangente e efetiva. A padronização dos horários tem muito que ver com um modelo onde tenta-se aproveitar o máximo possível da atenção das pessoas em um bloco só. Porém, nem assim os noturnos sumiram. Muitas pessoas, assim como eu, escolhem o modelo autônomo de trabalho, justamente pra desfrutar da noite. Assim como tem gente ativa de noite pra desfrutar, tem gente trabalhando pra atender essa parcela de pessoas também. Os comércios noturnos ou até alguns ’24 horas’, estão presentes em cidades grandes ou pontos turísticos.

Apesar de tudo parecer o paraíso, a diversidade de opções não é tanta assim. Uma loja de conveniência aqui, um posto de gasolina alí, talvez uma padaria e alguns bares, mas nada muito mais que isso. As casas noturnas, apesar do nome, por vezes, terminam mais cedo do que muitos gostariam, mas elas refletem uma realidade dos próprios frequentadores, que, depois de suas noitadas dançando e bebendo, ainda terão que estar ativos pra estudar e/ou trabalhar no dia seguinte. Soa como se o melhor da vida estivesse no potencial da noite, porém a sociedade e as exigências desse modelo nos priva desse benefício em troca da nossa busca automatizada por trabalho, dinheiro, socialização e até por encaixe em padrões e expectativas alheios.

É verdade que ser noturno destoa o suficiente pra nos vermos descriminados em alguns aspectos. As pessoas olham com maus olhos aqueles que levam suas vidas fora dos horários convencionais. Já chegaram a me perguntar se eu nunca tomo sol e até mesmo a deduzirem que eu sequer trabalhava. Ser noturno nunca me impediu de trabalhar e minha vitamina D está em dia justamente porque tomo sol sempre. Mesmo que eu esteja ativo de noite, o dia tem 24 horas e pelo menos metade dele tem incidência de sol. Ainda que eu não goste de fritar no calor e prefira curtir um ar-condicionado geladinho, eu acabo tendo a grata oportunidade de ver o dia nascer várias e várias vezes, já que eu sigo acordado madrugada a dentro. Além disso, nem sempre é possível levar uma rotina noturna e, então, acabo pegando até os horários de pico de sol.

Ser noturno me abre inúmeras possibilidades, mas também fecha muitas portas. Quando eu mais quero fazer as coisas, as pessoas estão indo dormir ou simplesmente já estão cansadas ou preguiçosas demais pra fazer qualquer coisa significativa. É de noite que eu tenho energia e concentração pra escrever, desenhar, editar foto, gravar um áudio, um vídeo, ler ou cumprir algum projeto de trabalho. Mas e quanto a dividir o tempo com outras pessoas? Onde estão as pessoas noturnas pra podermos conversar, dar umas risadas e compartilhar a presença? Acaba sendo uma condição um tanto quanto solitária. A menos que eu molde as atividades noturnas para os ambientes de bares e casas noturnas, provavelmente não verei gente ao redor.

Aqui por onde moro, felizmente, tenho acesso a uma loja de conveniência onde às vezes gosto de fazer uma pausa nas minhas atividades e ir tomar um café e respirar um ar novo, ver rostos e observar um pouco da realidade. Mas, mesmo assim, não é um ambiente com o qual eu possa e/ou queira dividir tanta interação assim. As pessoas que geralmente se agrupam por estes meios, estão lá em um estilo de vida que não reflete meus interesses. Ficam com o som do carro ligado no último volume dos amplificadores pra chamar a atenção a todo custo, tomando algumas latas de cerveja aguada e quente na tentativa de diversão. Eu, tomo meu café e sigo de volta pro meu ambiente privado.

Na minha casa ou mesmo andando pela cidade ouvindo alguma música ou curtindo o movimento ocasional de carros e luzes, vou arquitetando uma sutil e importante poesia que me mantém um pouco mais satisfeito em estar acordado, apesar de não ter muita reciprocidade com aqueles que gostaria. Cruzar a noite sozinho não é um problema em si, sendo até muito prazeroso, mas tem dias em que queremos contar alguma coisa a alguém, ser ouvido, poder olhar nos olhos ou simplesmente ter uma agradável visita, mesmo que virtualmente. Tem momentos específicos que sinto falta de uma mensagem, uma voz, um movimento no vídeo ou mesmo os mimos presenciais que surgem da interação com pessoas e ambientes, como os perfumes, as texturas, os toques, o passar do tempo, os olhares, o desenrolar das situações de forma um pouco mais imprevista, entre outras coisas.

Não sei onde estão os noturnos e nem sei quantos são. Muitos escolhem a noite por falta de opção, seja pela insônia ou por uma vaga de trabalho. Eu, escolhi a noite por gosto e por inevitável característica de nascença. Me interesso pelo aspecto silencioso da noite, contemplando a lua e as estrelas, sentindo o vento no rosto enquanto olho pra lugar nenhum naquela escuridão que permeia os telhados mal iluminados da cidade. Saturei meu físico e minha disposição por longos anos em casas noturnas, bares, apartamentos de amigos, festas, ensaios musicais, shows e uma coletânea paralela de sonos interrompidos ou mal cumpridos. Mas, também, muitas compensações ao descansar nos dias subsequentes a todas essas agitações.

Acredito, inclusive, que existe uma enorme relação entre a vida noturna acordado e o apreço por dormir. O mundo dos sonhos é aquele mundo onde o irreal é possível e tudo tem um componente intrigante, misterioso, que embora pareça realista, é uma grande fantasia, por assim dizer. Na vida real, acordado durante a noite, sinto que o mundo se torna um lugar fantástico, onde as coisas podem ser mais do que normalmente são. As pessoas se tornam outras pessoas, a cidade tem outra aparência e até os becos mais descuidados ficam recobertos de uma beleza clean pela ausência de detalhes. Onde falta realidade, há espaço de sobra pra imaginarmos o que quisermos e, então, sermos personagens em cenários idealizados. Uma cidade pode se tornar palco para criarmos uma história um pouco mais agradável de se exercer, já que seremos obrigados, até o fim da vida, a sermos protagonistas e diretores desse espetáculo. Que seja algo bom, então.

Quando muitos estão se despedindo, eu estou me apresentando, chegando, tomando um banho, vestindo meu coturno, tomando um café e começando minhas tentativas de fazer sentido no mundo. Às vezes dá certo e posso notar um ou outro noturno perdido na multidão de dorminhocos que levantam a mão pra acenar que estão acordados, sinalizando uma interação em uma postagem na internet ou deixando uma mensagem. Nesses momentos, sinto como se estivesse em uma praia deserta e, de repente, visse alguém acendendo uma lanterna em uma ilha distante. Dá uma sensação de que ainda estou vivo, que ainda sou visto, que ainda existo e que há mais gente na mesma situação. Talvez haja um pouco mais de identificação entre os noturnos, justamente por não serem maioria na sociedade. Mas é preciso lembrar que, mesmo em minoria, o número de noturnos é significativo e seria muito bom se as pessoas tivessem um pouco mais de olhos pra esse nicho de realidade. Várias vezes quis exercer atividades que simplesmente não podia, porque não havia nenhum suporte na cidade que contemplasse esse estilo de vida.

É raro encontrar onde se possa comer de madrugada e, mais raro ainda, achar algum comércio noturno que não seja estritamente de comida e bebida. Se eu quiser comprar roupas, pagar meus boletos, visitar um museu de arte ou assistir um filme no cinema, estou obrigado a escolher horários convencionais ou simplesmente não fazer nada disso. Assim, a vida noturna torna-se um pouco mais difícil por falta de opções. Por outro lado, enquanto pouca coisa acontece, abre-se espaço pra uma experiência mais lúdica e minimalista, com pouco ou nenhum trânsito, quase tudo apagado, pouca gente circulando e, dependendo do lugar e do bom senso das pessoas, um silêncio agradável.

Aqui onde eu moro atualmente, infelizmente, não desfruto dessa paz, já que, sabe-se lá como e porquê, uma trupe sempre ocupa as ruas próximas para berrar, “conversar” e pesar na terra, apesar do horário tardio em um bairro estritamente residencial com grande parte de idosos e enfermos. O que eu faço, então, sempre que posso, é ir pra bem longe daqui e andar pela cidade, pensando em assuntos e contemplando pequenas coisas. Quando não posso, desabafo e tento fugir desse caos desnecessário, com headphones e boa música. Nem sempre é eficiente, porque é difícil competir com os decibéis dos imbecis, mas sigo tentando, pois não tenho opções melhores por enquanto.

Fico me perguntando se melhoraria ou pioraria estar em uma cidade que, embora tivesse mais tranquilidade pros meus ouvidos, fosse tão inativa durante a noite que me deixasse desmotivado em estar lá. Já viajei pra vários lugares incríveis e passei vários dias e noites fotografando e apreciando o lugar, com pouca ou nenhuma interação com as pessoas, sem depender tanto dos comércios, exceto vez ou outra pra comprar comida e bebida. Talvez esse próximo passo para uma vida cada vez mais minimalista possa ser viável, mas exige também um postura diferente das atividades profissionais, pois, onde tem pouca agitação, tem também outro modo de se levar a vida e o trabalho. Adoraria sentar à mesa e desenhar, escrever, ler, conversar ou sair pra fotografar. É uma pena que, pra coisas simples como essa, precisamos de um mínimo de estabilidade financeira pra bancar as contas da casa e a pequena estrutura de um computador e câmera fotográfica. Além disso, se vamos precisar trabalhar pra sustentar esse pequeno contexto, ocuparemos boa parte do nosso tempo fora das atividades idealizadas, a menos que consigamos unir trabalho e prazer em uma atividade só. E é esse plano mirabolante que eu tenho tentado arquitetar noite após noite.

Atualmente, depois de muito conquistar e aprender coisas importantes pro meu crescimento pessoal, ainda há um grande buraco no crescimento financeiro. Sinto falta de estar unido a outros noturnos que possam formar uma rede de apoio em vários sentidos. Idealizar mudanças para uma vida minimalista e noturna, passa, muitas vezes, pela necessidade de conquistar autonomia financeira suficiente pra financiar esse lifestyle de ausência dos horários convencionais de trabalho, ausência dos espaços e modelos convencionais de socialização e também uma visão diferente sobre o que é viável de se exercer com qualidade, eficiência e prazer, como, por exemplo, poder concretizar essa lacuna de ser um escritor ou artista visual. Tentei a Fotografia, por outro viés, por longos 17 anos e foi cansativo. Atualmente tenho investido meu tempo na execução de mídias e conteúdos, o que me dá chance de estar satisfeito e ser útil ao mesmo tempo. Resta esperar que isso seja também viável financeiramente e que eu possa finalmente me tornar um noturno de sucesso. Bom dia pros diurnos e boa noite pros noturnos!

Rodrigo Meyer

Sobre o medo de morrer.

Sei que muita gente teme a morte, mas certamente não sou uma dessas pessoas. Consigo entender que as pessoas correm da velhice e da morte e, de alguma forma, vê-se que estão apegadas a este mundo de uma forma tal que, deixar de existir e partir pra outra situação nova, totalmente desconhecida, as apavora. Seja lá o que encontremos depois da vida, como uma continuação ou um ‘eterno nada’ silencioso, reafirmando a brevidade da vida, pra quem tem medo da morte, não importa muito quais são as características da morte, além do fato de que nosso corpo simplesmente para de funcionar e, então, apodrece.

Via de regra, temos receio daquilo que não conhecemos. O mistério assombra muita gente. As pessoas se assustam mais com o que não podem ver do que com o que está bem diante delas. É exatamente o caso de quando as pessoas temem um ambiente sem luz, simplesmente porque não sabem o que há neste ambiente. Alguns se aterrorizam com a mera possibilidade das coisas, fazendo valer a ideia de que uma possibilidade já é mais que suficiente pra impactar alguém, mesmo que esteja distante da realidade.

De certa forma, é basicamente isso que constitui o pensamento e crença das pessoas, em torno da religiosidade, espiritualidade ou mesmo das superstições. Quando o homem vivia em cavernas e mal dominava o fogo, aproveitar o dia requeria dele a luminosidade do sol e algum controle sobre o que ele estava vendo e sentindo. Era possível entender facilmente que alguém estava tocando nele, vendo a presença da pessoa próxima de si, mas tornava-se uma incógnita sentir insetos ou pássaros triscando seus corpos no escuro. Dessa incógnita, a mente se assusta, porque ela não conhece e não compreende. Aquilo que ela tenta resolver e não chega em um resultado, gera uma ansiedade e um desgaste imenso para o cérebro. Um mecanismo de proteção automático da mente é evitar o desconhecido. Para tal feito, alguns se agarram em explicações sobre a vida, sobre a morte e/ou o desconhecido em geral.

Nossa mente consciente nada sabe sobre o desconhecido. Tudo que se constrói na mente sobre a vida, a morte ou o invisível, é uma especulação, uma crença, um palpite ou uma tentativa de dar vazão ao desconforto diante do que não se sabe e que se quer muito saber. Para algumas pessoas, a forma encontrada de lidar com a morte, é idealizar ou acreditar que depois do falecimento do corpo, chegaremos a algum local positivo, alinhado com o que julgamos ser de melhor qualidade ou com mais benefícios. As pessoas nunca imaginam, por exemplo, que a suposta continuidade depois da vida corpórea, seja um ambiente pior. Não seria confortável para a mente, saber que está se aproximando de algo ruim. Seria uma situação semelhante de quando os vivos se apavoram com a morte e evitam qualquer coisa que os deixe próximos dela. O medo de envelhecer, em última análise, é exatamente isso. Sabendo que a cada vez que envelhecem, ficam mais próximos do fim da vida, muita gente fica em desprazer de envelhecer, pois é o mesmo que se aproximar da morte. Essa estrutura de pensamento é abrangente e antiga, tanto que a ideia de um inferno como punição para uma vida fora das regras, deixou muita gente com medo dominada. Mas, felizmente, essa não é a única maneira de se encarar a vida.

Muita gente, inclusive eu, não vive com essa preocupação diante da velhice ou da morte. A morte chegará pra todos, sem exceção. Não se pode viver achando que evitará morrer. Não há porque correr da morte, pois ela é um processo natural que já foi presenciada inúmeras vezes. A impressão que tenho é que, ao evitarmos a morte, estamos atribuindo valor no período em que estamos vivos. É interessante pensar que, apesar das catástrofes do mundo, do modo doentio das sociedades e sistemas políticos, as coisas ainda nos parece com um valor tal, que lutamos para não sair disso. É de se pensar que, enquanto estivermos felizes na vida, veremos prazer em continuar fazendo nossas atividades e desfrutando das satisfações em convívio com outras pessoas e até mesmo com os assuntos infinitos que o mundo nos permite tentar conhecer. Talvez seja esse rompante de disposição e prazer que faça muita gente valorizar a vida. Sinceramente, eu ainda não tenho essa resposta e, por enquanto, não tem sido um desconhecimento que me causa angústia nem ansiedade por respostas. A incerteza sobre a vida sempre existiu e as pessoas continuam nascendo e vivendo. A única diferença na qualidade de vida do indivíduo está justamente como ele gerencia esse desconhecimento. A depender de como ele interpreta, supervalorizando ou não o “problema”, isso pode deixá-lo com medo do desconhecido ou não.

A imaginação humana é poderosíssima. Se você apontar pra um ambiente vazio e fizer uma expressão de medo perto de outra pessoa, mesmo que você não tenha visto nada, tanto quanto a outra pessoa não viu, sua encenação de medo vai representar um problema para a pessoa ao lado. Ela vai ler a sua feição e a mente dela vai entender que há algo de perigoso, assustador, ocorrendo no ambiente e, pra ficar ainda mais bizarro, caso ela não tenha visto nada de fato, deixará a mente completamente ocupada tentando preencher essa lacuna. A mente pode simplesmente entrar em pânico ou formar uma imaginação que resolva esse mistério. Entender porque tanta gente possui medo da morte é entender que elas possuem medo do desconhecido e a morte é um dos maiores ‘desconhecidos’ que existem. Estando vivo não se pode experimentar a morte. Logo, esse é um assunto do qual morreremos sem desvendar. Mas porque isso precisa ser um incômodo?

É compreensível que o ser humano, por conta de sua estrutura, carregue consigo vários mecanismos de autopreservação, estando incluso nisso tudo que possa evitar perigos ou situações que, conhecidamente, levam para a morte em si ou para situações próximas, como os ferimentos graves, grandes dores ou doenças debilitantes. O ser humano está configurado geneticamente pra agir com base no seu instinto de sobrevivência. Porém, uma coisa é evitar a morte por conta do instinto e outra coisa é ter medo da morte. Talvez, no meio dessa salada de experiências humanas, morrer tenha cravado em nosso código genético a associação entre morte e medo, como uma estratégia de eficiência pro instinto. Se passamos a temer a morte, certamente ficamos mais engajados em evitá-la ou em lutar para adiá-la o máximo possível. Consigo entender essa possibilidade, mas trago algo a mais. Há nuances desse medo que não são saudáveis e tornam-se, por isso mesmo, uma contradição. Se a pessoa quer viver mais, ela precisa, então, controlar  o medo exagerado da morte. Se passa a vida inteira com medo de morrer, certamente não está tirando proveito real dos momentos da vida, além de estar provocando uma série de problemas na saúde física e mental que vão degradar seu estilo de vida até o ponto em que, problemas derivados serão potenciais motivos para sua morte precoce.

Eu sempre tive em mente que ter medo da morte é a garantia de pararmos de viver. Se deixamos de fazer as coisas que gostamos, por medo de acabar morrendo, simplesmente paramos de fazer tudo, pois pra morrer basta estar vivo. Imagine, por exemplo, alguém que evita cozinhar, por medo de uma falha no botijão de gás ou medo de uma faca escorregar de sua mão. Embora esse seja um exemplo exagerado, é com essa mesma premissa de lógica que muita gente está deixando de aproveitar o potencial de suas vidas, por medo não só da morte, como de inúmeras outras coisas igualmente ‘banais’, por assim dizer. As pessoas evitam até mesmo quebrar as correntes do sistema que as aprisiona, exatamente pelo medo de que o sistema faça o que está programado para fazer: controlar as pessoas pelo medo da morte. As pessoas se calam diante da realidade, com medo de que algum incomodado venha brecá-las com a morte. Porém, as pessoas se esquecem que, se ninguém tiver medo da morte, inclusive em um cenário onde as mortes de fato ocorram, o próprio sistema de controle pelo medo deixa de funcionar e o objetivo inicial dos opressores desaba. Um sistema só sobrevive se as partes oprimidas cumprem o papel esperado delas no jogo.

Poderia estender essa filosofia pelo viés político e sociológico, mas, por hoje, não é o foco do texto. Queria, a princípio, levantar uma reflexão que é bastante pertinente, ainda mais nos últimos anos onde as pessoas estão começando a se abrir pra certas mudanças de pensamento e de postura. Mesmo que pareça que o mundo está retroagindo na velocidade da luz, alguns passos na direção certa estão ocorrendo e, cada nova geração, carrega um pouco mais de entendimento e liberdade que a geração anterior, mesmo que isso não seja em todas as pessoas. Apesar de ser perfeitamente compreensível e aceitável que as pessoas não consigam concretizar um levante contra seus próprios medos e inseguranças da noite pro dia (principalmente se não houver cumplicidade coletiva), é preciso sempre deixar uma fagulha acesa, pra que o fogo sempre possa ser erguido no momento que for oportuno. Esmiuçar as questões humanas, sobretudo quando toca nessas fragilidades, exige um certo tato pra que possamos trazer mais benefício do que prejuízo ao pinçar um problema e propor uma análise ou solução.

Não existe uma regra de que você deva se transformar na pessoa que eu sou, afastando seu medo da morte. Eu não sei dizer se em algum momento da infância eu tive esse medo e o abandonei ou se sempre fui assim, sem medo de morrer. Claro que isso não significa que eu me exponho em vão a situações desnecessárias. Não ter medo de morrer não significa que tenho ansiedade por morrer. Apenas é algo que não me gera preocupações ou inseguranças. Pra mim está completamente tranquila a ideia de que, em algum momento, seja cedo ou tarde, morrerei por alguma situação. Dalai Lama, em uma de suas frases alerta para o conflito clássico humano, onde as pessoas se tornam depressivas quando vivem demasiadamente no passado ou ansiosas quando vivem demasiadamente no futuro. A solução óbvia, proposta por ele, é viver no momento presente, pois ele é o único momento real. O passado já foi e não podemos mudá-lo, enquanto que o futuro ainda não existe. Em consonância com essa ideia, eu penso que não tenho que lidar com o tema da morte hoje, pois ela é um evento futuro (além de inevitável e natural). Assim, nas minhas mãos está somente o que posso fazer da minha vida hoje e, deste hoje, eu escolhi viver, agir, pensar, me expressar, me engajar naquilo que eu acredito, sem medo de que a mudança positiva que proponho possa ser freada pela minha morte. Lembre-se que não se pode jamais matar uma ideia. Corpos vão, ideias ficam. O mundo muda, cedo ou tarde. Perde tempo, saúde e evolução, aquele que tenta adiar a mudança. Inspirem-se em seus melhores ideais, estejam unidos aos seus semelhantes e façam a mágica acontecer.

Rodrigo Meyer

 

O perigo do falso entretenimento.

O ser humano, assim como outros animais, busca por entretenimento. É uma necessidade natural e é buscada automaticamente pela mente. Exploramos o ambiente em busca de algo que possa prender nossa atenção e nos entregar alguma satisfação. Queremos ocupar nosso tempo de uma forma que faça valer o momento, simplesmente pra não nos sentirmos entediados ou sem propósito. Chegamos no mundo sem descobrir porquê e passamos nossa existência buscando ocupar da melhor forma possível esse intervalo misterioso até o falecimento do nosso corpo.

É nesse cenário que passamos a buscar entretenimento, às vezes assistindo um filme, conversando com alguém, dividindo uma piada, contemplando ou fazendo arte, se desafiando em um videogame, lendo um livro, escrevendo um poema, visitando a natureza ou mesmo observando o movimento na rua. Nossa mente precisa sempre se sentir ocupada pra que nossa existência faça algum sentido. Porém, infelizmente, muitos de nós se perde nessas buscas ou não encontra acesso ou interesse por variedades eficientes de entretenimento.

Quem já visitou um asilo de idosos alguma vez, provavelmente se deparou com uma cena desoladora. Ao menos dos que conheci no Brasil e os que pude deduzir pelas mídias de outros países, certamente é global a tendência de abandono pra essa fase da vida. Por vezes, sem recursos financeiros ou estrutura mínima pra essa comunidade, ficam sem ter como produzir algum entretenimento que contemple as necessidades, limitações e anseios dos tutorados. Não é preciso dizer que são frequentes os casos de depressão entre idosos. Estou citando essa parcela da população, justamente porque este contexto destaca uma questão primordial no ser humano de todas as idades. A sensação de não estar mais ativo, em uma espera passiva pelo dia da morte é o desprazer que mais assombra o ser humano. Enquanto jovem,  o ser humano luta para fugir basicamente de duas coisas: da velhice e da morte. E, claro, mesmo assim, sempre terá esse desfecho.

A vida nos exige que façamos algo dela e é exatamente por isso que estamos sempre em conflito com o que não ocupa o nosso tempo. Apesar de tantas coisas terem sido criadas para supostamente entreter o ser humano, muitas vezes isso não o está preenchendo de fato, podendo apenas estar conduzindo ele para uma morte passiva. Entenda que o problema não é sermos conduzidos até a morte, afinal isso é natural e todos nós chegaremos nela. O problema real é quando, eventualmente, a vida se torna tão somente a ligação vazia e direta entre nascer e se aproximar do fim. Esse intervalo é tudo que temos e por isso nos é sagrado, caro, de valor inestimável. Por isso, para todos nós, a vida não se resolve apenas por existirmos, sendo importante, portanto, exatamente aquilo que fazemos de nossa existência e quanta satisfação conseguimos obter dela.

Existem inúmeras formas de entretenimento para resolver o intervalo da vida junto da curiosidade humana. Em todas elas podemos experimentar momentos bons ou ruins, a depender da veracidade desses momentos. Dividir uma conversa, por exemplo, pode ser muito engrandecedor, mas se o assunto ou o interlocutor nos parece desagradável, podemos nos sentir entediados, cansados ou até irritados. Nesse caso, podemos facilmente identificar que tal entretenimento foi ruim e não nos preencheu, porém, existem outros tipos que, de tão comuns e maquiados pela sociedade, passam pela absorção do público sem o filtro da crítica. Ocorre, por exemplo, quando se trata de um programa de pseudo-humor com piadas sem graça, que ao invés de nos preencher o vazio,  apenas despeja referências rasas de sexo, preconceitos ou até discursos de ódio.

Por muitos anos na televisão aberta brasileira se via os quadros de programa como os de ‘videocassetadas’ onde se expunha uma compilação de vídeos de pessoas se machucando, caindo, escorregando, etc. Essa suposta demanda justificou, inclusive, a criação dos posteriores programas de violência ainda maiores e até mais explícitas, como os programas de tv nomeados de ‘policiais’, onde o público já insatisfeito se nutria de mais insatisfação, cultivando mais motivos pra odiar as pessoas enquanto enaltecia a violência até entrar no padrão mental do desprezo, do preconceito, da opressão, etc.

De tanto ver desgraça, mentira, preconceito e outros entulhos, dentro e fora da televisão, a mente fica insensível a todos esses estímulos, aceitando níveis cada vez piores de “conteúdo” e realidade. Manter a população acostumada ao inaceitável é a meta de muita gente que lucra as custas da ruína do público, durante essas milhares de horas diante desse falso entretenimento dentro e fora das mídias. Por isso, é importante filtrarmos aquilo que nos sujeitamos ou não a absorver ou vivenciar.

Você já deve ter ouvido a expressão “comer isopor” em referência a alimentos que, embora sejam visualmente volumosos, não sustentam o organismo, gerando, muito em breve, vontade de comer novamente. Da mesma forma ocorre com o falso entretenimento que, justamente por ser falso ou raso, te mantém vazio. Com este tipo de entretenimento, você tem a impressão temporária de preenchimento do vazio da vida, mas logo se apercebe que apenas “comeu isopor”. Esse hábito pode se tornar um vício e degenerar sua saúde física e mental. Enquanto a vida não para e o vazio continua, os viciados se tornam intolerantes com a ausência desse falso entretenimento, por efeito da crise de abstinência, similar ao que ocorre com o cigarro de nicotina que mesmo inútil, é requerido como se fosse necessário. Muita gente, inclusive, tem o ato de fumar nicotina, como equivocada tentativa de preenchimento do vazio da vida, perdendo saúde, tempo e dinheiro com algo tão vazio que nem mesmo dá “brisa” ou prazer real.

Quem em sã consciência compraria isopor para o almoço? Quem em sã consciência preencheria os dias de sua vida tentando rir do que não é engraçado ou tentando aliviar o estresse assistindo conteúdos estressantes? Se a conta não fecha, você está fazendo errado. Eu não quero dizer o que é que você tem ou não que escolher pra se entreter, pois isso é completamente subjetivo a cada pessoa. Algumas pessoas se ocupam em estudar idiomas, outras não possuem afinidade ou curiosidade por isso. Algumas se preenchem tocando um instrumento musical ou escrevendo poesias, enquanto outras podem preferir passar longe disso e desfrutar seu tempo cozinhando ou dividindo o prazer de uma refeição com alguém querido. Não importa que tipo de área se tenha interesse, desde que encontre meios sinceros de se entreter nessa atividade, pra não ser enganado com os tais “isopores” da vida. Descobrir aquilo que nos preenche, pode nos eliminar o medo desse incógnito vazio da vida e nos motivar em nossa missão, seja ela qual for.

Rodrigo Meyer

Internet: boas relações ou medo?

 

Com a ampla exposição de dados, costumes e da própria imagem na internet, estamos em uma era onde a privacidade está abalada para muita gente e o ambiente de socialização se tornou problemático e até inseguro. É compreensível que em meio a tudo isso, as pessoas estejam incertas sobre o que dividir com as outras pessoas. Mas, há uma grande contradição nisso tudo. Ao mesmo tempo em que as pessoas sentem-se com medo de dividir alguns aspectos de suas realidades, sentem-se livres pra fazer sobre outros aspectos. E o critério para filtrar parece pouco embasado.

Antigamente, quando os telefones celulares ainda não haviam substituído massivamente os telefones fixos, raramente compartilhávamos nosso número de celular, pois considerávamos algo mais pessoal e restrito. Com a popularização dos celulares como principal meio de envio de mensagens, de áudio e de acesso a internet, restringir esse contato foi perdendo o sentido. Atualmente, o número do nosso celular é um dado praticamente público na maioria dos usuários. Em contrapartida, tornamos a ocultar nosso telefone fixo, pois agora o consideramos mais pessoal. Deve haver algum sentido na conduta por trás dessa tendência, mas não há muita razão no ato em si, já que o celular é que é um aparelho de uso pessoal, enquanto que o telefone fixo, por vezes, é genérico para uma casa toda, podendo representar mais do que uma única pessoa.

Esse simples exemplo de mudança de hábitos é a pontinha de uma longa lista de mudanças que a internet parece ter inserido na vida dos usuários. Houve um tempo em que as redes sociais não existiam ou eram novidades pouco conhecidas como o extinto Orkut. Atualmente, com uma abrangência forte como no Facebook, as conexões se tornaram massivas e com bem menos filtros. Em pouco tempo as pessoas estão “dentro” da vida das outras, conhecendo uma versão planejada (ou nem tanto) de sua persona. Por estes profiles de internet, dividem suas fotos, seus dados escolares e profissionais, seus gostos e interesses e, por vezes, até mesmo sua rotina em tempo real pelos aplicativos que permitem anunciar o check-in dos lugares por onde estiveram, entre outras coisas. De fato, a privacidade anda abalada, mas é preciso dizer que a escolha está nas mãos do próprio usuário.

Estranhamente, depois de tanto dividirem sobre suas vidas no ambiente virtual, mesmo com aqueles a quem nunca conheceram pessoalmente, sentem-se com alguma necessidade de impor privacidade, sigilo, mistério, pra que a relação não se torne vazia em propósito. É como se, consciente ou inconscientemente, as pessoas estivessem percebendo que a internet queima etapas do processo de conhecer as pessoas, por conta de já termos todos os dados organizados e expostos em um ‘conveniente’ profile. Com isso, muita gente tem preferido voltar alguns passos e repensar o que vai dividir na interação com outros usuários. Penso que isso seja sensato e saudável, mas há de se pensar em como isso será feito.

Tenho notado um certo receio das pessoas em traçar conversas úteis e fluídas, simplesmente porque sentem-se deslocadas ou invadidas em uma entrega simbólica de suas próprias personalidades. De alguma forma, conhecer pessoas pela internet se tornou uma missão impossível, uma vez que o que está exposto, se tornou sintetizado pelos profiles, e o que elas escolheram tornar oculto e pessoal, são os exatos contextos de suas personas, suas razões, seus pensamentos, suas verdades, seus costumes, seus detalhes. Não digo que isso precise ser ou não assim, mas observo que tem sido assim no momento. Talvez esse medo de entrega virtual seja reflexo de uma certa insegurança e que, provavelmente, essa insegurança é abafada pela proteção de uma tela de computador que isola o usuário dentro de seu mundo. É como se, por trás de cada celular ou computador, as pessoas estivessem se escondendo da sociedade, ao mesmo tempo em que gostariam de ter algum benefício da interação com as pessoas. Tempos onde socialização está ganhando novas definições, por vezes cheia de contradições.

O que pude entender dessas observações é que as pessoas estão com medo de julgamentos ou de prejuízos em situações onde interpretam que estão vulneráveis em algum sentido. Exemplo disso é quando alguém evita dividir sua própria imagem em um vídeo ou em foto espontâneos, simplesmente por medo de como será lido ou “marcado” por aquela representação. É como se houvesse um medo entre o contraste da realidade com o planejado e polido avatar do profile, as selfies ultra produzidas, as fotos com efeito no Instagram, etc. É perceptível que as pessoas passam por uma insegurança atual. Elas tem uma vida idealizada na internet, onde controlam não quem elas são, mas quem elas gostariam de ser ou parecer ser diante do público. Não é novidade que fazemos isso até mesmo offline, pois nossa apresentação presencial, por vezes, é marcada por escolha de roupas, de cortes de cabelo, de maquiagem, de lapidações de expressões, poses ou até mesmo de nossas conversas e hábitos.

Dentro e fora da internet, escolhemos uma imagem que queremos compartilhar ao mundo, porém é na internet que estamos nos escondendo de maneira ímpar, uma vez que é mais fácil e barato desempenhar um personagem por lá. É possível ver pessoas em um mesmo ambiente físico, trocando mensagens via celular, ao invés de conversarem diretamente. Frequentemente as pessoas são lidas, primeiramente, como as pessoas da internet e somente depois as pessoas reais, como se a versão real fosse um erro, uma limitação da versão principal. As pessoas elegeram a fantasia produzida no mundo virtual para representá-las, enquanto renegaram ao porão da realidade, a própria realidade de si mesmas.

A repercussão disso é que agora vivem com medo de socializar e estão escolhendo uma maneira de se obter, com segurança e facilidade, aquilo que classificaram elas mesmas como inseguro e difícil. Dessa forma, parecem nunca conseguir alcançar seus objetivos e estão refletindo essa dificuldade pelo modo como conversam ou dividem seu tempo e suas ideias com outras pessoas. Ao invés de tentaram se envolver em um assunto, curtir um momento, dividir humor ou entrar em um contexto próximo do que a socialização presencial já foi um dia, escolheram substituir tudo isso por portas e janelas fechadas, onde estão ansiosos por ouvir a campainha tocar, mas estão cheio de incertezas sobre atender a porta. Assim, está sumindo a naturalidade do ser humano em conseguir olhar nos olhos, sentir o cheiro das pessoas, a sensação do tato, ouvir as vozes, perceber contextos próprios do espaço coabitado, entre outras coisas. Atrás de câmeras, microfones e telas eletrônicas, estamos muito mais androides do que os próprios robôs da ficção científica. Já estamos confinados a um estilo de vida pouco humano e pouco natural. Em pouco tempo, será possível nos vermos deprimidos e desinteressados por completo das relações humanas, por mais que, no fundo, esse seja sempre o nosso maior foco e interesse por conta de nossa natureza.

A conclusão mais óbvia é que não podemos ignorar nossa própria realidade, em troca de versões sintetizadas do mundo ou de nós mesmos. Em tempos onde é preciso dizer obviedades, volto a lembrar que o ser humano não se verá feliz, enquanto plantar sua própria infelicidade. Se quer ter o prazer e alegria da socialização com outros indivíduos, terá que fazer isso de forma sincera, real e intensa. Não se pode abandonar o potencial da vida, atrás de alguns bits fictícios e limitados. Um avatar na rede social jamais representará com profundidade o que um indivíduo é de fato. O preenchimento de um cargo profissional em um formulário virtual nunca representará o contexto e os pormenores desse profissional na prática. Você pode se encantar pelo aspecto organizado e profissional de um site, de uma mídia ou até mesmo de um vídeo ou foto planejados para ir ao ar, mas precisará de muito mais que isso pra conhecer e entender quem é uma pessoa. Quase sempre levamos anos ou até mesmo a vida inteira nos relacionando com amigos, parentes ou parceiros de romance e mesmo assim podemos não conhecê-los por completo. Então, se fizemos essa entrega na vida como premissa de socialização natural, é inconcebível que recusemos o mínimo a nós mesmos, em troca de ideais fantasiados na mente. Se permita dividir tempo com as pessoas, mesmo que você ache que está diferente do seu ideal virtual construído, afinal, a vida real continua, com ou sem a internet, com ou sem as fotos e vídeos produzidos, etc. Ninguém pode fugir disso e tentar pode levar a estresse e depressão por conta da constante decepção / frustração, já que é como tentar enxugar gelo. O impossível não deve ser desejado, pois o impossível não faz parte de nossa realidade. Viva a realidade, viva o momento presente e viva-os intensamente.

Rodrigo Meyer

Semi-paixões: imaginando relacionamentos.

A mente humana é interessante. Ela proporciona episódios que nem mesmo ela sabe como ou porquê. É o caso das situações que eu gosto de nomear de ‘semi-paixões’. Talvez sejam mesmo um tipo de paixão ou qualquer coisa abaixo ou acima disso. Talvez sejam coisas da mente, do coração, da alma ou um intrincado jogo de química do corpo humano. Independente de onde venham, fico entusiasmado com as ocorrências.

Estes encantamentos brotam, repentinamente, assim que conhecemos alguém que, por alguma razão, nos pareça incrível, especial, empolgante, etc. Mesmo que muitos não admitam, quando somos tocados por essa ocorrência, nossa mente começa a fantasiar realidades paralelas, pensando em como seria, por exemplo, um relacionamento com tal pessoa. Claro que isso não significa que os objetivos e interesses reais sejam de se relacionar com a pessoa, mas ocorre uma liberdade poética da mente de imaginar universos paralelos sobre algo que foi gratificante o suficiente pra ter potencial pra mais possibilidades, mesmo que só imaginárias.

Em um momento você está sendo apresentado a alguém e, quando se dá conta, já passeou por algumas cenas rápidas. Como seria trabalhar junto com essa pessoa? E como seria dividir uma mesa de bar? O que será que essa pessoa diria pra me fazer rir? Qual seria seu tom de voz e seus trejeitos? E seu estilo de roupa, suas manias e seus hábitos? Como essa pessoa seria em um relacionamento amoroso? Será que seria companheira? Seria divertida?

Sim, a mente passeia por fantasias, sonhos e idealizações. Eis o porque algumas pessoas fantasiam até mesmo sexualmente as pessoas que conhecem. A principio, algo natural e saudável, desde que isso não se torne uma obsessão ou algo não consentido. O ser humano, normalmente, está em busca de interações humanas, seja pra amizade, relações sexuais, romances ou até mesmo para dividir experiências em outros campos, como no trabalho, conhecimento, desenvolvimento espiritual, filosófico, etc. Uma vez que temos a capacidade de imaginar, faremos uso em todo contexto em que estivermos motivados, seja por um episódio gratificante ou por um episódio de drama e ansiedade.

A característica principal desse tipo de ocorrência é que somem rapidamente da mente. Deixamos de sonhar, assim que somos levados a um pouco mais de convívio real com esta pessoa, por uma conversa, uma atividade ou mesmo pelo encerramento do contato, de forma temporária ou definitiva. Não se torna uma perda significativa, pois não chegou a ser uma paixão ou uma amizade consolidada. É um relacionamento curto e o mais superficial possível, exceto pelo nosso poder de imaginação. Eis o porquê não é prejudicial.

Acredito que, em algum momento, todos já tiveram algum tipo de vislumbre imaginário sobre uma pessoa ou uma situação da vida. Sonhar faz parte do ser humano, mesmo que alguns se esforcem mais pra controlar isso e voltar pra realidade. Eu prefiro o sonho. Me permito todos esses presentes, pois sei que logo eles se encaminham para onde for necessário. Se forem apenas admirações temporárias, deixam um prazer no histórico e se, eventualmente, se transformarem em algo maior ou melhor, melhor ainda. Não há como levar prejuízo.

Acredito, inclusive, que saímos fortalecidos dessas experiências, pois aprendemos a lidar com a passagem do tempo, com as expectativas iniciais versus a realidade do desfecho. Aprende-se também que o mundo real pode ser demasiado diferente das nossas vontades idealizadas de relacionamento. Aprendemos, então, finalmente, a sermos um pouco mais maduros e responsáveis com nós mesmos, com as pessoas ao redor e em como levamos a temática em geral. A vida se torna melhor na mente, o corpo agradece e a vida se desgasta menos, pois se expõem a menos realidades infrutíferas, menos atritos e menos frustrações desnecessárias.

Quem sabe algum dia eu leve vários desses episódios vividos para relatos em um livro ou outra mídia. Certamente muito do que eu sou se deve a esse histórico de interações que influenciaram poemas, contos, pinturas e até mesmo o desenvolvimento de várias ideias filosóficas e políticas. O grande diferencial humano é poder escolher quem ele quer ser e por qual viés ele quer construir sua realidade. Na imaginação, o campo é infinito e, pra que tudo termine bem, basta que imaginemos um bem para o final. Ciente disso, muita gente revolucionou a realidade, colocando em prática conceitos idealizados no seu mundo de sonhos e paixões. Ao fazermos algo empolgante, nos sentimos motivados o suficiente pra sustentar isso também na realidade. Espero, então, que todo o conteúdo que eu trago, desperte em você essa busca por ação, por mudança ou por mais imaginação.

Rodrigo Meyer

Fuja do fácil para encontrar coisas melhores.

Em um mundo imaginário ideal, as boas coisas viriam facilmente. Mas, em nossa realidade, isso não ocorre. Para se obter coisas interessantes, precisamos desviar do esperado, das regras, das obviedades, das mesmices, dos hábitos, etc.

Muita gente admite estar entediada ou decepcionada com o nível das coisas que encontra pelo caminho. Algumas dessas pessoas podem estar assim devido ao tipo de conexão que fazem com as coisas no mundo. Por exemplo, se você só assiste vídeos com base na capa ou no título sensacionalista, provavelmente vai estar consumindo sempre conteúdos com um mesmo padrão de criação, feitos por pessoas basicamente semelhantes. Às vezes as pessoas deixam de absorver um conteúdo interessante, por puro preconceito. Se a capa não é atraente, se o título não é sensacionalista ou chamativo, muita gente nem visita esse conteúdo. Isso mostra que a curiosidade não é nativa nessas pessoas, precisando ser plantada, estimulada.

Em um mundo ideal, todas as coisas e pessoas teriam, automaticamente, uma apresentação eficiente, contagiante, que desperta interesse, curiosidade e boa recepção aos demais. Mas, a realidade não funciona assim. No mundo real, pessoas, conteúdos, lugares e tudo o mais, podem ser interessantes sem nada disso e, talvez, muita gente nem chegue a conhecer. Tudo bem pensar que seria útil tornar esses conteúdos mais atraentes aos olhos dos outros, pra que fossem mais notados, mais vistos, mais absorvidos. Porém, um problema anterior é a ausência de curiosidade nata das pessoas sobre o mundo que as cerca.

Se eu não tivesse curiosidade nata, não teria encontrado livros incríveis que sequer tinham capa ou que os títulos eram simples diante do valor do conteúdo total. Se eu não tivesse curiosidade nata, nunca teria pesquisado estrelas que nem podem ser vistas a olho-nu. Sem a curiosidade nata eu nunca teria frequentado lugares que sequer tinham mídia para se divulgarem. O mesmo pode ser dito das incríveis pessoas que eu conheci ao longo da vida. A surpresa de encontrar uma personalidade intensa em alguém, muitas vezes veio de quem eu nada poderia deduzir. Longe de estereótipos de estilo, absorvemos pessoas muito mais reais, mais complexas, profundas, sinceras, interessantes, valiosas.

Muita gente visitaria o mundo, começando pelos pontos turísticos óbvios. Seriam facilmente vítimas de um sistema automatizado que oferta realidades artificiais para turistas. Conhecer um país, por exemplo, é muito mais do que visitar seus pontos turísticos. Você passa a encontrar lugares anônimos, pessoas anônimas e todo tipo de boa surpresa pelo caminho. Longe dos grandes nomes da música, do Youtube, do cinema, das artes, da literatura, estão grandes pessoas e obras seguindo quase que silenciosamente seus caminhos. Claro que todo mundo almeja levar suas ideias a mais pessoas, afinal é disso que se trata acreditar naquilo que se pensa ou de suscitar mudanças no mundo, reflexões e melhorias humanas, etc. Mas isso não significa que todas as pessoas tem as condições necessárias pra se adequar a esses moldes de visibilidade.

O anonimato ainda é um enorme estoque de conteúdo e pessoas. Exploramos quase zero do potencial da internet e, a cada dia, brota novos conteúdos que reduzem ainda mais a porcentagem do que conseguimos absorver dela. Claro que não devemos desejar absorver o infinito impossível, mas temos que, pelo menos, escolher onde garimpar nossos conteúdos de informação, de entretenimento, as amizades, relacionamentos, trabalhos, etc. Não podemos nos contentar com o que nos é empurrado goela abaixo como se fosse a única opção e/ou a melhor opção. Muitas das vezes, aquilo que tem fama pode não ter qualidade ou utilidade nenhuma. Então, é preciso ter critérios melhores na hora de filtrar suas opções na vida.

É preferível estar de mente aberta, sem expectativas, longe de vícios, estereótipos, preconceitos e métodos preguiçosos de interação ou descoberta. Ganha-se mais da vida quando simplesmente nos colocamos a andar pelo novo, pelo desconhecido, pelo diferente, pelo inesperado. É insensato, inclusive, pensar que tesouros estarão piscando por toda parte. Geralmente, o que é muito alardeado como interessante, não é. Às vezes um produto não é interessante de fato e a propaganda entra pra forjar uma demanda, plantando uma visão otimista e irreal sobre tal produto. Estratégias similares ou derivadas são utilizadas em vários meios, como no título de um vídeo ou notícia, na capa de um livro, no formato de uma embalagem, etc.

Quando se é criança, é compreensível que se entusiasmem por produtos brilhantes, coloridos. Isso tudo encanta. Conforme vamos crescendo, embora ainda tenhamos nossos encantamentos, devemos ter também um maior senso de responsabilidade com o que nos cerca. Ainda que seja tentador comprar um livro pela capa, ou de clicar em uma notícia ou vídeo por conta do título sensacionalista, esse agrado inicial pode ser o começo de um hábito perigoso. Se estas coisas despertam sua curiosidade ou desejo, mas não entregam algo de positivo, talvez você só esteja sendo manipulado pelo seu ponto fraco, seu vício, prestando sua atenção, dinheiro ou apoio para coisas ou pessoas que enriquecem às custas disso. Até que ponto seu consumo ou entretenimento estão te fazendo crescer, te fazendo ser alguém mais instruído, mais forte, mais feliz, mais estável, mais bem-resolvido, mais politizado, mais engajado com o que realmente importa na vida?

Os conteúdos estão te tornando alguém mais interessante ou só alguém que flui conforme os estímulos comandados por terceiros? Você, anônimo ou não, se torna alguém a quem outras pessoas agradeceriam por descobrir? Você somaria para o mundo e pra si mesmo com aquilo que se torna a partir dos seus hábitos de vida? Essas são reflexões que raramente conteúdos convencionais e populares lhe proporcionarão, até porque muitos desses conteúdos querem mais é que você se aliene ao resto, pra continuar engajado somente neles. Grandes mídias e empresas não querem que você conheça mídias menores, profissionais menores. E se você não busca por conta própria estes minúsculos anônimos do mundo, os grandes é que não irão te apresentar.

Sem querer puxar sardinha pro meu lado, sou um exemplo de como podem existir coisas úteis vindas de uma mídia praticamente desconhecida, de um autor praticamente anônimo no cenário da literatura ou mesmo das redes sociais. Quantas pessoas me conhecem? Quantas pessoas já me leram? Quantas pessoas já decidiram clicar em algum link meu? Qual a minha relevância ou visibilidade diante desse mar de conteúdos dentro e fora da internet? Provavelmente eu não serei lembrado por muitos, mas farei alguma diferença na mente daqueles que lembrarem de mim. É nisso que trabalho todos os dias.

Quando eu escrevo, a minha prioridade é a ideia, o poder de reflexão e transformação que isso traz a quem, eventualmente, cruza com um conteúdo meu. Evito ao máximo usar títulos sensacionalistas pra fazer o chamado ‘click bait‘ (a isca de clique). Eu não pretendo forjar sua curiosidade, sua visita. Minha intenção é que as pessoas cheguem até mim pelos meios delas mesmas, onde a vontade e a curiosidade de ler, aprender ou dividir uma realidade, sejam o estímulo nativo que as faz clicar e estar em torno do que eu produzo, do que eu falo, do que eu penso, de quem eu sou, etc. E o motivo disso não é descaso com o que faço, mas simplesmente a retribuição dada para cada pessoa incrível que eu encontro por conta desse modelo de atividade. Enquanto anônimo, sou encontrado por poucas pessoas, mas, parece que, frequentemente, são pessoas muito interessantes. Tive o privilégio de encontrar autores de grande talento, que poderiam perfeitamente viver de suas obras, mas que levam a vida com outras profissões, desconhecidos do público em geral. Eu os encontro, justamente porque procuro por eles exatamente onde não estão os holofotes.

Claro que isso não significa que essas pessoas perderão qualidade se eventualmente ficarem famosas ou atingirem um grande sucesso com o que fazem. A visibilidade pode ocorrer, apenas não deve ser a qualquer custo. Não se deve, por exemplo, negligenciar a qualidade da pessoa ou conteúdo só pra obter fama. Não se deve ter orgulho de ser inútil e famoso. Se for tornar-se famoso, que seja pelas coisas úteis e positivas que fez, pela qualidade de sua pessoa, pelo seu pensamento, suas ações, seu modo de ver o mundo, etc. E há muita coisa “escondida” esperando ser descoberta. Você tem procurado? Ou só está passivo recebendo tudo mastigado?

Por favor, comente sua opinião sobre isso. Me conte o que tem sido útil pra você nas coisas que eu tenho criado nesta mídia e o que facilitaria pra que você conhecesse mais do que eu escrevo, assim como outros autores e criadores de conteúdo igualmente pequenos / anônimos. A maior parte do que eu escrevo e de quem eu sou não está neste blog. A vida é complexa e grande demais pra caber em um site, ou um punhado de letras. Existe uma imensidão de coisas lá fora que uma imensidão de gente faz e outra imensidão de gente nunca nem viu. Eu não posso mudar o modo como você escolhe descobrir o mundo. Tudo que eu posso fazer é acender essa faísca pra tentar te inspirar a agir diferente na hora de explorar a realidade, as possibilidades. Boa viagem!

Rodrigo Meyer

Vamos fugir desse lugar, baby.

Às vezes as situações da vida ou alguma nova fase, me fazem pensar em assuntos que geralmente passavam desapercebidos na maior parte do meu tempo. Enquanto estou entretido com as minhas criações ou absorvendo conteúdos pra sanar minha curiosidade, por exemplo, acabo distante de outros pensamentos, como os que lidem com o futuro, as possibilidades de relacionamentos ou os prazeres hipotéticos de outras faces da vida. Mas, não significa que estes pensamentos sejam menos intensos quando ocorrem.

Quando me pego pensando em projeções futuras, geralmente penso de forma mais abstrata e generalizada sobre o bem-estar que gostaria de ter. E quando estou um pouco mais racional, penso em como seria útil ter uma certa segurança financeira pra poder me concentrar um pouco mais em outras questões da vida. Então, penso em simplesmente estar nos novos hipotéticos lugares e poder me sentir livre, itinerante e desapegado de coisas e pessoas. Sim, eu também tenho sonhos. Minha mente passeia por muitas dessas situações, mas não é algo que me tira a tranquilidade atual. Não fico ansioso pelo que pode vir a ocorrer ou pelo que seria positivo de se ter e não tenho no momento presente.

Levo meus dias de forma mais consistente. Eu vivo pelo meu momento e procuro me satisfazer na sutileza de cada detalhe, sem me cobrar, em momento algum, que os momentos ocorram precisamente conforme algum plano. Desde muito tempo que não faço planos pra vida, até porque não posso e não pretendo determinar nem mesmo como serão meus dias. As coisas fluem conforme a vontade que brota.

Por tudo isso, eu consigo formar na minha mente exatamente quem eu desejaria pra estar do meu lado. Eu explicaria meu momento atual usando algo parecido com essas palavras:

Sabe, moça, o tempo não é algo que eu conte mais. Eu já não sei diferenciar a segunda-feira de qualquer outro dia e nem sei quando as semanas passam pelos finais. Pra mim todo dia é dia e tem dia que eu nem sei se começa ou termina. Não importa muito se é começo de ano, se a idade aumenta ou se o mundo acelera pra trás. Tudo isso são certezas bobas que eu não valorizo.

Talvez você me olhe intrigada ou até desconfiada do meu jeito diferente. Talvez eu seja só mais um na multidão, talvez eu pareça um bom motivo pra um ‘sim’. Todas essas coisas que nos contam a vida inteira, não faz meu tempo mudar. Eu acordo tarde, durmo cedo, vivo trocado, fugindo do sol. Eu não tenho a solução pros teus problemas e quero por perto somente quem entende que ser feliz é algo pessoal e não uma responsabilidade que você joga pro parceiro de um relacionamento cumprir automaticamente.

Eu trago memórias um pouco difíceis de serem esquecidas, mas nada que me impeça de levar a minha vida. Não tenho pendências com o passado, apenas decisões de como proceder ao passar por cada velha esquina. Não me tornei preocupado e nem preocupante. Sou uma pessoa curiosa pela vida, pelas pessoas, pelos mistérios que adicionam ainda mais coisas. Eu não quero respostas certas e rápidas. Quero sentar do lado de alguém que me olhe de uma maneira incógnita. Eu quero ser surpreendido por uma pessoa intensa que não me prometa nada, mas que me deixe viciado todo dia.

Quero alguém que construa tudo ao meu lado e que saiba reconhecer a premissa e o valor da confiança. Quero alguém que traga sua loucura, pois eu preciso disso pra me entreter. Quero também alguém que seja profunda como um drama cinematográfico e que tenha facetas ornamentadas, similar ao que se espera de um bom edredom. Quero alguém que aceite cortar o cabelo sob improviso e que entenda, eventualmente, que uma franja é muito mais que apenas um pedaço aleatório de cabelo. Quero alguém que me ofereça bebida e que até peça pra eu mesmo trazer.

Moça, se você quiser precisão e garantias vai ter que me dizer certos ‘nãos’ que forem necessários e deixar alguns outros momentos de ‘sim’ bem claros pra eu não acabar falhando por incompreensão. Eu já te digo, logo de cara, que eu quero acertar, mas que eu só disparo meu tiro no alvo que eu escolher pra mirar. Eu tenho paciência, mas, desde o final da adolescência eu já não fico percorrendo o mundo atrás de alguém que eu ainda não conheço. Primeiro eu aceito, depois eu luto de forma incondicional. Por enquanto somos todos anônimos ou apenas conhecidos. Se um dia alguns de nós formos amigos, poderemos ser algo mais. Que leve um dia, cem anos ou qualquer intervalo disso. Eu não estou competindo e não tenho nenhuma pressa de correr pra seguir um script imaginado.

Em toda história precisamos ser protagonistas, portanto não quero que se apegue a convenções sociais. Não quero que deixe de andar de meia em casa, só porque tem visitas, nem que deixe de espalhar seu cabelo pela minha cara, principalmente quando for pra se entreter com as possibilidades do que isso signifique. Quero alguém que me assimile, assim, cheio de sutilezas, de mistérios, de pequenos ornamentos invisíveis. Quero alguém que se entusiasme por dentro, mesmo que esteja estático. E que brilhe muito os olhos, que exale perfume pelos poros e me deixe cheio de certezas por cada coisa incerta que me apresentar.

Ah, moça, você precisa vir com vontade. Eu não posso aceitar no meu mundo, alguém que esteja morno ou um pouco entediado. Tem que ter respiração ofegante e um coturno ou sapato de salto-alto pra dias poderosos em que você quiser brincar de amante ou apenas se decorar inteirinha pra nem me ver, mas se sentir deslumbrante. Quero alguém que viaje comigo de um lado ao outro do mundo e que me diga porque pode ser importante ou interessante ir pra outro lugar. Quero ser convencido a fazer coisas estranhas, coisas tradicionalmente “erradas” e poder sorrir bem diante do seu rosto em agradecimento pela sua pessoa viva e ousada.

Quero alguém que pendure objetos pelas paredes que não sejam apenas quadros. Quero alguém que me conte específicos segredos e que me deixe marcas indeléveis. Quero alguém que fuja comigo quando nada mais fizer sentido. E que tenha fôlego de fazer uma nova vida, sempre que o mundo parecer pequeno demais. Quero alguém que vista vermelho com a mesma perspicácia de quem veste intencionalmente um figurino negro. Quero alguém que grite silêncios e que aprecie histórias e ideias, sabendo extrair prazer do meu estranho mundo.

De repente você já está por perto mas eu ainda não posso te ver. Talvez você nunca chegue ou talvez passe de raspão e fuja pra longe, antes que eu note. Mas isso não me cabe agora. O momento do hoje não é o momento pra outras horas. Se você vier, toque a campainha de um modo muito singular. Eu não estou procurando ninguém, então teremos de nos encontrar por obra do acaso. Se você notar que tem muita margem pra derrapar na vida, seja bem-vinda ao meu íntimo círculo secreto. Lá poderemos viver e convencer o mundo de que sair do mundo comum pode dar muito certo. Vamos fugir desse lugar, baby?

Rodrigo Meyer