Na contramão dos aniversários.

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Pra muita gente, aniversários são, talvez, uma das únicas datas festivas do ano todo. Pra mim, soma-se com o Natal e as festas de Ano Novo como igualmente incômodas. Nunca fui alguém que me sentisse compelido a comemorar nenhum desses eventos. Ao meu ver, não há nada de fato pra se comemorar, mas pra se lamentar. São marcos anuais de um regresso e não de um progresso. Além disso, essas festividades, geralmente, são feitas para os convidados, porque os próprios anfitriões pouco ou nada aproveitam.

Tem anos que eu simplesmente nem me lembro da aproximação do meu aniversário. E, às vezes, quando calha de eu ter que relembrar da data específica, figuro pensando rapidamente sobre isso e logo esqueço. Esses dias, ao acaso, vi um bolo e isso me fez lembrar de festas, até que uma coisa levou à outra e acabei vindo falar disso. Aniversários são, pra mim, uma lembrança triste onde sou obrigado a pensar na quantidade de anos em que eu permaneci sobrevivendo e sofrendo, quando a única coisa que eu realmente gostaria de comemorar era o fim de tudo isso. Ter arrastado uma vida permeada por depressão, praticamente desde sempre, faz com que eu não consiga ter lembranças positivas de nenhum desses eventos, nem de mim mesmo. Assim, o que é que eu teria pra comemorar sobre o meu nascimento?

Muita coisa da minha infância parece bloqueada na memória. Eu sinto como se nem ao menos tivesse vivido em boa parte dos meus dias no passado. Em parte porque não houveram episódios marcantes, mas também porque muita coisa eu fiz questão de esquecer de todas as maneiras que estavam ao meu alcance. Ainda hoje consigo me lembrar de breves cenas, dos lugares em que morei, das pessoas com quem eu conheci e me relacionei. Mas são sempre muito breves e esporádicas na sequência de tempo. Junto com essa memória corroída ou bloqueada, sobrevivem algumas cenas incômodas da minha infância e adolescência que eu preferia não lembrar. Fico arquitetando o que eu diria numa sessão de terapia ou algo assim. Tenho tanta coisa que eu gostaria que se resolvessem, mas que já moeram minha vida há tantos anos, que, não sei mais se faz qualquer diferença agora.

Quase quatro décadas de existência e não tenho nenhuma perspectiva sobre o meu tempo restante de vida. É difícil prever essas coisas. Li e ouvi muita gente dizer que imaginavam que jamais passariam dos 30 anos de idade, mas cruzaram idades elevadas. O estilo de vida exagerado de algumas pessoas, na contramão das probabilidades, os permitiu levar uma vida ativa até os 50 ou 60 anos e alguns, surpreendentemente, passaram da casa dos 90 anos. Pra mim isso parece mais assustador do que positivo, mas nunca sabemos o dia de amanhã. Às vezes alguma coisa muda em nossas vidas e ganhamos vontade de viver.

Na infância, por mero formalismo, minha mãe organizava festas ou, pelo menos, fazia um bolo. Eu nunca fiz questão e até me sentia um tanto constrangido de ter que figurar nesses momentos. E isso foi se ampliando com o passar dos anos, até que as festas deixaram de ocorrer, o bolo acabava sendo ignorado por mim na geladeira e tudo ia se enquadrando como se fosse um dia comum, como todos os outros do ano. Lembro que, às vezes, tudo isso era substituído por um dia de pizza em casa e, quase sempre, isso só representava alguma coisa diferente pra comer, seguido de longas horas de sono e isolamento. Quando eu comecei a trabalhar, pude comprar, esporadicamente, alguns presentes pra dar pra mim mesmo. Não importava se era meu dia de aniversário ou qualquer festividade. Se eu tivesse algum dinheiro sobrando em qualquer época do ano, eu saía pra comprar filmes, livros, alguma roupa, comida e bebida. Meu mundo era só eu, porque eu já não fazia parte do mundo há muito tempo.

Provavelmente trabalhei na maioria dos Sábados, Domingos e Feriados, que era quando as pessoas podiam pausar seus trabalhos pra vir participar do meu trabalho de Fotografia. Também estive à trabalho ou diversão em diversos momentos pelas noites de São Paulo, eventos, viagens, manifestações. A Fotografia me acompanhava todo o dia e dava algum sentido pra minha existência, então, talvez, eu devesse comemorar meus anos trabalhando nela. Se pude me realizar um pouco em alguma coisa nessa vida, certamente foi na Fotografia. Desde que pausei a atividade, a sensação de ser desnecessário na vida aumentou profundamente. Passei a escrever e a fazer outros tipos de arte, mas só o tempo irá dizer o que é que isso tudo tem potencial de ser. Tudo parece um tanto medíocre e sem propósito. A verdade é que muito do que faço fora da Fotografia é uma tentativa de desabafo. Já tentei trabalhar com muitas coisas, mas a verdade é que percebo que não tenho o necessário. Estou apenas dando o melhor de mim, mas pra uma pessoa destruída esse ‘melhor’ ainda é muito aquém do necessário.

Sim, isso me frustra, mas também me faz acordar pra realidade. É importante percebermos quem somos e do que somos capazes. Nada de grandes sonhos ou de supervalorizar a realidade. Assim como a vida e os tais aniversários, não são de fato grande coisa e, às vezes, a melhor forma de lidar com eles é ignorá-los. Nada de especial pra se comemorar, só mais um dia errante entre quase todos do ano inteiro. Dizem que um ano é composto de 365 oportunidades, mas se isso for verdade, certamente minha depressão me obriga a desperdiçar todas elas, porque não consigo aproveitar um dia sequer pra fazer algo que me satisfaça. Sei que estou quebrado por dentro, que minha alma está apagada. A cabeça desistiu de funcionar e já vejo novas consequências terríveis desse tempo todo em que fui esmagado, como se a cada novo ano eu tivesse um peso extra nas costas por não ter me superado no presente, nem ter superado o passado. Um histórico terrível é pendurado na minha frente todos os dias, me fazendo lembrar que estou chegando em quatro décadas de vida, sem ainda ter tido nenhum bom motivo pra comemorar.

Me acostumei a viver sozinho em meu mundo, passando reto pelos dias, bebendo, dormindo e, com sorte, trabalhando. Isso provavelmente me fez ignorar não só os meu aniversários, mas também de esquecer completamente a data de outras pessoas. Frequentemente, só me dei conta do aniversário de colegas ou companhias quando já havia ultrapassado um ou dois meses do ocorrido. E, independente do quanto eu me importava com essas pessoas, lembrar de datas nunca foi algo que minha mente se acostumou a fazer.

Eu não quero parabéns, porque ‘parabéns’ se dá pra quem teve uma conquista. Também não espero por presentes, porque a única coisa que eu realmente preciso e gostaria de receber é saúde mental e perspectiva de vida. Sem isso, nada do que eu pense, planeje ou faça, me trará sentido na vida. Acordo todos os dias com a vontade de voltar a dormir e o próprio sono já não me acolhe há vários anos. Me reviro na cama de um lado pro outro, desviando da dor física. Acordado ou dormindo, estou sempre perdendo. Nessa guerra não existe vitória e a única forma de sairmos dela é confirmarmos nossa derrota diante da vida, aceitando morrer.

Com alguma sorte eu vou levantar um dia e buscar medicação. Faz enorme diferença pra mim saber quem é que vai me atender. Enquanto isso, as pessoas que supostamente lutam do mesmo lado, ignoram, não possuem tempo ou interesse de responder. Fico sem ter esperança pelos próximos passos, sem respostas pra quem eu deveria recorrer. Quem detém a resposta, parece nem saber que eu existo. Há vários dias, talvez mais de um mês, escrevi pro Conselho Federal de Psicologia, buscando por informações que me ajudassem a filtrar um profissional. Mas nem ao menos sei se fui lido, porque nunca tive qualquer reação ao contato. Se essas são as pessoas que representam a Psicologia no Brasil, já dá pra imaginar o tamanho do buraco em que estamos. Se já sabíamos que não havia com quem contarmos entre as pessoas comuns da sociedade, fica ainda mais difícil quando descobrimos que nem mesmo os profissionais podem nos ajudar.

Os dias passam e a vontade de aceitar ajuda passa junto. Um dia estamos dispostos a escrever uma mensagem e no outro parece que aquilo já não faz mais sentido nenhum. Um dia estamos pensando que poderemos nos salvar com a medicação e depois entendemos que nada é tão simples assim. Existe um caminho constante nesse vai e vem, que é típico da depressão e que nos coloca à andar em círculo, sem mudar coisa alguma nos nossos dias. Aquilo que realmente seria importante e urgente, facilmente deixamos de lado, enterramos debaixo do tapete, varremos atrás de uma garrafa de bebida, uma noite de sono, um prato de comida. E vou empurrando meus dias, pra mais um ano de sobrevida, enquanto as pessoas se perguntam porque é que não estou comemorando meu aniversário. São explicações que nem mesmo gostaria de dar e que se juntam à inúmeros outros anexos de frustrações e memórias inglórias. Passei mais tempo explicando, justificando e desabafando minha sobrevida, do que buscando qualquer tipo de ajuda efetiva que me desse a honra de conhecer o que é viver. Já estive medicado e reerguido lá pelos meus 20 anos de idade, mas alguns anos depois eu já não sabia mais o que era viver.

Já não desejo ‘feliz aniversário’ pra ninguém, porque ‘feliz’ é um conceito que já virou mitologia na minha mente. Espero que as pessoas encontrem algum conforto e tranquilidade ou que obtenham sucesso em algo que elas queiram ser, ter ou fazer. Mas sempre me senti desconfortável em desejar felicidade em aniversários, festas de Natal ou Ano Novo, porque tudo isso parece uma grande ficção e falsidade, em especial no mundo destruído em que vivemos, independente de ter ou não depressão. Acho que o mundo precisa ser mais honesto, mais direto, mai realista e dizer aquilo que realmente sente, o que deseja, o que de fato acredita. Não vamos chegar à lugar nenhum alimentando a egrégora da mentira com todos esses depósitos de palavras, símbolos e energias, enquanto, na prática, estamos nos dizimando, todos os dias, em gestos, palavras, pensamentos, sentimentos, tudo do ruim e do pior, apodrecendo o mundo com um modelo de conduta que se opõem diametralmente à felicidade e cava fossos cada vez mais fundos, insustentáveis, cheios de violência, dor, agonia, ansiedade, miséria, guerra, conflito, preconceito, mentira e tudo aquilo que as pessoas fingem que não sabem, mas praticam de perto, e magistralmente, todos os dias.

Rodrigo Meyer – Author

Custa caro ser feliz.

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Sentei pra ouvir música, como há várias semanas eu não ouvia. Mas não pude sentir o prazer que isso me dava anos ou décadas atrás. Algo em mim continua desligado, desconectado ou quebrado. Algo em mim grita silêncios, espalha tédio pelo meu dia. Esse algo me faz sentar na mesma cadeira todos os dias e não me deixa sentir descansado. É alguma coisa que me tira da cama para, logo em seguida, me jogar de volta. É algo que me tira o prazer de comer, a vontade de abrir as janelas e às vezes me desencanta até de abrir os olhos. Esses dias o chuveiro de casa queimou e a frieza da água já não me surpreendeu. Talvez, em um contexto normal, eu até reclamasse do azar, mas a verdade é que já não me importo. O chuveiro está queimado, a janela emperrada, a porta empenada e o portão enferrujado. Tudo combina bem com as dores nos joelhos, os olhos cansados, o peso nas costas, a angústia no peito, o frio nos pés.

O mundo parece corroído, lidando com uma vida enferrujada, o trabalho precário, o desemprego, o despejo, a miséria e a falta de perspectiva. Somos um mundo doente, tentando mover as juntas, antes que elas se acabem no atrito. Estamos aflitos e de aflição entendemos bem. Somos uma sociedade vendida como ‘feliz’ por muitos, mas que, na verdade, não está nada bem. Que felicidade é essa que todo ano bate recordes de suicídio, assassinatos, ódio de todo tipo, pobreza, desafeto e desconfiança? Quem é que está feliz de perder a vida todos os dias, de se vender por um prato de comida e não ter nem mesmo garantia de aposentadoria? A felicidade, ao contrário do que dizem os farsantes egoístas, não é uma simples escolha do indivíduo. Dizer tal absurdo, no alto dos seus privilégios sociais é só mais um motivo, entre milhares de outros, pra ninguém abaixo conseguir alcançar o tão desejado caminho da felicidade. Essa gente debocha da dor alheia e difunde a ideia, em mídia aberta, de que o caos não existe e que tudo só depende do olhar que damos às coisas. Nada pode ser mais desonesto e criminoso do que incentivar o conformismo entre os que mais sofrem na sociedade.

Essa gente mesquinha, egoísta, psicopata e desacreditada de todo e qualquer valor na vida, vive pelo dinheiro, poder e fama, pois é tudo que lhe resta na cabeça. Atropelam multidões apenas para apanhar seus próximos centavos. Enquanto isso, eu sento pra ouvir música, mas não sinto mais prazer algum. Também não tenho esperança pelo próximo dia de trabalho e nem sei o que faço nessa sociedade. Talvez eu acorde de um grande pesadelo, mas, por enquanto, tudo me parece real e profundamente amargo. Me enojo pela manhã de ver bandidos fardados abertamente nazistas, debochando das repercussões midiáticas das manifestações antirracistas que percorreram os Estados Unidos e o mundo, repetindo diversas vezes o mesmo ato criminoso que desencadeou tais manifestações. A escolha proposital do momento e dos detalhes de cada ato desses vermes fardados, deixam claro a referência e a intenção. Por isso e por muito mais, eu me sento pra ouvir música, mas já não sou capaz. Eu tento, aproximo os ouvidos, presto atenção, mas nada daquilo cativa a minha mente.

Você que me lê, talvez ainda não esteja do jeito que eu estou. Talvez ainda tenha brilho nos olhos, prazer pulsando pelos poros, virtudes a serem contempladas e dias divertidos à sua espera. Talvez você tenha esperança pelo momento em que essa pandemia propositalmente descontrolada chegue ao fim. Talvez você não adoeça sua cabeça de ver o genocídio na rua ao lado, os cemitérios entupidos e os hospitais colapsados. Talvez você não tenha apreço por nada disso, nem se importe de ver o mundo um pouco mais deteriorado, menos útil e menos mundo. Talvez seja só eu, sozinho no meu imaginário, definhando de dor, de infelicidade, sem saber pra onde vou amanhã, por não ser um daqueles desocupados com indigno título de filósofo ou doutor que brincam de política ao lado de fascistas em um país internacionalmente humilhado, devastado, miserável e indigno.

Sou, talvez, junto com milhões de outros brasileiros, a estranha exceção, a minoria que soma mais de 70% da população, o caso isolado que se vê sempre em toda esquina e a opinião meramente pessoal que, coincidentemente, é a mesma de um imenso coletivo. Dever ser um erro da Matemática, uma falha nas leis da Física e uma ruptura desconhecida com a “verdadeira realidade”. Talvez eu esteja feliz e não saiba, mesmo quando me sento pra ouvir música e sinto absolutamente nada. Por alguma razão misteriosa, olho pela janela e nada mais me importa, entro debaixo do chuveiro de luz apagada, pra não ofuscar essa suposta felicidade brilhante no banheiro. As cortinas estão fechadas, mas deve ser só ornamento pra festejar a euforia que dizem que sinto, mas que não consigo sentir. Deve ser a felicidade que chega sem chegar, a saúde pra nomear doenças, a vida pra representar a morte e assim por diante.

Debaixo das fardas e paletós, sujos de sangue, pólvora e cocaína, a imundice contamina mais que qualquer epidemia. Tem muito dela desde sempre e nos últimos anos foi ainda pior. A imundice se tornou o objetivo de uma classe tão vazia quanto esse mundo sem felicidade alguma. É desse vazio torto de uma parcela doentia, que o mundo se vê apodrecido, morto e sem esperança. Esse ambiente podre no mundo se torna o próprio gatilho que ativa as munições mais pesadas contra a qualidade de vida, a saúde mental, a dignidade humana, a vontade de viver. Nenhuma dessas doenças e mazelas chegam ao acaso e não são nada fáceis de se vencer. Quem me dera se fosse simples como apenas decidir ser feliz, quando nem mesmo a realidade física e química do meu corpo correspondem às alucinações e à falta de caráter desses estercos falantes. Permitir que os imundos tracem qualquer parecer sobre a felicidade da sociedade é dar palco pra quem não deveria sequer estar ocupando espaço físico ou simbólico em canto algum.

Hoje eu acordei, me sentei pra ouvir música e não pude sentir nada. Minha vida está corrompida há décadas e nos raros dias em que existiram sonhos, rapidamente sumiram pra dar espaço pra constante frustração e desejo sincero por vingança e revolução. O tempo passa e ainda estamos na mesma batalha. Batendo todo dia na mesma tecla, contra a alucinação coletiva, contra a barbárie do capitalismo e de sua versão final, o fascismo. Enquanto eu estiver vivo, vou acordar lembrando do que eu preciso, do que eu sinto e do que eu já não consigo mais sentir. Vou me lembrar de cada nome, cada detalhe, cada momento e chegarei cobrando um alto preço pela minha realidade roubada, meus anos de vida não vividos, minha saúde deteriorada e minha raiva acumulada. Só por ironia, me lembrarei de aplicar pesados juros, multas desproporcionais, impostos improdutivos e correções monetárias que façam ervilhas se tornarem o mais novo Universo em expansão. Vai ter poesia, drama, ficção, como toda boa obra de cinema, mas será tudo baseado em fatos reais, como a própria História nos convida para ver e fazer. Se forem necessárias as explosões, como costumam ser nos filmes de guerra, não me oponho. Que venham de todos os tons e megatons. Se um verme me diz que felicidade é questão de escolha, então eu vou dizer pra ele o que é que eu escolho pra me ver mais próximo de ser feliz. Que ele aguente o tranco, porque, como ele mesmo diz, basta assim decidir. Mudanças virão e eu não quero ouvir verme chorando de barriga cheia.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Emergência médica.

Um imprevisto e lá estava eu. Não tive escolha. E, talvez, não poder escolher seja o pior de tudo. Logo nos primeiros dias o corpo se desintoxicou. Me senti renovado. Ainda que estivesse cheio de incômodos, dores e tédio, ainda era melhor. Em dado momento acordo e me sinto visita no lugar, como se eu fosse o estranho. Não deixa de ser verdade.

A televisão ligada em um pseudo-telejornal. Ela estava sentada assistindo e eu aproveitei o momento pra ver como estava indo. Me fiz de idiota e lhe perguntei algo que eu já sabia detalhe por detalhe. Veio uma resposta hipócrita, cheia de preconceitos e ódio. Vi que nada havia mudado, apesar de tantos anos passados. Não havia esperança alí. Deixei o assunto se encerrar, pra evitar socializar. Fui buscar o que fazer. Alternava entre dormir, comer, ler e matar tempo no smartphone. Tudo ia meio devagar pro meu gosto, mas ao menos havia silêncio.

Mas isso não durou muito. Logo veio à tona a essência de tudo que eu me afastei anos atrás, por não suportar o acúmulo em uma vida inteira. No cômodo ao lado, discutiam asneiras, como se fosse a coisa mais urgente do mundo. Gastavam vinte, trinta minutos inventando motivos pra estarem alí, falando, falando, falando, mesmo que não estivessem dizendo nada. Era como se eu fosse o doente, mas elas que estivessem com o intestino no lugar da boca. Me saturei. Um gatilho instantâneo foi ativado na minha mente e eu me senti no inferno. Escolhi ir embora mesmo sem forças, sem nem comer. Às vezes andar pra trás é melhor que andar pra direção do abismo. Eu voltei pra casa e agradeci por estar sozinho, mesmo sabendo que poderia não aguentar. Não tenho medo da morte, mas sim de ter que aturar esse mundo por muito tempo.

Rodrigo Meyer

Sobre o medo de morrer.

Sei que muita gente teme a morte, mas certamente não sou uma dessas pessoas. Consigo entender que as pessoas correm da velhice e da morte e, de alguma forma, vê-se que estão apegadas a este mundo de uma forma tal que, deixar de existir e partir pra outra situação nova, totalmente desconhecida, as apavora. Seja lá o que encontremos depois da vida, como uma continuação ou um ‘eterno nada’ silencioso, reafirmando a brevidade da vida, pra quem tem medo da morte, não importa muito quais são as características da morte, além do fato de que nosso corpo simplesmente para de funcionar e, então, apodrece.

Via de regra, temos receio daquilo que não conhecemos. O mistério assombra muita gente. As pessoas se assustam mais com o que não podem ver do que com o que está bem diante delas. É exatamente o caso de quando as pessoas temem um ambiente sem luz, simplesmente porque não sabem o que há neste ambiente. Alguns se aterrorizam com a mera possibilidade das coisas, fazendo valer a ideia de que uma possibilidade já é mais que suficiente pra impactar alguém, mesmo que esteja distante da realidade.

De certa forma, é basicamente isso que constitui o pensamento e crença das pessoas, em torno da religiosidade, espiritualidade ou mesmo das superstições. Quando o homem vivia em cavernas e mal dominava o fogo, aproveitar o dia requeria dele a luminosidade do sol e algum controle sobre o que ele estava vendo e sentindo. Era possível entender facilmente que alguém estava tocando nele, vendo a presença da pessoa próxima de si, mas tornava-se uma incógnita sentir insetos ou pássaros triscando seus corpos no escuro. Dessa incógnita, a mente se assusta, porque ela não conhece e não compreende. Aquilo que ela tenta resolver e não chega em um resultado, gera uma ansiedade e um desgaste imenso para o cérebro. Um mecanismo de proteção automático da mente é evitar o desconhecido. Para tal feito, alguns se agarram em explicações sobre a vida, sobre a morte e/ou o desconhecido em geral.

Nossa mente consciente nada sabe sobre o desconhecido. Tudo que se constrói na mente sobre a vida, a morte ou o invisível, é uma especulação, uma crença, um palpite ou uma tentativa de dar vazão ao desconforto diante do que não se sabe e que se quer muito saber. Para algumas pessoas, a forma encontrada de lidar com a morte, é idealizar ou acreditar que depois do falecimento do corpo, chegaremos a algum local positivo, alinhado com o que julgamos ser de melhor qualidade ou com mais benefícios. As pessoas nunca imaginam, por exemplo, que a suposta continuidade depois da vida corpórea, seja um ambiente pior. Não seria confortável para a mente, saber que está se aproximando de algo ruim. Seria uma situação semelhante de quando os vivos se apavoram com a morte e evitam qualquer coisa que os deixe próximos dela. O medo de envelhecer, em última análise, é exatamente isso. Sabendo que a cada vez que envelhecem, ficam mais próximos do fim da vida, muita gente fica em desprazer de envelhecer, pois é o mesmo que se aproximar da morte. Essa estrutura de pensamento é abrangente e antiga, tanto que a ideia de um inferno como punição para uma vida fora das regras, deixou muita gente com medo dominada. Mas, felizmente, essa não é a única maneira de se encarar a vida.

Muita gente, inclusive eu, não vive com essa preocupação diante da velhice ou da morte. A morte chegará pra todos, sem exceção. Não se pode viver achando que evitará morrer. Não há porque correr da morte, pois ela é um processo natural que já foi presenciada inúmeras vezes. A impressão que tenho é que, ao evitarmos a morte, estamos atribuindo valor no período em que estamos vivos. É interessante pensar que, apesar das catástrofes do mundo, do modo doentio das sociedades e sistemas políticos, as coisas ainda nos parece com um valor tal, que lutamos para não sair disso. É de se pensar que, enquanto estivermos felizes na vida, veremos prazer em continuar fazendo nossas atividades e desfrutando das satisfações em convívio com outras pessoas e até mesmo com os assuntos infinitos que o mundo nos permite tentar conhecer. Talvez seja esse rompante de disposição e prazer que faça muita gente valorizar a vida. Sinceramente, eu ainda não tenho essa resposta e, por enquanto, não tem sido um desconhecimento que me causa angústia nem ansiedade por respostas. A incerteza sobre a vida sempre existiu e as pessoas continuam nascendo e vivendo. A única diferença na qualidade de vida do indivíduo está justamente como ele gerencia esse desconhecimento. A depender de como ele interpreta, supervalorizando ou não o “problema”, isso pode deixá-lo com medo do desconhecido ou não.

A imaginação humana é poderosíssima. Se você apontar pra um ambiente vazio e fizer uma expressão de medo perto de outra pessoa, mesmo que você não tenha visto nada, tanto quanto a outra pessoa não viu, sua encenação de medo vai representar um problema para a pessoa ao lado. Ela vai ler a sua feição e a mente dela vai entender que há algo de perigoso, assustador, ocorrendo no ambiente e, pra ficar ainda mais bizarro, caso ela não tenha visto nada de fato, deixará a mente completamente ocupada tentando preencher essa lacuna. A mente pode simplesmente entrar em pânico ou formar uma imaginação que resolva esse mistério. Entender porque tanta gente possui medo da morte é entender que elas possuem medo do desconhecido e a morte é um dos maiores ‘desconhecidos’ que existem. Estando vivo não se pode experimentar a morte. Logo, esse é um assunto do qual morreremos sem desvendar. Mas porque isso precisa ser um incômodo?

É compreensível que o ser humano, por conta de sua estrutura, carregue consigo vários mecanismos de autopreservação, estando incluso nisso tudo que possa evitar perigos ou situações que, conhecidamente, levam para a morte em si ou para situações próximas, como os ferimentos graves, grandes dores ou doenças debilitantes. O ser humano está configurado geneticamente pra agir com base no seu instinto de sobrevivência. Porém, uma coisa é evitar a morte por conta do instinto e outra coisa é ter medo da morte. Talvez, no meio dessa salada de experiências humanas, morrer tenha cravado em nosso código genético a associação entre morte e medo, como uma estratégia de eficiência pro instinto. Se passamos a temer a morte, certamente ficamos mais engajados em evitá-la ou em lutar para adiá-la o máximo possível. Consigo entender essa possibilidade, mas trago algo a mais. Há nuances desse medo que não são saudáveis e tornam-se, por isso mesmo, uma contradição. Se a pessoa quer viver mais, ela precisa, então, controlar  o medo exagerado da morte. Se passa a vida inteira com medo de morrer, certamente não está tirando proveito real dos momentos da vida, além de estar provocando uma série de problemas na saúde física e mental que vão degradar seu estilo de vida até o ponto em que, problemas derivados serão potenciais motivos para sua morte precoce.

Eu sempre tive em mente que ter medo da morte é a garantia de pararmos de viver. Se deixamos de fazer as coisas que gostamos, por medo de acabar morrendo, simplesmente paramos de fazer tudo, pois pra morrer basta estar vivo. Imagine, por exemplo, alguém que evita cozinhar, por medo de uma falha no botijão de gás ou medo de uma faca escorregar de sua mão. Embora esse seja um exemplo exagerado, é com essa mesma premissa de lógica que muita gente está deixando de aproveitar o potencial de suas vidas, por medo não só da morte, como de inúmeras outras coisas igualmente ‘banais’, por assim dizer. As pessoas evitam até mesmo quebrar as correntes do sistema que as aprisiona, exatamente pelo medo de que o sistema faça o que está programado para fazer: controlar as pessoas pelo medo da morte. As pessoas se calam diante da realidade, com medo de que algum incomodado venha brecá-las com a morte. Porém, as pessoas se esquecem que, se ninguém tiver medo da morte, inclusive em um cenário onde as mortes de fato ocorram, o próprio sistema de controle pelo medo deixa de funcionar e o objetivo inicial dos opressores desaba. Um sistema só sobrevive se as partes oprimidas cumprem o papel esperado delas no jogo.

Poderia estender essa filosofia pelo viés político e sociológico, mas, por hoje, não é o foco do texto. Queria, a princípio, levantar uma reflexão que é bastante pertinente, ainda mais nos últimos anos onde as pessoas estão começando a se abrir pra certas mudanças de pensamento e de postura. Mesmo que pareça que o mundo está retroagindo na velocidade da luz, alguns passos na direção certa estão ocorrendo e, cada nova geração, carrega um pouco mais de entendimento e liberdade que a geração anterior, mesmo que isso não seja em todas as pessoas. Apesar de ser perfeitamente compreensível e aceitável que as pessoas não consigam concretizar um levante contra seus próprios medos e inseguranças da noite pro dia (principalmente se não houver cumplicidade coletiva), é preciso sempre deixar uma fagulha acesa, pra que o fogo sempre possa ser erguido no momento que for oportuno. Esmiuçar as questões humanas, sobretudo quando toca nessas fragilidades, exige um certo tato pra que possamos trazer mais benefício do que prejuízo ao pinçar um problema e propor uma análise ou solução.

Não existe uma regra de que você deva se transformar na pessoa que eu sou, afastando seu medo da morte. Eu não sei dizer se em algum momento da infância eu tive esse medo e o abandonei ou se sempre fui assim, sem medo de morrer. Claro que isso não significa que eu me exponho em vão a situações desnecessárias. Não ter medo de morrer não significa que tenho ansiedade por morrer. Apenas é algo que não me gera preocupações ou inseguranças. Pra mim está completamente tranquila a ideia de que, em algum momento, seja cedo ou tarde, morrerei por alguma situação. Dalai Lama, em uma de suas frases alerta para o conflito clássico humano, onde as pessoas se tornam depressivas quando vivem demasiadamente no passado ou ansiosas quando vivem demasiadamente no futuro. A solução óbvia, proposta por ele, é viver no momento presente, pois ele é o único momento real. O passado já foi e não podemos mudá-lo, enquanto que o futuro ainda não existe. Em consonância com essa ideia, eu penso que não tenho que lidar com o tema da morte hoje, pois ela é um evento futuro (além de inevitável e natural). Assim, nas minhas mãos está somente o que posso fazer da minha vida hoje e, deste hoje, eu escolhi viver, agir, pensar, me expressar, me engajar naquilo que eu acredito, sem medo de que a mudança positiva que proponho possa ser freada pela minha morte. Lembre-se que não se pode jamais matar uma ideia. Corpos vão, ideias ficam. O mundo muda, cedo ou tarde. Perde tempo, saúde e evolução, aquele que tenta adiar a mudança. Inspirem-se em seus melhores ideais, estejam unidos aos seus semelhantes e façam a mágica acontecer.

Rodrigo Meyer

 

O perigo do falso entretenimento.

O ser humano, assim como outros animais, busca por entretenimento. É uma necessidade natural e é buscada automaticamente pela mente. Exploramos o ambiente em busca de algo que possa prender nossa atenção e nos entregar alguma satisfação. Queremos ocupar nosso tempo de uma forma que faça valer o momento, simplesmente pra não nos sentirmos entediados ou sem propósito. Chegamos no mundo sem descobrir porquê e passamos nossa existência buscando ocupar da melhor forma possível esse intervalo misterioso até o falecimento do nosso corpo.

É nesse cenário que passamos a buscar entretenimento, às vezes assistindo um filme, conversando com alguém, dividindo uma piada, contemplando ou fazendo arte, se desafiando em um videogame, lendo um livro, escrevendo um poema, visitando a natureza ou mesmo observando o movimento na rua. Nossa mente precisa sempre se sentir ocupada pra que nossa existência faça algum sentido. Porém, infelizmente, muitos de nós se perde nessas buscas ou não encontra acesso ou interesse por variedades eficientes de entretenimento.

Quem já visitou um asilo de idosos alguma vez, provavelmente se deparou com uma cena desoladora. Ao menos dos que conheci no Brasil e os que pude deduzir pelas mídias de outros países, certamente é global a tendência de abandono pra essa fase da vida. Por vezes, sem recursos financeiros ou estrutura mínima pra essa comunidade, ficam sem ter como produzir algum entretenimento que contemple as necessidades, limitações e anseios dos tutorados. Não é preciso dizer que são frequentes os casos de depressão entre idosos. Estou citando essa parcela da população, justamente porque este contexto destaca uma questão primordial no ser humano de todas as idades. A sensação de não estar mais ativo, em uma espera passiva pelo dia da morte é o desprazer que mais assombra o ser humano. Enquanto jovem,  o ser humano luta para fugir basicamente de duas coisas: da velhice e da morte. E, claro, mesmo assim, sempre terá esse desfecho.

A vida nos exige que façamos algo dela e é exatamente por isso que estamos sempre em conflito com o que não ocupa o nosso tempo. Apesar de tantas coisas terem sido criadas para supostamente entreter o ser humano, muitas vezes isso não o está preenchendo de fato, podendo apenas estar conduzindo ele para uma morte passiva. Entenda que o problema não é sermos conduzidos até a morte, afinal isso é natural e todos nós chegaremos nela. O problema real é quando, eventualmente, a vida se torna tão somente a ligação vazia e direta entre nascer e se aproximar do fim. Esse intervalo é tudo que temos e por isso nos é sagrado, caro, de valor inestimável. Por isso, para todos nós, a vida não se resolve apenas por existirmos, sendo importante, portanto, exatamente aquilo que fazemos de nossa existência e quanta satisfação conseguimos obter dela.

Existem inúmeras formas de entretenimento para resolver o intervalo da vida junto da curiosidade humana. Em todas elas podemos experimentar momentos bons ou ruins, a depender da veracidade desses momentos. Dividir uma conversa, por exemplo, pode ser muito engrandecedor, mas se o assunto ou o interlocutor nos parece desagradável, podemos nos sentir entediados, cansados ou até irritados. Nesse caso, podemos facilmente identificar que tal entretenimento foi ruim e não nos preencheu, porém, existem outros tipos que, de tão comuns e maquiados pela sociedade, passam pela absorção do público sem o filtro da crítica. Ocorre, por exemplo, quando se trata de um programa de pseudo-humor com piadas sem graça, que ao invés de nos preencher o vazio,  apenas despeja referências rasas de sexo, preconceitos ou até discursos de ódio.

Por muitos anos na televisão aberta brasileira se via os quadros de programa como os de ‘videocassetadas’ onde se expunha uma compilação de vídeos de pessoas se machucando, caindo, escorregando, etc. Essa suposta demanda justificou, inclusive, a criação dos posteriores programas de violência ainda maiores e até mais explícitas, como os programas de tv nomeados de ‘policiais’, onde o público já insatisfeito se nutria de mais insatisfação, cultivando mais motivos pra odiar as pessoas enquanto enaltecia a violência até entrar no padrão mental do desprezo, do preconceito, da opressão, etc.

De tanto ver desgraça, mentira, preconceito e outros entulhos, dentro e fora da televisão, a mente fica insensível a todos esses estímulos, aceitando níveis cada vez piores de “conteúdo” e realidade. Manter a população acostumada ao inaceitável é a meta de muita gente que lucra as custas da ruína do público, durante essas milhares de horas diante desse falso entretenimento dentro e fora das mídias. Por isso, é importante filtrarmos aquilo que nos sujeitamos ou não a absorver ou vivenciar.

Você já deve ter ouvido a expressão “comer isopor” em referência a alimentos que, embora sejam visualmente volumosos, não sustentam o organismo, gerando, muito em breve, vontade de comer novamente. Da mesma forma ocorre com o falso entretenimento que, justamente por ser falso ou raso, te mantém vazio. Com este tipo de entretenimento, você tem a impressão temporária de preenchimento do vazio da vida, mas logo se apercebe que apenas “comeu isopor”. Esse hábito pode se tornar um vício e degenerar sua saúde física e mental. Enquanto a vida não para e o vazio continua, os viciados se tornam intolerantes com a ausência desse falso entretenimento, por efeito da crise de abstinência, similar ao que ocorre com o cigarro de nicotina que mesmo inútil, é requerido como se fosse necessário. Muita gente, inclusive, tem o ato de fumar nicotina, como equivocada tentativa de preenchimento do vazio da vida, perdendo saúde, tempo e dinheiro com algo tão vazio que nem mesmo dá “brisa” ou prazer real.

Quem em sã consciência compraria isopor para o almoço? Quem em sã consciência preencheria os dias de sua vida tentando rir do que não é engraçado ou tentando aliviar o estresse assistindo conteúdos estressantes? Se a conta não fecha, você está fazendo errado. Eu não quero dizer o que é que você tem ou não que escolher pra se entreter, pois isso é completamente subjetivo a cada pessoa. Algumas pessoas se ocupam em estudar idiomas, outras não possuem afinidade ou curiosidade por isso. Algumas se preenchem tocando um instrumento musical ou escrevendo poesias, enquanto outras podem preferir passar longe disso e desfrutar seu tempo cozinhando ou dividindo o prazer de uma refeição com alguém querido. Não importa que tipo de área se tenha interesse, desde que encontre meios sinceros de se entreter nessa atividade, pra não ser enganado com os tais “isopores” da vida. Descobrir aquilo que nos preenche, pode nos eliminar o medo desse incógnito vazio da vida e nos motivar em nossa missão, seja ela qual for.

Rodrigo Meyer

Depressão convive com amor-próprio?

Normalmente as pessoas tem uma visão curta daquilo que elas mesmas pouco vivenciaram. Muita gente no mundo não tem conhecimento concreto nem da depressão nem do amor-próprio. Não ter cruzado com essas experiências ainda, pode levar a deduções e, como sabemos, deduções sem embasamento em fatos é só preconceito.

O amor-próprio é a estima prioritária que temos por nós mesmos, é nos vermos como dignos, merecedores de respeito, de coisas boas, etc. Assim, ter amor-próprio nos faz querer buscar uma realidade que contemple nosso ser de forma positiva. Todos que possuem amor por si mesmos, desejam ter liberdade, prazer, progresso, dignidade, assim como receber respeito pelos demais. Se perdemos o amor-próprio, começamos a não nos preservar nesse sentido, deixando que pessoas, coisas e situações ruins, façam parte da nossa realidade, sem filtro, sem críticas, sem resistência. Por vezes, relacionamentos são basicamente a união de duas pessoas sem amor-próprio. Uma tolera a outra, apesar do malefício que causam reciprocamente.

Entendido o que é o amor-próprio e a ausência dele, falemos um pouco da depressão. A depressão é uma doença real que afeta um número alarmante de pessoas ao redor do mundo todo. As razões para alguém desenvolver um quadro de depressão podem ser diversas, incluindo combinações. Embora possa existir predisposição genética na equação, frequentemente é o ambiente e as situações vividas que se tornam gatilhos que ativam a manifestação da depressão em si. Quando uma pessoa vive situações na vida das quais não concorda, não sabe como lidar, não controla ou não tem soluções a altura pra resolver, pode se ver cansada, como se estivesse lutando contra a correnteza em vão. É nesse ponto que se observa que, mesmo desejando o melhor pra si, tal pessoa pode se ver sem espaço no mundo, sentindo como se ela estivesse perdendo valor e que tudo parecesse sem esperança.

O senso de preservação da vida e do bem-estar, quando estamos minimamente saudáveis psicologicamente, costuma estar ativado. O ser humano, a princípio, está sempre em busca de prazer e bem-estar. Porém, longe desse ideal, muita gente escapa dessa premissa humana por conta de distúrbios, traumas, complexos ou outras situações. Pode parecer estranha a ideia, mas muita gente que tem amor-próprio colide com a realidade em quase tudo, já que o mundo não corresponde aos seus valores e não é um ambiente no qual alguém saudável desejaria viver. Quando você ama uma pessoa, por exemplo, você quer ver ela livre e feliz, pois qualquer coisa diferente disso não é amor. Da mesma forma, se você ama a si mesmo, quer se ver livre e feliz. E, sabemos, o modo como a sociedade se apresenta, com suas condutas doentias e equivocadas, muitas vezes nos impede exatamente de sermos livres e felizes. Explicando assim, passo a passo, torna-se mais evidente essa conexão entre depressão e amor-próprio.

Há uma frase de Jiddu Krishnamurti que diz “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.”.

Assim, conclui-se que se você quer o melhor pra si, mas a sociedade lhe é tóxica, você não estará bem adaptado a ela. E se estiver bem adaptado a tal sociedade, então, certamente, você não tem amor-próprio. O amor-próprio nos faz buscar mudanças, pois não aceitamos conformados o malefício que nos corrói. Desenvolvemos defesas, criticamos os males do mundo e nos posicionamos de forma ativa pra combatê-los, justamente porque não queremos que os malefícios nos combatam e que destruam o mundo no qual vivemos, pois queremos e precisamos de um mundo positivo. Lembra-se? Amor-próprio é gostar de si, se dar coisas boas, querer se ver livre e feliz.

Lamento se, eventualmente, esse texto suscita lembranças incômodas sobre a realidade ou se quebra um pouco os fios de esperança tão difíceis de serem sustentados nesse mundo adoentado. Sei que muitas das pessoas que cruzam o meu caminho, assim como eu, tiveram depressão ou estão passando por uma agora mesmo. E é exatamente por saber desses contextos e da importância do assunto, que levanto ele diante da internet, sempre que necessário. Gostaria de ter a solução pra isso que muitos de nós vivencia individualmente, mas não tenho. Oportunamente, o próprio Freud dizia “Antes de se autodiagnosticar com depressão, certifique-se de que não está apenas cercado de idiotas.”. Com essa frase, fica fácil entender porque tanta gente se sente cansada, saturada, desiludida da vida e do mundo, sem esperança, sem paciência e até mesmo com pensamentos suicidas. Em um mundo onde as pessoas fazem idiotices, o ambiente se torna tóxico, inóspito, inviável para princípios básicos da saúde mental: liberdade e felicidade.

É difícil caminhar em um ambiente onde as pessoas estão colidindo umas com as outras, transformando-se em barreiras para os demais. Habitamos um mundo que transborda inveja, sabotagem, falta de apoio, preconceito, racismo, fanatismo, alienação, ignorância, violência, hipervalorização da futilidade e pouco apoio aos indivíduos em si, aos seus potenciais, suas necessidades, seus desejos, seus valores. Estatísticas, nada animadoras, colocam o Japão como um dos lugares de maior incidência de suicídios no mundo. Isso se dá, segundo as próprias queixas da população, ao modelo de sociedade que exige muito das pessoas, especialmente em estudo e trabalho, sobrecarregando-as de estresse, pressão social, cobranças familiares e profissionais, gerando um sentimento de que não se é capaz de atender as demandas ‘padrões’ dessa realidade.

Independente de cultura e predominância, em outras regiões do mundo, as taxas de suicídio acompanham motivos similares ou com a mesma estrutura lógica. De forma resumida, a depressão que chega ao extremo do suicídio é um grito de alerta ao mundo de que o mundo não é um lugar viável pra se viver. Explicando a situação em repetidas frases, algumas realidades óbvias do mundo saltam aos nossos olhos. Muitos de nós ignoramos a saúde psicológica das pessoas em detrimento de metas e padrões inventados que, no fundo, causam mais prejuízo do que benefício. Um mundo que permite que cresça o número de pessoas que optam pelo suicídio, apenas pra não ter que abrir mão de certos vícios e/ou modelos de sociedade, de família, de relacionamentos “amorosos” ou de “amizade”, bem como os modelos e relações de trabalho e estudo, certamente está se destruindo. Uma sociedade que aceita carregar o prejuízo da própria destruição, eliminando seus membros em casos evitáveis de suicídio ou outras fugas, certamente é uma sociedade que não ama a si mesma. Se uma sociedade é composta por indivíduos somados, fica claro ver que as pessoas que constroem essa sociedade não possuem amor-próprio, já que fomentam exatamente o cenário do qual lhes dá o maior prejuízo tanto pessoalmente quanto coletivamente (se é que podemos separar uma coisa da outra).

Outra curiosidade é que estas pessoas que plantam e moldam a sociedade pra um ideal inviável e nocivo, ao mesmo tempo em que não possuem amor-próprio, são também por demais egoístas, já que suas ações não levam em conta o malefício causado aos demais. Uma coisa é não estarmos bem com o mundo e com nós mesmos e nos expressarmos de forma a fugir ou nos defender dessa realidade e outra, completamente diferente, é arrastar todos os demais pro buraco pelo modo como escolhemos reagir ao problema ou ao mundo. Eu não pretendo ser insensato a ponto de incentivar o suicídio, mas, entenda o que vou dizer: o suicídio é um jeito menos errado de lidar com a inadequação ao mundo, quando comparado com a conduta do egoísta que, não se importa de causar ainda mais malefício no ambiente e ainda mais dor nas pessoas, arrastando elas pra um cenário ou buraco de violência, abandono, fome, miséria, machismo, cobranças desproporcionais, abusos, desemprego, falta de apoio, doença, disputas doentias, etc. Enfim, não se pode dizer que o suicídio é menos aceitável que a opção de submeter outras pessoas a esse mundo torto projetado por egoístas. Nesse sentido, me vem na memória um trecho de letra cantada por Cazuza onde ele dizia:

“Eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo.”.

Embora o contexto da frase de Cazuza se referisse ao uso pessoal de drogas, é válida a ideia de que, em qualquer que seja nossa escolha de fuga do mundo, não causamos danos diretos aos demais, quando nos voltamos pra opções individuais. Muita gente alega, contudo, que tanto para o caso de abuso de drogas ou suicídio, as famílias e os amigos em torno do indivíduo são também impactados por essa decisão individual. Mas, acredito, no momento, que não se pode controlar o que os outros vão sentir sobre fatos e nem sobre como nos portamos sobre nossa própria vida e experiência. Somos responsáveis somente por nós mesmos. Cada um de nós tem uma vida e dela escolhe o que fazer, como gerir e o que aceita ou não incluir no hall de valores. Querer que uma pessoa se prive de suas fugas com o simples argumento de que outros sofrerão com essa decisão, é um argumento vazio, até porque a pessoa que opta por uma fuga já está sofrendo e não vai deixar de sofrer, mesmo que se coloque mais cobrança e pressão social e familiar pra que ela dê preferência a proteção do sofrimento de terceiros, hipoteticamente no futuro. Nada menos saudável que isso. É como entregar mais um motivo de dor pra quem já está com tanta dor que deseja se ausentar da vida. Sejam conscientes do equívoco e evitem propor isso como argumento a uma pessoa deprimida e/ou suicida.

Apesar das boas intenções de querer ver alguém superar essa situação ruim, quando o assunto é interno a um indivíduo e subjetivo o suficiente pra ser único em cada pessoa, não se deve tentar sobrepor os interesses sociais e/ou de pessoas externas aos interesses do indivíduo em questão. Isso não é, nem de longe, um incentivo ao suicídio, pois, bem ao contrário, visa poupar uma pessoa de mais danos do que ela já carrega, possivelmente desacelerando a chegada de um potencial desfecho suicida. Não coloque mais água em um copo que já está cheio, senão ele vai transbordar. Se queremos frear os casos de suicídio, precisamos parar de sobrecarregar as vítimas de depressão e deixar que elas tenham espaço e condição pra caminharem. Por vezes essas pessoas estão buscando ajuda, mas só estão encontrando pessoas e situações que atrapalham ainda mais seu quadro. O ser humano tem o potencial de abafar ou incentivar coisas tanto em si mesmo quanto nos outros. Assim como os que veem um incêndio em uma floresta podem tentar brecá-lo com um círculo de pedras ou simplesmente colocar inúteis gravetos ao redor das chamas. Na vida é preciso saber se o que fazemos, falamos ou cobramos de um indivíduo ou coletivo, mais atrapalha do que ajuda. De uma coisa eu sei: não falar de suicídio pode até não suscitar a ideia na mente de muita gente, mas é também por não falar disso, que o assunto segue desconhecido e ignorado por grande parte da sociedade e, com toda certeza, isso não ajuda a eliminarmos esse tipo de problema do mundo.

Primeiramente é preciso reconhecer que nossa sociedade é doente, as pessoas estão doentes, seja com depressão, egoísmo, complexo, desvios de conduta, de educação ou de amor-próprio e que, sim, precisamos falar repetidas vezes as obviedades que o mundo insiste em ignorar, seja por preguiça, por ignorância, por conivência doentia e/ou por vício em pseudo-poder. Cada vez que as pessoas se posicionam contra a realidade podre do mundo, elas se aproximam de resolver dois problemas de uma vez só: o caos do ambiente e a propensão a depressão por conta desse ambiente inóspito. As regra é tão simples que nem vou me estender mais por este texto. Estejam certos de que basta agir de forma sensata na vida, que as sociedades se tornam melhores, já que elas são a soma de cada indivíduo. Não plante um mundo inóspito e não terá um mundo inóspito.

Rodrigo Meyer

Não tenho medo da morte. E você também não precisa ter.

Se tem algo que é natural e que certamente vai acontecer pra todos, é a morte. Nascemos e morremos e isso não tem razão nenhuma pra ser um drama. O medo que as pessoas tem da morte é um exagero adicionado ao instinto de sobrevivência. Uma coisa é você tentar preservar sua existência e outra, completamente diferente, é ter medo de morrer.

Falar de morte é um tabu em praticamente todas as sociedades. Posso dizer que isso não torna o tabu normal, apenas mostra como a humanidade, em sua maioria, está enfraquecida em seu próprio modelo criado. Se alimentam de medos, traumas, inseguranças e, quando isso viraliza a ponto de quase todos estarem nesse padrão, tendem a achar inaceitável tocar no tema sem um afastamento, medo ou desprezo. Não consigo imaginar bobagem maior.

Como eu disse inicialmente, o instinto de sobrevivência é diferente do medo da morte. Ele é, por exemplo, o que te faz correr quando um prédio desmorona perto de você. Você tenta ficar vivo pelo maior tempo possível, sofrendo o mínimo possível. Não há prazer no sofrimento que esses episódios catastróficos proporcionam e também não há nenhuma necessidade de passarmos por eles passivamente. Mas se você deixa de sair de casa com medo de que um prédio possa cair ao seu lado, então você precisa buscar ajuda psicológica.

Eu sei, perfeitamente, que em algum momento morreremos todos. Pode ocorrer subitamente, como em um acidente de carro, por exemplo. Pode ser gradual, como em uma enfermidade que termine em óbito. Pode ser algo um pouco mais previsível, como morrer de velhice ou até mesmo de forma planejada como um suicídio.

A medida em que as pessoas vão lendo este assunto, posso imaginar o desprazer de muitos, afinal é mesmo um assunto tabu pra muita gente. A humanidade não lida de forma confortável com a morte. De alguma forma é como se a morte fosse a representação de algo tenebroso que não deve nem mesmo ser mencionado. Eu não penso assim. A morte não muda por falarmos ou não dela. Aliás, falar dela, pode ser o começo de uma grande transformação pessoal sobre como lidar com sua própria vida.

Algumas instituições de cunho filosófico e espiritual ritualizam simulações teatrais de morte como forma de propor reflexões aos participantes sobre as questões da vida, os valores e até mesmo sobre sua própria análise do que venha a ser a partida da vida pro que, eventualmente, haja depois disso. Outros grupos, festejam a morte dando a ela um status de entidade, como se ela estivesse, de alguma forma, sendo personificada. Ela é tão natural e recorrente que as representações e simbolismos acerca do fim da vida deixaram uma vastidão de cultura em torno do tema.

Por ser o momento de transição entre a vida e o suposto momento seguinte, a morte sempre esteve envolta de mistérios. Pelo fato de nosso corpo morrer, encerramos as análises mais concretas nesse último momento de vida. Assim, médicos e cientistas validam a morte com base na ausência das características que são comuns durante a vida, tal como o pulso, respiração ou atividade cerebral. A partir do momento que um corpo é declarado morto, entra-se em território desconhecido e tudo adiante, então, torna-se especulação.

Seja do ponto de vista científico ou espiritual, são poucas as respostas sobre o assunto e por isso, podemos dar mais certeza e confiança na vida do que no que a morte nos deixa. No final das contas, o medo da morte é tão somente o medo do desconhecido. De maneira similar, as pessoas geralmente possuem um medo sobre o Universo e questões sobre vida extraterrestre. Por muito tempo o Universo sempre foi uma vastidão misteriosa não explorada que nos fazia pensar, mas que nunca nos trazia uma resposta satisfatória. Diante disso, fenômenos, aparições ou teorias que envolvem a entrada ou saída desse misterioso céu escuro, nos deixa inquietos, no mínimo.

O medo do desconhecido nos coloca num papel pouco proveitoso. Ficamos ansiosos, pois nosso cérebro tende a querer compreender o que se apresenta diante de nós e se algo não se soluciona de forma satisfatória, ele fica em um esforço infinito diante disso. Essa busca por resposta sem conclusão é a ansiedade. Isso é basicamente a cena de um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ele nunca alcançará seu próprio rabo, pois quanto mais avança, mais seu rabo “foge”.

O que muita gente faz pra contornar a ansiedade diante da morte é determinar uma resposta pra entregar ao cérebro quando estiver diante desse desconhecido. Ao não saber a resposta, coloca opções e elege uma para acreditar. Dessa forma se você colocar para seu cérebro a ideia de que depois da morte, você vai estar em Vênus, dançando suas músicas preferidas, então sua mente se sente confortável por saber a resposta, independente de ser real ou não. Outras pessoas preferem simplesmente crer que depois da morte tudo se encerra e nada mais ocorre e assim também aquietam a ansiedade do cérebro, dando uma resposta. Seja lá que resposta dermos, sempre será uma maneira de contornar o desconhecido e não cair em um surto de ansiedade. Nossa mente torna-se criativa para resolver o que a inquieta.

Embora não tenhamos que ter medo algum da morte, isso não significa que você deva propagá-la ou ser permissivo diante de atos perigosos. A razão é simples: uma vez que somos humanos com nosso instinto de preservação e que isso não é opcional, todo nosso bem-estar está pautado em certas condições e premissas. É compreensível que não consigamos, por exemplo, nos sentir bem se estivermos em situações de risco a vida, como, por exemplo, pendurados em um penhasco ou diante de uma área que está sendo bombardeada. A própria ansiedade que esses momentos geram pro nosso cérebro, por impactar em nosso instinto de sobrevivência, nos deixa em estados alterados. As químicas de adrenalina e outras nos fazem ter reações praticamente automáticas.

Diante disso, me vem a mente vídeos de pessoas corajosas andando tranquilamente por topos de prédios, sem nenhuma proteção, filmando saltos entre bordas e todo tipo de ação que julgamos extrema. Para muitos de nós isso causa aflição e ansiedade, pois imaginamos o perigo de queda e morte. Reconhecemos nas alturas, assim como em outros contextos, o ingrediente da morte em potencial. Isso figura na mente humana e de grande parte dos animais, como uma memória herdada que já está impregnada em nossas espécies, ao longo das gerações. Desde que diversas pessoas foram morrendo diante de cenários similares, fomos aprendendo o que era perigoso ou não. E assim, torna-se compreensível o medo ou aflição diante de alturas, especialmente quando não há uma proteção ampla.

Mas, pessoas no mundo todo superam ou mudam suas mentes diante desses padrões, quando, por exemplo, controlam ou anulam a ansiedade diante de um salto de paraquedas, a proximidade com animais peçonhentos como algumas cobras ou o controle emocional diante de um incêndio. Acredito que, a medida em que controlamos melhor nossa mente, vamos nos tornando menos vítima do lado pejorativo dos nossos instintos. Ter instinto é bom e faz parte do nosso progresso em vários sentidos, mas se tivermos capacidade de burlar exageros em prol do nosso próprio bem-estar, melhor.

Proponho que vivamos de forma mais intensa, com menos receios, menos medos, menos ansiedade. Incertezas sempre existirão sobre inúmeras coisas, mas isso não precisa ser motivo pra ficarmos apreensivos. Também devemos evitar pessimismo e otimismo e nos concentramos na realidade. Viver o momento presente é algo que exige que abandonemos expectativas sobre o futuro e que superemos traumas do passado. Pelo que posso observar do mundo e de minha própria jornada, a melhor receita pra ficar em paz é desfrutar o momento presente.

Sensatos os vikings que festejavam quando alguém morria, afinal era sinal de que completou mais uma etapa na evolução. Morrer é natural e triste mesmo é viver sofrendo. Se você sente saudade de um amigo ou ente querido que faleceu, tenha em mente que o que vocês vivenciaram durante a vida é o que oferta valor entre as pessoas e se isso já foi feito e compartilhado, não há pesar. Se pra você a vida se encerra com a morte do corpo físico, todo o momento que vocês poderiam ter pra desfrutar a companhia um do outro era aquele e tudo se cumpriu. E se você acredita que haja algum evento posterior a morte, estará vivenciando as possibilidades de interação em algum momento, de alguma forma, e este estágio da vida no corpo foi apenas uma fase concluída.

Quando lembro de alguém do meu passado ou que faleceu, tenho recordações dos bons momentos vividos. Isso só me traz alegrias e nenhuma dor. Não tenho remorsos ou dramas a serem superados pelo fato dessas pessoas não estarem presentes fisicamente em meus dias. Não estou, de forma nenhuma, condenando a emoção diante desses momentos onde nos sentimos separados de pessoas que estimávamos bastante. Tudo isso é parte de nossa realidade como seres humanos e nosso afeto está muito relacionado a querer proteger e ver bem as pessoas com quem criamos vínculos. Dessa forma, tendemos a sofrer, por extensão do instinto de sobrevivência, pelo dano a vida de uma outra pessoa. É isso que nos torna humanos e nos deixa emocionados diante da dor alheia, por exemplo. De maneira similar, a felicidade de alguém que estimamos nos tranquiliza e nos contagia, deixando um sentimento de alegria e bem-estar.

Quando chegar a sua hora, minha hora ou a hora de qualquer ser, procure voltar a sua atenção para o que você tem feito da sua vida, pois se tem algo que é recorrente em pessoas que estão próximas do momento de morte é o arrependimento sobre quem foram e como viveram. Chovem palavras de perdão, amor, desculpas e surge um brilho de consciência que os fazem ver que pesar na Terra é a maior perda de tempo, pois a morte chega pra todos e, portanto, enquanto estivermos vivos, é a única e melhor hora pra fazermos o melhor pra desfrutar de bons momentos e ver todo mundo bem e feliz. Façamos, então, nossas melhores ações, com nossas melhores posturas diante de tudo e de todos. Qualquer coisa diferente disso, é ignorar as estatísticas das pessoas infelizes em seus últimos dias de vida. Seja lá o que venha ou não venha depois da morte do corpo, viva seus dias pra ficar de consciência tranquila. Sua vida vai ser construída em cima de como você se sente diante da realidade. Você pode escolher a tranquilidade e o sorriso ou o incômodo no caos. Controle sua mente ou será controlado.

Rodrigo Meyer