Redefina os padrões daquilo que não te agrada.

Estar vivo, dentro ou fora da sociedade já nos coloca em um cenário em que precisamos observar e reagir diante das coisas. Tudo que nos cerca e também o que nós mesmos somos, passa pela nossa crítica. Para muita coisa, nossa análise passa desapercebida, pois são rotineiras. Mas para outras coisas, focamos uma grande atenção, principalmente sobre o que nos desagrada.

No campo das pequenas coisas, podemos reagir em desprazer pelo excesso de luz, de calor, da chuva, do céu nublado, do cansaço ou preguiça de cumprir uma atividade mais produtiva no nosso dia, a insatisfação com uma roupa que desbotou, um tropeço na calçada, a falta de bateria suficiente no celular, uma caneta que falha quando precisamos escrever, o barulho inconveniente na rua e por aí vai. Esses são alguns exemplos de coisas que nos traz algum incômodo, mas pouco significativo. Poucas vezes reagimos de forma mais consistente pra planejar mudanças sobre esses cenários. Não é algo que nos demanda muita ação, nem que nos priva de viver o total da nossa vida em outras coisas maiores.

No campo das grandes coisas estão nossas críticas mais incisivas, mesmo que nem sempre coerentes ou justas. Nossa visão sobre as pessoas, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre a política, sobre as relações de trabalho, de ensino, de aprendizado. Estão neste grupo o nosso dinheiro, nossas relações emocionais, nossos medos, nossos traumas, nossas doenças, os vícios, os erros, os acertos, as superações, as conquistas dos nossos objetivos materiais ou de outros setores da vida, nossa segurança, nossa satisfação em estar vivo ou em contato com o mundo com ou sem socialização. Muita coisa é pesada em graus diferentes para cada pessoa, mas certamente esses são exemplos muito comuns de faces da realidade e do nosso ser, que observamos com um grau maior de atenção, mesmo que tenhamos a visão distorcida ou a incompreensão do que cada uma dessas coisas de fato é para nós ou como funcionam.

Por tudo isso, entre pequenas e grandes coisas, nós estamos sempre traçando críticas sobre os padrões. Podemos, por exemplo, estabelecer que um determinado modelo de trabalho é nocivo e que gostaríamos que fosse diferente. A crítica sozinha é só um pensamento ou uma expressão dele, mas pra que algo mude, requer alguma ação. Você pode começar a transformar tudo o que não gosta no mundo, por meio do seu próprio exemplo. Seja vocẽ a mudança que gostaria de encontrar pelo caminho. Um bom caso, fácil de lembrar, foi quando Linus Torvald, um programador, decidiu fazer algo que julgasse melhor do que o que havia de estabelecido em sistemas operacionais. Foi assim que nasceu o Linux, um kernel (uma espécie do miolo de um sistema operacional) que hoje é tão aplaudido pela qualidade e pelo viés open-source e gratuito do projeto, que é a opção da um imenso número de empresas e usuários domésticos pelo mundo todo. Ainda que empresas grandes como Microsoft, Apple, Google e outras, tenham alcançado um enorme mercado nessas temáticas, Linus Torvald agiu e criou aquilo que achava necessário ser criado. O importante não é o tamanho do seu sonho e nem o retorno massivo do seu projeto. Importa mais é que você esteja satisfeito em ter transformado uma face da realidade em algo melhor que atendesse aos seus padrões, às suas expectativas e necessidades.

Em qualquer setor da vida, devemos ter igual iniciativa, transformando o modo como fazemos arte, reestabelecendo o significado da arte, colocando nossos textos e opiniões à frente e ao lado de outros para gerar contraste e renovação, ter uma estratégia inovadora para lidar com nossas amizades, nosso círculo de trabalho, as redes sociais. Temos que conseguir olhar pra um livro mal escrito ou incompleto e conseguir propor uma versão, o seu acréscimo ou supressão. Transforme as coisas e estabeleça o seu nível de qualidade. É importante não se contentar fácil com uma comida sem sabor e ir atrás de temperá-la ou criar seu próprio prato. Quando ocupamos uma casa, personalizamos ela ao nosso gosto. É isso que faz dela o nosso lar. Nascemos nus e desajeitados, crescemos cercados de pessoas nos dizendo como ser, o que acreditar, o que vestir ou comer. E com o tempo, vamos criando pequenos atritos e insatisfações, à medida em que ganhamos identidade, autonomia e percepção sobre nós mesmos. Passamos a querer nossas próprias coisas, do nosso próprio jeito, para nossa própria satisfação.

Nosso corpo, nossas roupas, nossa casa, nossos espaços simbólicos na internet, nossas artes, nossas falas, nossos pensamentos, nossas análises e estudos sobre o mundo, nossas viagens, nossas amizades e tudo que se conecta, de alguma forma, em qualquer grau, conosco, está alí pra ser visto, filtrado e transformado ou recriado. Quando você chega por aqui e se depara com um texto, você não é obrigado a concordar com nada e é, inclusive, incentivado a fazer tua própria interpretação e a ser também um escritor. Seja autor da sua vida, seja o protagonista de sua história, sua mensagem, sua realidade. Crie o seu mundo e apresente seu mundo ao outros. Viver só faz sentido se você acredita muito naquilo que você é e faz. Do contrário, o mundo lhe parecerá um fardo, pois estará sempre tendo que se sujeitar ao que é alheio e não te agrada. O mundo se torna melhor, quando você experimenta ele da sua própria maneira. E pode ser que a sua maneira seja algo interessante pra mais gente também.

Se você pode, comece hoje a dançar, a cantar, a desenhar, a escrever, a caminhar, a aprender algo novo, a ensinar algo para o mundo. Converse da tua própria maneira, com as tuas manias, tuas gírias, teu tom de humor, teus temas preferidos ou até mesmo o silêncio, caso lhe agrade. O padrão de qualidade das coisas, não precisa ser algo que você espera sentado e torce pra dar certo. Você precisa, antes de tudo, torcer pra você mesmo dar certo. Os outros estão fazendo as coisas ao modo deles (ou talvez não) e você não precisa embarcar no modo de ninguém, se isso não contempla suas exigências. Eu, por exemplo, quando me cansei de ver a inundação de conteúdos que eu não acreditava nem valorizava, fui atrás de ser eu mesmo um criador de conteúdo. E quando fazemos isso em sinceridade, pode ter certeza que vai prosperar. As mensagens se espalham, porque elas tocam alguém em algo sutil, mas muito poderoso, que é a conexão interior com uma verdade, com um sentido, com algo subjetivo, com algo inconsciente. O valor de uma pintura, por exemplo, não está necessariamente na qualidade técnica, mas sim em coisas como o traço, a mensagem, o estilo, o seu jeito transparecendo numa série de obras, etc. Isso cativa pessoas por algo que é quase invisível ou pouco compreensível, mas acontece e é poderoso o suficiente pra agradar, pra envolver, pra motivar, pra gerar aceitação. É isso que faz algo ser novo e forte.

Desligue-se dos medos, da inação, da repetição, do ‘mais do mesmo’, das fraquezas, dos complexos, das inseguranças, dos vícios, das manias prejudiciais pra sua vida e comece a ser verbo. Comece a fazer as coisas, a ser, aprender, sentir, criar, ver, entender, transformar. Enfim, viva a sua vida. Você é um indivíduo e o seu modo de fazer as coisas é e sempre será único. Há espaço para infinita diversidade no Universo. As pessoas podem aplaudir e apoiar coisas diferentes simultaneamente, sem que nenhuma delas perca o valor que tem. O valor das coisas está embutido nelas pelo que elas são e não por nenhum tipo de comparação ou competição. Satisfaça-se, porque tua satisfação renova o sentido da sua vida, tira o peso e pode ser inspiração pra outras pessoas.

Rodrigo Meyer – Author

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Perdemos o que abandonamos.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2007, de autoria de Majorly, da ruína da prisão de Birkenau / Auschwitz, na Polônia.

Muitas das coisas na vida são baseadas num sistema de reciprocidade. É natural e automático que as pessoas queiram benefícios pra suas vidas, porém quando elas deixam de fazer o necessário em troca, elas acabam percebendo o distanciamento, o insucesso, etc. Um exemplo fácil é quando uma pessoa leva uma vida de pouco uso do cérebro e incorre em uma velhice com sinais de esclerose, demência, Mal de Alzheimer, entre outros. Médicos recomendam que as pessoas levem uma vida intelectual mais ativa para assegurar que futuramente não estejam nesses cenários citados. É claro que não é apenas a falta do exercício mental que leva pra esses desfechos. As doenças podem ter inúmeros fatores e boa parte é influenciada pela genética em tom de predisposição. Mas, em paralelo à isto, ocorre o chamado ‘fator ambiental’, que é só um nome bonito pra dizer que contextos, substâncias e ocorrências ao longo do crescimento da pessoa em sociedade (ou fora dela), podem funcionar como gatilhos que impulsionam ou ativam as doenças e características do corpo e da mente vindas da predisposição genética ou geradas de forma isolada ao longo da vida.

Se observarmos com um mínimo de atenção, logo vemos que isso se estende para inúmeros outros setores da vida. As amizades, por exemplo, se não cultivamos e não damos o devido valor, com o tempo deixam de existir. Aqueles números massivos de pessoas que os usuários nutrem nas redes sociais ou até mesmo “pessoalmente”, acabam se tornando só mais um número, se não houver um contato real, profundo e constante. A interação humana ganha sentido e valor quando ela consegue deixar um rastro no tempo. Claro que às vezes sentimos que algo já tem grande valor, mesmo que tenha sido breve, porém isso só se mantém intenso se for levado adiante. Perdemos facilmente os amigos, conhecidos, contatos de trabalho, simplesmente porque deixamos de participar da realidade deles e, consequentemente, eles da nossa.

Nos relacionamentos amorosos, vê-se bem como o abandono e o descaso, acabam por gerar a perda desse relacionamento. Mesmo que unidos pela formalidade ou um teto, inúmeros casais deixam de dividir cumplicidade, felicidade, amor e respeito, simplesmente porque alí já não era nutrido nada disso há muito tempo e adoeceu como um prédio em ruínas por falta de manutenção. O desgaste que vemos nas relações com as pessoas e o mundo são exemplos constantes para podermos observar e aprender que quando não somos mais ativos em algo, perdemos o direito da companhia, do desfrute, do amor, da alegria, do prazer, do significado, etc.

Outro exemplo de como perdemos pelo desuso, são os dons, talentos, habilidades ou similares. Se você é um artista e fica sem criar por muito tempo, é natural que você se torne menos capaz ou que tenha mais dificuldade para chegar nos mesmos resultados de antes. Tudo na vida exige que estejamos engajados o tempo todo, para não ficarmos pra trás. Se levarmos esse conceito para cenários políticos e sociais, também podemos perceber que negligenciar certos assuntos do país ou mundo, acaba nos tirando os benefícios, a qualidade de vida, as conquistas, as liberdades. Este ano, no Brasil, vimos como a ausência do pensamento crítico, da desconstrução dos preconceitos e da Educação em geral, pode gerar a ausência de todo ambiente sadio dessas temáticas. De tanto as pessoas negligenciarem a Educação, por exemplo, estão hoje, aos montes, aplaudindo um ignorante, que é fortemente embasado por um outro pseudo-intelectual que diz coisas insanas como “a Terra é plana” e sentem-se felizes de fazer parte de uma quadrilha que, em última instância, são tão ou mais ignorantes que seus próprios seguidores. Isso mostra que, se as pessoas não fazem uso do intelecto, o intelecto deixa de estar disponível pra elas. E quando isso ocorre, é só tristeza, pois não poderão perceber sua própria condição.

Ao menos nos outros setores da vida, nossas perdas podem ser um pouco mais fáceis de se notar, já que nem sempre comprometem a percepção e a intelectualidade. Um artista inativo, por exemplo, pode até reduzir suas habilidades em algum momento, mas, se tudo estiver bem com seu intelecto, ele saberá reconhecer sua condição, as causas disso e, se quiser, retornar para a condição anterior, treinando e se fortalecendo.

Nos últimos tempos eu estive distante de várias atividades práticas, mas nunca das temáticas em si. A Fotografia, por exemplo, que tive de pausar a prática, nunca deixou de fazer parte da minha realidade. Estive sempre aprimorando, estudando, vendo, compartilhando e pensando em Fotografia. Isso mantém minha mente ocupada com as informações, de maneira que o distanciamento não se concretiza. Enquanto sua mente estiver recebendo estímulos para uma determinada área do cérebro, para um certo assunto ou modelo de atividade, aquilo lhe será fortalecido automaticamente. Alguns gostam de fazer uma analogia entre o cérebro e um músculo, pois de maneira simbólica, o cérebro também pode “atrofiar” por falta de uso / exercício. A questão é que a mente humana é muito mais que simplesmente a parte orgânica. A estrutura invisível que não vemos é, talvez, a parte mais poderosa da nossa mente. É por meio dos nossos pensamentos e da organização das nossas sinapses em constelações de significado, que conseguimos definir se teremos uma mente mais poderosa, mais capaz, mais diversa, mais resistente ou se seremos levados a caminhos de degradação.

Gosto de associar a perda de vitalidade / saúde física e mental com a perda de direitos em geral, inclusive os direitos sociais e políticos. Se analisarmos os dois universos sob o mesmo preceito difundido à pouco, veremos que a inação de muitos diante de si mesmos e do mundo, os leva pra um caminho sórdido de Síndrome de Estocolmo, onde são manipulados por seus próprios opressores a se tornarem fiéis escravos, cegos e ignorantes de tudo que lhes ocorre de ruim. Não é de se espantar que recentemente, diante do desastre das Eleições de 2018, regadas à muita fraude, corrupção e Fake News, tenha surgindo a expressão ‘gado demais’ pra definir essa massa de eleitores sendo encaminhados para o abate social e intelectual, em troca de absolutamente nada. O triste é que, pela inação de uns, o prejuízo se estende também para os que sempre lutaram pelo uso e manutenção de seus direitos.

Por isso, fica a lição de que preservar e exercitar é sempre a melhor saída pra você não terminar ignorante, viciado, preconceituoso, fraco, equivocado, inexperiente, sem traquejo, doente, descontrolado e sem razão. Se você não quer se tornar um entulho na sociedade é preciso dedicar-se firme à sua própria transformação, dia após dia. Todo segundo que você abandona o seu potencial, você cava sua própria miséria. Seu sucesso pessoal (que é só o qual você tem algum controle), está relacionado com as ações que você faz pra si e pro mundo, numa relação de observação, contemplação, troca, ação, compreensão, transmutação, etc.

Tão importante quanto não ser teu próprio fardo, é não ser um fardo pra outras pessoas. Empenhe-se em ser alguém melhor todos os dias, longe de falácias, longe de discursos prontos, de bordões viciados e vazios, longe de pessoas mal intencionadas que transbordam ódio e reinam na escassez da intelectualidade, do bom-senso e da utilidade ao mundo. Fuja pra longe daquilo que te reduz, porque no final das contas, tudo que você vai precisar hoje, lá na frente e sempre, é estar de pé e pleno, mesmo que hoje você não ache nada disso tão preocupante ou iminente. As maiores desgraças da humanidade foram justamente as que foram negligenciadas e tratadas inicialmente como ‘não tão problemáticas’, ‘não tão absurdas’, ‘não tão nocivas’, ‘não tão extremas’ até que fosse tarde demais. O arrependimento foi certo e o passado não pode ser desfeito. Então faça algo de bom no momento presente e todos sairão ganhando, inclusive você.

Rodrigo Meyer – Author

A diferença entre amor-próprio e arrogância.

De forma geral, predomina no mundo pessoas sem amor-próprio e muitas delas arrogantes. Mas qual a diferença entre amor-próprio e arrogância?

Muita gente parece confundir um conceito com outro, por não entender de nenhum dos dois. A verdade é que estes conceitos não possuem nada de similar. O amor-próprio pode ser definido como aquilo que nos faz gostar de nós mesmos, preservar nossos valores, nosso bem-estar e nossa expressão, por exemplo. Ao desenvolvermos amor-próprio, estamos simplesmente cuidando de nós mesmos e dando a devida importância a nossa pessoa. Costumo dizer que quem tem amor-próprio se dá coisas boas. Já a arrogância, é praticamente o oposto disso, uma vez que o arrogante não se dá nada de saudável, por exemplo. O arrogante é aquele que diminui os outros pra exaltar-se como superior, geralmente através de alguma coisa que possua, como, por exemplo, um bem material, uma profissão, um cargo, um conhecimento, etc,  Logo de cara dá pra ver que o arrogante nada tem a ver com uma pessoa que tem amor-próprio.

É comum ver as pessoas dizendo que determinado indivíduo parece arrogante, mas, frequentemente, atribuem isso de maneira equivocada, pois, veem como exagerado e incômodo uma expressão segura de alguém que tem amor-próprio, por exemplo. Se alguém se recusa a aceitar lixo, por exemplo, não significa que é arrogante, apenas que tem amor-próprio pra preferir se dar coisas boas ao invés de lixo. Aquilo que recusamos e aceitamos pode dizer muito sobre quem somos e como estamos em termos de segurança, amor-próprio e outras questões. As pessoas que julgam como arrogante uma pessoa que recusou lixo, talvez pensem assim por elas mesmas aceitarem aquele lixo, justamente por não terem elas mesmas amor-próprio. Então, claro, o contraste entre as coisas aceitáveis vai diferenciar muito estes dois tipos de pessoas e elas não participarão das mesmas decisões ou situações, provavelmente.

Por isso, é importante que as pessoas todas sempre observem quão distorcido pode estar o parâmetro pra medir a realidade. Se uma pessoa não tiver amor-próprio, por exemplo, ela não vai conseguir enxergar de forma realista seus potenciais, suas qualidades, etc. Vai tender a se depreciar sempre, já que não tem apreço por si mesmo. E essa distorção de parâmetros também pode ocorrer ao observar outras pessoas, pois pode acabar na tendência de querer que os outros desçam até seu patamar ao invés de ela mesma subir.

Ao desenvolver amor-próprio, evitamos tudo que nos causa desconforto, prejuízo, reduções, limitações, etc. Em um mundo onde muita gente tenta nos oprimir, nos reduzir e nos colocar em classificações das quais não nos cabe, se não tivermos amor-próprio, podemos acabar aceitando essas situações que nos dão e isso pode se transformar numa terrível crença e um enorme buraco de outras situações piores. Quando a pessoa deixa de se amar, começa a pensar e fazer coisas que lhe prejudicam tão ou mais do que aquelas que foram feitas por pessoas de fora.

É comum ver pessoas com Complexo de Inferioridade, sentirem-se ruins, incapazes, feias, pouco interessantes, não merecedoras de coisas boas. E consciente ou inconscientemente, começam a se contentar com coisas péssimas. Frequentemente aceitam companhias ruins para relacionamentos, por acharem que não conseguirão nada melhor ou que sequer merecem. Às vezes largam os estudos ou pouco investem em suas carreiras profissionais e outras conquistas na vida. Pessoas que acreditam que não podem ou não merecem ter coisas boas ou que simplesmente se depreciam a ponto de ignorarem fatos, começam a sofrer antecipadamente por tudo e entram em uma espiral de prejuízos.

Com o amor-próprio, tem-se a decisão de endossar a realidade e observar tudo que há de interessante no seu jeito de ser, nas suas características, suas habilidades, etc. O amor-próprio depende de uma segurança adquirida sobre sua própria pessoa. Às vezes as palavras de um parente, um professor, um amigo ou companheiro que você confiava ou admirava pode acabar superestimada como se fosse uma grande verdade, sem a devida reflexão ou comparação com a realidade. Claro que também pode ocorrer o inverso, de alguém receber elogios exagerados e se iludir. De toda forma devemos sempre nos pautar em reflexão e realidade, porque senão estaremos distorcendo nossos parâmetros e isso não nos ajuda a definir um modo seguro pra lidar com nós mesmos e com outras pessoas e situações.

Pode parecer estranho, mas muita gente com baixa autoestima pode acabar se tornando arrogante, mostrando justamente o quão longe a arrogância está do amor-próprio. Nesses casos, são pessoas que ao se perceberem inferiores, tentam, de forma doentia, compensar essa frustração, se impondo aos outros de forma desorganizada, opressiva, agressiva, deseducada, etc. É comum vermos pessoas fracas de cabeça, inseguras sobre si mesmas, se valerem da postura chamada “carteirada” que basicamente é o artifício do apelo para se anunciar como poderosa ou superior, por conta de um título, um diploma, uma profissão, um sobrenome ou algo do tipo. Quando alguém lhe perguntar “você sabe com quem está falando?”, responda “Sim, com alguém inseguro que precisa dar carteirada pra se sentir melhor do que é.”.

Os arrogantes estão aos montes pelo mundo e precisamos saber lidar com eles. Já as pessoas com amor-próprio estão faltando. Precisamos estimular as pessoas a fazerem a natural mudança de visão e conduta sobre a realidade delas. Muita gente não sabe bem porque não tem amor-próprio e às vezes sequer sabe que não tem. É preciso orientar as pessoas e indicar algumas opções sobre como elas podem rever a si mesmas, apenas arrumando o parâmetro distorcido. Um banho de realidade pode ajudar muita gente a acordar de ilusões.

Muita gente perde o amor-próprio porque mede seu valor com base no que os outros dizem ou numa lista de conquistas ou perdas que eventualmente teve. Não deve ser assim. O valor de uma pessoa não é medido pelo que ela conquista na vida. Tá cheio de gente tóxica no mundo que conquistou bens materiais, empregos bem remunerados, uma suposta família, viagens, suposta socialização, etc. Mas será que essas pessoas são pessoas de valor? O que dá valor a alguém não é nada disso. O mundo carece de pessoas excelentes em si, interessantes, capazes, agradáveis, bem-resolvidas e vitoriosas. Nada impede, porém, que você tenta buscar conquistas profissionais ou estudo ao mesmo tempo em que não veja isso como sinônimo do seu valor como pessoa, afinal como são coisas diferentes, podem ser obtidas simultaneamente se você quiser.

Se a pessoa tiver algum trauma de infância ou alguma situação prévia que a faz distorcer sua valorização, seja pra mais ou pra menos, é preciso resolver isso antes, senão não conseguirá mensurar com clareza qual o nível de transformação que precisa ofertar pra si mesmo em termos de qualidade, realidade, bem-estar, mérito, etc. Muita gente pode conseguir essa solução ajudando a si mesmo, o que é, inclusive, um dos mais importantes atos de amor-próprio, pois é começando a se ajudar que você mostra pra si mesmo que você é importante pra si, que você tem algum amor-próprio. Mas não menos importante, é a possibilidade de buscar ajuda externa, como um amigo, um psicólogo, um terapeuta ou qualquer pessoa que você decida como útil ou importante na hora de você buscar uma análise e mudança de suas condições, visões, etc. Independente do método que escolher, busque sempre se lapidar pra ter o melhor que puder pra si mesmo. Ao reconhecer o benefício que é sentir-se bem consigo mesmo, confiante e apreciador da liberdade, verá como isso também é importante pra todas as pessoas do mundo e começará a agir de forma a incentivar isso nas pessoas todas. É isso que garante que sociedades progridam de forma harmônica ao invés de entrarem em conflito.

Indivíduos que escolhem o amor-próprio, almejam inclusive se dar o benefício de um coletivo social que lhes faça sentido, lhes faça bem, lhe permita viver em paz, em harmonia com os demais. É quando se nota que depois de transbordar amor-próprio, estamos prontos pra dar amor pra outras pessoas. Pra mudar o mundo, cada indivíduo precisa mudar a si mesmo. A sociedade é apenas a soma de todas os indivíduos. Faça o seu melhor pra você e acabará fazendo muita coisa boa também para os outros.

Rodrigo Meyer

Rir ao lembrar de momentos de 10 ou 20 anos atrás.

Para muitos, esse é o tempo de uma vida. Para outros são fases de uma experiência maior. Viver é basicamente uma linha evolutiva de aprendizados e experiências ao longo do tempo. Desse ato de viver, escorrem lembranças, prazeres, sensações, gatilhos, emoções, conhecimento, sabedoria e tantas outras coisas. Tudo que somos hoje é reflexo do que processamos anteriormente. Todos os contextos e detalhes da nossa pessoa e nossas relações com o mundo e outros seres transformam nossa consciência, nosso corpo, nossa vida, nossa memória, nossa história, nossos valores, pensamentos e momentos. Somos sempre diferentes a cada segundo. E quem não muda, já está morto.

Sempre me pego em momentos onde estou experimentando o passado novamente. Rindo de piadas que dividi em algum momento com pessoas que me eram valiosas na ocasião. De certa forma é como uma saudade, pois gostaríamos de voltar a ter aquela experiência. Talvez por isso mesmo é que fazemos esse resgate na memória para revivermos essa projeção do momento para rirmos novamente, relembrarmos um abraço, um olhar, uma frase, uma ideia ou uma situação.

Bom é olhar pro passado e ter muito pra se orgulhar de tudo que fez e foi. Eu estou sempre agradecido por ter feito da minha vida algo próprio, num universo próprio. Isso não significa que não tenha dividido esse meu mundo com inúmeras pessoas. Na verdade, foi por estar tão assentado em meu mundo que pude, com muita firmeza, oferecer minha realidade à todos os que se aproximavam de mim. E foram momentos incríveis de muitas trocas e transformações. É como se conectar finalmente com alguém que seja compatível conosco, tal qual um eletrônico que finalmente encontra o modelo certo de conexão para ter função e ir adiante no seu objetivo.

A satisfação de poder reviver o passado é tão somente a certeza de que tivemos bons momentos. Mas, se ao olharmos pra trás a saudade pesar de forma pejorativa, então algo incompleto ficou nessa história e precisa ser reavaliado e/ou corrigido. O passado não deve ser um peso em que sentimos que perdemos algo, mas sim algo que nos faça sentir ter acertado nossa jornada, nosso caminho de progresso pessoal. Ficar em paz no momento presente depende de estarmos bem resolvidos com nosso passado e não termos nenhuma ansiedade desnecessária com relação ao futuro.

Às vezes parece que dentro da vida existem várias outras vidas. Em cada fase vivenciamos momentos que não sabemos quanto tempo vai durar e quão importantes serão posteriormente na história maior dessa cronologia. Tudo que sabemos inicialmente é que estaremos diante de pessoas e situações e a medida em que as conhecemos vamos definindo um norte para seguir. Como navegantes em mar desconhecido, tudo que temos pra nos basear são as referências próximas do que gostamos e não gostamos, de onde está mais confortável ou desconfortável e o que nos preenche de maneira mais intensa ou menos intensa.

Embora não existam garantias, não podemos abandonar os momentos com medo do que eles possam se tornar no futuro, principalmente sobre a possibilidade do término desses prazeres ou da nossa guinada de interesses na vida. Tudo que devemos fazer é aproveitar o momento, pois só ele é real e ignorá-lo por medos ou incertezas é a receita garantida pra não vivenciar nada além da superfície e terminar a vida infeliz, sem experiência, sem sabedoria, desperdiçar seu tempo e também o dos ouros.

A coisa mais produtiva que você pode fazer pro seu bem-estar psicológico, físico, emocional, intelectual e até mesmo espiritual é se entregar verdadeiramente a cada novo momento. Ninguém poderá evitar que no meio de tudo que existe no mundo, algumas coisas não sejam tão boas como pareciam inicialmente, mas também é verdade que nos surpreendemos muito diante de coisas que começam pouco interessantes e se mostram sensacionais ao longo do tempo. Histórias são construídas e divididas e não nascem prontas. Você nunca poderá saber o que te espera na próxima curva da sua vida e, mesmo com todo filtro que tenhamos, ainda somos consciências explorando um infinito ao redor. Permita-se opções novas, diferentes, improváveis, maiores, melhores e deixe tudo ser tão intenso quanto você tiver potencial pra ser e desejar em si mesmo.

No final das contas é isso que vai te permitir também chegar em certa idade e rir de coisas que ocorreram há 10 ou 20 anos atrás. Talvez você ria de seus próprios erros ou simplesmente reviva seus acertos. Importante é que sinta-se em espaço novo, renovado, mais inteligente, mais flexível, mais sorridente, mais vivo, mais interessante, mais divertido, mais feliz, mais tranquilo, mais amigo, mais bonito, por dentro e por fora. Qualquer hora o tempo passa, a vida te escolhe pra avaliar e você é obrigado a levantar o tapete e lidar com o que ali tiver escondido e negligenciado por tanto tempo na vida. Melhor, então, que sua vida tenha sido construída de maneira leve, transparente e justa. O resto, com boas companhias, sempre se ajusta.

Rodrigo Meyer

Dizer a verdade gera inimigos. Como proceder?

A imagem que ilustra este texto é parte da obra “Pain and fear, pain and fear for me, alive or dead, no hope, no hope.”, de Nicholas Nickleby (1875, talvez), obtido pelo “Fondo Antiguo de la Biblioteca de la Universidad de Sevilla”, na Espanha.

Qualquer que seja o ambiente ou situação, existe, infelizmente, uma barreira presente na sociedade diante do que é dito. Como já consagrado pelo ditado popular, existem as mentiras doces e as verdades amargas. E uma sociedade composta de imaturos prefere o aconchego do doce, mesmo que seja uma mentira. É compreensível, mas não é saudável, então é preciso que façam decisões sobre isso, pois nem tudo que parece bom ou ruim, é de fato.

Estabelecida essa premissa, precisamos entender um pouco mais sobre como as pessoas se relacionam com a comunicação. Quando conhecemos alguém, estabelecemos máscaras de comunicação que ofertam nossos ideais de interação e uma dose de respeito como premissa de convívio social e aproximação menos agressiva, pra não gerar afastamento e defesa. Queremos estabelecer contato e pra isso facilitamos o contexto pra que possamos ter mais sucesso na tentativa.

Começamos quase sempre tranquilos e sorridentes. De alguma forma isso contagia a pessoa e coloca o espectador a nossa frente também em postura mais tranquila. Desde que seja convincente, o outro lado sempre se molda ao que oferecemos. É impensável imaginarmos que alguém reaja violentamente à algo positivo e agradável, exceto se a pessoa tiver alguma tipo de distúrbio mental que cause reações anormais. Aliás, tocar nesse tema, nos faz lembrar que, embora não exatamente doentes no sentido mais drástico, a maioria de nós tem condutas patológicas em algum nível. E isso é tão comum que chegamos a dizer que é ‘normal’. Não é normal mas é comum de tal forma que aceitamos com menos ressalvas e assim vamos empurrando com a barriga os problemas sociais e psicológicos nessas relações pouco produtivas.

Uma das coisas mais difíceis da comunicação é plantar verdades. A verdade em si não é necessariamente agressiva, mas quando entra em contato com um receptor fragilizado e adoentado, ela age como um álcool em contato com uma ferida exposta. Faz arder, incomoda, revela que ali há um ser frágil com problemas que se contrastam com a ação do álcool. Mas, não podemos dizer que o álcool é agressivo. É apenas álcool. Se passado em uma pele sem feridas expostas, nada causa, além de frescor e limpeza. Então, claro, o problema está na ferida exposta. É a partir disso que precisamos entender a comunicação.

Quando entregamos uma informação realista pra alguém, há duas possibilidades. Ou essa pessoa está fragilizada e reage com incômodo diante da verdade / realidade ou aceita tranquilamente, reflete, tira o proveito possível e segue adiante. A pessoa saudável e equilibrada não está em situação que possa se sentir atacada por algo que não ataca. A verdade passa a não parecer ‘amarga’. Exatamente por isso, a pessoa acostumada a preferir verdades não tem interesse pela mentira que só acumula irrealidades inúteis. Então, de certa forma, a mentira é que se torna amarga. É o caso, por exemplo, quando desprezam um mentiroso, bajulador ou um contexto de enganação. E isso tem muito impacto em grupos e culturas. É preciso vigiar.

As pessoas gostam de ouvir que são as melhores, que são bonitas, inteligentes, divertidas, agradáveis, interessantes e capazes, mas nem sempre isso condiz com a verdade. Algumas vezes, se quisermos ajudar alguém, teremos que expor as realidades pra pessoa com objetivo de fazê-la entender onde ela precisa mudar ou melhorar. Com a mentira não conseguimos ajudar nada nem ninguém. Se alguém vai pleitear uma vaga de emprego e não preenche os pré-requisitos pra vaga, é inútil fingir o contrário. O mais assertado é dizer-lhe onde ele precisa investir pra chegar a ter o mesmo que a vaga exige.

A verdade é extremamente desejável por quem sabe que ela não é nada mais que a verdade e que, portanto, ela é indispensável pra quem quer parâmetros pro seu progresso. Quando recebemos feedbacks, podemos virar os olhos pra algo que não estávamos notando na ocasião. É importante que as pessoas digam o quanto estamos acertando em um relacionamento, em um trabalho, uma atividade, um projeto, uma conduta social, um papel, um modelo de encarar a vida, uma visão diante de um tema, etc.

Mas raramente isso vai ocorrer, porque a maioria das pessoas não está nesse patamar de equilíbrio diante das críticas. A maioria delas sequer está pronta pra aceitar avaliações sobre si, pois possuem complexos e inseguranças que as fazem resistir ao contato com a verdade, como uma proteção.

Ciente de que as pessoas não se ajustarão da noite pro dia, temos que lidar com o fato de que, por muito tempo adiante, a grande parte das pessoas ainda se converterão em nossos inimigos, caso tentemos expor verdades. Dizem que no topo é solitário. E essa é a exata expressão de como a subida pela montanha do progresso nos faz percorrer trilhas cada vez menos habitadas, justamente porque a maioria demora mais pra progredir, ao se prender a dores e receios que as coloca sempre na desistência do necessário. Recusam uma verdade hoje aqui, outras duzentas verdades ali, e quando se dão conta se afastaram de todos os importantes feedbacks que poderiam ajudá-las a se tornar pessoas melhores em menos tempo. Essa diferença de aceitação da realidade é que gera diferentes níveis de progresso entre as pessoas e é tão somente por isso que umas estão mais ao alto na montanha e outras mais abaixo. Mas todos temos potencial pra nos transformarmos. Basta pararmos de negligenciar o necessário e automaticamente vamos arrumando os problemas e avançando de nível na nossa própria vida.

Embora isso pareça fácil e óbvio, é complexo. E muita gente sabe que, embora seja o certo a se fazer, evita mudar, pois sabe que mudanças geram incertezas. Sabem, sobretudo, que se mudarem pra melhor, ficarão um pouco mais solitárias, pois há menos gente ao nosso lado quando somos um álcool pra tantas feridas expostas. Vamos torcer pra que as feridas se fechem e as pessoas superem a realidade, passando a usá-la como degrau e não como ofensa. Aprender é simples, mas como dizem, “difícil é fazer o simples”. Vamos mudar o mundo? Pra isso precisamos, primeiramente, mudar a nós mesmos.

Rodrigo Meyer

Pare de acumular objetos.

A maioria das sociedades pelo mundo vive em torno de modelos políticos e sociais que dão destaque pro consumo, pra posse e pro acúmulo de tudo. As pessoas são acostumadas a adicionar, adicionar e adicionar. Já não sabem bem o que cada coisa é e pra que serve e já não sabem nem mesmo o que fazer com tanta coisa ao redor. O assunto poderia girar em torno apenas da questão ambiental de como já não temos mais espaço para estocar lixos que demorarão mais de 400 ou mil anos pra serem desintegrados e absorvidos pela natureza. Mas o problema é também de outros tipos e eu gostaria de abrir a sua mente hoje pra importância de levar uma vida minimalista.

Por muitos anos eu fui um desregrado colecionador e demorei pra entender o que estava por trás daquele hábito. Claro que nem todo mundo que está acumulando coisas é um colecionador e muitas vezes não se trata nem mesmo do acúmulo, mas da constante repetição em adquirir e descartar grandes quantidades de coisas que tem pouca ou nenhuma função e que ocupam nossa mente, nosso tempo, levam nosso dinheiro e nossa saúde física, mental e até espiritual.

Eu sou da área artística desde sempre, passei a infância desenhando, pintando e escrevendo e de certa forma achava sensato acumular referências visuais pras minhas criações. Gostava de acompanhar a estética de tudo, as obras de outros autores, as capas de livro, as diagramações de revistas, os flyers de eventos, os objetos de decoração, as miniaturas e uma infinidade de coisas que chegam até nós por vários motivos e fontes. Segui a adolescência em cursos como o de comunicação visual e depois parti pro curso de Fotografia e pra faculdade de Comunicação Social, Publicidade e Propaganda.

Tudo isso me fez acumular livros, fotogramas, mídias impressas e qualquer coisa onde eu pudesse contemplar forma e função. Mas tardou pra eu descobrir que eu não precisava acumular os objetos em si pra absorver as referências ou aprendizados sobre as formas e funções daqueles itens todos. Era só o colecionismo falando mais alto sob o pretexto das áreas de criação.

Chegou um tempo em que eu estava agrupando até papeis em branco, na esperança de que seriam úteis em algum momento pra escrever, desenhar ou o que fosse. E como todo entulho, estava pesando não só emocionalmente como fisicamente. Eu só fui me dar conta do excesso que era tudo aquilo, quando tive que mudar de casa e tive um trabalho gigantesco pela frente. Além de tudo o que vinha sob o pretexto da arte e criação, tinham também os objetos de valor emocional, como os presentes ou resíduos da interação com as pessoas. Cartas, broches, canetas, bonecos, anéis e todo tipo de pequenas coisas que, juntas, eram uma montanha. Sem me dar conta, as gavetas e armários estavam cheios de bobagens, cabos de equipamentos que sequer existem mais, canetas sem tinta, fragmentos de objetos quebrados que jamais arrumei, potes, caixas e tampas dos quais nunca utilizei, cobertores esquecidos, roupas esperando por um reparo de costura, clipes de papel, pastas, plásticos e peças de computador.

Soltos, esses objetos parecem normais, mas quando somados e colocados pra fora, nos damos conta que fomos longe demais. É difícil nos mantermos sem todos esses resíduos. Tudo que chega até nós gera resíduos. As caixas das embalagens, os acessórios dos eletrônicos, cabos, adaptadores, capas, panos especiais pra limpar monitores, adesivos, papéis de boletos e propagandas pelos correios, plásticos e latas das compras, sacolas e os próprios produtos que, se não tivermos bem com nós mesmos, viram uma jornada rumo ao consumismo.

Às vezes ficamos apegados a objetos porque atribuímos valores pessoais e emocionais para cada um deles, como se fizessem parte de uma experiência ou momento que tivemos ou que gostaríamos de ter. E se nos colocarmos pra fora do cenário e observar tudo isso de longe, de forma fria e neutra, veremos que nada daquilo cumpre as funções que imaginamos. As idealizações nunca concretizadas e o ilusório peso emocional desses objetos estão apenas na nossa mente se assim permitirmos que estejam. Basta você superar essas ilusões e ter um pouco mais de interesse em se dar bons momentos, mais leveza e prazer, que logo você vê a necessidade de se livrar de tudo aquilo o quanto antes.

Coloque pra fora de sua vida tudo aquilo que não serve mais. Os objetos são a escolha mais fácil pra começarmos essa limpeza, afinal eles não são pessoas e não temos responsabilidades adicionas ao lidarmos com eles. Podemos simplesmente passar adiante tudo aquilo que não tem serventia e conquistarmos uma vida que é feita de valores mais concretos. É tão mais fácil limpar uma casa com poucos objetos, arrumar um cômodo que não esteja entulhado e encontrar as coisas que você realmente precisa, se não tiver que brincar de arqueólogo e escavar montanhas.

Há também o benefício psicológico de conviver ou trabalhar num ambiente clean onde você absorve conforto a partir do visual. Uma mesa de trabalho sem muita coisa por cima te coloca em um estado psicológico diferente que favorece a criação e o prazer. É como se sua mente estivesse aliviada de não ter que processar toda aquela informação visual a cada segundo que mapeia o ambiente. Isso tranquiliza o cérebro que se foca mais na atividade que está realizando e também faz com que o indivíduo seja mais criativo em razão da necessidade de preencher aquele vazio com algo. Assim como folhas em branco são ideais para desenhar e escrever, um ambiente vazio é o melhor convite para criarmos algo novo.

Por muitos anos eu venho carregando comigo o lema ‘reduzir, reduzir, reduzir’. Tenho feito progressos enormes nisso, pois cada vez que você se livra de uma certa quantidade de coisas, você se sente mais capaz de realizar esses desapegos e sua próxima ação de descarte ocorre mais cedo e de forma mais intensa e livre. Depois de alguns anos praticando essa redução de objetos, eu já não consigo sequer manter os objetos que chegam e já dou o devido destino pra eles de imediato. Não me sinto mais bem em receber ou trazer tanta coisa pra dentro de casa. Mudei principalmente os meus planos de consumo, pois evito o máximo possível de embalagens e resíduos. Procuro fazer o mínimo de lixo possível e de ter o mínimo de distrações inúteis nos ambientes.

Muita gente estranha de ver minha casa pela primeira vez, encontrando ausência de móveis onde normalmente teria em uma casa convencional. Me perguntam porque não coloco tal coisa aqui e ali pra preencher o ambiente. É engraçado, mas as pessoas sentem falta das coisas que sequer tiveram. Incomoda à muitas delas que os ambientes estejam vazios, pois isso destoa muito de como elas estão acostumadas a viverem nas suas próprias casas, seus ambientes de trabalho e também nas visitas a quase todos os demais ambientes que adentram. Ironicamente, quando querem férias do caos, buscam uma praia deserta, uma pousada no vazio do campo, uma cidade pequena sem carros, sem muvuca, uma hospedagem que não tem muito mais que uma cama e uma coberta. E sentem-se felizes. Se esquecem que podem, tranquilamente, levar esse minimalismo pra suas vidas, seja lá onde estiverem.

Vamos nos desapegar do inútil e investir melhor nosso tempo, dinheiro e mente em coisas que realmente precisamos e que vão nos trazer algum benefício concreto e duradouro. Pequenas iniciativas já começam a viabilizar isso em alguns comércios, propondo o não uso de embalagens, vendendo tudo solto, conforme a demanda imediata. Chega de tanto papelão, plástico e isopor pra levar umas castanhas pra casa, por exemplo.

Vamos repensar aquele excesso de talheres, copos e eletrônicos. Monges tibetanos carregam consigo basicamente sua roupa e uma tigela pra se alimentarem. A simplicidade com que levam os momentos é parte de uma grande transformação mental sobre desapego e foco no que é necessário. Eu encarei o desafio de transformar minha realidade de maneira bem similar. Minha meta, sendo fotógrafo e designer gráfico, morando numa metrópole, é manter apenas meu computador, minha câmera fotográfica e algumas roupas. Mas admito que ainda tenho alguns desapegos pra chegar nesse ideal. Ainda terei que dar fim aos livros, a estante, algumas cadeiras e ao excesso de louça na cozinha. Quero ter comigo basicamente aquilo que eu puder facilmente carregar caso resolva sair andando pra algum lugar.

Eu me sinto cidadão do mundo e adoraria sair com a câmera na mão cruzando fronteiras sem me preocupar com nada mais. O simples ato de mudar de casa se torna mais fácil por não precisar ser muito planejado. Bom é estar desacorrentado de todas as coisas e ter a mente livre pra processar a realidade da forma que ela realmente é. Quero deixar meu legado pelo que eu penso, pelo que eu digo, pelo que eu faço e não pelo que eu tenho. Eu não vim ao mundo pra acumular objetos ou qualquer outro peso. Quero passar pela vida como um turista que veio, aproveitou e seguiu adiante para o próximo momento. E felizmente, as coisas de verdadeiro valor não pesam: o bom pensamento, o conhecimento, o bom sentimento e o viver fora desse conceito denso da matéria.

Rodrigo Meyer

Felizmente as pessoas mudam.

Não é algo frequente na humanidade, mas eventualmente as pessoas mudam. Não existe nenhuma regra que determine que precisemos ser sempre do mesmo jeito. Até mesmo nossa personalidade às vezes é descoberta de forma tardia quando nos damos conta de que vivíamos moldes e realidades alheias que não correspondiam com nossa essência.

Mudar é uma necessidade quando descobrimos que aquilo que estamos vivendo, fazendo ou pensando, não nos proporciona benefícios. Muda-se de emprego, de profissão, de cidade, de relacionamento, de postura, de pensamento, de hábitos ou até coisas menores, como o modo de criar, o estilo e até nossas metas futuras, nossas prioridades e possibilidades. Como diz o ditado, ‘só não muda quem já morreu.’

Quando atualizamos nossa mente, atualizamos nossa realidade. A realidade é sempre do tamanho e modo que nossa mente puder enxergar e compreender. Tudo que não vemos na mente torna-se inexistente pra nós. As pessoas tendem a se redescobrir apenas se permitindo ver o que antes não se permitiam. A mente controla a realidade em muitos sentidos. Esteja no controle da sua mente ou será controlado.

Temos que ter uma pitada de esperança, mas sem ficarmos em expectativa pelas mudanças alheias. Em geral, a maioria das pessoas continuará no mesmo estilo de vida e pensamento até o último segundo de existência, tanto pelas coisas boas quanto pelas ruins. Os equívocos das realidades de cada um não costumam ser percebidos à tempo pelas pessoas, principalmente porque elas não olham pra dentro de si mesmas e evitam, a todo custo, a reflexão sobre o que dizem, pensam e fazem. Para estes, a autocrítica ou inexiste ou é totalmente comprometida por falta de sinceridade e interesse de desvendar as verdades sobre si mesmo. Muita gente prefere se iludir com a ideia de que são o último extrato de qualidade do mundo, quando estão bem longe de ser. As verdades amargas não possuem vez para quem prefere mentiras doces.

Mas, há chances de vermos mudanças, mesmo que isso demore. Em algum momento, uma certa quantidade de pessoas estará disposta a mudar e isso poderá nem ser notado pelos demais, afinal o tempo que passaram vivendo de um jeito já os marcou pra vida toda. É difícil reconstruir uma imagem ou retomar a credibilidade diante das pessoas. Trazer algo novo e se reposicionar é uma tarefa difícil. Mas não há outro modo de se fazer e não há também como voltar atrás. Toda mudança é um caminho novo, que carrega certas barreiras por conta do passado. Por isso, quanto mais cedo você puder mudar, melhor pra você mesmo, pois evita acumular muitas dessas barreiras ou ao menos reduz o impacto delas.

Quando eu olho pro meu passado, eu consigo até encontrar um aspecto em comum em todas as fases, mas certamente muito do que estava ao redor desse núcleo mudou bastante ao longo dos anos. Na computação, existe o conceito de ‘kernel’, que é uma espécie de núcleo de um sistema operacional. Por muitos anos, esses sistemas se apresentam de formas novas, com um visual diferente, recursos novos, mas o motor essencial que move tudo aquilo continua o mesmo. Assim eu defino a essência de uma pessoa. E, claro, às vezes o kernel também pode ser refeito quando admitimos que por mais que mudemos por fora, não será suficiente se mantivermos o mesmo miolo. Clarice Lispector dizia que remover nossos defeitos era perigoso pois não sabíamos quais deles eram os alicerces de nossa estrutura toda.

Mas essa jornada de descoberta e transformação precisa ser feita, pois quanto mais procrastinarmos e ignorarmos nossa realidade interior, mais drástico será o momento de mudança. Se você negligencia suas realidades por muito tempo acaba tendo que encarar o terrível monstro que foi nutrido e que muitas vezes destoa tanto da nossa realidade superficial que chega a chocar. Precisamos cuidar mais da essência do que das máscaras sociais que vestimos. Às vezes parecemos gentis e tranquilos e descobrimos que não somos assim ou não o mesmo tanto. Nossos gostos, vontades, interesses, valores, prioridades e tudo aquilo que nos compõem, às vezes ficam mascarados por ideais que não são de fato os nossos. Ficam lá como personagens que criamos e alimentamos apenas pra apresentar à sociedade.

Mas, nem toda mudança é sincera e, frequentemente, você verá pessoas se convertendo à hábitos e estilos de vida apenas por status e aparência ou até mesmo como forma doentia de compensar todo o estrago social ou pessoal que essas pessoas acreditam terem feito. Consigo lembrar, por exemplo, de cantores que passaram a vida em um modelo de conduta e que em certo momento se colocaram em um extremo oposto. Isso pode ocorrer por vários motivos. Às vezes essas pessoas fizeram uma leitura exagerada sobre como viviam e por se sentirem culpadas de terem sido o que foram, sentem uma certa necessidade de exagerar no sentido oposto, pra tentar compensar o passado. Mas isso não funciona porque geralmente não é natural e real, mas apenas uma fachada forçada.

Mudar por fora não importa. A única mudança real é a que ocorre internamente. A sua mudança de pensamento precisa vir acompanhada de outras mudanças. Não basta acreditar que seu estilo de vida era ruim ou que sua realidade não era benéfica pra si mesmo. É preciso ter passado por experiências práticas ao longo da vida que o colocaram em novas posturas, novas absorções de valores e realidades. Sentir e viver a realidade de maneira transformada é que dará a transformação que você deseja pra si. Você muda, quando finalmente as coisas já não são como eram. Você descobre que nada é permanente e que a coisa mais preciosa que temos é a capacidade de nos transformarmos.

Quando escolhemos abandonar certos ambientes, as pessoas ainda nos querem por lá, pois não sabem nada sobre nossas mudanças internas. Quando escolhemos abandonar certas pessoas, também somos cobrados, porque estas não entendem pra onde queremos ir e com o que já não queremos estar, pois mal sabem, geralmente, o que eles mesmos são e pra onde estão indo. Mudanças geram mudanças e deveríamos, inclusive, forçar algumas para colidirmos com outras. Procure sempre viajar ou mudar de casa e verá como isso transforma a realidade, com novas oportunidades, novas pessoas, novos desafios e novos pensamentos. Suas prioridades mudam e você muda. Permita-se coisas novas e você se renovará. Deixe ir embora aquilo que já não serve mais, que já não faz você sorrir, que já não faz sentido, já não é importante, já não te representa, já não te segura, já não te dá prazer, já não te faz ir além.

Rodrigo Meyer