E se você encontrasse uma pessoa igual a você?

Sempre ouvimos bastante aquela ideia de que boa parte das pessoas está buscando amigos ou relacionamentos amorosos com um critério de afinidade. É uma das opções. Mas será que as pessoas são sinceras e justas com a verdade ou será que interpretam isso da maneira que as convém? Será que as pessoas buscariam e aceitariam alguém que fosse exatamente como elas? Vamos desenvolver isso.

Normalmente, as pessoas que desejam afinidade com outras expressam uma satisfação quando se deparam com aspectos em comum ou compatíveis, como, por exemplo, o gosto musical, os principais hobbies, espiritualidade e crenças, ou estereótipos do lifestyle. Porém, essas são coisas que não determinam praticamente nada do que uma pessoa de fato é. É possível encontrarmos todo tipo de pessoa com gostos musicais semelhantes, mas que não possuem afinidades sólidas além desse fator de personalidade. Mergulhando mais fundo na essência das pessoas, pode-se perceber que há muitos outros fatores pra se pesar na hora de medir compatibilidade ou afinidade com alguém. Mas, imaginemos que duas pessoas sejam iguais em absolutamente todos os fatores internos. Surgem casos tragicômicos e vou descrever alguns.

Você já deve ter visto várias pessoas que apesar de gostarem de gritar, odeiam quando o grito chega para elas. Gostam de comer e largar a louça suja pra outra pessoa lavar, mas ficam logo incomodados se todos os demais ao redor fazem o mesmo que ela, já que ela nota que não terá pratos limpos para sua próxima expressão de egoísmo em uma refeição futura. Assim, fica claro que essas pessoas não suportariam alguém que fosse exatamente como elas, porque o que elas são, não agrada verdadeiramente nem a elas mesmas. Então, fica a pergunta: se elas não gostam de fato destas características, porque acreditam que outros devem gostar? E porque elas mesmas expressam características que não gostam? Somos um mundo que vive de aparências, lindos rótulos e máscaras, onde muitos tentam tirar vantagem diante dos outros por mero egoísmo.

Refletindo essa lógica, se alguém supostamente é contra a corrupção, não faria sentido se posicionar contra somente com a corrupção alheia ao mesmo tempo que é permissivo com a sua própria corrupção. Percebe? As pessoas que figuram nessas contradições, na verdade, estão apenas expressando egoísmo e hipocrisia e não um valor ou princípio. Elas não são de fato a favor ou contra aquela característica, mas apenas se posicionam contra ou a favor, conforme a conveniência do momento. Se algo vem pra beneficiar a si mesmas, ficam a favor, mas se algo não lhes favorece no contexto, passam a ser contra, mesmo sendo o mesmo tema. Isso é agir por conveniência já que as opiniões e decisões mudam conforme o caso.

Inúmeras vezes vejo as pessoas babando hipocrisia, sonhando com um perfil de uma pessoa pra amizade ou relacionamento amoroso, mas passando reto de toda sua própria realidade. Querem alguém que seja honesto, mesmo elas não sendo. Se esquecem que se alguém for de fato honesto, não vai aceitar um relacionamento com uma pessoa desonesta, pois não vai querer ser conivente com a desonestidade. Por isso, começa a brotar na memória das pessoas frases clássicas da internet, como esta:

“Não exija dos outros aquilo que nem você é.”

Essa expressão evidencia que o ser humano está sempre tentando levar vantagem na hora de obter qualidade dos outros, mas negligencia intensamente a lapidação de si mesmo, pra eliminação de seus defeitos ou aprimoramento sincero de suas qualidades. Numa equação que permanece em contradição, não se chega nunca a um resultado satisfatório. Pessoas que tentam sustentar relacionamentos sem compatibilidade, terminam infelizes, em conflito, por vezes em condutas agressivas ou desvios de conduta como fugas, traições, etc.

As pessoas não precisam de fato serem iguais em tudo e com certeza não existe nenhuma que seja igual a outra. Somos muito diversos e até mesmo onde há muitas semelhanças, há também diferenças inerentes a própria individualidade de cada ser. As pessoas expressam não só uma variação de temas, como também graus ou nuances dentro de cada aspecto. Tudo isso compõe algo irreplicável e, portanto, não corremos o risco de encontrarmos de fato alguém que seja totalmente igual a nós, nem por dentro, nem por fora (já que até gêmeos dito ‘idênticos’ não são totalmente iguais). Mas essa reflexão subjetiva foi proposta pra que pensemos em quem somos atualmente e o que andamos cobrando dos outros. Será que estamos filtrando as pessoas pelas características que realmente importam? Será que estamos priorizando semelhanças superficiais e ignorando totalmente a essência e os princípios das pessoas? Pelo que observo dos relacionamentos que estão fracassando em colisão e desprezo, fica fácil ver que muitos talvez não estejam nem filtrando coisa alguma, que dirá estar fazendo o filtro no que realmente importa.

Um mundo ensinado e estimulado cada vez mais a viver de aparências, já não se envergonha mais em admitir que vive pra sanar requisitos rasos e sem valor, como, por exemplo, encontrar alguém que tenha os padrões que ela deseja na aparência, na escolaridade, no lado financeiro, etc. Embora isso possa ser parte na equação, isso tudo são preferências que não interferem nos princípios. É o tipo de coisa que se ocorrer conforme idealizamos, achamos ótimo, mas, se não ocorrer, tudo bem também. O que temos que prestar atenção real são os princípios. Filtrar as pessoas pelos seus valores ajuda a desviar de pessoas que não possuem nenhuma condição de se relacionar conosco devido a incompatibilidades de primeira importância. É por isso que ‘princípio’ tem esse nome, pois é o que vem antes de tudo e de onde tudo se desenvolve. É como a base ou núcleo.

Eu, por exemplo, quando filtro as pessoas ao meu redor, elenco aquilo que é um princípio e o que é somente uma preferência, pois não vai interferir em nada se a pessoa gosta ou não de se vestir com o mesmo estilo de roupa que o meu, desde que os valores internos dela sejam compatíveis e similares aos meus. Não adiantaria de nada estarmos visualmente semelhantes nas roupas, mas um de nós ser honesto e outro não. É assim que se determina prioridades. E, pelo que me conheço, adoraria alguém que fosse como eu, afinal eu tenho orgulho de ser quem eu sou. Minha personalidade e as coisas que eu tenho por dentro são características que eu realmente gosto e, por isso, gosto tanto em mim quanto gosto nos outros. Estar sincero sobre quem sou e o que busco, ajuda a viver melhor, apesar de não ser recorrente as combinações compatíveis. Se eu tivesse menos filtros importantes, certamente teria mais opções de pessoas pra acolher nesse mundo, porém não seria uma vantagem, pois não formaria um par compatível, nenhum dos envolvidos seria feliz e eu só estaria perdendo meu tempo e tomando o tempo do outro. Por isso, vale sempre aquela frase: “antes só do que mal acompanhado.”.

Respeitar meu tempo, minha liberdade, meus princípios, não me é um problema, mas uma ótima solução. É por conta desse respeito que tenho comigo mesmo, que não me jogo em relacionamentos tóxicos que vão ocupar meus dias e me deixar cada vez mais sem esperança e tempo. Muito melhor que fechar os olhos e sair tateando livros que gostaríamos de encontrar e ler, é abrir os olhos e observar por si mesmo quais são os livros que você realmente quer e os que não quer. Invista seu tempo, seu esforço e sua essência diante das pessoas que já são compatíveis com você e assim você aumentará suas chances de que a pessoa também se interesse por você. Quando você está em sincera harmonia com as pessoas de seu convívio, você já tem um relacionamento de sucesso. Se forem harmônicos para outros aspectos, certamente terão sucesso em outros tipos de relacionamento ou em outros níveis do mesmo relacionamento.

Mas, não esteja numa busca desesperada por isso, pois seu desespero expressa algo que talvez você não queira: outra pessoa desesperada, atropelando tudo e todos para conhecer alguém também. Será uma colisão apressada e não uma apreciação. Deixe que as pessoas te surpreendam e que as coisas fluam no tempo delas. Apenas viva sua vida e siga expressando sua essência natural. Quem gostar de você, estará por perto. Não fique, inclusive, preocupado de, eventualmente, estar sozinho na vida. Vale repetir a frase “quando a gente aprende a ser feliz sozinho, ter alguém se torna uma opção e não uma necessidade.”. Embora o ser humano seja um ser social, muita gente desfruta muito bem seus momentos sozinhos, pois não se sentem ansiosos para ter algo a mais. Socializar não pressupõem que você precise de um relacionamento amoroso, por exemplo, e nem mesmo de estar constantemente com um monte de amigos. Socializar é simplesmente ter um papel social e interagir com essas conexões, sejam elas de qual tipo for. Qualquer coisa além disso é opcional / meras preferências para quem está bem-resolvido.

Presente pra você que leu até aqui: Preciso Dizer.

Rodrigo Meyer

Cultura underground versus estrutura ruim.

No início, toda a contracultura ou a chamada cultura underground apresentava-se em tom de improviso, justamente porque era esse o limite possível naquele contexto. Em um ambiente onde era caro produzir a cultura “padrão”, esse feito limitava a expressão a quem detinha dinheiro ou influência, ou, ao menos, a pessoas que se sujeitavam aos modelos convencionais das grandes mídias ou mídias tradicionais. Criar e difundir conteúdo diferente, na contramão dessa correnteza de ideias moldadas, era achar uma brecha no tempo e no espaço, e fazer acontecer, nas condições que fossem possíveis. Faziam alguma coisa ruim em estrutura ou simplesmente não fariam nada.

Contudo, o cenário de cultura se ampliou significativamente e já não há uma barreira tão limitadora que renegue as pessoas a algo sempre sem qualidade na estrutura ou na técnica. Já é possível, por exemplo, ter um disco de música gravado com pouco recurso e disponibilizar para absorção ou venda via internet, praticamente sem custos. Pode-se ter credibilidade pra se defender uma temática alternativa como opção de negócio viável pra uma casa noturna, um bar, um comércio pautado em um estilo de vida tido como ‘incomum’, etc.

Claro que a cultura, muitas vezes, é exatamente o lado “ruim” que os ambientes ofertam e que o público aprecia, justamente pelo seu estilo, pela tradição, pelo clima do ambiente, pelas referências. Embora o improviso e a personalidade dos lugares tenham peso ímpar nessa equação, isso não significa que as coisas precisem ser ruins em tudo. É possível ter copos limpos, um banheiro onde não se afunde todo o sapato num lago de urina, funcionários minimamente educados e capacitados pra atender o público, etc. E isso é uma observação que faço mesmo sendo um dos que adora ambientes simples e detonados. Dentro da minha realidade de cultura gótica, indie, rock, punk ou qualquer coisa que permeie o meio urbano, é minha cara os becos, beiras de calçadas, esquinas, bairros afastados, apartamentos velhos, casarões sob risco, galpões abandonados, etc. Nem por isso, deixou de ser útil e importante, nos lugares onde isso é possível, um ajuste na estrutura que possa somar pra quem frequenta. Não é preciso sofisticar um lugar pra melhorar sua estrutura, mas não se deve cair no pensamento equivocado de que o ideal de “quanto pior, melhor” é algo pra se levar ao pé da letra e/ou em todos os quesitos.

Se décadas atrás era difícil conseguir ter expressão na sociedade com estas subculturas ou estilos, hoje em dia se tornou algo muito bem recebido dentro dos devidos segmentos. E é claro que isso não elimina a importância ou o papel de apoio pra tudo o mais que surge ainda em condições improvisadas. Ainda há muito underground pra ser expresso, mesmo abaixo de todos esses espaços que já estão bem sucedidos na sociedade. Espaços devem sempre ser gerados, independente de suas condições, afinal toda expressão é um sinal de que alguém quer voz, quer espaço, quer ter seu momento, sua ideia, seu destino, seu valor. Onde quer que olhemos, precisamos entender que tudo é dinâmico e único. Ao mesmo tempo em que alguns cenários querem simplesmente existir, outros já existem e podem progredir, mesmo quando optam por não fazer.

A impressão que tenho, às vezes, é que as pessoas estão, propositalmente, enterrando o investimento na subcultura por medo de ver aquilo se transformar em algo diferente da essência. De certa forma eu entendo esse medo, mas é preciso diferenciar com cautela o que é investir em subcultura / cultura underground e o que é matar a essência ou propósito desse nicho em troca de massificá-lo ou torná-lo a chamada ‘cultura de massa’ ou ‘cultura mainstream‘. Essa competição pra ver quem é mais anônimo ou restrito a pequenos grupos não é algo que deve ser levado a cabo por ninguém que tenha sensatez, afinal o que se espera da cultura, sempre, é difundi-la ao mundo todo, o quanto for possível (desde que isso não contrarie os princípios, claro), afinal, se alguém tem uma mensagem e ideologia expressa em uma letra de música, em um estilo de roupa ou no lefestyle, isso é o que se quer comunicar ao mundo como forma de alavancar reflexões, mudanças, ações, oposições, etc.

Penso que se estamos a nos opor a algo convencional, especialmente o modelo social, de mídia, e estamos tentando quebrar as correntes que limitam a nossa expressão de valores, verdades e ideologias, então devemos ser as pessoas mais engajadas em fazer acontecer essa concretização em nossos próprios espaços. No final das contas, apoiar a cultura alternativa, underground ou a ‘contracultura’ é nada mais que agir pra que a estrutura dela favoreça a permanência do próprio público adepto / simpatizante desses universos.

Relato com tristeza que, muitas vezes, a cultura alternativa se tornou um espaço que abandonou o interesse pelo aprendizado ou pela inovação. Vejo muita gente vestindo os crachás estritamente pela onda ‘cool‘ da aparência exótica e não exatamente pela sinceridade em viver essas realidades em termos de personalidade ou cenário cultural. Muitas dessas pessoas, infelizmente, estão tão viciadas na própria bobagem da pseudo-cultura forjada ao redor do mundo, moldados pelos padrões de pensamento, de moda, de ideias, de conduta, de objetivos, etc., que já não cumprem nenhum papel realista dentro dos cenários alternativos. Há muitos destes perdidos que tornam-se até mesmo famosos nesses meios, apesar da contradição berrante. São tempos onde o underground está perdendo o sentido ou, então, se reinventando em outros cantos ainda mais recentes e anônimos (desta vez por falta de opção).

Observo preocupado os lugares onde a essência é, por exemplo, combate a preconceito, mas borbulham nestes meios figuras completamente opostas a isso. Nada pode ser mais patético e desnecessário, ainda mais pra algo que é tão frágil e restrito como um nicho de subcultura. Talvez o encantamento pelo diferente seja a única coisa que faça essas pessoas se sujeitarem a estar onde sequer são bem-vindas. Talvez muitos destes nem entendam ou nem saibam o que é que cada nicho de cultura ou subcultura representa e, por isso mesmo, é importante que façamos um bom esforço em promover essas realidades, a fim de tornar isso mais visto, mais absorvido e discutido socialmente. Se nunca levarmos o underground pra fora dos subterrâneos da sociedade, talvez estejamos secando a fonte de cultura. Pense que as pessoas não vivem e não criam pra sempre e que a cultura não é só roupa, bebida, música e casa noturna. Vivenciar uma época, uma ideologia ou um estilo de vida é algo que exige das pessoas uma participação geral e full time.

Além de tudo isso que foi levantado é preciso dizer que, mesmo quando nos colocamos em preferência ao underground, a cultura dita ‘padrão’ ainda está ativa e predominante na sociedade, o que nos faz, muitas vezes, ter alguma dependência (seja pouca ou muita) para conseguirmos moldar alguma qualidade de vida, dignidade, etc., afinal, infelizmente, muita coisa ainda está na contramão do que idealizamos e não temos, ainda, todo controle sobre isso. Então, por conclusão, devemos fortalecer os nichos exatamente pra nos vermos a frente de opções que contemplem nossos próprios interesses, nossos objetivos, etc. Claro que não digo isso estritamente sobre os comércios, mas, eles também, afinal são um grande cenário de concentração de pessoas. Eventos e festivais também são  outro modelo similar com faceta de comércio, mas que ainda remete a um aspecto de difusão e comemoração da cultura muito mais do que um simples espaço de venda de ingressos e bebidas.

Em outros textos ainda terei oportunidade de falar sobre outros aspectos dessa temática, em especial sobre as relações humanas, as personalidades e as personagens de cada um nesse grande jogo incógnito que é viver e explorar o significado de tudo. Até breve!

Rodrigo Meyer

Você tem ídolos apenas na Música e Cinema?

Quando falamos em cultura, existe uma tendência das pessoas na atualidade associarem isso a um combinado restrito de música e cinema. É como se todo o restante da expressão cultural sequer existisse. Eventualmente, em menor quantidade, algumas pessoas falam sobre comida, literatura, arquitetura, gírias, hábitos, festividades, folclore, personagens históricos, tradições familiares, tradições locais, costumes, figurinos, modos de socialização, de trabalho, metas, lifestyle, etc. Raras vezes vi alguém incluir como cultura autores contemporâneos de filme ou livro e ainda menos de pensadores ou filósofos que não fossem aqueles bizarros convenientemente forjados pela chamada ‘grande mídia’ para tentar encobrir a triste realidade da ignorância humana.

Navegue por aplicativos ou redes sociais e verá que as principais possibilidades para podemos expressar nossa personalidade diante da nossa cultura está, praticamente, restrita a esporte, música, cinema, televisão e marcas de produtos. Desde algum tempo o Facebook permite destacar ‘restaurantes’ como um dos grupos de informações de nossos profiles. Sejamos realistas: uma rede social desse tamanho lida com a média do público e a tendência de conduta. Como esperado, onde se fala muito de futebol, basquete, baseball e outros esportes populares no mundo ou em grandes regiões, há um espaço reservado pro usuário expressar sua apreciação ou apoio a times, instituições ou eventos relacionados a isso. Em contrapartida, você não verá o formulário das redes sociais, principalmente as que são tão grandes quanto o Facebook, indagarem aspectos “irrelevantes” da vida dos usuários como, por exemplo, seus ídolos na Filosofia ou  suas temáticas de estudo. Para a maioria deles, é mais importante e coerente saber aquilo que as pessoas geralmente estão coletivamente envolvidas. E, por isso mesmo, as redes sociais retratam apenas a limitação dos próprios usuários.

Contudo, o mundo virtual não é o único lugar onde podemos expressar ou exercer nossa cultura ou personalidade. Mas, mesmo offiline, ainda é difícil permear certas áreas da vida ao interagirmos com as pessoas, seja numa conversa ou dividindo atividades. Os campos de interesse da maioria das pessoas parece sumir a cada ano. Infelizmente essa não é apenas a minha visão dos fatos. Em 2016 uma pesquisa mostrava que praticamente metade da população brasileira não lia e que boa parte dessas pessoas nunca compraram um livro sequer na vida. Engana-se quem pensa que isso está relacionado aos preços dos livros, pois outras formas de conteúdos, mídias, produtos e serviços tiveram alta. É comum vermos as pessoas se dobrarem pra conseguir ver um ídolo da música, assistir a um show ou mesmo pagar o caro e péssimo serviço de internet pra poder consumir alguns vídeos de seus youtubers preferidos. Afinal, pra onde está indo o foco da humanidade em termos de cultura?

Não tenho tanta propriedade pra falar de todos os países, mas tenho uma noção geral de como anda a humanidade, por conta do que se torna mainstream em determinados países e acabam por se tornar internacionais e icônicos na televisão, internet e até mesmo na rotina diária de alguns locais, devido a globalização. Como se não bastasse estarem restritos a vídeo e música, grande parte do que consomem é de origem estrangeira, principalmente Estados Unidos e Inglaterra. Antes da internet, absorvíamos cultura estrangeira através de lentas inserções avulsas de viajantes, o que podia levar até 20 anos pra transportar a realidade de uma época para outra região do mundo. No Brasil, foi exatamente isso que ocorreu com o que chamamos de ‘Anos 80’, por exemplo.

Atualmente, o que estiver ocorrendo de tendência cultural em um local, abrangerá simultaneamente os demais países, devido a velocidade com que isso se propaga pelas mídias modernas. Em parte, algo excelente, pois traz diversidade de conteúdos e oxigena o mundo com o que vários tipos de pessoas tem pra oferecer. O ponto negativo disso é que ficamos golpeados com mais do mesmo, já que, em pouco tempo, as pessoas deixam de ter algo realmente próprio pra compartilhar, já que o conteúdo internacional recebido era, basicamente, o mesmo em todos os países. É fácil de resumir isso, fazendo uma analogia com o café: existe água e existe pó de café. Separados, eles são bem diferentes entre si. Mas depois que você os mistura, torna-se a bebida mundialmente conhecida que todos reconhecem o sabor e aparência, mas que já não pode mais ser desfeita pra isolar água e pó. Isso não é necessariamente ruim, pois traz a possibilidade de algo novo e permite que os que tinham apenas água, agora tenham tanto a água pura quanto o café finalizado. Da mesma forma, os que tinham apenas o pó de café, agora teriam também a possibilidade adicional da água. Novos conteúdos, de diferentes culturas e regiões, não são problemas, a princípio, pois são opções adicionais de soluções. Tornam-se um problema somente a partir do momento em que as pessoas se fecham para a criação ou valorização da própria cultura em detrimento do consumo restrito de uma cultura mastigada internacional ou de um país dominante nesse sentido.

Perdemos muito, em termos de cultura, quando abandonamos nosso Cinema em detrimento de grandes produções de Hollywood. Nos tornamos piores leitores e escritores quando abrimos mão da Literatura para focar exclusivamente em filmes, seriados, música e esportes. É evidente que cada pessoa tem preferências diferentes, mas se a ideia é ressaltar a diversidade dos indivíduos, nada mais contraditório do que ter uma massa de humanos, no mundo inteiro, vivendo basicamente sobre as mesmas realidades, os mesmos hábitos de consumo, os mesmos ídolos e áreas de interesse. Diversidade real é encontrar lugares onde as pessoas apreciam filmes americanos ao mesmo tempo em que apreciam outra nacionalidade ou estilo de cinema. Compreende? Se você sair a campo e perguntar para as pessoas quem são seus ídolos no esporte, a maioria conseguirá lembrar das mesmas figuras, provavelmente todas do futebol. Viajando pelo mundo e repetindo a pesquisa, você verá os mesmos nomes sendo citados, uma vez que o Brasil se tornou icônico no mundo pelos jogadores de futebol que começaram aqui e depois partiram pra times de fama internacional.

Tão ruim quanto não conhecer a cultura de outras regiões é conhecer apenas os estereótipos associados a elas. Isso é das coisas mais contraproducentes em cultura, pois já somos imensamente silenciados pelos governos e pelas pressões sociais / familiares. Nos tornamos pessoas moldadas por restrições do que podemos ser, fazer, pensar, ter. Passamos a acreditar nos sonhos alheios e não nos nossos próprios sonhos. Crescemos acreditando que é mais importante e/ou valioso ser fã de um artista da música do que criarmos nossa própria música, do nosso próprio jeito.

Assim como ocorre com a comida, a cultura enlatada também é inferior. A cultura enlatada é industrializada e feita pra ser consumida de forma instantânea e massiva. Talvez seja esse modelo de cultura industrializada que esteja dificultando o surgimento da cultura natural. Corremos o risco de não sabermos distinguir mais o que é artificial de natural. Quando penso nessa ideia, surge na minha mente preocupada a imagem de uma mexerica sem casca, separada em gomos, sendo vendida em uma bandeja de isopor coberta com plástico, pronta para o consumo, para que o fútil consumidor não tenha o “desprazer” de ter que descascar a fruta inteira. Quando me deparei com essa imagem na internet pela primeira vez, comecei a duvidar da capacidade humana. Era pra termos erradicado a fome e miséria no mundo e estarmos nos divertindo com carros voadores e holografia, mas estamos apenas andando pra trás e passando vergonha.

Uns 10 anos atrás, um escritor americano ganhava visibilidade no Brasil. Ainda hoje ouço as pessoas se referirem a ele como algo novo. Consigo entender que cada pessoa descobre os conteúdos ao seu próprio tempo, especialmente se não estiver tão mergulhada em moldes limitadores de moda ou tendência. E é exatamente isso que é o recomendável. É, de certa forma, bom saber que parte das pessoas não está amarrada a determinados modelos de consumo de conteúdo ou mídia. São essas pessoas que de fato estão absorvendo e/ou produzindo cultura natural de uma maneira mais saudável e útil. Essas pessoas é que, frequentemente, podem dividir conosco as ideias ou inspirações de um autor menos conhecido ou até mesmo anônimo. Inúmeras vezes tive minha esperança restaurada ao ver que alguém podia citar nomes na Psicologia além de Freud e Jung. Não se trata de desvalorizar as duas figuras, mas apenas incentivar mais conhecimento, através de outras portas. De maneira igual, está tudo bem conhecer Star Wars, mas o que temos no Cinema além disso? Quando poderemos sentar pra assistir algo que não seja mais do mesmo? Está tudo bem saber quem são os Beatles ou o Legião Urbana, mas quem mais está criando coisas interessantes nas esquinas esquecidas pelo grande público? Percebe?

A cultura, em essência, é tudo aquilo que todos nós podemos gerar, tanto pelos nossos hábitos do dia-a-dia, quanto pelas nossas criações e pensamentos. A cultura é tanto aquele livro que se torna best-seller quanto uma frase escrita em um muro da cidade. Cultura é o ‘arroz com feijão’ tão comum no Brasil, como também aquele prato que cozinhamos pela primeira vez pra tentar surpreender uma visita. É cultura o jeito de se vestir, de falar, de cumprimentar, de trazer algo divertido sobre a própria sociedade ou humanidade. É cultura aquele poema cimentado em um blog, aquele trecho de música autoral do anônimo que ninguém sequer pensaria em pesquisar e aquele projeto de arquitetura rabiscado num papel esquecido na gaveta. Também é cultura aquela turma que se reúne frequentemente num determinado bar, com suas roupas e estilos próprios, seu modo de encontrar entretenimento na noite, suas bebidas, suas piadas, seus planos de viagem, seus abraços, seus pedaços e mais pedaços.

Não existe mundo sem cultura. Tudo que somos é um ato cultural. Deixar a cultura de lado é deixar de exercer nosso próprio potencial humano. A medida em que nos rendemos a mesmice do mundo, nos concentrando somente nos estereótipos e clichês, ficamos menores, mais pobres de coração e de mente. O brilho nos olhos se perde a cada vez que nosso entusiasmo se afoga na repetição de coisas vazias e sem mensagem, pois tais coisas não nos fazem pensar, não nos fazem refletir, não nos incentiva a agir ou mudar, não nos permite exercer intervenções no mundo a nosso próprio favor e não nos desamarra de nossas próprias fraquezas. Tais coisas nos mantém acomodados, convenientemente iludidos e conformados, sem nunca incomodar quem lucra muito dinheiro às custas da nossa falta de percepção da realidade, da nossa precariedade na educação, da ausência de exercício de nossos pensamentos e direitos, como também da nossa facilidade em aceitar a pequenez como opção, pra esse mundo já tão restrito em diversidade. A cada vez que permitimos que o mundo fique menos diverso, damos um voto de incentivo para nossa própria anulação, nossa própria destruição. Nada mais ofensivo  para o ser humano que impedi-lo de sua autêntica transformação. Talvez nossos corpos e mentes estejam se adaptando, mas, definitivamente, não estamos evoluindo.

Rodrigo Meyer

Um bom conteúdo é um tapa educado.

Quando surge a necessidade de um posicionamento sobre um assunto, especialmente sobre algo ou alguém que é demasiado equivocado, a melhor maneira de proceder é fazer um bom conteúdo. Mas nestes casos, um bom conteúdo deve ser um tapa educado, apenas porque é mais eficiente e útil em todos os sentidos. Seja em um vídeo, um texto, uma música, uma entrevista, uma obra de arte ou qualquer outra expressão, o grande trunfo para uma resposta com uma crítica inteligente e eficiente é saber expressar-se de maneira sutil, pelas entrelinhas da sua argumentação.

Embora seja algo raro de se ver atualmente, é gratificante observar quando ocorre. Entre as vantagens desse modelo de expressão está a de que, ao ser educado e sutil, você preserva seu argumento e imagem, não rebaixando nenhum deles a possível reação desequilibrada do interlocutor ou do alvo da crítica. Enquanto do lado de lá, espera-se qualquer tipo de exacerbação infrutífera, sentimentalismo, ódio, falácia e ausência de argumentação consistente, do nosso lado pode, e deve, haver um posicionamento mais inteligente. É o momento oportuno de pegar a explosão desnecessária do oponente e reaproveitar a energia e a visibilidade do estrondo para erguer minutos de atenção para algo melhor que a explosão. É o momento de usar a força do inimigo a seu favor, tal como se faz em algumas artes marciais.

E como se dá um tapa educado? Primeiro é preciso lembrar que ‘dar um tapa’ é um modo de dizer, porque o objetivo não é agressão verbal. É apenas a maneira de expressar um posicionamento onde se encerra de maneira eficiente uma situação, não dando brecha para a estupidez contrária aos fatos,  lógica, argumentação consistente, realidade, etc. Sempre ouvimos dizer a máxima “contra fatos não há argumentos”. E é nisso que sempre devemos nos pautar. Quando você tem a realidade e os fatos ao seu lado, não há como estar errado. Resta, então, apenas curtir o momento com tranquilidade, adornando tudo pra que finalmente a realidade brilhe em quem tentava escondê-la. No fim das contas, um tapa educado nada mais é que trazer a verdade a tona, sem mudar seu tom de voz, sem se exaltar, sem fazer um estardalhaço, já que o simples é simples, o óbvio é óbvio e a verdade sempre é a verdade, mesmo que não gostem dela. Assim, o peso da culpa ficará somente aos culpados, já que, contra fatos, nem os culpados poderão se opor, senão correrão o risco de passar por um um ridículo ainda maior que o anterior.

A educação, nesse sentido, vem de um estado de autoconfiança, segurança e consequente tranquilidade sobre o tema ou situação que se está tentando explorar, lidar ou explicar. Ao observar pessoas pelo mundo, é muito fácil encontrar os que não possuem esses pré-requisitos para tentar sucesso em uma discussão. O que não faltam são exemplos de como o ser humano se desequilibra fácil até das plataformas mais estáveis, já que o problema não são as plataformas, mas os indivíduos mal constituídos em suas estruturas desde sempre, incluso o nascimento, formação familiar, psicológica, pessoal, social, escolar, entre outras. Qualquer pequeno apontamento que você fizer na direção do que já está quase desmoronando, será um impacto suficiente pra por o erro ao chão. Em contrapartida, com a verdade, não há disparo que a faça ruir, já que o conceito de verdade independe da vontade das pessoas. As coisas que são como são, apenas são assim, gostemos ou não, acreditemos ou não. Fatos não mudam e encobri-los não os elimina.

Por essa razão, eu tento inserir meus aprendizados em tudo que eu produzo, especialmente os aprendizados de cunho psicológico, social e filosófico, pois eles ajudam a sustentar o valor daquilo que eu sou, daquilo que eu penso, escrevo, expresso, etc. Isso está presente até mesmo nas fotografias que crio, nas pinturas, nas aulas, nas palestras, nas conversas e em toda iniciativa onde eu precise lidar com pessoas. No final das contas, esse exercício de interação se torna tão parte da gente, que ficamos conhecidos por esse modo de agir. Se torna nossa marca e, assim, o tapa educado parece ser a própria propaganda automática de nós mesmos. Não conheço nada que seja tão completo e eficiente quanto isso. E é o esperado, já que é baseado estritamente na realidade. Difícil mesmo é fazer a ficção ser tão complexa e convincente. Inventar pode ser divertido, mas é difícil e não serve bem a todos os propósitos. Inventar é algo que dá bons frutos na arte fantástica, no entretenimento, mas não na realidade, na argumentação, na lógica, no conhecimento e na prática.

Além disso, um serviço prestado à realidade é o oposto de uma atitude egoísta, já que ele visa o benefício de todos ao invés de tentar encaixar o mundo em uma ficção que massageie o ego de uma pessoa apenas porque ela prefere não endossar a realidade, por conveniência na perpetuação de suas fraquezas. por medo ou falta de coragem de se lapidar ao necessário pra se tornar coerente, íntegra, responsável, verdadeira, alinhada com a lógica, com o conhecimento, etc.

Rodrigo Meyer

Cultura de fachada.

Muitos de nós cresceu ouvindo e admirando Raul Seixas, Cazuza, Legião Urbana e diversos outros nomes marcantes da música. Mas com a vinda da internet, especialmente das redes sociais, onde as pessoas expressam e compartilham massivamente suas realidades, brotou uma terrível conclusão: grande parte das pessoas é um poço de contradição. Vejo gente admirando Legião Urbana, enquanto expressam completa aversão a toda ideia que é expressa nas letras de suas músicas. É intrigante ver as pessoas ouvindo Raul Seixas com imensa admiração e até fazendo covers, ao mesmo tempo em que são desconectados com todo o universo de assuntos, críticas sociais e ideologias apresentados nestas canções.

É inevitável perguntar se essas pessoas realmente apreciam estas músicas ou apenas dizem gostar porque é a única coisa que brota na memória delas com um ar de nostalgia. Certamente muitas destas contraditórias pessoas, parecem estar tão órfãs de cultura que nem a riqueza destas músicas puderam suscitar alguma curiosidade, reflexão ou atenção ao conteúdo. Chamo isso de ‘cultura de fachada’. É como ter um enorme crachá pendurado, mas não ser nada próximo do que o crachá atribui e, pior que isso, ser avesso a tudo que o crachá representa.

Se você pesquisar em redes sociais, verá muita gente passando algumas vergonhas, demonstrando paixão e até fanatismo por conteúdos dos quais elas nada entendem e que, muitas vezes, são expressões opostas ao que elas mesmas são ou apreciam. Muita gente gosta, por exemplo, de citar “Star Wars” como algo incrível e admirável, mas parecem não ter absorvido nada sobre o roteiro e mensagem do filme. É impressionante como uma imagem e um barulho podem angariar muitos admiradores perdidos. Se assemelha muito aquela ideia de que efeitos especiais no cinema vendem mais ingressos do que uma história ou uma boa atuação do elenco.

Não há como negar que a estética de muitos filmes, de muitas artes e até mesmo a sonoridade de muitas músicas são encantadoras por si só, mas isso não significa que se possa estagnar apenas nisso, caso queira admirar os autores e cobrar do mundo um senso de cultura que nem mesmo se tem. As pessoas precisam ter noção do papel de ridículo que fazem ao tentarem parecer críticas, cultas ou envolvidas com uma determinada ideia ou conteúdo a ponto de se expressar como um fã enquanto, ao mesmo tempo, desprezam ou desconhecem tudo que vem dali.

Em tempos mais drásticos, como em épocas de ditadura, ter uma letra útil e liberada era uma certa dificuldade, afinal a censura predominava. Pessoas muito criativas transformaram a limitação em arte duas vezes. Primeiro pela mensagem em si e depois pela habilidade ímpar de substituir ideias por metáforas. Muita gente, inclusive, ganhou fama exatamente pela importância social de suas letras ou da sua ação política através das letras tentando burlar a censura da ditadura.

Esse descompasso entre consumidores de obras e autores, não é uma exclusividade de uma ou outra época. Mas tornou-se mais evidente com a chegada da internet, porque pudemos finalmente conhecer de perto pessoas de todo canto, em diversos níveis de expressão. Gostaria muito que as pessoas tivessem igual empenho para manifestar tanto os seus detalhes nos formulários de redes sociais quanto para criações próprias de arte ou ofício de algum tipo. Sinto falta de ver mais pessoas descobrirem seus talentos ou de encontrarem em alguma arte ou ofício um meio de expressão mais coordenado ou autoral. Tudo está tão seco e repetitivo, como uma casa noturna que apresenta covers por falta de demanda por música autoral.

Clássicos são ótimos e por isso mesmo se tornaram clássicos. Mas é preciso que mais gente comece a criar, pois senão daqui 5, 10 ou 20 anos, não teremos absolutamente mais nada para chamar de clássico além do que já existia. As pessoas não criam, talvez por medo ou até mesmo por falta de estrutura cultural. Fico um pouco preocupado quando vejo uma juventude investindo grande parte de seus salários pra incrementar sons potentes nos carros, mas sem sequer ter interesse por nenhum instrumento musical. Pode se investir em tudo que se quiser. Da caixa de alto-falantes, uma guitarra, uma passagem de ônibus pra dividir espaço num grupo de canto ou até mesmo fazer melhor uso da internet e correr atrás de algum vídeo que ensine a fazer ou aprimorar alguma arte.

Não digo que todos precisam ser artistas ou autores e nem que precisem gostar de tudo que existe pelo mundo. Aliás, nem mesmo a compreensão das coisas é algo que é obrigação, mas é sempre bom ter bagagem, conteúdo, noção da realidade e um pouco de pensamento crítico sobre a vida, sobre as coisas e, principalmente, sobre si mesmo. Acredito que a melhor forma de conhecermos a situação em que estamos é, também, conhecer o mundo todo, as ideias escondidas nas páginas de um livro novo, de uma música com uma letra que antes passava desapercebida, as conclusões obtidas em conversas numa mesa de bar sobre alguma coisa mais concreta do que o que bordões, piadas infantis, fanatismos e preconceitos. Talvez fosse especialmente útil ao ser humano, falar mais sobre o que é ser esse tal ser humano.

Me lembro que quando criança, tive contato com uma determinada instituição. Nunca havia chegado perto, exceto por ter visto um livro presenteado a outra pessoa e conversas de beira de ouvido. Cresci curioso, instigado a querer saber mais. Não demorou muito pra eu buscar e encontrar informações sobre. Mas pelo que havia aprendido, participar de certos grupos requeria ser convidado, como se fosse descoberto e escolhido. Me sentia apto, pois parecia me enquadrar naquilo que eu acreditava que tal grupo exigia. Mal sabia eu que fantasiei demais, pra um mundo onde as pessoas já não são tão profundas. Somente depois de muitos anos, já adulto e desacreditado, fui saber que uma esmagadora maioria das pessoas que se escondiam atrás desse ar de mistério, na verdade não levavam nem eles mesmos a sério. Foi decepção, claro. Esse era eu tentando encontrar ouro onde não tinha.

Episódios similares marcaram muito a minha mente. Sempre fico imaginando como as pessoas que vivem por estas fachadas desperdiçam as possibilidades incríveis da vida, figurando em instituições, comunidades, plateias de shows, livrarias, salas de cinema e na própria internet, sem terem sequer noção de que nada sabem e nada são. Ficam amortecidas por algum efeito mágico, algum ornamento, algum status, algum possível mérito sem haver de fato, apenas por se fazerem presentes ou vinculadas as coisas das quais elas não degustaram ainda.

Soa engraçado até, como se uma criança viesse falar de experiência de vida. É fácil de fazer tal analogia, especialmente quando se pode dizer que ter cultura de fachada é um ato imaturo também. A irresponsabilidade e o descaso diante das coisas que se faz, absorve ou “pensa” pode ser lida como inaptidão para o patamar de certas coisas. Claro que até mesmo na cultura real (a que não seja de fachada) existem níveis de relevância e até mesmo diferentes complexidades ou razões de existir. Tudo que o ser humano produz, é e compartilha, acaba sendo cultura, afinal em termos mundiais, a expressão humana é o que forma a humanidade além da carne e osso. Mas, quando falamos em produção extensiva, intencional, engajada e comprometida com princípios e ideais sólidos, aí começa a haver uma escassez assustadora.

Conhecendo pessoas de outros países, sempre pude ver uma certa ingenuidade delas em relação a como enxergam o Brasil. Apontam aquele estereótipo de cordialidade, calor humano, agitação, felicidade, cores, diversidade, beleza natural e todo tipo de virtudes idealizadas. Mas pouco disso é correspondido de fato e mesmo quando é, não resume a realidade total do Brasil. Somos lidos pela internet, especialmente pelas interações via Youtube como se fôssemos o eterno país do Samba, do Funk e da Bossa-Nova. Ainda somos estigmatizados por limitadas opções como uma culinária pautada apenas em feijoada e tendo apenas caipirinha como bebida. Nada disso é menor em valor, porém onde está o resto da cultura? Será que o Brasil é sempre carnaval e futebol? E apesar de não sermos restritos assim, é basicamente estes estereótipos que as pessoas arrastam na hora de apresentar o Brasil para os estrangeiros.

Outro lado problemático nessa temática de cultura é quando as pessoas tentam transformar modismos passageiros em representações icônicas de nossa própria cultura ou realidade. Me dói o coração ver as pessoas desvendando culturas de outros países com base no que está pulsando nas redes sociais durante um mês isolado na História. Isso não significa, claro, que estes conteúdos também não possam ser absorvidos, mas a contemplação ou entendimento de uma cultura não se dá por algo tão raso e desconexo. Uma pessoa pode viver 5, 10 ou 20 anos em um determinado país e ainda não absorver a cultura local em essência.

Se já é tão difícil compreender e absorver o que já está firmemente estabelecido, imagine se encerrarmos a criação de mais cultura ou de pararmos de ter curiosidade em esmiuçar o significado das coisas, como nas letras de uma música, nas ideias de um livro, nas pinturas de uma exposição, no conceito por trás de uma roupa ou nas sutilezas que constituem os motivos para uma festividade. Acho que o tempo passou por mim e me deixou demasiado deslocado. E se engana que pensa que isso é sinal de apego ao passado. Embora eu seja o primeiro a apoiar e contemplar as modernidades, eu sinto que é exatamente isso que as pessoas não estão fazendo. Sinto como se estivesse sedento por pessoas ousando e morrendo de sede diante de gente que não tem coragem ou competência pra ousar em nada. Estamos perdendo a batalha, estamos sendo substituídos pelo passado por falta de opção. Estamos engordando a internet com Petabytes de semi-conteúdos, mas muito pouca informação, cultura e mudanças. Isso me cansa, me desmotiva e me deixa incerto sobre quem eu quero ser, onde quero estar ou até mesmo se preciso ou não morrer.

E se me perguntam o que é que tenho feito de minha própria autoria, listo minhas investidas em todo tipo de ofício e mídia, mas logo se cansam porque se você é entusiasmado demais com tanta coisa, parece um excesso, um peso ou alguém pretensioso demais. Sinto como se o esperado pela sociedade, em média, fosse nunca fazer nada novo, nada a mais, nada diferente e nada tão profundo. Ouço simbolicamente as pessoas “dizerem” que não devo ler, não devo escrever, não devo falar, não devo pintar, não devo olhar pras estrelas, nem estudar. Ouço também que não deveria me importar com Filosofia, Psicologia, Medicina, História, Astronomia, Idiomas, Computação, Música, Vídeo, Fotografia. Às vezes essas vozes me cansam e eu acabo pausando, mas assim que volto é como se tivesse compensando a parada.

Me sinto com energia, embora não seja o ápice do talento nas coisas que adoro conhecer e fazer. Eu sigo tentando, gosto da experiência em si e de como posso transformar meu dia e o histórico da minha vida apenas tentando. Claro que me esforço pra ter um bom resultado, mas o principal sempre está comigo: intenção e ação.

Rodrigo Meyer

Você sabe o que é Obsolescência Programada?

Este conceito e prática são muito utilizados tanto em produtos materiais, serviços, quanto em conceitos de cultura, moda, educação e outros fenômenos da expressão e interação humana. Dentro de sociedades pautadas pelo lucro, há um incentivo imenso pra que as pessoas passem a consumir cada vez mais. Para isso, as indústrias planejam para que seus produtos se tornem obsoletos cada vez mais cedo, para que as pessoas tenham que comprar atualizações ou novas versões destes mesmos produtos. Isso é a Obsolescência Programada e está presente também em outros setores da vida humana que não só o de compras de bens e serviços.

Se alguém lança uma geladeira no mercado e a população compra, este produto supre os fabricantes por um tempo, mas a fome constante por mais lucro os faz buscar métodos de propositalmente reduzir a eficiência e durabilidade dessa geladeira, para que dentro de um certo período de tempo, ela deixe de funcionar ou deixe de se adequar para as funções esperadas pra algum tempo a frente. As pesquisas científicas são pautadas para descobrir meios de se ter componentes com uma duração prevista. Assim, sua geladeira pode começar a soltar peças, a mudar a coloração de certas partes, a trincar, a parar de resfriar adequadamente, a vazar ou a perder a eficiência no consumo de energia. Esses são só alguns dos exemplos da gama infinita de possibilidades que estão atrelados a Obsolescência Programada.

No campo da informática isso é ainda mais drástico, devido a combinação entre recursos virtuais (internet, software, etc) com os recursos que permitem esse consumo (celulares, computadores, pentes de memória, acessórios, etc). Imagine, por exemplo que você tem um computador. Ele funciona bem, porém você deseja jogar um novo game que está na moda com gráficos mais recentes e necessidades maiores de processamento. Seu computador, então, já não será mais tão útil, devido as limitações de desempenho.

Sua opção seria a de comprar um novo computador e se adequar as necessidades que o novo game traz. Isso em si, pode não ser necessariamente Obsolescência Programada, mas, em paralelo a isso, os fabricantes podem colocar limitações de compatibildiade, propositalmente para que modelos antigos de software ou hardware não sejam adequados para determinada finalidade. Obrigar os usuários a fazer mais compras é uma das principais maneiras da indústria lucrar com algo que não tem uma demanda tão alta assim, a princípio. A demanda é forjada, estimulando os usuários a quererm pertencer a uma determinada realidade ou grupo.

A Obsolescência Programada também pode ser subjetiva, quando, por exemplo, uma empresa lança um modelo de celular novo, com praticamente nenhuma inovação substancial, mas deixa o público desejoso de adquirir, apenas por se tratar do modelo mais recente, uma vez que o status do modelo, do preço e da hierarquia do produto em relação aos antecessores, traz prestígio social em uma sociedade que valoriza mais produtos e aparências do que pessoas e valores humanos. A indústria explora muito bem essa fragilidade de muitos consumidores e estimula essa visão de pensamento na sociedade, pra que acreditem que isso é ‘vencer’ na vida.

Em resumo, as coisas podem se tornar obsoletas por várias razões. Elas podem quebrar rápido, ficarem incompatíveis com necessidades e acessórios novos ou não se adequarem mais ao padrão de status criado e desjado. As pessoas compram novos produtos em decorrência de designs ‘mais atuais’, funcionalidades novas, desempenhos maiores, vício ou compulsão em ter cada vez mais, entre outras coisas. Você já deve ter conhecido muita gente que compra livros sem nunca lê-los, apenas pela compulsão de tê-los dispostos numa estante. Também já deve ter visto colecionadores que acumulam qualquer versão levemente diferente de um determinado item, sem nenhum motivo além da compulsão em colecionar. Essas pessoas podem chegar ao extremo de adquirir centenas de produtos idênticos, onde a única diferença é um número de série diferente ou uma sequência coincidente destes números. Essa estratégia é muito utilizada pela indústria do cinema e do entretenimento, pra vender artigos para fãs colecionadores. A indústria em torno de um filme famoso costuma render muito mais dinheiro do que a comercialização do filme em si.

Também podemos ver traços de Obsolescência Programada na cultura, nas modas, na música, nos filmes, nos hábitos de entretenimento, etc. Ocorre, por exemplo, de gravadoras forjarem bandas sem qualidade real, mas que, com estratégias de apelo a moda, terão, propositalmente, uma existência meteórica, ou seja, muito rápida, passageira, gerando muita demanda e frenesí pelo público-alvo. São criadas para suprir apenas a moda da ocasião e arrecadar dinheiro com shows, produtos, livros, eventos, promoções envolvendo o consumo de revistas e outros produtos, etc. De certa forma tudo isso vai se tornar obsoleto em um curto espaço de tempo e depois terão de inventar / apoiar outra banda ou estilo musical pra gerar uma nova febre / moda de consumo impulsionada pela exploração das fraquezas de adolescentes, crianças e até mesmo de adultos.

Enquanto o ser humano médio for sensível a banalidades e não se resolver por dentro sobre as questões que o motivam a consumir desenfreadamente, a desejar status e compra de bens e serviços superficiais, ele não estará imune da exploração a que é submetido a vida inteira. As pessoas se acostumam com a Obsolescência Programada, pois, embora achem difícil aceder ao consumo tantas e tantas vezes, elas se esforçam e encontram meios para isso, pois preferem estar inclusas pelo consumismo, do que ser a exceção em um grupo. Se esquecem, porém, que se todas elas se negassem a esse consumismo desenfreado, não seriam nem mesmo exceções mais.

Um exemplo clássico de Obsolescência Programada foi quando, no Brasil, os padrões (formatos) de tomadas e plugues elétricos foram mudados de dois pinos para três pinos. Uma mudança simples e sem necessidade, que fez com que todos os consumidores tivessem que substituir em suas casas e comércios, todas as tomadas para o novo padrão, senão não conseguiriam usar eletrônicos novos, devido a fabricação dos plugues incompatíveis com as tomadas antigas. Isso alimenta a compra de uma quantidade gigantesca de tomadas, adaptadores, cabos, plugues e até mesmo de novos equipamentos eletrônicos que se adequem com os padrões atuais. A indústria agradece a cooperação com o bolso dela, mas benefício mesmo não há para o consumidor.

Lembre-se: Apoie os pequenos. Os grandes não precisam mais.

Rodrigo Meyer

Silêncios são melhores que ruídos.

Quando o assunto é comunicação e interação, muita gente acredita que diante da impossibilidade de fazer o completo e/ou ideal, qualquer coisa é melhor que nada. E não é bem assim. Vamos pegar a música como analogia. Se você não pode criar algo harmonioso que valha a pena ser ouvido, qualquer tentativa insuficiente não ficará no meio do caminho entre péssimo e ótimo. Um chiado de rádio fora do ar nunca foi 50% bom na escala de música. Tudo que não cumpre bem-estar a quem recepciona, não está minimamente aceitável para aquela finalidade.

Outra analogia seria a própria matemática para a Engenharia. Não tente construir uma peça com medida diferente da necessária ou fora da margem de tolerância. Se aquilo não cumpre a função mínima necessária, não servirá. Não existe como dizer que uma roda cortada ao meio como uma meia-lua, possa ter metade da função de uma roda plena. Aceite.

Por características pessoais, os ruídos são bem mais incômodos pra mim do que pra maioria das pessoas. Entro em profunda irritação com sons estridentes, berros, cães latindo insistentemente, alarmes, muitas pessoas falando ao mesmo tempo e todo tipo de desastre de comunicação. Independente das minhas características, pode-se analisar a questão do ponto de vista da necessidade e eficácia.

Você nunca verá, por exemplo, chover ouro e soluções quando um cachorro passa 4 horas incessantes latindo. O cachorro é o que menos tem culpa nisso. Ele age instintivamente reagindo em defesa de algum suposto estranho ou inimigo, fazendo o papel ao qual ele se vê encaixado, protegendo o território dele.

Você nunca verá alguém com verdadeiro interesse em aprender ou ensinar, debatendo qualquer pseudo-conversa que seja, por meio de gritaria ou com todos falando ao mesmo tempo. Isso não leva a resultado positivo nenhum e é apenas total perda de tempo mesmo. Pessoas que podem escolher como se portar e agem com essas práticas, estão dando vazão pra própria imbecilidade e descontrole. Essa impulsividade descontrolada nunca fez o salário de ninguém aumentar de forma lícita, nem nunca fez com que uma ideia fosse melhor compreendida por ninguém. É só uma chateação a mais de gente que não tem noção e respeito pelos ambientes onde está.

Você também já deve ter visto situações onde as pessoas aumentam o som do carro em tal altura, que pra tal feito precisam de amplificadores e baterias adicionais. Não satisfeitos de apenas gastarem o dinheiro em vão, tentam fazer isso com algo que importuna a quase todo mundo por onde passa. Quem faz isso tem a mentalidade equivocada de que chamar a atenção é sinônimo de sucesso, mas a única verdade que podemos extrair disso tudo é que pessoas assim, com complexo, que precisam colocar uma melancia na cabeça pra aparecer, só conseguem repelir as outras pessoas enquanto atrai somente pessoas vazias e complexadas como essas. Forçar alguém a ouvir o que você está ouvindo não é só egoísmo e necessidade de chamar atenção pra si, mas é uma das formas garantidas de confirmar sua imbecilidade. Não seja essa pessoa, a menos que seu foco seja em fracassar. Se for esse o caso, fracasse longe dos ouvidos de quem não tem culpa pelas suas questões mal resolvidas.

Então, quando você notar que não consegue apresentar algo agradável aos demais, prefira o silêncio. Não consegue evitar que seu alarme dispare todos os dias, pois não tem tempo ou vontade de consertar o defeito? Desligue o alarme, pois se o alarme não está cumprindo a função real dele, então ele não te serviu de absolutamente nada e não faz sentido gastar eletricidade com algo 100% inútil. Poupe o ouvido de seus vizinhos e seja alguém menos detestável.

Quando não conseguir conversar de maneira agradável com alguém, feche a boca e fique em absoluto silêncio. Observar e ouvir vão te dar opções muito valiosas pra compreensão de inúmeras coisas sobre a vida e as pessoas, mesmo que as pessoas estejam simplesmente falando bobagens. Aliás, quando as pessoas estiverem desinteressantes pra você, sinta-se no direito de mudar de companhia, de ambiente, etc. Você não é obrigado a debater com alguém ou ouvir o que as pessoas tem a dizer. Se todas as pessoas do mundo soubessem o valor do silêncio, menos conversas desgastantes seriam traçadas em vão.

Não consegue compor uma música? Cante no chuveiro, cante só pra você, mentalmente ou simplesmente não cante. Que tal transformar sua inabilidade pra cantar em uma dança ou texto? Ou então, se quer persistir na música, aprenda os meios de torná-la melhor. Incentivo completamente que as pessoas busquem seus talentos e desenvolvam suas habilidades, mas não há necessidade de estorvar ninguém com barulhos que não agregam nada. Quando as pessoas tem o mínimo de noção e perdem o egoísmo, superando complexos e fraquezas, fazem um melhor papel na sociedade, estorvam menos e se tornam mais úteis e queridas. Todos saem ganhando.

Os ruídos também estão presentes em outras formas que não o som. Chama-se de ruído tudo aquilo que é secundário e inconveniente. Um ruído é um estímulo ou conjunto de estímulos que fica em torno de algo ou alguém. Excesso de fios e placas numa cidade podem ser considerados ruídos. Chuvisco e granulações em imagens são ruídos. Também são ruídos toda diversidade de pequenas coisas que ocorrem pelo mundo que, quando somadas, tornam-se uma malha de incômodos que destoa da experiência pura ou limpa de algo. Pra quem é mais antenado com a área de Design Gráfico, já deve ter ouvido o termo ‘clean‘ pra se referir a um estilo de gráfico mais “limpo”, com menos elementos ou até mesmo ‘minimalista’. A experiência se torna mais agradável pros olhos e pra mente quando você simplifica e reduz o excesso de informação, a poluição visual e o excesso de estímulos, seja em cores, variações de fontes, quantidade de imagens, formas, texto, texturas, etc. É o caso de dizer que ‘menos é mais’, uma frase bem famosa no meio de criação.

Juízo, pessoal. Nos vemos em breve.

Rodrigo Meyer

Uma vida ruim dá um bom filme.

O ser humano é sensível a todo tipo de emoções e, por vezes, está em busca de bons momentos, risadas e prazeres. Mas, existe satisfação também diante de conteúdos dramáticos, de dor e pesar. Desde que compreendemos as realidades sociais e as sensibilidades humanas, nos interessamos de absorver conteúdos que falem de tudo isso. Talvez sejam formas de solidarizarmos com pessoas ou ideias próximas daquela realidade ou mesmo de acessar nossas próprias dores interiores e nos vermos representados, compreendidos e considerados.

Não sei exatamente quais são os fatores que nos levam a degustar um filme, livro ou quadro que traga dramas e sentimentos tristes. Mas fazemos isso e gostamos disso. Isso não significa necessariamente apreço pelo sofrimento em si. É a experiência de ver a retratação do tema que nos aproxima desses conteúdos.

Muita gente já disse o mesmo e eu endosso a ideia de que uma vida ruim sempre dá um bom filme. A tragédia humana é um bom conteúdo pra ser exposto e compartilhado em uma obra. Somos pegos pelos braços e colocados diante de situações intensas que nos obriga a sentir o mesmo que sentiram os personagens, artistas e autores. Somos levados a sofrer por alguns instantes a mesma realidade difícil de algo ou alguém.

Relatos de guerra, de violência, de abuso sexual, de solidão, de loucura, de abuso de drogas, de abandono familiar, de prostituição, de fugas, sumiços, mortes, traições, medos, inseguranças, complexos, doenças. Tanta coisa pode ser listada e tanta coisa esquecemos de incluir, pois são imensas as possibilidades. Quase tudo na vida humana é um drama, um dilema, uma dor ou uma história de horror. Queremos sempre buscar entendimento dessas realidades, mas, acima de tudo, experimentamos a conexão direta com a emoção dessas realidades. Nos sobe um impulso imediato de empatia ou até mesmo de culpa, remorso, memória e percepção de nossas próprias posições de vítimas.

Por diversas vezes me vi encantado por filmes e livros de dramas pessoais. Essa recorrência óbvia na minha caminhada pelos conteúdos me fez produzir também. Alguns de meus primeiros ingressos na Literatura, por exemplo, se deu com temáticas densas de dramas ficcionais com imensa inspiração em fragmentos da realidade do mundo em geral. Acredito que todo autor, independente do segmento de sua criação, é um organizador de uma certa ‘colcha de retalhos’ onde utiliza a ferramenta de seu talento e cultura pra exprimir, de alguma forma, esses pedaços que permeiam a sociedade desde sempre. É difícil dissociar uma obra qualquer de um profundo conhecimento humano.

Por darem vazão fácil pra uma boa história, os dramas humanos às vezes são romantizados na mente das pessoas como boas formas de se levar a vida. Claro que, em geral, nada disso é saudável ou mesmo fornecedor dos resultados esperados. Mas, ocorre com certa frequência a aproximação das obras com a realidade das pessoas. É o caso de relembrar aquela frase que questiona se a vida imita a arte ou a arte imita a vida. Ocorrem as duas coisas o tempo todo. São inúmeros os casos de pessoas que sentem-se encantadas por um certo ‘glamour’ que imaginam a certos contextos de vida. Romantizam facilmente a dor como se uma vida feliz e tranquila não fosse intensa o suficiente pra ser memorável. Existe sim uma competição de dramas, onde é mais interessante aquele que sofreu mais em sua vida.

Para muita gente, inserir-se como vítima constante nos meios onde socializa, de certa forma, é como lhe conferir um status de personagem em uma boa história. As pessoas querem construir versões idealizadas de suas vidas, porém pelo viés de uma história de drama. O drama parece vencer, de longe, qualquer outro roteiro ficcional para inspiração da vida real das pessoas. A que isso se deve?

Diz-se que o ser humano só consegue ser feliz se tiver objetivos a alcançar. A estagnação de seus esforços pra conseguir algo, pode deprimi-lo. Em países onde certos aspectos da qualidade de vida já são facilmente alcançados, tende a aumentar o índice de suicídio e depressão. É um sinal de reação ao fato de que as pessoas não possuem ambições de progresso mais, que tudo está “tristemente” resolvido e que elas já não se sentem mais diante de uma competição que as faça buscar mais, melhorar, etc.

Pensando nisso, me surgiu a hipótese de que a busca pelos dramas humanos tenha relação com isso. Seria como se desejássemos absorver ou vivenciar realidades piores pra nos manter entretidos e ativos para a busca de soluções e melhorias. Em uma analogia rápida, é como se um profissional que tem satisfação em lapidar diamantes, sinta-se entediado e triste por só encontrar diamantes já finalizados, sem oportunidade de precisarem da ação dele pra qualquer melhoria. É como se uma vida feliz, por alguma razão, nos deixasse com a sensação de sermos inúteis em vida.

Claro que existe muito prazer em desfrutar felicidades e bons momentos, mas note que mesmo na comédia dos cinemas, há uma tendência a rirmos da imbecilidade dos personagens e não de desfrutarmos momentos ao lado deles. Somos sempre espectadores da fraqueza humana, das coisas bizarras, das cenas patéticas, das coisas desajeitadas, das falhas e insuficiências humanas. Não deixam de ser dramas humanos também, apesar de uma ótica diferente e talvez graus bem distintos dos dramas ‘convencionais’.

Não lembro se de fato já li algo sobre, mas tenho em mente a ideia de que a própria comédia surgiu derivada do drama. Será que somos realmente criadores de segmentações da expressão humana ou apenas descobrimos formas preexistentes de contemplar características humanas preexistentes, como, por exemplo, o apreço ao próprio caos? Como humanos, será que somos tendenciosos a querer nos ver sempre em situações difíceis? Será que, no final das contas, a felicidade e o prazer puro são utopias para a realidade? Em situações assim, cabe muito bem estudar Filosofia, Sociologia, Psicologia, Arte e permear muitos mundos, seja pelo Cinema, Literatura ou pela vivência direta com as pessoas, afinal a vida é uma grande obra em andamento a ser descoberta pouco a pouco. Acredito que a experiência de vida pode dar muitas respostas, mas também suscita muitas novas perguntas. No final das contas, nunca alcançamos a razão e sempre ficamos numa infinita dúvida sobre tudo.

Não sei se isso te ajuda, mas dizem que só a Arte salva. Tentemos.

Rodrigo Meyer

Como é ser autônomo?

Existem muitas formas de se bancar a vida e uma delas é pelo trabalho. Entre as possibilidades de trabalho, ser autônomo carrega um peso no termo que nem sempre tem. Às vezes as pessoas pensam que um autônomo é um desempregado ou alguém que faz bicos pra sobreviver. Um autônomo, na verdade, é qualquer pessoa que trabalhe por conta própria, que leve seu próprio serviço ou produto adiante, sem depender de um chefe. O autônomo é, portanto, alguém que tem autonomia em seu trabalho.

Passei uns 15 anos da minha vida trabalhando com Fotografia e uns tantos outros mergulhado em Comunicação, Editoração, Vendas, Design Gráfico, Literatura e outras coisas. Acredito que boa parte dos motivos dessa diversidade está na própria dificuldade que é se manter ativo com esse modelo de trabalho. Quando se é autônomo, todo investimento parte do seu próprio bolso e, quase sempre, você não tem a estrutura necessária pra tornar-se, logo de cara, um grande profissional. Todo começo é difícil e requer resiliência. Mesmo se você gostar muito do que faz e tiver persistência, ainda sim pode se ver derrapando pra fora dos seus objetivos.

Diferente do trabalho convencional de carteira assinada, o autônomo não tem garantias de que no final do mês terá a mesma renda. Apesar da aparente liberdade que é gerir seu próprio negócio, ser o único responsável pelo seu trabalho e ter certos confortos como poder decidir suas regras, você não está imune a realidade. Acima de tudo, ser autônomo é lidar diretamente com clientes e ter que assumir responsabilidades em todas as direções. Ficamos responsáveis por gerir nossas finanças, nossa propaganda, nossa captação de clientes, o atendimento aos clientes e potenciais clientes, o portfólio de nossos serviços, nossa imagem pessoal, nossos espaços de trabalho, nossos colaboradores, nosso fluxo e horário de trabalho, nossa produtividade, nossos riscos e instabilidades diante do mercado, etc.

Ser autônomo é ter que conviver com a possibilidade de que lhe faltem clientes pra cumprir a renda suficiente pra bancar as contas do mês. Muitas vezes, nossos períodos de arrecadação sequer são mensais, exigindo que controlemos os gastos de quando entrou renda pra que ele dure pelos períodos onde não houver trabalho. Claro que o trabalho registrado também tem riscos. Uma empresa que se veja em crise ou pressão financeira pode acabar demitindo funcionários para cortar seus gastos. E mesmo quando bem estruturadas, podem acabar recusando certos profissionais com base em suas limitações e currículo. O imprevisto não é exclusividade do autônomo. A suposta “estabilidade” da qual o emprego formal leva fama, não é tão real assim e, dependendo do tipo de trabalho formal, torna-se até a pior opção pra quem busca qualquer grau de estabilidade.

Desde que você aprenda corretamente o caminho pra trilhar, o trabalho autônomo pode ser uma forma eficiente de vencer financeiramente, desde que você não esteja na contramão de certas premissas do próprio mercado de trabalho e da sociedade em que está atuando, o que já é bastante difícil, principalmente se você buscou o trabalho autônomo pra fugir dos problemas do trabalho formal. Eu nunca quis emprego formal e desde pequeno sempre imaginava que as profissões que eu teria, sejam lá quais fossem, seriam sempre empreendimentos próprios. E eu tentei isso de muitas maneiras, embora lamente muito não ter recebido nenhum apoio nunca, mesmo que fosse meramente simbólico e emocional. As coisas poderiam ter sido muito diferentes, o que não impede que, eventualmente, sejam no futuro.

Quando você é autônomo você precisa entender não só da sua atividade técnica específica como também das questões ao redor do seu negócio. Ser gestor de um produto ou serviço e, também, de si mesmo como funcionário, é ter a cabeça fervilhando de barreiras, dúvidas, pressões e necessidades. Criar algo que seja relevante, assertivo, coerente com o momento, sem deixar sua carteira vazia é um desafio grande. Você acaba aprendendo muita coisa com esse jogo de cintura, mas também perde muito dinheiro e oportunidades experimentando o desconhecido e tentando corrigir suas falhas anteriores.

Enquanto empresas possuem uma equipe de funcionários trabalhando cada um em seus departamentos, o autônomo faz o papel de todos esses funcionários e mais diversos outros. É um esforço grande, muitas vezes fonte de exaustão física, mental ou psicológica e deixa muita gente desmotivada ou deprimida, principalmente quando os retornos financeiros não condizem com todo esforço feito.

Se você tiver o azar de escolher uma atividade que não seja compreendida e/ou valorizada pela sociedade, você pode se ver pressionado a mudar completamente seus objetivos de trabalho caso queira ter clientes. Isso significa, muitas vezes, trabalhar com o que não gosta, produzir coisas que não tem a sua personalidade e até mesmo a executar trabalhos que não são de fato os realizados por aquela profissão. Muitas vezes como fotógrafo, por exemplo, as pessoas queriam apenas imagens ao invés de Fotografia e a isso a Fotografia não se presta. Essas situações faziam o trabalho parecer caro demais, similar quando uma pessoa que está procurando por patins, se depara com os custos da produção e viagem de um foguete pela NASA. São coisas totalmente distintas. Aparentemente são meios de transporte, mas os objetivos e utilidades não se aproximam em nenhum grau.

Compreendidas as limitações culturais e educacionais da sociedade, os próximos dramas do trabalho autônomo estão mais relacionados com nossas próprias limitações. Investir em aprendizado, atualização, equipamentos, softwares, livros, mídias e tudo que envolve existir por completo no mercado, exige condições financeiras e empenho em aprender. Como o dinheiro já é escasso no começo, todo progresso vai a passos de tartaruga, porque você não pode, por exemplo, bancar um curso sem antes ter clientes para ter renda suficiente pra bancar suas contas comuns mais a conta desse curso. Resumindo, é aventurar-se em tentar chegar o mais longe possível, com o mínimo de estrutura.

Hoje em dia com as plataformas digitais, como Youtube e Facebook, o próprio modelo preexistente ajuda a guiar os profissionais pro caminho do sucesso. Mesmo assim, ainda são inúmeros os casos de pessoas que, pelo extremo despreparo, não conseguem sobreviver nas atividades iniciadas e passam anos andando em círculo em tudo que tentam criar. As plataformas não te ensinam a vencer, mas te dão trilhas bem consistentes de como permanecer no caminho. O restante depende muito do produto ou serviço e da forma como você faz uso das ferramentas disponíveis pra engajar seus clientes nessa caminhada. Muita gente desperdiça dinheiro, tempo e imagem, seguindo equívocos gigantes por efeito manada. Veem muita gente errando e acreditam que aquela prática é o normal. Imitam e erram também, ampliando o efeito para os próximos incautos.

Mesmo quando o autônomo vence nos seus objetivos, permanece a dureza do próprio trabalho que, a medida em que cresce, precisa ser mantido com cada vez mais empenho, pra não correr o risco de ruir da noite pro dia. A melhor postura pro autônomo que pretende se consolidar é ir formalizando e diversificando seu trabalho, de forma a ter mais garantias, caso algo saia errado em parte de suas atividades. Todo dinheiro conquistado deve levar em conta os riscos e inconstâncias e tentar sempre superar a meta básica como forma de estocar renda para os momentos de escassez.

Eu sou um grande incentivador pra que mais gente se torne autônoma, em diversos nichos. Contudo, sei que boa parte das pessoas possui medo de começar um negócio próprio e elas parecem ter mais medo ainda de dedicar estudo real e profundo pra uma área. Enquanto as pessoas acreditarem que as atividades são fáceis, nunca as executarão de forma efetiva. Negligenciar investimentos em estudo e estrutura é a receita garantida pra fracassar logo no começo. E, infelizmente, muita gente não aprende com o tombo e corre pra debaixo das asas do trabalho formal pra chorar suas dores.

Ser autônomo pode ser um modelo bem divertido de trabalho, se você gosta mesmo do que faz. A grande sacada pra sair na frente é pensar fora da caixa e acreditar de verdade naquilo que você faz e nos objetivos de seu trabalho. Talvez você não se torne rico, mas com certeza cada dia de trabalho estará bem justificado na sua vida. Acredito que pessoas criativas e ousadas abrem portas que muita gente evita ou sequer vê. E por trás de portas pode não haver nada, como também pode haver tesouros incríveis. O bom jogo é explorar as possibilidades e ser uma pessoa flexível, curiosa e aberta pro incomum, pro diferente, pro novo, pro incerto, pro inesperado. Todos que venceram, tentaram. Todos que desistiram, garantiram o fracasso. Escolha seu lado, escolha suas ferramentas e vamos pra ação!

Rodrigo Meyer

Aumente suas possibilidades.

A vida não é uma sucessão de acontecimentos pré-fabricados onde basta que estejamos vivos pra experimentar tudo. A vida exige que nós construamos nossas trilhas em direção as coisas que gostaríamos de vivenciar. Não é tão simples como caminhar a esmo pra qualquer direção, mas também não precisamos sempre seguir somente os destinos planejados. A vida é, essencialmente, a exploração de tudo. E isso exige tempo e coragem.

É muito comum as pessoas viverem em bolhas de realidade, onde limitam seus pensamentos e conhecimentos, tomando como base somente aquilo que já conheciam naquele pequeno tempo dentro daquela pequena bolha. Explorar a realidade começa a partir desse rompimento da bolha. Assim como o nascimento só se dá depois do parto. Precisamos ir pra fora do nosso minúsculo beco inicial e começar a percorrer todos os caminhos e possibilidades pra nossa existência.

Precisamos ouvir mais o que as pessoas e o mundo tem a nos dizer. Não só pelas conversas, mas pelos detalhes sutis das coisas, como o silêncio. Precisamos ver mais. Não só as coisas banais a nossa frente, pra evitar de tropeçar, mas também as coisas invisíveis e subjetivas. Precisamos ler mais. Não só os livros e blogs, mas também a comunicação corporal de uma pessoa, seu olhar, seus pensamentos, sua personalidade, seus sentimentos. Em resumo, precisamos sentir mais. Não só pelas experiências do tato, olfato, paladar, visão e audição, mas também pelo sexto-sentido, coração, imaginação e o que mais estiver ao nosso alcance.

A partir do momento que cultivamos novas sementes pra frente de onde estamos, somos contemplados com novas possibilidades. Aquilo que está sendo a nossa vida tem muita relação com o que fazemos dela. Talvez não tão diretamente quanto criar seu futuro ao pé-da-letra nos mínimos detalhes, mas dar a si mesmo a diversidade nesse futuro, cheio de portas e janelas. Se uma árvore não cria galhos e raízes ela não alcança todas as possibilidades de sol e nutrientes. Quanto mais cenários e configurações diferentes nos permitirmos ter, maiores serão nossas chances de encontrar algo relevante. E mesmo aquilo que não se apresenta como útil ou ideal pra nós, nos permite construir parâmetros pra nossa própria caminhada.

Passo muito tempo observando o mundo. Lendo coisas diversas em mídias diversas. Saio pra rua e ouço o que as pessoas estão dizendo, mesmo que, muitas vezes, sejam só bobagens ou comunicação corriqueira pros seus pequenos atos. Quando nos posicionamos ao diferente, criamos parâmetros. Quando me coloco diante de um prédio, me dou conta do meu tamanho tão menor que aquela estrutura e da minha unidade diante de tanta gente que habita aqueles espaços. Quando me coloco ao lado do barulho, descubro meu silêncio e a possibilidade de passar desapercebido. Enquanto todos estão falando, não podem ouvir o silêncio de quem apenas observa.

Em tempos de conectividade cada vez mais massiva, é fácil encontrar conexões entre pessoas, coisas e conteúdos. Ligamos o celular e estamos a um passo de infinitas coisas. Mensagens, pessoas, sites, vídeos, músicas, convites, eventos, traduções, opções, referências, artes, partes, fragmentos pra montarmos o quebra-cabeça da vida. Mas, se não tivermos filtro algum, seremos bombardeados com lixo constantemente. É preciso saber a hora de partir pra próxima realidade, a próxima necessidade. Na busca por novas experiências e novas possibilidades, a rotina não ajuda. O objetivo é justamente não se permitir mais do mesmo. Ao se ver saturado das mesmas pessoas, os mesmos pensamentos, os mesmos conteúdos, os mesmos lugares, é hora de sair sem olhar pra trás.

Nos últimos 3 anos, aproximadamente, estive mergulhado em uma infinidade de contextos, acreditando que estava adquirindo mais diversidade, quando na verdade me entupi de centenas de coisas iguais. E por serem iguais, não traziam valor. Comecei a repensar o próprio modelo de como buscar o ‘novo’ pro meu caminho. Com o minimalismo em ação, me desliguei de tudo que não estava precisando no momento e deixei minha mão vazia, livre pra segurar coisas novas. E sem o peso inútil nas costas, pude andar mais e suportar mais a caminhada. Fui pra lugares mais longe, mais vezes e de maneiras mais diversas. Olhei pro mundo com outros olhos. Eu já não era o mesmo e, por isso, o mundo parecia outro.

Não existe opção melhor na vida do que mergulhar de cara em tudo, com liberdade e com profundidade. Quanto mais vivemos livres dessas amarras invisíveis, mais felizes ficamos, mais entretidos com a realidade e as possibilidades. E é isso que nos motiva a buscar mais conhecimento, mais pessoas, mais ideias, mais valores, mais prazeres e, portanto, mais parâmetros pra decidir como está nossa vida, como esteve e como poderá estar. Abrem-se possibilidades e a esperança por dias mais intensos ocupa uma parte firme da nossa experiência no momento presente. O valor disso é incalculável. Mas, pra viver tudo isso, é preciso deixar o medo e a preguiça de lado.

Comece dizendo ‘sim’ pra “tudo” que aparece pelo seu caminho. Seja mais interessado em escutar o que as pessoas dizem e, melhor que isso, o que elas não dizem. Fique atento ao que está acontecendo na sua casa e no seu bairro, mas não deixe de conferir o que está acontecendo do outro lado da cidade, do outro lado do mundo. Viaje, saia do seu caminho fixo diário e vá ver tudo aquilo que não estava chegando até você. O mundo não vai tocar a campainha de sua casa pra se apresentar. Você é quem tem que percorrer o mundo tocando campainhas e explorando o infinito que habita em cada lugar.

E se algumas experiências não forem tão boas, não desista da busca. O mundo é diverso e o que você vê em um lugar não é a única coisa que existe em todo resto. Se muito do que encontrar pela frente não te agradar, seja você mesmo o criador das boas-novas. Invente, pinte, desenhe, escreva, compartilhe, repense, deixe semente. A maior extensão de uma árvore é a floresta.

Rodrigo Meyer