Sobre cercar-se de gente produtiva.

De forma simplista, a ideia de cercar-se de gente produtiva já parece interessante, afinal quando pensamos em pessoas produtivas, imaginamos algo positivo, mesmo sem nos atentarmos aos detalhes do que está sendo classificado como ‘produtivo’ nestas hipotéticas pessoas. Todo mundo, a princípio, acharia vantajoso estar cercado de tal gente. Contudo, na prática, isso pouco ocorre e, na verdade, muita gente descobre que não tem real apreço por gente produtiva. Faz-se necessário, então, explicar um pouco sobre as vantagens que este tipo de pessoa traz e, a partir disso, quais as vantagens que absorvemos por nos rodearmos delas, além de, claro, tornar esse processo espontâneo.

Pessoas produtivas são aquelas que estão sempre envolvidas em alguma criação, trabalho, ideia ou iniciativa. São as pessoas que estão sempre colocando pensamentos em prática, transformando sonhos e vontades em algo concreto. Estou falando, por exemplo, da pessoa que converte um sonho em uma série de desenhos, que observa o mundo e escreve sobre ele, que coleta material reciclável e converte em produtos reutilizáveis, que organiza ações de ajuda social, que conserta objetos quebrados, que restaura uma informação útil que estava perdida, que intervém em uma briga pra defender ou apoiar uma vítima, etc. Aqui são alguns pouquíssimos exemplos de gente produtiva no mundo. Mas, nem de longe isso resume a totalidade e diversidade do que são as pessoas produtivas. Existe algo de muito especial nestas pessoas e isso a gente só nota quando começa a identificar muitas delas e a perceber o que elas possuem em comum.

Enquanto alguns evitam o contato com pessoas produtivas, eu fixo meus olhos brilhantes sobre elas e agradeço pela oportunidade de conhecê-las. Fico feliz em saber o que cada pessoa faz, não apenas na profissão e estudos, mas, principalmente, nos hobbies, porque é o que a pessoa, aparentemente, ama fazer e de onde se pode, provavelmente, extrair oportunidades interessantes para atividades conjuntas a curto ou médio prazo. É fácil imaginar, por exemplo, que uma pessoa que compõem música, tenha maiores chances de se interessar por alguma proposta sua que envolva edição de som, restauração de instrumentos musicais ou mesmo de participar de um blog ou livro sobre arte. Por outro lado, se esta mesma pessoa fosse pouco produtiva, seria indício de que ela não está verdadeiramente engajada nessa atividade, seja por falta de tempo, de estrutura ou de paixão suficiente. Por isso, é importante diferenciar quem apenas está conectado à um assunto e quem realmente é produtivo nesse meio. Em uma analogia, uma coisa é o usuário comum de computador e outra, bem diferente, é o entusiasta de antiguidades da informática que vai tão fundo nisso que chega a restaurar os equipamentos para utilizá-los novamente, mesmo que tenha que aprender a soldar placas de circuito e a restaurar a cor envelhecida do plástico, sem desanimar se precisar reaprender comandos de um software estranho.

Mas, algo que sempre se vê em comum em pessoas produtivas é que elas nunca estão engajadas apenas em um tipo de atividade ou assunto. Como se estivessem eternamente curiosas e inquietas, se desdobram em tantas outras faces pra aprender segundas, terceiras e quartas profissões, outros idiomas, outros talentos, etc. São as pessoas que estão sempre à um passo de uma nova viagem, de um novo curso, de um novo livro, de uma nova conversa, outra amizade, outra cidade, outro modo de ver a vida. Essas pessoas estão sempre caminhando pra inúmeras direções, mas, sobretudo, estão consolidando cada uma dessas atividades. São pessoas, geralmente, de muito talento e esforço. Se dedicam muito em estudar e dominar um assunto com excelência suficiente pra serem admiradas. E é aí que entram as trocas. Pessoas assim, possuem a grata oportunidade de converter suas vantagens em mais vantagens. Quando você une dois entusiastas da Música, por exemplo, de repente tem-se uma banda por surgir. Ou, ainda, quando você é um talento na Fotografia e conhece um bom ator ou modelo que também aprecia Fotografia, você tem ali o caminho facilitado para falar disso, propor projetos fotográficos e ideias onde ambos possam fazer algo novo disso tudo, porém juntos.

Parcerias, como se pode ver, são frutíferas quando as pessoas possuem alguma afinidade. E pra que aumentem as chances de encontrar afinidades com alguém, nada melhor do que ter muitas áreas de interesse e estar em contato com pessoas que também possuem interesses diversos. Em um jogo invisível de tentativa e erro, vamos conhecendo pessoas, seus planos, seus sonhos, sua personalidade, suas manias, seus gostos, suas invenções e, quando menos se espera, estamos atuando junto em busca de satisfazer nossa curiosidade, completando incertezas, deixando questionamentos ou até mesmo apontando uma solução. É muito mais provável que estas interações resultem em um novo projeto, trabalho, produto ou até mesmo em um novo hobbie muito mais incrementado ou divertido. Por vezes, é a brecha que faltava pra que alguém elevasse o nível de uma prática que já fazia sozinho.

Com esse networking especial você está facilitando sua vida em todos os setores, sem saber em qual deles vai ter mais sucesso inicialmente, mas certamente será alguém mais satisfeito com a vida, porque terá preenchido seu tempo e sua mente com coisas e pessoas que realmente lhe instigam a ser e fazer mais. E mesmo que sua produtividade não cresça atrelada à uma parceria com estas outras pessoas, ainda sim será graças à elas que você terá desenvolvido seu caminho isolado.

Muito do que eu aprimorei em informática, por exemplo, se deu pela interação com pessoas que tinham afinidades comigo em outras áreas em comum. A troca de experiências possibilitou que ambos dessem o melhor de si em algo e recebessem o esforço do outro igualmente. É o milagre da multiplicação. Somar é fácil, mas multiplicar é arte. Ao longo da vida, estive em contato com muita gente, ficando particularmente encantado quando notava que a pessoa tinha disposição mental pra permear mundos diferentes, assuntos desconexos entre si e manter clareza em tudo que se propunha a investigar, estudar, compartilhar ou praticar. Isso me faz pensar que, em última análise, o sucesso dessas pessoas está atrelado a um enorme esforço que só é possível pelo imenso prazer que elas possuem em dedicar muitas horas em algo. E não seria exatamente essa paixão que faz delas pessoas produtivas em suas áreas de interesse? Penso que sim.

Pessoas comuns, torcem pro dia acabar logo, mas pessoas produtivas, não estão sequer olhando pro relógio. Conta-se que Albert Einstein, frequentemente, se trancava no quarto por dias, isolando-se de tudo e todos, até que pudesse sair dali com a resposta que precisava. Seu networking se deu, indiretamente, pelo contato com invenções que via e estudava durante seu trabalho no órgão de registros e patentes. Algo similar ocorria com Nikola Tesla que se motivava a descobrir novas possibilidades com a eletricidade, devido a discordância no trabalho de outros inventores e empreendedores. Não tão diferente, em tempos mais modernos, ocorreu o mesmo com os criadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, o criador da Microsoft, Bill Gates, e o criador do Linux, Linus Torvalds. E de maneira bem clara, vemos que eles concretizaram suas ideias pelo apoio de pessoas que estavam profundamente relacionadas com seus hobbies e trabalhos tão incomuns.

Talvez você nãos visualize de imediato ou tão facilmente as conexões possíveis entre as coisas que você faz ou gosta com as oportunidades que isso pode lhe render junto à outras pessoas. Mesmo assim, as oportunidades estão potencialmente presentes. Você precisa simplesmente dedicar tempo em viver um contexto diverso, desde que toda essa diversidade faça sentido pra você e seja espontânea. É muito possível que o estudo de idiomas, por exemplo, lhe renda contato com pessoas que já viajaram ou que gostariam de viajar. E quantas outras conexões se formariam, se o sonho de viagem de algumas dessas pessoas fosse pelo apreço em História, por exemplo? Quanto mais diverso é um indivíduo, mais caminhos lhe surgem. Quanto mais caminhos são absorvidos, mais produtivo o indivíduo se torna. Por fim, quanto mais produtivo, mais chances tem na troca com outros indivíduos produtivos e diversos. Sucesso garantido, pra uma vida que pode até não render dinheiro, mas provavelmente vai lhe manter vivo no melhor sentido do termo.

Dito tudo isso, cabe à você descobrir seus potenciais, seus campos de interesse e definir suas estratégias, por assim dizer, de como se relacionar ou permear o mundo das pessoas e assuntos que lhe parecem úteis. Mas, acima de tudo, esteja lá por verdadeiro gosto no que faz ou pensa, porque os insights e as oportunidades serão sempre frutos ocasionais e quase aleatórios de sua própria dedicação incansável e do seu mergulho despretensioso que lhe reverte suficiente prazer.

Rodrigo Meyer

Como desenvolver conversas produtivas.

Não é de hoje que as pessoas esquecem que nascemos com dois ouvidos, dois olhos, mas apenas uma boca. É muito comum que as pessoas usem da comunicação estritamente para tentar impor, premeditadamente, alguma ideia sobre as outras. Isso começa a se tornar um problema quando é a única (ou mais frequente) forma de comunicação da pessoa. Ao simular uma tentativa de conversa com outros, este tipo de pessoa está sempre procurando uma brecha ou pretexto para inserir alguma informação preconcebida que ela estava conveniente procurando alguém pra ter um pretexto pra falar, mesmo não tendo qualquer necessidade ou encaixe com os demais. De certa forma, são monólogos. Igualmente comum é que duas ou mais pessoas tracem esses monólogos, apesar de estarem juntas em um mesmo espaço de interação, seja na internet ou numa mesa de bar.

Conversas produtivas são aquelas que proporcionam algo além do que já havia inicialmente e que, claro, seja um algo útil para o interlocutor. Conversas produtivas precisam ser, antes de tudo, conversas. Muita gente se esquece que monólogos são facilmente confundidos com conversas, pois estiveram tão habituadas ao egoísmo de só falar, que até na hora de trocar informação com outros, ficam trancados cada um em um monólogo, ousando chamar isso de conversa, devido a substituição recorrente da conversa original pelo monólogo. As pessoas perdem a habilidade de discernir o passado, quando ele é deturpado para que fique apagado.

Acrescentar algo de relevante para outra pessoa depende de quem você é, o que você tem no seu interior e com quem você vai interagir. A combinação de fatores determina se você será apreciado ou rejeitado. É exatamente por isso que algumas pessoas adoram o vazio improdutivo dos monólogos coletivos e outras pessoas não. Para algumas pessoas, o acréscimo do vazio improdutivo cumpre uma função sobre o cenário patológico do indivíduo, quase como a droga que “resolve” a crise de abstinência, mesmo sendo ela mesma um problema (inclusive por gerar crise de abstinência quando falta). Portanto, penso eu, se for pra sentir falta de algo, que seja de algo que soma na minha vida e não de um vazio.

Se você já conseguiu definir quem você é e chegou a conclusão de que realmente quer ter conversas produtivas, aqui vão algumas considerações sobre. Uma conversa produtiva não pode ser uma simples checagem de concordância entre os presentes. Se tudo que você quer saber do outro é se ele concorda ou não com seu pensamento, você já está perdendo tempo nessa interação. O motivo é simples: se a pessoa concorda com seu pensamento, você não tem nada novo pra oferecer a ela e se ela já discorda do seu pensamento, provavelmente você vai apenas se opor e se afastar desta pessoa ou simplesmente ficar numa inútil batalha trocando farpas, cada um com seu posicionamento contrário. Perceba que, seja lá qual dos casos for, não se soma nada. Claro, a menos que o que você busque seja exatamente o já citado vazio improdutivo, com a devida analogia da abstinência de droga.

Em segundo momento, uma conversa produtiva, faz você chegar em visões novas, diferentes, inusitadas, pouco vistas, menos fáceis ou tão fáceis e óbvias que você não tinha pensado como opção para refletir. Conversas precisam traçar conexões entre assuntos diferentes ou, pelo menos, entre pessoas diferentes para um mesmo assunto. Você precisa sentir que está ganhando um presente, um conforto, seja para sua caixa interna de conhecimento, para sua visão de mundo ou para seu estado emocional. Precisam produzir, gerar, acrescentar, fabricar algo que ainda não existia em tipo, qualidade ou quantidade.

Muitas vezes uma conversa não vem acompanhada de fala, deixando os olhares se encontrarem. Decifrar o que o outro é, o que ele vale, o que ele pensa ou sente, também pode nos colocar desarmados diante daquilo, se assim nos permitirmos. Quando duas pessoas estão sintonizadas conversando sobre algo, elas esquecem do passar do tempo e simplesmente tudo que importa vai fluindo. É satisfatório quando mergulhamos no outro sem nos importar com detalhes e aparências e acabamos com os olhos revigorados, a saúde emocional restabelecida, a sanidade ajustada para a direção que nos convém, permitindo que sejamos pessoas mais vividas, com maior número de experiências, com menos covardias, menos hipocrisias, menos mentiras, menos máscaras, menos patologias, menos equívocos, menos inutilidades, longe de qualquer coisa que nos tire a inconfundível humanidade.

Perdemos qualidade de vida quando paramos de viver o necessário. Olhe pras pessoas ao redor e descubra rapidamente quais delas, provavelmente, traçam conversas úteis. Pegue uma fila de banco ou supermercado e note quem são as pessoas que estão satisfeitas com elas mesmas e quais são as que estão apenas tentando fabricar uma interação completamente artificial para projetar uma palavra vazia. Todo dia você vai encontrar diversidade nas pessoas, mas, também muita mesmice nessa diversidade. Em resumo, é bem comum que as pessoas sejam bem diversas no modo como apresentam as mesmices, tal como ter milhares de marcas de roupas, onde todas estas tentam vender padrão social de corpo, moda e consumismo. Esse tipo de diversidade não é uma diversidade útil. É só um vazio viciante a quem se deixa cair por isso.

Uma meta boa de interação humana é conseguir estar de ouvidos abertos para que os interlocutores tenham conforto suficiente para fazer surgir junto a coragem de dizerem coisas profundas, sinceras, espontâneas, verdadeiras, complexas, completas, peculiares, impopulares, nada fáceis, raras, geniais, originais, secretas, ácidas, tristes, bonitas em estado de arte, lapidadas em estado de coerência ou sabedoria, reorganizadas de forma a conseguir convencer que bordões podem ser enojantes diante da honestidade ou simplesmente que existe vida após a mesmice, mesmo que nem toda essa novidade faça realmente muito sentido ou não seja muito duradoura, desde que consiga proporcionar um momento de originalidade, satisfação e diversão, podendo recobrar a razão em outro momento.

Conversa produtiva, pra mim, vem acompanhada de princípios, mas também de humor. Precisa saber encaixar manobras entre um disparo e outro, pra que aquilo se torne uma dança, tal qual é para o corpo que escuta e aprecia uma música e reage com movimentos praticamente inevitáveis. Seria essa a luz responsável pela paz que buscamos? Precisamos experimentar pra tentar responder essa pergunta. Permita-se sentar no chão de um apartamento ou na calçada de um bar, com seu copo na mão, seu olhar atento, seus ouvidos livres da cera do preconceito, mas ágeis o suficiente pra exigirem do cérebro uma resposta inteligente quando ouvirem alguma asneira muito grande. É preciso estar profundamente envolvido com o campo das ideias para preferir infinitas vezes discutir ideias do que discutir pessoas. As fofocas, por exemplo, por discutirem apenas pessoas, caem na toxidade do vício pelo vazio. Pessoas são passageiras, ideias são imortais.

No final das contas, a receita de produtividade em conversas é realmente estar minimamente lapidado, limpo, transformado, tranquilo, pronto, nutrido, embasado, vivido, preenchido de experiências e pontos de vista para mostrar. Quando você se torna a pessoa necessária para a vida, a vida se torna um ambiente fácil de se desfrutar. Você precisa corrigir primeiro a si mesmo e depois, junto com outras também corrigidas, procurar e encontrar os lugares e momentos onde vocês se sintam confortáveis e ao mesmo tempo desafiados. Que seja um lugar com pouca ou nenhuma rotina, mas que tenha a atmosfera necessária pra te deixar confiante e tranquilo em ser, ver, estar e fazer aquilo que você tem sinceramente pra oferecer, sem máscaras, sem fachadas, sem padrões inventados, sem olhares atravessados, sem desconfianças, sem medos, sem inseguranças, sem qualquer tipo de barreira inútil que tire de você a individualidade e atue como uma ferramenta extra que abra portas, aperte parafusos, raspe a ferrugem, solde pedaços soltos, etc.

Este texto, talvez, esteja abstrato demais, uma vez que tenta incluir na equação as diferentes ideias das diferentes pessoas que possam estar imaginando os cenários particulares / específicos em suas próprias mentes e vidas. Eu não sei exatamente quais são as realidades de cada um que cruza com meus textos. Tudo que eu sei (e parcialmente) é o que carrego dentro de mim e o que espero da realidade em torno. Sei que não quero bocejar diante de um diálogo, nem perder tempo com quem fala muito e diz coisa nenhuma. Não quero estar muito tempo ao lado de quem não consegue fazer mais do que desejar ‘bom dia’ e também sei que o que atiça a minha esperança pela humanidade é saber que tem mais gente do outro lado que pode ser divertida e irreverente enquanto o mundo pega fogo. Eu sei, completamente, que quando vou à um sebo passear no aroma envelhecido dos livros, quero alguém que, por exemplo, se convide pra ir junto, só pra exigir que o vendedor dê o preço pela loja toda, pois quer aquele sebo como casa pra morar e que, por não ter sequer uma cozinha, espera que seja feito um bom desconto. Se não for pra brincar com as palavras e situações assim, com as possibilidades e os momentos, dançando junto com as personalidades, não há motivo pra gastar energia em uma interação. Viver custa caro, nos aponta faturas simbólicas todos os dias e precisamos de outras pessoas que nos ajudem a pagar essa conta, multiplicando o capital intelectual, emocional e energético. Precisamos rir do que é incerto, abraçar a coerência, explorar o mistério, vencer em ambientes desconhecidos pelo simples motivo de poder chegar na velhice (ou no finado dia da juventude) e ter algo valioso pra recordar e deixar que a humanidade (ou pelo menos teus amigos e/ou conhecidos) tenham o que herdar.

Você não precisa estar em contato todos os dias, nem precisa escrever um livro ou ter as viagens e experiências mais longas ou esquisitas. Só precisa estar bem encaixado em seu próprio ser, mesmo que (ou principalmente) se sinta desencaixado no mundo. Precisa ter descoberto a sua personalidade verdadeira e não aquela máscara que muitos se esquecem de tirar a vida inteira, mesmo quando bebem, transam ou vão dormir. Você precisa se livrar das correntes pra só depois descobrir quão livre e inteligente você foi, é ou pode ser. Talvez os outros pesem um pouco na sua liberdade, mas, sob certo sentido, a tua liberdade, mesmo quando tentam removê-la, é algo totalmente sobre você. O primeiro passo para tentar ver-se livre é a decisão que você toma na vida sobre quem você é, quem o mundo é e o que você pode fazer a respeito disso tudo. Eu escolho sentar e conversar, escolho virar uma esquina mais de uma vez, só pra descobrir o que mudou, o que repetiu e o que nunca existiu. Primeiras impressões continuam sendo importantes, mas elas não vão nunca me dar as respostas que eu preciso, pois as boas respostas estão sempre abaixo de outras ainda melhores. Eu sigo sempre adiante, em mergulhos cada vez mais fundos. Eu vou e volto várias vezes no mesmo lago, até entender qual é a relação entre as ondas na água e o meu nado. Saio de lá molhado, mas saio de lá com muito mais do que água escorrendo no corpo.

A minha bagagem vem das minhas frases ditas e também das não ditas, das bocas que eu toquei, dos momentos de sexo interrompidos, dos livros que me encontraram enquanto eu estava igualmente perdido, dos idiomas que eu esqueci de aprender e também daqueles que eu insisto e não esquecer. Minha bagagem de conversa aceita café, água, whisky, festa, silêncio, promessa, viagens e passeios no meio da floresta. Todas as minhas memórias estiveram pelo chão das casas noturnas, pelos convites em cima da hora, pelos trens com nomes difíceis de pronunciar. Eram aquela senhora idosa catando latas de alumínio para a reciclagem, a dona do bar namorando um cliente alcoólatra e também o garçom escritor daquela cidade que ninguém nunca ouviu falar. Trago comigo as frases, gírias, manias e todo tipo de comentário corrompido que precise ser reformado e completado pra fazer florescer o brilho do sentido que já existia. Devolvo perguntas estúpidas com perguntas piores, deixando claro a desvantagem em andar pra trás. Eu corro pra interromper, só pra dizer que é hora de atualizar a bebida ou que está tarde e, por isso mesmo, é a melhor hora pra conversar sobre a vida.

Eu chego sem livros nas mãos, porque assim eu tenho motivos garantidos pra arrastar multidões pra perto do beco dos livros. Se empresto inteligência, quero toda ela de volta, com juros compostos contabilizados. Quero sentar na frente de alguém e ser cobrado de sentar especificamente do lado ou o exato contrário. Quero alguém que fale comigo e não de mim, alguém que entenda bem o jogo de ser ambíguo pra fomentar prazer. Quero alguém que me exija senhas simbólicas pra filtrar as possibilidades entre um portal e outro. Quero alguém que me leve pra conhecer problemas, mas que no mesmo dia me mostra uma das possíveis soluções. Quero alguém que fale comigo sobre suas próprias gambiarras e tecnologias, mesmo que elas não funcionem sob nenhuma ocasião. Quero pessoas contando histórias sem um claro ponto de partida, com um meio bastante estranho e um desfecho surpreendentemente engraçado. Quero poder confiar, mesmo que temporariamente, na grandeza do ser humano e ficar um pouco mais perto de uma vida em que eu possa me orgulhar de ter feito algo positivo, honesto, intenso e aberto, mesmo que, em alguns destes momentos, eu estivesse distorcido, perdido, deprimido, doente à beira de cair em um retrocesso.

Agradeço a todos pelas conversas tidas, as que sigo tendo e as que estou plantando para minhas próximas fases na vida. Estaremos conectados pelos textos, pelas mensagens, pelos convites cada vez mais inusitados. Seja lá onde você estiver, você precisa andar além de si mesmo. Corra muito de um lado pro outro, pra saber onde você realmente está e pra onde você quer ir. Faça da sua vida uma gigante conversa produtiva entre você e sua existência. Tão importante quando ser lúcido é estar em contato com sua essência. Descubra-se para além das frases feitas, das noites repetidas, dos bordões idiotizados, das propagandas gratuitas, do papel de trouxa nos tapas recebidos da vida, nos vícios quadrados que só te jogam em ruas sem saída. Comece a ter iniciativa e leve isso pra sua comunicação, falada e escrita. Seja autor da sua própria história e mesmo que não possa controlar todo desfecho ou audiência, terá sempre material importante pra oferecer. E você? O que tem pra me dizer?

Rodrigo Meyer

Motivos para abandonar o Facebook.

Desde o surgimento do Facebook, como um projeto paralelo de universitários, a ideia da rede social já vinha imbuída de polêmicas. Como se não bastasse o nascimento conturbado da rede, a trajetória de fama da plataforma acabou por revelar vários escândalos relacionando vazamento de dados, manipulação de estatísticas e divulgações pagas nada realistas. Em resumo, o Facebook prometia aos olhos dos usuários a oportunidade de finalmente se conectarem, criarem seus espaços e se divulgarem ao mundo, mas logo se viu que nada mais era do que uma grande ferramenta de intermediar os interesses de governos e grandes empresas com a ingenuidade de uma massa de usuários no mundo todo.

Em 2013, conforme esta notícia da CNN, o Facebook servia como fonte de dados para NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos. Além do uso clássico dos registros telefônicos e registros de e-mail, a NSA usava também o Facebook para traçar conexões entre profiles e criar um mapa de conexões entre usuários, conforme dados de Edward Snowden, divulgados pelo New York Times. Mas este está longe de ser o único motivo para se deixar a rede social.

Com o extinto Orkut, o Brasil e uma parte do mundo aprendeu um conceito novo de interagir pela internet. Depois do fim dessa plataforma, houve espaço pro Facebook surgir e assumir o lugar. De lá pra cá, nunca havíamos nos expostos tanto na internet, com nossos dados pessoais, informações profissionais, gostos, costumes, personalidades, conexões de amigos e conhecidos, fotos, família e muito mais. Nos tornamos praticamente acessíveis a qualquer pessoa, até mesmo quando nosso profile está em modo fechado ou não-público, uma vez que existem ferramentas que burlam essa limitação tanto individualmente, quanto nos alegados vazamentos massivos que o Facebook faz com os dados dos usuários.

É surpreendente o crescimento rápido da plataforma e em como uma coisa simples, gratuita e, inicialmente, com pouco potencial de utilidade aos usuários, se tornou uma das principais mídias em toda internet. Tão famoso quanto Google ou Youtube, o Facebook parece ter conquistado a simpatia das pessoas. E nisso existe um componente perigoso. Em projetos dessa magnitude, não existe forma milagrosa que torne toda estrutura gratuita. Se por um lado usuários não precisam pagar pra acessar, por outro, alguém está bancando essa conta. E, claro, como em diversos outros meios de comunicação, a gratuidade é concedida em troca de uma cobrança massiva a anunciantes que estão sedentos pelo potencial de se conectarem com usuários. Mas não quaisquer usuários, afinal os algoritmos do Facebook permitem um filtro tão refinado de informações de cada pessoa que é praticamente possível personalizar todos os aspectos para entregar uma comunicação direcionada a cada tipo de indivíduo, elevando a eficiência nos objetivos, sejam eles quais forem. E aí entra um aspecto ainda mais perigoso.

Que as empresas tentam nos empurrar produtos dia e noite, isso não é novidade nenhuma. O problema é que, em escândalo recente, o Facebook foi surpreendido por estar envolvido no beneficiamento da candidatura de Donald Trump, por conta de acesso à dados de 50 milhões de usuários. Com a exploração destas informações de usuários e amigos de usuários, uma empresa, de nome Cambridge Analytica, criou um algoritmo capaz de formar um perfil ainda mais completo das pessoas e, assim, direcionar propaganda política altamente personalizada para eleitores indecisos, o que, certamente, impactou no resultado das eleições americanas. Confira a notícia de 20 de Março de 2018 aqui.

Até o momento, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, não se pronunciou sobre o assunto, seja porque não não tem algo de bom pra dizer em sua defesa ou seja porque não sabe o que fazer diante do escândalo. Com o ocorrido, o Facebook despencou as ações na bolsa e está sendo visto por muita gente como uma mídia sem futuro. Somente no Canadá, mais de 20 milhões de usuários abandonaram o Facebook. O Brasil, infelizmente, por conta da própria cegueira que predomina na média dos cidadãos, provavelmente, será um dos últimos países a sair massivamente da rede. Estes já são motivos suficientes pra se abandonar, mas ainda há muito mais.

Enquanto o Facebook engordava o bolso com bilhões, usuários do mundo todo se viram afundando em crises econômicas, perdendo desempenho em suas carreiras e deturpando o tempo diário diante do computador ou celular. Muita gente mergulhada em depressão, outras tantas desaprendendo severamente as premissas básicas de socialização tanto presencial quanto pela internet e enveredando por um caminho obscuro onde tudo que se tinha era um cabresto azul guiando as pessoas por uma tela cinza de timeline cheia de informações completamente irrelevantes que levavam as pessoas de lugar nenhum a nenhum lugar. Custou pra que as pessoas se dessem conta de que ceder suas vidas pessoais para empresas e usuários do mundo todo não era uma boa opção. Muita gente restringiu o acesso a seus profiles ou até mesmo suprimiu severamente as informações prestadas na internet para evitar esse abuso. Além disso, passar cada vez menos tempo na internet se tornou a meta de vários usuários, como forma de reaver o tempo perdido e investir mais em si mesmos, em suas carreiras e potenciais, principalmente retomando o contato físico e natural com as pessoas e os lugares.

Cada vez que a internet se torna mais e mais acessível, começa a permear pra dentro da rede a mesma diversidade de problemas que existe no mundo real. Desde um bom tempo que o Facebook se tornou alvo de todo tipo de crimes e pessoas mal intencionadas. Entre stalkers (pessoas que observam a vida alheia), estelionatários, divulgadores de notícias falsas, profiles fakes para forjar números e comentários falsos, traficantes de animais e drogas, falsificadores de dinheiro, estupradores, aliciadores para prostituição, pedófilos, além dos populares propagadores de ódio gratuito, fascistas e afins. Um verdadeiro bueiro de desgraça.

E se você é usuário brasileiro, a situação é ainda pior. Pelo mundo todo o brasileiro foi considerado o povo mais mal educado da internet. Não é de se espantar, considerando o nível deplorável nos setores de Cultura, Educação, estrutura familiar, estrutura psicológica e social. Tirar algum proveito da rede social nesse cenário, só se você estiver em busca de trocar chumbo entre usuários igualmente mal intencionados. Quem já se deu conta que a rede afundou não quer nem ouvir o  nome dela.

Uma parcela das pessoas tenta manter o Facebook para fins profissionais, alimentando e divulgando suas fanpages com o intuito de fomentar adesão a seus produtos, serviços, ideias, ONGs, causas sociais e afins. Contudo, mesmo para estes, o cenário nunca foi bom. Há vários anos que o Facebook limitou drasticamente a visibilidade dos conteúdos nas timelines devido a impossibilidade de se apresentar tudo para todos ao mesmo tempo. Para que um usuário consiga visualizar um conteúdo no horário em que ele habitualmente está online e predisposto a vagar pela rede, ele precisa receber uma certa quantidade máxima de conteúdos. Mesmo que cada usuário tenha suas próprias preferências previamente selecionadas em tipo de conteúdo, ainda é algo demasiado pra ser entregue. O que o Facebook faz, então, é suprimir 99% de tudo isso e entregar, geralmente, 1% de conteúdo ao usuário. O critério é basicamente a “relevância” do conteúdo, porém não pela análise do conteúdo em si, mas pelo quanto esse conteúdo já tem de presença numérica em termos de inscritos, visualizações, curtidas, etc. Em resumo, quem já está no topo, é visto, quem não está, é invisível.

Eu, como adepto do minimalismo há muitos anos, vim reduzindo tudo que podia em diversos setores da vida. No Facebook não foi diferente. Por razões de trabalho, ainda mantenho um profile e algumas páginas, mas, com toda certeza, o foco é sempre direcionar o fluxo para mídias externas, uma vez que eu já não passo tanto tempo no Facebook, não participo de mais do que dois ou três grupos e já havia previsto a queda dessa ferramenta. Atualmente, opções melhores (ou menos ruins) estão saltando aos olhos, especialmente dos que trabalham com internet ou que querem dar visibilidade e retorno pra seus projetos, sejam eles pessoais ou profissionais.

Abandonar o Facebook me tirou um peso das costas, desde que comecei o processo de redução de interação e de disponibilidade de dados e conexões com outros usuários. Isso me permitiu trabalhar melhor e de forma muito mais engajada nos meus projetos, tendo repercutido na criação de várias outras mídias próprias, uma volta a produção literária e várias ótimas surpresas que não convém contar antes do momento. Se eu pude fazer isso por mim, você pode pelo menos tentar por você. Alguns dos leitores aqui do blog já não fazem parte do Facebook e talvez isso explique também o engajamento destes nestas outras plataformas e conteúdos. Vamos em frente, porque pra trás sobram destroços.

Rodrigo Meyer

Você é vítima de click bait?

Click bait é o termo em inglês para “isca de clique”. Como o nome sugere, é exatamente uma armadilha para tentar conseguir um clique do usuário na internet. Embora este termo e contexto específico seja algo próprio da internet, a essência por trás disso é antiquíssima em todo tipo de mídia, comércio e afins.

O que está por trás do click bait é a a ideia de que você precisa atrair pessoas para um “conteúdo” por meio de recursos artificiais que sejam apelativos a curiosidade ou ao impulso pouco controlado das pessoas. Isso ocorre com facilidade quando o público em questão é idiotizado o suficiente pra não ter esse filtro ou controle sobre si mesmo diante do que lhe é apresentado.

As formas mais comuns de click bait são: títulos sensacionalistas, títulos falsos, títulos dúbios, títulos de teor sexual, títulos agressivos, títulos contendo nome de personalidades como principal e/ou único recurso, além de imagens com expressões faciais exageradas, montagens sensacionalistas, etc.

A mesmíssima coisa pode ser vista em mídias impressas, televisões, comerciais, trailers de filmes do cinema ou até mesmo nos anúncios em voz ou texto dos supermercados. Contudo, a internet conseguiu massificar essa conduta, em razão do acesso instantâneo a milhares de usuários com uma única publicação, piorando, ainda mais, por conta da opção de compartilhamento e do hankeamento automático desses conteúdos em plataformas como Youtube e Facebook. A medida em que usuários incautos e pouco instruídos escolhem consumir esse material, as redes sociais interpretam essa crescente demanda por aquilo e dão visibilidade extra para o conteúdo, gerando um efeito bola de neve. É basicamente isso que fez uma horda de inúteis ganharem milhões às custas da ignorância alheia, fabricando entulho, não acrescentando absolutamente nada de útil e monetizando não só a si mesmos, como a própria plataforma junto com inúmeros outros anunciantes que vivem de empurrar anúncios e produtos para a massa.

Muita gente tem vergonha em admitir que usa do click bait em suas mídias, porque estão cientes de que as pessoas começam a se conscientizar do fenômeno que, por si só, é uma forma indigna de explorar a fragilidade alheia. Em um mundo onde muita gente não tem discernimento, cultura, educação e estrutura psicológica o suficiente pra saber desviar e recusar esse tipo de prática oportunista, é, no mínimo, um desserviço à sociedade e ao progresso da população. Mas, obstinados por lucro a qualquer custo, com pouca ou nenhuma ética, aceitam se dobrar a muitas práticas para chegar ao tão sonhado dinheiro.

Tão ruim quanto praticar o click bait ou ser vítima dele, é ter a tal Síndrome de Estocolmo que torna tais vítimas em defensoras dos próprios opressores, no caso, os criadores de “conteúdo”. Uma vez que se tornam cegas, viram uma massa de manobra vazia, moribunda e com uma mesma personalidade distorcida e mal constituída, moldada sobre preceitos pouco ou nada determinados, quase sempre seguindo a ilógica “lógica” do “porque sim”. Sem autonomia de pensamento e um fanatismo declarado, tornam-se os idiotas perfeitos para cumprir o papel de massa que faz esse enorme mecanismo funcionar. Enquanto alguns raros se tornam milionários, todo o restante da população, segue na mesma condição precária ou até pior. Gastam seu tempo nutrindo a vida alheia, ao invés da própria, pois, lhes parece muito mais interessante a fantasia fabricada nas mídias do que a própria realidade sórdida.

O mesmo conceito por trás disso é o que fomenta pessoas dispostas a ler tabloides ou revistas / sites de fofocas. Há uma frase que diz:

“Idiotas discutem sobre pessoas, inteligentes discutem sobre ideias.”

Além desse mecanismo psicológico onde o indivíduo prefere observar a vida alheia para desviar o foco da própria vida / realidade, existe também outro fator por trás dessas práticas. Quando o ser humano se torna adoentado em sua sensibilidade, empatia e bons valores, facilmente começa a apreciar o caos, como uma espécie de vingança pelos próprios dissabores vividos. É uma forma de vivenciar, através de cenas e ocorrências, uma tentativa (mesmo que falha) de esvaziar tais frustrações dentro de si. É o caso, por exemplo, quando uma pessoa foi alvo de um assalto e, por não ter lidado bem com o ocorrido, passa a ver prazer em toda cena em que um assaltante é mostrado em situação degradante ou de desproporcional violência. É um tipo de sadismo desenvolvido que dá espaço, por exemplo, pra um consumo fácil de toda e qualquer mídia que se anuncie com extremismos na imagem ou título. A armadilha está feita e os adoentados tem ingresso vip pra digerir as farpas e as toxinas dessa isca que os matará.

É evidente que o click bait não é apenas ruim pelo ato de enganar as pessoas para verter fluxo de visualizações nas mídias, mas também é um terrível dano pela ausência de conteúdo relevante ou saudável. É uma maneira garantida de encaminhar uma massa de gente para um abatedouro mental que, por vezes, repercute também na saúde física. Um lifestyle baseado nisso não resulta em um raciocínio melhor, nem em uma formação de visão apropriada sobre a vida, o mundo, as questões sociais, a própria realidade pessoal e muito menos sobre as próprias mídias. Tudo isso encaminha as pessoas para um modelo clássico de sobrevivência, mas não de vida em si. É um ato de desperdício do tempo, da saúde, do dinheiro, do potencial intelectual e de tudo que estiver, direta ou indiretamente, relacionado com os hábitos de vida em sociedade.

Em última análises, se arrastar por esse modelo de absorção de “conteúdo” é a maneira garantida de não absorver nenhum conteúdo real e ainda ser subjugado como cidadão de segunda classe, em diversos sentidos. Toda e qualquer história de sucesso que você pinçar sobre superação, aprimoramento e reposicionamento diante da sociedade, passa, necessariamente, por essa transformação de dentro pra fora. Exemplos ótimos da cultura do rap nacional, especialmente advindo das favelas e periferias, ensinam a importância de se discutir a sociedade, o sistema, as mídias, as condições da própria população, de cada indivíduo, etc. É este preparo que dá suporte para transformações a favor da própria população, pois se depender dos envenenados pelo preconceito de classes, pelo racismo, pelo fascismo e pelos corruptos, você não terá suporte nenhum, exceto se for pra piorar ainda mais.

Viver em uma sociedade que, basicamente, é composta por gente que odeia uma às outras, tratam-se como mercadorias, vítimas ou pontes, requer ter discernimento suficiente pra não tropeçar nesse lamaçal. Se você não ajudar a si mesmo, você já decretou seu fracasso. As mídias não vão te ajudar e quem te explora pra lucrar às tuas custas quer mais é que você continue ignorante, passivo e fanático. Um idiota constante é o maior aliado na perpetuação do sistema de exploração, pois não só ele é explorado, como também espalha como positiva a ideia da exploração para o resto do mundo. ‘Síndrome de Estocolmo’ é um termo que não vai sair da internet tão cedo, especialmente porque mesmo diante de tanta demonstração explícita dos problemas, as pessoas ainda conseguem tornar cada ano pior que o outro. Se você achou que 2015 foi um ano enojante, certamente repensou isso com a chegada de 2016 e ficou abismado em saber que tinha como surgir ocorrências como as de 2017, o que, certamente, não foi nem um átomo perto da galáxia de fezes que chegou em 2018 (e estamos apenas no terceiro mês). Espere o pior pra 2019, mas, mesmo assim, lembre-se que a culpa de tudo isso é a permissividade de um povo manipulado e sem nenhuma autonomia de pensamento e ação. São marionetes aguardando as cenas dos próximos capítulos, sejam lá quais forem.

Enquanto você se delicia assistindo pessoas defecando, transando e comendo, seja na internet, na televisão, nas mídias impressas ou na vida real, uma meia dúzia de gente está rindo tanto da sua cara, que é possível que à essa hora um ou dois deles já tenha até infartado durante a crise de riso. A melhor arma para o combate dos erros do mundo é a inteligência. Guarde seu tempo, sua saúde, sua atenção e seu dinheiro para coisas que possam lhe fazer alguém melhor e mais preparado pra sair da condição em que está. Pode ser cansativo ou até desencorajador no começo, mas você vai descobrir que, uma vez que dá esse passo com sinceridade, pessoas que você nem imaginava começam a se aproximar de você para investir no seu potencial e dividir apoio. As portas começam a se abrir e você verá como uma realidade ruim tem sempre o outro lado da moeda.

Rodrigo Meyer

Crônica | O homem invisível.

Entrei pela porta de vidro, senti o ar-condicionado. Não havia como eu não ser notado. Mais de 5 câmeras de vigilância e funcionário pra todo lado. No refrigerador, bebidas geladas. Peguei uma e paguei. Do lado de fora, mais gente, mais olhos presentes. Entrei no carro, voltei pra casa. No caminho, as pessoas pela calçada e os escravos da ronda armada. Dentro de casa, os barulhos da porta de entrada se abrindo e da porta do quarto se fechando, avisam os vizinhos que eu voltei. Eu não queria ser notado por ninguém, mas assim como eu os notei, me notaram também. A privacidade não existe. Viver em sociedade é viver observado e julgado. Posso até mesmo me esconder atrás de cortinas e paredes, mas até a minha ausência de imagem vai ser estímulo para lembrarem que eu ainda não saí de casa. Quando eu não quero que me notem, lembram de mim todo dia, mas se eu precisar de silêncio ou ajuda, aí eu consigo finalmente ser invisível.

Rodrigo Meyer

Crônica | Mais um tijolo caiu.

A demolição está ao lado. Ninguém se apercebe. São eles mesmos os tijolos a ruir. Já pouco se erguiam a mais que dois ou três palmos de altura, então a queda lhes é praticamente imperceptível. Vez ou outra, alguém observa e nota um tijolo caindo, uma parede desaparecendo ao chão. Dedos malditos, eles diriam! Dedos que só sabem apontar. Os tijolos queriam cair em paz e seguir desmoronando a construção sem serem responsabilizados pelo dano. Um dia desses estava olhando pela janela de casa. Não conseguia ver nada além da mesma cena enojante. As mesmas casas, a mesma paisagem. E, claro, tijolos caindo. As casas ainda permanecem praticamente intactas, pois os tijolos que caem são as pessoas que se recusam a permanecer de pé. A estrutura das casas seguem firmes, ao contrário de seus moradores. É como se cada casa fosse um museu para expor o que um dia as próprias casas serão. Isso eu não quero não.

Rodrigo Meyer

Especial | Aulas de Redação.

O mundo traz novas oportunidades quando lapidamos nossos processos e objetivos. Aprender a escrever bem é uma destas ferramentas e hoje vou te apresentar uma sequência de aulas que você poderá fazer diretamente da sua casa, através de vídeo-chamadas por skype. Escolha o horário e a frequência de aulas de maior comodidade pra você. As aulas estão compostas em 9 sessões e 2 tópicos por sessão.

Sessão 1:
+ Como fazer uma introdução de um texto.
+ A importância do começo, meio e fim.

Quebre o gelo com a escrita e entenda algumas regras de redação que fazem tanto o autor quanto os leitores se ambientarem ao conteúdo, com interesse e fluidez.

Sessão 2:
+ Aprenda a ser conciso e completo.
+ Estruturando uma argumentação.

A regra da eficiência pressupõem que você diga o maior número de informações com o mínimo de texto possível. Portanto, para não sacrificar seu conteúdo, a redução deve ser planejada com criatividade e inteligência.

Sessão 3:
+ Redação publicitária.
+ Textos persuasivos.

Quando você está escrevendo para um público ou objetivo específicos, existem premissas importantes na sua linguagem e na composição do seu texto, em termos de hierarquia, valores e psicologia. Passar a mensagem correta é construir uma percepção de sentido e valor.

Sessão 4:
+ Como criar títulos funcionais.
+ Tamanho mínimo, médio e máximo de um texto para redes sociais, blogs e livros.

Aprenda a criar títulos curtos, fortes e atraentes que representem muito bem a essência de cada texto. Para ser lido, você precisa ser notado. Descubra também alguns parâmetros sobre o volume do seu texto, truques de edição e questões relacionadas ao seu público leitor.

Sessão 5:
+ Definindo temas para escrever.
+ Encontrando seu estilo de escrita.

Desenvolver a literatura é parte de um hábito. Encontrar temas interessantes e adequados, estão intimamente relacionados com quem você é e qual imagem você deseja passar. Atrelado a isso, encontrar seu estilo te fará único e é exatamente essa característica que te abre espaço entre os demais.

Sessão 6:
+ Estilos literários (conto, prosa, poesia, artigo, etc.)
+ A importância da imagem como suporte ao texto.

Muitas são as possibilidades de expressão. Entenda cada uma delas e conheça as primeiras portas para se aprofundar nas suas escolhas. Depois de ter se estabelecido como autor, é preciso entender um pouco mais da sua própria apresentação. É hora, então, de pensar como funciona a comunicação das imagens que acompanham seu texto.

Sessão 7:
+ Tire dúvidas de ortografia e gramática.
+ Reescrevendo frases em um modo curto, compreensível e sem repetições.

Refine seu texto com um constante aprendizado do idioma. Uma escrita correta e coerência no uso de certas expressões, vão elevar sua credibilidade diante do público e atrair mais pessoas para o que você tem a dizer. Quando você se torna inteligível ao seus leitores, você cria uma conexão sem ruídos.

Sessão 8:
+ Adequando a linguagem e o tamanho do seu texto ao seu público.
+ Consulta de fontes de referência pra dados.

Tão importante quanto escrever correto, é entender os vários ambientes e contextos de leitura. Adequar a linguagem sem cair em clichês ou empobrecimento da escrita é importante pra se manter como referência de confiança pra seus leitores. Transpor naturalidade nas suas frases e dados, exige embasamento e tato.

Sessão 9:
+ Melhorando sua segurança / confiança no ato de escrever.
+ A importância da estética e do ritmo na leitura.

Agora que você já tem as ferramentas para escrever textos eficientes, seu sucesso está mais próximo. Continue escrevendo, perceba os momentos e gatilhos dessa atividade e entenda quais são os fatores que te dão confiança em ser autor. A medida em que você aprende a envolver os leitores ao longo do seu conteúdo, você garante um lugar ao sol e essa é a chave também para você se envolver de forma confiante com sua própria atividade de escrita.

Extra:
+ Grupo Vip.
+ Leituras, análises e correções.

Ao adquirir as aulas, você tem o benefício de participar de um grupo exclusivo no Facebook, somente para alunos do curso, onde você pode enviar seus textos pra que eu possa tirar suas dúvidas, dar dicas, ler e opinar sobre os conteúdos, fazer correções e muito mais.

Investimento:  Apenas R$ 270 reais, equivalente a R$ 30 reais por sessão.
Duração: 90 minutos por sessão com 2 tópicos.

Datas:
Uma vez contratada as 9 sessões, você é quem escolhe o melhor dia, horário e frequência das aulas. Escolha quando começar a primeira e quando retornar para cada uma das próximas.

Dicas: Devido a carga horária e a frequência de sessões, pode ser útil programar e reservar suas datas e horários. Faça no seu tempo disponível e no ritmo que lhe for confortável ou conveniente e, certamente, irá desfrutar de todo o benefício desses conteúdos.

Inscrições e Pagamentos: Você pode adquirir o curso através de pagamentos por PayPal ou PagSeguro, garantindo segurança e praticidade pra ambos. Através dessas plataformas, você pode controlar que os pagamentos só sejam liberados a mim se você efetivamente receber o serviço combinado. Para solicitar mais informações ou se inscrever, entre em contato por mensagem inbox na minha página no Facebook.

Rodrigo Meyer

Muita demanda, pouca oferta.

O ser humano, geralmente, está em busca de alguma oportunidade de se destacar em uma atividade, mas as pessoas, frequentemente, possuem preguiça ou desinteresse para específicas atividades ou áreas de estudo e, justamente por isso, estas oportunidades sobram pra quem tenha disposição e interesse de ocupá-las. É como diz a expressão: “A preguiça de uns é o trabalho de outros.”.

Quando tive a oportunidade de entrar pra faculdade de Ciências da Computação, foi interessante ver quão poucas turmas e cursos haviam pra esse segmento. A sala começou com mais de 40 alunos e gradualmente foi esvaziando. No final do curso sobraram apenas umas 5 pessoas que se diplomaram e foram elas que colheram os frutos disso, ao poder brilhar em suas carreiras. Da única pessoa que eu conhecia e mantinha contato nessa fase pós-faculdade, sei que a pessoa fez ótimo proveito da carreira. Estudou pra valer, se concentrou no necessário e teve trabalhos interessantes, inclusive com a oportunidade de reinvestir em si mesma para novos cursos, viagens e aprendizados. Em resumo, em uma sala onde nem todos estavam dispostos a seguir naquela profissão ou estudo, alguns estavam e, por isso, saíram na frente.

Mas a vida é múltipla. Quando saímos de uma área ou nem sequer entramos nela, temos a oportunidade de ir pra outra atividade. Contudo, algumas atividades são tão comuns, que estão saturadas. É o caso da área de Direito, onde muita gente se forma, mas a seleção da OAB filtra, por prova, os melhores, justamente pra não saturar o mercado de gente que vai acabar não tendo espaço pra exercer a profissão pretendida. Diversas outras áreas também se tornaram “febre”, por assim dizer, deixando áreas menos comuns com menos interessados e, portanto, com menos concorrência. A concorrência em si não é ruim, mas quando o mercado se satura exclusivamente de umas poucas profissões, isso desestabiliza a sociedade, pois o mundo não precisa só de meia dúzia de tipos de profissionais, serviços ou produtos. Então, a diversidade é mais saudável e útil para a própria sociedade, tanto coletivamente, quanto pelo benefício pessoal de conseguir se estabelecer profissionalmente como indivíduo.

A realização pessoal de muita gente acaba revista quando notam que, embora gostem de uma determinada área, não conseguem sobreviver com a realidade do mercado gerada em um contexto de saturação ou de desvalorização. Ocorre, também, das pessoas terem expectativas muito otimistas sobre determinada profissão ou área de estudo e acabarem frustradas ao descobrir que, na prática, não é tão glamouroso como pensavam. Tudo isso gera uma adequação quase que automática, colocando pessoas indispostas para fora de uma atividade e segurando as que se adequaram. Não há problema algum em se descobrir incompatível ou desinteressado com determinada área. Tudo que temos que fazer é exatamente nos descobrir, pra podermos fazer escolhas mais assertivas. Foi assim comigo quando abandonei a faculdade de Ciências da Computação por ver que não estava apto a lidar com tanta matemática enquanto ainda tinha que tentar absorver os princípios da computação em si. Admiro quem consegue e sigo interessado pela área, mas só volto à mergulhar nela se eventualmente me sentir apto a lidar com a quantidade de matemática que me freou na época.

Ao invés de me sentir frustrado, eu segui para outro curso. Fiz a faculdade de Comunicação Social e realmente me senti entretido o suficiente pra chegar até o final das aulas. Foi uma experiência muito boa pra mim, especialmente pelos professores que conheci e pelos momentos divididos entre as pessoas da época, pelos corredores, bares e casas noturnas. Mas, meu objetivo neste curso, por já ter conhecimento na área, não era ter determinados tipos de emprego como era pra todos os demais alunos. Pode-se dizer que fui a ‘ovelha-negra’ do curso, mas sigo tirando proveito e trabalhando com isso exatamente no espaço deixado pelos demais. Enquanto eles tentam ocupar uma área que, pra mim, era insatisfatória, discordante e saturada, eu escolhi atuar justamente onde ninguém tinha olhos ou interesse: apoiar pessoas, causas e pequenos negócios com ajuda do conhecimento que eu tinha. Apesar de não ter dinheiro pra gerir minhas próprias iniciativas nesses meios, consegui alavancar muito bem minhas mídias e ideias, até o ponto onde elas só não progrediram pra algo maior, por essa barreira financeira. Isso mostra que ocupar uma área onde outros não querem, pode ser bastante próspero, desde que haja suficiente apoio inicial.

Usando um dos exemplos que eu conheço, por conta da minha proximidade com o tema, cito a própria área de programação e TI, onde os salários propostos pelas empresas podem chegar a fantásticos R$ 100 mil reais por mês, justamente porque existe tanto potencial na informática e tão poucos programadores disponíveis, que um salário alto é a forma que encontraram de tornar a área atraente pra que mais pessoas se formem em computação, análise de sistemas ou alguma coisa relacionada a TI, podendo, assim, ocuparem as vagas que as empresas mais valorizam atualmente. Dessa escassez, pode-se encontrar até mesmo oportunidades como ter o curso de faculdade bancado pela empresa que pretende lhe contratar ou mesmo de ter uma vaga de trabalho praticamente garantida já no segundo ano de faculdade. Além disso, inúmeros brasileiros são tentados a trabalhar como programadores no exterior, justamente pelo combo salário + qualidade de vida de determinado país (frequentemente na Europa) ou, então, por poder estar em uma empresa renomada internacionalmente como Google, Microsoft ou Facebook.

É claro que estar ausente desse mercado não é, por si, sinônimo de preguiça. Há pessoas que simplesmente se esforçaram ao máximo pra tentar, mas não conseguiram, por inúmeras razões possíveis. Algumas pessoas não possuem condição de bancar um curso até o fim, outras não conseguem passar na seleção de uma faculdade pública e outras simplesmente podem ter se visto destoantes do tipo de estudo ou realidade de determinada área ou profissão.

Contudo, em várias outras atividades da vida cotidiana, é sim a preguiça de uns que abre portas para outros profissionais. Quando as pessoas não querem ter que lavar a própria louça, o carro ou casa, estão abrindo uma demanda pra que outras pessoas façam isso. Geralmente, em nossa sociedade discriminatória, esses trabalhos são evitados pelas pessoas com mais renda, renegando as pessoas de menor renda a aderirem a esses trabalhos que ninguém quis fazer, por demanda e por falta de capacitação ou espaço pra outras funções. Assim como existem muitas pessoas que ocupam as vagas de diarista, faxineiro, gari ou lixeiro, por exemplo, por não terem estudos suficientes pra pleitear vagas com exigências maiores de formação escolar, também existem as que migram pra essas áreas quando se veem desempregadas nas áreas em  que estudaram e se formaram, seja por saturação do mercado ou por algum revés pessoal. Fato é que, em ambos os casos, onde muita gente não estiver interessada de fazer algo, alguém virá pra fazer. O grande porém é que em países que discriminam as pessoas e os serviços, a remuneração dessas áreas tende a ser precária, como é o caso do Brasil. Em alguns países no exterior, profissões como a de lixeiro são uma das mais bem remuneradas, justamente porque as pessoas reconhecem a importância desse trabalho, cientes de que, sem isso, estariam no caos. Em tais países, existem lixeiros com faculdade, casa própria, dinheiro excedente pra viajar o mundo, etc.

Há muita coisa que é relativamente fácil de se aprender e executar, mas que muita gente evita, por que tem preguiça mesmo. Quando as pessoas não pensam por conta própria, por exemplo, abrem um enorme espaço pra que colunistas de pseudo-mídias ocupem e determinem o que é que as pessoas devem “pensar”, “concluir” ou replicar aos demais como “adequado” ou “correto”. Outro prejuízo se vê quando as pessoas deixam de exercer seu potencial artístico, por exemplo, ficando sujeitas a serem meras fãs passivas de algum artista. Isso não é saudável e, por vezes, pode ser apenas uma forma de você gastar muito dinheiro pra que outra pessoa faça o que você teve preguiça de se envolver. Noto isso em inúmeros casos de famílias que optam abertamente por babás na criação dos filhos, ficando completamente omissas da função na maternidade e paternidade. Consigo entender a inscrição de filhos pequenos em creches ou em  episódios isolados de tutoria com babás, mas se isso é o padrão de uma família na maioria dos dias, certamente comprometerá a relação entre pais e filhos.

Eu, ao contrário da tendência no mundo, sou daqueles que gosta da fazer tudo (ou quase tudo) por mim mesmo. Eu amo limpar a minha casa, organizar as minhas coisas, solucionar um problema do computador, seja em hardrware ou em software, cozinhar pra mim e, eventualmente, pros outros, fazer as compras no supermercado, pagar as contas, me enveredar pela minha expressão artística e literária, ler e estudar aquilo que ainda não domino pra impor, eu mesmo, tais benefícios aos meus projetos e necessidades. Me propus a estudar Idiomas, Culturas, História, Sociologia, Psicologia, noções gerais e básicas de Medicina, Direito e diversas outras áreas do conhecimento. De certa forma, estar ativo em todas essas coisas, pra finalidades pessoais de conhecimento e lapidação, me motivam ao invés de me deixar em preguiça. Aliás, se eu tivesse 8 mãos e estabilidade financeira, faria muito mais. Por vezes, deixei de expandir minhas ideias, simplesmente porque era, no meu contexto, impossível de se fazer.

Mas, a verdade é que eu não tenho como criticar os preguiçosos, afinal é por conta deles que sobra espaço pra que os demais façam algo, criando suas carreiras e tirando seu sustento na vida. É ótimo que o mundo seja diverso, desde que as pessoas sejam conscientes de que quando escolhem não estudar e não fazer as coisas por conta própria, terão que remunerar bem quem remou contra a maré da sociedade e decidiu estudar e fazer tal coisa. Então, é preciso, pra ontem, valorizar os fotógrafos, os cozinheiros, os lixeiros, os designers gráficos, os pintores, os professores, os músicos, etc. Ou seja, se você gosta e precisa de algo que você não domina, terá que valorizar quem domina, senão tal área tenderá a ficar precarizada até sumir ou se degenerar em qualidade. Se você não investe um valor justo pra que um profissional viva dignamente e possa estudar e se aprimorar na carreira pra te oferecer sempre um serviço cada vez melhor, você está, basicamente, plantando uma realidade onde os serviços e profissionais serão cada vez piores e mais raros. E, se eles se tornam piores, não trazem bom retorno pra quem os contrata. No caso de se tornarem raros, podem se tornar caríssimos e restritos somente aos que realmente entendem o valor daquilo, ao mesmo tempo em que podem pagar por tal valor.

Então, para não dar tiro no próprio pé, é preciso saber sustentar uma modelo de trabalho com remuneração justa. A lógica é simples, mas muita gente não tem paciência ou apreço pra se ver diante dessa realidade incômoda todo dia, por isso raramente refletem sobre essa urgência. E, se muitos não refletem, lembre-se, alguém vai ocupar esse vazio e refletir por eles. Espero que tais substitutos sejam sempre pessoas bem intencionadas e capazes, pois, do contrário, o mundo acabará mergulhado em realidades cada vez piores, como ocorre no Brasil, por exemplo, onde empresas, mídias, políticos e personalidades ditam a asneira conveniente que desejam pra manipular e extrair lucro e poder em cima dos incautos na população.

Inclusive, o fato de muitos não saberem diferenciar uma pessoa capacitada e correta de uma fraude é a demonstração de como tal pessoa se absteve tanto tempo da autonomia de pensamento dos assuntos do mundo, que acabou criado e moldado pelos que vieram pra moldar e ditar a realidade trágica dessa pessoa. E claro, entre indivíduos mal intencionados, um dos primeiros objetivos é fazer o público apontá-lo como líder ou referência, assim ele pode continuar controlando as pessoas com a própria aprovação delas. Alguém que vive esse cenário onde é usado e mesmo assim apoia ou defende seu opressor, diz-se que a pessoa tem Síndrome de Estocolmo. Depois de tudo isso, afinal, de que lado você quer estar?

Rodrigo Meyer

Especial | Agradecimentos.

Por hoje, enquanto estou me reestruturando pelos próximos dias, vou aproveitar pra ler ou reler algumas coisas, interagir com mais pessoas e favorecer a escrita dos meus próximos textos. Por isso, a publicação de hoje traz agradecimentos, ao invés de um artigo.

Quero agradecer, de início, ao José Waeny, cujo blog pode ser acessado aqui e que, diante do meu anúncio de pausa na escrita, dividiu o seguinte comentário:

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“Honestamente, nunca li um texto seu que fosse ruim, ou de baixa qualidade! Não deixe de produzir e apresentar, acho seus textos profundos e densos, sempre me levam a pensar e considerar suas colocações! Abs.”

Agradeço pela motivação concedida pelo José e fico muito feliz em saber que estou cumprindo o meu propósito com os textos, que é de ser útil e suscitar reflexão sobre a vida e a sociedade.

Este projeto começou há pouco tempo atrás, com o objetivo de levantar 600 temas iniciais. Já estão publicados mais de 240 textos e sigo escrevendo, sempre que possível, pra concretizar essa intenção sincera de ajuda. Ao mesmo tempo em que estou tentando suscitar pensamentos e mudanças, deixando um legado escrito, estou também cumprindo uma certa rotina de transmutação dos meus problemas em uma solução simples, porém eficiente.

A cada novo dia que me coloco a escrever, sinto como se estivesse sendo a minha própria terapia, enquanto me noto engajado e satisfeito em estar prestando algo de bom pros outros, como sempre fiz em todas as minhas iniciativas na vida. Escrevendo, conversando, ensinando, trabalhando, produzindo arte ou simplesmente dividindo meus momentos com outras pessoas, a intenção por trás sempre foi de deixar uma marca positiva de camaradagem, honestidade, entusiasmo pelas boas coisas, curiosidade, mistério, diversão, cultura, sabedoria, verdadeira amizade, verdadeira ajuda, compreensão e empatia.

Apesar de parecer fácil estar aqui com toda essa frequência, a verdade é que manter um blog ou qualquer outra mídia, dentro ou fora da internet, é sempre um esforço contínuo. Embora seja gratuito o espaço inicial no WordPress, manter-se minimamente visto pelo público requer um esforço consideravelmente maior do que se tivesse estabelecido em um plano pago, onde há suporte pra outros recursos. Além disso, os temas aqui abordados nesse projeto dos 600 temas, quase sempre alfineta muitas bolhas e pode deixar algumas pessoas desinteressadas de ler tais realidades. São temas que provocam reflexão ao invés de permitir o conformismo com os problemas e erros.

Quando escrevo, busco sempre construir e entregar algo que realmente faça sentido, que seja bem escrito não só em termos de língua, mas em termos de argumentação e fluidez. Me preocupo em tentar escrever as frases com o máximo de clareza possível, por vezes, editando trechos, em tempo real ou na revisão posterior, pra que a experiência do leitor seja agradável o suficiente pra que ele queira estar diante daqueles temas. Em qualquer expressão de conteúdo, seja arte ou não, é importante estarmos alinhados com certas premissas, pra tornar nossos objetivos viáveis. Por aqui, meu objetivo é conectar pessoas a pensamentos autônomos, mudanças de paradigmas, reflexões pessoais, sociais, políticas e até mesmo sobre questões um pouco mais abstratas da vida e das relações humanas. Para se chegar nessa conexão, é preciso traçar um caminho eficiente como trilha conhecida para cada vez mais pessoas.

Sempre que vocês interagem com as publicações, deixando seus comentários, curtindo os textos ou compartilhando em espaços onde mais pessoas possam acessar pra ler, isso ajuda a concretizar esse objetivo e dá razão de existência para tal iniciativa. Sou ciente de que, com tantos textos que já escrevi neste e em tantos outros blogs e mídias, frequentemente os novos contatos ainda não tiveram oportunidade de ler tudo que há. Mas não posso deixar de escrever pra esperar que as pessoas completem a visita a todos os demais conteúdos. Embora não seja algo tão personalizado a ponto de segurar um indivíduo por vez e conduzi-lo até a sua plenitude, esta mídia ainda pode cumprir equivalente benefício a cada um, dependendo do modo como ele mesmo se engaja no proveito do material já publicado anteriormente.

Com alguns poucos minutos diários, é perfeitamente possível percorrer algumas publicações na página principal ou buscar algo específico na caixa de pesquisa do blog e agendar sua leitura para aqueles momentos em que você está com maior tempo livre. O hábito da leitura também é uma terapia, abrindo espaço pra que sua mente interprete essa rotina como algo fácil de se fazer. Tudo que nosso cérebro exerce por mais de 30 dias configura um hábito e uma facilidade para o indivíduo. A leitura deste ou de qualquer outro conteúdo, desde que observadas as premissas de utilidade e reflexão sincera, são as portas atemporais para absorção de conhecimento e mudança, mesmo quando nosso pensamento é aberto para outras ideias diferentes das apresentadas inicialmente. A reflexão é justamente a ferramenta neutra que lhe permite entender os pontos de um contexto e extrair alguma conclusão pessoal daquilo. A cada vez que você lê e absorve conteúdos diferentes, você amplia seus parâmetros de realidade, permitindo estar mais acurado nas suas deduções ou interpretações, tanto dos textos quanto da própria realidade. Sabedoria, em última análise, é isso. O conhecimento sozinho, não transforma, mas o que fazemos com ele, sim.

Por tudo isso, o agradecimento é também a todos os leitores que acompanham minhas publicações e que me motivam a continuar escrevendo. Estão por vir novos projetos em torno da literatura e da ação social, mas, pra não queimar largada, anunciarei na ocasião mais oportuna, quanto tudo estiver corretamente encaminhado. A propósito, aqui continua sendo um espaço aberto em que vocês podem indicar temas, comentar suas opiniões, sugerir melhorias, etc. Aproveitem e entrem no grupo de leitura do Facebook, onde vocês podem falar sobre livros, blogs e todas as formas de literatura e escrita em geral, estudar e interagir em diversos idiomas, dividindo amizades e oportunidades com pessoas sintonizadas com este meio.

A propósito, conferi o setor de pesquisas e, em breve, concretizarei alguns textos com base nos temas procurados pelas pessoas. Você também pode solicitar temas pela guia ‘contato’ do site.

Gratidão,
Rodrigo Meyer

Onde estão as pessoas noturnas?

Sou uma pessoa noturna e fico me perguntando onde estão as outras. Embora eu consiga lidar bem com as atividades diurnas quando elas são necessárias, desde nascença eu fui noturno e essa tendência nunca sumiu. Eu gosto da noite e é o horário que naturalmente me sinto mais disposto e interessado em interagir e trabalhar. Por ser autônomo, muito do meu horário é definido por mim mesmo e, caso eu não precise fazer nada durante o dia, eu simplesmente opto pela noite imediatamente.

Na fase embrionária de diversas mídias que eu estou alavancando, a presença diária pra intervir manualmente em alguns detalhes me fazem ter uma certa rotina diurna, o que, muitas vezes, me tira a liberdade de dormir tarde e acordar tarde. É basicamente isso que faz muita gente que, em teoria, são noturnas, terem um estilo de vida moldado ao padrão diurno, por conta de estudo, trabalho ou socialização. A média das pessoas está mais ativa durante o dia, provavelmente como resultado de uma convenção social global que, desde os primórdios da humanidade, fixou-se no período de maior incidência de luz para gerir as atividades, deixando a noite para o sono e descanso, já que nesse período pouco poderiam fazer no ambiente.

Nas sociedades que se desenvolveram de lá pra cá, estabeleceu-se até mesmo um certo padrão de horário pra se acordar e trabalhar, funcionando como uma faixa de tempo em comum para as pessoas poderem fazer comunicação e trabalho de maneira mais abrangente e efetiva. A padronização dos horários tem muito que ver com um modelo onde tenta-se aproveitar o máximo possível da atenção das pessoas em um bloco só. Porém, nem assim os noturnos sumiram. Muitas pessoas, assim como eu, escolhem o modelo autônomo de trabalho, justamente pra desfrutar da noite. Assim como tem gente ativa de noite pra desfrutar, tem gente trabalhando pra atender essa parcela de pessoas também. Os comércios noturnos ou até alguns ’24 horas’, estão presentes em cidades grandes ou pontos turísticos.

Apesar de tudo parecer o paraíso, a diversidade de opções não é tanta assim. Uma loja de conveniência aqui, um posto de gasolina alí, talvez uma padaria e alguns bares, mas nada muito mais que isso. As casas noturnas, apesar do nome, por vezes, terminam mais cedo do que muitos gostariam, mas elas refletem uma realidade dos próprios frequentadores, que, depois de suas noitadas dançando e bebendo, ainda terão que estar ativos pra estudar e/ou trabalhar no dia seguinte. Soa como se o melhor da vida estivesse no potencial da noite, porém a sociedade e as exigências desse modelo nos priva desse benefício em troca da nossa busca automatizada por trabalho, dinheiro, socialização e até por encaixe em padrões e expectativas alheios.

É verdade que ser noturno destoa o suficiente pra nos vermos descriminados em alguns aspectos. As pessoas olham com maus olhos aqueles que levam suas vidas fora dos horários convencionais. Já chegaram a me perguntar se eu nunca tomo sol e até mesmo a deduzirem que eu sequer trabalhava. Ser noturno nunca me impediu de trabalhar e minha vitamina D está em dia justamente porque tomo sol sempre. Mesmo que eu esteja ativo de noite, o dia tem 24 horas e pelo menos metade dele tem incidência de sol. Ainda que eu não goste de fritar no calor e prefira curtir um ar-condicionado geladinho, eu acabo tendo a grata oportunidade de ver o dia nascer várias e várias vezes, já que eu sigo acordado madrugada a dentro. Além disso, nem sempre é possível levar uma rotina noturna e, então, acabo pegando até os horários de pico de sol.

Ser noturno me abre inúmeras possibilidades, mas também fecha muitas portas. Quando eu mais quero fazer as coisas, as pessoas estão indo dormir ou simplesmente já estão cansadas ou preguiçosas demais pra fazer qualquer coisa significativa. É de noite que eu tenho energia e concentração pra escrever, desenhar, editar foto, gravar um áudio, um vídeo, ler ou cumprir algum projeto de trabalho. Mas e quanto a dividir o tempo com outras pessoas? Onde estão as pessoas noturnas pra podermos conversar, dar umas risadas e compartilhar a presença? Acaba sendo uma condição um tanto quanto solitária. A menos que eu molde as atividades noturnas para os ambientes de bares e casas noturnas, provavelmente não verei gente ao redor.

Aqui por onde moro, felizmente, tenho acesso a uma loja de conveniência onde às vezes gosto de fazer uma pausa nas minhas atividades e ir tomar um café e respirar um ar novo, ver rostos e observar um pouco da realidade. Mas, mesmo assim, não é um ambiente com o qual eu possa e/ou queira dividir tanta interação assim. As pessoas que geralmente se agrupam por estes meios, estão lá em um estilo de vida que não reflete meus interesses. Ficam com o som do carro ligado no último volume dos amplificadores pra chamar a atenção a todo custo, tomando algumas latas de cerveja aguada e quente na tentativa de diversão. Eu, tomo meu café e sigo de volta pro meu ambiente privado.

Na minha casa ou mesmo andando pela cidade ouvindo alguma música ou curtindo o movimento ocasional de carros e luzes, vou arquitetando uma sutil e importante poesia que me mantém um pouco mais satisfeito em estar acordado, apesar de não ter muita reciprocidade com aqueles que gostaria. Cruzar a noite sozinho não é um problema em si, sendo até muito prazeroso, mas tem dias em que queremos contar alguma coisa a alguém, ser ouvido, poder olhar nos olhos ou simplesmente ter uma agradável visita, mesmo que virtualmente. Tem momentos específicos que sinto falta de uma mensagem, uma voz, um movimento no vídeo ou mesmo os mimos presenciais que surgem da interação com pessoas e ambientes, como os perfumes, as texturas, os toques, o passar do tempo, os olhares, o desenrolar das situações de forma um pouco mais imprevista, entre outras coisas.

Não sei onde estão os noturnos e nem sei quantos são. Muitos escolhem a noite por falta de opção, seja pela insônia ou por uma vaga de trabalho. Eu, escolhi a noite por gosto e por inevitável característica de nascença. Me interesso pelo aspecto silencioso da noite, contemplando a lua e as estrelas, sentindo o vento no rosto enquanto olho pra lugar nenhum naquela escuridão que permeia os telhados mal iluminados da cidade. Saturei meu físico e minha disposição por longos anos em casas noturnas, bares, apartamentos de amigos, festas, ensaios musicais, shows e uma coletânea paralela de sonos interrompidos ou mal cumpridos. Mas, também, muitas compensações ao descansar nos dias subsequentes a todas essas agitações.

Acredito, inclusive, que existe uma enorme relação entre a vida noturna acordado e o apreço por dormir. O mundo dos sonhos é aquele mundo onde o irreal é possível e tudo tem um componente intrigante, misterioso, que embora pareça realista, é uma grande fantasia, por assim dizer. Na vida real, acordado durante a noite, sinto que o mundo se torna um lugar fantástico, onde as coisas podem ser mais do que normalmente são. As pessoas se tornam outras pessoas, a cidade tem outra aparência e até os becos mais descuidados ficam recobertos de uma beleza clean pela ausência de detalhes. Onde falta realidade, há espaço de sobra pra imaginarmos o que quisermos e, então, sermos personagens em cenários idealizados. Uma cidade pode se tornar palco para criarmos uma história um pouco mais agradável de se exercer, já que seremos obrigados, até o fim da vida, a sermos protagonistas e diretores desse espetáculo. Que seja algo bom, então.

Quando muitos estão se despedindo, eu estou me apresentando, chegando, tomando um banho, vestindo meu coturno, tomando um café e começando minhas tentativas de fazer sentido no mundo. Às vezes dá certo e posso notar um ou outro noturno perdido na multidão de dorminhocos que levantam a mão pra acenar que estão acordados, sinalizando uma interação em uma postagem na internet ou deixando uma mensagem. Nesses momentos, sinto como se estivesse em uma praia deserta e, de repente, visse alguém acendendo uma lanterna em uma ilha distante. Dá uma sensação de que ainda estou vivo, que ainda sou visto, que ainda existo e que há mais gente na mesma situação. Talvez haja um pouco mais de identificação entre os noturnos, justamente por não serem maioria na sociedade. Mas é preciso lembrar que, mesmo em minoria, o número de noturnos é significativo e seria muito bom se as pessoas tivessem um pouco mais de olhos pra esse nicho de realidade. Várias vezes quis exercer atividades que simplesmente não podia, porque não havia nenhum suporte na cidade que contemplasse esse estilo de vida.

É raro encontrar onde se possa comer de madrugada e, mais raro ainda, achar algum comércio noturno que não seja estritamente de comida e bebida. Se eu quiser comprar roupas, pagar meus boletos, visitar um museu de arte ou assistir um filme no cinema, estou obrigado a escolher horários convencionais ou simplesmente não fazer nada disso. Assim, a vida noturna torna-se um pouco mais difícil por falta de opções. Por outro lado, enquanto pouca coisa acontece, abre-se espaço pra uma experiência mais lúdica e minimalista, com pouco ou nenhum trânsito, quase tudo apagado, pouca gente circulando e, dependendo do lugar e do bom senso das pessoas, um silêncio agradável.

Aqui onde eu moro atualmente, infelizmente, não desfruto dessa paz, já que, sabe-se lá como e porquê, uma trupe sempre ocupa as ruas próximas para berrar, “conversar” e pesar na terra, apesar do horário tardio em um bairro estritamente residencial com grande parte de idosos e enfermos. O que eu faço, então, sempre que posso, é ir pra bem longe daqui e andar pela cidade, pensando em assuntos e contemplando pequenas coisas. Quando não posso, desabafo e tento fugir desse caos desnecessário, com headphones e boa música. Nem sempre é eficiente, porque é difícil competir com os decibéis dos imbecis, mas sigo tentando, pois não tenho opções melhores por enquanto.

Fico me perguntando se melhoraria ou pioraria estar em uma cidade que, embora tivesse mais tranquilidade pros meus ouvidos, fosse tão inativa durante a noite que me deixasse desmotivado em estar lá. Já viajei pra vários lugares incríveis e passei vários dias e noites fotografando e apreciando o lugar, com pouca ou nenhuma interação com as pessoas, sem depender tanto dos comércios, exceto vez ou outra pra comprar comida e bebida. Talvez esse próximo passo para uma vida cada vez mais minimalista possa ser viável, mas exige também um postura diferente das atividades profissionais, pois, onde tem pouca agitação, tem também outro modo de se levar a vida e o trabalho. Adoraria sentar à mesa e desenhar, escrever, ler, conversar ou sair pra fotografar. É uma pena que, pra coisas simples como essa, precisamos de um mínimo de estabilidade financeira pra bancar as contas da casa e a pequena estrutura de um computador e câmera fotográfica. Além disso, se vamos precisar trabalhar pra sustentar esse pequeno contexto, ocuparemos boa parte do nosso tempo fora das atividades idealizadas, a menos que consigamos unir trabalho e prazer em uma atividade só. E é esse plano mirabolante que eu tenho tentado arquitetar noite após noite.

Atualmente, depois de muito conquistar e aprender coisas importantes pro meu crescimento pessoal, ainda há um grande buraco no crescimento financeiro. Sinto falta de estar unido a outros noturnos que possam formar uma rede de apoio em vários sentidos. Idealizar mudanças para uma vida minimalista e noturna, passa, muitas vezes, pela necessidade de conquistar autonomia financeira suficiente pra financiar esse lifestyle de ausência dos horários convencionais de trabalho, ausência dos espaços e modelos convencionais de socialização e também uma visão diferente sobre o que é viável de se exercer com qualidade, eficiência e prazer, como, por exemplo, poder concretizar essa lacuna de ser um escritor ou artista visual. Tentei a Fotografia, por outro viés, por longos 17 anos e foi cansativo. Atualmente tenho investido meu tempo na execução de mídias e conteúdos, o que me dá chance de estar satisfeito e ser útil ao mesmo tempo. Resta esperar que isso seja também viável financeiramente e que eu possa finalmente me tornar um noturno de sucesso. Bom dia pros diurnos e boa noite pros noturnos!

Rodrigo Meyer