Seu medo, seu inimigo.

Na temática da autossabotagem, o medo ganha disparado. Indivíduos que baseiam suas vidas em uma grade constante de medo, estão sempre paralisados e aquém de seus potenciais. O motivo é muito simples. A medida em que determinam aquilo do qual possuem incerteza, insegurança, receio ou pouca resolução, tornam-se resistentes a isso, no sentido de armar uma postura de defesa, de recusa. E, claro, se recusamos algo, ficamos sem.

O ser humano consegue desenvolver muitas nuances de medo e consegue controlar também como e quando isso o afeta, desde que esteja em domínio na causa do medo ou do tema ao qual ele se refere. Há pessoas, por exemplo, que possuem medo de se envolver emocionalmente com outras e, por isso, recusam as oportunidades, incluso as positivas, apenas porque automatizaram uma defesa. Tal mecanismo de defesa, extensamente conhecido na Psicologia, faz as pessoas serem vítimas de si mesmas, antes de sequer terem a chance de se tornarem aquilo que não queriam inicialmente: tornarem-se vítimas de algo ou alguém.

Mas é claro que nada é tão simples como apenas definir o que sentir ou pensar sobre as coisas. A mente humana gera situações, ideais e estruturas com base em traumas, complexos e outros contextos que fragilizam o indivíduo a ponto de colocá-lo fora da lógica ou da naturalidade. A exemplo disso, algumas pessoas se sabotam, consciente ou inconscientemente, fugindo de monstros imaginários. Há quem sonhe com estilos de vida, empregos e todo tipo de realidade de carreira ou vida pessoal e, quando colocados a exercer essa jornada, recuam sob inúmeros pretextos. Alguns lançam mão do artifício de sentirem-se inaptos ou insuficientes pra tal feito. Vão dizer que não há saída pra eles ou que não podem aderir a algo, simplesmente porque as condições não permitem. É hora de criar mil e uma fantasias pra tornar aquela realidade desejada, porém assustadora, algo inalcançável. Começa, então, um show de desvios pouco racionais.

Sinta-se a vontade pra rir desse caso que vou usar de exemplo. É o primeiro que me vem na mente de forma instantânea. Trata-se de uma pessoa que passou a vida toda se queixando da vida difícil, dos poucos recursos financeiros, ao mesmo tempo em que, sempre que tinha qualquer progresso ou brecha para melhorar de situação, tomava alguma decisão que eliminasse as chances de desfrutar daquilo. Foi o caso, por exemplo, de quando, diante de uma promoção de cargo no emprego, decidiu pedir demissão ao invés de usufruir de um trabalho com melhores condições e muito melhor remunerado. Qualquer pessoa mentalmente saudável e sensata acharia um disparate essa conduta. Mas, pra uma pessoa que morre de medo de tornar-se próspera, qualquer porta pra essa guinada na vida era motivo pra se afastar, sem pensar muito. O único motivo pra se considerar esses medos patológicos é justamente a característica de oposição ao bem-estar da pessoa e da ausência de motivos racionais pra tal. Se pratica, por opção própria, uma conduta que não a ajuda a se sentir melhor ou a viver em melhores condições, então vê-se aí uma situação doentia.

Ainda nesse exemplo citado, a pessoa sentia-se tão apavorada com a ideia de prosperar, que sempre que tinha a sorte de conquistar algum dinheiro, fazia o pior uso possível desse dinheiro, exterminando ele em pouco tempo com algo completamente desnecessário. Uma vez compreendida a estrutura desse tipo de autossabotagem, pode-se imaginar inúmeros outros casos em todas as temáticas da vida, onde as pessoas simplesmente inventam motivos pra continuarem insatisfeitas com a vida. Cutucando suas mentes, voltando ao tempo da infância (provavelmente), frequentemente encontram as razões pelas quais sentem-se pouco merecedoras dos benefícios da vida ou da própria liberdade em viver. Quase sempre é uma interpretação automática da mente depois de associar que a postura ou palavra depreciativas de alguma figura importante (como um pai ou mãe) tenham sido convertidos em uma espécie de impressão sobre si mesmo com base nesse critério. Em resumo, é como se a mente da criança complexada pensasse: “se meus pais não me enalteceram, então eu não tenho valor” ou “se meus pais me diminuíram, então não tenho valor” ou ainda “se meus pais estavam ausentes, é porque eu não era importante pra merecer a presença deles”. Esse tipo de associação fácil é comum, mas é uma falha da mente, especialmente na infância em pessoas com baixa autoestima ou de mente mais frágil.

Contextos similares podem fazer as pessoas terem condutas de autossabotagem sem perceber que tudo aquilo de que fogem, pode simplesmente ser uma fantasia desnecessária. Ao mesmo tempo em que sentem-se mal pelos reveses que elas mesmas criam, não conseguem parar de criar. Essa automação na mente e nas condutas diante das decisões, pensamentos e relacionamentos, pode gerar uma espécie de personagem que toma o lugar do indivíduo, como que se já tivesse se esquecido quem ele é ou poderia ser, depois de ter passado tanto tempo endossando a figura diminuída, frágil, lida como incapaz ou não merecedora. Reverter essa visão e essa automação é uma tarefa que o indivíduo está habilitado a fazer, se assim quiser. O sucesso disso depende de quanta noção e disposição ele tem pra varrer e transformar a si mesmo. Não é fácil encontrar-se diante do espelho e falar umas boas verdades, antes de se estar devidamente imune ao peso delas. O caso é que verdades só pesam para quem as evita. Tão imaginário quanto os equívocos dos complexos é essa visão de que verdades são incômodas. Quando estamos em posição de querer viver melhor ao invés de nos prejudicar, a verdade torna-se algo que desejamos com afinco a ponto de sentirmos prazer e alívio em lidar com ela. E é tão somente isso que deve ser a vida.

Agora que sabemos que o medo é nosso inimigo, se não quisermos paralisar diante de nosso potencial na vida, precisamos reforçar nossas escolhas, nosso pensamento, nossa autoestima, nossa mente, revendo nossos problemas de infância, nossas crenças, nossas aceitações e recusas diante das figuras que julgamos importante, inclusive a que deveria ser a mais importante de todas: nós mesmos. Se tomarmos a iniciativa de nos presentear todos os dias com coisas boas, evitamos de fechar nossas portas para uma jornada melhor, maior ou, pelo menos, mais interessante. Não é o caso de pensar que, apenas tendo autoestima e coerência com nossas decisões, já seremos as pessoas mais sortudas do mundo, mas sempre que estivermos diante de alguma situação de oportunidade, teremos, ao menos, condições de tentarmos, de aceitarmos o que nos vem e fazermos o nosso melhor com aquilo. O que estiver ao nosso alcance, devemos fazer pleno uso e o que não puder, tudo bem. A vida começa a fazer um sentido diferente, quando percebemos que ela não é nem o passado, nem o futuro, mas exatamente o momento vivido em cada ocasião. Sinta-se livre pra desfrutar da vida, pois é basicamente isso que determina o resultado da equação. Uma vida melhor, está atrelada ao quanto pudemos aproveitar dos momentos e ter isso como nosso histórico na mente e nas relações com o mundo. Como em um jogo de xadrez, cada novo passo que damos, interfere nas novas opções que teremos em seguida. Não jogar não nos faz vencer e nos sabotar nos faz perder sem necessidade.

Rodrigo Meyer

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A ignorância é casada com a irresponsabilidade.

Ter responsabilidade em algo, pressupõem agir com consciência do que é importante, valoroso, certo, necessário, prudente, etc. Portanto, se formos ignorantes em determinado assunto ou sentido, não teremos os parâmetros para agir com responsabilidade. Seria o mesmo que dizer que sem conhecer como funciona a Física, não há como construir nada seguro na Engenharia. Princípios simples de como a vida e as pessoas funcionam, são necessários para desempenharmos responsabilidade junto a elas.

Agora que está compreendido porque a ignorância está sempre junto com a irresponsabilidade, é preciso pensar se nos portamos de forma responsável ou irresponsável com cada uma das coisas. Se, eventualmente, nos notarmos irresponsáveis, precisamos admitir que estamos ignorando informações sobre o tema. Ser ignorante sobre algo, ao final das contas, é simplesmente ignorar algo, no sentido de não ver, não compreender, não perceber algo. E se temos ignorância diante de tal coisa, somos automaticamente os menos indicados a falar ou tomar decisões sobre.

No meio político, por exemplo, é imprudente e improdutivo deixar que pessoas ignorantes comandem os rumos de uma determinada assunto da sociedade. Da mesma maneira que você não colocaria um leigo em Medicina para atuar como médico, você não colocaria um ignorante em determinado tema pra atuar em nome deste assunto.

O mesmo pode ser dito pra todas as áreas de estudo e atuação na sociedade. Encontraremos muita irresponsabilidade se deixarmos ignorantes regerem ou agirem pela História, Medicina, Arte, Filosofia, Comunicação, Literatura, Informática, Política, Psicologia ou qualquer outra área possível de ser imaginada. A responsabilidade sempre será necessária em toda área concebível, justamente porque se espera que dela se tenha conhecimento e não ignorância.

Flexibilizar a ignorância, apesar de parecer, a princípio, ruim, é necessário e positivo. Trata-se de, por exemplo, considerar que todas as pessoas tem, em algum grau, conhecimento sobre algum assunto. Claro que, muitas vezes, o conhecimento é tão pequeno que é insuficiente pra se apresentar um pensamento consistente, válido ou útil. A exemplo disso, poderia dizer que não posso propor teorias de Astrofísica apenas por saber que a palavra ‘astrofísica’ existe. Seria conhecimento insuficiente pra objetivos tão pretensiosos. Seria necessário, no caso, alguma noção adicional sobre do que trata a Astrofísica, em que ela se baseia, quais as premissas do estudo e o que já foi estudado e proposto antes.

Isso não significa, porém, que uma pessoa está impedida de ter seus pensamentos sobre qualquer assunto. Até mesmo a imaginação sobre o desconhecido é importante e deve estar sempre livre pra ocorrer. Seria como dizer que uma pessoa leiga em Astronomia pode contemplar na imaginação a cena de astronautas e estrelas, sem que isso lhe seja proibido ou ruim. É, inclusive, por meio da imaginação e da curiosidade que desenvolvemos interesse de conhecer mais a fundo determinados assuntos ou pessoas. Muitos de nós aspirou na infância um futuro em alguma profissão quando fossemos adultos.

No dia-a-dia, fazemos coisas similares ao cruzarmos pelos assuntos e ocorrências. Ao lermos um título de uma notícia na rede social, somos levados a consultar na mente tudo que sabemos sobre aquelas palavras, o que elas significam e o que elas suscitam sob aquele específico contexto. Se não conhecemos o contexto, perdemos a condição de avaliar com eficiência aquele conteúdo. Em razão dessas barreiras para o consumo de conteúdo, muita gente se vê desanimada, pois acredita que terá sempre que fazer um grande esforço a cada vez que fitar os olhos pra um título na tela. Mas a verdade é que quanto mais você aprende, mais fácil e rápido fica compreender os novos conteúdos que lhes são apresentados. A razão disso é que uma vez que você aprende sobre conceitos, palavras e combinações, você permite que seu cérebro busque um atalho para acessar uma versão rápida do significado de tudo aquilo assim que nota os sinais daquela realidade que lhe foi apresentada. É o caso, por exemplo, quando um médico consegue fazer um diagnóstico de maneira rápida, baseado apenas na observação dos sintomas. De tanto se deparar com repetidos casos iguais, o cérebro automaticamente associa os sintomas a algum provável quadro médico.

E este é o legado que desejo deixar por hoje. Ao se ver diante de um assunto novo ou que, mesmo não sendo novo, você ainda não tenha conhecimento suficiente, não limite-se na sua dedução, pois ausência de conhecimento suficiente vem acompanhada de conduta irresponsável. Este princípio é universal e é por isso que em toda cultura do mundo, por sabermos, por exemplo, que crianças tem pouco conhecimento sobre determinados assuntos, os adultos se antecipam às crianças de forma a prevenir atitudes danosas e irresponsáveis. Pra ilustrar, imagine que em uma casa com bebês, crianças ou animais, costuma-se colocar tela de proteção nas varandas, esconder as facas em local menos acessível ou mesmo monitorar pra que estes não estejam em contato com a panela quente da cozinha, etc.

Como visto, o conhecimento ajuda a ter uma conduta responsável e, por isso, é papel de quem tem, usar a favor dos demais e de si mesmo. Quando nos deparamos com um grupo de pessoas na sociedade que pouco sabem da realidade, é importante que façamos nossa intervenção com conhecimento, transferindo poder e autonomia pra estes. Assim, construímos pessoas responsáveis e evitamos danos indesejados. Todo conhecimento que você tiver, compartilhe com outras pessoas e ajude cada uma delas a absorver o real sentido das coisas, das palavras, das pessoas, dos valores, etc. Aprofunde o conhecimento dos iniciantes, dos amadores, dos aprendizes, dos leigos. Amplie a conexão entre informação e transformação de pensamento, pois é isso que determina que tipo de ação as pessoas terão sobre si mesmas e o mundo.

Há uma frase bem interessante sobre isso que diz que ‘para burlar uma regra é preciso conhecê-la.’. Usa-se muito isso no segmento da Arte, para dizer que é preciso conhecer os fundamentos pra poder, posteriormente, impor suas mudanças e personalidade como artista, de forma consciente, consistente, etc. De fato, em tudo na vida, quanto mais dominamos um tema, mais controle temos para sermos independentes, criativos, surpreendentes. Para inventar o futuro  de maneira assertiva é preciso conhecer as necessidades do presente e desviar das limitações e erros do passado.

Rodrigo Meyer

Saudade de pessoas ou de momentos?

Essas são confusões que muita gente faz e não nota. Ao se ver relembrando situações e desejando reviver aquilo, não sabe diferenciar se a saudade que parece estar tendo é da pessoa ou do momento. Por vezes, quando gosta de algo, atribui a sensação de prazer para as pessoas que estavam presentes no momento em que este algo ocorreu. É quase que automática a associação, mas ainda são coisas separadas.

Relembrar de um abraço, uma gargalhada, uma viagem, a experiência de dividir um jantar feito em casa ou mesmo a experiência de prazer que uma pessoa lhe deu em algum momento da sua vida, são memórias que falam de momentos e não necessariamente das pessoas. Podemos querer sentir novamente o benefício de um abraço, de uma viagem, de uma refeição, de ter companhia pra jantar, mesmo que não estejamos precisando ou querendo mais daquelas específicas pessoas que já nos dividiram esses momentos. Se for esse o caso, a saudade é de momentos.

Se a saudade é de pessoas, não importará exatamente os momentos ou os benefícios isolados de cada um deles. Com este tipo de saudade, você sente falta da presença de alguém. Quando vivemos momentos intensos com pessoas que marcaram uma época de nossas vidas, podemos acabar pensando que os impulsos na memória dessa época, são sinais claros de que fomos agraciados por pessoas insubstituíveis. Há de se pensar algumas outras vezes a mais pra distinguirmos o que é que queremos na verdade.

Às vezes chegamos a conhecer e experimentar momentos tão gratificantes que ficamos exigentes e até saudosos do passado. Aquilo que não temos hoje ou não com a mesma intensidade ou frequência, pode ser um grande motivo de saudade. É saudade de momentos. Depois de um certo tempo de vida, se viveu algumas boas histórias, vai poder olhar pra trás, suspirar, sorrir e desabafar, mesmo que em silêncio, sobre como gostaria de passar por mais daquilo novamente. Algo muito saudável, inclusive. Mas se a saudade é sobre pessoas ou se você está confundindo pessoas com momentos, talvez precise ser mais cauteloso e menos impulsivo.

Frequentemente  aquilo que abandonamos uma primeira vez, pode nos fazer pensar no passado. Revisitar mentalmente esses contextos, pode fazer nosso corpo reviver as mesmas sensações físicas e emocionais. É comum, por exemplo, sorrirmos novamente ao lembrar de um momento em que estávamos sorrindo. Emoções são contagiosas e nossa mente é um poderoso gatilho pra todas elas. A princípio parece uma boa ideia reviver uma alegria ao lembrar de outra alegria do passado. Mas se isso te coloca em confusão sobre o que fazer sobre isso, pode ser necessário controlar ou ressignificar as memórias.

Quando você lembra de um jantar em família, com todos reunidos e contando piadas, você sabe dizer se o seu prazer era por um contexto de jantar com um grupo de pessoas dividindo piadas ou se realmente está fazendo conexões com cada uma daquelas pessoas, independente do que ocorria nesse evento? Se tiver a firmeza necessária pra diferenciar, você está realmente pronto pra tomar decisões sobre suas memórias, suas escolhas de vida, suas intervenções no passado, eventualmente trazendo-o para o presente na forma de novos relacionamentos, novas fases de relacionamentos interrompidos ou até mesmo novos desejos e objetivos pras pessoas com quem você já esteve conectado alguma vez.

Na vida, nada é estático. Tudo está em constante movimento. Mesmo quando estamos, de certa maneira, “presos” a certas pessoas, épocas, locais ou situações, tudo isso está pulsando e mudando, caminhando pra novos tempos, novos contextos, novas surpresas, novos desafios. O futuro não vem pra trazer garantias e nada do que queremos hoje pode ser elevado ao status de ‘definitivo’. Isso não significa, porém, que não possam existir relacionamentos duradouros ou até perpétuos. Apenas significa que não há garantias. Tudo que ocorre, incluindo o que perdura pra vida toda e o que se encerra em qualquer outro tempo, são surpresas que nos aguardam.

Por isso, mais importante que formar expectativas sobre o futuro e as pessoas é concentrar-se em olhar pro passado e manter-se resolvido sobre ele, consciente e com uma boa distinção do que vê e sente. Só assim você vai poder tomar as decisões certas pro momento presente.

Diversas vezes eu olhei pra trás e fiquei orgulhoso dos momentos gratificantes que eu vivi, mas muitas das pessoas que protagonizaram estes momentos ao meu lado não são importantes como os momentos foram. Pessoas são, eventualmente, substituíveis, se o objetivo é desfrutar de momentos e não de pessoas. São também substituíveis se quisermos tomar contato com tipos de pessoas e não com indivíduos específicos. Há muito pra se conversar com o coração e ensinar a ele um pouco mais de razão, mas não pra tirar-lhe sentimentos, mas pra dar significado ao que se sente, pra que se possa sentir mais e mais, sempre com a segurança de estar crescendo e se regozijando ao invés de cair na armadilha do ‘simplesmente andar pra trás’.

Toda saudade e saudosismo levanta questões importantes. Não as negligencie, pra não correr o risco de repetir erros da memória ou da História. O cérebro humano é composto por razão e emoção. Nenhuma delas caminha de forma saudável sem a proporcional presença da outra. Se quiser construir um bom futuro, seja um bom interpretador do passado.

Rodrigo Meyer

Evitando a autossabotagem nos conselhos.

Imagine-se ouvindo um conselho do qual você concorda, mas ao invés de fazer algo a respeito, ignora o conselho. É o mesmo que ir ao médico e ouvir que precisa estancar o sangramento pra não morrer, concordar com esse fato, mas, ao invés de agir pra estancar o sangramento, ignorar o médico e continuar a vida como se nada tivesse acontecido. O que isso denota?

Se a pessoa entende que o melhor pra ela é determinada coisa e simplesmente ignora tal coisa, ela está optando por não se ajudar, optando por ignorar a razão. Pode-se concluir, então, que essa pessoa não se gosta, não se ama. Ao se enxergar como alguém que não merece tal cuidado ou benefício, deixa de aderir ao necessário pra se ver bem, feliz, saudável, em paz, etc. Se estivesse em posição contrária, com amor-próprio, seria a primeira a se interessar por todo bem-estar pessoal diante de qualquer situação.

Quando uma pessoa não se acha merecedora o suficiente, ela sabota a si mesma. É o caso quando escolhe, consciente ou inconscientemente, ser passada pra trás, ser explorada quando não precisa, se entupir de produtos e conteúdos ruins, degradar-se diante de situações ou pessoas, cercar-se de pessoas sem qualidade, aceitar prejuízos sem reagir, acomodar-se diante dos malefícios que chegam até si, entre tantas outras coisas.

Conselhos, como eu já disse outras vezes, é algo totalmente inútil, pois as pessoas só fazem aquilo que querem fazer. A liberdade de decidir nossas próprias vidas, nos dá a brecha de ignorarmos conselhos, mesmo quando concordamos com eles. Você já deve ter visto, por exemplo, médicos que não possuem hábitos saudáveis. Isso mostra que conhecer o que é adequado pra uma situação não é o suficiente pra que as pessoas tomem uma ação positiva sobre o assunto. De maneira semelhante, a pessoa que detém o conhecimento por um conselho e não faz uso desse conselho pra agir, está ignorando a potencial ajuda para seu problema.

A mente humana é muito mais complexa do que um computador. Não basta apresentar dados e lógica, pois as pessoas detém outras questões em suas mentes. O campo dos sentimentos, os traumas, complexos, medos e outras inúmeras variáveis de suas personalidades, vão influir em como essas pessoas lidam com seus próprios problemas. Diz-se que algumas pessoas são acomodadas diante das situações e por isso não resolvem suas barreiras. Em parte isso é verdade. Deixa de ser verdade, apenas quando a pessoa não detém as condições pra fazer as mudanças que gostaria. Todo aquele que tiver condições de fazer algo sobre o problema que tem, está responsável por esse problema tanto quanto pela escolha da inação ou da ação contrária ao benefício.

A autossabotagem é muito comum e grande parte das pessoas estão em situações das quais não precisariam estar. Precisam, portanto, se resolverem primeiro, do ponto de vista psicológico, para superarem traumas e complexos e passarem a desenvolver amor-próprio. A partir do amor-próprio, agir em favor de si mesmas será algo natural e automático. A medida em que as pessoas se colocam como prioridade e como merecedoras de bem-estar, elas não se permitem ter nada menos que isso e fazem uso de todas as oportunidades que surgirem pra melhoria de suas próprias realidades e condições.

Você pode achar fantasioso demais, porém, existem pessoas que largam empregos caso haja qualquer chance de serem promovidas ou de ganharem salários melhores. Para alguns, isso beira a insanidade, mas existem pessoas que tem um pavor, consciente ou inconsciente de levarem vidas melhores e se sabotam pra evitar que desfrutem das melhorias, recusando tudo que possa lhes colocar em vantagem. Os motivos podem ser diversos, como, por exemplo, não ter coragem de agir com outras questões que poderão surgir caso elas não tenham mais o pretexto da pobreza financeira. Munidas do insucesso, elas se escondem atrás desse pretexto pra não agirem em questões como divórcio, mudança de postura sobre certas pessoas, entre outras coisas.

As “razões” por trás de uma conduta variam de pessoa pra pessoa. Somente uma análise profunda de si mesmo, com sinceridade, diante do espelho ou de um profissional de terapia, poderia resolver essas questões que só tomam nosso tempo e nossa qualidade de vida. É difícil admitirmos pra nós mesmos que estamos sendo autores de nossa própria desgraça, principalmente quando sequer precisaríamos passar por certas situações. Sobe um sentimento de vergonha por sabermos que poderíamos ter feito diferente e não fizemos. O comodismo não nos causa orgulho e paz. Só nos sentimos bem se tudo que estamos fazendo está de acordo com nossos ideais.

No que você tem se sabotado ultimamente ou ao longo de sua vida? Já se perguntou as razões de seus medos, inseguranças, traumas e inações? Como anda seu apreço por si mesmo? Há mudanças precisando ocorrer pra que toda humanidade se veja capaz de ser e ter coisas boas, de maneiras boas, por motivos bons. Se cada um fizer sua parte, uma realidade paradisíaca é garantida.

Rodrigo Meyer

O que você faz quando questionam suas fraquezas?

Se alguém evidencia suas fraquezas questionando elas, mesmo que indiretamente e involuntariamente, você é obrigado a tomar consciência de quem você é diante daquele tema e, mais do que isso, quem você é ao lidar com a situação depois disso. Muita gente tenta descontar nos outros essa frustração pelas próprias fraquezas. E isso é a tentativa de varrer tudo pra debaixo do tapete e não ter que lidar com um problema que não é de ninguém ao externo.

A opção mais sensata é aceitar suas falhas, compreendê-las melhor e tomar iniciativas que possam te ajudar a fazer diferente nas próximas vezes. Ninguém tem culpa de suas fraquezas depois que elas já nasceram. Talvez, situações do passado, provavelmente de sua infância, pelas mãos de seus pais ou responsáveis, tenham lhe moldado pro desenvolvimento de suas crises, inseguranças, ignorâncias, preconceitos e falhas em geral. Talvez tenham sido as pessoas de sua comunidade, de seu grupo escolar, religioso ou até mesmo seus contatos de amizade, eventualmente, mal escolhidos pela própria somatória de problemas paralelos e/ou anteriores.

Uma vez que somos aquilo que não gostamos de ser ou que somos aquilo que não nos ajuda a vencer e cruzar a vida com dignidade e tranquilidade, já estamos impactados por questões anteriores que nos deixaram assim. Talvez, o único culpado nessa história, antes de você, sejam as pessoas do seu passado. Mas se elas também falharam, quem falhou para elas se tornarem falhas? Falhou a sociedade, o sistema de ensino, a cultura, a política, a humanidade, os amigos, professores, anônimos e tudo mais que cerca os indivíduos. Falhou a ideologia, os princípios, os valores, o referencial, as escolhas, as opções. Assim, se quisermos resolver os problemas, temos que levar em conta as causas dele e não as consequências óbvias.

Importante para cessar a proliferação desse círculo vicioso de falhas uns com os outros é não jogar peso ou culpa pra cima das pessoas da atualidade que suscitaram suas falhas preexistentes, evitando, assim, de plantar novos problemas nessas pessoas e em si mesmo. Também não precisa definhar colocando toda culpa em si mesmo, afinal já sabe que os contextos anteriores a seu problema, te levaram a ser quem é. Somos seres flexíveis com uma plasticidade fantástica na mente se quisermos transformar nossas ideias e atitudes. Enxergar o problema é metade do caminho. É perceber aquilo que não queremos mais. A partir daí segue uma procura sobre o que queremos de verdade pra substituir aquilo e como alcançaremos isso.

Respostas genéricas não supririam a especificidade de cada caso. Dependendo de quais falhas você tem, qual a intensidade, qual sua personalidade e seus contextos do passado, presente e possibilidades do futuro, as ações a serem tomadas mudam completamente. É sensato fazer autoanálises constantemente. Pause sua vida, sua rotina, para compreender-se melhor, antes de dar novos passos rumo à sua transformação. Esse processo é sempre gradual e de momento e, claro, não existem atalhos. Ou você olha e toca com sinceridade no seu interior ou estará sempre varrendo os problemas pra debaixo do tapete. Nesse caso, estaria varrendo a causa dos problemas, o que é ainda mais drástico.

Se suas mudanças não estão dando resultados satisfatórios, talvez seja hora de buscar ajuda com alguém de fora que possa te orientar. Talvez seja oportuno buscar um profissional da área de psicologia, um terapeuta ou até mesmo a sabedoria de amigos ou parentes mais velhos. Permita-se a oportunidade de realmente acertar e vencer, alinhando-se com seus potenciais.

As fraquezas humanas são muitas e variam em tipo, origem e intensidade. Ninguém está imune a falhar ou a precisar retificar falhas. O convívio em sociedade já nos cobra isso, mas mesmo se estivéssemos sozinhos no Universo, ainda teríamos que lidar com nosso Eu Interior, nossa consciência, nossa voz interna, nossos pensamentos, nossas emoções, sensações, aspirações. Lidar com a existência é uma tarefa árdua que já custou a vida de muitos pensadores ao longo da História.

Nunca saberemos ao certo quais são as chaves para tudo, mas temos que perseguir as práticas e filosofias que nos entregam bem-estar pessoal e coletivo. Precisamos harmonizar, tal como uma peça bem projetada pra figurar em uma decoração de ambientes ou como uma peça mecânica que cumpre a função necessária numa máquina. As coisas e pessoas precisam existir de forma a se obter o melhor resultado dentro dos objetivos, com o menor dano possível. É muitíssimo provável que pessoas ainda mais despreparadas, se coloquem como oposição no meio do seu caminho e que tentem frear sua transformação, especialmente se sua atitude impacta a coletividade em termos de liberdade, bem-estar, expansão da consciência, quebra de paradigmas, empoderamento e independência.

É comum e esperado que os opressores que nos rodeiam tenham recusas intensas sobre qualquer oprimido que tente fugir ao seu controle, tal como o personagem Neo na trilogia de filmes “Matrix”, onde ele é barrado pelo agente Smith, que, no final das contas, é apenas a essência que contamina tantos outros indivíduos que assumem a “aparência” do agente Smith, como se fossem tomadas, convertidas ou assumidas por essa essência que os toca e incorpora nestes. Cabe a nós ficarmos atentos ao tipo de pessoas que tentam nos deixar marcas, sugestões, impressões, ideias, estilos de vida, conceitos, supostos argumentos. Cave fundo na raiz e veja se isso procede, se isso é falho, se isso é reflexo de outros problemas preexistentes e se essas pessoas ou situações não estão, na verdade, querendo que você imite-as apenas pra elas não terem que aceitar que elas mesmas estavam erradas e precisando também serem transformadas. O fraco não costuma aceitar errar sozinho. Muitas vezes ele quer que outras pessoas errem com ele, pra ele poder fingir que isso é um acerto, fechando-se, assim, num grupo onde ele ainda pode ter o benefício psicológico e subjetivo da pertença e aceitação.

No mundo atual, cheio de cegos e opressores, se não estamos incomodando ninguém com o que dizemos, fazemos e somos, então não estamos dizendo, fazendo e sendo nada de bom. É pelo contraste das situações que você percebe onde está em relação ao outro e qual o contexto total dessa mistura. É olhando de fora desse mosaico que você entende a realidade e decide o que fazer ao voltar pra ela. Para ir pra frente, conte comigo.

Rodrigo Meyer

Perdi momentos em algum lugar. Estou procurando.

Já teve a sensação de estar em busca de uma experiência que não sabe bem o que é, mas que lhe faz falta? Talvez seja uma tentativa de replicar momentos muito bons do passado. Tem dias que me dou conta de que o que estou buscando já não existe mais. Não exatamente os momentos, pessoas e lugares que já passaram, claro, mas a essência desses momentos. Já passaram as fases, as oportunidades, as condições, os contextos, as idades ou qualquer coisa que seja a chave pra experiência em questão.

Nos últimos dias estive mais consciente disso, depois que já vinha arrastando essa sensação por muitos anos. As pessoas, muitas vezes, chamam de ‘nostalgia’, mas não sei dizer se é isso. Eu não me importo tanto que tenham sido ocorrências do passado e nem sou daqueles que vive dizendo que no passado as coisas eram melhores (embora, muitas vezes, até tenham sido mesmo). Mas o caso é que meu apego com esses momentos é uma saudade que poderia, perfeitamente, ser revivida nos tempos atuais, pois não depende de nada excepcional ou exclusivo só daqueles tempos.

Talvez eu esteja sendo simplista demais, pois, mesmo o simples é raro em nossa sociedade. Acredito que eu esteja em busca de momentos que eu perdi e não soube aproveitar. E hoje, com mais noção da realidade, quero a chance de me reposicionar sobre cada um daqueles minutos. Com certeza faria um espetáculo acontecer mesmo nas manhãs mais entediantes.

Sento na beira da cama e fico me perguntando onde é que estão as pessoas que cruzavam apartamentos no centro da cidade, com seus comprimidos, seus dinheiros amassados, suas valiosas compulsões, seus desleixos, suas roupas descosturadas, seus dentes poeticamente imperfeitos, suas manias, suas melancolias, suas doses diárias de sofá e lençol sujo. Onde estão as pessoas que, repetidamente, desperdiçaram tardes comigo em troca de tão pouco. Sim, são momentos simples, mas que deixaram uma marca de satisfação muito grande. Tantos anos depois ainda estou procurando o que é que deixei escapar enquanto segurava meus copos de bebida em outros lugares. Por que é que fui por um caminho e não por outro? Onde estão as pessoas que não sobreviveram a tão pouco?

Mas também não vou adoecer da mente apenas pelo que não vejo mais. Sei que essas pessoas também tiveram seus caminhos alterados e muitas delas já não estão sequer vivas pra contar suas versões. Talvez em algum lugar estejam sorrindo ou assombrando algum buraco no Centro da cidade. Por muito tempo imaginei que eu também teria um desfecho parecido, acreditando que morreria jovem e repentinamente, por álcool ou suicídio.

Durante a infância e adolescência, flertei muitas vezes com varandas e janelas. Meu sonho acordado preferido era me ver saltando delas. Mas eu não vim contar de momentos ruins, embora eu saiba que histórias tristes são sempre boas histórias. Eu queria refletir sobre o tempo, o momento, a saudade e qualquer mistério oculto que esteja entre essas palavras. Talvez eu não chegue a nenhuma conclusão, mas vou me satisfazer tentando.

Semana passada eu percebi que estava pronto pra recomeçar minha vida outra vez. As coisas que eu havia deixado pra trás já não tinham mais peso ou significado e, finalmente, tinha chegado a hora de eu limpar os resíduos dessas realidades. Minha memória estava favorável, me ofertando a certeza de que não errei em amputar coisas e pessoas do meu passado. E isso me motivou a construir coisas novas. Desde então, não parei mais de fazer.

Voltei a gravar trilhas sonoras, jingles e a reviver meu prazer com o piano. Em casa, tudo que não é realmente indispensável, está a venda. Estão surgindo novas pessoas, novos projetos, novos lugares, novos sentimentos. Esse ano concretizo coisas que há muito tempo não fazia. Estava com o talento guardado e provavelmente deixava de colocar em prática por desacreditar que poderia ou que valeria a pena. Hoje eu não me importo mais com as possibilidades de erro ou fracasso. Eu tento, faço, refaço, me mostro sem receio e vejo que isso é a melhor maneira de conseguir algum resultado.

Talvez os momentos perdidos que eu estava procurando sejam essas ações que antes eram mais sonho do que realidade. Talvez fossem aquelas peças gráficas estudadas lá pelos meus 13 ou 15 anos de idade, agora buscando expressão no meu trabalho como designer gráfico. Passados mais de 15 anos na Fotografia e depois da faculdade de Comunicação Social junto com a anterior tentativa de Ciências da Computação, deixei minha marca no passado e agora quero deixar uma marca nova no presente.

Revi tudo que era velho e reciclei o que podia. O restante foi diretamente pro lixo, já transmutado, sem rastro de vida. Hoje, o meu maior apego ao passado é apenas sobre a essência produtiva de cada momento. Mesmo aqueles momentos onde eu pouco fazia, mas que, de alguma forma, absorvi prazer e valor. Hoje eu me sento diante do computador e já não estou preso a coisa alguma. Até o smartphone perdeu a razão de ser.

Voltei a criar, voltei a vender, voltei a fazer acontecer. Estou gravando vídeos, escrevendo livro, criando música, esvaziando a casa e preenchendo a alma. Doei as minhas roupas; quero outras (e poucas). Estou conquistando novos espaços, novos abraços, novos motivos pra seguir meu caminho. Não alimento meu presente de passados, mas elejo o essencial de cada momento vivido e replico eles em coisas novas, pra que eu esteja sempre satisfeito em cada momento. A vida é feita da soma dessas boas memórias e é isso que eu quero fazer dos meus dias.

Chego a conclusão de que só perdi o que precisava ir embora e que agora, o momento oportuno, estou fazendo o possível e até um pouco do inimaginável. Estou encontrando o que sempre esteve comigo, estou deixando muita gente perdida que não entendeu que eu nunca estive em certos lados. Acredito que muita gente me enxerga ainda pelo que eu não fiz, sem saber que por trás de muita dor e inação, tinha muito mais do que um bêbado com um copo na mão. Eu não conto muito dos bastidores da minha vida. Eu prefiro o silêncio pra poder surpreender tal como um ninja.

De toda forma, convido cada um de vocês a descobrir um pouco mais da realidade. Em algum momento esbarraremos e viveremos experiências em comum. Lá você encontrará uma face ou fatia da minha personalidade. Que sobrevivam os capacitados e que não haja tempo de sermos alcançados. O passado durou uma eternidade e ao mesmo tempo escapou rapidamente pelas mãos em cada dia vivido. Hoje eu quero plantar mundos, sem perder a boemia suja daqueles olhos sem fundos. Parece dor, mas eu juro que é alegria. É o prazer de me reconectar a lugares onde eu nunca deixei de estar. Vamos lá?

Rodrigo Meyer

Rir ao lembrar de momentos de 10 ou 20 anos atrás.

Para muitos, esse é o tempo de uma vida. Para outros são fases de uma experiência maior. Viver é basicamente uma linha evolutiva de aprendizados e experiências ao longo do tempo. Desse ato de viver, escorrem lembranças, prazeres, sensações, gatilhos, emoções, conhecimento, sabedoria e tantas outras coisas. Tudo que somos hoje é reflexo do que processamos anteriormente. Todos os contextos e detalhes da nossa pessoa e nossas relações com o mundo e outros seres transformam nossa consciência, nosso corpo, nossa vida, nossa memória, nossa história, nossos valores, pensamentos e momentos. Somos sempre diferentes a cada segundo. E quem não muda, já está morto.

Sempre me pego em momentos onde estou experimentando o passado novamente. Rindo de piadas que dividi em algum momento com pessoas que me eram valiosas na ocasião. De certa forma é como uma saudade, pois gostaríamos de voltar a ter aquela experiência. Talvez por isso mesmo é que fazemos esse resgate na memória para revivermos essa projeção do momento para rirmos novamente, relembrarmos um abraço, um olhar, uma frase, uma ideia ou uma situação.

Bom é olhar pro passado e ter muito pra se orgulhar de tudo que fez e foi. Eu estou sempre agradecido por ter feito da minha vida algo próprio, num universo próprio. Isso não significa que não tenha dividido esse meu mundo com inúmeras pessoas. Na verdade, foi por estar tão assentado em meu mundo que pude, com muita firmeza, oferecer minha realidade à todos os que se aproximavam de mim. E foram momentos incríveis de muitas trocas e transformações. É como se conectar finalmente com alguém que seja compatível conosco, tal qual um eletrônico que finalmente encontra o modelo certo de conexão para ter função e ir adiante no seu objetivo.

A satisfação de poder reviver o passado é tão somente a certeza de que tivemos bons momentos. Mas, se ao olharmos pra trás a saudade pesar de forma pejorativa, então algo incompleto ficou nessa história e precisa ser reavaliado e/ou corrigido. O passado não deve ser um peso em que sentimos que perdemos algo, mas sim algo que nos faça sentir ter acertado nossa jornada, nosso caminho de progresso pessoal. Ficar em paz no momento presente depende de estarmos bem resolvidos com nosso passado e não termos nenhuma ansiedade desnecessária com relação ao futuro.

Às vezes parece que dentro da vida existem várias outras vidas. Em cada fase vivenciamos momentos que não sabemos quanto tempo vai durar e quão importantes serão posteriormente na história maior dessa cronologia. Tudo que sabemos inicialmente é que estaremos diante de pessoas e situações e a medida em que as conhecemos vamos definindo um norte para seguir. Como navegantes em mar desconhecido, tudo que temos pra nos basear são as referências próximas do que gostamos e não gostamos, de onde está mais confortável ou desconfortável e o que nos preenche de maneira mais intensa ou menos intensa.

Embora não existam garantias, não podemos abandonar os momentos com medo do que eles possam se tornar no futuro, principalmente sobre a possibilidade do término desses prazeres ou da nossa guinada de interesses na vida. Tudo que devemos fazer é aproveitar o momento, pois só ele é real e ignorá-lo por medos ou incertezas é a receita garantida pra não vivenciar nada além da superfície e terminar a vida infeliz, sem experiência, sem sabedoria, desperdiçar seu tempo e também o dos ouros.

A coisa mais produtiva que você pode fazer pro seu bem-estar psicológico, físico, emocional, intelectual e até mesmo espiritual é se entregar verdadeiramente a cada novo momento. Ninguém poderá evitar que no meio de tudo que existe no mundo, algumas coisas não sejam tão boas como pareciam inicialmente, mas também é verdade que nos surpreendemos muito diante de coisas que começam pouco interessantes e se mostram sensacionais ao longo do tempo. Histórias são construídas e divididas e não nascem prontas. Você nunca poderá saber o que te espera na próxima curva da sua vida e, mesmo com todo filtro que tenhamos, ainda somos consciências explorando um infinito ao redor. Permita-se opções novas, diferentes, improváveis, maiores, melhores e deixe tudo ser tão intenso quanto você tiver potencial pra ser e desejar em si mesmo.

No final das contas é isso que vai te permitir também chegar em certa idade e rir de coisas que ocorreram há 10 ou 20 anos atrás. Talvez você ria de seus próprios erros ou simplesmente reviva seus acertos. Importante é que sinta-se em espaço novo, renovado, mais inteligente, mais flexível, mais sorridente, mais vivo, mais interessante, mais divertido, mais feliz, mais tranquilo, mais amigo, mais bonito, por dentro e por fora. Qualquer hora o tempo passa, a vida te escolhe pra avaliar e você é obrigado a levantar o tapete e lidar com o que ali tiver escondido e negligenciado por tanto tempo na vida. Melhor, então, que sua vida tenha sido construída de maneira leve, transparente e justa. O resto, com boas companhias, sempre se ajusta.

Rodrigo Meyer