Prosa | O fracasso nosso de cada dia.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, marcada com livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Me cobro todos os dias pelas coisas que acredito que deveria estar fazendo e, por algum motivo, não faço. Me apercebo das minhas falhas, das minhas procrastinações e até mesmo da inconsistência daquilo que consigo produzir. Essa cobrança me faz reavaliar toda a minha vida. Tento descobrir se tenho salvação, se tenho algum talento, se tenho a força necessária pra fazer algo relevante. Mas, ao mesmo tempo, lembro que muito disso não depende de mim. Sei que há um mundo lá fora, cujo sistema ainda é baseado na escassez de oportunidades. É tudo uma questão matemática. Dizem que os prejuízos na vida ocorrem apenas porque acreditamos neles. Mas isso que algumas pessoas dizem não se encontra com dados da realidade.

Recentemente, vi uma notícia que, embora absurda, não me surpreendeu. Dizia que uma moça sem nenhum talento estava, de antemão, contratada por uma enorme emissora de televisão. E pra compensar tudo isso, estava recebendo investimento da própria emissora para ter aulas de atuação, fonoaudióloga e um curso de inglês. Para pessoas como essa moça, vencer na vida não depende de talento algum. Basta que seja da vontade dos poderosos cheio de dinheiro que ela seja sua próxima atriz e eles farão tudo acontecer. Os desavisados poderiam dizer que isso é algo bom, afinal, a emissora está investido em seus funcionários. Mas não se trata disso, pois nenhum outro desconhecido nesse mundo, se não estivesse adequado aos padrões sociais e aos interesses de uma mídia burguesa, elitista, racista e golpista, encontraria espaço para ser financiado em sua carreira. Quantos outros, já com plena formação e domínio no campo do teatro e da atuação em geral, não esperariam, simplesmente, por uma contratação? Quantas pessoas não passam a vida à margem de qualquer oportunidade, apenas porque não são enxergadas como possibilidade? É disso que se trata.

Eu, obviamente, pelo nascimento, já sou aprovado em diversos padrões que o Brasil e o mundo favorece. Sou um indivíduo branco, homem, que, bem ou mal, tive acesso à escola e universidade, não sou o alvo prioritário da polícia, nem vivo sob limitações que são impostas essencialmente pelo racismo. Em um mundo em que as pessoas são separadas por tais critérios, é preciso se apresentar para anunciar os privilégios como abertura de qualquer crítica social que se segue. A vida segue difícil para quase todos, mas, obviamente, segue sempre pior para quem já acorda rejeitado pela sociedade por suas características primárias. Somos uma sociedade que não deu, não dá e não dará, as mesmas oportunidades para pessoas das favelas ou periferias, das etnias rejeitadas por racismo, dos gêneros e/ou características inferiorizados pela homofobia, transfobia, machismo, entre outros. Até aqui, nenhuma novidade. Mas, como essas questões prévias eu já abordei em diversos outros textos e mídias, quero hoje fazer algo diferente, pra falar da minha própria categoria, das minhas características, meus cenários e minhas perspectivas.

Assim como muitos, tento vencer na vida, ter um trabalho, uma fonte de renda, me manter estável, com as contas em dia, sem dívidas, com acesso ao aprendizado, uma internet que preste, os remédios e tratamentos para recuperar meu corpo e minha mente dos estragos que a sociedade e eu mesmo causamos ou deixamos acontecer. Vivo em um contexto onde, apesar da infância simples, consegui algum progresso ou, pelo menos, uma estagnação um pouco mais firme que me impedisse de cair do patamar pelo qual me acostumei. Tive família, tive casa, tive a oportunidade de estudar e tentar trabalhar com aquilo que eu queria. Mesmo que sem incentivo e com o fracasso de várias dessas coisas, ainda posso dizer que foi bom, pois isso é, muitas vezes, bem mais do que possui a maioria da classe trabalhadora. Reconheço, contudo, que essa condição não é segurança, mas, ao contrário, a maior prova de instabilidade. Essa aparente estabilidade é só um degrau ilusório que coloca pessoas pobres um passo mais perto do poder de consumo. Ainda somos explorados, jamais seremos ricos e ainda somos tão dispensáveis quanto qualquer outro que não seja da elite.

Quando falam em classes sociais, costumam citar o exemplo da pirâmide. Mas, eu gosto muito mais de citar um enorme trapézio com uma minúscula esfera em cima, representando a elite, pois a diferença entre o topo do trapézio e sua base é muito mais sutil, tornando-o mais próximo de um retângulo do que de uma pirâmide. Para quem não é realmente muito rico, considere-se dentro do trapézio, mesmo que nas partes mais elevadas. Lembre-se de que a alternância para patamares abaixo é muito mais provável, dado o ângulo de inclinação que se abre em direção à base. Para sair desse trapézio, no entanto, é praticamente impossível. O acesso só acontece no topo e, mesmo assim, o gargalo é bem estreito, filtrando muito poucas pessoas que possam ocupar a pequena esfera da elite. Se tiver dificuldade de visualizar isso em termos práticos, abra seu navegador e comece a procurar por conteúdos no Youtube. Me diga quantos canais você conhece que tenham mais de 20 milhões de inscritos e que possam se dizer realmente ricos? Quantos canais sequer são recomendados pela plataforma, por não terem nem ao menos a quantidade mínima de visualizações? Isso sem falar em quase metade dos brasileiros que sequer tem acesso à internet. Esse é um dos possíveis exemplos do contraste social que vivemos.

A grande maioria da população está de fora das mídias, das boas escolas, das universidades, da televisão, das notícias, dos investimentos, das superproduções, do reconhecimento, dos convites de casamento, das produções culturais, dos grandes shows, das lives famosas no Youtube ou Instagram. Nossas perspectivas de vidas são escassas e podem até se tornarem nulas. Cedo ou tarde, tropeçamos, perdemos nosso emprego, nossos estudos, nossa ilusão de estabilidade, nossos rumos, nossos amigos, nosso mundo, nossa família, nossos sonhos, nossa saúde, nossa condição mental. Ficamos entregues à solidão, ao álcool, às drogas, às noites mal dormidas, ao cansaço, ao descompasso, às incertezas galopantes que amassam nossas histórias e memórias e nos jogam em qualquer abismo. Não nos é dado nenhuma alternativa. Muitos que hoje vivem na rua, já tiveram outra condição de vida. As pessoas não se atentam, não acreditam, não se importam, mas a vida continua a ser a vida e, se não fizermos o bastante, ela nos engole junto com todos ao nosso redor.

Para os que, como eu, vivem de dizer as realidades de um mundo próprio, de um mundo paralelo, de um mundo que, pra muitos, é alternativo, pode ter certeza de que o caminho será sempre amargo. Não haverão créditos, não haverão sorrisos, não haverão apoios ou qualquer mínimo sinal de compromisso com a nossa realidade. Nos querem distantes o máximo de tempo possível. Nossas manias, nossos medos e dramas, são inconvenientes para qualquer um que esteja por cima, em uma situação minimamente melhor. E é triste ver como pisamos uns nos outros, apesar de estarmos tão próximos. Parece mesmo uma briga por espaço, uma disputa para ver quem alcança a melhor parte do lixo. Somos urubus carniceiros, disputando os restos que a elite cuspiu lá de cima. E disputamos com unhas e dentes, com sangue nos olhos, porque tudo nos é tão insuficiente que, qualquer coisa que nos pareça igual ou um pouco mais, nos parece urgente. Mas, caímos todos, por todos os dias, se apedrejarmos as pessoas pensantes, os dignos, os revoltados, os marginalizados, os destoantes. Há quem prefira vestir uma máscara hipócrita e “lamber as bolas” de qualquer famoso que possa lhe abrir as portas, lhe dar uma nota, lhe recomendar, lhe inserir nos seus meios, lhe fazer sentir que é parte do sucesso, mesmo que tudo isso seja falso, só pra impressionar. Essas pessoas, infelizmente, agem assim, para tentar mostrar aos que ficaram pra trás, que agora elas deram certo, subiram na vida e, se continuam pobres, exploradas e oprimidas, pelo menos agora possuem alguma relativa fama, dentro do nicho do nicho do seu submundo na internet, onde elas possam se dizer importantes, mesmo que elas estejam cercadas de gente falsa que fazem o mesmo que elas, pra se sentirem menos merda na vida.

O ser humano parece ter uma tendência em buscar algum reconhecimento e aceitação do coletivo. Talvez isso seja pare do que nos representa enquanto indivíduos sociais, mas sociedades nada mais são que versões maiores das nossas próprias famílias. Não estou dizendo que o sistema imposto na sociedade reflete necessariamente a realidade de cada família, mas que, o caos que a sociedade manifesta é, em última análise, as mazelas não superadas dentro dos grupos familiares menos favoráveis. Muitos de nós foram criados sem muita estrutura, sem afeto, sem presença, sem educação, afogados em preconceitos que desceram até nós de geração em geração, cheio de vícios, medos, traumas, complexos, fraquezas, abusos, incestos, surtos, drogas, loucuras, constantes crises de sentido, de percepção da realidade, de valores, de ética, de construção da nossa suposta maturidade. Quando passamos dos 20 anos, chegamos tropeçando na fase adulta, tento que colocar a nossa consciência inteira em ordem, rever nossa vida toda, encontrar forças em algo e, com muita sorte e escolhas bem feitas, talvez, poderemos ter a chance de nos vermos numa versão nova, reconstruída, mais viva, mais inteligente, mais tranquila e mais esclarecida.

Se habitarmos a fatia dos vitoriosos, nesse sentido, nos veremos livres dos preconceitos que nos plantaram no passado, de todas as dores que nos causaram e das pragas do nosso inconsciente que bloquearam nossa autoestima. Percebe como teremos muito pra superar, vencer, ter sorte e sobreviver? Só seremos alguém minimamente possível de iniciar uma vida digna quando realmente nos dermos conta de que não estivemos e ainda não estamos nessa condição. Haverá de se fazer uma busca, uma reforma, uma demolição e uma reconstrução do nosso próprio ser. Que desperdício de tempo e de energia, alimentar uma sociedade que nos explode de dentro pra fora e depois de fora pra dentro, pra que depois, alguns poucos entre nós, tenha o necessário pra farejar o caminho da reconstrução do que nunca sequer deveria ter sido destruído. Nossas famílias são granadas ativadas, prontas para explodir a qualquer momento. Todos os segundos dessa longa vida, milhões de pessoas serão deformadas e reduzidas à nada, simplesmente porque alguém igualmente destruído resolveu ter a própria família. Ter filhos em um mundo assim despreparado, só não se torna totalmente inaceitável, porque, apesar de todos os danos que são replicados e potencializados, ainda somos todos vítimas de um mesmo sistema que nos joga pra essa condição e depois se recusam a se compadecer dos efeitos nocivos. Tudo que fazem por essa massa de pessoas é colocá-las umas contra as outras e todas sempre debaixo da mesma elite. Assim nos vigiam, nos controlam, nos tratam como números, nos ofendem, nos inferiorizam, nos estupram, nos batem, nos exterminam.

Eu me vejo saturado das minhas quatro décadas de vida. Olho pro meu passado e, por mais que tudo esteja devidamente mastigado, absorvido, compreendido e, de certa forma, superado, não há em mim nenhuma forma de comodismo, de aceitação ou a ilusão de que eu estou completamente renovado. Não estou sequer feliz, nem me sinto digno. Me sinto fracassado, como todos os outros deveriam se sentir, ao verem que estamos todos aqui apenas rastejando por um dia à mais, sem nenhuma certeza de que teremos vontade de ficar pra, quem sabe um dia, voltar a sorrir. Estamos sim em números absurdos de desistentes, alcoólatras, viciados em remédios e outras drogas, afundados em crimes, desempregados, entregues à depressão ou ao suicídio. Se recusam a falar da realidade, apostando simplesmente nos tais “números oficiais” que, todos nós sabemos, não falam absolutamente nada sobre a realidade debaixo deles. Os “números oficiais” escondem, por exemplo, todas as vítimas de violência doméstica que nunca foram contabilizadas em planilha alguma, simplesmente porque nunca chegaram ao ponto da denúncia ou, quando foram denunciadas, as autoridades, simplesmente, não apareceram. Os “números oficiais” não registram todas as pessoas infectadas ou mortas na pandemia, simplesmente porque, além de não haverem testes em massa, a verdade não convém a quem nos explora dentro e fora das mídias. Os “números oficiais” são igualmente inúteis quando tentam falar de casos de depressão, ansiedade e suicídio, em uma população que sequer tem informação ou atendimento pra isso. São milhões de pessoas que, apesar de não pularem de cima de um prédio, se matam por overdose de drogas, por cirrose alcoólica e diversas outras formas de se abreviar a vida. Os números não mostram pessoas que jamais foram entrevistadas, nunca passaram por médicos ou clínicas psiquiátricas, mas que estão deprimidas todos os dias, andando pelas calçadas, sentadas nos bares, deitadas nas beiras das camas, mudando pra outras cidades e desaparecendo de qualquer presunçosa planilha.

É difícil pra muita gente admitir que nada vai bem. Lhes parece muito mais cômodo, talvez, acreditar que seus pequenos ilusórios sucessos são suficientes para justificar toda a sua vida. Se possuem comida e um teto, já nem precisam mais se lembrar das vezes em que ficaram sem saída, sem trabalho, sem dinheiro, sem companhia, sem risada, sem conversa, sem sexo, sem nenhuma alegria. Se não podem estudar, ao menos, podem se gabar de terem sido exploradas em um subemprego que lhes tirou 10 ou mais anos de suas vidas. Se a família é incompleta, desajustada ou sem espaço para poder chamar de família, ignora-se tudo, chora-se no travesseiro, debaixo do chuveiro, em vídeos temporários no Instagram ou Youtube e fazem de conta de que o mundo ainda é apenas um pouco difícil, com seus altos e baixos, mas nada que uma vida inteira jogada no lixo não possa resolver. E, claro, os “números oficiais” também não vão contabilizar quem leva uma vida inteira pra se “suicidar”, pois morte “natural” ou acidental no final da vida, não conta. Para muita gente, está tudo normal, dentro do possível, algo que, pra mim, soa tão absurdo quanto aquela expressão “o novo normal” que querem nos fazer engolir nessa pandemia mal resolvida.

Para toda a população, exceto as elites, toda a vida é uma grande mágoa, uma enorme ferida não cicatrizada e uma dor que, se não incomoda à todos da mesma forma, é porque em alguns ela já doeu por tanto tempo, que se acostumaram. Para um fumante, sua própria roupa não cheira nada diferente, porque esse cheiro já faz parte do que ele sempre sente. Para o alcoólatra, a resistência do organismo ao álcool o torna mais disposto a beber grandes medidas. Assim é a vida pra muita gente, onde os vícios alteram a percepção de tudo. A realidade dos nossos fracassos, nossas situações, por mais reais e óbvias que sejam, passam por nós como se fossem um pouco de água adicionada numa piscina cheia. Sabemos que ela foi despejada, mas é tanta água anterior, que preferimos ignorar do que tentar separar um pedaço da vida de toda nossa vida. Nossa vida é uma sucessão de fracassos e, talvez, por isso mesmo, é que muita gente prefira não cutucar a estrutura pra tentar remover. Se limparmos todo o lixo da nossa vida, o que é que sobra? Talvez, nossas vidas, assim como esse duradouro sistema de sociedade e a própria humanidade, sejam as colunas centrais que sustentam tudo que somos. Remover o lixo, pode colocar toda construção abaixo. Clarice Lispector dizia algo semelhante. E me parece bastante verdade. Somos completamente frágeis, tentando demonstrar alguma força. Mas, nossos medos e nosso instinto de sobrevivência nos transformam, entre outras coisas, em pessoas mais covardes, mais passivas e mais medíocres, devo dizer.

Esse texto não vai te tornar saudável, rico, conhecido, famoso, estável, feliz, digno, livre, corajoso ou qualquer coisa que te coloque pra cima. Esse texto, infelizmente e provavelmente, vai apenas te fazer ver que, muitos de nós estamos numa densa lama, vivenciando erros, momentos grotescos e fracassados, dramas, doenças, descompassos, desconexões com a realidade, injustiças, guerras, pressões e uma infinidade de contextos desnecessários. Não podemos escolher o que ser, o que fazer, o que ter e onde estar. Tudo que temos é esse enorme trapézio, abarcando toda a população como uma massa amorfa, sem personalidade, sem destino, sem rumo, sem dignidade. Para os que estão na base do trapézio, tudo parece muito pior, porque a ambição de quem não tem nada é ter qualquer coisa. Mas, um dia todos eles descobrem que estão compactados como massa onde o único verdadeiro contraste é entre os exploradores e os explorados. Não acordar pra essa simples questão é incentivar que tudo se perpetue do jeito que está. Eu não aceito isso. Que fiquem pra trás os que não quiserem lutar comigo, mas eu não aceito a continuidade desse mundo sob os termos de até então. Que venham outros dias, outras sociedades, outros mundos, por um milagroso insight na consciência ou pela força pesada da revolução.

Enquanto isso me afogo em uma porção maior de álcool, em noites mal dormidas, em horas intermináveis de tédio, olhando os trabalhos passarem bem longe das minhas mãos, sem saber o que farei no dia seguinte, pra não mais depender da ajuda altruísta de quem quer que seja. Quero apenas recomeçar meus dias, longe daqui, de volta ao meu próprio trabalho, pra eu sentir que ainda sou gente, tenho vida, que não sou apenas um número ou, pior que isso, um invisível que nem chega a ser contabilizado. Quero voltar a ser independente, mas de um outro jeito, onde o esforço que eu faço pelos meus dias, pela minha tranquilidade, pela restauração da minha saúde mental e física, dê resultados. Quero viver em uma sociedade onde eu não seja só mais um amontado numa abstração. Quero ser tratado pelo nome, não pelas aspas de qualquer outro que nunca se deu ao trabalho de conhecer meio porcento da minha vida. Quero falar e ser ouvido, quero escrever ou fotografar e ser visto, quero conversar de igual pra igual e ser entendido, quero aprender algo novo, ser aceito, ter espaço na sociedade, socializar, ser recebido.

Enfim, quero tudo o que, provavelmente, nenhum de nós vai ter, à menos que se renda à um nefasto jogo de farsa e fama, onde os mais fracassados sempre bajulam os de cima, apenas porque gostariam de ser com eles um dia ou de tirarem algum proveito em suas companhias. Isso eu não quero. Meu mundo é infinitamente mais sincero. Pra mim, pessoas são só pessoas, por mais incríveis que sejam os seus talentos e pensamentos. Pessoas encarnam, defecam e morrem, como todas as outras e tudo que eu quero é lidar em pé de igualdade, porque, a princípio, somos todos seres humanos. Na minha concepção de mundo só não tem espaço pra fascistas e outras escórias. De resto, não me importo com a hierarquia ilusória, as disputas de ego ou qualquer realidade vazia.

Não importa o quanto eu grite, ninguém vai me ouvir. Vão apenas julgar, ignorar e seguir os dias como se nada tivesse acontecido. Já ouvi muita gente dizer que preferiram não tentar ajudar, porque não saberiam o que dizer ou fazer. Pois eu digo que se não for só uma mentira pra justificar o fato de que não se importam, é, pelo menos, um enorme erro. Toda participação importa pra quem já está afundado há tanto tempo. Não interessa se você não tem todas as ferramentas pra mudar a vida de uma pessoa, pois isso nunca estará em questão. As pessoas profundamente afundadas querem, apenas, que alguém divida o tempo com sinceridade. Querem, simplesmente, sentirem que ainda fazem parte, que ainda são gente, que podem ser alguma coisa diferente. Então, permita que essas pessoas possam, pelo menos, sonhar. Se você aniquila qualquer mínima possibilidade na mente dessas pessoas, você garante, de todas as formas, que a realidade dessas vidas serão reduzidas à pó. Você não precisa ser um especialista pra se importar por alguém. Basta que seja verdadeiramente humano, que tenha empatia e que se interesse de dividir um pouco mais de dignidade com qualquer outro que esteja anulado nessa vida. Talvez, muitos de vocês também estejam igualmente destruídos e por isso possam preferir não somar dois mundos parecidos, acreditando que isso possa piorar. Mas, um ditado alemão diz que “uma dor dividida é uma dor amenizada.”, similar à um provérbio sueco que diz: “Alegria compartilhada é alegria em dobro. Tristeza compartilhada é tristeza pela metade. “.

Apesar desse texto amargo, pesado e cheio de apontamentos difíceis de engolir, quero que vejam isso como uma cobrança, um desabafo, uma maneira de eu colocar pra fora minhas frustrações e fracassos e meu desprezo pelo sistema miserável dessa e de outras tantas sociedades que me consome a cabeça todos os dias. Quem sabe amanhã ou daqui uns dias, com um pouco mais de álcool ou vontade, eu deixe temas melhores, mais divertidos, mais esperançosos. Mas, cada uma das pessoas desse mundo também precisa fazer sua parte nesse processo e abandonar certos padrões e condutas. É difícil viver em uma sociedade que sempre nos cospe e nos bate, mas nunca querem nos ver melhorar, não nos falam verdades, nem nos fazem pensar. Ficam apenas se venerando por entre as máscaras de fachada, sustentando bolhas de ilusão que não favorecem à ninguém ter duas vírgulas de dignidade, originalidade, verdade, espaço e aceitação. Às vezes as pessoas não mostram quem são de verdade, porque, com a fachada da falsidade, se sentem menos horrendas, mesmo que todos ao redor, cedo ou tarde, percebam a ficção. Sejam de verdade, sejam pessoas espontâneas, sejam pessoas que admitem seus fracassos, suas mazelas, seus medos, seus traumas, suas “pisadas de bola”. Desçam do salto, olhem pro lado, vejam outros humanos igualmente perdidos, estendam a mão, dividam o tempo e sejam decentes sem perder a sinceridade.

Não aguento mais olhar pra esse mar de gente que fez da internet um resumo e um sinônimo de toda a vida, quando não se lembram sequer que, do outro lado da tela, existem milhões de pessoas que possuem outras infinitas realidades pra somar, mas que são rejeitadas por gente preconceituosa e mesquinha que acha que sua bolha é tão seleta e divina como aquela minúscula esfera de elite em cima do trapézio social. Eu quero é mais. Eu não vivo pra brincar de carniça, nem pra perder tempo com gente que só é contra o sistema enquanto está por baixo e, na primeira oportunidade de surfar na crista, vai pisar em todos abaixo, tal como fizeram inúmeros outros dentro e fora da mídia e da política. Mudança não se resume à status social ou progressão financeira. De que adianta ter fama e poder de compra, se a cabeça continua a pensar da mesma maneira? A mudança real deriva de um sentimento, um pensamento sobre um modelo de vida ideal, onde as pessoas não sejam simplesmente números numa equação. Sempre que as sociedades trataram pessoas como números, o resultado foi desastroso, gerando episódios históricos de racismo, xenofobia, fascismo, guerra e extermínio. Em casos extremos, foram exatamente os números que viabilizaram, na segunda guerra mundial, o holocausto e outras situações abjetas. Se, ao contrário desses, quisermos fazer uma mudança legítima e digna, precisamos dar legitimidade e dignidade às pessoas. As mudanças na sociedade serão o que as pessoas forem. Construam pessoas melhores, se quiserem um dia verem sociedades melhores, antes ou depois das revoluções.

Rodrigo Meyer – Author

A receita do caos e a esperança.

A imagem que ilustra esse texto é uma adaptação de uma fotografia de 7 de Maio de 2006 feita em um evento de Democracia Direta, em Glarus, na Suíça.

É difícil não falar de política quando tudo na vida do homem em sociedade é política, querendo ou não. Ao falar do ser humano, temos que, necessariamente, falar sobre política. Mas, engana-se quem pensa que política é somente aquilo que compõem a esfera das ideologias partidárias, dos planos de governo, das eleições e das decisões e repercussões dos assuntos ministrados pela classe dos chamados ‘políticos’.

Em verdade, todo ser é um ser político e não apenas os engravatados que ocupam cargos oficiais em um governo. Quisera eu não precisar falar de política, um dia após o 1º Turno das Eleições brasileiras. Seria tão mais fácil e agradável seguir a vida pensando no próximo livro, na próxima ilustração, no trabalho, na companhia dos amigos, nas viagens e nos prazeres adiados a tanto tempo. Mas, por isso mesmo, é importante erguer os punhos e direcionar um pouco mais de energia, mesmo sabendo o quão desgastante é lidar com a situação do Brasil.

Desde o “descobrimento” do Brasil, com a invasão dos portugueses, a tomada de nossos bens, a destruição e/ou apropriação da cultura indígena e dos negros, em paralelo a escravização destes, até os momentos ditos ‘modernos’, que de modernos não possuem nada, ficamos em situações vergonhosas, desastrosas e incompatíveis com qualquer sonho de progresso que atribuímos aos chamados ‘países de primeiro mundo’. O Brasil tentou por muitas vezes reverter sua própria condição, apostando em iniciativas que nasceram de baixo pra cima, das gerações de pessoas empobrecidas pela exploração, netos dos netos de muita dor e pouco respeito recebido. O Brasil se formou, basicamente, pelo trabalho de quem sobreviveu ou deu a vida por uma esperança de mudança. As pessoas que mudaram esse país, goste você ou não, não foram os banqueiros, nem as pessoas que sistematicamente receberam heranças de nobres, que por sua vez, só se tornaram assim ricos (porque nobres mesmo nunca foram), pela exploração das pessoas. Tempos depois, ainda vemos isso acontecer, sob outros métodos e cenários. Agora, relativizam até mesmo os direitos e salários conquistados, na busca por um retorno à época em que as pessoas tinham o que comer, mas eram escravizadas. Estamos em um país quebrado financeiramente, mas mais do que isso, quebrado moralmente.

Mas, por hoje, não vim falar exatamente desse tipo de política, muito menos sobre economia e mercado. Embora seja verdade que isso tudo é importante, porque é a consequência atual que vivemos, temos que compreender, antes, como chegamos no caos. E pra entender isso, precisamos lembrar de tudo que tentam omitir ou apagar diariamente.

Há alguns dias eu lia o depoimento de um rapaz que quando adolescente sentia orgulho de apoiar um determinado pensamento, chegando a admirar uma figura de liderança desse meio na política brasileira. Os anos se passaram e ele despertou de uma imensa ilusão. Não foi tão simples quanto esperar o tempo passar. Foi necessário que ele tivesse a decência de se valorizar o suficiente pra se desvencilhar de falácias e má informação. Teve que estudar História, Política e se empenhar na sua própria compreensão, descobrindo os motivos que o faziam ter falta de empatia e uma conduta e/ou pensamento simplista demais para os problemas do mundo. Tal rapaz discursava em seu depoimento de arrependimento como um pedido de ‘mea culpa‘, se retratando sobre o seu passado e explicando o erro cometido que culminou na atual mudança de postura.

É bonito ver que uma pessoa, sozinha, por assim dizer, apenas com a ajuda de sua própria curiosidade e força de vontade, conseguiu refletir sobre si mesmo, seus erros, a causa de seus pensamentos equivocados, seus transtornos, seus medos, suas inseguranças e seus preconceitos sobre o mundo. Munido de informações sobre si mesmo, ele percebeu que o melhor caminho era munir-se também de informações aprofundadas sobre o mundo. Eis que nasce alguém novo, disposto a aprender ao invés de replicar bordões e ilusões. Eis que nasce alguém questionador que pensa sozinho e não depende de ninguém ditando o que ele precisa fazer ou pensar. Eis que surge alguém que realmente tem potencial de transformar o mundo.

Observando esse caso isolado de transformação, logo podemos notar que as mudanças são possíveis, mas depende de um esforço sincero. Quando você busca a liberdade de entender mais daquilo que não conhecia, você transforma preconceitos em conhecimentos, ilusões em dados realistas. O inverso disso, sendo a estagnação pura ou o retrocesso, aniquila o potencial humano de se lapidar, de melhorar, de progredir, de evoluir, de adquirir conhecimento e de quebrar os preconceitos. O Brasil chegou num estágio de sufocamento social onde corremos o risco de tristes novos desmembramentos dos fatos que ocorreram, principalmente, de 2014 pra frente. Durante estes anos recentes, o Brasil se viu em uma guerra de corrupção imensa, onde até os que deveriam ser responsáveis pelas prisões, figuraram em crimes de corrupção e prisão (vide o caso do apelidado ‘Japonês da Federal’, pra citar apenas um das centenas de envolvidos). Cruzamos por um processo fraudulento de Impeachment, com votos comprados entre os políticos, recoberto com a certeza de que a corrupção continuaria ainda mais vigorosa, apesar da ‘Operação Lava Jato’. Áudios vazados mencionavam que a corrupção só conseguiria seguir adiante se houvesse “um acordo com o Judiciário, com tudo.”. De lá pra cá, nunca se viu tanta parcialidade, hipocrisia, corrupção e banalização da vida. Viciados em corrupção e dinheiro, os políticos aproveitaram o caso generalizado pra agir ainda mais, já que era tanta confusão, que ninguém teria tempo pra discernir todas as falcatruas que estavam ocorrendo em paralelo.

Enquanto o brasileiro assistia entusiasmado pelas cenas dos próximos capítulos nas sagas diárias dos telejornais ou dos sites de notícias na Internet, os políticos riam em dobro, matando delatores, juiz e até mesmo o delegado que investigava a morte deste juiz. Em uma sucessão de crimes pra queima de arquivo, o recado foi dado: após o aval dos corruptos na Justiça e na Política, todos estariam segurando seus ossos de forma incondicional, tivesse ou não que matar alguns pra isso. Com o juiz, Sérgio Mouro, o mesmo que recebe ilicitamente salário acima do teto permitido por lei, diversos casos convenientemente foram ignorados por ele. Em se tratando de seletividade e hipocrisia, esse parece ganhar de muitos outros. Abraçou de forma notória o partidarismo e fez todo o possível pra inventar um cenário que corroborasse com a teoria que ele e sua turma escolheram pra pintar a caveira de certas figuras políticas. Tanto fez e tanto recebeu respaldo da mídia, que conseguiu não só forjar a condenação de Lula, como mobilizar um mar de incautos a expandir a semente do ódio que nutriam pelo PT.

Tais pessoas, enviesadas pela ideia de que o Partido dos Trabalhadores (PT) representava automaticamente uma ideia ou consenso abraçado por todos os políticos que ali estavam inscritos, formaram um grande número de brasileiros que não tinham disposição de aprender ou discutir verdadeiramente os assuntos políticos, criaram um muro de ignorância, exatamente ao sentido real de ignorar algo. Ignoraram fatos, ignoraram a manipulação política que sofreram, ignoraram as pendências internas de si mesmos, ignoraram as falácias cometidas, o ódio pregado e até mesmo as ‘fake news’ criadas e compartilhadas massivamente pela internet e até mesmo pelas mídias ditas ‘convencionais’. O brasileiro aprendeu de forma completamente distorcida e limitada, que bastava ter ódio à um monstro imaginário e tudo ficaria bem. Foi exatamente esse cenário desastroso de desafeto pelo estudo e reflexão da política que cultivou uma plateia sedenta por manipulação, por discursos de ódio compatíveis, por uma plantação ostensiva de falácias e conceitos pré-fabricados que levasse o eleitor a ficar tão indignado com o cenário desenhado por alguns ao ponto de começaram a achar válido ideias descabidas como, por exemplo, dar voz, poder e espaço pra figuras completamente despreparadas e mal intencionadas como a do candidato à presidência de 2018, Jair Bolsonaro.

Mas, engana-se novamente, quem pensa que esse espaço nasceu simplesmente da repetição sistemática dos discursos de ódio contra os governos anteriores. Esta repetição foi, se muito, apenas o embrulho de um contexto prévio muito maior que estava sendo gestado no brasileiro. Descobrimos em 2018 um abismo aparentemente sem precedentes, composto de um número grande de pessoas abertamente cegas sobre valores e dignidade humana, adeptas de um discurso aberto de xenofobia, racismo, machismo, homofobia, ódio de classes e uma alusão fictícia e pré-fabricada de um suposto combate aos regimes totalitários comunistas. Muito se nota disso, quando se percebe que essas pessoas desconhecem até mesmo que Comunismo nunca se resumiu aos citados regimes totalitários que visualizamos na União Soviética ou em outros exemplos similares. As pessoas que apontam ódio ao Comunismo, tentam, em vão, alçar do fundo da História um cenário que não tem nenhuma conexão com os ideais abraçados pela diversificada esquerda no Brasil e em vários povos do mundo. Independente de qual seja seu posicionamento ideológico, é um poço de ignorância acreditar que é suficiente pautar seus discursos e pensamentos em algo que você simplesmente desconhece e, mais do que isso, replica um discurso se posicionando ardorosamente sobre, sem nem mesmo poder ter coerência ou respaldo de fatos. E quem sai perdendo com isso, além de você mesmo, são todos os demais na sociedade que vão ter que mastigar as consequências da falta de informação, das mentiras e preconceitos plantados, do ódio gerado e, claro, da manipulação ainda mais feroz dos corruptos e sedentos por poder, em cima, justamente, desses que nada sabem sobre aquilo que os está explorando e manipulando no campo da política (pra dizer o mínimo).

Perceba que é natural e sensato as pessoas terem pensamentos diversos, desde que estejam sempre almejando conhecer ao invés de reduzir preconceituosamente uma suposta oposição que desconhecem. Na vida política, em espaços democráticos, por exemplo, vê-se algo em comum com modelos de diferentes vertentes políticas, que é justamente a concordância em se fazer uso dos mecanismos políticos em comum pra preservar, antes de tudo, o direito de todos terem espaço possível na política, restringindo, paralelamente e automaticamente, as opções que derrubam e ameaçam a democracia, como é o caso do fascismo. Por essa simples razão, vertentes ideológicas até mesmo fora do campo da democracia, ainda encontram sintonia com os democratas, no sentido de manterem, pelo menos, o antifascismo como requisito. Não tarda muito pra que as pessoas olhem estas informações apontadas e fiquem assustadas ou receosas sobre o que isso possa significar. Tantas e tantas vezes já se foi feito o discurso depreciativo sobre a auto-gerência ou o Anarquismo, que as pessoas já se esqueceram de que é exatamente nestes modelos que você tem liberdade e autonomia, inclusive pra pensar por conta própria. Ser livre exige muita responsabilidade e, se você recusa ou minimiza o valor de uma ideia que prega justamente a liberdade, você está minando a sua própria liberdade e sua própria coerência. Ao se pautar pelo cerceamento do seu próprio pensamento, você está admitindo um encurtamento de seus potenciais de reflexão, de decisão de sua própria vida e da sua capacidade em ser quem você realmente quer ser.

E onde quero chegar com isso? Gostaria, se possível, conduzir os passos desse texto até o ponto em que você possa perceber que, ter se prestado ao papel sórdido de marionete não fará ninguém ser realmente alguém com potencial de transformar sua própria vida em algo melhor, incluindo nisso, claro, a transformação do seu país. Aqueles que verdadeiramente querem ver uma solução para os problemas do país, precisam, antes de tudo, estarem munidos da autonomia necessária pra pensarem sozinhos, por conta própria, sem apoio de muletas oportunamente criada por manipuladores que vão sugar sua moral, sua índole, seu dinheiro, sua força, seu poder de discernimento, sua educação, sua empatia, seu senso de percepção sobre a aproximação de problemas e até mesmo sobre a percepção do grau dos problemas ao redor. Não seja essa pessoa que cresce sendo levado pelas ideias de qualquer um, espumando seu ódio em discursos rasos que não podem sequer ter comprovação ou respaldo da realidade. Não seja a pessoa que passa vergonha desnecessária na internet e nas conversas de mesa, tentando ensinar a História que nem mesmo você teve paciência de estudar. Faça como o citado sujeito do depoimento que teve a grandeza de rever seus equívocos e começou a estudar política com seriedade, justamente por não aceitar continuar na cegueira, na manipulação, no prejuízo causado pela corrupção dos políticos e nas mentiras e iniciativas nefastas criadas por aqueles que exploram sua mente, seu trabalho, sua família, sua esperança, sua dignidade, sua individualidade e seu valor como ser humano.

Nos próximos momentos, chegaremos ao 2º Turno das Eleições 2018, onde as pessoas precisarão deixar um pouco mais claro aquilo que elas não aceitam pro futuro de si mesmas. Infelizmente, em um cenário como o atual, não tenho como ficar feliz em descrever ou apontar as opções, justamente porque sei que temos opções rivalizadas demais pra conseguir flexibilizar. De um lado temos o que deveria ser inaceitável: um candidato que representa os absurdos do fascismo, com apoio aberto ao horror da Ditadura, tendo como discurso, a homenagem à torturadores, o preconceito violento contra negros, gays, mulheres, índios e minorias em geral. Fosse este qualquer outro candidato de direita concorrendo às eleições, não teria erguido em grande parte da população (não só do Brasil) um repúdio automático expresso em manifestações ao redor do mundo. Você pode achar que essa rejeição é mais um plano mirabolante conspirado por um político opositor, um partido ou um grupo de viés ideológico, mas engana-se duas vezes. E é por não se permitir compreender a fundo quem são as pessoas que expressaram claramente a não aceitação do fascismo como opção política, que você acaba manipulado mais uma vez pelo seu próprio opressor. Ainda que você simpatize ou solidarize com algumas das supostas ideias pregadas ou discursadas por Bolsonaro, precisa, antes de tudo, entender o que te levou a esse desespero que te jogou à um equívoco na interpretação da realidade, no aprendizado sobre fatos históricos, no que é benéfico ou eficiente pra transformação da corrupção do país ou até mesmo no que é útil pra aproximação da sua ideologia na vida até você. Se hoje você pode pensar com liberdade sobre todas essas questões, é porque livros não foram queimados, rasgados ou confiscados, ideias na internet, no rádio e em outras tantas mídias, não foram censuradas, espetáculos de música ou teatro não estão controlados, etc.

Uma figura tão polarizada como a deste candidato do PSL, ao lado de outra figura que tem sido vista como um mascote do Partido dos Trabalhadores (PT), fez com que os ânimos ficassem aflorados. O Brasil conseguiu cair em um contexto de anti-PT muito grande, onde até mesmo a figura de um ex-prefeito que cumpriu resultados na sua gestão, tem sido visto com maus olhos por muitos que aderiram aquela ideia fácil de seguir o vento dos discursos de ódio que pressionaram os últimos presidentes do Brasil. Esse tipo de polarização impensada, coloca na balança figuras com pesos completamente diferentes. Você pode até mesmo não achar ideal o potencial do candidato do PT à presidência e suas propostas de governo, mas o que você não pode negar é que, entre as opções que restaram, ele é o único que pode lhe assegurar a continuidade da sua própria liberdade de escolher próximos candidatos em próximas eleições. Feliz ou infelizmente, em 2018 passamos por eleições atípicas neste primeiro turno e seguirá sendo uma eleição atípica no segundo turno. Diferente de outros anos de eleição, o atual momento nos colocou pra escolher algo muito além do que planos de governo ou até mesmo de ideologia partidária. Estamos diante de um cenário que pode comprometer gravemente a democracia, extirpando ela à força ou maquiado de meios “legais”. Um candidato que não reconhece a legalidade e a democracia, que acredita que pode resolver problemas da grandeza do país por meio da violência, não é só uma pessoa violenta e sem empatia, mas alguém que desconhece sobre como as coisas realmente funcionam. O Brasil já vive um caos generalizado desde a colonização e tudo tem se agravado dia após dia, por falta de investimentos suficientes nas áreas que realmente importam. Negligenciar a base e a causa dos problemas não vai resolver os problemas existentes, vai ampliá-los e ainda trazer novos problemas. Esse é o perigo que muita gente notou e quis distância de forma incondicional.

Você tem nas mãos a oportunidade de tolerar um governo que não aprecia tanto, mas que será tua opção possível na democracia, pra rejeitar o fascismo embutido na única figura que restou como concorrente deste. Infelizmente, quando o mundo fica polarizado, as pessoas ficam apenas com duas opções e isso é desastroso. Queira pra si, sempre, ter todas as opções possíveis e imagináveis. Isso é liberdade, isso é, até mesmo, ser liberal e ter a possibilidade de definir e discutir ideias. Lembre-se que, por mais que você pense pelo ódio, quando você, eventualmente, descobrir que se arrependeu, talvez não encontrará mais as portas abertas pra sair de onde você nunca quis ter entrado. Pense nisso e lembre-se que eu dediquei meu tempo escrevendo tudo isso, justamente porque nenhum dos dois candidatos que figuram no 2º Turno, são alinhados com os meus valores e ideais, mas, certamente, entre estes dois há um deles em que escolho tolerar e esperar pelas próximas Eleições e o outro eu não concordo de maneira nenhuma em ter que engolir, sem opção, fruto de um eleitorado manipulado que venceu pelo ódio e não pelas ideias, pela disseminação das ‘fake news’ que rodeiam a internet há muito mais tempo do que a candidatura de ambos. Eu escrevi esse imenso texto, por me opor sistematicamente ao fascismo e à qualquer porta aberta para tal. Escrevi, porque acredito que boas ideias e ações honestas valem mais do que corrupção e violência. E, finalmente, escrevi tudo isso, porque estudei, porque me permiti pensar sozinho e porque não aceito nada menos que a minha liberdade. Almejo continuar, vivo, respeitado, com espaço para pensar, escrever, refletir, discutir, mudar, evoluir, construir o que possa ser melhor não só pra mim, mas também pra você. Se a sua estrela não brilha, por favor, não tente apagar a minha. Eu prefiro me dispor a ajudar a fazer a sua estrela brilhar também. Liberdade é onde todos tem a oportunidade de vencer, horizontalmente. Opressão é onde um “vence” os demais verticalmente.

Rodrigo Meyer – Author

O Brasil atual: muito além da pobreza financeira.

A imagem que ilustra este texto é uma adaptação de parte das gravuras de Gustave Doré em “A Divina Comédia” (1861-1868), onde vê-se Charon chegando para transportar almas través do rio Acheron para o Inferno.

Estamos nos aproximando das próximas eleições do Brasil e, devido aos acontecimentos dos últimos anos na política nacional, estamos atualmente num cenário cada vez mais deplorável, enquanto alguns fingem que querem arrumar tudo isso, porque são covardes demais pra dizer o que realmente querem, ao lado estão os corruptos nadando solto, não investigados ou completamente ignorados pela pseudo-Justiça que passou os olhos por estes, rindo da cara dos apoiadores cegos e/ou cúmplices do crime, usando a velha estratégia de apontar pra qualquer inimigo convenientemente inventado, pra desviar a atenção de si mesmos e de seus atos criminosos. De um lado está o brasileiro médio de direita, o clássico racista, xenófobo, machista, analfabeto político, viciado em dinheiro e violência, se masturbando mentalmente diante do caos. Do outro lado, diametralmente oposto, está uma esquerda cansada de tanto tentar um caminho que, pelo menos, seja tolerável pra todos. Tal tarefa, nada fácil e, por vezes, nada coerente, espantou muitas pessoas pra fora das políticas convencionais e abriu portas para um celeiro de problemas que estavam encubados na sociedade.

O Brasil sempre foi um país de péssima qualidade de ensino e estrutura social. Mesmo nos tempos áureos de quando ‘ensino público’ significava ensino de melhor qualidade que o ensino particular, já se tinha uma defasagem brutal sobre o necessário. Não atoa, nos tornamos o que nos tornamos. Estamos caindo de um abismo dia após dia, tentando nos enganchar em alguma pedra que nos freie um pouco ao menos, porém caímos com velocidade suficiente pra levar até mesmo as pedras do caminho pro fundo do abismo.

Em algum momento, no final de 2015 e 2016, o Brasil se deparou com um teatro que já estávamos à espera de acontecer. A direita brasileira, inconformada em não ter mais espaço pra agir na corrupção com tanta liberdade, começou a forçar este espaço, removendo à força as barreiras. Deu-se início a derrubada do governo que mais investiu em mecanismos de investigação e combate à corrupção. Foi exatamente isso que culminou na cartada final de recusa do governo de Dilma Rousseff e também da candidatura da próxima figura provável a substituí-la em uma eleição, Lula. Assim que os corruptos encontraram algum pretexto para a derrubada desta barreira, vestiram-se de péssimos atores e se posicionaram como heróis pra uma classe de pessoas que ou não compreendiam absolutamente nada de política ou eram perfeitamente cúmplices dos crimes ali praticados em nome da pseudo-necessidade de combater uma má gestão política ou os rumos do país. Atrelados a discursos que transbordavam chavões e frases decoradas criadas pelos seus ventríloquos, os bonecos manipulados se tornaram muitos. Foi basicamente como ver um aglomerado de moscas encontrando fezes em abundância com respaldo forjado da constituição, a mesma constituição que foi rasgada na ocasião do golpe político nomeado de ‘Impeachment’, para dar um ar de legalidade ao feito e dar algum alívio pras marionetes que, de tão covardes, não conseguiriam admitir as verdadeiras intenções, ideologias e modus operandi na vida, já que, pra estes, a fachada é muito mais importante que a realidade. Pra este tipo de gente, não há problema algum em racismo, homofobia, machismo, xenofobia, ódio de classes, corrupção e falsa religiosidade, pois só o que os incomoda é ter que nomear todas essas características com estes reais nomes, ao invés de máscaras inúteis que nem eles e nem os opositores acreditam ou se importam. No fim, só estão tentando completar algum capricho diante do próprio medo de se classificarem como realmente são. De maneira análoga (e isso inclui até mesmo muitos dos já citados), ocorre com os pseudo-cristãos que, na hipótese de retorno de seu suposto ídolo central (Jesus Cristo), o odiariam e o perseguiriam até a morte por tudo que ele é e representa. Ironicamente, as pessoas que mais abominam a ideologia de Cristo, estão entre os que se dizem cristãos. Essa aparente contradição, na verdade se explica pelo fato de que todos estes, na verdade, são completamente ateus, mas encontraram um esconderijo parcialmente conveniente atrás dessas etiquetas, como uma forma de continuar a exercer de forma compulsiva a hipocrisia.

Mesmo que você alegasse à eles que estes rótulos falsos são desnecessários, eles não teriam a minúscula coragem de abandoná-los na hora de forjar um igualmente desnecessário personagem social. Para eles, esse joguete de palavras, bordões, máscaras, etiquetas, nomes e denominações, são puro prazer. É como o prazer de ter algo simples que não exige complexidade de pensamento algum. É o prazer obtido em não precisar pensar uma senha de 8 dígitos segura, enquanto ainda puderem usar uma senha altamente insegura de 2 dígitos. É o mesmo prazer de só terem que se preocupar com a primeira e única definição do dicionário sobre um determinado verbete e, assim, não terem que lidar com a complexidade de significados que ‘fobia’ traz como sufixo de palavras. São as mesmas pessoas que gostam de polir a ignorância com cera de demência, ao tentar dizer que hidrofobia é somente ‘medo de água’, quando na verdade, um material hidrofóbico pode ser, por exemplo, também um material que repele a água. Para os menos esclarecidos, por pura conveniência em continuarem ignorantes e simplistas, um tecido hidrofóbico seria um tecido que tem medo de água, pois tudo que eles aceitaram convenientemente aceitar é que ‘fobia’ só pode representar medo, pois assim facilita a tentativa de inventar argumentação para a ‘homofobia’, por exemplo, bastando citar, pateticamente, que não possuem medo algum de homossexuais, portanto não sendo homofóbicos. Este foi um simples exemplo da estrutura de pensamento que percorre as mentes bizarramente fracas e/ou desonestas dessa massa de manobra que espuma ódio e tristeza, cujos membros continuam deprimidos e infelizes tanto em ver a si mesmos longe de qualquer plenitude, como por ver que suas presenças só visam destruir a conquista alheia. Cientes de que nunca ganham por lado nenhum, precisam, constantemente, compensar essa insatisfação, inventando metas constantes de “vitória”. Para alguns, vencer é ver o opositor atacado, é ver uma feminista estuprada, é ver um pobre morto, é ver um libertário agredido, é ver um opositor preso ilegalmente, é todo mundo odiado por exporem as feridas da sociedade que os frouxos não possuem coragem e/ou competência de resolver.

Atualmente passamos vergonha internacional, por figurar em todos os noticiários  estrangeiros como o país que chafurda no terrível contexto absurdo de ter que escolher se elege pessoas tentando um plano de governo ou elegem uma figura que, sozinho, por conta própria, se orgulha em dizer que não tem nenhuma capacidade de governar, nenhum conhecimento sobre política e que só estará presente em entrevistas e debates para responder estritamente o que achar conveniente, já que notou que passou vergonha imensa ao não saber sequer responder perguntas simples e banais sobre a realidade política do país e as metas e/ou pensamentos para o suposto governo pretendido com estas Eleições de 2018.

Enquanto o brasileiro conquista novos níveis de recusa em vários países da Europa e do mundo, por conta das insanidades ditas, apoiadas e replicadas dentro e fora da internet, os próprios indivíduos que são o motivo desses problemas, estão tão cegos sobre sua própria condição de ignorantes que jamais teriam como parar, sentar e refletir o quanto são inaptos a opinar, pensar, planejar, decidir ou votar sobre qualquer assunto que envolva a realidade. Antes fosse isso uma mera ofensa, dessas que se joga em cima do balcão de um boteco. Seria menos trágico. A realidade é que, ter que dizer essas verdades, não me agrada em nada. É deplorável e desesperador ter que constatar que o brasileiro médio é uma fábrica tragicômica de problemas. E é tão real, que o simples fato de eu explicar isso, faz brotar pessoas argumentando que eu só digo isso pra tentar atacá-los ou adjetivá-los. Mal sabem que, o meu maior sonho, assim como de muitos outros é justamente não precisar mais descrever o brasileiro médio da forma como ele tem sido até hoje. Quisera eu poder escrever um texto ainda em vida, com a grata oportunidade de descrever o brasileiro como alguém que verdadeiramente recusa corrupção, que tem autonomia de pensamento, que consegue argumentar com lógica e se abstém do uso de falácias, bordões, frases fabricadas / frases de efeito, que consegue interpretar um texto ao invés de se transformar numa máquina veloz de deturpação, dedução rasa, equívocos e desprezo pela Literatura, Filosofia, Sociologia, Economia, Política, Ciência, etc.

No ritmo que as coisas estão, eu não tenho muita esperança de que eu verei o Brasil melhorar nos aspectos mais urgentes. Continuaremos a ver as pessoas voltarem pra antes da Idade Média, onde ainda se discutia se a Terra era plana ou não. Estamos cercados de pessoas odiosas, que não somam absolutamente nada em setor nenhum, que pesam imensamente nas costas de todo e qualquer outro ser vivente, ainda que pesem mais em uns que em outros, conforme o nível de contraste de prática e pensamento. Vivemos em tempos onde as pessoas ainda precisam de rótulos e, pior que isso, de rótulos que expressam o oposto do que são. A humanidade cruzou tantas e tantas eras e parece que, de tempos em tempos, regredimos ao passado remoto. Talvez seja isso que explique como tardamos a descobrir estrelas que as civilizações antigas já conheciam bem. Talvez esse seja o motivo de tecnologias antigas precisarem ser redescobertas por já terem ficado perdidas e desaprendidas. Idiomas são mortos, livros se perdem, habilidades são esquecidas e, no final das curtas contas, parece que o ser humano não sabe mais usar a única parte do corpo que verdadeiramente teria algum potencial especial: o cérebro. Estamos abrindo mão da nossa melhor ferramenta de construir um mundo decente que nos provenha conforto e facilidades, em detrimento do nosso vício de continuarmos sendo usados, feito as pessoas com distimia que são carregadas pelas situações, sem um posicionamento marcante ou autônomo. O ser humano parece estar dopado, sendo levado pelas asneiras de meia-dúzia de infelizes que querem o dinheiro e a disposição deles gastas em propagandas “espontâneas” e gratuitas, tal como ocorre na vítima de Síndrome de Estocolmo, que se dispõem a falar bem de seu próprio opressor, simplesmente por estar completamente incapacitada de enxergar sua própria realidade e condição. Na ausência de sensores que lhes acusem a realidade, as pessoas boiam nesse mar de sangue e ignorância, sentindo-se no controle de tudo e dando como “prova” desse controle, as linhas que não partem de suas mãos, mas das mãos dos ventríloquos que lucram (e muito) às custas dos apoiadores. Mais intrigante do que ser um ignorante desonesto rico é ser um ignorante desonesto pobre. Meia dúzia ocupa as pseudo-lideranças e o restante da massa de manobra continua ocupando a base da pirâmide, longe de qualquer verdadeira qualidade de vida.

Não é de se espantar que, nos últimos anos, houve uma onda imensa de migração de brasileiros reacionários, pseudo-patriotas, tentando a vida no exterior, bem longe da imundice que ajudaram a disseminar no Brasil, mesmo sabendo que lá fora teriam condições deploráveis de trabalho e ainda teriam que se contentar calados com governos expressamente contrários a sua ideologia. Os mesmos brasileiros que gritavam contra o projeto “Bolsa Família” no Brasil, simplesmente por este ter sido ampliado pelos governos opositores, desejam ardentemente receber similares benefícios nos países alheios, sem nenhuma objeção ou constrangimento. Isso reflete que a questão nunca foi sobre um verdadeiro posicionamento sobre política ou administração, mas simplesmente o resultado randômico de serem papagaio de piratas a vida inteira, marionetes em território nacional, em um contexto específico forjado que evidenciou que eles foram jogados a vida inteira contra um país deteriorado, contra monstros imaginários, para gastarem o tempo guerreando ao invés de notarem que estavam sendo saqueados e tendo seus direitos e valores eliminados. Com o tempo, se deram conta que andar pra trás não ajudava a chegar em objetivo nenhum e que, na verdade, muitos que se achavam ricos, eram tão pobres quanto os demais a quem eles insistiam em desprezar, odiar e enxergar como inimigos.

Hoje, de forma tragicômica, figuram no exterior, pessoas que largaram seus títulos, diplomas,  faculdades, carros, casas e salários, pra ir viver com rendas mais baixas do que os piores salários praticados no Brasil, simplesmente pra poder ostentar mais uma etiqueta estúpida e ilusória de “morador da Europa”. Será que sabem estes que entre os próprios europeus existe a fuga massiva em busca de outras possibilidades na vida, que não aquelas migalhas que o brasileiro está idolatrando? Em Portugal, por exemplo, os jovens, há muito tempo, saíram pra outros países da União Europeia em busca de trabalho, estudo e outros cenários de existência que lhes parecessem um pouco mais dignos ou de acordo com seus ideais. Ironicamente, nos destinos pra onde estes portugueses normalmente iam, estão os jovens nativos que, igualmente, optaram por sair dali e ir pra outros destinos. A migração em si não é problema algum. As pessoas estão sempre em busca de encontrarem-se em algum canto do mundo. O triste mesmo é a hipocrisia de muitos brasileiros que, vão ser imigrantes na casa alheia, mas despejam ódio e xenofobia contra os imigrantes que chegam no Brasil. Muitas vezes, são os mesmos que aplaudem a expulsão de imigrantes em todos os países, mas se cagam nas calças de serem eles mesmos deportados pra fora, por estarem ilegais em terra alheia, desempregados, implorando pela ajuda e atenção de outras pessoas, apesar de, eles mesmos, nunca terem ajudado ninguém no próprio país em que nasceram. Os mesmos que fechavam os vidros dos carros quando se aproximava um vendedor ou morador de rua, agora sentem-se rejeitados quando um estrangeiro não lhes dá plena confiança se notarem que trouxeram de fora a imundice do fascismo, da falta de educação, do desrespeito, do “jeitinho brasileiro” de descumprir o certo, do machismo, da arrogância, da corrupção e da, já famosa, posição de povo mais mal-educado de toda a internet. O que será que espera esse povo, que não consegue administrar a própria contradição e quer decidir sobre a administração de um país inteiro? Como querem conquistar coisas melhores na vida, se tudo que fazem é cuspir mensagens prontas de teor motivacional, sem que acreditem ou pratiquem uma única vírgula daquilo? Como querem colher salários melhores, se estão lutando pra destruição da própria educação? Como esperam se integrar em uma cultura e sociedade lá fora, se carregam vícios primariamente incompatíveis com o que lá se desenvolve como valor mínimo? Como podem querer emplacar seus diplomas escolares, se, ao mesmo tempo, querem contestar a própria Alemanha sobre o fato do Nazismo ter sido um movimento de direita? Que tipo de terraplanistas são estes que vão querer ocupar cargos de astrônomos em terras alheias sem serem vistos como uma falha social bizarra e aleatória? O que esperam estas pessoas somar se o máximo que fazem é procurar ignorantes do mesmo naipe e grau de distúrbio, pra disseminar seus ódios e preconceitos em manada?

O brasileiro médio não é levado a sério nem dentro e nem fora do Brasil. E se não mudar de postura imediatamente, não vai ser levado a sério nem dentro da Terra. No Brasil faltam muitas coisas, mas o dinheiro é apenas uma delas e, nem de longe, a maior.

Rodrigo Meyer