O sol é para todos?

A imagem que ilustra esse texto faz menção ao girassol, uma planta que se tornou símbolo da campanha para alertar sobre a depressão. Vale destacar a diferença com o Dia Nacional de Luta Contra o Abuso e Exploração Sexual de Crianças e adolescentes que, apesar de muitas vezes ter uma correlação com a depressão e também ter como símbolo uma flor amarela, não é especificamente representada pelo girassol como é no caso da depressão. O simbolismo do girassol na conscientização sobre a depressão faz uma alusão à busca por luz, característica marcante do girassol, adaptada de modo figurativo, embora haja até uma relação literal entre o tratamento da depressão e a exposição do indivíduo aos raios solares.

Segundo dados da OMS, 322 Milhões de pessoas no mundo sofrem com depressão, seguido de um alerta sobre o aumento progressivo de casos no planeta. No Brasil esses dados são de, pelo menos, 11,5 Milhões de pessoas na depressão, além de 18,6 Milhões de pessoas em distúrbios relacionados à ansiedade. Esses números já são imensos e é fácil prever que eles provavelmente são muito maiores, já que a coleta de dados é difícil pela própria circunstância da doença.

Dados do Ministério da Saúde do Brasil, do final de Maio de 2019, demonstraram um aumento de 12% no risco de suicídio na população jovem negra, enquanto o índice se manteve estável entre brancos. O índice de suicídio entre adolescentes e jovens negros é 45% maior do que entre brancos. reforçando a condição social e psicológica a que essas pessoas são submetidas na cultura estruturalmente racista do Brasil.

De volta aos dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2019 estipulou-se que a cada 40 segundos ocorre um suicídio no mundo. A cada parágrafo que você está lendo, uma pessoa está se matando. Não há como achar isso banal ou pouco e é inevitável perceber que é sintomático de uma realidade que adoenta massivamente as pessoas, por diversos contextos e gatilhos. O suicídio, embora muito associado à pessoas com depressão, nem sempre é fruto dessa condição. Um número muito maior é o de pessoas com distúrbios de ansiedade, sendo que ao redor desses dois cenários há incontáveis situações menos conhecidas que também podem gerar um desfecho em suicídio, como, por exemplo, uma tentativa de se livrar de uma doença incômoda ou mesmo da dificuldade em aceitar uma realidade injusta imposta.

O suicídio pode ser visualizado em situações diversas como no desemprego, na doença, na solidão (em especial os idosos), em vítimas de abuso sexual, em cenários de guerra, em crises políticas e na perda de esperança diante do avanço desregrado das condições de vida. De forma resumida, o suicídio acaba sendo como a busca de solução para questões que aparentemente estão inaceitáveis. Quando o mundo não vale mais a pena, a vida começa a ser questionada. E quando viver não traz mais prazer, a dor se acumula até que não se aguente mais senti-la. Morrer, para muitas pessoas, é o encerramento de um sofrimento ou de uma condição indigna. Para muitos outros, o tema ainda é um enorme tabu, motivo pelo qual muitas pessoas sofrem, de certa forma conformadas, como quem tenta desviar da morte por não achá-la aceitável. Em todo caso, cedendo ou não à morte, é fato que grande parte das pessoas está remoendo problemas e dores. É difícil saber quanto tempo as pessoas aceitam ou aguentam sofrer, já que para cada pessoa o peso dos problemas e sua resistência são combinações que variam imensamente.

Nos Estados Unidos a taxa de suicídio bate recorde já em 2017, chegando ao maior patamar desde a Segunda Guerra. Enquanto em 1999 os dados mostravam que a cada 100 pessoas, 10,5 se matavam, em 2017 esse número sobe pra 14 suicídios a cada 100 pessoas.

De forma geral, as taxas de suicídio caíram na maior parte do mundo, porém o Brasil, sem surpreender, teve aumento ao invés de redução, conforme notícia de Abril de 2019. Além disso foi estimado que, depois dos 13 anos, meninos tem 3 vezes mais chance de cometer suicídio do que meninas. Apesar dessa tendência, há por trás desses dados o fato de que mulheres fazem muito mais tentativas de suicídio, porém atingindo menos êxito que os homens, em razão do modo mais agressivo e letal que os suicídios masculinos são tentados, incluindo enforcamento e arma de fogo, por exemplo. Para as mulheres as maneiras mais comuns de suicídio incluem pesticidas, drogas e saltos de lugares altos.

Observa-se que suicidas masculinos são mais impulsivos e agressivos, geralmente, enquanto suicidas femininos costumam buscar ajuda mais cedo e com mais frequência.

Esses são dados críticos de uma sociedade que não parece estar caminhando minimamente onde se espera. Por mais que o mundo sempre tivesse problemas, a proporção de tragédias sociais e políticas acumulando ao longo da História acaba por somar uma percepção triste e desesperançosa pelos rumos da vida da humanidade em geral. Dados apontam que crises econômicas e políticas possuem influência no aumento de suicídios, assim como as políticas que facilitam o acesso à armas de fogo. No Brasil, conforme dados destacados anteriormente, as taxas de suicídio seguem aumentando, contrariando uma tendência de muitos outros países. Isso se dá por inúmeros fatores, em especial o contraste da realidade dessas populações e os rumos políticos desastrosos. Tal problema pode ser medido por notícias como a do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que foi denunciado sem provas por um crime que não cometeu, cercado de arbitrariedades e teatralismos patéticos de um desgoverno corrupto que tomou o Brasil de assalto, promovendo guerra à universidades, professores e alunos, combatendo Ciência, Cultura e a dignidade humana com discursos ultrajantes, perseguições políticas, muito ódio e nenhuma aceitação social. Diante de tal miséria política e humana, é compreensível o aumento do suicídio no Brasil.

Há muito que pode e precisa ser feito em apoio à essas situação, porém quero alertar as pessoas que lidam pessoalmente com a depressão ou que possuem amigos ou parentes nesse contexto que jamais, em hipótese alguma, entrem em contato com canais de comunicação como o CVV – Centro de Valorização da Vida, que, infelizmente, figura como uma péssima opção de atendimento, tendo relatos desastrosos por parte do público “atendido”, incluindo assédio, abusos, negligência, deboche, descaso, colocando em risco a vida de pessoas em situação de emergência. São inúmeros os casos relatados de suicidas que tentaram contato com o CVV e tiveram de ouvir o telefone ser colocado de volta ao gancho. Esse tipo de conduta é totalmente inaceitável, imprudente e eu diria até que é criminosa, uma vez que trata-se de um canal exclusivo para lidar com pessoas que estão sensibilizadas por depressão ou ansiedade e quem possuem grande probabilidade de cometer suicídio. Colocar uma pessoa que é avessa à causa, que não se interessa de fato pela vida das pessoas que são atendidas é o mesmo que condenar diversas dessas pessoas à um suicídio que poderia ter sido evitado se fosse lidado de maneira ética, lícita e humana.

Setembro é o mês de conscientização sobre as questões da depressão, cuja campanha é nomeada de ‘Setembro Amarelo’. Mas, não consigo, infelizmente, recomendar esse termo, simplesmente porque é uma iniciativa atrelada ao CVV. Outro ponto que pesa nesse sentido é o fato de que a ferramenta de prevenção ao suicídio oferecida pela rede social Facebook consiste basicamente em instruções que direcionam o usuário para uma tela final de contato para o CVV, o que é lamentável. Ninguém precisa passar pela roleta russa de contactar uma instituição que se intitula como Centro de Valorização da Vida e que, na prática, não valoriza a vida de seus atendidos, muitas vezes sendo a própria razão de suicídios ou uma contribuição fatal como a “gota d’água” para pessoas que estão em situação de desespero e recorrem ao contato do CVV como um último esforço de sobrevivência. Em todo e qualquer lugar que eu for eu seguirei não recomendando e alertando as pessoas para igualmente não recomendarem isso em hipótese alguma. Sendo o CVV uma organização não governamental (ONG), é preocupante saber que estão se valendo de voluntários para um desserviço tão grande em um tema tão importante. É sinistro imaginar qual seria a intenção de voluntários que se aliam ao CVV e que, na prática, figuram como causa de suicídios. Seria algum incentivo financeiro a razão por trás desse nicho? Em um país onde a depressão só cresce, seria possíel imaginar pessoas tentando se valer da popularidade do tema e das vítimas da depressão e ansiedade para angariarem algum recurso financeiro ou vantagem. E se imaginarmos que o motivo não é financeiro, torna-se ainda mais sinistro, deixando margem pra interpretarmos que seja o puro sadismo em ver gente sofrer e morrer. Precisamos ficar atentos e desviar daquilo que não se presta como uma ajuda sincera.

Do outro lado, bem longe dessa catástrofe, deixo recomendações universais para lidar com a depressão:

A exposição do corpo ao sol é uma recomendação médica e psiquiátrica recorrente e básica, em razão do efeito que gera no organismo pela proliferação de Vitamina D, um componente conhecido no trato da depressão. Além disso, é preciso buscar apoio entre as pessoas de sua confiança, sejam amigos, parceiros, familiares, professores, colegas de trabalho, etc. Também é importante buscar a ajuda de um profissional da área médica, seja ele um clínico geral, um psiquiatra ou até mesmo profissionais do campo da Psicologia ou terapeutas. É preciso lidar com o problema e caso não sinta disposição pra buscar essas ajudas sozinho, é importante aceitar a ajuda externa de quem possa te encaminhar, acompanhar e incentivar você nessas ações.

Outros pontos que são básicos no assunto é a mudança de rotina e a atividade física. Embora pareça apenas simbólico para alguns, a atividade física dispara diversas químicas no organismo que são responsáveis pela sensação de prazer. Isso ajuda muito a colocar o indivíduo em uma condição favorável pra que ele consiga concretizar outros passos para sua recuperação. Em alguns casos o psiquiatra poderá recomendar medicações que deverão ser seguidas respeitando as doses e os prazos e, caso ache necessário, solicite uma revisão do seu medicamento junto ao profissional, para que, eventualmente, haja uma mudança da composição, da dose ou da frequência. Em alguns casos a suspensão do medicamento poderá ser recomendada ou aceita pelo profissional, mas é importante que o indivíduo não tente fazer automedicação.

Para pessoas que fazem uso de álcool ou outras drogas, é importante dividir essa realidade e personalizar o atendimento, o diagnóstico e o tratamento, fugindo de medidas como os fraudulentos centros de recuperação de dependentes químicos mantidos por quadrilhas que exploram a família dos dependentes colocando os pacientes em situações degradantes, trabalho escravo, violência física e psicológica, transformando os espaços em verdadeiras prisões de sadismo e enriquecimento ilícito.

À parte de todas essas decisões práticas de tratamento, procure preencher sua vida com objetivos e ideais para mover-se em direção à algo que você considere um parâmetro, um destino idealizado ou melhor, tal como o girassol que se move para acompanhar e absorver a luz do sol. Encontre algo a que se apegar que lhe seja positivo e viável. De repente isso pode ser o aprendizado de um instrumento musical, cantar músicas, escrever, desenhar, caminhar, contemplar a natureza, adotar um animal para companhia, visitar pessoas necessitadas para que você possa ser útil à elas, aprender um novo assunto ou se encorajar a tornar-se melhor em algo por meio de um hobby, profissão ou desafio. Faça algo que lhe instigue a perseguir um momento à frente, um ideal, e isso te manterá ativo. Quanto mais ativo você estiver, mais fácil será de conquistar espaços e descobrir novos contextos pra sua vida.

Se você é naturalmente uma pessoa solitária e que, nem por isso, sofre de solidão, tudo bem permanecer em seu mundo, assim como também será bom quando decidir cortar esse padrão ir ir buscar socialização. Se você é uma pessoa que normalmente prefere a companhia, procure equilibrar isso, filtrando bons momentos e lugares que possam somar na sua vida e te trazer memórias boas dali pra frente. Sorrir diante das coisas, seja do silêncio ou de um show de música, pode ser uma ponte para outros grandes passos. Eu não tenho as respostas para as questões da depressão e ansiedade e, até onde sei, nada disso tem cura. Todo tratamento vinculado a esses contextos é algo que deve ser feito com a certeza de que não há garantias de que as coisas não possam decair ou que de que você não volte a ter crises e intervalos até maiores de depressão ou ansiedade. Infelizmente, sabe-se que uma vez que se tenha tido depressão, você corre o risco de ter recaídas. Não se pode prever quando e quão intensas elas ocorrerão, mas você poderá aproveitar tudo que sabe sobre o assunto pra desviar delas e buscar ajuda pra tentar se reerguer. Eu espero que todos os meus outros conteúdos possam contribuir de alguma forma para apontar ideias e mudanças e que você possa resolver e superar seus problemas, seja lá quais forem.

Rodrigo Meyer – Author

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Um alerta de Esquerda pra Esquerda.

Durante esses tempos de disputa política, em especial após as Eleições de 2018-2019, acompanhamos o aumento do caos, devido aos imensos escândalos de corrupção, fakenews (notícias falsas), casos de ódio, disseminação de crimes de todo tipo e uma manifestação torta e desregrada pela internet. Esse cenário já é bem conhecido por ambos os lados dessa disputa polarizada que se tornou o Brasil nos últimos anos, mas algo tem me incomodado de forma igual ou até maior. Estou me referindo a certa ingenuidade por parte de diversas mídias e grupos da Esquerda que, embora desejem atuar como resistência, estão, ao meu ver, um tanto despreparados para entender o real motivo da ascensão do fascismo no Brasil e no mundo e o motivo pelo qual parte da população brasileira atrelada ao desgoverno do quadrilheiro Bolsonazi ainda permanece em apoio à ele, apesar de todos os crimes vinculados.

Sempre que vejo uma mídia decepcionada com o desgoverno do Brasil de 2019, predomina por lá um discurso de que os absurdos que a quadrilha de Bolsonazi tem manifestado são fruto de uma crença do próprio Bolsonazi e seus aliados em teorias da conspiração. Citam, por exemplo, que essa turma de fascistas se posicionam contra as coisas por acreditarem em ideias como terraplanismo, nazismo de esquerda, marxismo cultural, ideologia de gênero entre outras asneiras (infelizmente a lista é imensa demais pra citar num artigo só). Temos que deixar claro algumas coisas sobre isso:

Primeiramente, esses vagabundos que tomaram de assalto o Brasil não possuem crença alguma em coisa nenhuma. São céticos a tudo e todos e tudo que os importa é poder, violência, racismo, machismo, homofobia, corrupção e a perpetuação da ignorância no Brasil e no mundo para que se torne cada vez mais fácil manipular e explorar as pessoas enfraquecidas por essa ignorância. Porém, pra que possam fazer essa conexão entre a figura de poder deles e a massa de manobra na população, eles precisam se valer de ícones na linguagem da comunicação que evidenciem uma direção, uma ideologia e uma cultura, facilitando pra que, consciente e inconscientemente, as pessoas se sintam representadas e compreendam aquilo que lhes é proposto como figura e ideia de poder.

Por exemplo, quando a extrema-direita discursa insinuando que as escolas estão distribuindo a chamada “cartilha gay” ou “kit gay”, ela faz uso de duas mentiras (a mentira de que existe esse tal material e segundo de que a finalidade dele seria a de convencer pessoas a se tornarem homossexuais) para que a presença dessa ideia absurda em contato com pessoas com tendências preconceituosas, medos e muita ignorância as façam acreditar nessa lorota e, quase que automaticamente, se posicionarem em favor da extrema-direita e contra as figuras opostas (homossexuais, professores, grupos de direitos humanos, causas sociais, etc).

Uma vez que você tenha entendido esse exemplo da estrutura ou modus operandi da extrema-direita nos discursos criminosos e falsos que ela faz, basta estender isso pra todo e qualquer tema que eles lidam. Foi assim quando tentaram negar o aquecimento global, o incêndio na Amazônia, a própria corrupção no desgoverno da quadrilha, os crimes cometidos contra seus opositores políticos, o histórico criminoso e pouco punido da ditadura militar no Brasil, o machismo, o racismo, a homofobia, o ódio de classes, a xenofobia, a matança de indígenas, a destruição do meio-ambiente para favorecimento do agronegócio, o trabalho escravo, trabalho infantil, o tráfico de drogas, tráfico de armas, tráfico humano, o aumento do feminicídio, os vínculos criminosos da corporação militar nas polícias e exércitos, a corrupção e o desmantelamento das instituições do país como a Justiça, a censura nas mídias (comerciais, cinema, jornalismo, shows de música, etc), o assassinato de inimigos nas diversas esferas do poder, etc.

Poderíamos ficar dias listando aqui tudo que está vinculado às ações criminosas do desgoverno, porém seria mais eficiente listar o que não faz parte da lista. Pra simplificar, bastaria dizer que praticamente todo e qualquer assunto que chega ao conhecimento da extrema-direita e que não favorece a eles no objetivo de poder e controle das massas, eles geram uma narrativa absurda contrária para disseminar uma versão conveniente da realidade que, embora não acreditem, é super útil no objetivo de perpetuação da corrupção, poder e manipulação do público. Simples assim.

Chega desse papo de que eles estão indo longe demais nos absurdos por estarem convencidos dessas ideias e teorias da conspiração. Simplesmente não estão, mas é útil a eles discursar como se estivessem. Quando, por exemplo, eles sabem exatamente o que é Feminismo e sabem claramente que isso anula o projeto de machismo, combatendo o estupro, o abuso, as desigualdades entre gêneros, os privilégios de homens imbeciloides que se beneficiam de todo esse lixo, é claro que eles vão se opor pra perpetuar os benefícios e crimes a que eles são favoráveis. Não se espante, portanto, de ver que essas figuras estão atreladas a estupradores, feminicidas e outros tipos de escórias. Para fazer valer essa perpetuação criminosa eles vão usar artifícios clássicos como mentir sobre quem são e como agem as mulheres feministas, por exemplo, denegrindo sua imagem, forjando situações em que elas pareçam absurdas, exageradas ou equivocadas. Vão distorcer palavras, contextos e até mesmo dados técnicos de estatística, pra reforçar a ideia falsa que eles intencionam construir no discurso frente ao público deles.

Não se pode ser ingênuo de achar que isso é de fato a crença deles, menos ainda de que essa suposta crença é fruto de uma visão cega sobre a realidade. É extremamente o inverso. É por terem uma visão claríssima da realidade é que conseguem se posicionar contra a realidade, arquitetando discursos e contextos que os favoreçam em termos de corrupção, poder, crime, preconceitos, etc.

A pessoa que realmente tem interesse de aprender sobre um assunto para mudar seus pensamentos equivocados, ela simplesmente senta a bunda na cadeira e lê sobre o assunto insistentemente, até conseguir entender todos os pontos, questionando tudo e todos a todo momento. O sujeito que não tem muito interesse de questionar de tal maneira, certamente está acomodado no aprendizado pois é muito mais conveniente manter os próprios defeitos, sejam eles o racismo, a homofobia, a conivência com a violência gratuita, a criminalidade, a corrupção, etc.

Quais são as chances de você convencer um nazista de que xenofobia e racismo é algo absurdo, abominável e sem nenhum fundamento ou lógica? Zero. Você jamais vai convencer alguém desse meio a mudar essas posturas, exatamente porque essas posturas não são baseadas em lógica. É diferente de, por exemplo, tentar mostrar à um matemático que a equação dele está errada, demonstrando motivos matemáticos para o erro, justamente porque entre matemáticos, a lógica é desejada e é a base de toda a argumentação, tanto da pessoa que cometeu o erro quando da que vem pra apontar e corrigir o erro. Percebe?

Portanto, de nada adiantará você convencer um estuprador sobre feminismo, ou de convencer um racista sobre o combate ao racismo. Nenhuma figura que faz o que faz de forma consciente, sem empatia alguma, aceitará alguém que venha tentar mudá-lo, brecá-lo ou apontá-lo contra a parede. O termo “psicopata”, embora popularmente seja utilizado pra descrever um serial killer (matador em série), não se limita a isso. Um psicopata, basicamente é alguém que age de forma egoísta em seus próprios interesses, sem se importar com ninguém. É alguém que, por exemplo, vê as pessoas como algo totalmente irrelevante e sem valor diante da busca dele por um objetivo ou satisfação pessoal. Você encontrará facilmente essas pessoas em relacionamentos abusivos, em empresários, em pseudo-líderes religiosos, em políticos, juízes, bandidos fardados (alguns chamam de policiais), etc.

O indivíduo que não sente nenhuma culpa, remorso ou impulso de resistência diante do ato de prejudicar as pessoas é basicamente um psicopata. As pessoas só se tornam recuperáveis quando há a premissa de que podem desenvolver o arrependimento diante dos erros cometidos contra outras pessoas ou contra o mundo. Alguém que assiste crianças inocentes sendo assassinadas por bandidos fardados e consegue relativizar isso e falsamente sugerir que as vítimas não eram inocentes, basicamente é um psicopata, uma pessoa sem empatia alguma. O mesmo pode ser dito de quem assiste uma população negra ser dizimada e preterida na sociedade e não demonstra nenhum incômodo por esse crime e a disseminação disso em nível estrutural. A conivência nesses casos demonstra não a mera incompreensão da realidade, mas uma indiferença com as vítimas, uma falta de empatia e uma colaboração aberta ao erro.

Diferente dos psicopatas, em outro grupo de pessoas, há os que cometem erros por uma série de contextos em que foram submetidas e é evidente que, como tudo na humanidade, flui em graus. Há pessoas que, por exemplo, aceitam roubar, mas não aceitam matar. Entre os que roubam, há quem o faça por falta de opção ou até mesmo por uma deformação do contexto. Nem sempre são pessoas que ignoram o valor do outro. Muitas das vezes são pessoas que só estão tentando situações extremas como instinto da própria sobrevivência. Se ético ou não é outra história. Mas é bem diferente você tratar pessoas que estão em uma situação por uma série de contextos que nem elas mesmas gostariam de estar, com pessoas que, sistematicamente e irrestritamente, estão e gostam de estar nessas condutas, principalmente as extremas, uma vez que, no caso de psicopatas, a falta de empatia também estabelece uma ausência de limites sobre até onde as pessoas podem errar contra os outros em benefício próprio.

Citemos, por exemplo, o caso do golpe na democracia do Brasil, onde pessoas claramente psicopatas tomaram o governo sem nenhum arrependimento de terem colocado milhões de brasileiros de volta à miséria e pobreza, de terem incentivado direta e indiretamente a matança e estupro de milhares de pessoas, como também de ter colocado tantas outras em situação deplorável de desemprego, doença sem suporte, corte de direitos básicos, falta de dignidade humana em diversos setores e assuntos, entre outras coisas. Quem faz uma ação nessa direção sem nenhum pudor, freio, incômodo ou arrependimento, está frio o suficiente pra ser tachado de psicopata. Relembremos, por exemplo, a desgraça que foi o nazismo na Alemanha resultando em uma atrocidade tamanha que jamais conseguiremos apagar o estigma gerado ao país. O nazismo virou sinônimo do que há de pior no mundo e a vergonha que uma nação carrega por ter se envolvido em apoio é um tema sensível a eles até hoje. Para o que acontece no Brasil de 2018-2019 com a trituração da Constituição Federal e da Democracia no país, as ações e narrativas problemáticas que, em certos pontos, geraram danos irreversíveis configuram um crime contra a humanidade em vários níveis. A sede por poder a qualquer custo, não levando em conta nada nem ninguém, é o que faz um desgoverno cheio de psicopatas encontrarem respaldo em um eleitorado totalmente vinculado pela cultura em torno dos mesmos crimes e discursos. Essa sim é a única e real doutrinação ideológica que vem sendo plantada e encontrando muitos frutos, uma vez que o terreno está fértil, como todo terreno cheio de esterco está.

Pra finalizar, eu gostaria de esclarecer que eu compreendo a intenção de diversas mídias da Esquerda em tentar elucidar o cenário político e social do Brasil e do mundo, mas estou olhando de forma racional em como essas mídias estão falhando na percepção precisa dos problemas ou na origem dos problemas. Sem que se saiba exatamente o que está ocorrendo, é difícil ou até impossível de combater o inimigo. Se observamos que fakenews (notícias falsas) estão sendo espalhadas pela Direita, o papel da esquerda precisa ser mais do que apenas lamentar ou tentar esclarecer os fatos de forma verdadeira. É preciso identificar qual a real intenção por trás de quem cria essas mentiras e cortar essa ingenuidade de que disseminam essas informações por mera crença e não por que sabem abertamente que é mentira mas vai servir ao propósito deles. Por isso, peço encarecidamente às mídias todas da Esquerda que saiam um pouco dessa ideia viciada de que o que falta é informação. Não falta informação alguma. Pelo contrário. Sobra informação e a Extrema-Direita tem até mais informação que a própria Esquerda, se observarmos que eles saem na frente na criação das fake news (notícias falsas) surpreendendo a todos da Esquerda com tamanho absurdo e pauta. Se a Esquerda é surpreendida com essas asneiras, é sinal de que os dados preexistem na análise e compreensão por parte da Direita e, mais do que isso, são rapidamente convertidos numa ação contra a Esquerda pra tentar frear, denegrir, mentir ou desmentir, ridicularizar, minimizar, ameaçar, anular, censurar, etc. Enquanto a Esquerda continuar no papel de achar que tudo não passa de falta de instrução, vai levar chapéu dia e noite com cada vez mais desgraças acontecendo na prática, uma vez que nem as mídias e iniciativas da Esquerda dão conta de expor o ponto fraco e a origem doentia e fraudulenta da Direita.

Menos ingenuidade e mais ações e mídias combativas, investigativas e que façam um importante serviço de esmiuçar o miolo do problema e não só debater e lamentar os efeitos da permanência da quadrilha de corruptos no mundo. O mundo está infestado de gente adoecida em diversos sentidos, mas como dizia Martin Luther King, ativista negro: “O que me incomoda não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Rodrigo Meyer – Author

Quem são os apoiadores de Bolsonazi?

Inicialmente, antes das eleições do final de 2018, o quadrilheiro saiu do anonimato e ganhou fama, em especial pela repugnância e polêmica de suas afirmações em uma ou outra mídia, com ajuda de uma gangue de crianças de não mais que 13 ou 15 anos de idade. A imaturidade de todos, inclusive do referenciado, uniu essas pessoas em uma ideia em comum que era a de autoafirmação diante da sensação de serem completos imbeciloides diante da vida séria, adulta, etc. Enquanto adolescentes de 13 anos tentavam se sentir adultos, fracassavam tanto quanto seu bandido de estimação, Bolsonazi.

As afirmações racistas, machistas, homofóbicas, de incentivo ao crime, violência, milícia, extermínio de pobres, ódio de classes, ridicularização de vítimas, somaram-se com aquele aspecto patético de pseudo-masculinidade atrelado a armas e bandidos fardados do Exército e da Polícia Militar, culminando numa fácil aceitação por esse público de adolescentes mal resolvidos com a puberdade, com inconsistência / fraqueza mental, covardia, insegurança psicológica e uma criação social moldada por famílias desestruturadas, cheias de vícios de conduta, de ética e outras mazelas. Não demorou muito pra que essa sopa de desgraça, alimentasse a mídia onde esses adolescentes improdutivos mais gastavam tempo: a internet.

Por muito tempo, essa catástrofe midiática foi vista apenas como uma moda patética. Mas foi justamente a visibilidade ao trágico e cômico que deu espaço pra que uma figura que era anônima na política há quase 30 anos, ganhasse repercussão. Passou a figurar em mais programas de televisão, em notícias, memes, etc. Uma vez famoso por todo lixo que proferia em palavra e conduta, chamou atenção de um novo público que se juntaria à ele: adultos conservadores, bandidos fardados, racistas, neonazistas, milicianos, quadrilheiros, estupradores, traficantes, estelionatários, burgueses corruptos e qualquer um que se sentisse representado pelos crimes que ele enaltecia.

A cada vez que ele elogiava um bandido fardado em qualquer mídia, essa classe se sentia finalmente protegida e acolhida, com respaldo de alguma figura pública famosa. Isso dava a certeza de que poderiam aumentar e perpetuar seus crimes e condutas com a chance de ainda serem condecorados, melhor pagos, enaltecidos em mídias e normalizados como o padrão de realidade. Se antes tinham que se esconder nas intervenções nas favelas pra cobrar propina, pedágio, traficar armas e drogas, assassinar inocentes, forjar cenas de tiroteio pra justificar assassinatos de inocentes, agora poderiam simplesmente fazer isso em qualquer lugar, de qualquer maneira. E fizeram, como mostra o episódio em que o exército disparou 80 (oitenta) tiros contra um carro de uma família inocente, seguido do comentário do Bolsonazi de que o exército não havia feito aquilo.

Não demorou nada pra que parentes e cônjuges cúmplices desses bandidos fardados entrassem em defesa daquele idoso fétido que discursava em favor do crime, sob a fachada falsa de repúdio ao que eles chamavam (e apenas chamavam) de crime em si. Enquanto defendiam a invasão pesada nas favelas, sobre o pretexto de combater o tráfico, na verdade encobriam o fato de que as próprias UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), na verdade eram os próprios controladores do tráfico de drogas local, tanto na parte do dinheiro, das armas, quanto das drogas, movimentando fortunas gigantescas simplesmente pela facilidade que o cargo lhe conferia. Uma estratégia comum entre os frouxos e covardes, que precisam se esconder atrás de um colete a prova de balas, uma viatura, um distintivo / cargo / profissão, um pseudo-aval do governo para terem acesso a algum poder sobre os outros, por meio do crime, corrupção, violência e patetice. Munidos não só de balas e armas, tinham também um salário oficial seguido de uma fortuna paralela vinda da corrupção da própria “profissão”. Enquanto isso as elites continuavam a traficar com seus helicópteros com meia tonelada de cocaína ou, como vimos mais tarde, pelo próprio avião da FAB (Força Aérea Brasileira), levando cocaína para o exterior junto com a comitiva do “presidente” Bolsonazi.

Tal realidade sempre existiu e, com o passar do tempo, foi citada e homenageada. A cada crime cometido por um destes bandidos fardados, Bolsonazi ou um de seus familiares, logo se pronunciava em admiração e proteção, tentando criar uma imagem social de que ser bandido era o ápice da grandeza de um indivíduo. Aquela visão falha, frouxa e tragicômica de masculinidade que nunca figurou além de pseudo-masculinidade. A insegurança nesse quesito foi o alicerce pra construir um modelo imaginário que atingisse ainda mais apoiadores, por meio de afinidade com o problema. Agora já não precisava ser apenas bandido fardado pra se sentir pertencente ao grupo de “valores” que Bolsonazi protegia. Se ele figurasse ao lado de amigos condenados por estupro, por exemplo, logo atiçava os olhos de estupradores para se sentirem parte do time. Se ele saía à público pra humilhar mulheres, os machistas erguiam as mãos em saudação à um similar. Se a humilhação fosse pra gays e lésbicas, os homofóbicos (muitos deles, homossexuais não assumidos publicamente e muito mal resolvidos com o tema) batiam a mão no peito de orgulho por ver que alguém os ajudava a encobrir essa condição deles.

Quando figuravam nas notícias as ações de extermínio, estupro, assassinato e desova de corpos, de forma massiva e aleatória por parte dos bandidos fardados da “polícia” e “exército”, uma classe burguesa aplaudia simplesmente por ver que pobres e negros estavam sendo eliminados do planeta. Pouco se importavam que o ideal racista deles fosse um crime triplo de racismo, assassinato e apologia ao crime. Sentiam-se livres pra falar, afinal, dejetos similares já foram falados publicamente em todo canto, repercutindo nas redes sociais. O Brasil se sentiu finalmente bem representado, por uma figura que enaltecesse a elite corrupta, a classe média corrupta que almejava ser rica como a elite e uma classe pobre corrupta, que, enganada pela classe média e pela burguesia, eram a força motriz de suas próprias mortes e desgraças. Nasceu o tragicômico “pobre de direita”, a figura que acreditava que a miséria em que ele estava inserido era culpa apenas dele e que ele poderia sair dessa condição, apenas se esforçando. Ironicamente, nenhum deles saiu da condição de miséria, senão pela corrupção ou outras formas de crime, tal como o exemplo dado por seus exploradores acima.

A elite branca, composta de todo tipo de inúteis que jamais trabalharam na vida, alimentados pela exploração do capital e da força de trabalho alheia, receptores de heranças (incluindo as gordas heranças de militares e antigas famílias beneficiadas por doações de terras pelos governos corruptos das épocas de ditadura militar e monarquia), agora tinham uma marionete útil que lhes servia facilmente. Montados em grandes mídias de pseudo-jornalismo, rádios, canais de televisão e outras empresas de fachada pra extensa e contínua lavagem de dinheiro, puderam investir esse excesso de dinheiro, contra os seus opositores, controlando como e quando as peças do jogo seriam movidas por essa regra mundialmente difundida, chamada ‘poder financeiro’. Cada vez mais tinham a possibilidade do dinheiro comprar decisões favoráveis na “Justiça”, de abafar delatores, de comprar o assassinato de seus opositores, de comprar espaços nas mídias para inserção de seus pontos de vista, de fundar instituições de lavagem cerebral (e também de dinheiro) como as pseudo-Igrejas, que em inúmeros casos estavam atreladas ao tráfico de drogas e armas, evasão de dinheiro pro exterior, acobertamento de estupradores e/ou pedófilos e todo tipo de banditismo esperado por um grupelho de pessoas que viram no Brasil o potencial para montarem em cima da população otária, para usurpar dinheiro e outros benefícios, sem precisarem sequer se esforçar pra isso, já que os próprios explorados estavam cada vez mais mergulhados na chamada ‘Síndrome de Estocolmo’, onde passam a admirar e proteger seus próprios opressores.

Com tamanha facilidade da perpetuação do crime, com o tempo a realidade foi se tornando saturada e insustentável, uma vez que todo o massacre gerou também um risco de reação explosiva de resistência. Então encontraram uma solução emergencial que foi o golpe político na democracia, para controlar de vez tudo e todos. Eliminaram a primeira resistência a todo esse entulho, ao inventar um crime para atribuírem à presidente da época, Dilma Rousseff. Sendo claro a inexistência do crime, tiveram que forjar uma análise jurídica do caso, sob os votos comprados na Câmara e dos acordos políticos de bastidores, como sinalizado no áudio vazado das conversas que se tornaram meme na internet falando de “estancar a sangria” por meio de “um grande acordo nacional com o Supremo, com tudo”. Tempos depois pudemos perceber a aplicação prática disso, ao ver como as estâncias de julgamento do ex-presidente Lula o tiraram da elegibilidade das eleições de 2018, sob a alegação de crime, por meio de uma denúncia forjada, um julgamento comprado e manipulado por interesses políticos, sem nenhum alvo real e concreto em termos de crime e provas, mas que, por meio de um teatro midiático e o apoio da quadrilha Bolsonazi, ficaram validados e cimentados pela corrupção de mídias, políticos, instituições públicas, delatores comprados, delegados e juízes assassinados, além do caso histórico do extermínio de Marielle Franco que, justamente, denunciava a ação criminosa dos bandidos fardados. Pudemos constatar o ocorrido, quando veio à tona recentemente os vazamentos das conversas do “juiz” Sérgio Moro, conhecido como Marreco de Curitiba, forjando o processo e a condenação de Lula por meios de acordos. Graças a mídia “The Intercept”, pudemos ter acesso a essas conversas vazadas comprovando a corrupção que já sabíamos mas aina não tínhamos provas.

O desgoverno chegou ao “poder” e cumpriu o esperado pelos seus idealizadores e financiadores. Entregou o país para os americanos, privatizando tudo o que fosse possível, desvalorizando e vendendo em troca de nada, conferindo um lucro astronômico para acionistas e burgueses de dentro e fora do Brasil, atrelados a esse modelo corrupto de fascismo, conservadorismo, ódio de classes, racismo, neonazismo, machismo, incitação ao estupro, veneração ao banditismo militar e tudo aquilo que cansamos de ver e saber estar atrelado a essa classe que toma de assalto os espaços políticos e públicos pra ganhar uns anos a mais de vida nadando na fortuna que nunca tiveram competência, mérito e coragem de conquistar por meio de trabalho e inteligência. Basicamente um atestado de frouxidão nunca visto antes. O clássico clichê (redundância proposital) da estupidez humana, que, na ganância por dinheiro fácil e diante da barreira de um Q.I. estrondosamente insuficiente para as ações cognitivas mais simples, tiveram que se render ao crime, ao fascismo e a violência para se apossarem do que queriam.

Passaram-se alguns poucos dias da “posse” do desgoverno atual em 2019 e o nível de desemprego aumentou pra números recordes, junto com a taxa de suicídio. A criminalidade disparou, os casos de corrupção aumentaram não só em número de casos, mas em volume de dinheiro envolvido. Somente alguns desses casos já conseguiram atingir o patamar dos trilhões em corrupção. Somados todos, o número seria incalculável para a noção média atual. O Brasil é recordista em arrecadação de impostos, em corrupção, em pobreza, em lavagem cerebral, em sonegação de impostos, em lavagem de dinheiro, em exploração do trabalho, em usurpação do dinheiro em instituições pseudo-religiosas, no tráfico de droga e armas e em qualquer outro crime que você quiser incluir na lista. Somos um pseudo-país, fazendo pseudo-política, para que uma porcentagem minúscula de frouxos seja beneficiada.

Atualmente nossa alimentação está tomada por 269 novos venenos adicionados na agricultura, entre eles diversos que são altamente letais e cancerígenos. Esse veneno está presente inclusive nas torneiras das casas, segundo o mapa da água e tem como objetivo claro e direto, o extermínio da população mais pobre, seguido da oportunidade de lucro fácil em cima de um problema que nunca existiu, exceto como barreira pro banditismo da burguesia. A aposentadoria não será mais possível aos brasileiros úteis, que terão que trabalhar até o dia da morte, já que a idade média de longevidade é inferior à idade estabelecida pela reforma da previdência. Diversas classes especiais de beneficiários da previdência foram simplesmente removidos, mas não por que falta dinheiro para mantê-los e sim porquê o objetivo é explicitamente matá-los depois de escravizá-los ao máximo possível pelo trabalho, com um salário indigno sem direito a nenhuma aposentadoria, enquanto todo esse montante arrecadado pela instituição, é direcionado pra engordar os benefícios já gordos da classe que menos paga impostos no país: políticos, militares, banqueiros, grandes mídias e burgueses em geral. Enquanto o modelo prático é o do dinheiro fácil tirado à força da massa pobre, incitam a população idiotizada a repetir o discurso da meritocracia, a mesma meritocracia que eles nunca irão seguir, até porque sabem tanto que não existe e não funciona, que tiveram que desistir de tentar e se envolver com o crime pra obter qualquer “vantagem” financeira e política.

E é tão somente por toda essa afinidade com o crime, violência, opressão, machismo, homofobia, fraqueza mental, insegurança, masculinidade frágil, Q.I. limitadíssimo e falta de perspectiva pessoal e social, que uma parcela podre da população brasileira apoiou e segue apoiando a quadrilha Bolsonazi, assim como todos os demais grupos sociais que fazem parte, direta ou indiretamente, dos “benefícios” que a quadrilha os concede, por meio de acordos criminosos nos campos políticos, midiáticos, financeiros, militares, etc. Se você, ingenuamente, achou que era por combate à corrupção o ódio dessas pessoas contra as figuras como Dilma, Lula (frequentemente avaliados como Centro-Esquerda ou até mesmo apenas Centro) ou a qualquer figura posicionada no espectro da Esquerda ou em posição qualquer que seja que se oponha à quadrilha Bolsonazi, então lamento pela sua ingenuidade. Não existe bandido ideologicamente convicto que seja contra a criminalidade ou corrupção. Basta ver que, durante o teatro tragicômico que foi a chegada do desgoverno Bolsonazi em 2019, o que não faltou foi notícia de eleitor assumido do quadrilheiro “eleito”, figurando em crimes de tráfico de drogas, assassinato, estupro, sonegação de impostos, desvio de verbas, corrupção ativa e passiva, falsificação de documentos e o que mais você quiser listar como crime. Basicamente a realidade é uma só: se foi eleitor de Bolsonazi é bandido ou admira e faz apologia ao banditismo, o que dá no mesmo. Se uma figura que se declara e/ou se alia com neonazistas, homofóbicos, racistas, machistas, milicianos, estupradores, traficantes, estelionatários e afins, discursa na mídia abertamente e atrai o interesse de voto de um indivíduo, então esse indivíduo não se opõem aos crimes por ele praticados, mencionados, aplaudidos, abafados, homenageados, elogiados, ostentados, perpetuados e normatizados. O eleitorado de uma escória desse tipo, torna-se igualmente criminoso por endossar os crimes e por ter uma mente completamente voltada para a validação desses ódios, preconceitos, violências, crimes e fraquezas. O eleitorado que se sente representado por uma escória, vê na figura da escória um espelho, uma identificação.

A boa notícia é que ninguém precisa estagnar a mente e pode melhorar o Q.I. e a conduta, aprimorando sua reflexão, sua moral, sua percepção da realidade, etc. Alguém que passou a vida passando vergonha tentando contornar as fraquezas e incompetências por meio da violência, dinheiro e criminalidade, pode, agora, se quiser, tentar conquistar uma realidade positiva e estável pro coletivo, tentando ser alguém decente, com pensamentos e condutas decentes. O Brasil, na era do governo Lula chegou a ser a sexta maior economia do mundo e agora, somos uma piada internacional, listados abaixo de 250 no ranking. O Brasil não ganhou nada, perdeu tudo e talvez tenha perdido o mais importante: a possibilidade de reverter o quadro à tempo. Os desfechos tristes na economia, no trabalho, na educação, no meio-ambiente, no clima, na previdência, na democracia e na estabilidade mínima social, deram um golpe letal no país que, finalmente, conforme alguns países gostariam que fosse, está sem governo, sem projeto de nação, sem resistência, sem oposição, pronto pra ser entregue e sugado. Sempre que uma ditadura é instaurada no Brasil (mesmo as que são maquiadas de democracia), tenha certeza de que quem financia ela são os Estados Unidos com ajuda dos burgueses do Brasil. É assim que eles chegam no objetivo financeiro e de poder, pra continuarem controlando esse quintal (talvez um mero banheiro de beira de estrada), chamado Brasil, onde eles podem vir, levar todo ouro, petróleo, ciência, tecnologia, recursos naturais, dinheiro advindo da mão-de-obra escrava altamente lucrativa e voltar sem esforço nenhum, sem precisar morar nesse buraco trágico e insustentável.

Pra você que se opõem a quadrilha Bolsonazi e a todo esse modelo sujo e frouxo, cabe a você a ação direta. Nada menos que a ação direta será eficiente ou suficiente. Tudo menos que a ação direta será mera piada entra os cochichos da própria quadrilha que pouco se importa com a repercussão dos estragos feitos e que, com orgulho, ainda anunciam que estão só começando. Se você for passivo demais a ponto de baixar cabeça pra essa escória, então você será parte do problema. Converta seu cansaço dessa situação asquerosa em ação direta engajada, inteligente, consistente, contínua e inegociável. Faça o seu melhor ou sua vida será a pior possível. Uma frase do ativista negro Martin Luther King:

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.”

Organize-se em favor da liberdade.

Rodrigo Meyer – Author

2019: o ano em que o Brasil morreu.

Chegamos no ano de 2019 onde tudo se revelou tragicômico no Brasil. Uma massa de pessoas despolitizadas, completamente alheias à realidade, foram responsáveis diretas para a facilitação da chegada do atual desgoverno. O que alivia um pouco é saber que, nestas eleições atípicas de 2018/2019, o eleito não ganhou por maioria de votos, mas por maioria de votos válidos. Na prática isso significa que a maioria da população continua figurando como não apoiadora do atual desgoverno, ao menos por meio do voto. Contudo, há também um lado triste nisso, pois por omissão do voto ou por anulamento do voto, facilitaram pra que, mesmo com poucos votos, o incompetente desgoverno ganhasse por votos válidos. Figuramos com um número enorme de pessoas que não puderam votar, devido a uma inédita regulamentação sobre telemetria que impunha prazos pra coleta de digitais dos eleitores e impedia os atrasados de terem direito ao voto. Uma parcela de descontentes, preferiu pagar a multa do que votar, se esquecendo que essas eleições eram atípicas e precisavam de um posicionamento claro, ainda que não tivessem grande apreço pelos candidatos em geral. Já não se tratava mais de escolher um candidato, mas simplesmente de garantir que, entre eles, um único fosse eliminado.

Mas, considerando o desastre cultural e educacional da população brasileira média, foi praticamente esperado que, na primeira oportunidade, transformariam o cansaço com a política em uma ação impensada, pouco ou nada politizada, inconsequente e acompanhada de inúmeras cicatrizes difíceis de serem apagadas. A entrada do atual desgoverno deu brecha para um número colossalmente maior de corrupção, violência, prejuízo social, político e democrático. Assistimos o desmonte do país logo nos primeiros dias e a cada mês que cruzamos no ano de 2019, o grupelho que invadiu a política do país, transformou o Brasil, direta e indiretamente, num palco de piadas nacionais e internacionais, tamanha a catástrofe e ignorância despejadas. Todo o idiotismo acumulado por gerações encontrou vazão na marionete que simbolizou essa descarga de dejetos em cima do Brasil.

O brasileiro, que já era, há muito tempo, tido como o povo mais mal-educado de toda a internet, conseguiu ir além ao sentir respaldo e representatividade para a parte da população que era justamente a mais ignorante, imatura, corrupta, violenta e inapta a estar em contato social (tanto presencialmente, quanto pela internet). A leva de reacionários e/ou imbeciloides que foram manipulados a sustentar o atual desgoverno (por Síndrome de Estocolmo ou cumplicidade no crime), figuraram em infindáveis notícias de crimes de racismo, estupro, estelionato, assassinato, homofobia, feminicídio, machismo e outras ilegalidades. Direta ou indiretamente serviram de aval para neonazismo, disseminação de ‘fake news‘ (notícias falsas), aumento da destruição de direitos trabalhistas, comprometimento da educação, aniquilação do meio ambiente, envenenamento em massa dos alimentos e da água de consumo nacional, deterioração dos serviços públicos em geral, entrega da tecnologia, dos recursos e das empresas públicas ao setor privado, em especial para a mão dos estrangeiros (basicamente para os Estados Unidos), tornando-se, assim, a maior e pior piada de mal gosto que qualquer país ou pessoa já presenciou em qualquer era e lugar desse planeta. Simples assim.

O Brasil conseguiu colocar à frente do desgoverno, algo ou alguém que, diante de um discurso em outros países, conseguiu arrotar meia-dúzia de palavras em um evento onde esperava-se que, pelo menos, discursasse por 45 minutos. Não tendo nada para dizer, pois, aparentemente, sequer pensa, mostrou ao planeta que o Brasil não é um país a quem uma pessoa com sanidade possa querer ter relações políticas ou comerciais, enquanto o atual desgoverno vigorar. Estrangeiros gravaram na mente que o Brasil talvez nem seja um país de verdade, pois já não se leva a sério. Vivenciamos em 2019 o reflexo de um anterior golpe na democracia e, pior do que isso, estamos diante de uma massa aparentemente passiva, acomodada em não lutar contra isso tudo que está corroendo o passado, o presente e o futuro do Brasil.

O brasileiro médio, ainda que avesso a essa postura nojenta do atual desgoverno e os respectivos eleitores deste, não parece estar nada engajado em reverter a situação com urgência. Estão tão anestesiados pela desgraça que reina cada vez mais no país, que desviam facilmente a atenção para as futilidades do esgoto que escorre pela tela da televisão e pelo humor empobrecido da internet. Acabam ainda mais ignorantes, menos politizados, mais ansiosos, infelizes, deprimidos, doentes, vítimas, nulos, capados de qualquer potencial e com uma pretensa esperança de fuga para melhores trabalhos ou estudos, esquecendo que nada disso será possível no Brasil de 2019. Quando se dão conta da urgência em sair do território e recomeçar a vida em outro país, já é um tanto tarde para a maioria, que desperdiçou massa cefálica, tempo e dinheiro com coisas que não colaboram pra que tenham um posicionamento digno lá fora. Ficam a espera de um milagre dentro ou fora do Brasil, mas esquecem que não haverá milagre algum enquanto a ação não ocorrer. Ficam mastigando as superficialidades, as asneiras, as mentiras, as atuações porcas de um mundo fracassado habitado por pessoas fracassadas. Querem o sucesso, sem ter que buscar o sucesso também (e primeiro) em si mesmos, enquanto pessoas, enquanto intelectuais, enquanto trabalhadores, estudantes, parceiros de relacionamento, indivíduos políticos, etc.

Como consequência dessa inércia, estão cavando tempos ainda mais sombrios, não só pelos próximos meses de desgoverno, mas pelos atos desastrosos irreversíveis que vão repercutir em qualquer momento do futuro. Quando estiverem em guerra por água ou quando estiverem sendo dizimados pela miséria e violência, não haverá força popular que seja suficiente pra reverter a situação instaurada. Rios e solos envenenados não podem ser desfeitos. Pessoas mortas não ressuscitam. Cultura de violência, racismo, machismo, homofobia e mistura de pseudo-religião com pseudo-política, tornam-se modelos tirânicos contra gerações, simplesmente porque cultiva o aval da própria população para manutenção desse ódio e ignorância, através dos discursos tóxicos herdados nas famílias, nas escolas, nos espaços de trabalho, nas mídias, nas pseudo-literaturas, até que tudo esteja tão arraigado no inconsciente que se torne inevitável a propagação desse câncer de idiotismo.

Talvez lhe incomode a sinceridade, mas, quando todo e qualquer país estiver figurando em qualidade de vida exemplar, o Brasil, infelizmente, ainda será um buraco de desgraças. Se você tem esperanças de que o Brasil melhore, talvez conheça pouco dos dados por trás desse circo. Talvez ignore que a corrupção está em todos os setores e níveis e que, por isso mesmo, jamais, em momento algum, será permitido que ela seja reduzida ou eliminada. Sobra ao Brasil apenas a perpetuação do crime, do ódio, do controle, da opressão, da roubalheira, da violência, da destruição de tudo e todos. Em troca de uma miséria em dinheiro, alguns inúteis encarnados na Terra fazem qualquer negócio. Ingênuo aquele que vê com positividade o futuro do Brasil, apostando simplesmente no frágil nascimento de uma resistência política, de uma melhoria nas relações sociais ao lado das minorias, com o empoderamento de classes sociais marginalizadas. Eu desprezo o pessimismo e o positivismo. Sou eterno defensor do realismo.

Se te incomoda que eu descreva a desgraça que o Brasil é e será, não deve tentar mudar a mim, mas a si mesmo. A aversão com a desgraça nacional não deve ser motivo para não querer enxergá-la tal como ela é, mas exatamente vê-la e enojar-se o suficiente para querer mudá-la com urgência. Se no teu discurso predomina a esperança aleatória por dias melhores, sem nenhuma ação direta e urgente, então nada do que você disser ou pensar será útil ou suficiente para reverter o Brasil de 2019. E quanto mais tempo demorar pra agir, mais difícil será para conseguir ser efetivo nas eventuais próximas ações diretas. O tempo está passando e o desgoverno está montando nas costas de todos. Quando estiver acorrentado e sem opções de resistência, será tarde demais para concordar comigo e tomar iniciativas coletivas de ação e reação. Não deixe para amanhã o que só pode ser feito hoje.

Está nas mãos de boa parte dos brasileiros, expurgar o câncer que cresceu sobre o país. Caso não reaja de forma drástica e imediata, será tarde demais. Se já não tenho esperanças pela mudança do Brasil, agora perco as esperanças no próprio brasileiro. Já deixo de me solidarizar com essa população marcada por pessoas débeis, sem nenhum posicionamento definido, passivos, frouxos, sem união, desorganizados, acomodados, fúteis e preguiçosos. Poderia alimentar esperança pela melhoria do brasileiro, mas manterei sempre o realismo. Contra fatos não há argumentos. Olhe para o Brasil de 2019 e me diga onde estão os corruptos, fascistas e racistas que não estão expostos em praça pública para decapitação em massa. Um povo que é injustamente violentado por um grupelho de bandidos de paletó ou farda e assistem essa ruína calados, estão colaborando para essa injustiça, seja por covardia, por medo, passividade ou Síndrome de Estocolmo. E, enquanto estiverem nessa condição, serão, infelizmente, merecedores do desgoverno e caos que recaem sobre suas cabeças. Espero que esse modelo de população não prospere, pois desse mato infestado de inação não surgirá nada além de mais desgraça pro país. Eu lavo as minhas mãos e me isento de apoiar ou ter esperança por um povo que não se ajuda, não se move, não se coloca como prioridade no enfrentamento do desgoverno. Tão culpados quanto os carrascos, são as vítimas caladas. Tem uma frase de Martin Luther King, ativista negro, que diz: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Rodrigo Meyer – Author

A receita do caos e a esperança.

A imagem que ilustra esse texto é uma adaptação de uma fotografia de 7 de Maio de 2006 feita em um evento de Democracia Direta, em Glarus, na Suíça.

É difícil não falar de política quando tudo na vida do homem em sociedade é política, querendo ou não. Ao falar do ser humano, temos que, necessariamente, falar sobre política. Mas, engana-se quem pensa que política é somente aquilo que compõem a esfera das ideologias partidárias, dos planos de governo, das eleições e das decisões e repercussões dos assuntos ministrados pela classe dos chamados ‘políticos’.

Em verdade, todo ser é um ser político e não apenas os engravatados que ocupam cargos oficiais em um governo. Quisera eu não precisar falar de política, um dia após o 1º Turno das Eleições brasileiras. Seria tão mais fácil e agradável seguir a vida pensando no próximo livro, na próxima ilustração, no trabalho, na companhia dos amigos, nas viagens e nos prazeres adiados a tanto tempo. Mas, por isso mesmo, é importante erguer os punhos e direcionar um pouco mais de energia, mesmo sabendo o quão desgastante é lidar com a situação do Brasil.

Desde o “descobrimento” do Brasil, com a invasão dos portugueses, a tomada de nossos bens, a destruição e/ou apropriação da cultura indígena e dos negros, em paralelo a escravização destes, até os momentos ditos ‘modernos’, que de modernos não possuem nada, ficamos em situações vergonhosas, desastrosas e incompatíveis com qualquer sonho de progresso que atribuímos aos chamados ‘países de primeiro mundo’. O Brasil tentou por muitas vezes reverter sua própria condição, apostando em iniciativas que nasceram de baixo pra cima, das gerações de pessoas empobrecidas pela exploração, netos dos netos de muita dor e pouco respeito recebido. O Brasil se formou, basicamente, pelo trabalho de quem sobreviveu ou deu a vida por uma esperança de mudança. As pessoas que mudaram esse país, goste você ou não, não foram os banqueiros, nem as pessoas que sistematicamente receberam heranças de nobres, que por sua vez, só se tornaram assim ricos (porque nobres mesmo nunca foram), pela exploração das pessoas. Tempos depois, ainda vemos isso acontecer, sob outros métodos e cenários. Agora, relativizam até mesmo os direitos e salários conquistados, na busca por um retorno à época em que as pessoas tinham o que comer, mas eram escravizadas. Estamos em um país quebrado financeiramente, mas mais do que isso, quebrado moralmente.

Mas, por hoje, não vim falar exatamente desse tipo de política, muito menos sobre economia e mercado. Embora seja verdade que isso tudo é importante, porque é a consequência atual que vivemos, temos que compreender, antes, como chegamos no caos. E pra entender isso, precisamos lembrar de tudo que tentam omitir ou apagar diariamente.

Há alguns dias eu lia o depoimento de um rapaz que quando adolescente sentia orgulho de apoiar um determinado pensamento, chegando a admirar uma figura de liderança desse meio na política brasileira. Os anos se passaram e ele despertou de uma imensa ilusão. Não foi tão simples quanto esperar o tempo passar. Foi necessário que ele tivesse a decência de se valorizar o suficiente pra se desvencilhar de falácias e má informação. Teve que estudar História, Política e se empenhar na sua própria compreensão, descobrindo os motivos que o faziam ter falta de empatia e uma conduta e/ou pensamento simplista demais para os problemas do mundo. Tal rapaz discursava em seu depoimento de arrependimento como um pedido de ‘mea culpa‘, se retratando sobre o seu passado e explicando o erro cometido que culminou na atual mudança de postura.

É bonito ver que uma pessoa, sozinha, por assim dizer, apenas com a ajuda de sua própria curiosidade e força de vontade, conseguiu refletir sobre si mesmo, seus erros, a causa de seus pensamentos equivocados, seus transtornos, seus medos, suas inseguranças e seus preconceitos sobre o mundo. Munido de informações sobre si mesmo, ele percebeu que o melhor caminho era munir-se também de informações aprofundadas sobre o mundo. Eis que nasce alguém novo, disposto a aprender ao invés de replicar bordões e ilusões. Eis que nasce alguém questionador que pensa sozinho e não depende de ninguém ditando o que ele precisa fazer ou pensar. Eis que surge alguém que realmente tem potencial de transformar o mundo.

Observando esse caso isolado de transformação, logo podemos notar que as mudanças são possíveis, mas depende de um esforço sincero. Quando você busca a liberdade de entender mais daquilo que não conhecia, você transforma preconceitos em conhecimentos, ilusões em dados realistas. O inverso disso, sendo a estagnação pura ou o retrocesso, aniquila o potencial humano de se lapidar, de melhorar, de progredir, de evoluir, de adquirir conhecimento e de quebrar os preconceitos. O Brasil chegou num estágio de sufocamento social onde corremos o risco de tristes novos desmembramentos dos fatos que ocorreram, principalmente, de 2014 pra frente. Durante estes anos recentes, o Brasil se viu em uma guerra de corrupção imensa, onde até os que deveriam ser responsáveis pelas prisões, figuraram em crimes de corrupção e prisão (vide o caso do apelidado ‘Japonês da Federal’, pra citar apenas um das centenas de envolvidos). Cruzamos por um processo fraudulento de Impeachment, com votos comprados entre os políticos, recoberto com a certeza de que a corrupção continuaria ainda mais vigorosa, apesar da ‘Operação Lava Jato’. Áudios vazados mencionavam que a corrupção só conseguiria seguir adiante se houvesse “um acordo com o Judiciário, com tudo.”. De lá pra cá, nunca se viu tanta parcialidade, hipocrisia, corrupção e banalização da vida. Viciados em corrupção e dinheiro, os políticos aproveitaram o caso generalizado pra agir ainda mais, já que era tanta confusão, que ninguém teria tempo pra discernir todas as falcatruas que estavam ocorrendo em paralelo.

Enquanto o brasileiro assistia entusiasmado pelas cenas dos próximos capítulos nas sagas diárias dos telejornais ou dos sites de notícias na Internet, os políticos riam em dobro, matando delatores, juiz e até mesmo o delegado que investigava a morte deste juiz. Em uma sucessão de crimes pra queima de arquivo, o recado foi dado: após o aval dos corruptos na Justiça e na Política, todos estariam segurando seus ossos de forma incondicional, tivesse ou não que matar alguns pra isso. Com o juiz, Sérgio Mouro, o mesmo que recebe ilicitamente salário acima do teto permitido por lei, diversos casos convenientemente foram ignorados por ele. Em se tratando de seletividade e hipocrisia, esse parece ganhar de muitos outros. Abraçou de forma notória o partidarismo e fez todo o possível pra inventar um cenário que corroborasse com a teoria que ele e sua turma escolheram pra pintar a caveira de certas figuras políticas. Tanto fez e tanto recebeu respaldo da mídia, que conseguiu não só forjar a condenação de Lula, como mobilizar um mar de incautos a expandir a semente do ódio que nutriam pelo PT.

Tais pessoas, enviesadas pela ideia de que o Partido dos Trabalhadores (PT) representava automaticamente uma ideia ou consenso abraçado por todos os políticos que ali estavam inscritos, formaram um grande número de brasileiros que não tinham disposição de aprender ou discutir verdadeiramente os assuntos políticos, criaram um muro de ignorância, exatamente ao sentido real de ignorar algo. Ignoraram fatos, ignoraram a manipulação política que sofreram, ignoraram as pendências internas de si mesmos, ignoraram as falácias cometidas, o ódio pregado e até mesmo as ‘fake news’ criadas e compartilhadas massivamente pela internet e até mesmo pelas mídias ditas ‘convencionais’. O brasileiro aprendeu de forma completamente distorcida e limitada, que bastava ter ódio à um monstro imaginário e tudo ficaria bem. Foi exatamente esse cenário desastroso de desafeto pelo estudo e reflexão da política que cultivou uma plateia sedenta por manipulação, por discursos de ódio compatíveis, por uma plantação ostensiva de falácias e conceitos pré-fabricados que levasse o eleitor a ficar tão indignado com o cenário desenhado por alguns ao ponto de começaram a achar válido ideias descabidas como, por exemplo, dar voz, poder e espaço pra figuras completamente despreparadas e mal intencionadas como a do candidato à presidência de 2018, Jair Bolsonaro.

Mas, engana-se novamente, quem pensa que esse espaço nasceu simplesmente da repetição sistemática dos discursos de ódio contra os governos anteriores. Esta repetição foi, se muito, apenas o embrulho de um contexto prévio muito maior que estava sendo gestado no brasileiro. Descobrimos em 2018 um abismo aparentemente sem precedentes, composto de um número grande de pessoas abertamente cegas sobre valores e dignidade humana, adeptas de um discurso aberto de xenofobia, racismo, machismo, homofobia, ódio de classes e uma alusão fictícia e pré-fabricada de um suposto combate aos regimes totalitários comunistas. Muito se nota disso, quando se percebe que essas pessoas desconhecem até mesmo que Comunismo nunca se resumiu aos citados regimes totalitários que visualizamos na União Soviética ou em outros exemplos similares. As pessoas que apontam ódio ao Comunismo, tentam, em vão, alçar do fundo da História um cenário que não tem nenhuma conexão com os ideais abraçados pela diversificada esquerda no Brasil e em vários povos do mundo. Independente de qual seja seu posicionamento ideológico, é um poço de ignorância acreditar que é suficiente pautar seus discursos e pensamentos em algo que você simplesmente desconhece e, mais do que isso, replica um discurso se posicionando ardorosamente sobre, sem nem mesmo poder ter coerência ou respaldo de fatos. E quem sai perdendo com isso, além de você mesmo, são todos os demais na sociedade que vão ter que mastigar as consequências da falta de informação, das mentiras e preconceitos plantados, do ódio gerado e, claro, da manipulação ainda mais feroz dos corruptos e sedentos por poder, em cima, justamente, desses que nada sabem sobre aquilo que os está explorando e manipulando no campo da política (pra dizer o mínimo).

Perceba que é natural e sensato as pessoas terem pensamentos diversos, desde que estejam sempre almejando conhecer ao invés de reduzir preconceituosamente uma suposta oposição que desconhecem. Na vida política, em espaços democráticos, por exemplo, vê-se algo em comum com modelos de diferentes vertentes políticas, que é justamente a concordância em se fazer uso dos mecanismos políticos em comum pra preservar, antes de tudo, o direito de todos terem espaço possível na política, restringindo, paralelamente e automaticamente, as opções que derrubam e ameaçam a democracia, como é o caso do fascismo. Por essa simples razão, vertentes ideológicas até mesmo fora do campo da democracia, ainda encontram sintonia com os democratas, no sentido de manterem, pelo menos, o antifascismo como requisito. Não tarda muito pra que as pessoas olhem estas informações apontadas e fiquem assustadas ou receosas sobre o que isso possa significar. Tantas e tantas vezes já se foi feito o discurso depreciativo sobre a auto-gerência ou o Anarquismo, que as pessoas já se esqueceram de que é exatamente nestes modelos que você tem liberdade e autonomia, inclusive pra pensar por conta própria. Ser livre exige muita responsabilidade e, se você recusa ou minimiza o valor de uma ideia que prega justamente a liberdade, você está minando a sua própria liberdade e sua própria coerência. Ao se pautar pelo cerceamento do seu próprio pensamento, você está admitindo um encurtamento de seus potenciais de reflexão, de decisão de sua própria vida e da sua capacidade em ser quem você realmente quer ser.

E onde quero chegar com isso? Gostaria, se possível, conduzir os passos desse texto até o ponto em que você possa perceber que, ter se prestado ao papel sórdido de marionete não fará ninguém ser realmente alguém com potencial de transformar sua própria vida em algo melhor, incluindo nisso, claro, a transformação do seu país. Aqueles que verdadeiramente querem ver uma solução para os problemas do país, precisam, antes de tudo, estarem munidos da autonomia necessária pra pensarem sozinhos, por conta própria, sem apoio de muletas oportunamente criada por manipuladores que vão sugar sua moral, sua índole, seu dinheiro, sua força, seu poder de discernimento, sua educação, sua empatia, seu senso de percepção sobre a aproximação de problemas e até mesmo sobre a percepção do grau dos problemas ao redor. Não seja essa pessoa que cresce sendo levado pelas ideias de qualquer um, espumando seu ódio em discursos rasos que não podem sequer ter comprovação ou respaldo da realidade. Não seja a pessoa que passa vergonha desnecessária na internet e nas conversas de mesa, tentando ensinar a História que nem mesmo você teve paciência de estudar. Faça como o citado sujeito do depoimento que teve a grandeza de rever seus equívocos e começou a estudar política com seriedade, justamente por não aceitar continuar na cegueira, na manipulação, no prejuízo causado pela corrupção dos políticos e nas mentiras e iniciativas nefastas criadas por aqueles que exploram sua mente, seu trabalho, sua família, sua esperança, sua dignidade, sua individualidade e seu valor como ser humano.

Nos próximos momentos, chegaremos ao 2º Turno das Eleições 2018, onde as pessoas precisarão deixar um pouco mais claro aquilo que elas não aceitam pro futuro de si mesmas. Infelizmente, em um cenário como o atual, não tenho como ficar feliz em descrever ou apontar as opções, justamente porque sei que temos opções rivalizadas demais pra conseguir flexibilizar. De um lado temos o que deveria ser inaceitável: um candidato que representa os absurdos do fascismo, com apoio aberto ao horror da Ditadura, tendo como discurso, a homenagem à torturadores, o preconceito violento contra negros, gays, mulheres, índios e minorias em geral. Fosse este qualquer outro candidato de direita concorrendo às eleições, não teria erguido em grande parte da população (não só do Brasil) um repúdio automático expresso em manifestações ao redor do mundo. Você pode achar que essa rejeição é mais um plano mirabolante conspirado por um político opositor, um partido ou um grupo de viés ideológico, mas engana-se duas vezes. E é por não se permitir compreender a fundo quem são as pessoas que expressaram claramente a não aceitação do fascismo como opção política, que você acaba manipulado mais uma vez pelo seu próprio opressor. Ainda que você simpatize ou solidarize com algumas das supostas ideias pregadas ou discursadas por Bolsonaro, precisa, antes de tudo, entender o que te levou a esse desespero que te jogou à um equívoco na interpretação da realidade, no aprendizado sobre fatos históricos, no que é benéfico ou eficiente pra transformação da corrupção do país ou até mesmo no que é útil pra aproximação da sua ideologia na vida até você. Se hoje você pode pensar com liberdade sobre todas essas questões, é porque livros não foram queimados, rasgados ou confiscados, ideias na internet, no rádio e em outras tantas mídias, não foram censuradas, espetáculos de música ou teatro não estão controlados, etc.

Uma figura tão polarizada como a deste candidato do PSL, ao lado de outra figura que tem sido vista como um mascote do Partido dos Trabalhadores (PT), fez com que os ânimos ficassem aflorados. O Brasil conseguiu cair em um contexto de anti-PT muito grande, onde até mesmo a figura de um ex-prefeito que cumpriu resultados na sua gestão, tem sido visto com maus olhos por muitos que aderiram aquela ideia fácil de seguir o vento dos discursos de ódio que pressionaram os últimos presidentes do Brasil. Esse tipo de polarização impensada, coloca na balança figuras com pesos completamente diferentes. Você pode até mesmo não achar ideal o potencial do candidato do PT à presidência e suas propostas de governo, mas o que você não pode negar é que, entre as opções que restaram, ele é o único que pode lhe assegurar a continuidade da sua própria liberdade de escolher próximos candidatos em próximas eleições. Feliz ou infelizmente, em 2018 passamos por eleições atípicas neste primeiro turno e seguirá sendo uma eleição atípica no segundo turno. Diferente de outros anos de eleição, o atual momento nos colocou pra escolher algo muito além do que planos de governo ou até mesmo de ideologia partidária. Estamos diante de um cenário que pode comprometer gravemente a democracia, extirpando ela à força ou maquiado de meios “legais”. Um candidato que não reconhece a legalidade e a democracia, que acredita que pode resolver problemas da grandeza do país por meio da violência, não é só uma pessoa violenta e sem empatia, mas alguém que desconhece sobre como as coisas realmente funcionam. O Brasil já vive um caos generalizado desde a colonização e tudo tem se agravado dia após dia, por falta de investimentos suficientes nas áreas que realmente importam. Negligenciar a base e a causa dos problemas não vai resolver os problemas existentes, vai ampliá-los e ainda trazer novos problemas. Esse é o perigo que muita gente notou e quis distância de forma incondicional.

Você tem nas mãos a oportunidade de tolerar um governo que não aprecia tanto, mas que será tua opção possível na democracia, pra rejeitar o fascismo embutido na única figura que restou como concorrente deste. Infelizmente, quando o mundo fica polarizado, as pessoas ficam apenas com duas opções e isso é desastroso. Queira pra si, sempre, ter todas as opções possíveis e imagináveis. Isso é liberdade, isso é, até mesmo, ser liberal e ter a possibilidade de definir e discutir ideias. Lembre-se que, por mais que você pense pelo ódio, quando você, eventualmente, descobrir que se arrependeu, talvez não encontrará mais as portas abertas pra sair de onde você nunca quis ter entrado. Pense nisso e lembre-se que eu dediquei meu tempo escrevendo tudo isso, justamente porque nenhum dos dois candidatos que figuram no 2º Turno, são alinhados com os meus valores e ideais, mas, certamente, entre estes dois há um deles em que escolho tolerar e esperar pelas próximas Eleições e o outro eu não concordo de maneira nenhuma em ter que engolir, sem opção, fruto de um eleitorado manipulado que venceu pelo ódio e não pelas ideias, pela disseminação das ‘fake news’ que rodeiam a internet há muito mais tempo do que a candidatura de ambos. Eu escrevi esse imenso texto, por me opor sistematicamente ao fascismo e à qualquer porta aberta para tal. Escrevi, porque acredito que boas ideias e ações honestas valem mais do que corrupção e violência. E, finalmente, escrevi tudo isso, porque estudei, porque me permiti pensar sozinho e porque não aceito nada menos que a minha liberdade. Almejo continuar, vivo, respeitado, com espaço para pensar, escrever, refletir, discutir, mudar, evoluir, construir o que possa ser melhor não só pra mim, mas também pra você. Se a sua estrela não brilha, por favor, não tente apagar a minha. Eu prefiro me dispor a ajudar a fazer a sua estrela brilhar também. Liberdade é onde todos tem a oportunidade de vencer, horizontalmente. Opressão é onde um “vence” os demais verticalmente.

Rodrigo Meyer – Author

Nenhuma ignorância ficará impune.

Independente dos sistemas sociais e das interações humanas, tudo aquilo que existe, traz consigo a inevitável consequência de sua existência. E o que isso quer dizer? Quer dizer que se existe uma fruta pendurada em uma árvore, haverá um momento em que ela cairá do galho ou será digerida por algum pássaro. Da mesma maneira, se uma pessoa chacoalha uma árvore carregada de frutos, alguns frutos poderão cair. Assim como nenhuma ação fica sem reação, a ignorância humana também não percorre sem consequências diretamente relacionadas.

Se pegarmos exemplos simples, já conseguimos demonstrar esse fato. Imagine que uma pessoa tente construir uma casa, porém sem nenhum domínio de engenharia, construção ou mesmo de física básica e empírica. Visualize uma pessoa tentando erguer 3 andares de pedras pesadíssimas, apenas apoiadas numa base frágil de bambu. O simples fato da pessoa desconhecer as propriedades de resistência do bambu, a torna ignorante nessa tentativa e traz como consequência a impossibilidade do feito e/ou um terrível acidente com as pedras quebrando o bambu e vindo toda obra ao chão.

Na vida, nem tudo que exige noção, conhecimento e controle da ignorância, são tarefas tão óbvias como estas. Ainda que estejamos em uma época dito “tecnológica”, ainda temos que enfrentar muita ignorância que sobrevive ou renasce do passado. A informação precisa chegar pra todos, porém vivemos tempos difíceis onde até a pouca informação começa a faltar e falhar. As pessoas já começam a crer, novamente, em ideias como ‘Terra plana’, resgatando um culto à ignorância que parece ser o centro de suas vidas. Haveria tempo pra simplesmente criticar essas pessoas, porém isso não contribuiria em nada para a melhoria do cenário. Deixemos que as críticas vazias fiquem somente entre os ignorantes. Tomemos pra nós, se objetivamos alguma melhora no mundo, o papel de transformar as pessoas ao nosso redor. Ainda que seja difícil fazer despertar o interesse pela cultura, sabedoria, intelectualidade, noção, razoabilidade, realidade, verdade, educação, etc., precisamos, pelo menos, tentar.

Tudo na vida tem um preço intrínseco que é dado automaticamente, conforme cada pessoa interage na realidade. Seja lá quem for e como for, tudo que for feito, pensado ou intencionado, trará uma proporcional consequência. Assim sendo, nada mais inteligente e útil do que tentar pautar suas ideias, ações e intenções em coisas coerentes, produtivas, positivas, que vão te retornar benefícios ao invés de prejuízos, que vão te abrir caminhos ao invés de lhe fechar portas, que vão lhe tornar alguém mais esclarecido ao invés de alguém mais facilmente enganado, que vão lhe dar mais paz ao invés de lhe tornar alguém que muito odeia e se torna inconveniente por isso.

Você pode jogar pedras para o alto, livremente. A liberdade é justamente poder fazer o que se quer, mesmo que seja uma idiotice completa. Contudo, em toda liberdade existe o preço da responsabilidade com a colheita obrigatória das consequências. Nada que fazemos vem sem consequências, mesmo que elas demorem a chegar ou a serem notadas. Inclusive, é justamente entre os ignorantes que estão as pessoas que menos notam a consequência das coisas, sendo isso, portanto, o principal motivo pelas decisões pouco inteligentes destes indivíduos. Quando assistimos conteúdos de humor, rimos, muitas vezes, das trapalhadas que o ser humano consegue fazer ou dizer. De alguma forma, rimos daquilo que nos parece incabível demais pra ser levado a sério. Contudo, séries de desenho animado como “Os Simpsons”, nos faz lembrar que grande parte da sociedade real é passível de piada. Se procurarmos com um pouco mais de sinceridade, certamente encontraremos em muitos de nós, inúmeras atitudes, pensamentos ou intenções, que nos tornam ridículos. Sabendo disso, precisamos estar preparados para lidar com essas questões, muito além do simples ato de rir e esquecer de tudo após o fim de um episódio televisivo.

A ignorância é o que faz, por exemplo, uma pessoa ser vítima fácil de uma notícia falsa ou um estelionatário. Quem desconhece a realidade, acaba por ser como um papel em branco que tudo aceita. Aquele que nada conhece sobre a vida, não tem parâmetros e nem memória pra se orientar sobre o que é suspeito, estranho, problemático, falho, inverídico, perigoso, etc. A criança que nunca viu o fogo agir, certamente, corre o risco de queimar a mão diante da curiosidade pela chama luminosa. O esclarecimento sobre os perigos do fogo e a reiteração de que o fogo é perigoso, através das demonstrações de como ele sobreaquece tudo, como ele destrói as coisas e como ele pode sair de controle se for negligenciado, são formas de instruir uma criança ou leigo sobre o funcionamento do fogo, o uso correto desta ferramenta e as precauções diante do tema. De maneira semelhante, instruir pessoas na sociedade sobre todas as demais questões, as ajudará a lidar melhor naquilo que elas não possuem, inicialmente, nenhuma prática ou afinidade.

Em situações difíceis como a do Brasil nos diversos setores, é preciso, mais do que tudo, investir pesado na transformação das pessoas, no discernimento da realidade, na valorização de si mesmas, na valorização do raciocínio, do conhecimento, da intelectualidade, do embasamento, do discurso, da reflexão e do preparo pra que estas pessoas transformadas sejam também agentes de transformação nos próximos indivíduos. É desse ciclo perpétuo que extrairemos alguma chance de nos tornarmos um coletivo que consegue desfrutar de cada vez mais qualidade de vida. Qualquer país com qualidade de vida (e, claramente, Estados Unidos e Brasil não são um deles), o investimento no que realmente importa é a prioridade sempre. No Brasil, a maioria dos políticos, por questões de agenda ideológica, parece ter como principal atividade a desvalorização de tudo que é urgente, justamente para enfraquecer a mente do brasileiro médio, tornando-o mais fácil de ser controlado e subjugado. É tarefa constante para tais políticos mencionados, ampliar, dia após dia, os mecanismos de cerceamento da autonomia, do aprendizado, da liberdade e da reflexão, tal como os exploradores da vida alheia que colocam cabrestos em cavalos e similares, para melhor poder conduzi-los até o destino, sem que os animais se distraiam com os perigos que os circundam. Aliado ao cabresto, está o freio, um mecanismo covarde colocado na boca do cavalo, que tensiona a língua para que ele desista de uma reação livre, pelo condicionamento à punição que é controlada pelas rédeas do explorador que o monta.

Para se ver próximo da tão sonhada liberdade e qualidade de vida, é preciso se aproximar de tudo que alguém lhe oferece rumo à transformação do seu ser. De nada adiantará ter acesso à uma Universidade, por exemplo, se sua consciência política e social é nula. De nada servirá um salário, se lhe falta discernimento sobre como fazer bom proveito do dinheiro. Toda conquista social deve incluir avanços paralelos em todos os setores. Entender seus direitos, seus valores e seus potenciais, lhe ajudará a tomar decisões mais inteligentes e úteis em tudo que você for fazer ou falar. Quando você tem bem claro na sua mente quais são as prioridades em determinado assunto, você consegue agir de forma coerente, se afastando da ignorância e, portanto, das consequências tristes dela. Em resumo, você ganha qualidade de vida, colhe coisas úteis por saber como plantar coisas úteis. Essa regra de realidade nunca vai mudar. Quanto mais você aprende, mais você reforça essa verdade. E quanto mais verdades um coletivo conhece, mais força tem pra exigir o necessário.

Se você observar a sociedade ao redor, verá um mar de gente errando e errando muito. Embora hajam todos os níveis de equívoco em uma sociedade, se a maior parte da população fica largada ao acaso, o grau dos erros começam a subir pra todos em velocidade espantosa. Por isso, a base é sempre a prioridade de uma ação. Você deve sempre tentar apoiar e instruir as pessoas que estão iniciando a jornada na vida. Repassar seu conhecimento e suas ferramentas de transformação para crianças, adolescentes, cidadãos que estão começando a ter noção de História, de Política, de Sociologia, de Economia, de Trabalho ou qualquer tema primário que afete ele diretamente em sua existência no coletivo. Você nunca conseguirá fazer uma pessoa vencer a si mesma, se negar-lhe o direito de se conhecer e de conhecer o mundo. Se a informação e o esclarecimento não chega em todos os cantos, é papel dos detentores da informação, levar isso a quem não tem. Mas, esteja atento! Isso não pode ser, jamais, um pretexto para o nefasto papel de levar ainda mais alienação às pessoas. Você não pode usar o pretexto da informação, para iludir pessoas, desinformá-las sobre a verdade, convencê-las a força de suas crenças ou preferências pessoais, fomentar pensamentos equivocados ou preconceitos, entre outros lixos tóxicos. Há uma frase de Paulo Freire que diz:

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”

A liberdade conquistada, quando realmente é uma liberdade, visa transformar o entorno em um coletivo igualmente livre. Aquele que desperta de alguma ilusão qualquer que seja, caso veja-se livre pela visão obtida, deseja que o próximo também tenha o direito a esta percepção. Mas, entenda que o direito não é um dever. Retornamos para a ideia de que as pessoas devem ser livres inclusive para errar, senão não é liberdade de fato. Montar uma casa em cima de um frágil bambu é um direito, mas tal ignorância de ato não virá sem uma consequência automática, como já explicado inicialmente. Dito tudo isso, quando uma pessoa conquista o direito de pensar o que quiser, ela arca com as consequências da gerência que faz de seus próprios pensamentos e atos derivados. Agora comece a pensar na consequência de tapar os olhos e a mente diante dos riscos de uma casa em cima de um bambu; de idolatrar políticos imorais que financiam notícias falsas pra tirar proveito fácil de ignorantes que acreditam em tudo; de pseudo-jornalistas que plantam o medo e a discórdia na população ignorante que torna-se facilmente reativa e inconsequente; dos carrascos que riem da cara de seus apoiadores que são pisados e usados em benefício próprio, etc.

A ignorância nunca lhe trará nada de bom, apenas prejuízos. Você nunca se verá livre, próspero, satisfeito, feliz ou com qualidade de vida, por manter-se ignorante sobre as coisas. Não conheço ninguém que prefira ser enganado por um estelionatário ou alguém que prefira ter a casa ruindo ao chão. Se ninguém quer levar prejuízo, porque é que algumas pessoas continuam fazendo as decisões erradas? Porque será que continuam construindo casas em cima de bambus e continuam desinformadas sobre a vida que lhes usa e abusa? A resposta é simples e direta: a ignorância está presente. A boa notícia é que ninguém precisa se contentar com a ignorância, podendo sempre dar espaço pra que ela venha a ser limpa, transformada e substituída em algo que agregue conhecimento, noção, valores, princípios, dignidade, compreensão, visão, velocidade de reação, etc. Quando você investe em você mesmo, se livrando da ignorância, você entende, entre outras coisas, que você é livre pra pensar sozinho, pensar fundo, pensar diferente, pensar de forma mais complexa e completa. Quando você rejeita a ignorância, você se ajuda, você constrói sua vida de maneira mais realista e assertiva. Foi assim com o pedreiro que aprendeu a fazer colunas e vigas, a montar lajes e paredes e a discernir a quantidade necessária de concreto, pra consolidar uma ideia de projeto. Tão importante quanto sonhar / desejar ter a casa construída, é saber como funciona a construção e quais os assuntos que você vai precisar dominar antes de se arriscar debaixo de toneladas de concreto.

Com essa analogia da construção, coloque-se no papel de morador de sua própria vida. Comece a construir sua sociedade, seu bairro, sua escola, sua família, seu grupo de trabalho, seu círculo de amizades, seu espaço de informação e apoio na internet, suas fontes de aprendizado, seu espaços para exercer arte, cultura, reflexão, interpretação de texto, interpretação da realidade, observação crítica e observação criteriosa. Comece a tomar voz para si e comece a ser independente. Como diz o ditado popular, a plantação é opcional às vezes, mas a colheita é sempre obrigatória. Então, escolha com muito carinho as sementes que você vai plantar, porque lá na frente, mesmo que você não tenha capacidade ainda de perceber, virão as consequências de tudo que você foi, fez, pensou, disse e apoiou. Não se deixe levar pelas coisas simplistas, evitando, assim, ser enganado e tropeçar justamente nos problemas que tentaram te vender como soluções. Abra o olho, senão vão implementar ainda mais projetos pra te manter em uma ignorância ainda mais funda. O sonho de muitos exploradores é ver seus explorados convencidos de que não estão sendo explorados, mas apoiados. As vítimas que se deixam levar por essa imensa ilusão, são descritas como tendo a chamada ‘Síndrome de Estocolmo’, onde o oprimido admira seu próprio opressor.

Esse texto se encerra subitamente, justamente pra criar o espaço necessário pra você exercitar sua autonomia e começar a completar o espaço com seus próprios pensamentos, a reflexão de tudo que aqui foi apontado e a oportunidade de, talvez, começar a planejar melhor o que é que você vai construir no presente, pra não se ver ainda mais derrotado no futuro. Seja lá qual for sua condição, estarei aqui pra continuar meu papel de luta, de esforço pela informação. Desejo que todos um dia, cedo ou tarde, encontrem-se no meio da realidade e consigam, pelo menos, compreender que precisam mergulhar mais a fundo e com sincera autonomia, pra conseguir chegar no bem-estar pessoal e coletivo que desejam, mesmo que estejam perdidos por uma vida confusa de conflitos e sentimentos desconexos, mesmo que tenham caído no equívoco do vício pelo ódio gratuito, pelas ações violentas ou desonestas. Se não é possível mudar as sementes plantadas no passado é, porém, possível escolher quais sementes plantar no presente e ter uma colheita melhor no futuro. Faça sua parte e, se precisar, solicite ajuda, sem precisar sentir vergonha, medo ou qualquer outra coisa que seja uma barreira pra sua mudança. Obrigado por ler e até breve.

Rodrigo Meyer

Quem é que avalia a genialidade de um gênio?

A imagem que ilustra esse texto, retrata Albert Einstein em seu escritório na Universidade de Berlim.

Quando olhamos os acontecimentos do passado, vez ou outra nos deparamos com figuras que foram classificadas, em algum momento, como gênios. Às vezes cientistas, filósofos, escritores, diretores de cinema, políticos, artistas, etc. A princípio, parece natural que alguém se destaque em determinado setor e seja apontado como um nome importante, uma personalidade de grande conhecimento, sabedoria ou estratégia naquilo que faz ou propõem. Ideias inovadoras surgiram derivadas da iniciativa destes que foram apontados em destaque como inteligentes, vanguardistas, líderes ou gênios. Mas, fica a a pergunta: quem é que avalia a genialidade de um gênio? Pressupondo que o gênio esteja acima da média das pessoas, sua genialidade só poderia ser compreendida por alguém de igual ou superior condição. E se fosse feito por alguém de superior condição, deixaria de enxergar, talvez, como gênios os que estão abaixo de seu patamar. Pensando estritamente na questão da hierarquia simples dos graus, um gênio está sempre acima dos que estão abaixo e, portanto, não cabe aos que estão abaixo medir ou compreender sua genialidade.

Que é certo que existem pessoas diferentes no mudo, isso não há de se negar, mesmo que quisessem. É verdade, também, que muitos dos que foram apontados como especiais em qualidades ou setores, de fato figuram como alguém que detém características e ações acima da média, fora do convencional. Portanto, se isso não muda, então há de haver mudança no modo como interpretamos a constatação da genialidade e da chamada “média da sociedade”. É o momento onde deve-se levar em conta que, entre as pessoas medianas, ou seja, entre as pessoas que detém pouca ou nenhuma variação se comparadas com a maioria de uma população, o parâmetro de classificação são elas próprias. Isso significa que uma pessoa mediana é apta a reconhecer outra pessoa mediana e fazer constatações sobre a similaridade entre estas. E, embora não sejam os alegados ‘gênios’, conseguem, por contraste, diferenciar uma pessoa mediana de um gênio, por conta de não conseguir enquadrar os ‘gênios’ no grupo das pessoas medianas. Em resumo, o simples fato de uma pessoa não se enquadrar no padrão mediano esperado, pode render à ela o título de gênio. E, claro, os gênios não são tidos como abaixo da média, pelo simples fato de que as pessoas medianas, por sua vez, já conseguiram compreender e classificar, a grosso modo, as pessoas que estão abaixo da média / abaixo delas.

Até aqui, pensamentos simples foram dispostos, dados óbvios ou quase óbvios foram esmiuçados a fim de deixar registrado o embasamento para o que desenvolverei a seguir.

Numericamente, a população mundial é sempre tida como mediana, mesmo que ao longo da evolução e história tenham desenvolvido habilidades, conhecimentos e tecnologias. Conforme a humanidade sobe de patamar em conjunto, a média humana também sobe. Bastaria citar que a capacidade do homem pré-histórico, deduz-se, era menor do que a do homem moderno, deixando claro que houve uma progressão coletiva. Assim como as pessoas medianas evoluem, os gênios também, seja pelo progresso individual, seja pela melhoria na capacidade de reconhecimento, aceitação e inclusão das figuras ‘geniais’ em destaque no coletivo mediano. De certa forma, o “gênio” só aparece quando as massas medianas estão minimamente prontas a notá-los e reconhecê-los. Quando digo isso, não significa que os “gênios” deixam de existir se não forem notados, mas que passam a figurar publicamente em destaque dotados do título de genialidade concedido quando há esse suporte das pessoas ditas ‘comuns’.

Há uma frase que diz “para os micróbios, o corpo humano é o Universo”. Muitos de nós, inclusive, nos sentimos particularmente assim, quando olhamos pra imensidão de estrelas, enquanto estamos presos em um planeta do qual não podemos sequer vê-lo por completo, sem ter que agrupar registros e lembranças ao longo de uma extensa e lenta caminhada por todos os cantos geográficos. Na questão da intelectualidade (ou da ‘genialidade’ se preferir), seguimos admirando qualquer coisa que nos pareça maior, porém somente até o ponto em que conseguimos compreender. Ou seja, para um leigo em astronomia, a Lua e o céu estrelado visível é a totalidade do Universo concebido, da mesma forma que a inteligência humana é vista até os limites da observação simples pelas pessoas de inteligência mediana. Ironicamente, a inteligência artificial tem mais chances de potencializar a si mesma do que o próprio ser humano que a criou. Fica a dúvida se isso é mérito da genialidade de quem desenvolveu a inteligência artificial na informática ou se é um acaso da própria Matemática fazendo o que nasceu pra fazer: formar potencial em si mesma de forma infinita, aguardando apenas a compreensão dos humanos.

Para a Matemática, os humanos são derivados e inferiores. Não somos infinitos em potencial e nem temos a precisão nata dela. Somos parte do que ela faz e do que ela é, mas temos pouco conhecimento e controle sobre ela. Precisamos, rapidamente, terceirizar nossas funções cerebrais pra que máquinas, robôs e computadores façam a difícil tarefa de tentar abraçar a imensidão de dados e complexidade das variáveis que dão realidade para a realidade. Em última análise, o Universo é simplesmente a manifestação completa, infinita e precisa de si mesmo, sendo, pelo menos até o momento, demasiado para a compreensão racional do parco ser humano. Nos limitamos, portanto, a contemplar o Universo não pelo que conhecemos dele, mas justamente pelo fato de que não é possível conhecer por completo o que é infinito. Tudo que se pode dizer do infinito é que ele é mais do que se pode compreender, por mais que se compreenda um tanto a mais a cada dia. O infinito é inatingível. Por outro lado, fora dessa poesia filosófica da cosmologia, nos limitando a falar superficialmente da realidade do ser humano e das nossas consciências enquanto cérebros formados e alimentados por conhecimentos, genética e químicas, tudo que sabemos sobre a genialidade humana é que ela é, a princípio, infinita em potencial, porém sem nos deixar ver quão longe ela pode chegar.

De forma divertida e mesmo assim, aparentemente, bem realista, Albert Einstein dizia:

“Só existem duas coisas infinitas: o universo e a ignorância humana. Mas eu não estou bem certo da primeira.”

Einstein, geralmente visto e classificado com um gênio na humanidade, em seu provável posto de visão, nota as falhas da humanidade e, mais do que isso, brinca com a ideia de que a ignorância humana é tanta que alcança a infinitude, mas que, por outro lado, nem o próprio Universo, a que se supõem ser necessariamente infinito, recebe de Einstein o título de infinito com todas as certezas, uma vez que o cientista reconhece a limitação dele em relação a infinitude do Universo, não podendo, portanto notá-la ou comprová-la, provavelmente pelo simples fato de que o infinito não é mensurável, uma vez que não tem limites a serem auferidos em definitivo. Essa simples afirmação de Einstein, nos coloca em reflexão sobre o que podemos observar, compreender, dominar e superar. De certo, a ignorância humana deveria ser possível de ser superada, mas, uma vez que compreendemos a infinitude das coisas, para qualquer direção que seja, recebemos como consequência o fato der que não se pode nunca superar em definitivo uma limitação. Isso vai de encontro ao que disse Sócrates, o filósofo grego:

“Só sei que nada sei.”

Sócrates, de maneira similar à Einstein, reconhece sua ignorância relativa, uma vez que vislumbra do alto da montanha de conhecimento e esclarecimento que subiu, todo o imenso horizonte além ao qual nunca sequer havia tocado ou visto de maneira tão abrangente e integrada. Assim, quando um astrônomo olha para a imensidão do Universo, entende, pelo menos, que aquele infinito é impossível de ser superado, por mais que se avance em estudos e explorações de mais e mais áreas. É preciso que alguém saia da condição de leigo, para erguer-se um pouco acima da multidão para constatar uma obviedade que antes não era percebida. Embora sejam obviedades depois de percebidas, eram ignoradas pelas massas, simplesmente porque difícil mesmo é enxergar o simples. Na vida, as pessoas seguem tentando ver as coisas como se dominassem o Universo, mas não dominam sequer a própria bolha de convívio em seu planeta, seu país, seu bairro, suas casas, suas famílias, seus relacionamentos e o interior de suas próprias mentes. Para não me prolongar demais, encerro esse parágrafo apenas dizendo que aquele que não reconheceu sua própria ignorância é o mais ignorante de todos.

Filosofar sobre a genialidade humana, principalmente quando elencamos só figuras clássicas, praticamente extraídas do mainstream, resulta em um texto um tanto quanto simplista. É verdade, contudo, que não se pode querer abarcar todo um assunto e nem mesmo se aprofundar tão mais longe que isso, quando estamos em um formato de mídia que exige ser conciso e objetivo. Um texto em um blog cumpre sua função enquanto conteúdo digital absorvível em certo contexto e tempo. Há muito que se falar sobre os potenciais humanos, as mudanças de paradigmas, as tecnologias, os aprendizados técnicos e práticos, as sabedorias, as filosofias, as propostas intelectuais e ideológicas de indivíduos e coletividades. Reconhecer que há essa imensidão pela frente é justamente fazer o mesmíssimo papel de Einstein e Sócrates de entrar com a progressão, sem deixar de reconhecer a própria limitação. Enquanto eu escrevo, eu dou voz para minha ignorância, mas também adiciono um pouco de reflexão, sabedoria e transformação a qualquer outro que desejar navegar junto em cada ideia anunciada. No final das contas, o ser humano encontra conforto na oportunidade de se ver acompanhado de outras figuras que acrescentem algum conforto ou que instiguem nele a curiosidade sobre algum tema ou sobre si mesmo. Desvendar os mistérios e as infinitudes dentro e fora de nós, nos permite tocar aquela área de contemplação das coisas geniais, sejam elas próprias ou alheias. É sustentando as discussões sinceras que conseguimos lapidar nossas limitações e sair dos cenários que não apreciamos. Podemos nunca nos vermos como completos, mas nosso desejo constante é tapar nossas incompletudes, mesmo que isso seja uma tarefa infinita. Só não deseja este mergulho constante, quem ainda não conseguiu enxergar em si mesmo a completa ignorância diante da infinita sabedoria. Perto da infinitude do Universo, somos explicitamente insuficientes, mas é exatamente por isso que não podemos parar de nos lapidarmos, senão corremos o risco de nos tornarmos incompatíveis com a coletividade que nos rodeia. Quando os absurdos da ignorância humana não fazem mais parte da maioria de um coletivo, os ignorantes acabam por ser dominados e afastados das questões que demandam competência.

Contudo, quando a ignorância se alastra demais, corre-se o risco de dividir espaços preocupantes com os esclarecidos. Uma sociedade que, por exemplo, é composta de 50% de ignorantes e 50% de esclarecidos, entra num conflito grande tentando dar prevalência para o bom-senso, a verdade e o conhecimento. É nestes cenários catastróficos, que um pouco mais de ignorantes pode acabar por arruinar uma sociedade que, provavelmente, vai tentar gerir o mundo conforme sua limitadíssima visão em oposição aos numericamente derrotados da oposição. Cenários assim podem ser vistos agora mesmo, sem uso de computadores especiais, sem grandes telescópios e sem a necessidade de teorias complexas de gênios como Einstein. Com praticamente nenhum recurso, estamos aptos a ver que, em vários lugares do mundo, as pessoas estão convencidas de que, aquela curta compreensão das coisas, é suficiente pra opinar sobre realidades das quais já foram vistas por pessoas melhor capacitadas. A única dica que posso dar é que procure encontrar sua própria ignorância para poder reconhecê-la. Se você realmente se considera inteligente e apto, vai adorar essa tarefa de observar-se com sinceridade e se, durante a tentativa, descobrir que não quer nem tentar, você já constatou que está inapto. Uma vez inapto, tenha ao menos a qualidade de caráter de deixar essas questões maiores para pessoas maiores e melhor preparadas. Não queira ser o leigo em Astronomia que se considera mais capaz que as pessoas de destaque dessa área. Não queira discordar de uma calculadora antes de ter noção mínima de como a Matemática funciona. Simplesmente não tente vencer naquilo em que você simplesmente não pode. Apenas lapide a si mesmo, amplie seu conhecimento, sua sabedoria e seus métodos de aprendizado. Somente quando se livrar de equívocos primários de lógica e argumentação é que terá os seus primeiros passos válidos rumo à qualquer direção que intente.

Rodrigo Meyer