Redefina os padrões daquilo que não te agrada.

Estar vivo, dentro ou fora da sociedade já nos coloca em um cenário em que precisamos observar e reagir diante das coisas. Tudo que nos cerca e também o que nós mesmos somos, passa pela nossa crítica. Para muita coisa, nossa análise passa desapercebida, pois são rotineiras. Mas para outras coisas, focamos uma grande atenção, principalmente sobre o que nos desagrada.

No campo das pequenas coisas, podemos reagir em desprazer pelo excesso de luz, de calor, da chuva, do céu nublado, do cansaço ou preguiça de cumprir uma atividade mais produtiva no nosso dia, a insatisfação com uma roupa que desbotou, um tropeço na calçada, a falta de bateria suficiente no celular, uma caneta que falha quando precisamos escrever, o barulho inconveniente na rua e por aí vai. Esses são alguns exemplos de coisas que nos traz algum incômodo, mas pouco significativo. Poucas vezes reagimos de forma mais consistente pra planejar mudanças sobre esses cenários. Não é algo que nos demanda muita ação, nem que nos priva de viver o total da nossa vida em outras coisas maiores.

No campo das grandes coisas estão nossas críticas mais incisivas, mesmo que nem sempre coerentes ou justas. Nossa visão sobre as pessoas, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre a política, sobre as relações de trabalho, de ensino, de aprendizado. Estão neste grupo o nosso dinheiro, nossas relações emocionais, nossos medos, nossos traumas, nossas doenças, os vícios, os erros, os acertos, as superações, as conquistas dos nossos objetivos materiais ou de outros setores da vida, nossa segurança, nossa satisfação em estar vivo ou em contato com o mundo com ou sem socialização. Muita coisa é pesada em graus diferentes para cada pessoa, mas certamente esses são exemplos muito comuns de faces da realidade e do nosso ser, que observamos com um grau maior de atenção, mesmo que tenhamos a visão distorcida ou a incompreensão do que cada uma dessas coisas de fato é para nós ou como funcionam.

Por tudo isso, entre pequenas e grandes coisas, nós estamos sempre traçando críticas sobre os padrões. Podemos, por exemplo, estabelecer que um determinado modelo de trabalho é nocivo e que gostaríamos que fosse diferente. A crítica sozinha é só um pensamento ou uma expressão dele, mas pra que algo mude, requer alguma ação. Você pode começar a transformar tudo o que não gosta no mundo, por meio do seu próprio exemplo. Seja vocẽ a mudança que gostaria de encontrar pelo caminho. Um bom caso, fácil de lembrar, foi quando Linus Torvald, um programador, decidiu fazer algo que julgasse melhor do que o que havia de estabelecido em sistemas operacionais. Foi assim que nasceu o Linux, um kernel (uma espécie do miolo de um sistema operacional) que hoje é tão aplaudido pela qualidade e pelo viés open-source e gratuito do projeto, que é a opção da um imenso número de empresas e usuários domésticos pelo mundo todo. Ainda que empresas grandes como Microsoft, Apple, Google e outras, tenham alcançado um enorme mercado nessas temáticas, Linus Torvald agiu e criou aquilo que achava necessário ser criado. O importante não é o tamanho do seu sonho e nem o retorno massivo do seu projeto. Importa mais é que você esteja satisfeito em ter transformado uma face da realidade em algo melhor que atendesse aos seus padrões, às suas expectativas e necessidades.

Em qualquer setor da vida, devemos ter igual iniciativa, transformando o modo como fazemos arte, reestabelecendo o significado da arte, colocando nossos textos e opiniões à frente e ao lado de outros para gerar contraste e renovação, ter uma estratégia inovadora para lidar com nossas amizades, nosso círculo de trabalho, as redes sociais. Temos que conseguir olhar pra um livro mal escrito ou incompleto e conseguir propor uma versão, o seu acréscimo ou supressão. Transforme as coisas e estabeleça o seu nível de qualidade. É importante não se contentar fácil com uma comida sem sabor e ir atrás de temperá-la ou criar seu próprio prato. Quando ocupamos uma casa, personalizamos ela ao nosso gosto. É isso que faz dela o nosso lar. Nascemos nus e desajeitados, crescemos cercados de pessoas nos dizendo como ser, o que acreditar, o que vestir ou comer. E com o tempo, vamos criando pequenos atritos e insatisfações, à medida em que ganhamos identidade, autonomia e percepção sobre nós mesmos. Passamos a querer nossas próprias coisas, do nosso próprio jeito, para nossa própria satisfação.

Nosso corpo, nossas roupas, nossa casa, nossos espaços simbólicos na internet, nossas artes, nossas falas, nossos pensamentos, nossas análises e estudos sobre o mundo, nossas viagens, nossas amizades e tudo que se conecta, de alguma forma, em qualquer grau, conosco, está alí pra ser visto, filtrado e transformado ou recriado. Quando você chega por aqui e se depara com um texto, você não é obrigado a concordar com nada e é, inclusive, incentivado a fazer tua própria interpretação e a ser também um escritor. Seja autor da sua vida, seja o protagonista de sua história, sua mensagem, sua realidade. Crie o seu mundo e apresente seu mundo ao outros. Viver só faz sentido se você acredita muito naquilo que você é e faz. Do contrário, o mundo lhe parecerá um fardo, pois estará sempre tendo que se sujeitar ao que é alheio e não te agrada. O mundo se torna melhor, quando você experimenta ele da sua própria maneira. E pode ser que a sua maneira seja algo interessante pra mais gente também.

Se você pode, comece hoje a dançar, a cantar, a desenhar, a escrever, a caminhar, a aprender algo novo, a ensinar algo para o mundo. Converse da tua própria maneira, com as tuas manias, tuas gírias, teu tom de humor, teus temas preferidos ou até mesmo o silêncio, caso lhe agrade. O padrão de qualidade das coisas, não precisa ser algo que você espera sentado e torce pra dar certo. Você precisa, antes de tudo, torcer pra você mesmo dar certo. Os outros estão fazendo as coisas ao modo deles (ou talvez não) e você não precisa embarcar no modo de ninguém, se isso não contempla suas exigências. Eu, por exemplo, quando me cansei de ver a inundação de conteúdos que eu não acreditava nem valorizava, fui atrás de ser eu mesmo um criador de conteúdo. E quando fazemos isso em sinceridade, pode ter certeza que vai prosperar. As mensagens se espalham, porque elas tocam alguém em algo sutil, mas muito poderoso, que é a conexão interior com uma verdade, com um sentido, com algo subjetivo, com algo inconsciente. O valor de uma pintura, por exemplo, não está necessariamente na qualidade técnica, mas sim em coisas como o traço, a mensagem, o estilo, o seu jeito transparecendo numa série de obras, etc. Isso cativa pessoas por algo que é quase invisível ou pouco compreensível, mas acontece e é poderoso o suficiente pra agradar, pra envolver, pra motivar, pra gerar aceitação. É isso que faz algo ser novo e forte.

Desligue-se dos medos, da inação, da repetição, do ‘mais do mesmo’, das fraquezas, dos complexos, das inseguranças, dos vícios, das manias prejudiciais pra sua vida e comece a ser verbo. Comece a fazer as coisas, a ser, aprender, sentir, criar, ver, entender, transformar. Enfim, viva a sua vida. Você é um indivíduo e o seu modo de fazer as coisas é e sempre será único. Há espaço para infinita diversidade no Universo. As pessoas podem aplaudir e apoiar coisas diferentes simultaneamente, sem que nenhuma delas perca o valor que tem. O valor das coisas está embutido nelas pelo que elas são e não por nenhum tipo de comparação ou competição. Satisfaça-se, porque tua satisfação renova o sentido da sua vida, tira o peso e pode ser inspiração pra outras pessoas.

Rodrigo Meyer – Author

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Sobre cercar-se de gente produtiva.

De forma simplista, a ideia de cercar-se de gente produtiva já parece interessante, afinal quando pensamos em pessoas produtivas, imaginamos algo positivo, mesmo sem nos atentarmos aos detalhes do que está sendo classificado como ‘produtivo’ nestas hipotéticas pessoas. Todo mundo, a princípio, acharia vantajoso estar cercado de tal gente. Contudo, na prática, isso pouco ocorre e, na verdade, muita gente descobre que não tem real apreço por gente produtiva. Faz-se necessário, então, explicar um pouco sobre as vantagens que este tipo de pessoa traz e, a partir disso, quais as vantagens que absorvemos por nos rodearmos delas, além de, claro, tornar esse processo espontâneo.

Pessoas produtivas são aquelas que estão sempre envolvidas em alguma criação, trabalho, ideia ou iniciativa. São as pessoas que estão sempre colocando pensamentos em prática, transformando sonhos e vontades em algo concreto. Estou falando, por exemplo, da pessoa que converte um sonho em uma série de desenhos, que observa o mundo e escreve sobre ele, que coleta material reciclável e converte em produtos reutilizáveis, que organiza ações de ajuda social, que conserta objetos quebrados, que restaura uma informação útil que estava perdida, que intervém em uma briga pra defender ou apoiar uma vítima, etc. Aqui são alguns pouquíssimos exemplos de gente produtiva no mundo. Mas, nem de longe isso resume a totalidade e diversidade do que são as pessoas produtivas. Existe algo de muito especial nestas pessoas e isso a gente só nota quando começa a identificar muitas delas e a perceber o que elas possuem em comum.

Enquanto alguns evitam o contato com pessoas produtivas, eu fixo meus olhos brilhantes sobre elas e agradeço pela oportunidade de conhecê-las. Fico feliz em saber o que cada pessoa faz, não apenas na profissão e estudos, mas, principalmente, nos hobbies, porque é o que a pessoa, aparentemente, ama fazer e de onde se pode, provavelmente, extrair oportunidades interessantes para atividades conjuntas a curto ou médio prazo. É fácil imaginar, por exemplo, que uma pessoa que compõem música, tenha maiores chances de se interessar por alguma proposta sua que envolva edição de som, restauração de instrumentos musicais ou mesmo de participar de um blog ou livro sobre arte. Por outro lado, se esta mesma pessoa fosse pouco produtiva, seria indício de que ela não está verdadeiramente engajada nessa atividade, seja por falta de tempo, de estrutura ou de paixão suficiente. Por isso, é importante diferenciar quem apenas está conectado à um assunto e quem realmente é produtivo nesse meio. Em uma analogia, uma coisa é o usuário comum de computador e outra, bem diferente, é o entusiasta de antiguidades da informática que vai tão fundo nisso que chega a restaurar os equipamentos para utilizá-los novamente, mesmo que tenha que aprender a soldar placas de circuito e a restaurar a cor envelhecida do plástico, sem desanimar se precisar reaprender comandos de um software estranho.

Mas, algo que sempre se vê em comum em pessoas produtivas é que elas nunca estão engajadas apenas em um tipo de atividade ou assunto. Como se estivessem eternamente curiosas e inquietas, se desdobram em tantas outras faces pra aprender segundas, terceiras e quartas profissões, outros idiomas, outros talentos, etc. São as pessoas que estão sempre à um passo de uma nova viagem, de um novo curso, de um novo livro, de uma nova conversa, outra amizade, outra cidade, outro modo de ver a vida. Essas pessoas estão sempre caminhando pra inúmeras direções, mas, sobretudo, estão consolidando cada uma dessas atividades. São pessoas, geralmente, de muito talento e esforço. Se dedicam muito em estudar e dominar um assunto com excelência suficiente pra serem admiradas. E é aí que entram as trocas. Pessoas assim, possuem a grata oportunidade de converter suas vantagens em mais vantagens. Quando você une dois entusiastas da Música, por exemplo, de repente tem-se uma banda por surgir. Ou, ainda, quando você é um talento na Fotografia e conhece um bom ator ou modelo que também aprecia Fotografia, você tem ali o caminho facilitado para falar disso, propor projetos fotográficos e ideias onde ambos possam fazer algo novo disso tudo, porém juntos.

Parcerias, como se pode ver, são frutíferas quando as pessoas possuem alguma afinidade. E pra que aumentem as chances de encontrar afinidades com alguém, nada melhor do que ter muitas áreas de interesse e estar em contato com pessoas que também possuem interesses diversos. Em um jogo invisível de tentativa e erro, vamos conhecendo pessoas, seus planos, seus sonhos, sua personalidade, suas manias, seus gostos, suas invenções e, quando menos se espera, estamos atuando junto em busca de satisfazer nossa curiosidade, completando incertezas, deixando questionamentos ou até mesmo apontando uma solução. É muito mais provável que estas interações resultem em um novo projeto, trabalho, produto ou até mesmo em um novo hobbie muito mais incrementado ou divertido. Por vezes, é a brecha que faltava pra que alguém elevasse o nível de uma prática que já fazia sozinho.

Com esse networking especial você está facilitando sua vida em todos os setores, sem saber em qual deles vai ter mais sucesso inicialmente, mas certamente será alguém mais satisfeito com a vida, porque terá preenchido seu tempo e sua mente com coisas e pessoas que realmente lhe instigam a ser e fazer mais. E mesmo que sua produtividade não cresça atrelada à uma parceria com estas outras pessoas, ainda sim será graças à elas que você terá desenvolvido seu caminho isolado.

Muito do que eu aprimorei em informática, por exemplo, se deu pela interação com pessoas que tinham afinidades comigo em outras áreas em comum. A troca de experiências possibilitou que ambos dessem o melhor de si em algo e recebessem o esforço do outro igualmente. É o milagre da multiplicação. Somar é fácil, mas multiplicar é arte. Ao longo da vida, estive em contato com muita gente, ficando particularmente encantado quando notava que a pessoa tinha disposição mental pra permear mundos diferentes, assuntos desconexos entre si e manter clareza em tudo que se propunha a investigar, estudar, compartilhar ou praticar. Isso me faz pensar que, em última análise, o sucesso dessas pessoas está atrelado a um enorme esforço que só é possível pelo imenso prazer que elas possuem em dedicar muitas horas em algo. E não seria exatamente essa paixão que faz delas pessoas produtivas em suas áreas de interesse? Penso que sim.

Pessoas comuns, torcem pro dia acabar logo, mas pessoas produtivas, não estão sequer olhando pro relógio. Conta-se que Albert Einstein, frequentemente, se trancava no quarto por dias, isolando-se de tudo e todos, até que pudesse sair dali com a resposta que precisava. Seu networking se deu, indiretamente, pelo contato com invenções que via e estudava durante seu trabalho no órgão de registros e patentes. Algo similar ocorria com Nikola Tesla que se motivava a descobrir novas possibilidades com a eletricidade, devido a discordância no trabalho de outros inventores e empreendedores. Não tão diferente, em tempos mais modernos, ocorreu o mesmo com os criadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, o criador da Microsoft, Bill Gates, e o criador do Linux, Linus Torvalds. E de maneira bem clara, vemos que eles concretizaram suas ideias pelo apoio de pessoas que estavam profundamente relacionadas com seus hobbies e trabalhos tão incomuns.

Talvez você nãos visualize de imediato ou tão facilmente as conexões possíveis entre as coisas que você faz ou gosta com as oportunidades que isso pode lhe render junto à outras pessoas. Mesmo assim, as oportunidades estão potencialmente presentes. Você precisa simplesmente dedicar tempo em viver um contexto diverso, desde que toda essa diversidade faça sentido pra você e seja espontânea. É muito possível que o estudo de idiomas, por exemplo, lhe renda contato com pessoas que já viajaram ou que gostariam de viajar. E quantas outras conexões se formariam, se o sonho de viagem de algumas dessas pessoas fosse pelo apreço em História, por exemplo? Quanto mais diverso é um indivíduo, mais caminhos lhe surgem. Quanto mais caminhos são absorvidos, mais produtivo o indivíduo se torna. Por fim, quanto mais produtivo, mais chances tem na troca com outros indivíduos produtivos e diversos. Sucesso garantido, pra uma vida que pode até não render dinheiro, mas provavelmente vai lhe manter vivo no melhor sentido do termo.

Dito tudo isso, cabe à você descobrir seus potenciais, seus campos de interesse e definir suas estratégias, por assim dizer, de como se relacionar ou permear o mundo das pessoas e assuntos que lhe parecem úteis. Mas, acima de tudo, esteja lá por verdadeiro gosto no que faz ou pensa, porque os insights e as oportunidades serão sempre frutos ocasionais e quase aleatórios de sua própria dedicação incansável e do seu mergulho despretensioso que lhe reverte suficiente prazer.

Rodrigo Meyer

Crônica | Pitada de esperança.

Um tom desbotado começava a tomar conta do clima da casa. Do lado de fora, a sensação de que alí já não tinha vida. Do lado de dentro, um vazio igual ou pior. O cansaço não permitia pensar de maneira organizada sobre o que fazer com aquilo. Por sorte, o minimalismo ajudou a reduzir as opções. A cada dia que passa, a casa torna-se, cada vez mais, apenas paredes. Quando completamente vazia, será motivo de festa. Talvez eu possa comemorar, talvez eu não esteja mais por aqui. Enquanto o futuro não chega em definitivo pra me dizer, eu sigo acordando e dormindo, sentindo o cheiro de tempero na comida da vizinha. Me parece alguém que gosta de cozinhar. Às vezes dá vontade de me auto-convidar para um momento desses, especialmente nos dias em que está mais frio. Nas outras casas do bairro, tudo parece tão enfadonho e monótono que chego a pensar que por lá nem comida se faz. Quando eu me mudar, quero voltar a cozinhar. Algo tão simples e com um significado tão importante.

Rodrigo Meyer

Quem parou de rir, parou de ir.

Quem já foi afetado pela doença da depressão ou conhece alguém que esteve ou está em similar situação, sabe como isso interfere drasticamente nos progressos gerais desse indivíduo. Pessoas com imenso potencial acabam subaproveitadas quando a depressão lhes toca, afinal ninguém consegue se engajar tanto nas atividades, se não sente prazer pela vida. Em situações mais brandas que a depressão (embora até ela tenha nuances), as pessoas podem estar com distimia, que é um transtorno depressivo com sintomas menos severos que a depressão em si, porém mais duradouro. De qualquer forma, seja lá qual for o momento, intensidade e duração com que deixamos de rir sinceramente na vida, estamos parando de caminhar.

Quando uma pessoa tem depressão por muitos anos, pode acabar criando uma imagem mental de si mesma completamente distorcida, por associar o histórico de vida com sua personalidade ou realidade nata. Entender a diferença entre o estado depressivo e o modo “normal” de ser, é uma tarefa difícil, principalmente se você praticamente não teve bons momentos desde a infância. A ausência de parâmetros de felicidade por longos períodos pode interferir na compreensão desse estado ou realidade, em termos de comparação com o estado depressivo. Embora as pessoas saibam que estão tristes, desmotivadas e sendo sugadas pela própria depressão, a felicidade e o prazer parecem coisas impossíveis de se conseguir ou até mesmo abstratas demais pra serem concebidas. Mas é importante lembrar que essa percepção de pouca ou nenhuma esperança é tão somente uma distorção gerada pela própria depressão. Indivíduos deprimidos, possuem uma alteração cerebral sobre o sistema químico, bloqueando ou não aproveitando as químicas que estão direta e naturalmente relacionadas a sensação de prazer. A grosso modo, seria como dizer que o sujeito está imune a felicidade, independente das coisas que acontecem ao redor.

Mas, esse não é um texto apenas sobre depressão. É muito mais abrangente que isso. A grande realidade que precisamos ver aqui é que, por qualquer que seja o motivo, se tivermos um modelo de vida e pensamento que nos priva do riso, estamos ativando outros fracassos na vida. Dizem que sorrir abre portas e que rir é uma das conexões mais intensas que o ser humano consegue traçar socialmente. Temos esse hábito social em comum com os macacos e alguns estudos mostram que algumas outras espécies de animais fazem proveito consciente de certas substâncias, para fins recreativos, assim que entendem a relação entre prazer e consumo. É também visto em algumas espécies, algo que, antes, achava-se ser algo exclusivo dos humanos: a realização do sexo por prazer e não só por instinto de reprodução.

De forma geral, pra todos os seres, sentir prazer pela vida é basicamente a mesma coisa que aproveitar o potencial de si mesmos e da própria vida, seja lá o que ela seja. Uma vez que não sabemos ao certo o que fazemos e quais propósitos realmente temos nessa existência misteriosa, tudo que temos de garantia são nossos sentidos e percepções da realidade. Nossa presença social e também como indivíduos cobra de nós que estejamos mais do que em harmonia, cobra de nós que estejamos felizes o suficiente pra fazer valer os momentos vividos. Embora muita gente tenha tido uma vida longeva em estados menos entusiasmados, é fato que, na média, a tendência é que as pessoas com pouco prazer pela vida levem um estilo de vida mais destrutivo, menos saudável, com diversas somatizações. Quando a mente não vai bem, muito disso se transforma em implicações no corpo físico. Especula-se, por exemplo, que doenças como o câncer estão intimamente relacionadas com outros quadros e experiências, entre eles, as emoções contidas. Pessoas que estão amarguradas ou insatisfeitas por muito tempo, podem acabar somatizando esses e outros dramas em um câncer, devido ao desequilíbrio do sistema imunológico.

O lado bom da vida se expressa pelas coisas que nos dá diversão, felicidade, prazer e motivação em continuar a ser e fazer, especialmente quando permite que outros indivíduos ao redor experimentem esse contexto, tal como se todos estivessem compartilhando de uma mesma festa. Pessoas felizes constroem sociedades com grande interesse de preservar e fomentar felicidade. Através da empatia podemos dividir com outras pessoas as alegrias e dramas. As emoções humanas são possíveis de serem compreendidas e replicadas, em certo sentido, para que outra pessoa sinta aquilo. Essa conexão que temos configura um padrão natural e sadio, pois isso promove o bem-estar nas relações humanas e deixa as portas abertas para que os indivíduos possam exercer suas vidas com satisfação, liberdade e desejo em viver mais. Quando essa conexão não existe ou é altamente corrompida, as pessoas começam a não se importar umas com as outras, gerando um ambiente de desprezo, infelicidade, ódio, violência e pouco ou nenhum respeito e/ou valorização pelas demais pessoas.

Um padrão de vida que externaliza hábitos nocivos pra si e pros outros, invariavelmente, reforça um desequilíbrio que nasceu internamente no indivíduo, devido a inúmeras possíveis origens, inclusive, diversas delas, externas. Sociedades que oprimem, por exemplo, plantam a própria ruína, uma vez que geram pessoas insatisfeitas, infelizes e reativas a opressão. A receita garantida de aumentar problemas, ao invés de solucionar. A ausência do riso ou da felicidade, está intimamente ligada ao fracasso das expressões humanas, afinal realizamos tudo em dependência da motivação da própria vida. Precisamos ver sentido ou ter imenso prazer, ou perdemos a disposição ou interesse de desenvolver ou participar de algo. É assim que a vida deixa de ser uma opção interessante quando somos afetados pela depressão e, exatamente por isso, muitos depressivos podem vir a se tornar suicidas.

Embora pareça óbvio, ainda estamos em tempos em que obviedades precisam ser ditas. Então fica a mensagem de que ser feliz e estar em paz é melhor do que estar infeliz e incomodado. Mesmo que as pessoas digam que querem uma boa vida pra elas mesmas, elas se esquecem de que em nenhum momento conseguirão isso através da violência, da corrupção, da guerra, da opressão, do preconceito, da desconfiança, da perda de qualidade, da má educação e da valorização de arquétipos destrutivos. Enquanto as pessoas estiverem enaltecendo pessoas, instituições ou ideias que reduzem o ser humano em seu potencial de felicidade e bem-estar geral, estarão freando a própria sociedade e a si mesmas, impedindo que desfrutem de um ambiente favorável. O nome disso é “atirar no próprio pé e se queixar da dor.”.

Aquele que não é capaz de entender que é parte inseparável da equação, não conseguirá perceber que seu estado doentio é parte do que bloqueia e impede a sociedade de ser plena e satisfatória. Assim como o desequilíbrio nas químicas afeta o cérebro do deprimido, indivíduos desequilibrados em certos aspectos sociais afetam a sociedade. Partes adoentadas ou danificadas não cumprem a mesma função em uma máquina, seja ela um cérebro, um motor ou uma sociedade. Se não estamos rindo e expressando prazer, estamos sofrendo e estagnando, tanto individualmente quando coletivamente.

O próprio sentido de família e amizade, embora abstratos, explica como e porquê o ser humano depende de bons momentos pra conseguir existir coletivamente e ver sentido em si mesmo como peça dessa engrenagem maior. No fundo, tudo o que o ser humano são deseja é estar bem e compartilhar o bem. Qualquer desvio dessa premissa, confere, por vários motivos, patologias psicológicas ou psiquiátricas que devem ser devidamente cuidadas para não transbordar impactos e prejuízos aos demais indivíduos. Em teoria, as sociedades já fazem esse controle, ao estabelecer vigília, tratamento ou detenção a sociopatas ou a indivíduos que, de alguma forma, estão inaptos a viver em sociedade. Porém, bem longe do ideal, a realidade prática é que, ao invés das pessoas inadequadas e perigosas estarem controladas, elas figuram entre os cargos de maior relevância e impacto na sociedade. Não deveria ser surpresa nenhuma de que há uma lista interminável de criminosos de todo tipo, na política, na polícia, no comando de corporações, em pseudo instituições religiosas, etc. E é exatamente por estarem livres pra agir, que deixam esse legado tóxico ao mundo, em tudo e todos que tocam. Não é, portanto, exagero classificar esse tipo de membro da sociedade como um câncer que afeta as células sadias e destrói a saúde geral do organismo ou sociedade.

Sempre ouvimos a expressão “rir é o melhor remédio.” e de fato é. Se pudéssemos escolher clicar em um botão e mudarmos automaticamente para um padrão de felicidade, certamente faríamos. Ninguém gosta de sofrer. E se ninguém é feliz sofrendo, isso inclui não só o próprio indivíduo, como todos os demais. Ser racional e fazer uso da lógica a favor do próprio bem-estar emocional, físico e social é lutar extensamente para que nosso ambiente ao redor seja melhor, mais feliz, mais livre, com mais riso e menos dor. Trabalhos conscientes nesse sentido, incluem desde cidadãos comuns que escolhem um jeito de viver e de se expressar mais positivo, até indivíduos que entram pra alguma causa ou ação social que visa amenizar o sofrimento e suscitar mudanças de ação e de pensamento. Iniciativas como os ‘Doutores da Alegria’, que visitam pacientes em hospitais, vestidos de médicos-palhaços, ajudam os enfermos a se reposicionarem diante da própria situação e terem mais disposição de enfrentar seus dilemas. Estar doente é um contexto duro de se experimentar e sob isolamento ou pouco prazer, pode tornar-se um fator crucial na piora do quadro clínico.

Outras ações, como as que ocorrem em algumas ONGs ou iniciativas avulsas de assistência social, podem ser gratificantes a quem tenha visão sobre a teia que somos, mas também pode impactar bastante, uma vez que plantar a ajuda quase sempre implica em absorver a dor alheia por conta da empatia e do convívio contínuo em ambientes e contextos de sofrimento, guerra, doença, abandono social, etc. São frequentes as notícias de depressão entre psicólogos, médicos, psiquiatras, professores e ativistas sociais. Muitas vezes a mudança é tão gradual ou camuflada pela própria atividade, que eles não se dão conta do desfecho drástico a que estão submetidos quando afetados emocionalmente e psicologicamente por aquele ambiente. Por razão similar, estudantes de Psicologia, por exemplo, precisam ter alta antes de serem liberados para exercer a profissão. Embora seja altamente necessário e sensato tal filtro, na prática isso é feito de forma simbólica, distribuindo no mercado uma multidão de profissionais sem uma verdadeira alta de seus quadros psicológicos, sendo um terrível risco a saúde psicológica dos pacientes e, portanto, da sociedade em si. Pelo simples motivo de que você não colocaria um estuprador para atender pacientes que foram vítimas de estupro, você não colocaria certos formandos para clinicarem na área da Psicologia.

Assim, todos os dilemas que temos em nossa sociedade são mero reflexo das conturbações de cenários menores, como os países e suas gestões, as cidades e suas realidades, as condições de um bairro, o círculo de amigos, o ambiente de trabalho, a composição familiar, os relacionamentos ditos “amorosos” e, por fim, o universo interno do próprio indivíduo. Não se pode analisar a felicidade do mundo, sem antes, pensar extensivamente na felicidade do próprio indivíduo. Sociedades que ignoram o problema das peças, jamais poderão manter a totalidade da máquina estável. Simples assim.

Apesar de estar escrevendo com certa frequência, o que pra mim é relativamente fácil e interessante, por vezes eu não me sinto disposto ou apto a fazer o necessário. Enfrentei depressão a vida inteira e ainda não me vi seguramente distante desse malefício a ponto de dizer que não voltará a ocorrer. Neste meio, diz-se que depressão é o tipo de coisa que uma vez que se tenha, nunca mais há garantias de que não poderá recair. Sou o claro exemplo de quem parou de ir, porque parou de rir. Sempre fui uma pessoa com bastante senso de humor, ironizando o mundo com piadas e comentários sarcásticos, mas, apesar disso, estive infeliz, arrastando a doença da depressão por todos esses longos anos.

Deixar de rir, no sentido de não estar feliz por padrão, me impediu de ter momentos além daquelas exceções onde ria estritamente em determinados casos, especialmente com ajuda de fugas e estilos de vida que me deixassem vagando pelo tempo. A infelicidade me impediu de socializar, de estudar, de trabalhar, de lutar pelos meus objetivos e potenciais. A infelicidade deixou marcas indeléveis no meu histórico e também na minha saúde. Ela me tomou tempo, levou meu dinheiro e cavou um buraco de insatisfação onde eu não encontro mais amparo. Talvez seja a depressão tocando a campainha novamente, talvez seja a minha análise realista de que um ambiente tóxico e cada vez pior não pode ser viável pra quem deseja boas coisas nessa vida. Fico em dúvida, pois sempre me lembro dessa frase de Freud que nunca me canso de repetir:

“Antes de se autodiagnosticar com depressão, verifique se não está apenas cercado de idiotas.”

Quem tenta inventar bem-estar onde não tem, colocando princípios ilusórios de valores ou ideologias, está tão somente aumentando a própria cova. Sociedades que visam controlar aspectos superficiais, ignorando a origem dos problemas, estão apenas enxugando gelo. Se as pessoas realmente quisessem se ver livres e felizes, fariam exatamente o oposto do que está sendo feito coletivamente na maioria dos lugares. Ideologias que se preocupam em apagar incêndios locais com gasolina, sempre terão que lidar com incêndios e incêndios cada vez maiores. A estupidez e o egoísmo nunca foram soluções pra coisa alguma. Discordar disso é ser a prova disso. Premissas básicas de pensamento e relações precisam, necessariamente, incluir felicidade e liberdade sinceras. A felicidade falsa, expressa sem sinceridade pode ser muito mais tóxica que a tristeza sincera. Em depressão, por exemplo, eu continuo fazendo o melhor possível por mim e pelos outros. Mas uma pessoa em expressão insincera da felicidade, só está enganando a si mesma e iludindo milhões de outras pessoas de que a vida consiste nessa busca rasa, inútil, superficial e doentia de coisas que, na verdade, não deixam ninguém feliz de fato.

Se alguém parece satisfeito demais em um contexto inóspito, pode estar com Síndrome de Estocolmo, onde nega o sofrimento ou opressão experimentados, em defesa de seu próprio opressor. A opção menos provável é de estar em paz, apesar do caos percebido ao redor, o que, com plena certeza, é o caso de raríssimas pessoas e, portanto, não é algo que deva ser exigido por padrão. Não cobre das pessoas que elas estejam sempre de bom-humor, entusiasmadas, dispostas a trabalhar e lutar pelos objetivos e potenciais pessoais, enquanto elas estão enfrentando uma batalha inominável de sobrevivência a própria dor, a dor do mundo e a desnecessidade de tudo isso. Sempre que alguém tenta justificar os insucessos de uma pessoa deprimida, a colocando como culpada, eu, como deprimido, me sinto, ao menos, motivado em não ser tão cego e ignorante a ponto de achar que a vida de um indivíduo e sua bela e rosa exceção, tem qualquer relação com a realidade fora dessa bolha. Não tem, nunca terá e discordar não vai te fazer mais consistente nessa ausência de raciocínio e lógica.

Hoje eu simplesmente gostaria de rir, mas a tudo que olho, me parece insosso, desnecessário, sem graça, estúpido e doentio. Tal como alerta Freud, sinto como se estivesse cercado de idiotas e, portanto, com ou sem depressão não me veria em um contexto favorável. Existir nessa realidade intragável me obriga a repetir: melhorem!

As pessoas devem tentar ser o tipo de pessoa que elas gostariam de conhecer. Foi exatamente isso que eu fiz a minha vida inteira, exceto pela depressão que é algo ao qual não escolhemos e pouco ou nada controlamos. Se não puder sorrir para o mundo, tente pelo menos ser útil e sincero, sempre pautar suas ideias e ações em princípios de lógica e bem-estar coletivo, senão acabará infeliz do mesmo jeito e ainda será a razão principal da infelicidade dos demais. Acorde ou será acordado, pois bolhas estouradas não voltam a se regenerar. Aprenda a conviver com a realidade fora da bolha e perceberá que a solução interna é também a solução coletiva.

Rodrigo Meyer

[+18] Sexo entre amigos?

Por algum motivo essa é uma dúvida que ainda pulsa na mente de muita gente. Essa insegurança sobre ser viável ou não misturar amizade e sexo é das coisas mais tragicômicas que conheço. Se há alguém com quem você pode compartilhar sexo, certamente essa pessoa é um amigo(a). Não significa, claro, que você só possa fazer sexo se o parceiro(a) for um amigo(a), mas é evidente que problema não terá. Quando alguém me diz que não namoraria ou não ficaria com determinada pessoa por considerá-la um amigo, eu rebato de volta perguntando se ele namoraria com um inimigo, então. A pessoa se desarma na hora e fica sem ter o que responder, afinal é óbvio que se temos atração por alguém e temos uma amizade com tal pessoa, ela é uma pessoa bacana e viável o suficiente pra se dividir sexo, justamente porque não há dissabores ou barreiras emocionais que transformam aquela pessoa no oposto de uma opção viável ou desejável.

Apesar disso soar óbvio, muita gente tem esse tabu ou receio bobo de que amigos não servem pra se relacionar além da amizade. E não passa de um tabu mesmo, que aliás, felizmente, grande parte da sociedade não endossa. Algumas pessoas ainda figuram entre as exceções, talvez por algum trauma, insegurança, complexo, medo ou por puro preconceito constituído na sua formação como pessoa. Mas, uma vez que se alinham com uma visão saudável, isso tende a sumir. Doentio mesmo é manter-se em vigília intensa para nunca se envolver com pessoas que você realmente dedica bons momentos, reciprocidade e que, eventualmente, pode vir a sentirem-se atraídos sexualmente ou, pelo menos, romanticamente. Seja lá qual for o contexto adicional que você veja de interessante, não há nada de incomum ou anormal em desejar partilhar disso junto com a amizade preexistente, bastando que o desenrolar dessa ideia inicial passe pelo menos pelo consenso de todas as partes envolvidas.

As chamadas ‘amizades coloridas’, onde amigos se permitem a relacionamentos sexuais em paralelo a amizade, não são nenhuma novidade. Eu estranho que em 2018, apesar de tanto tempo percorrido, ainda hajam pessoas com tanta privação de liberdade, por vezes acorrentando-se voluntariamente e negando uma realidade mais plena, apenas por inventarem regras que nem mesmo a sociedade possui. Conheço casos isolados que me fizeram bocejar de tão desnecessariamente maçantes. O único lado positivo dessa história é que, provavelmente, essas pessoas não serão frequentes em nossa realidade.

Outra coisa que precisa ser dita e que está bastante atrelada ao tema original é que, amizades sinceras também podem existir entre quaisquer pessoas, independente se é um homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem, ou seja lá qual for a combinação de gênero e atração sexual que normalmente cada indivíduo expressa. Um homem hétero, por exemplo, em termos de atração sexual, está direcionado para mulheres e isso nada impede que este homem e as mulheres a quem ele convive não possam desenvolver uma amizade. É evidente que vejo um discurso contrário a essa realidade, afinal a sociedade ainda é marcada por preconceitos e generalizações. Sei que muita gente diz de maneira convicta de que amizade entre ‘homem e mulher’, por exemplo, não existe, em razão do potencial interesse sexual que estará “inerente” a estes. As pessoas que dizem isso, falam por si mesmas apenas e, se elas não possuem capacidade de gerir amizades reais, por conta desse fator, isso só aponta uma condição exclusiva delas e não de uma sociedade inteira. O mundo, felizmente, não gira em torno de um determinado indivíduo.

O que talvez ocorra é que, por ser completamente natural que haja a possibilidade de atração sexual e/ou sexo entre amigos, quando isso ocorre, parece ser a comprovação, para alguns, de que esse é o inevitável desfecho para amigos naquelas configurações de par. Mas, como dois equívocos não fazem uma verdade, voltamos a destacar que isso não procede. É evidente que pode ocorrer de nos depararmos com pessoas que, de fato, só constroem amizades com outras pessoas tendo esse objetivo sexual e, em uma sociedade machista e fútil, isso pode até mesmo representar um número grande de indivíduos. Mas, mesmo que 99,99% da população de todo planeta tivesse essa conduta doentia, ainda sim, não seria 100% e não faria valer a ideia de que é uma condição nata entre a condição do problema e o desfecho proposto. Aliás, cada vez que alguém reafirma essa ideia preconceituosa de que não pode haver amizade sem que haja necessariamente segundas intenções sexuais em paralelo, está deixando um reforço nesse pensamento e modelo de sociedade, ampliando o número de pessoas que passa a viver sob essa ótica. Quem não se sente confortável com uma ideia que está em tendência na sociedade deve se engajar justamente na propagação das ideias que acredita e quer ver, para que seja exemplo pela palavra e pela prática. Simples assim.

É interessante pensar que se uma sociedade se fecha para estes aspectos completamente naturais dos relacionamentos humanos, não é de se espantar que, quando estão em um namoro ou casamento, frequentemente estão infelizes, convivendo com alguém que, ironicamente, não são amigos ou melhores amigos entre si. É tragicômico ver que as mesmas pessoas que criticam tanto essas misturas entre amigos e parceiros sexuais, passam para o namoro ou casamento com um ar de frustração por se aperceberem que aquele com quem estão dividindo um relacionamento sério, não construiu uma amizade paralela, afinal, estas duas coisas estiveram separadas desde o início, por decisão equivocada deles mesmos. O que pode ser mais desastroso do que esperar saborear um pão, mas não ter incluído na receita a massa. Percebe?

As pessoas assistem com brilho nos olhos os casais que perduraram felizes juntos por muitos anos, até o final da velhice, mas nunca param pra notar o que estaria por trás de alguns destes relacionamentos. Se não é a constituição de uma amizade sincera, não sei mais o que seria, afinal, depois de certa idade, atração sexual é que não será. Se só nos preparamos pra viver a faceta sexual de nosso ser, estamos fadados a um fracasso miserável na vida, a ponto de terminarmos sempre e toda vez, infelizes e insatisfeitos com o mundo, com nós mesmos e com qualquer outro que cruze o nosso caminho, afinal, a vida não é feita só de sexo. Um bom relacionamento é, sobretudo, uma troca de bons momentos, experiências e cuidados. É preciso ter muita sintonia, compaixão, amizade, interesse sincero e transparente pelo bem-estar do outro. Formar um bom relacionamento é construir um espaço  que não sufoca ninguém, mas cativa as partes envolvidas a quererem estar por ali para mais e mais. A vida pode ter muitos mistérios indecifráveis, mas alguns, claramente, são tão explícitos que chega a assustar ver que muita gente ainda não está conseguindo enxergar.

Consigo entender que muita gente esteja amargurada, traumatizada e sem esperanças pela vida, afinal, muitos indivíduos já tiveram experiências pouco frutíferas no campo das relações humanas. Porém, por isso mesmo, é importante estar sempre aberto aos erros cometidos, para não acabar fomentando um cenário que gera estes mesmos episódios mais e mais vezes, num círculo vicioso doentio. Uma sociedade que só replica desafeto, ansiedade, hipervalorização do sexo e subvalorização do afeto e da amizade, certamente está atirando no próprio pé e não está se dando conta. Dessa maneira, vai sempre se incomodar com a dor do ferimento, negligenciando o fato de que foi ela mesma que se sabotou.

Relacionamentos amorosos devem ser exercidos por pessoas aptas, maduras, independentes, livres e seguras de si. Diante de algo tão importante, não se pode achar que a ansiedade do momento vá ser parâmetro útil pra definir como ou com quem se relacionar ou não. Embora não possamos ter muito controle sobre quem nos será uma paixão ou atração sexual, podemos, com toda certeza, escolher nossa conduta diante desses sentimentos. Se algo lhe foge ao controle, nesse sentido, busque ajuda profissional, pois não é saudável e nem faz parte da natureza humana estar sem controle de seus atos por conta desses impulsos citados. Há muita coisa que motiva o ser humano a idealizar ou até aspirar determinadas realidades, mas, se o contexto de um relacionamento não é recíproco ou não nos é conveniente para o bem-estar de uma das partes, é hora de simplesmente buscar outras opções viáveis. Não gaste tempo na sua vida procurando fazer caber o que não cabe. Forçar uma ilusão a se adequar a realidade é o mesmo que plantar o conflito, enquanto poderia estar dedicando tempo e energia pra algo que realmente tem potencial de se concretizar e lhe trazer bons momentos. Pense nisso, faça boas escolhas e, assim, terá melhores chances de ser alguém feliz.

Rodrigo Meyer

O que nos faz escrever errado?

De forma bem resumida, a geração de pessoas que cometem erros de grafia e gramática, está intimamente relacionada com o que cada uma dessas pessoas absorveu de instrução em leitura e escrita anteriormente. Isso significa que, o excesso de erros reflete o pouco contato com a escrita correta, tanto pela própria quando pela leitura de outros autores. E se a pessoa tem lido outros autores e mesmo assim ainda está recheada de erros, é porque está lendo autores que também expressam erros de escrita. E vale dizer que se estes autores estão errando na escrita, eles também leem pouco ou nada e, portanto, podem não ser a melhor opção de autor pra se ler, não só pelos erros em si, mas pelo pouco embasamento que eles possam ter em razão do pouco contato com os livros.

Por padrão, editoras, em teoria, fazem a revisão de todo material que elas editam antes de levar para impressão. É por meio desse filtro profissional que tenta-se garantir a ausência de erros nas obras finais. Claro que, vez ou outra, ainda escapam alguns erros dos olhos dos próprios revisores, mas é fácil identificar quando um erro é um deslize isolado e não um desconhecimento do idioma por parte dos envolvidos. É visível, por exemplo quando várias vezes uma determinada palavra é escrita de forma correta, mas em algum momento do livro, surge uma letra trocada ou algum erro em exceção aos demais usos dessa mesma palavra.

Fora dos livros revisados, dos espaços mais profissionais de jornalismo ou ambientes similares de criação, especialmente na internet, onde tudo é acessível de forma praticamente gratuita e instantânea, é comum vermos um crescimento nesse problema com a escrita. Engana-se quem acha que isso está relacionado estritamente com diplomas, nível escolar ou social. Na verdade tem apenas a ver com o quanto a pessoa está envolvida com o hábito da leitura de autores que escrevem corretamente. Há muitas pessoas que mesmo tendo formação universitária, por exemplo, não possuem o hábito de ler, apesar da suposta necessidade de se absorver conteúdos durante essa fase de estudos.

São recorrentes os erros entre todas os grupos de pessoas, afinal a ausência de leitura é algo que abrange a maior parte da sociedade brasileira. Segundo uma das notícias que vi, apontava-se que 73% dos brasileiros nada liam. Você pode achar esse número exagerado, diante de um cenário onde livrarias são grandes espaços em shoppings que apresentam uma diversidade tão grande de editoras e autores. Embora haja essa realidade, é fato que o preço absurdo dos livros reflete exatamente essa pouca demanda pela leitura. Além disso, muita gente tem o péssimo hábito de colecionar livros aos quais jamais lê. Uma fila interminável de livros guardados por status e estética, configuram lindas estantes cheias de conteúdos que nunca entraram pra dentro das cabeças de quem os comprou.

Agora, entende-se que, de forma geral, não somos um país que lê e, por isso, é compreensível que muitos de nós sejamos propagadores de erros. Ainda que sejamos retificados sobre erros grosseiros durante nossa alfabetização e formação escolar, com nossas aulas de redação, literatura ou Língua Portuguesa, ainda ficamos distantes do ideal, porque não somos incentivados a nos tornar leitores de fato. Criamos um estigma de que os espaços de aprendizado ou os próprios livros, são algo chato e desnecessário. Diante dessa sensação, fica difícil inserir pessoas para algo que, apesar dos benefícios, não é visto com bons olhos.

Escreveríamos melhor se gostássemos de ler. Gostaríamos de ler se lêssemos mais. Leríamos mais se a leitura nos fosse apresentada dentro de um sistema de cultura e de ensino onde isso não fosse uma imposição regrada. Também seria importante que os próprios professores e incentivadores da leitura aos alunos não fosse pessoas igualmente contaminadas pelo desprazer a que tentam evitar aos outros. A grande realidade é que somos cercados de pessoas que, mesmo em profissões que exigem extensa leitura, não leem. Somos uma sociedade onde é possível encontrar professores e diplomados com menos instrução e cultura que alguém que nunca pisou em um ambiente formal de ensino. Isso tudo ocorre porque, no final das contas, não é a simples participação de um ambiente escolar ou universitário que garante o que essa pessoa será ou fará. É evidente que um leitor ou estudioso autodidata progride mais do que um aluno de escola ou universidade que nada investe em seu próprio aprendizado.

Eu sou, desde que me conheço por gente, avesso aos ambientes convencionais de ensino. Sempre fui aquele que questionava e me opunha aos equívocos e atrasos encontrados pelo caminho, diante de professores pretensiosos. Não posso negar que, no meio de toda essa salada, conheci pessoas incríveis com uma mente muito privilegiada, mas certamente eram uma exceção. Algo esperado como comum (embora não seja normal), em um país como o nosso, onde vocação pra ensinar e qualidade de ensino não costumam fazer parte dessa classe de “profissionais” que, muitas vezes, estão nesses cargos estritamente por falta de opções melhores e por um salário que os livre da miséria. Que proliferem as benditas exceções e que esse segmento de trabalho seja ocupado tão somente por pessoas que amam aprender e ensinar, afinal, quem não gosta de aprender, não contagiará ninguém mais a gostar. Exemplo é tudo, especialmente pra essa finalidade.

No ambiente familiar e no círculo de amigos, ou mesmo nos grupos de interação pela internet, é importante haver alguma tendência ou clima pra que a leitura seja vista com olhos diferentes do que normalmente aconteceu desde sempre. A medida em que as pessoas repetem a leitura como um hábito de prazer, o cérebro interpreta essa atividade como algo memorável, ou seja, como algo que vale a pena guardar na memória. E se o cérebro memoriza boas leituras e escrita correta, será praticamente difícil contrariar o que foi absorvido. Eis o mistério resolvido de como aprendemos a escrever melhor e corretamente com a simples repetição da leitura. E vai uma dica adicional. Na ausência de livros, sinta-se a vontade pra ler seus próprios textos várias e várias vezes. Embora o conteúdo possa não surpreender mais, você estará memorizando o jeito certo da escrita das palavras e poderá fazer bom uso disso quando for escrever novos textos. Assim você mesmo cria um círculo vicioso positivo.

Outra dica simples e eficiente é adotar algumas poucas palavras novas e usá-las repetidamente em um curto espaço de tempo. Devido a novidade e a frequência exagerada, o cérebro marcará aquela palavra como importante, pois você a destacou pelo viés do objetivo. Ter um objetivo pequeno e fácil de cumprir se torna uma motivação para a conclusão confortável disso. Se repetir esse feito para novas palavras a cada vez, terá um acréscimo substancial no seu repertório de vocábulos. Em um efeito bola-de-neve, quanto mais diversidade de palavras e contextos você aprende, mais complexo se torna seus textos criados e, assim, você tende a buscar até mesmo assuntos novos que antes nem lhe eram concebíveis. Um dicionário, podendo ser até mesmo de um aplicativo de celular, do Google, do corretor ortográfico do editor de textos / navegador ou mesmo um impresso, te ajudará a descobrir que a única coisa chata é querer entender a vida e não ter ferramentas sequer pra esticar sua absorção da ideia de outras pessoas, outros autores, outros leitores. É por meio da escrita e da leitura que a gente consegue dar um passo a mais, nesse mundo onde não precisamos mais viajar meses de navio pra entrar em contato com uma informação , um pensamento, uma temática. Estamos em contato com todo tipo de material, inclusive inúmeros livros gratuitos disponibilizados pela internet, além de milhares de conteúdos de blogues e arquivos de PDF com todo tipo e formato de texto, em praticamente todos os idiomas.

Não há mais desculpas consistentes pra fugir do seu progresso na literatura. Muita gente se descobre apaixonado por ler, simplesmente começando a ler. A velha história da criança que não gostava de brócolis até se permitir comer e se tornar um eterno comedor de brócolis. Muito do que não gostamos é apenas um preconceito por algo que nos foi apresentado de forma errada e nos deixou uma marca desagradável ou pouco instigante. Precisamos redescobrir as coisas para redescobrir a nós mesmos. Quando o mundo disser que algo tão incrível e útil quanto a leitura é chato, tente descobrir porque dessa afirmação e se dê a chance de reverter esse equívoco, se colocando em um papel positivo e receptivo para livros, fanzines, blogues, rótulos de shampoo e bulas de remédio.

Rodrigo Meyer

Facilidade pro humor é pré-requisito.

Quem já teve a experiência prazerosa de rir diante de algo, ao lado de alguém ou mesmo consigo mesmo, sabe que essa é uma das melhores coisas da vida e que, se estivermos equilibrados, estaremos abertos e desejosos por isso. Faz parte da realidade humana a busca por prazeres. É fácil ver que os relacionamentos mais bem-sucedidos levam consigo companheirismo, amizade, carinho, apoio e, claro, muita diversão. Quando a gente se entrega em uma amizade ou romance, os momentos de alegria e humor são constantes, afinal queremos ver o outro bem, rindo, tal como gostamos de brincar e se entreter nessa troca de prazeres que é o humor.

Não consigo imaginar relacionamento algum que não seja pautado em bom-humor. Tenho, pra mim, como pré-requisito pra tudo. Até mesmo diante do trabalho, desde que haja espaço e afinidade com as pessoas, é possível ofertar esse benefício. Acredito que isso transforma a qualidade dos momentos a ponto de reforçar e validar a conexão entre as pessoas. Claro que não basta ser muito criativo e engraçado pra que todo o resto brote, magicamente, mas sem o humor, com certeza fica difícil traçar qualquer conexão positiva.

Dispenso do meu caminho, conexões que não me fazem melhor, que não transformam meus momentos em prazer. E o humor é uma dessas formas. Mas há de se filtrar pra não cair no pseudo-humor ou no humor sem ética que se pauta pelo indevido, pelo preconceito, etc.

Lembro como se fosse ontem os momentos incríveis que dividi ao lado de vários amigos e as companheiras de relacionamento. As piadas, paródias, os comentários geniais, o modo de ver a vida e o descompromisso com a seriedade na maioria dos momentos. Isso é um ideal possível e nada utópico. Levo comigo o bom-humor e é isso que busco nas outras pessoas. São raros os momentos que, de fato, precisamos estar sérios e, portanto, torna-se desnecessário inventar seriedade onde ela não foi requisitada.

Infelizmente, olhando ao redor, sei que o humor está escasso. As pessoas já não sabem bem o que é rir. Muitas delas andam de cara amarrada por todo lugar onde passam. No trânsito, no caminhar das ruas, em casa, na internet, nos comentários, nas entrevistas, nos comércios, na família, nos relacionamentos, nos palcos de show. Isso cria uma atmosfera inútil de desprazer que não ajuda nem a eles mesmos e nem a quem cruza o caminho deles.

Prefiro  mil vezes ser a exceção que ri no trânsito com as loucuras que acontecem ao redor ou com minhas próprias memórias, insights, paródias de música ou qualquer humor criado de momento pra uma situação. O hábito de rir nos faz rir com mais facilidade e ativa uma visão humorada sobre as coisas ao nosso redor.

Acredito que pra sermos humoristas ou pessoas divertidas, temos que ser bons observadores, mas sem a pretensão de fazer grandes coisas. O humor é, essencialmente, o simples, o falho, a banalidade, a idiotice humana, e por aí vai. Não existem fórmulas garantidas pro humor, embora haja cientistas que até já tentaram equacionar a estrutura por trás de algo que nos faz rir. Seja lá que estrutura for essa, é claro que absorvemos e replicamos de forma natural. E essa naturalidade mostra muito da essência do ser humano. Por isso, pra mim, quanto mais divertido alguém é, mais humano me parece e, portanto, mais interessante soa pra mim.

Quando vejo pessoas buscando amigos ou romances dentro e fora da internet e seus “cartões de visita” levam a uma primeira impressão ruim, com uma cara fechada, palavras duras, objetividade acima de tudo, vejo que perde completamente o valor humano e, torna-se qualquer coisa indesejada que, com muito azar, alguém pode chegar a ter por perto.

Só queria deixar esse toque pra vocês. Quando a gente tem amor-próprio, a gente se dá coisas boas. Então, se dê esses bons momentos, se dê prazer, se dê risadas, se dê humor, se dê uma vida leve e com significado, olhando o mundo ao redor com outros olhos e tendo outra postura diante das pessoas. Por mais difícil que tenha sido sua realidade, se você ainda consegue acessar o conceito de humor e pode se ver diante de uma situação engraçada, faça isso, se permita, se solte, aproveite o momento, pois qualquer dor do passado não precisa necessariamente estar em todos os momentos do seu presente. Sempre haverá meios ou brechas pra você gerar suas próprias oportunidades de prazer e humor. Obrigado a todo mundo que acompanha os textos e vamos em frente. 🙂

Rodrigo Meyer