Prosa | Pessoas pelo caminho.

A imagem que ilustra esse texto é composta de diversas fotos fictícias, meramente ilustrativas e todas marcadas como livres para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Mesmo inteiro e, apesar de encontrar grande prazer em estar sozinho, às vezes penso quão bom é, também, dividir o silêncio com alguma companhia, onde a mente se encante de ver alguém que eu goste por perto. Quão bom é sentir um bom perfume, estar perto de alguém que olhe nos meus olhos enquanto me fala ou, simplesmente, sob a luz apagada, deixa que a voz chegue sozinha aos meus ouvidos, me forçando a prestar atenção, ao mesmo tempo em que relaxo quase à ponto de dormir. Incríveis sensações que gosto de relembrar com as pessoas que já estiveram comigo ou, tão bom quanto, com pessoas hipotéticas com as quais nunca me relacionei, mas imagino como poderiam ser. É tudo um jogo de saudades e idealizações. No final das contas, o que quero, sei bem, é alguém pra dividir o peso do mundo. Creio, firmemente, que duas pessoas caminham melhor se, ao longo da vida, tiverem alguém pra se refugiar. Pra mim, pessoas são casas, mesmo que extremamente temporárias. Elas são companhias e espaços de segurança com quem podemos contar pra alguma coisa, em algum sentido. E boas casas são o lugar perfeito pra passar o tempo e descansar, quando tudo o mais lá fora deixa de ser conveniente em algum momento. Podem ser apenas amizades comuns ou amizades coloridas, encontros casuais, romances, namoros, casamentos ou qualquer outra definição de companhia.

Nunca estive à procura de pessoas. Elas sempre apareceram espontaneamente na minha vida. Às vezes, eu facilitava o caminho cedendo logo no início, mas eram sempre elas que vinham me procurar. Não sei bem o que cada uma dessas pessoas viram em mim. Algumas diziam se encantar com o meu cabelo, meu olhar ou meu sorriso. Já me elogiaram pelo meu jeito misterioso, curioso e sensível. Já ouvi muitas possibilidades, mas é tudo demasiado fracionado e pequeno, ao meu ver, pra que alguém use como explicação pelo interesse. Talvez essas pessoas não soubessem descrever a química, a sintonia, a atração pelo perfume e o mais primitivo instinto em busca de satisfação da libido. Ou, talvez, seja um emaranhado psicológico agindo em busca de sinais inconscientes de compatibilidade.

Quando penso nas pessoas que cruzaram o meu caminho, fico ponderando se os eventuais próximos relacionamentos ocorrerão com pessoas similares ou se eu serei surpreendido por um futuro completamente novo. Depois que a gente entende que pessoas, além de diversas, também mudam ao longo dos meses e anos, seria bobagem esperar por realidades que só habitam a minha memória de um passado que, provavelmente, já não verei naqueles que cruzarem o meu caminho hoje ou daqui alguns anos. E, a bem da verdade, eu gosto disso. Todas as pessoas que eu conheci, tinham realidades muito distintas e surgiram em momentos da minha vida que também eram bem diversos. Já conheci pessoas diurnas, noturnas e indiferentes. Conheci pessoas de diversas aparências, diversas profissões e classes sociais. A própria mente dessas pessoas já eram um show à parte. A personalidade de todas as companhias sempre me surpreenderam em uma longa paisagem cheia de detalhes. Assim como pareciam interessantes em uma visão panorâmica, revelavam aspectos que demorei tempo demais pra perceber que estavam embutidos. Em muitos dos casos, foi isso que me fez perceber que, por mais bonito que seja um campo, se ele estiver repleto de minas terrestres, já não vale a pena ficar pra passear. Às vezes, quando descobrimos o risco, já é tarde demais e ficamos destroçados por uma dessas “explosões”. Por isso, aproveite o momento enquanto ele for bom, pois não sabemos quanto tempo vai durar.

Eu conheci pessoas com a sexualidade exagerada, pessoas românticas, frias, ingênuas, práticas, traumatizadas, melosas, tímidas, extrovertidas e também pessoas assexuadas. Conheci pessoas que tinham aversão apenas ao beijo, enquanto outras preferiam somente o beijo e nada mais. Conheci pessoas de pouco estudo e outras muito estudadas, pessoas com baixa autoestima, bem-resolvidas, sensíveis, artistas, dançarinas, musicistas, jornalistas, advogadas, desempregadas ou “donas de casa”. Estiverem por perto pessoas budistas, cristãs, umbandistas, kardecistas, bruxas, telemitas, ateístas e, claro, pessoas completamente indefinidas. Estive com pessoas de idades diversas e de muitos lugares. Com algumas dividi pouquíssimo tempo, por duas ou três noites, enquanto outras estiveram do meu lado por anos. As pessoas surgiram e ficaram por diversos motivos. Algumas queriam o amor que eu não tinha pra dar e outras queriam, explicitamente, apenas o sexo. Outras estavam confusas entre os dois mundos, diferente das que estavam bem decididas, mas muito mal intencionadas, fazendo teatro na esperança de me agradarem com uma fachada de mentira. Fui experimentando um pouco de tudo nessa vida, pra perceber a beleza e o horror que está em tudo, inclusive nas várias faces de uma mesma pessoa.

Haviam pessoas que eu raramente vi almoçarem, as que comiam o mundo sem nunca engordar, as que se ornamentavam ao extremo apenas pra trabalhar, as que saíam quase do mesmo jeito que acordavam, que estavam na vida por um pouco de aventura e as que queriam estabilidade. Estive ao lado de gente firme, centrada, maluca, deprimida, energizada, festiva, calada, prestativa, acomodada, megalomaníaca, sensata, xucra, simplista, viciada, alcoólatra, doente, quase morta, inocente e depravada. Havia gente do rock, do punk, do gótico, do samba, das raves, da música clássica e de outros meios. Passaram por mim pessoas tristes, felizes, desajustadas, grosseiras, desonestas, virgens atrasadas, mães, gêmeas, brancas, indígenas, mestiças, negras, asiáticas, de muitos tons, traços e etnias, com seus cabelos em tranças, dreads, longos, curtos ou raspados, pretos, vermelhos, azuis, verdes, cor-de-rosa, castanhos, loiros, ruivos, mistos e alternados.

Passaram na minha vida, pessoas genuínas, “de plástico”, com filhos, sem pais, trabalhadoras compulsivas, largadas, queridas, desgraçadas, lindas ou não tão bem lapidadas, almas boas ou nem tanto e pessoas que me deixaram confuso. Já pagaram as minhas contas e eu já paguei a conta de várias. Teve gente importante, desconhecida e intermediária, geeks, nerds, gamers, cosplayers, fetichistas, garotas de vida dupla, modelos e pessoas avulsas das quais nunca conheci nada. Houve gente que nunca achei que conheceria e que meus inimigos espumam até hoje por sempre terem desejado conhecer, sem nunca conseguir. A vida traça surpresas. Às vezes correr atrás das pessoas pode ser só uma forma de espantá-las ou de transformá-las num tesouro a ser conquistado por quem, antes, nem podiam notá-las. Relacionamentos tem muito do acaso. As pessoas certas, na hora certa, fazem o dia acontecer. Eu nunca fui de fazer planos. Decido minha vida em cima da hora. Se algo me cativa e merece meu tempo, eu fico pra ver o desfecho. Vi muita gente fazer planos gigantes e cheios de detalhes, mas, repentinamente, nada daquilo sequer havia sido possível e todo plano foi inundado de desnecessidade. Não há porque planejar relacionamentos, pois não controlamos o destino, muito menos as pessoas. As coisas fluem em seu modo particular e nosso único papel é se adaptar ao novo momento.

Se eu fosse tentar adivinhar quem seriam as pessoas possíveis pros meus dias atuais ou pro futuro próximo, eu teria que atropelar toda a razão e apostar numa figura randômica de qualquer lugar do mundo. Digo isso porque sei que não espero por ninguém, não tenho grandes exigências, exceto alguns valores e condições mínimas. Quero alguém que corra pelo lado da justiça social, que seja avessa à preconceitos e que esteja disposta a conhecer outros assuntos. Muita gente vai ler, mas não vai entender. Há quem vá olhar pra tudo isso e preferir acreditar em uma máscara, uma linda fachada ilusória, mas, na prática, não vai ter essa premissa, não vai saber como viver essa realidade de vida. As mesmas palavras, pra pessoas diferentes, suscita tantos significados divergentes que é quase que inútil descrever. Prefiro deixar, como sempre, a vida me surpreender. Que venham as pessoas que tiverem de vir e eu decido se o que elas têm pra oferecer é compatível comigo. E que elas façam o mesmo ao me verem passar. Relacionamentos deveriam se resumir à isso. Se há compatibilidade, reciprocidade, interesse e oportunidade, está feito o cenário pra se tentar uma companhia. E, no mais, ninguém é obrigado a ter uma companhia, nem a desejar uma pra se sentir vivo na vida. Façam dos seus momentos algo profundamente sincero, espontâneo e com o máximo de sentido pra você mesmo. Não fique à espera de agradar os outros só pra se encaixar em uma sociedade ou um relacionamento. Viver é, basicamente, o oposto disso. Se sentirá mais gente quando desfrutar, ao mesmo tempo, do prazer que quiser e da dignidade que precisa.

Rodrigo Meyer – Author

[+18] Obrigado pela partida.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e baseada em uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa do Google.

Você chegava no seu carro cor de carmim com os cabelos soltos e ondulados. Tão leve, tão independente, tão feminina. Amava quando você usava o jeans decorado com rasgos pelos joelhos. Te fazia mais garota, mais divertida, mais ousada. Bem me lembro do seu olhar atento, entrando em casa, se recuperando da viagem. Incrível como seu perfume persistia ao tempo. Era um vício aspirar o seu perfume quando te abraçava. Você fazia eu me sentir mais vivo e eu retribuía cada movimento seu.

Bom mesmo era ser surpreendido com seu toque na porta, anunciando sua chegada. Como era bom acordar nessa névoa de sonho, te puxar pra dentro, encostar a porta e te sentir inteira. Matar saudade com os olhos, com as mãos, com você prensada contra a parede, de frente e de costas e notar cada um dos seus ornamentos. Você se produzia toda só pra me ver. Era meu presente, depois de tantos dias longe de casa. E vinha sempre atiçada, como quem estivesse com sede todo esse tempo. Teus olhos brilhavam e tudo em você parecia tão bem escolhido.

Na memória, tenho você em dias diversos, em todas as casas, no cinema, no teu carro. Lá estava você em cima da cama, no sofá, no chão da sala, no jardim, debaixo do chuveiro, no meio do almoço, depois do banho e até quando tínhamos mais gente dividindo o quarto. Você era sempre uma estrela, incansável sereia. Se eu me atirava sobre suas roupas, esfregando o corpo e te beijando, você se contorcia e me colocava pra te admirar. Debaixo da sua blusa, com os ombros de fora, um sutiã branco cheio de detalhes parecia um tesouro à ser descoberto. E como eu ficava feliz de desvendar cada camada. Seus sapatos eram poesia e era impossível não notar como você se sentia usando eles. Se possível fosse, os manteria enquanto te despia. E como era bom perceber o cheiro da sua roupa. Tudo isso fazia eu me sentir especial.

Você gostava de tudo intenso, porque quanto mais desejada, melhor. Com toda intensidade, eu tirava suas calças e te cobria de beijos entre as pernas, até eu me render e te deixar toda nua, impacientemente esperando minha boca molhada devorando a porta da sua casa. Um castelo, devo dizer, cheio de magia. E disso você entendia bem, porque parecia controlar a minha vida. Eu, ciente do que tinha do meu lado, nem precisava me esforçar pra querer fazer todo o esforço possível. Eu simplesmente era compelido a te ver dançar, à querer fundir prazer e prejuízo na mesma equação. E quanto mais eu me esgotava, mais eu queria continuar. Talvez acabássemos mortos por excesso de saudade. E teria valido a pena cada absurdo realizado.

Você sabe que as memórias não se apagam da noite pro dia. Talvez, algumas jamais poderão ser apagadas, porque impregnaram diretamente na alma. Parte de você, alterou a percepção da minha própria vida. Tem você no que eu faço ainda hoje e é por isso que escrevo sem freios, quando lembro do que vivíamos. Tem comigo aquelas tuas graças, seu jeito hilário de parodiar pessoas com seus personagens e também seu jeito inconfundível de falar. Tudo em você era engraçado, porque você enxergava a vida com humor. Tinha isso nos filmes que você gostava, nos bonecos que você moldava, nas artes que sobrepunha às cartas que me enviou. Éramos dois palhaços, rindo um do outro, um para o outro e um com o outro. Éramos imperdíveis e infalíveis. Se hoje eu lembro de você por todas essas coisas, é exatamente isso que eu admiro nas pessoas desde sempre e ainda hoje.

Mas você não soube apenas ser e logo o paraíso te pareceu bom demais pra ser verdade. Começou a imaginar coisas, a ver situações onde não havia, a criar monstros imaginários pra depois passar o dia lutando contra eles. E lutou, até o ponto em que teve que declarar guerra, por debaixo dos panos, talvez por medo, insegurança ou algum fator que eu nunca saberei dizer. Quando você se foi, eu havia pensado que eu estava destruído. Levou tempo, mas depois de uns anos eu percebi que eu tinha vencido duas vezes. Venci quando desfrutei da alegria e do vigor, enquanto ainda existia e depois venci novamente quando você saiu da minha vida, pois já não éramos mais compatíveis, seja lá o que isso tenha sido. O importante é que não prolongamos o que não sobreviveria e voltamos à realidade cinza, cada um com seu próprio plano, tentando se reconectar ao sentido da vida.

Pra você, outros filhos, outros relacionamentos e a volta pra sua casa. Pra mim, outras cidades, outras verdades, outros momentos, novas pessoas, novos aromas, novas intensidades. Não me atrevo a especular ou comparar a vida de cada um. Tudo que posso falar é do que vivemos e do que nos poupamos de viver. Por trás da sua figura engraçada, havia um recheio amargo de preconceito, de racismo e ódio de classes. Se eu tivesse percebido tudo isso desde o início, eu teria te recusado. Mas você foi boa no feitiço, me deixou marcado e conectado por aquilo que temos de mais poderoso e instintivo. Você carregou minhas baterias e me fez transbordar. Mas, pra se viver não podemos atropelar nenhum princípio e, por isso, foi livramento quando você escolheu se afastar. Ninguém é perfeito, mas temos que procurar por compatibilidade e reciprocidade. Décadas depois, cá estou, ainda conseguindo ver que pessoas ruins também tem partes boas. Talvez se aplique, subjetivamente, a ideia de que quanto mais luz incide sobre uma pessoa, mais densa é a sombra por ela projetada.

Pessoas depressivas talvez se pareçam com baterias descarregadas. Se alguém vem nos socorrer, precisamos de muita carga. Mas quando finalmente ganhamos autonomia, a bateria continua a se carregar sozinha, pelo giro do próprio motor. Precisamos manter nosso carro em movimento. E aqui vou eu, levantar voo para a maior de todas as estradas. Tô indo vencer na vida, de um jeito que só eu sei o que significa. Para os que ficam, eu já estou em outro jogo, mas obrigado pelas partidas.

Rodrigo Meyer – Author

[+18] Conto | Eu te agrado?

A imagem que ilustra esse texto é ficcional e meramente ilustrativa, baseada em uma fotografia livre para utilização, conforme os filtros de pesquisa do Google.

Havia chegado na cidade há alguns dias e estava acostumado com a rotina local. Mas, certa vez, enquanto eu improvisava um almoço atrasado em um bar, observei a movimentação de uma turma de turistas recém-chegados. Pareciam entusiasmados e acostumados com o lugar. Eu, de modo costumeiro, sentei em uma mesa bem ao canto de tudo e coloquei minha câmera fotográfica em cima. Apesar do dia claro lá fora, o ambiente escuro e sem iluminação do bar permitia uma conveniente penumbra, especialmente por onde eu estava recostado. Dalí, observava as pessoas indo e vindo, ouvia a conversa rápida dos clientes com o atendente no balcão e a euforia do lado de fora, na calçada.

Não demorou muito pra que entrasse uma moça, aparentemente em dissonância com a tendência do seu grupo de amigos, buscando alguma bebida. Ouvia-se, contudo, a pressa dos amigos, insistindo pra que ela deixasse pra depois e a frustração manifestada deles por verem que ela não os correspondia. Enquanto eu aguardava alguma coisa pra comer, me confortava com um copo de refrigerante. Achei que passaria desapercebido, mas, aparentemente, quanto mais discreto, mais destoante se fica em comparação com o resto das pessoas. Ela se apercebe da minha figura alí sentada, quieto, sozinho e se mostra curiosa em saber algo de mim. Olha e se anuncia pelo semblante, enquanto olho de volta por respeito e simpatia. É curioso ver como é comum que estranhos me cumprimentem em bares e outros comércios. Sei, por experiência de vida, que muitos deles fazem isso intencionalmente, pra sinalizar que estão chegando em paz, que não querem briga ou desconforto e aproveitam esse momento para conferir a reação daqueles a quem cumprimentaram, pra saberem se podem se sentir seguros e confortáveis. Wittgenstein, o (assim chamado) filósofo que se dizia não ser um, se sentiria feliz de ver essas “milagrosas” nuances de comunicação serem percebidas e comentadas.

A moça que se aproximava, parecia ter facilidade para notar o “invisível” também e expressou suas primeiras mensagens assim que notou a câmera de aspecto incomum sobre a mesa. Uma câmera profissional, um verdadeiro “trambolho” aos olhos do público comum, acostumados com os eletrônicos portáteis. Ela comenta algo sobre a câmera e me pergunta se posso fazer um retrato dela. Eu aceito e ela se felicita. Logo se arma, de óculos escuros, em poses e caras junto à uma coluna de madeira dentro do bar. Dada as condições de luz, idealizo uma imagem em preto-e-branco, tirando vantagem do contraste que se forma entre o escuro do ambiente, a pouca luz que vem de fora e o brilho nos óculos. Com o retrato feito, ela se aproxima pra ver o resultado, gosta e se esforça para lembrar corretamente seu endereço de e-mail ou rede social por onde possa receber a foto depois.

Puxando assunto e, visivelmente animada, ela pergunta o que estou bebendo. Surpreende-se de não ser nada alcoólico e tenta saber porque estou sozinho, aparentemente não fazendo coisa alguma. O silêncio é perturbador pra muita gente, pois dá brecha pra que pensem na vida, olhem pra dentro de si mesmas e se apercebam de realidades duras. Escolhem se ocupar com o barulho da música, a correria, a euforia forçada, a bebida, a dança, o sexo, a conversa sem profundidade e qualquer coisa que preencha o tempo. Ela vai ao balcão, pede uma cerveja e me pergunta se pode sentar-se comigo. Sinalizo uma concordância e logo vem ela com sua garrafa, mas não se senta em cadeira alguma. Escolhe ficar de pé, dançando e cantando alguma música. Por conhecer bem a cidade, sei que ela certamente era turista e de um tipo um tanto quanto incomum. Talvez tenha sido a época ou a combinação peculiar com seu grupo de amigos. Intrigada e provocada, se esforça pra ser acolhida e notada até que toma a iniciativa de rebolar perto de mim e de se permitir sentar em meu colo. Retribuo a iniciativa contemplando sua presença e observando sua personalidade. Vira-se de frente pra mim e senta-se novamente em meu colo, tomando o cuidado de deixar o copo sobre a mesa.

De maneira divertida, ela pede um beijo, mas eu não retribuo. Com uma das mãos, seguro-a pelas costas para evitar que ela caia. E isso parece animá-la um pouco mais. Levanta-se e continua a dançar bem perto, às vezes de costas, às vezes de frente e sinaliza que posso tocá-la, que quer se sentir desejada. Nessa reciprocidade informal, sinto o contorno de sua cintura, apalpo sua nádegas e seguro bem firme seus peitos, deixando que ela continue a dançar. Quando se vira de frente, já bem envolvida com o que está fazendo, deixo que ela defina os limites da situação e quando ela me toca entre as pernas pra sentir fisicamente a excitação, retribuo tocando entre as pernas dela, massageando pra observar a reação. Uma satisfação brota na mente por presenciar a espontaneidade e a liberdade que ela se deu naquele dia, com alguém que acabou de conhecer. Não sou o tipo de pessoa que criticaria tal situação, pois penso e vivo uma realidade de vida que é profundamente marcada por liberdades, acasos, mistérios, momentos e pessoas bastante fora dos padrões da sociedade, mas não incentivei nada além daquilo, pois o que eu queria para meu dia não envolvia ter companhia além daquele breve momento no bar. A turma dela novamente aparecia sinalizando pra seguirem adiante, mas ela parecia confrontá-los, insistindo em ficar dançando. Terminou sua bebida, agradeceu pela fotografia e saiu, tão aleatoriamente como entrou.

Depois de um certo tempo, noto que ela havia esquecido os óculos no bar e aviso o atendente pra que ele possa devolvê-los, caso a moça retorne ao bar. Algum tempo depois vou embora. Passado alguns dias, volto pra minha cidade e, com as fotos já editadas, localizo o contato dela e aproveito pra conhecer um pouco mais da sua realidade, seu trabalho, outras fotos, seu estilo de vida. Parecia ser alguém concentrada em se expressar livremente, em diversos sentidos. Parecia estar constantemente viajando e descobrindo novas atividades, novas estéticas, novas realidades. Havia um tanto de arte manifestada nas redes sociais. Fiquei feliz de contribuir com uma fotografia pra ampliar esse mosaico de experiências e memórias que ela estava cultivando.

Por trás de algumas liberdades, às vezes, se escondem algumas prisões. Por experiência de vida pessoal e pela experiência de outras pessoas que conheci, sei que algumas tendências são fruto de um passado dramático. Mas, a vida não é controlável. As pessoas são como são, fazem o que se sentem compelidas a fazer e se encontram em seus momentos de prazer da maneira que a mente organiza ou deixa acontecer. Somos nós mesmos um mosaico por consequência de outros mosaicos. Às vezes eu me pego relembrando de momentos avulsos como esse, em diferentes lugares, diferentes épocas da vida, com diferentes pessoas e isso me faz sentir que quanto mais difícil for o mundo lá fora, mais fundo algumas pessoas irão para as margens, para os modos alternativos de pensamento e de vida. E quando isso perdura por suficiente tempo no meu dia, eu vasculho meus arquivos atrás de outras fotos, pra relembrar pessoas, ideias, sensações, abstrações. Hoje em dia, para a maioria dessas pessoas que ficaram no passado, o que resta são apenas minhas memórias de momentos isolados, pois várias dessas pessoas se revelaram intragáveis depois de um tempo, quando suas máscaras caíram e deixaram à mostra o racismo, o fascismo, o conservadorismo, a falta de empatia, a cabeça fechada, o atropelo à diversos princípios. Ficam no passado, servindo meramente de entretenimento por conveniência, porque nunca puderam ser validadas pelo inteiro que foram enquanto pessoas. Se reduziram a fragmentos, quase sempre por frames sexualizados ou de momentos icônicos de comédia, enquanto os filmes inteiros não valiam o preço do ingresso, nem que fossem de graça ou que nos pagassem para serem assistidos.

Rodrigo Meyer – Author

Permita-se recomeçar.

Ouço muita gente citar o tempo como desculpa para a inação. Alguns dizem ter pouco tempo no dia, outros dizem ter pouca vida pela frente devido a idade e outros dizem que ainda são jovens demais para tomar certas decisões. Em todos os casos, usam o tempo como pretexto para uma inação, para fugir de situações das quais possuem, geralmente, medo.

Quando alguém está em um cenário de insatisfação naquilo que está vivendo, é comum que a pessoa desanime e não veja opções de recomeço. Mas sabe, apesar de tudo, que recomeçar seria algo benéfico, já que apontaria para um caminho de concretização de um ideal ou de uma possibilidade diferente daquela em que se via antes. A barreira para esse recomeço costuma se instalar na mente de muitas pessoas, tornando-as procrastinadoras ou negligentes sobre suas próprias realidades.

Em conversas com algumas pessoas, sondei o quão interessadas elas estavam em adotar recomeços em suas vidas, seja profissionalmente, no campo dos estudos, nos relacionamentos, na vida social, na troca de país, na iniciativa de escrever um livro ou começar um canal no Youtube, aprender a cozinhar ou terminar de ler aqueles livros que elas listaram um dia e nunca mais entraran em contato. Por mais engajado que eu estivesse em mostrar a realidade de todas essas opções, foi notório a reação exacerbada das pessoas em claro sinal de resistência para tudo isso. Algumas pessoas se declaravam desinteressadas de certas mudanças, mas não diziam explicitamente que era por conta de medo. Talvez admitir medo fosse, para algumas, uma maneira intragável de se verem sem a liberdade necessária sobre si mesmas. O medo paralisa e coisas paradas não repercutem. A pessoa que deixa de viver por medo, sofre em silêncio e muitas vezes sem nem saber porque sofre.

Outras pessoas, ainda que interessadas pelas mudanças, sugeriam repetidamente que mudar era difícil, que exigia uma lista de requisitos das quais elas não dispunham. Colidiam com qualquer tentativa minha de demonstrar que esses requisitos eram lendas e que a realidade disponível para as mudanças estava bem acessível. Contudo, eu deixava claro que a maior e única barreira pra determinados casos de mudança era simplesmente o ‘querer’ de cada indivíduo. Não se pode convencer ninguém a mudar se ele não quiser. A mudança, para todo e qualquer cenário da vida começa, primeiro, dentro do próprio indivíduo. É a mudança de paradigma, de pensamento, de postura e de valores que vai determinar as possibilidades de mudança no lado exterior, nas questões práticas da vida.

A exemplo disso, ninguém se atreve a mudar de país, por exemplo, se tudo na mente da pessoa ainda aponta que essa ação é errada, incerta, perigosa, pouco vantajosa, difícil ou impossível, dispendiosa, para poucos ou com qualquer característica de barreira que se atribua. Não ocorre a ação, se a mente não está minimamente alinhada com essa realidade hipotética. É natural que as pessoas tenham dúvidas sobre o dia de amanhã, sobre seus potenciais e sobre questões técnicas acerca daquilo que pretendem mudar, mas isso não é o mesmo que ter medo, insegurança ou desistência. Quando não sabemos nada sobre mudança de hábitos, por exemplo, procuramos a informação, antes de afirmar que é possível ou impossível, fácil ou difícil, interessante ou dispensável. Talvez algumas pessoas não saibam as opções existentes sobre novos modelos de trabalho, sobre como exercitar o corpo, como trocar de sistema operacional no computador, como abrir um comércio, como aprender um idioma, como adquirir o hábito da leitura ou como cozinhar com pouco dinheiro. Talvez não tenham a maior parte das informações que serão necessárias para a mudança em suas vidas, mas é exatamente por isso que a mudança é sinônimo de algo novo, de um passo em direção ao recomeço, ao aprendizado, à experiência, ao futuro, ao desenvolvimento, ao momento em que se olha para algo, se vivencia e se descobre mais daquele contexto. Fugir é que não ajuda em nada para aprender e vivenciar a mudança.

Quando eu era adolescente eu tive contato com softwares de modelagem 3D. Foi algo que me encantou por um tempo, devido as possibilidades de criação realistas de tudo aquilo que estava na minha mente. Embora eu não soubesse nada sobre meu potencial nessa área, nem soubesse nada especificamente das configurações atreladas a modelagem nos softwares, nem tivesse qualquer aspiração definida no campo profissional, eu me vi experimentando algumas opções. Assisti a tutoriais, entendi melhor os atalhos e me habituei a eles. Em pouco tempo, o que era improvável se tornou algo banal. Algum tempo depois, com a prática e o incentivo de um conhecido que também lidava com modelagem 3D, eu comecei a criar cenas mais complexas, experimentar materiais, efeitos, iluminações, recursos para renderização realista e até cheguei a montar um computador todo voltado pra esse alto desempenho requerido pra área. Não me tornei um artista 3D prolífico, nem dominei os softwares aos quais fazia uso, mas tive a grata oportunidade de gerar diversas imagens que me felicitam ainda hoje.

Olhar pra trás e ver que eu fiz algo na área, ativa a nostalgia e um orgulho somado com a memória positiva disso. Saber que fui capaz, que tentei e realizei, traz uma recompensa para o cérebro que me faz sentir prazer e motivação. Com isso eu me tornei muito mais ativo em outras atividades. Uma vez motivado, desenvolvi melhor meus desenhos em papel, minhas pinturas à óleo, minhas pinturas digitais, o desenho vetorial e o Design Gráfico, a própria Literatura e, claro, como fotógrafo, onde ampliei muito mais minha confiança artística, profissional, social, etc. Em resumo, ter me permitido aprender algo difícil como a modelagem 3D, repercutiu em toda a minha vida, porque mesmo que hoje eu não esteja mais modelando, todo o restante que eu faço, faço com motivação, com orgulho, com um histórico na memória e com um rastro de interação com as pessoas que conheci pelo caminho. Ter lembrado disso, me fez inclusive reabrir essa área no momento presente e voltar a estudar 3D, para, eventualmente, trazer essas modelagens como imagens descritivas de cenas nos meus livros ou até mesmo a criação de pequenas animações para os meus projetos paralelos. É improvável (ou pelo menos bastante incerto) que eu me torne um artista de 3D com os rumos que eu escolhi pra minha vida atualmente, porém eu nunca fecho uma porta, enquanto há a remota possibilidade de eu me beneficiar de algo em algum momento futuro.

Entendido o exemplo deixado acima, fica a reflexão para qualquer pessoa, em qualquer área da vida. É preciso estabelecer metas (até mesmo se a única meta for não ter metas definidas). Entender que a vida é dinâmica e que o futuro é uma surpresa constante, nos permite vivenciar mais profundamente cada um dos momentos presentes. Nada sei como será o dia de amanhã, mas quero que o dia de hoje seja o melhor possível. É isso que me coloca em uma postura aberta para a mudança. Se hoje aprendo algo que transforma meu pensamento, minha compreensão, meus valores, minha percepção, meus desejos, meus sonhos, etc., eu caminho, automaticamente, para uma realidade nova, para a mudança. E quando isso acontece automaticamente, acontece sem medos, sem barreiras, sem pesares, sem inseguranças. Mesmo sem saber nada sobre onde o rio vai desaguar, a água da nascente escorre com confiança e se entrega ao rio, percorre o rio, descobre as pedras pelo caminho, se molda por novas margens a cada distância que avança. O rio da nascente já não é o mesmo em nenhum outro ponto do caminho e a água se oxigena justamente por conta desse movimento. De certa forma ela é conduzida por uma série de contextos, mas é a força dela que registra o caminho possível de ser percorrido. Se a água for pouca e fraca, logo evapora, seca e o rio não se forma. Para viver uma vida intensa, com significado e prazer, é preciso deixar a vida acontecer.

Rodrigo Meyer – Author

Redefina os padrões daquilo que não te agrada.

Estar vivo, dentro ou fora da sociedade já nos coloca em um cenário em que precisamos observar e reagir diante das coisas. Tudo que nos cerca e também o que nós mesmos somos, passa pela nossa crítica. Para muita coisa, nossa análise passa desapercebida, pois são rotineiras. Mas para outras coisas, focamos uma grande atenção, principalmente sobre o que nos desagrada.

No campo das pequenas coisas, podemos reagir em desprazer pelo excesso de luz, de calor, da chuva, do céu nublado, do cansaço ou preguiça de cumprir uma atividade mais produtiva no nosso dia, a insatisfação com uma roupa que desbotou, um tropeço na calçada, a falta de bateria suficiente no celular, uma caneta que falha quando precisamos escrever, o barulho inconveniente na rua e por aí vai. Esses são alguns exemplos de coisas que nos traz algum incômodo, mas pouco significativo. Poucas vezes reagimos de forma mais consistente pra planejar mudanças sobre esses cenários. Não é algo que nos demanda muita ação, nem que nos priva de viver o total da nossa vida em outras coisas maiores.

No campo das grandes coisas estão nossas críticas mais incisivas, mesmo que nem sempre coerentes ou justas. Nossa visão sobre as pessoas, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre a política, sobre as relações de trabalho, de ensino, de aprendizado. Estão neste grupo o nosso dinheiro, nossas relações emocionais, nossos medos, nossos traumas, nossas doenças, os vícios, os erros, os acertos, as superações, as conquistas dos nossos objetivos materiais ou de outros setores da vida, nossa segurança, nossa satisfação em estar vivo ou em contato com o mundo com ou sem socialização. Muita coisa é pesada em graus diferentes para cada pessoa, mas certamente esses são exemplos muito comuns de faces da realidade e do nosso ser, que observamos com um grau maior de atenção, mesmo que tenhamos a visão distorcida ou a incompreensão do que cada uma dessas coisas de fato é para nós ou como funcionam.

Por tudo isso, entre pequenas e grandes coisas, nós estamos sempre traçando críticas sobre os padrões. Podemos, por exemplo, estabelecer que um determinado modelo de trabalho é nocivo e que gostaríamos que fosse diferente. A crítica sozinha é só um pensamento ou uma expressão dele, mas pra que algo mude, requer alguma ação. Você pode começar a transformar tudo o que não gosta no mundo, por meio do seu próprio exemplo. Seja vocẽ a mudança que gostaria de encontrar pelo caminho. Um bom caso, fácil de lembrar, foi quando Linus Torvald, um programador, decidiu fazer algo que julgasse melhor do que o que havia de estabelecido em sistemas operacionais. Foi assim que nasceu o Linux, um kernel (uma espécie do miolo de um sistema operacional) que hoje é tão aplaudido pela qualidade e pelo viés open-source e gratuito do projeto, que é a opção da um imenso número de empresas e usuários domésticos pelo mundo todo. Ainda que empresas grandes como Microsoft, Apple, Google e outras, tenham alcançado um enorme mercado nessas temáticas, Linus Torvald agiu e criou aquilo que achava necessário ser criado. O importante não é o tamanho do seu sonho e nem o retorno massivo do seu projeto. Importa mais é que você esteja satisfeito em ter transformado uma face da realidade em algo melhor que atendesse aos seus padrões, às suas expectativas e necessidades.

Em qualquer setor da vida, devemos ter igual iniciativa, transformando o modo como fazemos arte, reestabelecendo o significado da arte, colocando nossos textos e opiniões à frente e ao lado de outros para gerar contraste e renovação, ter uma estratégia inovadora para lidar com nossas amizades, nosso círculo de trabalho, as redes sociais. Temos que conseguir olhar pra um livro mal escrito ou incompleto e conseguir propor uma versão, o seu acréscimo ou supressão. Transforme as coisas e estabeleça o seu nível de qualidade. É importante não se contentar fácil com uma comida sem sabor e ir atrás de temperá-la ou criar seu próprio prato. Quando ocupamos uma casa, personalizamos ela ao nosso gosto. É isso que faz dela o nosso lar. Nascemos nus e desajeitados, crescemos cercados de pessoas nos dizendo como ser, o que acreditar, o que vestir ou comer. E com o tempo, vamos criando pequenos atritos e insatisfações, à medida em que ganhamos identidade, autonomia e percepção sobre nós mesmos. Passamos a querer nossas próprias coisas, do nosso próprio jeito, para nossa própria satisfação.

Nosso corpo, nossas roupas, nossa casa, nossos espaços simbólicos na internet, nossas artes, nossas falas, nossos pensamentos, nossas análises e estudos sobre o mundo, nossas viagens, nossas amizades e tudo que se conecta, de alguma forma, em qualquer grau, conosco, está alí pra ser visto, filtrado e transformado ou recriado. Quando você chega por aqui e se depara com um texto, você não é obrigado a concordar com nada e é, inclusive, incentivado a fazer tua própria interpretação e a ser também um escritor. Seja autor da sua vida, seja o protagonista de sua história, sua mensagem, sua realidade. Crie o seu mundo e apresente seu mundo ao outros. Viver só faz sentido se você acredita muito naquilo que você é e faz. Do contrário, o mundo lhe parecerá um fardo, pois estará sempre tendo que se sujeitar ao que é alheio e não te agrada. O mundo se torna melhor, quando você experimenta ele da sua própria maneira. E pode ser que a sua maneira seja algo interessante pra mais gente também.

Se você pode, comece hoje a dançar, a cantar, a desenhar, a escrever, a caminhar, a aprender algo novo, a ensinar algo para o mundo. Converse da tua própria maneira, com as tuas manias, tuas gírias, teu tom de humor, teus temas preferidos ou até mesmo o silêncio, caso lhe agrade. O padrão de qualidade das coisas, não precisa ser algo que você espera sentado e torce pra dar certo. Você precisa, antes de tudo, torcer pra você mesmo dar certo. Os outros estão fazendo as coisas ao modo deles (ou talvez não) e você não precisa embarcar no modo de ninguém, se isso não contempla suas exigências. Eu, por exemplo, quando me cansei de ver a inundação de conteúdos que eu não acreditava nem valorizava, fui atrás de ser eu mesmo um criador de conteúdo. E quando fazemos isso em sinceridade, pode ter certeza que vai prosperar. As mensagens se espalham, porque elas tocam alguém em algo sutil, mas muito poderoso, que é a conexão interior com uma verdade, com um sentido, com algo subjetivo, com algo inconsciente. O valor de uma pintura, por exemplo, não está necessariamente na qualidade técnica, mas sim em coisas como o traço, a mensagem, o estilo, o seu jeito transparecendo numa série de obras, etc. Isso cativa pessoas por algo que é quase invisível ou pouco compreensível, mas acontece e é poderoso o suficiente pra agradar, pra envolver, pra motivar, pra gerar aceitação. É isso que faz algo ser novo e forte.

Desligue-se dos medos, da inação, da repetição, do ‘mais do mesmo’, das fraquezas, dos complexos, das inseguranças, dos vícios, das manias prejudiciais pra sua vida e comece a ser verbo. Comece a fazer as coisas, a ser, aprender, sentir, criar, ver, entender, transformar. Enfim, viva a sua vida. Você é um indivíduo e o seu modo de fazer as coisas é e sempre será único. Há espaço para infinita diversidade no Universo. As pessoas podem aplaudir e apoiar coisas diferentes simultaneamente, sem que nenhuma delas perca o valor que tem. O valor das coisas está embutido nelas pelo que elas são e não por nenhum tipo de comparação ou competição. Satisfaça-se, porque tua satisfação renova o sentido da sua vida, tira o peso e pode ser inspiração pra outras pessoas.

Rodrigo Meyer – Author

Sobre cercar-se de gente produtiva.

De forma simplista, a ideia de cercar-se de gente produtiva já parece interessante, afinal quando pensamos em pessoas produtivas, imaginamos algo positivo, mesmo sem nos atentarmos aos detalhes do que está sendo classificado como ‘produtivo’ nestas hipotéticas pessoas. Todo mundo, a princípio, acharia vantajoso estar cercado de tal gente. Contudo, na prática, isso pouco ocorre e, na verdade, muita gente descobre que não tem real apreço por gente produtiva. Faz-se necessário, então, explicar um pouco sobre as vantagens que este tipo de pessoa traz e, a partir disso, quais as vantagens que absorvemos por nos rodearmos delas, além de, claro, tornar esse processo espontâneo.

Pessoas produtivas são aquelas que estão sempre envolvidas em alguma criação, trabalho, ideia ou iniciativa. São as pessoas que estão sempre colocando pensamentos em prática, transformando sonhos e vontades em algo concreto. Estou falando, por exemplo, da pessoa que converte um sonho em uma série de desenhos, que observa o mundo e escreve sobre ele, que coleta material reciclável e converte em produtos reutilizáveis, que organiza ações de ajuda social, que conserta objetos quebrados, que restaura uma informação útil que estava perdida, que intervém em uma briga pra defender ou apoiar uma vítima, etc. Aqui são alguns pouquíssimos exemplos de gente produtiva no mundo. Mas, nem de longe isso resume a totalidade e diversidade do que são as pessoas produtivas. Existe algo de muito especial nestas pessoas e isso a gente só nota quando começa a identificar muitas delas e a perceber o que elas possuem em comum.

Enquanto alguns evitam o contato com pessoas produtivas, eu fixo meus olhos brilhantes sobre elas e agradeço pela oportunidade de conhecê-las. Fico feliz em saber o que cada pessoa faz, não apenas na profissão e estudos, mas, principalmente, nos hobbies, porque é o que a pessoa, aparentemente, ama fazer e de onde se pode, provavelmente, extrair oportunidades interessantes para atividades conjuntas a curto ou médio prazo. É fácil imaginar, por exemplo, que uma pessoa que compõem música, tenha maiores chances de se interessar por alguma proposta sua que envolva edição de som, restauração de instrumentos musicais ou mesmo de participar de um blog ou livro sobre arte. Por outro lado, se esta mesma pessoa fosse pouco produtiva, seria indício de que ela não está verdadeiramente engajada nessa atividade, seja por falta de tempo, de estrutura ou de paixão suficiente. Por isso, é importante diferenciar quem apenas está conectado à um assunto e quem realmente é produtivo nesse meio. Em uma analogia, uma coisa é o usuário comum de computador e outra, bem diferente, é o entusiasta de antiguidades da informática que vai tão fundo nisso que chega a restaurar os equipamentos para utilizá-los novamente, mesmo que tenha que aprender a soldar placas de circuito e a restaurar a cor envelhecida do plástico, sem desanimar se precisar reaprender comandos de um software estranho.

Mas, algo que sempre se vê em comum em pessoas produtivas é que elas nunca estão engajadas apenas em um tipo de atividade ou assunto. Como se estivessem eternamente curiosas e inquietas, se desdobram em tantas outras faces pra aprender segundas, terceiras e quartas profissões, outros idiomas, outros talentos, etc. São as pessoas que estão sempre à um passo de uma nova viagem, de um novo curso, de um novo livro, de uma nova conversa, outra amizade, outra cidade, outro modo de ver a vida. Essas pessoas estão sempre caminhando pra inúmeras direções, mas, sobretudo, estão consolidando cada uma dessas atividades. São pessoas, geralmente, de muito talento e esforço. Se dedicam muito em estudar e dominar um assunto com excelência suficiente pra serem admiradas. E é aí que entram as trocas. Pessoas assim, possuem a grata oportunidade de converter suas vantagens em mais vantagens. Quando você une dois entusiastas da Música, por exemplo, de repente tem-se uma banda por surgir. Ou, ainda, quando você é um talento na Fotografia e conhece um bom ator ou modelo que também aprecia Fotografia, você tem ali o caminho facilitado para falar disso, propor projetos fotográficos e ideias onde ambos possam fazer algo novo disso tudo, porém juntos.

Parcerias, como se pode ver, são frutíferas quando as pessoas possuem alguma afinidade. E pra que aumentem as chances de encontrar afinidades com alguém, nada melhor do que ter muitas áreas de interesse e estar em contato com pessoas que também possuem interesses diversos. Em um jogo invisível de tentativa e erro, vamos conhecendo pessoas, seus planos, seus sonhos, sua personalidade, suas manias, seus gostos, suas invenções e, quando menos se espera, estamos atuando junto em busca de satisfazer nossa curiosidade, completando incertezas, deixando questionamentos ou até mesmo apontando uma solução. É muito mais provável que estas interações resultem em um novo projeto, trabalho, produto ou até mesmo em um novo hobbie muito mais incrementado ou divertido. Por vezes, é a brecha que faltava pra que alguém elevasse o nível de uma prática que já fazia sozinho.

Com esse networking especial você está facilitando sua vida em todos os setores, sem saber em qual deles vai ter mais sucesso inicialmente, mas certamente será alguém mais satisfeito com a vida, porque terá preenchido seu tempo e sua mente com coisas e pessoas que realmente lhe instigam a ser e fazer mais. E mesmo que sua produtividade não cresça atrelada à uma parceria com estas outras pessoas, ainda sim será graças à elas que você terá desenvolvido seu caminho isolado.

Muito do que eu aprimorei em informática, por exemplo, se deu pela interação com pessoas que tinham afinidades comigo em outras áreas em comum. A troca de experiências possibilitou que ambos dessem o melhor de si em algo e recebessem o esforço do outro igualmente. É o milagre da multiplicação. Somar é fácil, mas multiplicar é arte. Ao longo da vida, estive em contato com muita gente, ficando particularmente encantado quando notava que a pessoa tinha disposição mental pra permear mundos diferentes, assuntos desconexos entre si e manter clareza em tudo que se propunha a investigar, estudar, compartilhar ou praticar. Isso me faz pensar que, em última análise, o sucesso dessas pessoas está atrelado a um enorme esforço que só é possível pelo imenso prazer que elas possuem em dedicar muitas horas em algo. E não seria exatamente essa paixão que faz delas pessoas produtivas em suas áreas de interesse? Penso que sim.

Pessoas comuns, torcem pro dia acabar logo, mas pessoas produtivas, não estão sequer olhando pro relógio. Conta-se que Albert Einstein, frequentemente, se trancava no quarto por dias, isolando-se de tudo e todos, até que pudesse sair dali com a resposta que precisava. Seu networking se deu, indiretamente, pelo contato com invenções que via e estudava durante seu trabalho no órgão de registros e patentes. Algo similar ocorria com Nikola Tesla que se motivava a descobrir novas possibilidades com a eletricidade, devido a discordância no trabalho de outros inventores e empreendedores. Não tão diferente, em tempos mais modernos, ocorreu o mesmo com os criadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, o criador da Microsoft, Bill Gates, e o criador do Linux, Linus Torvalds. E de maneira bem clara, vemos que eles concretizaram suas ideias pelo apoio de pessoas que estavam profundamente relacionadas com seus hobbies e trabalhos tão incomuns.

Talvez você nãos visualize de imediato ou tão facilmente as conexões possíveis entre as coisas que você faz ou gosta com as oportunidades que isso pode lhe render junto à outras pessoas. Mesmo assim, as oportunidades estão potencialmente presentes. Você precisa simplesmente dedicar tempo em viver um contexto diverso, desde que toda essa diversidade faça sentido pra você e seja espontânea. É muito possível que o estudo de idiomas, por exemplo, lhe renda contato com pessoas que já viajaram ou que gostariam de viajar. E quantas outras conexões se formariam, se o sonho de viagem de algumas dessas pessoas fosse pelo apreço em História, por exemplo? Quanto mais diverso é um indivíduo, mais caminhos lhe surgem. Quanto mais caminhos são absorvidos, mais produtivo o indivíduo se torna. Por fim, quanto mais produtivo, mais chances tem na troca com outros indivíduos produtivos e diversos. Sucesso garantido, pra uma vida que pode até não render dinheiro, mas provavelmente vai lhe manter vivo no melhor sentido do termo.

Dito tudo isso, cabe à você descobrir seus potenciais, seus campos de interesse e definir suas estratégias, por assim dizer, de como se relacionar ou permear o mundo das pessoas e assuntos que lhe parecem úteis. Mas, acima de tudo, esteja lá por verdadeiro gosto no que faz ou pensa, porque os insights e as oportunidades serão sempre frutos ocasionais e quase aleatórios de sua própria dedicação incansável e do seu mergulho despretensioso que lhe reverte suficiente prazer.

Rodrigo Meyer

Crônica | Pitada de esperança.

Um tom desbotado começava a tomar conta do clima da casa. Do lado de fora, a sensação de que alí já não tinha vida. Do lado de dentro, um vazio igual ou pior. O cansaço não permitia pensar de maneira organizada sobre o que fazer com aquilo. Por sorte, o minimalismo ajudou a reduzir as opções. A cada dia que passa, a casa torna-se, cada vez mais, apenas paredes. Quando completamente vazia, será motivo de festa. Talvez eu possa comemorar, talvez eu não esteja mais por aqui. Enquanto o futuro não chega em definitivo pra me dizer, eu sigo acordando e dormindo, sentindo o cheiro de tempero na comida da vizinha. Me parece alguém que gosta de cozinhar. Às vezes dá vontade de me auto-convidar para um momento desses, especialmente nos dias em que está mais frio. Nas outras casas do bairro, tudo parece tão enfadonho e monótono que chego a pensar que por lá nem comida se faz. Quando eu me mudar, quero voltar a cozinhar. Algo tão simples e com um significado tão importante.

Rodrigo Meyer

Quem parou de rir, parou de ir.

Quem já foi afetado pela doença da depressão ou conhece alguém que esteve ou está em similar situação, sabe como isso interfere drasticamente nos progressos gerais desse indivíduo. Pessoas com imenso potencial acabam subaproveitadas quando a depressão lhes toca, afinal ninguém consegue se engajar tanto nas atividades, se não sente prazer pela vida. Em situações mais brandas que a depressão (embora até ela tenha nuances), as pessoas podem estar com distimia, que é um transtorno depressivo com sintomas menos severos que a depressão em si, porém mais duradouro. De qualquer forma, seja lá qual for o momento, intensidade e duração com que deixamos de rir sinceramente na vida, estamos parando de caminhar.

Quando uma pessoa tem depressão por muitos anos, pode acabar criando uma imagem mental de si mesma completamente distorcida, por associar o histórico de vida com sua personalidade ou realidade nata. Entender a diferença entre o estado depressivo e o modo “normal” de ser, é uma tarefa difícil, principalmente se você praticamente não teve bons momentos desde a infância. A ausência de parâmetros de felicidade por longos períodos pode interferir na compreensão desse estado ou realidade, em termos de comparação com o estado depressivo. Embora as pessoas saibam que estão tristes, desmotivadas e sendo sugadas pela própria depressão, a felicidade e o prazer parecem coisas impossíveis de se conseguir ou até mesmo abstratas demais pra serem concebidas. Mas é importante lembrar que essa percepção de pouca ou nenhuma esperança é tão somente uma distorção gerada pela própria depressão. Indivíduos deprimidos, possuem uma alteração cerebral sobre o sistema químico, bloqueando ou não aproveitando as químicas que estão direta e naturalmente relacionadas a sensação de prazer. A grosso modo, seria como dizer que o sujeito está imune a felicidade, independente das coisas que acontecem ao redor.

Mas, esse não é um texto apenas sobre depressão. É muito mais abrangente que isso. A grande realidade que precisamos ver aqui é que, por qualquer que seja o motivo, se tivermos um modelo de vida e pensamento que nos priva do riso, estamos ativando outros fracassos na vida. Dizem que sorrir abre portas e que rir é uma das conexões mais intensas que o ser humano consegue traçar socialmente. Temos esse hábito social em comum com os macacos e alguns estudos mostram que algumas outras espécies de animais fazem proveito consciente de certas substâncias, para fins recreativos, assim que entendem a relação entre prazer e consumo. É também visto em algumas espécies, algo que, antes, achava-se ser algo exclusivo dos humanos: a realização do sexo por prazer e não só por instinto de reprodução.

De forma geral, pra todos os seres, sentir prazer pela vida é basicamente a mesma coisa que aproveitar o potencial de si mesmos e da própria vida, seja lá o que ela seja. Uma vez que não sabemos ao certo o que fazemos e quais propósitos realmente temos nessa existência misteriosa, tudo que temos de garantia são nossos sentidos e percepções da realidade. Nossa presença social e também como indivíduos cobra de nós que estejamos mais do que em harmonia, cobra de nós que estejamos felizes o suficiente pra fazer valer os momentos vividos. Embora muita gente tenha tido uma vida longeva em estados menos entusiasmados, é fato que, na média, a tendência é que as pessoas com pouco prazer pela vida levem um estilo de vida mais destrutivo, menos saudável, com diversas somatizações. Quando a mente não vai bem, muito disso se transforma em implicações no corpo físico. Especula-se, por exemplo, que doenças como o câncer estão intimamente relacionadas com outros quadros e experiências, entre eles, as emoções contidas. Pessoas que estão amarguradas ou insatisfeitas por muito tempo, podem acabar somatizando esses e outros dramas em um câncer, devido ao desequilíbrio do sistema imunológico.

O lado bom da vida se expressa pelas coisas que nos dá diversão, felicidade, prazer e motivação em continuar a ser e fazer, especialmente quando permite que outros indivíduos ao redor experimentem esse contexto, tal como se todos estivessem compartilhando de uma mesma festa. Pessoas felizes constroem sociedades com grande interesse de preservar e fomentar felicidade. Através da empatia podemos dividir com outras pessoas as alegrias e dramas. As emoções humanas são possíveis de serem compreendidas e replicadas, em certo sentido, para que outra pessoa sinta aquilo. Essa conexão que temos configura um padrão natural e sadio, pois isso promove o bem-estar nas relações humanas e deixa as portas abertas para que os indivíduos possam exercer suas vidas com satisfação, liberdade e desejo em viver mais. Quando essa conexão não existe ou é altamente corrompida, as pessoas começam a não se importar umas com as outras, gerando um ambiente de desprezo, infelicidade, ódio, violência e pouco ou nenhum respeito e/ou valorização pelas demais pessoas.

Um padrão de vida que externaliza hábitos nocivos pra si e pros outros, invariavelmente, reforça um desequilíbrio que nasceu internamente no indivíduo, devido a inúmeras possíveis origens, inclusive, diversas delas, externas. Sociedades que oprimem, por exemplo, plantam a própria ruína, uma vez que geram pessoas insatisfeitas, infelizes e reativas a opressão. A receita garantida de aumentar problemas, ao invés de solucionar. A ausência do riso ou da felicidade, está intimamente ligada ao fracasso das expressões humanas, afinal realizamos tudo em dependência da motivação da própria vida. Precisamos ver sentido ou ter imenso prazer, ou perdemos a disposição ou interesse de desenvolver ou participar de algo. É assim que a vida deixa de ser uma opção interessante quando somos afetados pela depressão e, exatamente por isso, muitos depressivos podem vir a se tornar suicidas.

Embora pareça óbvio, ainda estamos em tempos em que obviedades precisam ser ditas. Então fica a mensagem de que ser feliz e estar em paz é melhor do que estar infeliz e incomodado. Mesmo que as pessoas digam que querem uma boa vida pra elas mesmas, elas se esquecem de que em nenhum momento conseguirão isso através da violência, da corrupção, da guerra, da opressão, do preconceito, da desconfiança, da perda de qualidade, da má educação e da valorização de arquétipos destrutivos. Enquanto as pessoas estiverem enaltecendo pessoas, instituições ou ideias que reduzem o ser humano em seu potencial de felicidade e bem-estar geral, estarão freando a própria sociedade e a si mesmas, impedindo que desfrutem de um ambiente favorável. O nome disso é “atirar no próprio pé e se queixar da dor.”.

Aquele que não é capaz de entender que é parte inseparável da equação, não conseguirá perceber que seu estado doentio é parte do que bloqueia e impede a sociedade de ser plena e satisfatória. Assim como o desequilíbrio nas químicas afeta o cérebro do deprimido, indivíduos desequilibrados em certos aspectos sociais afetam a sociedade. Partes adoentadas ou danificadas não cumprem a mesma função em uma máquina, seja ela um cérebro, um motor ou uma sociedade. Se não estamos rindo e expressando prazer, estamos sofrendo e estagnando, tanto individualmente quando coletivamente.

O próprio sentido de família e amizade, embora abstratos, explica como e porquê o ser humano depende de bons momentos pra conseguir existir coletivamente e ver sentido em si mesmo como peça dessa engrenagem maior. No fundo, tudo o que o ser humano são deseja é estar bem e compartilhar o bem. Qualquer desvio dessa premissa, confere, por vários motivos, patologias psicológicas ou psiquiátricas que devem ser devidamente cuidadas para não transbordar impactos e prejuízos aos demais indivíduos. Em teoria, as sociedades já fazem esse controle, ao estabelecer vigília, tratamento ou detenção a sociopatas ou a indivíduos que, de alguma forma, estão inaptos a viver em sociedade. Porém, bem longe do ideal, a realidade prática é que, ao invés das pessoas inadequadas e perigosas estarem controladas, elas figuram entre os cargos de maior relevância e impacto na sociedade. Não deveria ser surpresa nenhuma de que há uma lista interminável de criminosos de todo tipo, na política, na polícia, no comando de corporações, em pseudo instituições religiosas, etc. E é exatamente por estarem livres pra agir, que deixam esse legado tóxico ao mundo, em tudo e todos que tocam. Não é, portanto, exagero classificar esse tipo de membro da sociedade como um câncer que afeta as células sadias e destrói a saúde geral do organismo ou sociedade.

Sempre ouvimos a expressão “rir é o melhor remédio.” e de fato é. Se pudéssemos escolher clicar em um botão e mudarmos automaticamente para um padrão de felicidade, certamente faríamos. Ninguém gosta de sofrer. E se ninguém é feliz sofrendo, isso inclui não só o próprio indivíduo, como todos os demais. Ser racional e fazer uso da lógica a favor do próprio bem-estar emocional, físico e social é lutar extensamente para que nosso ambiente ao redor seja melhor, mais feliz, mais livre, com mais riso e menos dor. Trabalhos conscientes nesse sentido, incluem desde cidadãos comuns que escolhem um jeito de viver e de se expressar mais positivo, até indivíduos que entram pra alguma causa ou ação social que visa amenizar o sofrimento e suscitar mudanças de ação e de pensamento. Iniciativas como os ‘Doutores da Alegria’, que visitam pacientes em hospitais, vestidos de médicos-palhaços, ajudam os enfermos a se reposicionarem diante da própria situação e terem mais disposição de enfrentar seus dilemas. Estar doente é um contexto duro de se experimentar e sob isolamento ou pouco prazer, pode tornar-se um fator crucial na piora do quadro clínico.

Outras ações, como as que ocorrem em algumas ONGs ou iniciativas avulsas de assistência social, podem ser gratificantes a quem tenha visão sobre a teia que somos, mas também pode impactar bastante, uma vez que plantar a ajuda quase sempre implica em absorver a dor alheia por conta da empatia e do convívio contínuo em ambientes e contextos de sofrimento, guerra, doença, abandono social, etc. São frequentes as notícias de depressão entre psicólogos, médicos, psiquiatras, professores e ativistas sociais. Muitas vezes a mudança é tão gradual ou camuflada pela própria atividade, que eles não se dão conta do desfecho drástico a que estão submetidos quando afetados emocionalmente e psicologicamente por aquele ambiente. Por razão similar, estudantes de Psicologia, por exemplo, precisam ter alta antes de serem liberados para exercer a profissão. Embora seja altamente necessário e sensato tal filtro, na prática isso é feito de forma simbólica, distribuindo no mercado uma multidão de profissionais sem uma verdadeira alta de seus quadros psicológicos, sendo um terrível risco a saúde psicológica dos pacientes e, portanto, da sociedade em si. Pelo simples motivo de que você não colocaria um estuprador para atender pacientes que foram vítimas de estupro, você não colocaria certos formandos para clinicarem na área da Psicologia.

Assim, todos os dilemas que temos em nossa sociedade são mero reflexo das conturbações de cenários menores, como os países e suas gestões, as cidades e suas realidades, as condições de um bairro, o círculo de amigos, o ambiente de trabalho, a composição familiar, os relacionamentos ditos “amorosos” e, por fim, o universo interno do próprio indivíduo. Não se pode analisar a felicidade do mundo, sem antes, pensar extensivamente na felicidade do próprio indivíduo. Sociedades que ignoram o problema das peças, jamais poderão manter a totalidade da máquina estável. Simples assim.

Apesar de estar escrevendo com certa frequência, o que pra mim é relativamente fácil e interessante, por vezes eu não me sinto disposto ou apto a fazer o necessário. Enfrentei depressão a vida inteira e ainda não me vi seguramente distante desse malefício a ponto de dizer que não voltará a ocorrer. Neste meio, diz-se que depressão é o tipo de coisa que uma vez que se tenha, nunca mais há garantias de que não poderá recair. Sou o claro exemplo de quem parou de ir, porque parou de rir. Sempre fui uma pessoa com bastante senso de humor, ironizando o mundo com piadas e comentários sarcásticos, mas, apesar disso, estive infeliz, arrastando a doença da depressão por todos esses longos anos.

Deixar de rir, no sentido de não estar feliz por padrão, me impediu de ter momentos além daquelas exceções onde ria estritamente em determinados casos, especialmente com ajuda de fugas e estilos de vida que me deixassem vagando pelo tempo. A infelicidade me impediu de socializar, de estudar, de trabalhar, de lutar pelos meus objetivos e potenciais. A infelicidade deixou marcas indeléveis no meu histórico e também na minha saúde. Ela me tomou tempo, levou meu dinheiro e cavou um buraco de insatisfação onde eu não encontro mais amparo. Talvez seja a depressão tocando a campainha novamente, talvez seja a minha análise realista de que um ambiente tóxico e cada vez pior não pode ser viável pra quem deseja boas coisas nessa vida. Fico em dúvida, pois sempre me lembro dessa frase de Freud que nunca me canso de repetir:

“Antes de se autodiagnosticar com depressão, verifique se não está apenas cercado de idiotas.”

Quem tenta inventar bem-estar onde não tem, colocando princípios ilusórios de valores ou ideologias, está tão somente aumentando a própria cova. Sociedades que visam controlar aspectos superficiais, ignorando a origem dos problemas, estão apenas enxugando gelo. Se as pessoas realmente quisessem se ver livres e felizes, fariam exatamente o oposto do que está sendo feito coletivamente na maioria dos lugares. Ideologias que se preocupam em apagar incêndios locais com gasolina, sempre terão que lidar com incêndios e incêndios cada vez maiores. A estupidez e o egoísmo nunca foram soluções pra coisa alguma. Discordar disso é ser a prova disso. Premissas básicas de pensamento e relações precisam, necessariamente, incluir felicidade e liberdade sinceras. A felicidade falsa, expressa sem sinceridade pode ser muito mais tóxica que a tristeza sincera. Em depressão, por exemplo, eu continuo fazendo o melhor possível por mim e pelos outros. Mas uma pessoa em expressão insincera da felicidade, só está enganando a si mesma e iludindo milhões de outras pessoas de que a vida consiste nessa busca rasa, inútil, superficial e doentia de coisas que, na verdade, não deixam ninguém feliz de fato.

Se alguém parece satisfeito demais em um contexto inóspito, pode estar com Síndrome de Estocolmo, onde nega o sofrimento ou opressão experimentados, em defesa de seu próprio opressor. A opção menos provável é de estar em paz, apesar do caos percebido ao redor, o que, com plena certeza, é o caso de raríssimas pessoas e, portanto, não é algo que deva ser exigido por padrão. Não cobre das pessoas que elas estejam sempre de bom-humor, entusiasmadas, dispostas a trabalhar e lutar pelos objetivos e potenciais pessoais, enquanto elas estão enfrentando uma batalha inominável de sobrevivência a própria dor, a dor do mundo e a desnecessidade de tudo isso. Sempre que alguém tenta justificar os insucessos de uma pessoa deprimida, a colocando como culpada, eu, como deprimido, me sinto, ao menos, motivado em não ser tão cego e ignorante a ponto de achar que a vida de um indivíduo e sua bela e rosa exceção, tem qualquer relação com a realidade fora dessa bolha. Não tem, nunca terá e discordar não vai te fazer mais consistente nessa ausência de raciocínio e lógica.

Hoje eu simplesmente gostaria de rir, mas a tudo que olho, me parece insosso, desnecessário, sem graça, estúpido e doentio. Tal como alerta Freud, sinto como se estivesse cercado de idiotas e, portanto, com ou sem depressão não me veria em um contexto favorável. Existir nessa realidade intragável me obriga a repetir: melhorem!

As pessoas devem tentar ser o tipo de pessoa que elas gostariam de conhecer. Foi exatamente isso que eu fiz a minha vida inteira, exceto pela depressão que é algo ao qual não escolhemos e pouco ou nada controlamos. Se não puder sorrir para o mundo, tente pelo menos ser útil e sincero, sempre pautar suas ideias e ações em princípios de lógica e bem-estar coletivo, senão acabará infeliz do mesmo jeito e ainda será a razão principal da infelicidade dos demais. Acorde ou será acordado, pois bolhas estouradas não voltam a se regenerar. Aprenda a conviver com a realidade fora da bolha e perceberá que a solução interna é também a solução coletiva.

Rodrigo Meyer

[+18] Sexo entre amigos?

Por algum motivo essa é uma dúvida que ainda pulsa na mente de muita gente. Essa insegurança sobre ser viável ou não misturar amizade e sexo é das coisas mais tragicômicas que conheço. Se há alguém com quem você pode compartilhar sexo, certamente essa pessoa é um amigo(a). Não significa, claro, que você só possa fazer sexo se o parceiro(a) for um amigo(a), mas é evidente que problema não terá. Quando alguém me diz que não namoraria ou não ficaria com determinada pessoa por considerá-la um amigo, eu rebato de volta perguntando se ele namoraria com um inimigo, então. A pessoa se desarma na hora e fica sem ter o que responder, afinal é óbvio que se temos atração por alguém e temos uma amizade com tal pessoa, ela é uma pessoa bacana e viável o suficiente pra se dividir sexo, justamente porque não há dissabores ou barreiras emocionais que transformam aquela pessoa no oposto de uma opção viável ou desejável.

Apesar disso soar óbvio, muita gente tem esse tabu ou receio bobo de que amigos não servem pra se relacionar além da amizade. E não passa de um tabu mesmo, que aliás, felizmente, grande parte da sociedade não endossa. Algumas pessoas ainda figuram entre as exceções, talvez por algum trauma, insegurança, complexo, medo ou por puro preconceito constituído na sua formação como pessoa. Mas, uma vez que se alinham com uma visão saudável, isso tende a sumir. Doentio mesmo é manter-se em vigília intensa para nunca se envolver com pessoas que você realmente dedica bons momentos, reciprocidade e que, eventualmente, pode vir a sentirem-se atraídos sexualmente ou, pelo menos, romanticamente. Seja lá qual for o contexto adicional que você veja de interessante, não há nada de incomum ou anormal em desejar partilhar disso junto com a amizade preexistente, bastando que o desenrolar dessa ideia inicial passe pelo menos pelo consenso de todas as partes envolvidas.

As chamadas ‘amizades coloridas’, onde amigos se permitem a relacionamentos sexuais em paralelo a amizade, não são nenhuma novidade. Eu estranho que em 2018, apesar de tanto tempo percorrido, ainda hajam pessoas com tanta privação de liberdade, por vezes acorrentando-se voluntariamente e negando uma realidade mais plena, apenas por inventarem regras que nem mesmo a sociedade possui. Conheço casos isolados que me fizeram bocejar de tão desnecessariamente maçantes. O único lado positivo dessa história é que, provavelmente, essas pessoas não serão frequentes em nossa realidade.

Outra coisa que precisa ser dita e que está bastante atrelada ao tema original é que, amizades sinceras também podem existir entre quaisquer pessoas, independente se é um homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem, ou seja lá qual for a combinação de gênero e atração sexual que normalmente cada indivíduo expressa. Um homem hétero, por exemplo, em termos de atração sexual, está direcionado para mulheres e isso nada impede que este homem e as mulheres a quem ele convive não possam desenvolver uma amizade. É evidente que vejo um discurso contrário a essa realidade, afinal a sociedade ainda é marcada por preconceitos e generalizações. Sei que muita gente diz de maneira convicta de que amizade entre ‘homem e mulher’, por exemplo, não existe, em razão do potencial interesse sexual que estará “inerente” a estes. As pessoas que dizem isso, falam por si mesmas apenas e, se elas não possuem capacidade de gerir amizades reais, por conta desse fator, isso só aponta uma condição exclusiva delas e não de uma sociedade inteira. O mundo, felizmente, não gira em torno de um determinado indivíduo.

O que talvez ocorra é que, por ser completamente natural que haja a possibilidade de atração sexual e/ou sexo entre amigos, quando isso ocorre, parece ser a comprovação, para alguns, de que esse é o inevitável desfecho para amigos naquelas configurações de par. Mas, como dois equívocos não fazem uma verdade, voltamos a destacar que isso não procede. É evidente que pode ocorrer de nos depararmos com pessoas que, de fato, só constroem amizades com outras pessoas tendo esse objetivo sexual e, em uma sociedade machista e fútil, isso pode até mesmo representar um número grande de indivíduos. Mas, mesmo que 99,99% da população de todo planeta tivesse essa conduta doentia, ainda sim, não seria 100% e não faria valer a ideia de que é uma condição nata entre a condição do problema e o desfecho proposto. Aliás, cada vez que alguém reafirma essa ideia preconceituosa de que não pode haver amizade sem que haja necessariamente segundas intenções sexuais em paralelo, está deixando um reforço nesse pensamento e modelo de sociedade, ampliando o número de pessoas que passa a viver sob essa ótica. Quem não se sente confortável com uma ideia que está em tendência na sociedade deve se engajar justamente na propagação das ideias que acredita e quer ver, para que seja exemplo pela palavra e pela prática. Simples assim.

É interessante pensar que se uma sociedade se fecha para estes aspectos completamente naturais dos relacionamentos humanos, não é de se espantar que, quando estão em um namoro ou casamento, frequentemente estão infelizes, convivendo com alguém que, ironicamente, não são amigos ou melhores amigos entre si. É tragicômico ver que as mesmas pessoas que criticam tanto essas misturas entre amigos e parceiros sexuais, passam para o namoro ou casamento com um ar de frustração por se aperceberem que aquele com quem estão dividindo um relacionamento sério, não construiu uma amizade paralela, afinal, estas duas coisas estiveram separadas desde o início, por decisão equivocada deles mesmos. O que pode ser mais desastroso do que esperar saborear um pão, mas não ter incluído na receita a massa. Percebe?

As pessoas assistem com brilho nos olhos os casais que perduraram felizes juntos por muitos anos, até o final da velhice, mas nunca param pra notar o que estaria por trás de alguns destes relacionamentos. Se não é a constituição de uma amizade sincera, não sei mais o que seria, afinal, depois de certa idade, atração sexual é que não será. Se só nos preparamos pra viver a faceta sexual de nosso ser, estamos fadados a um fracasso miserável na vida, a ponto de terminarmos sempre e toda vez, infelizes e insatisfeitos com o mundo, com nós mesmos e com qualquer outro que cruze o nosso caminho, afinal, a vida não é feita só de sexo. Um bom relacionamento é, sobretudo, uma troca de bons momentos, experiências e cuidados. É preciso ter muita sintonia, compaixão, amizade, interesse sincero e transparente pelo bem-estar do outro. Formar um bom relacionamento é construir um espaço  que não sufoca ninguém, mas cativa as partes envolvidas a quererem estar por ali para mais e mais. A vida pode ter muitos mistérios indecifráveis, mas alguns, claramente, são tão explícitos que chega a assustar ver que muita gente ainda não está conseguindo enxergar.

Consigo entender que muita gente esteja amargurada, traumatizada e sem esperanças pela vida, afinal, muitos indivíduos já tiveram experiências pouco frutíferas no campo das relações humanas. Porém, por isso mesmo, é importante estar sempre aberto aos erros cometidos, para não acabar fomentando um cenário que gera estes mesmos episódios mais e mais vezes, num círculo vicioso doentio. Uma sociedade que só replica desafeto, ansiedade, hipervalorização do sexo e subvalorização do afeto e da amizade, certamente está atirando no próprio pé e não está se dando conta. Dessa maneira, vai sempre se incomodar com a dor do ferimento, negligenciando o fato de que foi ela mesma que se sabotou.

Relacionamentos amorosos devem ser exercidos por pessoas aptas, maduras, independentes, livres e seguras de si. Diante de algo tão importante, não se pode achar que a ansiedade do momento vá ser parâmetro útil pra definir como ou com quem se relacionar ou não. Embora não possamos ter muito controle sobre quem nos será uma paixão ou atração sexual, podemos, com toda certeza, escolher nossa conduta diante desses sentimentos. Se algo lhe foge ao controle, nesse sentido, busque ajuda profissional, pois não é saudável e nem faz parte da natureza humana estar sem controle de seus atos por conta desses impulsos citados. Há muita coisa que motiva o ser humano a idealizar ou até aspirar determinadas realidades, mas, se o contexto de um relacionamento não é recíproco ou não nos é conveniente para o bem-estar de uma das partes, é hora de simplesmente buscar outras opções viáveis. Não gaste tempo na sua vida procurando fazer caber o que não cabe. Forçar uma ilusão a se adequar a realidade é o mesmo que plantar o conflito, enquanto poderia estar dedicando tempo e energia pra algo que realmente tem potencial de se concretizar e lhe trazer bons momentos. Pense nisso, faça boas escolhas e, assim, terá melhores chances de ser alguém feliz.

Rodrigo Meyer

O que nos faz escrever errado?

De forma bem resumida, a geração de pessoas que cometem erros de grafia e gramática, está intimamente relacionada com o que cada uma dessas pessoas absorveu de instrução em leitura e escrita anteriormente. Isso significa que, o excesso de erros reflete o pouco contato com a escrita correta, tanto pela própria quando pela leitura de outros autores. E se a pessoa tem lido outros autores e mesmo assim ainda está recheada de erros, é porque está lendo autores que também expressam erros de escrita. E vale dizer que se estes autores estão errando na escrita, eles também leem pouco ou nada e, portanto, podem não ser a melhor opção de autor pra se ler, não só pelos erros em si, mas pelo pouco embasamento que eles possam ter em razão do pouco contato com os livros.

Por padrão, editoras, em teoria, fazem a revisão de todo material que elas editam antes de levar para impressão. É por meio desse filtro profissional que tenta-se garantir a ausência de erros nas obras finais. Claro que, vez ou outra, ainda escapam alguns erros dos olhos dos próprios revisores, mas é fácil identificar quando um erro é um deslize isolado e não um desconhecimento do idioma por parte dos envolvidos. É visível, por exemplo quando várias vezes uma determinada palavra é escrita de forma correta, mas em algum momento do livro, surge uma letra trocada ou algum erro em exceção aos demais usos dessa mesma palavra.

Fora dos livros revisados, dos espaços mais profissionais de jornalismo ou ambientes similares de criação, especialmente na internet, onde tudo é acessível de forma praticamente gratuita e instantânea, é comum vermos um crescimento nesse problema com a escrita. Engana-se quem acha que isso está relacionado estritamente com diplomas, nível escolar ou social. Na verdade tem apenas a ver com o quanto a pessoa está envolvida com o hábito da leitura de autores que escrevem corretamente. Há muitas pessoas que mesmo tendo formação universitária, por exemplo, não possuem o hábito de ler, apesar da suposta necessidade de se absorver conteúdos durante essa fase de estudos.

São recorrentes os erros entre todas os grupos de pessoas, afinal a ausência de leitura é algo que abrange a maior parte da sociedade brasileira. Segundo uma das notícias que vi, apontava-se que 73% dos brasileiros nada liam. Você pode achar esse número exagerado, diante de um cenário onde livrarias são grandes espaços em shoppings que apresentam uma diversidade tão grande de editoras e autores. Embora haja essa realidade, é fato que o preço absurdo dos livros reflete exatamente essa pouca demanda pela leitura. Além disso, muita gente tem o péssimo hábito de colecionar livros aos quais jamais lê. Uma fila interminável de livros guardados por status e estética, configuram lindas estantes cheias de conteúdos que nunca entraram pra dentro das cabeças de quem os comprou.

Agora, entende-se que, de forma geral, não somos um país que lê e, por isso, é compreensível que muitos de nós sejamos propagadores de erros. Ainda que sejamos retificados sobre erros grosseiros durante nossa alfabetização e formação escolar, com nossas aulas de redação, literatura ou Língua Portuguesa, ainda ficamos distantes do ideal, porque não somos incentivados a nos tornar leitores de fato. Criamos um estigma de que os espaços de aprendizado ou os próprios livros, são algo chato e desnecessário. Diante dessa sensação, fica difícil inserir pessoas para algo que, apesar dos benefícios, não é visto com bons olhos.

Escreveríamos melhor se gostássemos de ler. Gostaríamos de ler se lêssemos mais. Leríamos mais se a leitura nos fosse apresentada dentro de um sistema de cultura e de ensino onde isso não fosse uma imposição regrada. Também seria importante que os próprios professores e incentivadores da leitura aos alunos não fosse pessoas igualmente contaminadas pelo desprazer a que tentam evitar aos outros. A grande realidade é que somos cercados de pessoas que, mesmo em profissões que exigem extensa leitura, não leem. Somos uma sociedade onde é possível encontrar professores e diplomados com menos instrução e cultura que alguém que nunca pisou em um ambiente formal de ensino. Isso tudo ocorre porque, no final das contas, não é a simples participação de um ambiente escolar ou universitário que garante o que essa pessoa será ou fará. É evidente que um leitor ou estudioso autodidata progride mais do que um aluno de escola ou universidade que nada investe em seu próprio aprendizado.

Eu sou, desde que me conheço por gente, avesso aos ambientes convencionais de ensino. Sempre fui aquele que questionava e me opunha aos equívocos e atrasos encontrados pelo caminho, diante de professores pretensiosos. Não posso negar que, no meio de toda essa salada, conheci pessoas incríveis com uma mente muito privilegiada, mas certamente eram uma exceção. Algo esperado como comum (embora não seja normal), em um país como o nosso, onde vocação pra ensinar e qualidade de ensino não costumam fazer parte dessa classe de “profissionais” que, muitas vezes, estão nesses cargos estritamente por falta de opções melhores e por um salário que os livre da miséria. Que proliferem as benditas exceções e que esse segmento de trabalho seja ocupado tão somente por pessoas que amam aprender e ensinar, afinal, quem não gosta de aprender, não contagiará ninguém mais a gostar. Exemplo é tudo, especialmente pra essa finalidade.

No ambiente familiar e no círculo de amigos, ou mesmo nos grupos de interação pela internet, é importante haver alguma tendência ou clima pra que a leitura seja vista com olhos diferentes do que normalmente aconteceu desde sempre. A medida em que as pessoas repetem a leitura como um hábito de prazer, o cérebro interpreta essa atividade como algo memorável, ou seja, como algo que vale a pena guardar na memória. E se o cérebro memoriza boas leituras e escrita correta, será praticamente difícil contrariar o que foi absorvido. Eis o mistério resolvido de como aprendemos a escrever melhor e corretamente com a simples repetição da leitura. E vai uma dica adicional. Na ausência de livros, sinta-se a vontade pra ler seus próprios textos várias e várias vezes. Embora o conteúdo possa não surpreender mais, você estará memorizando o jeito certo da escrita das palavras e poderá fazer bom uso disso quando for escrever novos textos. Assim você mesmo cria um círculo vicioso positivo.

Outra dica simples e eficiente é adotar algumas poucas palavras novas e usá-las repetidamente em um curto espaço de tempo. Devido a novidade e a frequência exagerada, o cérebro marcará aquela palavra como importante, pois você a destacou pelo viés do objetivo. Ter um objetivo pequeno e fácil de cumprir se torna uma motivação para a conclusão confortável disso. Se repetir esse feito para novas palavras a cada vez, terá um acréscimo substancial no seu repertório de vocábulos. Em um efeito bola-de-neve, quanto mais diversidade de palavras e contextos você aprende, mais complexo se torna seus textos criados e, assim, você tende a buscar até mesmo assuntos novos que antes nem lhe eram concebíveis. Um dicionário, podendo ser até mesmo de um aplicativo de celular, do Google, do corretor ortográfico do editor de textos / navegador ou mesmo um impresso, te ajudará a descobrir que a única coisa chata é querer entender a vida e não ter ferramentas sequer pra esticar sua absorção da ideia de outras pessoas, outros autores, outros leitores. É por meio da escrita e da leitura que a gente consegue dar um passo a mais, nesse mundo onde não precisamos mais viajar meses de navio pra entrar em contato com uma informação , um pensamento, uma temática. Estamos em contato com todo tipo de material, inclusive inúmeros livros gratuitos disponibilizados pela internet, além de milhares de conteúdos de blogues e arquivos de PDF com todo tipo e formato de texto, em praticamente todos os idiomas.

Não há mais desculpas consistentes pra fugir do seu progresso na literatura. Muita gente se descobre apaixonado por ler, simplesmente começando a ler. A velha história da criança que não gostava de brócolis até se permitir comer e se tornar um eterno comedor de brócolis. Muito do que não gostamos é apenas um preconceito por algo que nos foi apresentado de forma errada e nos deixou uma marca desagradável ou pouco instigante. Precisamos redescobrir as coisas para redescobrir a nós mesmos. Quando o mundo disser que algo tão incrível e útil quanto a leitura é chato, tente descobrir porque dessa afirmação e se dê a chance de reverter esse equívoco, se colocando em um papel positivo e receptivo para livros, fanzines, blogues, rótulos de shampoo e bulas de remédio.

Rodrigo Meyer