A complexidade de tudo.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Quando refletimos sobre um assunto qualquer, a primeira impressão é, quase sempre, a mais equivocada possível. Para exemplificar isso, vou fazer uma analogia. Se um indivíduo leigo olha para o céu noturno, ele pode se aperceber da presença do nosso satélite natural, a Lua, e ter a impressão de que o que vê é suficiente. Ao erguer sua mão, aqui da Terra, a Lua parece, facilmente, caber na palma da sua mão. Mas, se esse indivíduo se aproximasse de fato da Lua, ele iria perceber, à medida em que avança, que ela se tornaria substancialmente maior, até o ponto em que, mesmo ainda sem pousar em sua superfície, já seria impossível mantê-la inteira em sua mão. Ele se daria conta de que existe uma relação entre aparência, tamanho real, distância e/ou localização do observador, que transforma, visualmente, o objeto observado conforme cada combinação desses fatores todos. Assim, ele entenderia que objetos enormes, quando vistos de muito longe, parecem pequenos. E que aquilo que parece não abriga o total da realidade de um objeto, cenário ou evento. Faz-se necessário uma aproximação daquilo que se pretende observar e entender, assim como comparações entre o que já se conhece, para traçar uma regra que realmente faça sentido. Em resumo, observar e entender a realidade exige um conhecimento mais profundo que vai além das aparências, das primeiras impressões, etc.

Citada essa analogia e as devidas conclusões, imaginemos isso pra outras áreas, como o entendimento de pessoas, sociedades, ideias, ideologias, conjunturas políticas, econômicas, questões de saúde, relações culturais, a psicologia por trás de cada pessoa ou evento e tudo o mais que quisermos entender de verdade e não apenas nos aplaudirmos pelas nossas primeiras impressões, deduções rasas, equívocos e preconceitos.

O Brasil é um país em que, segundo os dados estatísticos apresentados na última notícia que li há um ou dois anos atrás, tinha cerca de 73% da população figurando na condição de não leitores. Pra piorar essa situação, o desgoverno atual, em 2020, está propondo a taxação adicional de livros. Ou seja, um país que já tem uma bruta crise econômica, com a maior parte da população vivenciando a pobreza e outros tantos retornando para linha abaixo da pobreza (a miséria), agora completa seu plano de devastação, barrando o acesso aos livros que sempre foram caros no Brasil, tornando-os ainda mais inacessíveis. Uma maneira eficiente de cortar o acesso da população à informação e cultura, na tentativa de remover o senso crítico. Os efeitos disso em médio e longo prazo, permitem uma destruição tal do intelecto da população, que, facilitaria e muito a disseminação de fake news (notícias falsas) ainda piores e de um empobrecimento do debate das questões sociais e pessoais, simplesmente cortando o raro acesso à qualquer área de assunto.

Nos últimos 5 ou 10 anos, o Brasil teve diversas livrarias fechadas, simplesmente porque não se sustentaram mais pela pouca demanda. Muitos autores, literalmente, passam fome com aquilo que recebem de direitos autorais ou de suas tentativas de monetizar suas carreiras em quaisquer outras plataformas. Já não haviam muitos leitores por conta da precarização da Educação e da sociedade em geral e pelos preços elevados dos livros que, muitas das vezes, tem tais valores justamente pra compensar a escassez de consumidores e tentar manter o lucro. Porém o efeito disso é o inverso. Quanto mais caro é o livro, mais inacessível ele se torna para a maioria das pessoas e, portanto, menos interesse essas pessoas terão em se aproximar desse universo. Por mais que você instigue nas pessoas o interesse pela leitura, se ela não puder comprar os livros, ela acaba se afastando desse meio.

Na minha infância, eu não tive condições financeiras de investir em livros e o pouco contato que tive foram com livros antigos que meus pais mantinham em casa, sem nunca adicionar itens novos. Os livros que estavam disponíveis para serem lidos eram, geralmente, informações obsoletas, formatos que resumiam conhecimentos gerais mal compilados ou alguns romances que pareciam ter sido escritos em outro século. Aquele típico conteúdo que a maioria dos sebos recusaria de receber mesmo se fosse doação. As raras exceções eu fiz questão de pinçar e preservar.

A televisão, naquela época, era puro entretenimento barato, feito pra ocupar o tempo e encantar adultos e crianças com a chegada das telas coloridas. Jornalismo, muitas vezes, era tão informal e desnecessário quanto é hoje em dia na maioria das mídias ou até mais. Internet não existia e revistas e jornais impressos eram, quase sempre, usados pra forrar o chão contra urina de cachorro e embrulhar objetos na mudança. Assim, olhar pra realidade lá fora era a mesma coisa que ver a Lua e deduzir que ela era pequena o suficiente pra caber na palma da mão. Tínhamos a percepção equivocada de que tudo era simples como pareciam para nossas cabeças desinformadas. Ter crescido curioso foi uma combinação de fatores improváveis. Neste sentido, posso me considerar a pessoa destoante na família. Enquanto descartavam a cultura e informação como se fossem puro lixo, eu tentava preservar e absorver aquilo que encontrava de novo, que me parecesse mais complexo, ter mais camadas de realidade ou significado.

Por uma imensa sorte do acaso, eu cheguei a ter condições de comprar alguns livros pra ampliar minha realidade nos assuntos que eu me sentia mais envolvido. Adorava ler e escrever, mas se eu levasse um caderno de anotações pra viagem em família, isso se tornava um ponto negativo aos olhos dos outros, em especial o meu pai. Na cabeça de quem tem o espírito amargo e a cabeça vazia, raciocinar era quase um crime. Como esperar que desse cenário de ignorâncias geradas e incentivadas, pudesse nascer qualquer melhoria nas condições de vida, na percepção da realidade? Fica óbvio perceber que essas pessoas replicavam um padrão de ignorância e distanciamento da informação, de geração pra geração. Sair desse redemoinho destrutivo me exigiu curiosidade nata acima da média, um esforço gigantesco para me conectar com pessoas e conteúdos que pudessem me tirar da ignorância e a minha constante ajuda à mim mesmo em favorecer esses momentos através de, por exemplo, conversas com professores, contato com pessoa de bairros vizinhos, filtro sistemático dos conteúdos da televisão e aumento da prioridade de se pagar internet, por mais lenta e rudimentar que fosse. Também não foram poucas as vezes que tive que abarrotar meus colegas com perguntas sobre tudo o que eles já sabiam mais que eu sobre determinado assunto.

Muito do que eu conheci começou, literalmente, a partir de verbetes no dicionário e, então, buscando quaisquer referências sobre aquilo em qualquer lugar. Às vezes eu simplesmente lia a enciclopédia saltando de um verbete pra outro, conforme os assuntos que eram apresentados durante o texto. Se não haveria ninguém pra me incentivar a conhecer mais da realidade, eu teria que fazer isso por mim mesmo. Mas, ainda hoje, eu não sei dizer qual foi o fator propulsor dessa vontade e conduta. Eu poderia ter me acomodado na ignorância ao mesmo modo que outras tantas pessoas ao meu redor, mas algum fator, que ainda me é desconhecido, me levou à um desfecho diferente. Pra não cair na mesmas deduções rasas que eu evito, eu preciso olhar pra isso e tentar ver mais de perto. De longe, a primeira impressão sugere alguma característica especial nata, mas o que é que encontramos depois disso? Ainda não tive a oportunidade de me aprofundar nessas questões, mas conheço diversos outros casos em que as pessoas destoam da tendência de seus meios de convívio, dos padrões estabelecidos na família, na escola, na sociedade, no trabalho, etc. Sei, claro, que pessoas são diversas, mas nem sempre sei o que gera cada característica e contexto de um indivíduo sob essa tal diversidade.

Quanto mais eu aprendia sobre diversos temas, mais eu percebia que precisava entender melhor da composição das sociedades, das famílias, das relações, da psicologia por trás de tudo isso, das questões políticas, da História e, talvez, principalmente da própria antropologia, da biologia e de tudo que pudesse explicar a constituição do ser humano. Qualquer oportunidade que eu tinha de viajar, mesmo que fosse pra uma cidade ao lado, eu aproveitava cada segundo. Pra mim, observar a realidade era a principal ferramenta que me permitiria raciocinar à fundo aqueles temas, mastigando novos livros, novos blogs, novos artigos na internet. Visitei muitos sebos, aprendi idiomas, assisti muitos filmes. A internet me salvou, por muito tempo, da falta de esperança. Eu achava que, com o suporte dela, eu entenderia boa parte do mundo, incluindo os livros que poderia comprar a partir dela. Visitei livrarias e tive até a possibilidade peculiar de conhecer donos de editora e autores dos mais variados segmentos e estilos literários. Mas, nada disso me deu o que eu realmente precisava. Faltava nessa equação algo que me desse firmeza naquilo que eu aprendia. Eu que sempre fui autodidata, sinto muito orgulho de ter aprendido tanta coisa sem depender dos sistemas de ensino que eu tanto criticava. Pra mim, o distanciamento da escola e da faculdade, era visto como algo saudável. Porém, era conveniente para meus objetivos na vida, que eu os aturasse pra poder concluir formalmente essas etapas e ser diplomado. Terminei a escola e fiz faculdade, mas me decepcionei muito com a quantidade de tempo investido com pessoas que, infelizmente, nem sempre sabiam o que estavam fazendo ali. Algumas figuras, ganhando rios de dinheiro, chegaram a replicar inverdades baratas enquanto “ensinavam”. Isso só reforçou o meu desapreço por esse sistema de ensino, o modelo social que empurrava gananciosos ignorantes para cargos de professor ou mesmo para a execução dessas profissões todas em outros ambientes.

Por tudo isso que citei, fica fácil ver que o entendimento de qualquer assunto não esbarra só na falta de acesso aos livros ou à escolas e universidades. Em muitos dos casos, mesmo depois de percorrer esse imenso labirinto que, apesar de falho ainda é um privilégio, chegamos tropeçando na verdade. Como é que vamos aprender sobre o mundo, se nem os “profissionais” dedicados às suas especialidades, conseguem nos entregar, pelo menos, a verdade? Temos, então, que aprender a aprender. Temos que filtrar quem é que tem um ensino decente, um respaldo sincero de conhecimento, de intelectualidade, um aprofundamento técnico sobre o assunto e os detalhes em questão. Depois do bacharelado nas universidades, as pessoas podem seguir inúmeros outros níveis de especialização até que possam dominar com mais firmeza uma pequeníssima fatia do conhecimento. Enquanto o generalista entende superficialmente sobre tudo, o especialista usa do conhecimento abrangente como plataforma de salto para dentro de um detalhe. Só assim é que se consegue absorver a complexidade de determinada coisa.

Quando iniciei meus estudos de Fotografia lá pelos 20 anos de idade, eu já tinha contato com diversas outras artes e áreas de comunicação como a escrita, a pintura à óleo, a música (piano, teclado e órgão), mas nunca havia me sentido tão conectado com algo como foi com a Fotografia. Ela se tornou extensão de mim e por quase 20 anos eu desenvolvi essa atividade. Da mesma forma que o acesso à literatura foi escasso na minha infância, a Fotografia me parecia uma realidade de outro mundo, quando eu comecei. E de fato, ainda hoje, percebo que existe uma escassez de demanda por ela em toda a sociedade e que essa escassez foi reforçada com a chegada da internet. Assim como os programas de televisão e noticiários eram rasos e pouco profissionais, a Fotografia, nos últimos 10 anos, pelo menos, se transformou, magicamente, naquilo que ela não é: registro de imagens. E dizer isso para uma sociedade que está convicta da “verdade” que só é verdade na cabeça delas, é a mesma situação de tentar mostrar que a Lua, mesmo parecendo pequena, não cabe na palma da mão. Esse contraste entre a percepção superficial e o real conhecimento de algo é algo que gera um atrito social que desgasta demais as pessoas envolvidas. Se por um lado o leigo que acredita ter a verdade se sente incomodado com a crítica, por outro lado há quem domine o assunto e se sente incomodado com a destruição da verdade, de uma profissão, de uma possibilidade de existência e atuação.

Imagine você, por exemplo, que, da noite pro dia, começassem a propagar a ideia de que livros são simplesmente pesos de porta e nada mais. Imediatamente veríamos escritores e professores revoltados, tal como se tivessem dito para um astrônomo que a Lua não passava de um pequeno objeto menor que a palma da mão. Vivemos numa era de ignorância e, pior do que isso, numa era em que se incentivam as ignorâncias. Embora pareça cômico e exagerado as analogias feitas, na vida real, no cotidiano, em diversos outros assuntos as pessoas agem de igual maneira, tirando conclusões absurdas sobre algo que elas não entendem de fato. E pra onde caminhamos com a predominância dessa cultura? Vamos para um obscurantismo cada vez maior, perdendo qualquer chance de dignidade humana, pois onde o conhecimento é desmerecido em detrimento do avanço da ignorância, o mundo se torna não só mais raso, como mais incompetente para resolver todos os pequenos problemas pessoais ou coletivos. Esse é exatamente o cenário que fomenta mais pobreza, mais doença, mais miséria, mais estelionato, mais preconceito, mais golpe, mais violência, mais desesperança, mais guerra e mais desconfiança. A idade das trevas não levou esse nome por acaso. Hoje vivemos um obscurantismo talvez ainda pior, se considerarmos o ano em que estamos e os supostos avanços tecnológicos e sociais. Se tudo que temos em ferramenta não for utilizado para nos tornar pessoas melhores, mais livres e mais cultas, de nada terá servido. É por meio da lapidação do indivíduo que conseguimos remar na direção contrária do obscurantismo. Quando cada um de nós se recusa, individualmente, a endossar o retrocesso, formamos um coletivo que trabalha numa mesma direção. É esse coletivo que nos garante, apesar das diferenças, chegarmos em alguns consensos em benefício de todos nós.

A complexidade da vida passa, com toda certeza, pela complexidade do indivíduo. Enxergamos somente até onde nossa visão alcança. A complexidade das coisas muda conforme mergulhamos mais à fundo nelas. O indivíduo raso pode ver a vida como algo simples, mas aquele que se presta a ser um pouco mais curioso e estudado, logo descobre que nada na vida é tão simples como parece. As pessoas dedicam anos e mais anos de muito estudo, vivência e testes em todo tipo de área do conhecimento, incluindo o conhecimento do próprio ser humano, da mente, da Psicologia, da Educação, da Sociologia, etc. Um mundo que pretende ser mais fácil de ser vivido precisa, antes de tudo, priorizar que o maior número possível de pessoas sejam alfabetizadas e, mais do que isso, que aprendam a ter pensamento crítico e curiosidade por todas as coisas. Quando isso estiver arraigado dentro de cada ser, aí teremos uma sociedade vitoriosa que fará questão de eliminar a fome, a pobreza, as injustiças sociais, enquanto avança com eficiência no desenvolvimento tecnológico e cultural. Uma sociedade só se torna realmente emancipada, quando ela intenciona a qualidade de vida de seus membros, à começar pelos direitos mais essenciais de acesso à sobrevivência digna, o conhecimento e uma perspectiva de futuro.

Muitos dos que me leem aqui, provavelmente já sabem que eu tenho histórico de depressão. Tenho essa condição há muito tempo, mas, felizmente, estou tendo uma fase boa nas últimas semanas. Ter esse contato com a depressão por tanto tempo me fez perceber o quanto ela me privou da esperança por dias melhores. Então, uma sociedade que priva as pessoas dessa esperança, está, basicamente, causando um dano similar ao da depressão. Mergulhar pessoas num cenário onde elas sintam que não possuem mais espaço nessa sociedade ou nessa vida, é uma maneira de matá-las de dentro pra fora. Mesmo quando eu tenho picos de melhora da minha condição, eu sei que o mundo continua igual na maioria dos países. A crise social, política, ética e humana é proposital na realidade de quem exerce suas psicopatias para extrair lucro fácil e imediato de pessoas exploradas em situação precária de vida, sem sentirem o menor remorso por isso. Nada disso deveria ser novidade pra qualquer pessoa hoje em dia. Porém, na prática, há pessoas qua ainda insistem em abraçar seus próprios algozes porque, infelizmente, elas também gostariam de estar nesses postos se assim pudessem. Como disse Paulo Freire, “Quando a Educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”.

Aquele que não tentar desviar da agenda de idiotização das sociedades e desgovernos, estará fadado a viver em uma realidade potencializada para a destruição, para a infelicidade, para a dor, a violência, a indignidade, a falta de esperança, a extinção de qualquer fagulha de conhecimento que possam salvá-los das mazelas e dos acasos. Sociedades altamente evoluídas já se formaram no nosso mundo e, não foi preciso muito tempo pra que elas se degradassem e sumissem do mapa. Cazuza cantava “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”. Assim tem sido a humanidade com suas eras de destruição e ignorância tentando se reconectar com tecnologias e conhecimentos que já foram extirpados. Haverá um tempo em que as pessoas descobrirão novamente a Fotografia, o Jornalismo, a Política, e diversos outras áreas do conhecimento que hoje parecem tão artificiais e imprestáveis, que, talvez, nem devessem mais carregar os mesmos nomes originais. Na maioria dos países, as sociedades se tornaram qualquer coisa, no pior sentido do termo. A pessoas não só ses mostram racistas, fascistas e golpistas, como chegam a falar abertamente sobre tudo isso com profundo orgulho. Essas pessoas se tornaram aquilo que o mundo fez delas, ao deixá-las apodrecer na mais profunda miséria ética e intelectual. Ninguém que tenha estudado o mínimo sobre a realidade do mundo, aceitaria se deturpar de forma tão imunda, para extrair benefícios tão ilusórios. Só mesmo a psicopatia aliada ao apodrecimento da alma e do intelecto, podem explicar os rumos que o mundo tem tomado todo dia.

A pequena ponta do enorme iceberg que vemos já cheira podre o suficiente para odiarmos todo o resto. E quando pudermos observar a magnitude da origem de todo esse iceberg, nos especializaremos nas inúmeras questões imundas que são compostas das pessoas e ideias mais abjetas possíveis. Não existe beleza depois de certa profundidade na merda. É só falta de perspectiva, sufocamento, nojo e revolta. Esse caminho terá que ser percorrido em algum momento, pois como ele foi ignorado por tantos séculos ou até milênios, acumulou-se o suficiente pra que a maior parte dele se tornasse completamente intocada e desconhecida, mas que, pela ponta em que estamos vivendo hoje, sabemos que é nossa origem e que, por isso mesmo, precisaremos aprender tudo sobre ela se quisermos ter alguma chance de desvendar a complexidade da humanidade, da vida, do momento presente e nossas reais alternativas para o futuro. Ignorar esse nosso desconhecimento sobre o mundo só nos coloca em posição ainda pior, dando tiros cada vez maiores em nossos próprios pés. Ou você faz o necessário pra ajudar a si mesmo, ou estará eternamente lutando contra a maré e fracassando dia após dia, ano após ano, geração após geração. Qual é o presente e o futuro que você quer construir? A resposta pode ser tão simples quanto dizer ‘melhor’ ou ‘pior’, pois seja lá quais forem as ferramentas escolhidas para isso, a ignorância e a falta de aprofundamento no conhecimento jamais darão a solução pretendida. Ou você é do time que acredita equivocadamente que a Lua cabe na palma da sua mão ou você é do time curioso que se propõem a estudar além das primeiras impressões.

Veja, eu não estou dizendo o que é que você tem que estudar ou qual caminho ou sistema de ensino deve escolher. Estou apenas dizendo que você precisa se aprofundar no conhecimento de algo, ao invés de fingir que sabe e se contentar com isso. Na pior das hipóteses, se você não quiser dedicar sua vida ao estudo, você pode, pelo menos, dar espaço para quem faz isso, apoiando alunos, professores e profissionais que dedicam tempo nos assuntos com seriedade. Dar esse espaço significa que você, pelo menos, está favorável ao conhecimento e a melhora do mundo. Basta que você não seja uma pedra no caminho e já estará ajudando muito.

E, lembre-se: embora nem todo conhecimento seja adquirido exclusivamente em escolas e universidades, é sempre necessário que se tenha embasamento, experiência de vida em torno desse tema, contato prático que vá além das teorias e, o mais importante de tudo, uma curiosidade verdadeira que te faça questionar as próprias informações obtidas, pra não cair no terrível beco das informações obsoletas, desatualizadas ou que já foram desmentidas ou ampliadas. Não se contente com a superfície de nada. Muito do que nos ensinaram no colégio sobre História, por exemplo, é completamente defasado e cheio de inverdades. Pode parecer estranho, mas a verdade é que, como diz o ditado popular, “o papel aceita qualquer coisa”. Por isso, mais importante do que apenas ler o que está escrito nele é ter senso crítico e as ferramentas que lhe permitam contestar ou confirmar o que ali foi dito. Quando professores, especialistas ou profissionais trazem uma informação para o seu mundo, a função dele deve incluir a de ensinar a aprender. De nada adianta replicar frases prontas como um papagaio, se não possui pensamento autônomo e crítico por trás disso. Só quem está realmente comprometido com a verdade fará o esforço devido pra ensinar outras pessoas a conhecer e manusear corretamente as ferramentas que nos permitem averiguar e avançar nas informações.

Embora eu tenha um importante conhecimento de Fotografia, eu nem mesmo me senti apto a lecionar, pois percebi rapidamente o quão distante eu estava do necessário. Lecionar envolvia muito mais do que apenas entender de Fotografia. Por mais organizado que eu fosse, exemplificando questões técnicas com analogias, eu não dominava a arte de ser professor, de lidar com o buraco que havia no ensino prévio das pessoas que tentaram ter aulas comigo. Eu simplesmente vi, por experiência própria, que aquilo não funcionaria. Foi assim que parei de lecionar, fiz as pazes com a frustração de não ter conseguido levar a Fotografia pra mais pessoas e, desde então, tento ocupar a minha mente em produzir, primeiramente, pra minha satisfação pessoal e, se sobrar tempo e surgir alguém que realmente tenha aptidão pra entender a complexidade da Fotografia, aí, talvez, dividiremos alguma troca de informações sobre o assunto. Dizem que o conhecimento não serve de nada se não for utilizado para melhorar a vida das pessoas e concordo com isso. Se, por um lado, não posso gerar novos fotógrafos para o mundo, vou gerar, pelo menos, muitas novas fotografias. Vou exercer aquilo que eu conheço e gosto e tentar cativar as pessoas a redescobrirem o mundo, as diversas realidades, com pensamento crítico, com curiosidade, com apreço pela verdade. Essa talvez seja a única maneira, ao meu alcance, de transformar meu conhecimento em melhoria na vida da humanidade. É algo que eu sempre fiz desde o início na Fotografia, na Pintura e na Literatura, mas, provavelmente, não terei o necessário pra levar outras formas de melhoria para o mundo. Venho aprendendo mais todo dia e incentivando outras pessoas que fazem aquilo que eu não faço ou que fazem o mesmo que eu de forma igual ou melhor.

É preciso dar vazão para o conhecimento, o aprofundamento, a especialidade, de diversas outras pessoas, para que o quebra-cabeça se torne cada vez mais completo. O conhecimento é infinito, mas tudo que que puder ser dominado em benefício da humanidade, deverá ser apoiado, feito e replicado. Eu entro com a Fotografia, outro entra com a Astronomia, alguém contribui na História, na Medicina, na Pesquisa, na Educação, na Sociologia e assim por diante. Cada um dá aquilo que tem de melhor para construção do mundo. Essa noite eu tive um sonho onde me sentava no fundo de um ônibus quase lotado. Alguém havia dito uma asneira e logo começaram a pipocar comentários de pessoas concordando e apoiando, enquanto a maioria dos passageiros ignoravam calados. Eu, então, saturei de ouvir todas aquelas mentiras e comecei a despejar críticas raivosas de lá do fundo. Seria esse sonho um desabafo da consciência pelo momento absurdo que estamos vivendo no Brasil e no mundo? É possível que seja isso. Talvez, sem conectar uma coisa com a outra de forma consciente, eu cheguei em um tema semelhante pra esse texto. Agora, relembrando do sonho, vejo como tem sido oportuno ter um espaço pra escrever e ser lido, mesmo que isso seja relativamente pequeno. Se esse pingo de informação e reflexão puder chegar em, pelo menos, mais uma pessoa, já será válido o esforço. Mas é preciso que chegue não só nos olhos, porque ler não é só passar os olhos pelas letras. Também não basta que sejam entendidas as palavras e as frases, pois ler também não é tão simples quanto isso. Ler, de verdade, é ter capacidade de compreender o que está por trás daquelas palavras escritas ou ditas. E isso tem sido raro ultimamente. As pessoas juram de pé junto que leram os textos e mensagens, mas, na prática, ainda estão como aquele coitado observador que ergue a mão pro céu na direção da Lua e chega à conclusão equivocada que já entendeu o suficiente sobre tudo que seus olhos viram.

Confesso estar bastante cansado e com pressa de sair dos mesmos cenários em que estou, pois essa parece ser minha única chance de experimentar qualquer coisa nova e promissora pro meu eu do futuro. Eu quero voltar a fotografar, voltar a sorrir, voltar a sonhar, voltar a explorar o mundo, tentar sentir novamente o amor, aprender mais das mesmas áreas e, talvez, começar em uma área nova do conhecimento. Eu quero me sentir vivo novamente e isso só será possível quando eu tiver a liberdade de acessar todo esse conteúdo e avanço que a maioria dos países nos privam desde muito cedo, com muita força, de muitas maneiras. Quero sentir novamente, o gosto de poder descobrir prazer pelas coisas, sabendo que, se for necessário, posso estar perto de mais ferramentas, mais livros, mais tecnologia, mais conhecimento, mais experiência de vida, própria e alheia. A depressão já me parou muitas vezes, mas eu tenho que aproveitar qualquer momento de trégua para sabotá-la e percorrer um pouco mais de vida, de prazer e de emoção. Todos nós queremos viver e nos sentirmos com, pelo menos, um mínimo de paz e segurança. Por isso, faço tudo que está ao meu alcance para transformar o cenário desfavorável em uma oportunidade criativa e contra a tendência de obscurantismo. Os exploradores não nos querem ver vencer, então temos que partir dessa premissa e desviar do senso comum, do óbvio, da mesmice, do conformismo, da ignorância e da passividade, para construirmos nossa saída pra mundos maiores, melhores e mais livres. Ou você caminha em direção à dignidade ou será prensado por um sistema que te oprime e te emburrece até o ponto em que você se torna aliado fanático do malefício ao invés de resistência. A escolha está na mão de cada um, considerando as diferenças de realidades e oportunidades. Eu fiz a minha escolha, dentro do que estava ao alcance do meu contexto e cabe aos outros fazerem as escolhas que puderem e decidirem fazer.

Rodrigo Meyer – Author

[+18] Obrigado pela partida.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e baseada em uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa do Google.

Você chegava no seu carro cor de carmim com os cabelos soltos e ondulados. Tão leve, tão independente, tão feminina. Amava quando você usava o jeans decorado com rasgos pelos joelhos. Te fazia mais garota, mais divertida, mais ousada. Bem me lembro do seu olhar atento, entrando em casa, se recuperando da viagem. Incrível como seu perfume persistia ao tempo. Era um vício aspirar o seu perfume quando te abraçava. Você fazia eu me sentir mais vivo e eu retribuía cada movimento seu.

Bom mesmo era ser surpreendido com seu toque na porta, anunciando sua chegada. Como era bom acordar nessa névoa de sonho, te puxar pra dentro, encostar a porta e te sentir inteira. Matar saudade com os olhos, com as mãos, com você prensada contra a parede, de frente e de costas e notar cada um dos seus ornamentos. Você se produzia toda só pra me ver. Era meu presente, depois de tantos dias longe de casa. E vinha sempre atiçada, como quem estivesse com sede todo esse tempo. Teus olhos brilhavam e tudo em você parecia tão bem escolhido.

Na memória, tenho você em dias diversos, em todas as casas, no cinema, no teu carro. Lá estava você em cima da cama, no sofá, no chão da sala, no jardim, debaixo do chuveiro, no meio do almoço, depois do banho e até quando tínhamos mais gente dividindo o quarto. Você era sempre uma estrela, incansável sereia. Se eu me atirava sobre suas roupas, esfregando o corpo e te beijando, você se contorcia e me colocava pra te admirar. Debaixo da sua blusa, com os ombros de fora, um sutiã branco cheio de detalhes parecia um tesouro à ser descoberto. E como eu ficava feliz de desvendar cada camada. Seus sapatos eram poesia e era impossível não notar como você se sentia usando eles. Se possível fosse, os manteria enquanto te despia. E como era bom perceber o cheiro da sua roupa. Tudo isso fazia eu me sentir especial.

Você gostava de tudo intenso, porque quanto mais desejada, melhor. Com toda intensidade, eu tirava suas calças e te cobria de beijos entre as pernas, até eu me render e te deixar toda nua, impacientemente esperando minha boca molhada devorando a porta da sua casa. Um castelo, devo dizer, cheio de magia. E disso você entendia bem, porque parecia controlar a minha vida. Eu, ciente do que tinha do meu lado, nem precisava me esforçar pra querer fazer todo o esforço possível. Eu simplesmente era compelido a te ver dançar, à querer fundir prazer e prejuízo na mesma equação. E quanto mais eu me esgotava, mais eu queria continuar. Talvez acabássemos mortos por excesso de saudade. E teria valido a pena cada absurdo realizado.

Você sabe que as memórias não se apagam da noite pro dia. Talvez, algumas jamais poderão ser apagadas, porque impregnaram diretamente na alma. Parte de você, alterou a percepção da minha própria vida. Tem você no que eu faço ainda hoje e é por isso que escrevo sem freios, quando lembro do que vivíamos. Tem comigo aquelas tuas graças, seu jeito hilário de parodiar pessoas com seus personagens e também seu jeito inconfundível de falar. Tudo em você era engraçado, porque você enxergava a vida com humor. Tinha isso nos filmes que você gostava, nos bonecos que você moldava, nas artes que sobrepunha às cartas que me enviou. Éramos dois palhaços, rindo um do outro, um para o outro e um com o outro. Éramos imperdíveis e infalíveis. Se hoje eu lembro de você por todas essas coisas, é exatamente isso que eu admiro nas pessoas desde sempre e ainda hoje.

Mas você não soube apenas ser e logo o paraíso te pareceu bom demais pra ser verdade. Começou a imaginar coisas, a ver situações onde não havia, a criar monstros imaginários pra depois passar o dia lutando contra eles. E lutou, até o ponto em que teve que declarar guerra, por debaixo dos panos, talvez por medo, insegurança ou algum fator que eu nunca saberei dizer. Quando você se foi, eu havia pensado que eu estava destruído. Levou tempo, mas depois de uns anos eu percebi que eu tinha vencido duas vezes. Venci quando desfrutei da alegria e do vigor, enquanto ainda existia e depois venci novamente quando você saiu da minha vida, pois já não éramos mais compatíveis, seja lá o que isso tenha sido. O importante é que não prolongamos o que não sobreviveria e voltamos à realidade cinza, cada um com seu próprio plano, tentando se reconectar ao sentido da vida.

Pra você, outros filhos, outros relacionamentos e a volta pra sua casa. Pra mim, outras cidades, outras verdades, outros momentos, novas pessoas, novos aromas, novas intensidades. Não me atrevo a especular ou comparar a vida de cada um. Tudo que posso falar é do que vivemos e do que nos poupamos de viver. Por trás da sua figura engraçada, havia um recheio amargo de preconceito, de racismo e ódio de classes. Se eu tivesse percebido tudo isso desde o início, eu teria te recusado. Mas você foi boa no feitiço, me deixou marcado e conectado por aquilo que temos de mais poderoso e instintivo. Você carregou minhas baterias e me fez transbordar. Mas, pra se viver não podemos atropelar nenhum princípio e, por isso, foi livramento quando você escolheu se afastar. Ninguém é perfeito, mas temos que procurar por compatibilidade e reciprocidade. Décadas depois, cá estou, ainda conseguindo ver que pessoas ruins também tem partes boas. Talvez se aplique, subjetivamente, a ideia de que quanto mais luz incide sobre uma pessoa, mais densa é a sombra por ela projetada.

Pessoas depressivas talvez se pareçam com baterias descarregadas. Se alguém vem nos socorrer, precisamos de muita carga. Mas quando finalmente ganhamos autonomia, a bateria continua a se carregar sozinha, pelo giro do próprio motor. Precisamos manter nosso carro em movimento. E aqui vou eu, levantar voo para a maior de todas as estradas. Tô indo vencer na vida, de um jeito que só eu sei o que significa. Para os que ficam, eu já estou em outro jogo, mas obrigado pelas partidas.

Rodrigo Meyer – Author

Muita demanda, pouca oferta.

O ser humano, geralmente, está em busca de alguma oportunidade de se destacar em uma atividade, mas as pessoas, frequentemente, possuem preguiça ou desinteresse para específicas atividades ou áreas de estudo e, justamente por isso, estas oportunidades sobram pra quem tenha disposição e interesse de ocupá-las. É como diz a expressão: “A preguiça de uns é o trabalho de outros.”.

Quando tive a oportunidade de entrar pra faculdade de Ciências da Computação, foi interessante ver quão poucas turmas e cursos haviam pra esse segmento. A sala começou com mais de 40 alunos e gradualmente foi esvaziando. No final do curso sobraram apenas umas 5 pessoas que se diplomaram e foram elas que colheram os frutos disso, ao poder brilhar em suas carreiras. Da única pessoa que eu conhecia e mantinha contato nessa fase pós-faculdade, sei que a pessoa fez ótimo proveito da carreira. Estudou pra valer, se concentrou no necessário e teve trabalhos interessantes, inclusive com a oportunidade de reinvestir em si mesma para novos cursos, viagens e aprendizados. Em resumo, em uma sala onde nem todos estavam dispostos a seguir naquela profissão ou estudo, alguns estavam e, por isso, saíram na frente.

Mas a vida é múltipla. Quando saímos de uma área ou nem sequer entramos nela, temos a oportunidade de ir pra outra atividade. Contudo, algumas atividades são tão comuns, que estão saturadas. É o caso da área de Direito, onde muita gente se forma, mas a seleção da OAB filtra, por prova, os melhores, justamente pra não saturar o mercado de gente que vai acabar não tendo espaço pra exercer a profissão pretendida. Diversas outras áreas também se tornaram “febre”, por assim dizer, deixando áreas menos comuns com menos interessados e, portanto, com menos concorrência. A concorrência em si não é ruim, mas quando o mercado se satura exclusivamente de umas poucas profissões, isso desestabiliza a sociedade, pois o mundo não precisa só de meia dúzia de tipos de profissionais, serviços ou produtos. Então, a diversidade é mais saudável e útil para a própria sociedade, tanto coletivamente, quanto pelo benefício pessoal de conseguir se estabelecer profissionalmente como indivíduo.

A realização pessoal de muita gente acaba revista quando notam que, embora gostem de uma determinada área, não conseguem sobreviver com a realidade do mercado gerada em um contexto de saturação ou de desvalorização. Ocorre, também, das pessoas terem expectativas muito otimistas sobre determinada profissão ou área de estudo e acabarem frustradas ao descobrir que, na prática, não é tão glamouroso como pensavam. Tudo isso gera uma adequação quase que automática, colocando pessoas indispostas para fora de uma atividade e segurando as que se adequaram. Não há problema algum em se descobrir incompatível ou desinteressado com determinada área. Tudo que temos que fazer é exatamente nos descobrir, pra podermos fazer escolhas mais assertivas. Foi assim comigo quando abandonei a faculdade de Ciências da Computação por ver que não estava apto a lidar com tanta matemática enquanto ainda tinha que tentar absorver os princípios da computação em si. Admiro quem consegue e sigo interessado pela área, mas só volto à mergulhar nela se eventualmente me sentir apto a lidar com a quantidade de matemática que me freou na época.

Ao invés de me sentir frustrado, eu segui para outro curso. Fiz a faculdade de Comunicação Social e realmente me senti entretido o suficiente pra chegar até o final das aulas. Foi uma experiência muito boa pra mim, especialmente pelos professores que conheci e pelos momentos divididos entre as pessoas da época, pelos corredores, bares e casas noturnas. Mas, meu objetivo neste curso, por já ter conhecimento na área, não era ter determinados tipos de emprego como era pra todos os demais alunos. Pode-se dizer que fui a ‘ovelha-negra’ do curso, mas sigo tirando proveito e trabalhando com isso exatamente no espaço deixado pelos demais. Enquanto eles tentam ocupar uma área que, pra mim, era insatisfatória, discordante e saturada, eu escolhi atuar justamente onde ninguém tinha olhos ou interesse: apoiar pessoas, causas e pequenos negócios com ajuda do conhecimento que eu tinha. Apesar de não ter dinheiro pra gerir minhas próprias iniciativas nesses meios, consegui alavancar muito bem minhas mídias e ideias, até o ponto onde elas só não progrediram pra algo maior, por essa barreira financeira. Isso mostra que ocupar uma área onde outros não querem, pode ser bastante próspero, desde que haja suficiente apoio inicial.

Usando um dos exemplos que eu conheço, por conta da minha proximidade com o tema, cito a própria área de programação e TI, onde os salários propostos pelas empresas podem chegar a fantásticos R$ 100 mil reais por mês, justamente porque existe tanto potencial na informática e tão poucos programadores disponíveis, que um salário alto é a forma que encontraram de tornar a área atraente pra que mais pessoas se formem em computação, análise de sistemas ou alguma coisa relacionada a TI, podendo, assim, ocuparem as vagas que as empresas mais valorizam atualmente. Dessa escassez, pode-se encontrar até mesmo oportunidades como ter o curso de faculdade bancado pela empresa que pretende lhe contratar ou mesmo de ter uma vaga de trabalho praticamente garantida já no segundo ano de faculdade. Além disso, inúmeros brasileiros são tentados a trabalhar como programadores no exterior, justamente pelo combo salário + qualidade de vida de determinado país (frequentemente na Europa) ou, então, por poder estar em uma empresa renomada internacionalmente como Google, Microsoft ou Facebook.

É claro que estar ausente desse mercado não é, por si, sinônimo de preguiça. Há pessoas que simplesmente se esforçaram ao máximo pra tentar, mas não conseguiram, por inúmeras razões possíveis. Algumas pessoas não possuem condição de bancar um curso até o fim, outras não conseguem passar na seleção de uma faculdade pública e outras simplesmente podem ter se visto destoantes do tipo de estudo ou realidade de determinada área ou profissão.

Contudo, em várias outras atividades da vida cotidiana, é sim a preguiça de uns que abre portas para outros profissionais. Quando as pessoas não querem ter que lavar a própria louça, o carro ou casa, estão abrindo uma demanda pra que outras pessoas façam isso. Geralmente, em nossa sociedade discriminatória, esses trabalhos são evitados pelas pessoas com mais renda, renegando as pessoas de menor renda a aderirem a esses trabalhos que ninguém quis fazer, por demanda e por falta de capacitação ou espaço pra outras funções. Assim como existem muitas pessoas que ocupam as vagas de diarista, faxineiro, gari ou lixeiro, por exemplo, por não terem estudos suficientes pra pleitear vagas com exigências maiores de formação escolar, também existem as que migram pra essas áreas quando se veem desempregadas nas áreas em  que estudaram e se formaram, seja por saturação do mercado ou por algum revés pessoal. Fato é que, em ambos os casos, onde muita gente não estiver interessada de fazer algo, alguém virá pra fazer. O grande porém é que em países que discriminam as pessoas e os serviços, a remuneração dessas áreas tende a ser precária, como é o caso do Brasil. Em alguns países no exterior, profissões como a de lixeiro são uma das mais bem remuneradas, justamente porque as pessoas reconhecem a importância desse trabalho, cientes de que, sem isso, estariam no caos. Em tais países, existem lixeiros com faculdade, casa própria, dinheiro excedente pra viajar o mundo, etc.

Há muita coisa que é relativamente fácil de se aprender e executar, mas que muita gente evita, por que tem preguiça mesmo. Quando as pessoas não pensam por conta própria, por exemplo, abrem um enorme espaço pra que colunistas de pseudo-mídias ocupem e determinem o que é que as pessoas devem “pensar”, “concluir” ou replicar aos demais como “adequado” ou “correto”. Outro prejuízo se vê quando as pessoas deixam de exercer seu potencial artístico, por exemplo, ficando sujeitas a serem meras fãs passivas de algum artista. Isso não é saudável e, por vezes, pode ser apenas uma forma de você gastar muito dinheiro pra que outra pessoa faça o que você teve preguiça de se envolver. Noto isso em inúmeros casos de famílias que optam abertamente por babás na criação dos filhos, ficando completamente omissas da função na maternidade e paternidade. Consigo entender a inscrição de filhos pequenos em creches ou em  episódios isolados de tutoria com babás, mas se isso é o padrão de uma família na maioria dos dias, certamente comprometerá a relação entre pais e filhos.

Eu, ao contrário da tendência no mundo, sou daqueles que gosta da fazer tudo (ou quase tudo) por mim mesmo. Eu amo limpar a minha casa, organizar as minhas coisas, solucionar um problema do computador, seja em hardrware ou em software, cozinhar pra mim e, eventualmente, pros outros, fazer as compras no supermercado, pagar as contas, me enveredar pela minha expressão artística e literária, ler e estudar aquilo que ainda não domino pra impor, eu mesmo, tais benefícios aos meus projetos e necessidades. Me propus a estudar Idiomas, Culturas, História, Sociologia, Psicologia, noções gerais e básicas de Medicina, Direito e diversas outras áreas do conhecimento. De certa forma, estar ativo em todas essas coisas, pra finalidades pessoais de conhecimento e lapidação, me motivam ao invés de me deixar em preguiça. Aliás, se eu tivesse 8 mãos e estabilidade financeira, faria muito mais. Por vezes, deixei de expandir minhas ideias, simplesmente porque era, no meu contexto, impossível de se fazer.

Mas, a verdade é que eu não tenho como criticar os preguiçosos, afinal é por conta deles que sobra espaço pra que os demais façam algo, criando suas carreiras e tirando seu sustento na vida. É ótimo que o mundo seja diverso, desde que as pessoas sejam conscientes de que quando escolhem não estudar e não fazer as coisas por conta própria, terão que remunerar bem quem remou contra a maré da sociedade e decidiu estudar e fazer tal coisa. Então, é preciso, pra ontem, valorizar os fotógrafos, os cozinheiros, os lixeiros, os designers gráficos, os pintores, os professores, os músicos, etc. Ou seja, se você gosta e precisa de algo que você não domina, terá que valorizar quem domina, senão tal área tenderá a ficar precarizada até sumir ou se degenerar em qualidade. Se você não investe um valor justo pra que um profissional viva dignamente e possa estudar e se aprimorar na carreira pra te oferecer sempre um serviço cada vez melhor, você está, basicamente, plantando uma realidade onde os serviços e profissionais serão cada vez piores e mais raros. E, se eles se tornam piores, não trazem bom retorno pra quem os contrata. No caso de se tornarem raros, podem se tornar caríssimos e restritos somente aos que realmente entendem o valor daquilo, ao mesmo tempo em que podem pagar por tal valor.

Então, para não dar tiro no próprio pé, é preciso saber sustentar uma modelo de trabalho com remuneração justa. A lógica é simples, mas muita gente não tem paciência ou apreço pra se ver diante dessa realidade incômoda todo dia, por isso raramente refletem sobre essa urgência. E, se muitos não refletem, lembre-se, alguém vai ocupar esse vazio e refletir por eles. Espero que tais substitutos sejam sempre pessoas bem intencionadas e capazes, pois, do contrário, o mundo acabará mergulhado em realidades cada vez piores, como ocorre no Brasil, por exemplo, onde empresas, mídias, políticos e personalidades ditam a asneira conveniente que desejam pra manipular e extrair lucro e poder em cima dos incautos na população.

Inclusive, o fato de muitos não saberem diferenciar uma pessoa capacitada e correta de uma fraude é a demonstração de como tal pessoa se absteve tanto tempo da autonomia de pensamento dos assuntos do mundo, que acabou criado e moldado pelos que vieram pra moldar e ditar a realidade trágica dessa pessoa. E claro, entre indivíduos mal intencionados, um dos primeiros objetivos é fazer o público apontá-lo como líder ou referência, assim ele pode continuar controlando as pessoas com a própria aprovação delas. Alguém que vive esse cenário onde é usado e mesmo assim apoia ou defende seu opressor, diz-se que a pessoa tem Síndrome de Estocolmo. Depois de tudo isso, afinal, de que lado você quer estar?

Rodrigo Meyer

O que significa ser libertário?

Ser libertário é ter o pensamento ou a ideologia voltada para a busca e/ou preservação da liberdade dos indivíduos. Exatamente por ter essa premissa de liberdade, que ser libertário não significa deixar livre as pessoas que privam a liberdade alheia. Às vezes, algumas pessoas lançam a ideia de que fascistas ou pessoas em geral que privam a liberdade dos outros, deveriam ter a mesma liberdade de serem e fazerem o que quiserem. E essa tentativa falha de argumento só reforça do porquê fascismo e ignorância são indissociáveis. O fato estrito, simples e direto é que ser a favor de liberdade é exatamente não compactuar com os que se posicionam contra essas liberdades. Fascistas não passarão!

Ser libertário é fruto de uma visão de mundo que nos cobra, automaticamente, uma conduta social bem definida. Uma vez que se entende aquilo que o mundo é, vê-se, também, o que é aceitável e inaceitável em um convívio entre os seres. Sendo o mundo muito diverso, há também diversidade nas composições familiares, na personalidade das pessoas, na formação escolar e educacional, na influência de parentes e amigos, na cultura local, na política, no nível de intelectualidade e de compreensão da realidade e dos assuntos, assim como inúmeros outros fatores que podem transformar um indivíduo em uma pessoa diferente das demais. A única coisa que há em comum em indivíduos mentalmente saudáveis é o desejo natural de manter-se livre. Qualquer desvio do desejo de liberdade já é reflexo de um desvio psicológico, podendo ser originado de algum trauma, complexo ou mesmo confusão decorrente da incompreensão da realidade ou do tema.

Fomentar um pensamento consistente de respeito e bem-estar aos seres, depende, sobretudo, de como as pessoas se apercebem da importância e do significado da própria existência de cada ser e do convívio com outros. Se o indivíduo não estabelece uma conexão mínima de empatia com outro ser, diverge do que é natural e saudável, tanto psicologicamente quanto sociologicamente. Todo estudo que já se tenha feito sobre as relações dos seres, passa, necessariamente, por esse senso de preservação da dignidade, da liberdade, do bem-estar, do direito a vida e ao desfrute de seus potenciais. Qualquer pensamento ou ação que prive os seres dessas realidades natas, compõem uma opressão, um desvio das premissas básicas. Algumas pessoas entendem isso por extensão direta da empatia que possuem e outras, às vezes, tardam a admitir esse impulso natural, precisando do reforço, às vezes, do embasamento lógico e técnico. Mas, de toda forma, ambos chegam a mesma conclusão, pois isso não é questão de opinião individual, mas sim uma premissa natural intrínseca a todos os seres. Exatamente por isso que, indivíduos que figuram em fascismo e opressões em geral, são indivíduos com perturbações e desvios de conduta, de ordem psicológica, podendo ter a origem dessa visão ou conduta em uma variedade de fatores.

Muitas vezes o ser humano adoece de algo chamado ‘hipocrisia’. Podendo se resumir, grosseiramente, como sendo o vício em mentir, a hipocrisia é responsável pela contradição de pessoas que, por exemplo, dizem gostar de animais, ao mesmo tempo em que podem aceitar matá-los para um raso benefício próprio. Nesse caso em específico, entende-se que fatores culturais podem forjar uma naturalidade nesses hábitos coletivos, dando uma falsa sensação de “normal” e “correto” dentro do julgamento que o indivíduo faz de si mesmo naquele contexto. Isso fica ainda mais claro quando olhamos pra história do mundo e vemos que as práticas sociais deploráveis que eram propagadas como “válidas” por determinados grupos, épocas ou governos, só se mantiveram aceitas por outras pessoas, devido a extensa propagação desse modelo artificial como se fosse natural. É exatamente esse o caso de episódios como os raptos de crianças que eram filhos de presos políticos, para serem adotadas por famílias que eram simpatizantes da ideologia dos raptores em questão. Dessa forma, essas crianças eram nutridas com o mesmo vício de pensamento, as mesmas ignorâncias e falácias, preservando, assim, a perpetuação dessa sucessão de adoentados.

É como diz aquela frase: “uma mentira dita mil vezes, se torna uma verdade”. Essa frase refere-se a ideia de que aquilo que se torna tão comum nos ouvidos e na sociedade, acaba não sendo mais refletido pelas pessoas. Tudo aquilo que soa como natural, deixa de ser raciocinado. Ninguém para pra contar quantas vezes piscou os olhos ou qual é o processo específico que faz pra respirar. Tudo isso, por ser natural e intrínseco ao ser humano, é feito de forma automática pelo corpo, não demandando nenhuma interferência do indivíduo. De maneira similar, nas práticas sociais, muita coisa é replicada inúmeras vezes até se tornar tão comum que é vista e aceita sem resistência, sem filtro, sem análise.

Do que conhecemos da conduta humana e da própria história vivida e registrada, o ser humano é facilmente moldado a uma realidade diferente, bastando que seja inserido nesse contexto desde sempre e em um coletivo relativamente fechado e abrangente onde todos ou quase todos seguem, basicamente, o mesmo padrão de “realidade”. Isso é o que explica, por exemplo, as diferenças culturais entre países. Se crescemos em uma família e país onde vestir meias com chinelo é o hábito em comum de todos, provavelmente uma criança nascida nesse cenário seguirá a mesma prática, a mesma tradição. Mas isso não significa, de maneira nenhuma, que as pessoas tenham alguma razão individual pra decisão de usar as meias. Elas podem estar apenas seguindo a tendência coletiva e a tradição desse ato, sem questionar, já que todos que o fizeram, também não questionaram. Mas pra quem não nasceu num ambiente com a mesma influência, o uso das meias com chinelo pode parecer incomum, estranho ou até desconfortável. Tudo é uma questão de hábito e aprovação coletiva.

Sob essas mesmas premissas, um passarinho preso em uma gaiola desde sempre, pode ser levado a acreditar que aquele é o padrão de vida, o ápice de seus potenciais como pássaro. Se ele tem as asas cortadas e é engaiolado, não terá noção do que é expressar-se livremente em voo, pra ser aquilo que ele nasceu pra ser: um pássaro livre, que voa e que expressa seu potencial e sua característica própria. Para o ser humano, não é diferente. Os modelos sociais que privam o indivíduo de sua dignidade, liberdade e potencial, estão transformando esse indivíduo em alguém que pode vir a se acostumar com o padrão estabelecido pra si de pouca valorização. Mas, como o ser humano é um ser inteligente e permeia sociedades próprias que ele mesmo constrói, inclusive em subgrupos dentro de cada sociedade, ele acaba por disseminar reflexões e ideias que recondicionam os indivíduos a refletir sobre suas realidades, seus direitos, suas dignidades, seus valores e potenciais. As ideologias e políticas libertárias carregam exatamente esses objetivos para reforçar os princípios humanos em geral.

Em sociedades adoentadas, “comandadas” e arrastadas por políticos e membros mais convencionais da população, é comum vermos as pessoas desenvolverem uma certa desmotivação, perda da autoestima ou da esperança, sentindo que algo não está tão bem quanto elas acham que deveria estar, apesar de estarem, de certa forma, “acostumadas” com a escassez de vida que lhes cabe. Na verdade essa percepção de incômodo ou de incompletude é justamente a fagulha na memória e no instinto básico humano da busca natural e essencial de valores humanos como a dignidade, liberdade, bem-estar, etc. Se um indivíduo nota que na sociedade existem classes diferentes de pessoas, cabe a este refletir e esmiuçar as origens e motivos dessa diferenciação social. Porque algumas pessoas cometem crimes e ficam impunes e outras são presas? Porque algumas pessoas são mais aceitas nos espaços públicos e outras menos? Porque algumas pessoas recebem mais credibilidade no que falam do que outras? Porque algumas pessoas figuram massivamente nas mídias como exemplo de beleza, sucesso e “positivismo”, enquanto outras não? Enfim, qualquer que seja o viés da observação, é preciso questionar essa distinção e separação de grupos humanos. Quase sempre a origem e motivo disso está justamente nesse padrão de opressão plantado e perpetuado, tentando reduzir certos indivíduos, grupos, ideias ou características, para enaltecer aqueles que fabricam esse modelo artificial de separação.

Da mesma maneira, quando alguém aprisiona um pássaro na gaiola, está fazendo exatamente a mesma coisa, segregando um ser por conveniência própria, para desfrutar de maneira bastante egoísta e sádica, da servidão do pássaro em troca de seu canto ou exposição controlada de sua aparência. Além disso o ato do confinamento reforça a ideia de poder e posse, uma vez que o animal subjugado em uma gaiola é fruto de uma visão distorcida onde a o animal humano exerce domínio sobre outro animal, aproximando pra si um falso crachá de importância, de poder, de posição hierárquica, etc. Há uma frase de Mahatma Gandhi (apesar das polêmicas envolvendo seu nome) que traz uma boa reflexão sobre essa analogia e correlação entre a conduta diante dos animais e os conflitos sociais de humanos contra humanos:

“A grandeza de um país e seu progresso podem ser medidos pela maneira como trata seus animais.”

A abstenção da violência, da injustiça e do cumprimento cego das regras e tradições forjadas em sociedade, encaminha o ser humano, naturalmente, pra uma visão de coletividade e liberdade, onde as pessoas possam se tornar aquilo que nasceram pra ser. Mas, como já vivemos em um modelo social que replica muitos equívocos a tanto tempo, precisamos reconstruir na mente das pessoas, essa lembrança do que de fato é real ou não, o que é justo ou não, o que é natural ou não, o que é aceitável ou não. Uma das primeiras coisas que me vem na mente, quando falo nessa reconstrução, é o extenso trabalho que tem sido feito na moderna cultura da Alemanha, para varrer quaisquer possibilidades do retorno do trágico histórico de nazismo no qual o país figurou. O evento mundial que se tornou icônico pela organização, sistematização e frieza das práticas, deixou os próprios alemães envergonhados com o tema. Diante dessa percepção do absurdo, a própria comunidade se organizou para se posicionar de forma eficiente contra o fascismo, o nazismo e os preconceitos em geral. As crianças são ensinadas desde pequenas, nas escolas, sobre as mazelas desse período histórico, além de conviverem com inúmeras políticas públicas de combate e punição a qualquer fagulha de propagação relacionada a esse período nefasto. Determinadas expressões ou gestos, podem conferir prisão aos indivíduos. Felizmente, em um levante épico, a Alemanha pós-guerra conseguiu se reconstruir em um modelo de sociedade altamente receptivo a diversidade, sendo um dos países com maior expressão desse senso de respeito a individualidade humana. Essa mudança de postura em toda uma sociedade, só foi possível graças ao extenso trabalho de combate ao fascismo e a reeducação das novas gerações desde pequenas. Se hoje eles desfrutam de um espaço completamente diferente do período nazista, é justamente pela decisão consciente dos grupos de indivíduos de agir para frear esses desvios de conduta e pensamento das gerações anteriores.

Ironicamente, os Estados Unidos, apesar de ter sido o principal destino de milhões de fugitivos da era nazista, hoje acomoda na sua sociedade uma descontrolada proliferação de grupos racistas, xenófobos e nacionalistas, incluindo a expressão declarada de neonazistas ou de grupos específicos como a Ku Klux Klan. Essas contradições culturais  talvez se expliquem exatamente pela ação e inação a cada um dos países. Enquanto na Alemanha pós-guerra se tentou combater os problemas, nos Estados Unidos, parece ter havido uma ação menos engajada e mais flexível, provavelmente devido ao modelo de leis que dá brecha para disseminação de discursos e ideologias de ódio, na tentativa ilusória de que essa liberdade de expressão inclui qualquer expressão. Esse equívoco básico com um desfecho prático trágico, demonstra exatamente porque ser libertário não significa, de maneira nenhuma, ser permissivo com quem é contra a liberdade. O combate aos opressores e aos que lutam por ideologias de combate a liberdade humana, não podem estar livres para tal. Se queremos liberdade, devemos apoiar a liberdade e não o oposto dela. Ser permissivo ao fascismo e as demais opressões, não é reflexo de liberdade, sendo, apenas, o oposto deste objetivo. Entender essa lógica básica foi o que ajudou determinadas culturas e países a praticamente extirparem do seu meio os conflitos e preconceitos humanos, criando um ambiente mais próximo da liberdade e do bem-estar, afinal era esse o objetivo sincero por trás da iniciativa e é esse o desejo humano em essência, desde que ele esteja mentalmente saudável.

A luta pelo avanço das mídias e ideologias de combate ao fascismo ainda tem um longo percurso pela frente, mas já está bastante estruturada no mundo inteiro, de forma muito bem embasada e com amplo apoio popular. A cada dia que passa há menos espaço para o fascismo e ecoa cada vez mais alta a ideia de que fascistas não passarão! Diferente das divergências mais superficiais de gostos ou preferências, o combate ao fascismo é uma premissa que toca a essência do ser e, por isso mesmo, é algo que abrange facilmente todas as culturas e indivíduos, pois para a vida dos seres não há fronteira. Princípios humanos continuam sendo princípios em qualquer lugar do mundo. Aqueles que ainda figuram em opressão e desvio de conduta nesse sentido, enquadram-se tão somente em uma fatia social já classificada, já compreendida como falida, fracassada, adoentada e estúpida. O único caminho que o mundo saudável e instruído propõem a estes grupos adoentados é o remédio da reeducação pela informação e/ou a demonstração clara e objetiva de que tais indivíduos não serão tolerados livremente nos meios de convívio, enquanto insistirem na propagação dessas fraquezas. O mundo é daqueles que evoluem. Quem se acomoda na ignorância, colhe os efeitos disso, permanecendo marionete de outros, passando vergonha, perdendo tempo, felicidade e bem-estar. O que pode ser mais doentio do que atirar no próprio pé e sentir orgulho disso? Reflita.

Rodrigo Meyer

Quem vigia os vigilantes?

É preciso estar sempre atento. O mundo, geralmente, não é um lugar fácil e amigável. Perigos, desvios e infelicidades estão em toda parte. Sabemos disso, vivemos isso. Enquanto um problema ocorre, supostamente estão trazendo uma “solução”. Vigiando, observando, reprimindo, controlando, colidindo, anulando.

Incautos ou mal intencionados divulgam ao mundo que a segurança e o bem-estar está nas mãos de quem nos vigia. É conveniente a alguns alucinar a mente de muitos com tamanha inverdade. É a forma que encontram de tentar dizer que Síndrome de Estocolmo é arte e que você precisa fazer parte. E se você não tomar cuidado, não tiver discernimento e mente forte, te levam embora a responsabilidade, o discernimento, a liberdade e seu passaporte.

Vamos pegar um exemplo e chamar o protagonista de um evento, sob um nome inventado. ‘Pedro’, por exemplo, um sujeito pouco instruído, apesar de sua pertença a um grupo escolar privado. Sonha em ir e vir com liberdade, aplaude quando vê outra pessoa vitimada pela violência de um fardado. Acredita estar expressando solução por meio desse apoio, mas se esquece de conhecer a verdade por trás de tal ação e afirmação. Ou, ainda, exatamente por já conhecer, evita admitir o teor de suas ideias alicerçadas em discurso de ódio pelas classes sociais ou simplesmente pelas oposições ideológicas.

Pedro, essa pessoa que alucina ser um conhecedor da realidade, sente-se superior o suficiente pra desejar pertencer a fileira dos fardados. Mas, antes que concretize seu sonho nefasto, é morto com um tiro na nuca exatamente por um daqueles que antes elogiava. O motivo do crime é claro: em um ataque surpresa, correu de medo e foi lido como bandido. E como em terra onde a lei não é respeitada, bandido fardado mata porque disparar um tiro é muito fácil, muito aceito, muito barato, muito praticado.

Pedro se sentia inocente e aprendeu que inocência não é suficiente pra não ser assassinado. Queria ir e vir, mas se esqueceu de que apoiou o grupo errado, o grupo da chancela, do crime e da morte repetitiva pelas ruas e ruelas. Pedro não tinha vivência suficiente ou será que Pedro estava cegado pelo ódio? Um pensamento curto, uma mente pouco alimentada, ausência de sentimento, pouco entendimento político, social, cultural e humano. Cuspiu tantas vezes naqueles que traziam algo pra lhe ensinar que se distanciou de qualquer ajuda que pudesse impedi-lo de morrer assassinado pelos seus próprios admirados.

Não foi traído, pois em nada disso deveria estar surpreendido. Pedro estava apenas muito iludido, acreditando que a exceção aconteceu, quando nada daquilo era improvável. Era só a realidade, que tantos outros passam diariamente e Pedro os rebaixava ainda mais. Agora é tarde pra chorar, Pedro. Com alguma sorte, sua família, absorverá o fato de que pra não sofrer injustiça, não se pode dar o braço a torcer pra nenhuma quadrilha. Quando você apoia a opressão na sociedade, você precisa se lembrar que dela você também faz parte e nela também poderá ser vítima. Lição dada é lição pra ser estudada. Não passe reto da informação quando encontrar a próxima oportunidade ou desviará de toda dica só pra chegar precocemente ao fim da vida.

Existem muitos Pedros pelo mundo, muita gente que deturpa a realidade por conveniência, por desejo de oprimir, por ódio, vingança, covardia e ignorância. Há Pedros em todas as classes sociais, em todas as cidades e países do mundo. Há sempre um Pedro desinformado, mal intencionado ou com a mente distorcida por conta de um trauma mal trabalhado ou a aceitação frágil da repetição criminosas que moldou seu pensamento. Nascem Pedros todos os dias, nas escolas, no meio das ‘tradicionais’ famílias. Há Pedros, Anas, Paulos, Joanas e Pedritas, sempre dispostas a alimentar o próprio caos e fugir da atitude certa de buscar ajuda pra mente corrompida.

Pedro, saiba que há solução. A ajuda que você não teve, tantos outros não tiveram. O mundo se desvirtua pra violência e opressão não por escolha, mas quase sempre por uma situação similar a sua, quase sempre pior em gênero, número e grau. Não importa, a princípio, como, mas é preciso saber que sempre há uma raiz pra todo mal. Se você quiser entender quem é, o que pensa, porque pensa e pra onde vai, terá que dedicar um pouco mais do seu tempo, abrir sua mente, conversar com gente decente, ter humildade pra se deparar com o diferente e se esforçar pra compreender mais fundo do que as falácias plantadas nos jornais.

Fique ligado, não se deixe ser manipulado, não dê fama e visibilidade pra pessoas e conteúdos que não estão verdadeiramente lutando do seu lado. Não pense que é tão simples ser bem-visto, acreditado e respeitado. Quem já descartou ‘direitos’ e ‘humanos’ do dicionário não estará preocupado com seus direitos, porque não te enxergará como humano nem aqui, nem quando você você virar só mais um nas estatísticas. Se você se julga diferente e superior a outras vítimas, você acaba de assinar autorização pra continuar a estar sob risco.

Pedro queria ir e vir com liberdade, mas seu medo e seu ódio irracional o fez apoiar os vigilantes. E quem vigia os vigilantes, Pedro? Em um lugar como o Brasil, não se pode dar tanto apoio e poder pra quem está como vigia mas deveria estar como vigiado. Se não quiser ser enganado outra vez, precisa tirar o cabresto, pra conseguir prestar atenção no que acontece do seu lado. Espero ter ajudado.

Rodrigo Meyer

Sempre tento imaginar a vida das pessoas que vejo na internet.

Não sei bem se isso é um exercício de imaginação, se é mania de autor das áreas criativas ou se é apenas um grande devaneio derivado de nossos micro-preconceitos. Deixe-me explicar. Eu não faço associações de valor às pessoas, mas tento imaginar o que há de vida e personalidade por trás daquelas fotos, nomes ou contextos expostos na internet. Muitas vezes eu até acerto, mas tem vezes em que eu sou surpreendido.

Às vezes vejo, por exemplo, uma pessoa sem foto no avatar do Facebook, um nome inventado que floreia demais ou faz menção à animais. É suficiente pra eu já imaginar uma pessoa de mais idade, talvez lá pelos 50 ou 60 anos, vivendo sozinha e meio entediada, atrás de jogos de navegador e dicas de culinária.

Mas, de onde saem esses “achismos”? A verdade é que são apenas imaginação e não tem nenhum compromisso com a realidade. Pode, eventualmente, ser o caso de algumas dessas pessoas, mas não existe, claro, uma relação direta entre as características do profile com o estilo de vida.

Outras vezes, vejo pessoas ostentando títulos junto ao nome, tal como cargo, profissão, hierarquia ou mesmo símbolos e termos que referenciam à pertença de uma organização, instituição ou qualquer coisa que seja. Nesses casos, vou ter que admitir, acho, quase sempre, patético. Lamento se esse é seu caso, mas a sensação me veem automaticamente e quando penso nos possíveis porquês das pessoas escolherem conscientemente usar aqueles artifícios nos nomes, só consigo pensar em poder e status. E, pra mim, essas duas coisas são um câncer inútil em nossa sociedade.

Veja que, querendo ou não, somos levados a pensar sobre o que vemos. Às vezes nosso referencial não é baseado em nada concreto e outras vezes é um parecer mais embasado. Claro que, como se vê, isso faz toda diferença. Mas as duas coisas ainda são coerentes e aceitáveis, pois apenas expressa a imaginação sobre as possibilidades de algo. O que seria ruim mesmo é um terceiro tipo, onde olhamos pra algo e fazemos juízo de valor, como, por exemplo, dizer que determinado fenótipo, etnia, gênero ou classe social corresponde ou não a valores sociais como honestidade, cultura, intelectualidade, generosidade, beleza, mérito, etc. Isso não é aceitável, nem condiz com a realidade. E justamente por eu não padecer desse malefício é que, talvez, eu fique fazendo tantos cenários de imaginação sobre aquilo que me surge pela frente.

Eu me permito fantasiar um pouco sobre como são as pessoas por trás da internet ou mesmo os anônimos que observo pela rua. Geralmente, nada sei sobre essas pessoas e, com base nas minúsculas pistas que escapam pelo caminho, eu tento montar esse quebra-cabeça. Não é uma tarefa fácil, mas eu gosto de tentar. Muitas vezes, conversando com as pessoas por um messenger, e-mail ou mesmo num post de rede social, eu fico pensando no ambiente em que essa pessoa estaria, qual estilo de roupa tem, que músicas estaria ouvindo, o que estaria comendo ou bebendo. Nada disso é realmente muito útil pra definir a realidade de alguém, mas não posso evitar.

Também faz parte de mim, imaginar a voz dessas pessoas em tempos onde já quase não conhecemos muita gente pessoalmente e mesmo com os áudios dos eletrônicos não temos garantias, pois a distorção e os ruídos são suficientes para transformar qualquer estilo em qualquer outro. A imaginação, sabendo dessas limitações todas, se vê ainda mais útil pra esses momentos e torna a viajar longe, pensando até mesmo no passado e futuro dessas pessoas. Às vezes me contam histórias de infância ou de pequenos causos do dia-a-dia e eu tento compor toda a sequência visual dos fatos.

Talvez eu devesse mesmo trabalhar com cinema. Por diversas vezes me realizei fazendo descrições minuciosas e longas pela Literatura em dramas ficcionais. O simples fato de poder imaginar já me coloca em estado de intensa imaginação. Não posso atestar que eu seja uma pessoa ‘criativa’, mas sei que, bem ou mal, imagino muito tudo e todos. Tenho em mim uma certa tendência e facilidade para a visualidade das coisas. Isso deve ter relação com a minha característica de memória fotográfica e também do meu apreço pelas artes visuais em geral.

Eu sempre estive atrelado a Desenho, Pintura, Arte Digital, Fotografia, Design, Comunicação Visual e várias outras coisas relacionadas à estas atividades, onde tive contato menos direto, como foi o caso da maquiagem, figurino e cenografia que eram muito necessários pro desenvolvimento de Ensaios Fotográficos. Depois de mais de 15 anos como fotógrafo, acho que ainda me vejo preso à essas realidades visuais. Mesmo quando escrevo, é um ato visual na minha mente. Claro, que, ao transpor pra escrita, estou também trabalhando intensamente sobre esse formato específico de linguagem, mas, toda a origem do que eu levo pros textos, quase sempre está no visual imaginado ou das memórias visuais.

Eu não sei dizer se isso é comum ou se é apenas uma característica de uma fatia da sociedade. Tudo que sei é que sou assim e não consigo deixar de ser. Todas as vezes que tentei absorver a realidade por outras maneiras, me via atravancado e sem gerar nada de satisfatório. E, como diz o ditado, não se mexe em time que está ganhando.

Com essa consciência sobre como eu olho o meu redor, brota, de vez em quando, a dúvida sobre como as pessoas me enxergam por esses filtros todos. O que será que meu nome suscita para elas ao se depararem comigo pela internet? Qual é a sensação que passa meu rosto, meus traços, minhas roupas e minhas expressões faciais? Minhas profissões impactam de que maneira sobre as conclusões que tiram de minha personalidade? Como é que seremos enxergados nessa teia de desencontros se tudo que temos é ilusões, deduções, expectativas, idealizações, preconceitos, imaginações, superestimações e subestimações?

Eu confesso que não me importo muito com essa limitação das pessoas. Geralmente elas quebram a cara sozinhas, pois quando validam essas crenças antes mesmo de saber, acabam por fazer isso também com as pessoas que elas julgam melhores e que não necessariamente são. Assim, paga-se o preço pelo achismo, independente pra que direção apontem. Em contrapartida, quando as pessoas se permitem descobrir ou redescobrir algo ou alguém, aí começam as verdadeiras possibilidades na vida. É somente assim que teremos informações mais sólidas sobre quem é que está por trás de todas aqueles substitutos visuais, textuais, simbológicos, etc.

Além da questão óbvia levantada sobre conceitos e preconceitos, é interessante emergir uma questão nessa temática que é a capacidade criativa das pessoas e a habilidade de traduzir realidades ou significados em imagens, símbolos, textos, nomes, etc. Por muito tempo meu trabalho como fotógrafo ao atender os clientes antes de agendar o dia em si da sessão de fotos, era tentar compreender o estilo e personalidade dessas pessoas para adequar sugestões pras fotos em termos de iluminação e cenário, como também ajudar na escolha dos figurinos e um pouco das expressões e poses.

Acredito que se formos bons construtores de mensagens, facilitaremos pra que a decodificação delas seja mais fácil e agradável. Esse é, provavelmente, o mais importante papel de um autor, seja nos textos, na Fotografia, no Design, Cinema ou em qualquer outro espaço de comunicação. O ser humano é um ser social e, como tal, vive muito pela comunicação como ferramenta de intermediação entre ele e os demais. Desde as pinturas rupestres, os gestos, olhares e sons, até as versões mais complexas da modernidade, estamos sempre em constante busca pela assertividade na nossa expressão e compreensão no meio social. Precisamos sempre questionar o poder e função da comunicação humana e dos respectivos poderes psicológicos e biológicos.

Hoje eu tô inventivo, com pinta de filósofo, bem-humorado e com disposição pra aguentar mais incertezas do que normalmente já aguento. Vamos fazer disso um bom momento pra arrastar novos temas, explorar parágrafos fora dos temas propostos e deixar o DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção) escalar o Everest. Até breve!

Rodrigo Meyer

Maiorias e minorias.

Há quem ache que quantidade é sinônimo de qualidade. E isso está bem longe de ser verdade. Grandes grupos sociais podem incluir ou não valores e pessoas de qualidade, independente de quantos sejam no total e quantos sobrem ao final com o filtro da qualidade. A qualidade é um aspecto que quase sempre tentam relativizar, por exemplo, atribuindo ela pro que se faz e não atribuindo pro que os outros fazem. Dessa maneira, por exemplo, os violentos acreditam ter qualidade apenas por assim serem, como forma de tentar justificar essa fraqueza.

Em todas as épocas, maiorias tentaram combater minorias por interesses sórdidos na política, na invasão de territórios, no extermínio de etnias, na escravização de povos, nos boicotes de outros modelos sociais, etc. O resumo máximo que se pode fazer sobre o tema é dizer que as maiorias, em muitos casos, são apenas uma maioria de medrosos e incapazes tentando se resguardar atrás de um coletivo numeroso pra não ter que lidar com suas próprias fraquezas individuais. Você não verá uma pessoa bem-resolvida se importar com o que outras pessoas estão sendo ou fazendo, desde que essas outras pessoas não estejam tirando a liberdade de ninguém. Somos todos livres e só não merece a liberdade que tenta tirar a de qualquer outro. Regra simples de convivência social.

Analisando o conflito de certas pessoas com certas minorias, é fácil ver que, geralmente, o desprezo por tais minorias vem de alguém que olha pra essas fatias sociais e se incomoda com o quanto os indivíduos dessas minorias conseguem ser relevantes, corajosos, vivos, persistentes e influentes, apesar de toda repressão, apesar de toda sociedade, apesar de todos os pesares. Inconscientemente invejam também a liberdade e ousadia que estes possuem em se assumir enquanto os fracos se incomodam até com o que o outro está sendo e fazendo dentro de algum tema ou setor na vida.

Em uma sociedade em que maiorias estão acostumadas com padrões plantados, é fácil ver como as pessoas se apegam à esses padrões como um porto seguro, um parâmetro confortável que lhes dita como proceder, ser, viver, vestir, pensar, agir, do que gostar, o que comer, como trabalhar, etc. Coitados os que vivem nessa fraqueza patética. Vemos, por exemplo, homens inseguros sobre suas próprias sexualidades, constantemente se agitando contra qualquer outro que não esteja formatado pelos mesmos moldes que ele, com a mesma orientação sexual ou concepção de gênero, pois, para o inseguro, tudo que estiver fora dos moldes ele não sabe lidar, lhe parecendo algo muito ousado, forte demais pra quem é apenas um robozinho acovardado e com preguiça mental e espiritual de existir em plenitude.

Com medo de serem tachadas de qualquer coisa diferente, a maioria das pessoas evita as possibilidades, como se o diferente fosse ruim. Coitadas dessas pessoas mal-resolvidas que transpiram montanhas de patetice por questões tão naturais. Certamente você já viu alguém assim, afinal eles estão em toda parte, já que são maioria atualmente nas sociedades. É o homem que não se atreve a ter cabelos longos, com medo de ser tachado de feminino (algo que pra estes é terrível) ou a mulher que evita os cabelos curtos com medo de ser tachada de masculina (como se masculinidade ou feminilidade estivessem no cumprimento do cabelo). É aquele rapaz inseguro que não consome nada de cor rosa porque acha isso inapropriado para homens. São as pessoas que acreditam fervorosamente que tatuagens são sinônimo de má índole, mas que, ironicamente, é a índole de quem pensa assim que tá ruim.

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.” – Paulo Freire

Podemos ver claramente que a pressão social nas massas privou os indivíduos de se expressarem com liberdade e lhe impuseram restrições sexistas, machistas, padrões corporais, moldes de pseudo-religiosidade, falsos valores e a ilusão de status inventado para profissões, graduações escolares, posses materiais e tantas outras coisas. Tristes robôs obedecendo e repetindo regras inúteis.

Ao se sentirem podados de suas próprias expressões naturais, os acovardados que não se rebelam contra essas privações, dividem-se em dois grupos. Uma parte é composta de indivíduos que se privam dessa expressão, vivendo enrustidos ou escondidos do resto da sociedade e outra parte é feita de indivíduos que, de tão inseguros com o tema, não se permitem nem questionar suas próprias realidades e, por isso, passam a vida tentando negar suas realidades e, por isso, precisando se reafirmar dentro dos padrões da maioria pra convencerem a si mesmos de que não são e não precisam ser aquilo de que não conseguiram lidar sequer no campo das ideias. Se possuem demasiada fraqueza de se questionarem e/ou se assumirem homossexuais, por exemplo, às vezes acabam se forçando à uma heterossexualidade falsa apenas pra não ter que lidar com o tema da homossexualidade em si mesmos. E como essas reafirmações são fruto apenas da insegurança, elas são feitas de maneira bem desproporcional e doentia. É assim que nascem os estereótipos patéticos de homens com postura sempre séria, atitudes violentas e machistas, com culto excessivo à características tidas como ‘masculinas’ na sociedade (cabelo curto, músculos desenvolvidos, conduta rude, etc).

E os padrões estão em tudo. Minorias religiosas sempre foram um incômodo pra quem era da maioria e estava mal-resolvido em suas próprias “escolhas” de religião. Também sempre foi assim com ideologias políticas, com hábitos de consumo, com posições sociais, profissões, etc. No fundo, o conflito interno das pessoas é, claro, somente delas. São elas que estão mal-resolvidas com o tema. Quem está satisfeito consigo mesmo não vê necessidade de se explicar o tempo todo e, por isso, quem está sempre em conflito com os livres está, afinal, em conflito com a liberdade. Assim que tiverem uma relação melhor com a liberdade, aceitarão ela como um caminho pra suas expressões e vivências.

O ser humano que se permite experimentar, pensar, refletir, se colocar no lugar de outros, ver possibilidades e dividir espaço com outros temas e realidades, mostra-se equilibrado, seguro de si, afinal sabe que se abrir pra análise e divisão do espaço com qualquer outra pessoa livre não o ameaça em nada. Somente o inseguro não tem essa segurança diante do diferente, das minorias, das coisas novas ou fora dos padrões. Quem facilmente se arma contra as coisas, está se sentindo constantemente ameaçado pela presença delas. E isso é a definição de estar mal-resolvido e inseguro.

Monstros imaginários são criados todos os dias por quem não sabe lidar com o natural. Para quem não tem coragem, um gato inofensivo parece um leão psicótico. Para quem nunca se permitiu olhar ou questionar sua própria sexualidade, a sexualidade dos outros parece ser vista com a mesma distorção. Algo inofensivo soa assustador e incômodo pra quem foi fraco demais pra lidar com a temática dentro de si mesmo. Mas há uma boa notícia nisso tudo: essas fraquezas podem ser revertidas e tratadas. Busque ajuda profissional de um terapeuta ou psicólogo / psiquiatra pra rever quais fatores te levaram a esses traumas e acovardamentos diante de tema tão simples. Ou faça uma análise sozinho e reveja suas realidades internas até conseguir lidar bem com elas.

Às vezes essas posturas exacerbadas diante dos temas são reações por ter medo de ser julgado. As pessoas sabem que a sociedade julga, pressiona e cobra, então, muita gente, com medo de ser excluída ou destratada, inconscientemente se molda aos padrões que são aceitos, com objetivo de garantir que estarão seguras e acolhidas diante da sociedade. Esse comodismo custa a liberdade de expressão, custa sua realização como pessoa, custa a sua felicidade e custa, infelizmente, os direitos e segurança de todos os outros que, mesmo se tiverem força e coragem de se apresentarem como minorias, precisarão lutar com barreiras que as maiorias mal-resolvidas criaram de forma doente e, portanto, desnecessária.

Reveja seus conceitos e se fortaleça por dentro, pois não há músculo, arma ou colete que preencha a falta de coragem de encarar o verdadeiro inimigo: você mesmo e seus monstros imaginários. Enfrente seus demônios internos e verá que ruim mesmo é permanecer na fraqueza sem necessidade. Se achar que não tem as ferramentas certas ou a energia necessária pra buscar resolver-se internamente, conte com ajuda de outras pessoas.  Já antecipo, contudo, que, possivelmente, essas ajudas estarão pelas palavras, ações e trabalho de pessoas vinda das minorias da vida, afinal, prestar não está na moda há muito tempo e se você quer se livrar da mesmice doentia das maiorias mal-resolvidas, terá que buscar ajuda fora delas.

Se você faz parte de certos padrões sociais, mas está bem-resolvido sobre isso, fique tranquilo que o objetivo não é e nunca foi converter ninguém à nada, mas apenas resolver os que estão mal-resolvidos. Ninguém quer transformar carros em bicicletas, nem bicicletas em carros. Apenas queremos que bicicletas sejam bicicletas, sem pressões sociais pra que sejam carros e que carros sejam carros sem pressões sociais pra que sejam bicicletas. Em resumo, seja você mesmo, se expresse, se manifeste, exista e persista. O que é natural vai sempre existir e o que tem que ser destruído é a fraqueza humana, a mentalidade tacanha, o cabresto, os moldes sociais forçados, os monstros inventados, as violências desnecessárias e o medo de viver livre e bem sendo quem se é. Muitas prisões já se fantasiaram de liberdade e é fácil ver isso até mesmo pelas contradições entre símbolos promissores e opostas realidades.

Rodrigo Meyer

Seu futuro pode ser diferente do seu passado.

Existe, infelizmente, uma crença de que estamos condenados a nossa realidade do momento. Mas, as coisas não são assim. Esse pessimismo e/ou imediatismo é um equívoco diante das possibilidades reais. Inclusive, quem mantém esse pensamento equivocado está apenas dificultando que coisas novas e melhores aconteçam no futuro.

A sociedade brasileira e tantas outras, em similar ou pior situação estão acostumadas que tudo piora e nenhum benefício chega até as pessoas que mais precisam. E alimentam-se de esperança apenas quando algo positivo significativo acontece. Valorizar as possibilidades apenas quando estamos em vantagem não é útil se quisermos viver bem e termos melhores chances pra nós mesmos.

Mas, lembre-se que a proposta não é que você forje ilusões sobre o futuro, nem mesmo sobre o presente, como fazem os otimistas. Não devemos ser nem otimistas, nem pessimistas. Acompanhar as realidades já é suficiente pra que possamos decidir quais opções seguir, pois veremos elas à nossa frente, tal como de fato são ou o mais aproximado possível. Já falei em outro texto sobre a importância da postura realista.

Por pior que tenha sido nosso passado, com as mazelas da vida, as dores, os medos, os traumas, os rompimentos emocionais, eventuais situações de doença física, pobreza material ou experiências desconfortantes, temos sempre que lembrar que tudo isso não é garantia de que sempre será assim. Não significa que um toque mágico vai brotar e fazer tudo mudar, mas significa que, suas ações podem eventualmente te tirar dessas condições. E claro, não são nenhuma garantia também, afinal o que fazemos está dependendo do que podemos fazer, do que temos coragem de fazer, do que temos condições, vontade, visão, capacidade, etc.

Não existe fórmula pro sucesso, mas em tudo que pudermos aprender melhor sobre nós mesmos e sobre a realidade que nos cerca ajudará pra sairmos das situações que não desejamos que continuem. É sempre importante estar de olhos abertos, mente aberta e acreditar cada dia mais em você mesmo e no potencial que pode desenvolver ao longo do tempo. Frequentemente, dependendo da sua situação, será necessário abrir os braços e aceitar ajuda de quem puder lhe oferecer. Não há nada de ruim nesse ato e só demonstra que você está pronto para as mudanças e soluções que poderão vir a seguir.

Se você está vivenciando desemprego, por exemplo, não significa que não poderá estar trabalhando em breve. Se está enfrentando superação de traumas ou depressão, tem um caminho pela frente de tentativas que vão te levar para condições melhores. Embora estejamos sempre ansiosos pelas soluções de problemas grandes assim, não podemos fixar o pensamento na urgência do tempo, porque essas situações podem levar tempos diferentes pra serem solucionadas, dependendo de cada caso. A combinação entre a situação e a pessoa vão formar particularidades na equação e que, inclusive, podem se alterar ao longo do processo todo.

O mais importante pra que nosso amanhã seja melhor que nosso presente é entendermos quais são os problemas que temos ou que nos cercam. Uma vez que saibamos disso, temos que tentar apontar valores, condutas ou iniciativas que nos levem pra escolhas de transformação, de ajuda ou superação. Às vezes o acolhimento junto à algum parente de confiança, um profissional da área médica ou psicológica, um terapeuta, um advogado ou, dependendo da sua situação, um agente de Serviço Social.

Muitas pessoas que hoje estão tranquilas e bem-sucedidas, já passaram por situações difíceis no passado. Lembro-me sempre que o ator Keanu Reeves, que muitos admiram e conhecem pela trilogia de filme ‘Matrix’ e tantos outros, já teve a experiência de ser morador de rua. Apesar de todo sucesso, ele se mostrou uma pessoa simples, dividindo o metrô com os demais, sem extravagâncias. Pode ser que o contato com a dificuldade junto à outros moradores de rua tenha contribuído pra uma conduta mais assertiva diante da fama, mas sabemos que isso não é nenhuma regra, afinal várias outras personalidades que vieram de situações difíceis, às vezes compensam o passado, ostentando riqueza ou até mesmo esnobando as pessoas abaixo. Tudo vai depender do estado psicológico de cada indivíduo e de como ele superou ou não os problemas do passado.

Algumas pessoas se sentem tímidas ou envergonhadas de irem de uma situação melhor para uma pior. É como se estivessem deslocadas de si mesmas, pois se acostumaram a viver num padrão de vida ou em uma situação pessoal mais confortável e, de repente, se veem, de certa forma, humilhadas por terem que se submeter a situações mais difíceis de vida. Acontece muito isso com quem perde o emprego e é obrigado a rever toda sua realidade de hábitos, consumos e até mesmo de socialização.

Andando pelas ruas de São Paulo e também de algumas outras cidades, conheci muito morador de rua. Em cada um deles, situações diferentes. Embora todos eles aparentemente na mesma situação, no momento, cada um teve um passado diferente. Já conheci gente que foi pras ruas depois de serem trapaceados pela família em troca de dinheiro, músicos profissionais, intelectuais, poliglotas e vários outros que, por uma razão ou outra, acabaram sem nada e tendo que se render às ruas. Mas, tendo vindo de baixo ou de cima, o fato é que pro momento presente, encontram-se pelas ruas e, a partir disso, cabe a cada um fazer as possíveis escolhas a cada dia que surge.

Para pessoas em situação de vício com drogas, pode ser ainda mais complexo, pois é difícil até mesmo controlar as opções que se tem ao redor, por questões do momento, do tempo, das reações psicológicas diante da droga ou mesmo da limitação social que existe, por conta do afastamento que as pessoas tem diante desse meio. É muito mais comum vermos, por exemplo, alcoólatras serem melhor recebidos do que dependentes químicos de outras substâncias. A classe média e alta empanturrada de remédios controlados é muito mais aceita socialmente do que os entorpecidos de classes sociais abaixo.

As barreiras pelas frente serão geralmente essas. Preconceito social, restrição de oportunidades de trabalho e socialização, a própria limitação física, alimentícia e psicológica diante do modelo de vida e questões ao redor disso, como abrigo, ocorrências isoladas do convívio diário e até mesmo alguns detalhes sobre as políticas públicas sobre as pessoas nessas condições e a cidade no geral.

O que será do nosso amanhã é, porém, a somatória de nossas ações junto com as oportunidades que o meio nos dá. Se unirmos a superação psicológica dos problemas com a iniciativa da busca de ajuda, já teremos quase todo caminho percorrido rumo à transformação. Eu sou especialmente grato pelo momento em que fui alavancado da depressão no passado por quem me enxergou como alguém e teve paciência e vontade de permanecer do lado até que eu estivesse bem. Eu tive momentos incríveis de muita diversão, prazeres físicos e psicológicos de todo tipo e satisfações na vida como a concretização de estudos, aprendizado de idiomas, autovalorização como pessoa e como potencial profissional, entre tantas outras coisas. Passei de derrotado e sem esperança pra alguém que cultivou uma visão melhor sobre a vida e sobre si mesmo.

O grande salto na transformação dos nossos dias está em como lidamos com o que temos ao nosso redor. Eu fui suficientemente flexível pra aceitar possibilidades. E, por isso mesmo, as possibilidades que existiam ao meu redor surgiram. Tive a oportunidade de me tornar fotógrafo profissional, tendo experiências únicas durante o curso de Fotografia que não teria em nenhum outro curso atual, em razão das ocorrências que são próprias do momento. E isso me fez perceber que muitas portas estão abertas ao nosso redor, mas frequentemente não as vemos, porque não as entendemos como portas para aquilo que achamos que precisamos no momento. Temos que mudar nosso entendimento da equação pra sermos mais bem-sucedidos nas nossas tentativas de se erguer.

Às vezes as pessoas acham que a única porta válida pra quem está desempregado é uma oferta de emprego em um cargo em que ela já gostaria de estar pro resto da vida. Se esquecem, assim, que às vezes o mero contato com uma pessoa, em uma situação que não está diretamente relacionada à essa vaga de emprego desejada, pode ser o elo indispensável pra que a pessoa se aproxime da meta principal. A vida não é uma linha entre dois pontos, mas sim uma complexa teia de relações. Você não pode, nunca, descartar as oportunidades que surgem sem antes estar aberto ao potencial delas. Claro que você não precisa atuar em tudo que surge pela sua frente, mas precisa, sobretudo, conhecer e estar aberto pras possibilidades.

Se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci, no momento em que as conheci, da forma que as conheci e pelo intermédio das outras pessoas que tínhamos em comum, nada na minha trajetória teria sido como foi. Os cursos que fiz, os aprendizados que iniciei, os livros que li, as conversas que tive, as viagens que realizei e até mesmo as decisões mais cotidianas sobre meus hábitos e vontades, me levaram onde eu estou hoje. Controlar essa navegação pode não ser tão simples quanto vislumbrar um horizonte ou destino e decidir seguir pra lá. Lembre-se, não estamos vivendo em uma linha reta entre dois pontos.

Você se surpreenderia em quantas pessoas superaram a depressão a partir de um simples ‘sim’ que deram pra oportunidades totalmente desvinculadas com tratamento de depressão. Você se surpreenderia em quantos fotógrafos foram formados a partir de um ‘sim’ para uma amizade despretensiosa. Se surpreenderia em quantas pessoas ganharam a tão desejada credibilidade e valorização apenas por se colocarem em uma postura mais aberta e receptiva diante de momentos. Seu próximo trabalho pode estar atrás daquele emaranhado de conexões de um conhecido que tem um amigo do primo da vó do funcionário de uma outra pessoa, que, essa sim, vai te apresentar pra um projeto que não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho pretendido, mas que em certo momento, vai ser dividido pelo amigo do vizinho que finalmente é o seu elo final pra solução que você buscava desde o começo.

Resumindo: esqueça essa crença de que o futuro não tem solução e que as portas que você encontra pela frente não te servem de nada. A vida é feita de interações. Quanto melhor for seu networking, melhor serão suas possibilidades. Esteja sempre em contato com tudo e com todos e verá como surgem coisas tão diferentes de cada conexão. A diversidade nos leva para novas possibilidades pois cada pessoa tem um universo dentro de si e milhares de outras novas conexões distintas que vão alterar, a cada vez, a trilha que percorremos entre todas essas mais de 7 Bilhões de pessoas que existem no mundo.

Se você despreza a teia, está contrariando a própria matemática da vida e está se boicotando diante do seu próprio sucesso e benefício. Se você começar a desenvolver amor-próprio e se abrir pra situações que te beneficiam, terá as melhores chances de vencer e se dar os melhores resultados possíveis na vida conforme suas realidades gerais. A todo momento eu estou passando e estendendo as mãos, mas, infelizmente, muita gente se fecha e acaba deixando as oportunidades passarem. Eu me sinto grato em perpetuar esse ciclo de transformações por ter entendido o potencial e necessidade de tudo que foi feito pra mim e, depois, por mim. Viveremos melhor se ajudarmos uns aos outros a subir.

Em todo lugar que você estiver, seja grato pelas coisas todas que te beneficiaram ou que podem vir a te beneficiar. Esteja em contato com as pessoas numa relação transparente, seja lá quais forem seus problemas pessoais. Quem tiver mérito pra estar do seu lado, apesar dos seus problemas, estará e quem não estiver, felizmente, irá embora deixando o caminho livre. Não se menospreze pelo modo como você está hoje, porque estar e ser são coisas diferentes. Estamos sempre em constante transformação e o que somos hoje, poderemos não ser amanhã.

Rodrigo Meyer

A relação entre, medo, imediatismo e ignorância.

2017_mes03_dia20_11h00_a_relacao_entre_medo_imediatismo_e_ignorancia

Não importa em qual era observemos, o ser humano sempre consegue nos provar que existe uma relação forte e direta entre medo, imediatismo e ignorância. Em tempos mais remotos, quando pouco se sabia sobre fenômenos naturais, por exemplo, as pessoas poderiam surtar de medo ou euforia por um raio, um trovão, o início de um fogo, uma luz no céu, um terremoto ou uma inundação.

Não saber do que se tratam as ocorrências, mantém nossa mente em estado de alerta, por defesa e instinto de preservação. O desconhecido assusta a maioria de nós. Foi assim com a escuridão, os eclipses, os ruídos na floresta, o contato entre povos pela primeira vez e muitas outras coisas.

Não há nada de errado nisso, a princípio, uma vez que vivemos de acordo com aquilo que conhecemos. O problema só passa a existir quando nos recusamos a investigar o desconhecido para chegar à uma conclusão mais sensata, mais lógica, mais realista. Se temos pela frente um som que nunca ouvimos, deve ser papel do ser curioso tentar decifrar o som, compreender com base nas suas lembranças similares o que possa causar tal ruído. Folhas estalando numa floresta podem ser animais caminhando, se já tivermos experiência anterior sobre isso. Com a repetição das experiências ao longo do tempo, nos acostumamos e o medo ou ansiedade somem.

Porém, se nos acostumamos à preconceitos, não formamos conhecimento, mas apenas ignorância. Se passamos a descrever como monstros quaisquer ruídos na vegetação ou assovios do vento, corremos o risco de persistir nesse engano e acabar nos contaminando com um falso conhecimento. O imediatismo nos faz adotar um sentido, porque a mente tem pressa em se estabilizar e entender a realidade ao redor. E quando ela não encontra uma resposta satisfatória ela pode gerar ansiedade pelo suspense diante do desconhecido e as fantasias possíveis acerca daquilo. E é aí que entram as “soluções” fáceis, embora não realistas. A mente do imediatista vai eleger qualquer situação que for mais simples para servir como resposta ao desconhecido ou à dúvida. Vejamos alguns exemplos.

Alguém toca a campainha de uma casa pela madrugada. É um ato inesperado, considerando que a maioria dos contatos comuns surgem pelo dia (o que mesmo assim, pode ser uma surpresa). Então, muitas das pessoas, ao invés de verificar quem está chamando e ir atendê-lo, coloca-se em estado de alerta e defesa, supondo ser algo ruim, simplesmente porque está fora dos padrões esperados. Colocam-se a pensar se talvez seria algum aviso de parente doente ou acidentado ou até mesmo de um ladrão tentando alguma ação. Mas, muito menos provável é que a maioria das pessoas pense que possa ser algo positivo. E embora isso seja compreensível do ponto de vista da surpresa diante do desconhecido, é papel do ser humano saber mais antes de dar um veredicto sobre a situação. E quais opções existem à partir disso?

O ser humano imediatista vai talvez ignorar a campainha propositalmente, recusando-se às possibilidades seguintes ou ainda vai agir de maneira inquieta, buscando olhar pelas frestas da janela qual é a potencial ameaça que está diante dele. Enquanto isso, o ser humano não imediatista, sem esse medo precipitado, simplesmente vai tranquilamente ver do que se trata, como qualquer outra ocorrência que pudesse haver em outro momento da vida. Em seguida, sabendo um pouco mais do que se trata, decide racionalmente pela escolha em atender e como atender.

E essas diferenças são apenas capricho? De forma nenhuma. Trata-se em não incentivar em nós mesmos, condutas de preconceito sobre as situações, coisas e pessoas. Trata-se de termos uma mente investigativa que se coloca a pensar antes de julgar. Trata-se de não cometermos injustiças e de não deixarmos que nosso imediatismo e ansiedade nos faça humilhar ou reprimir alguém sem necessidade. Trata-se de tirarmos esse egoísmo tóxico de nós mesmos e começarmos a olhar ao redor como um mundo de pessoas e possibilidades. O mundo é para todos e não só para nós mesmos. Não existe reinado onde todas as pessoas são reis. Então elas precisam baixar esse status imaginário e começarem a agir como irmãos, como amigos, como iguais, enquanto forem tratadas da mesma maneira.

Livrar-se de preconceitos é, consequentemente, livrar-se de ignorâncias. Investigar o desconhecido em qualquer tema que for, nos leva a saber mais. Deduzir friamente sem nem se quer ter investigado, é parafusar na testa uma placa de neon que destaca a ignorância do momento. Gritante como o neon da ignorância e do preconceito, o medo também é notório nessas situações. O medo às vezes alimenta a ignorância e o preconceito, pois coloca o indivíduo em reações desnecessárias diante de situações, coisas ou pessoas, apenas porque tem histórico traumático com temas semelhantes.

E é assim que preconceituosos levantam o vidro de seus carros em uma simbólica proteção à potencial ameaça de um pedinte no farol, que de ameaça não tem nada. Mas, para os preconceituosos, o simples incômodo de uma pessoa fora dos seus padrões idealizados, mal vestido, sujo e meio moribundo, lhe parece uma ameaça. Será que esse medo seria, na verdade, o medo que se tem de um dia se ver na situação daquele pedinte? Será que esse distanciamento das pessoas fora dos padrões esperados é tal qual o medo de muitos vivos pela chegada da morte? Seria esse medo doentio fruto de traumas?

Que todos iremos morrer um dia é mais que certo, então sabemos que se estamos vivos, estamos aptos a sermos surpreendidos pela morte a qualquer momento. Mas outras questões não são assim. Ninguém poderá afirmar que por estarmos de pé, alguém virá nos dar uma rasteira, nem que, por termos um prato de comida, alguém virá esvaziá-lo antes de nós. Nem mesmo o medo da garantida morte é necessário pra vivermos bem, então menos necessário ainda são os medos que advém apenas de preconceitos.

E para combater os preconceitos, nada melhor que ter a mente aberta e disposta a pensar antes de falar, pensar antes de agir, pensar antes de julgar. Se encontrar uma situação pela frente, coloque-se naturalmente ao momento como sempre esteve, afinal não é sequer necessário que se planeje qualquer coisa sobre isso. Ninguém cria tabelas sobre ritmos de respiração, apenas respira e vive. Faça o mesmo e deixe que as situações se mostrem tal como elas são. Seja um observador e não um preconceituoso. Dessa forma, todos saem ganhando, inclusive você.

Leitores e escritores estão reunidos neste grupo do Facebook: Escritores e Leitores. Entre e venha conhecer novos conteúdos ou divulgar o seu.

Obrigado por acompanhar. Faça comentários ou perguntas aqui na caixa de texto ou na página. Dê apoio. Vamos todos ler e escrever. Vamos nos conhecer. Se gosta dos textos daqui, deixa um ‘joinha’ no Facebook também.

Rodrigo Meyer