Receita para suprir o vazio.

Viver é um desafio. A vida é um mistério que precisa ser desvendado, uma vez que não vem com manual de instrução ou com objetivos predeterminados. Se deparar com a vida e ter que decidir o que fazer dela é uma tarefa que, pra muitos de nós, leva todo o tempo e, mesmo assim, pode não chegar em nenhuma solução satisfatória. Fato é que muitas pessoas sentem uma sensação de vazio diante da vida e tentam completar esse vazio com coisas igualmente vazias. Parece óbvio, mas está em alta a necessidade de se dizer obviedades, então digo que se as pessoas querem preencher seus vazios, não devem fazer isso com coisas vazias. Mas, o que são esses vazios?

Quando sentimos um vazio na vida, esse termo pode representar uma sensação de que o sentido para a vida é superficial ou insuficiente ou que a vida não parece ofertar valor apesar das coisas que existem e ocorrem (ou exatamente pelas coisas que existem e ocorrem). Superar essa sensação de vazio na vida é uma tarefa de cunho psicológico e filosófico, por vezes com algum viés da meditação, da postura diante do mundo, dos preceitos de espiritualidade, etc. Mas quando tentamos suprir esse sentido da vida, que é algo tão importante, com paliativos ilusórios, é claro que não haverá resultado satisfatório. É como ter fome e ingerir água pra tentar suprir. Por algum tempo você pode até enganar a fome, enchendo seu estômago de líquido, mas se a nutrição pela comida não ocorre, a água será inútil no final das contas.

Tentar levar uma vida com o máximo de satisfação possível é a meta de qualquer pessoa. A menos que a mente da pessoa esteja demasiadamente adoentada para chegar a corromper essa premissa, entende-se que todo ser humano deseja, a princípio, ter uma vida satisfatória, com tranquilidade, felicidade, conforto, etc. Quando não encontramos essa qualidade de vida, nos colocamos a pensar nas razões para esse insucesso. As pessoas que passam por essa reflexão podem chegar a sentir a vida pesada, desinteressante, cansativa, injusta ou até mesmo desnecessária e insuportável. É o caso de muitos que adentram pra depressão, pra abuso de drogas de todo tipo, incluso os medicamentos e produtos legalizados e as demais substâncias.

Em todo canto se vê pessoas buscando soluções para seus problemas, mas sem buscar soluções realistas. Veem-se com insônia, por exemplo, mas ao invés de resolver a causa da insônia, apenas se dopam com algum medicamento que as faça cair em um sono forçado. É evidente que essa qualidade de sono não reflete o mesmo benefício de um sono que ocorre naturalmente e de forma tranquila. Além disso, o uso constante destas medicações pode fazer as pessoas desenvolverem adicionais problemas na saúde e na mente. Como se não bastasse, condicionam a si mesmas a só dormirem mediante o uso destas substâncias, o que as colocam em uma situação de dependência e infelicidade pela ausência de controle de algo simples como o sono. A percepção desse quadro psicológico, físico e até social, pode transformar essas pessoas em geradoras de seus próprios problemas. A infelicidade e a má saúde plantadas nesse modelo de vida gera ainda mais motivos para a insônia e elas entram em um círculo vicioso de problemas.

Preencher o vazio com vazio não funciona. E como é que eu, na minha posição, poderei dizer o que é que cada pessoa pode ou deve fazer pra suprir seus vazios? Simplesmente não posso. Tudo que me cabe é tentar esmiuçar o tema e entregar algumas informações aprendidas ao longo da vida, sobre medicina, psicologia, meditação, espiritualidade e um pouco de empirismo na busca de minha própria libertação. Eu tive depressão por grande parte da minha vida e nunca havia me imaginado fora desse quadro. Acreditava que estaria fadado a uma morte precoce. Durante grande parte desse percurso eu fiz aquilo que estava mais propenso a fazer: nada. Eu me rendi de forma a ter muitos e muitos anos de sono, isolamento, procrastinação, sedentarismo, pouca ou nula socialização e uma constante vontade de desistir de toda e qualquer atividade. Mas, por incrível que pareça, foi exatamente por não fazer nada que tive tempo de observar, analisar e compreender a situação, minha mente, a realidade do mundo, entre tantas coisas. Foi nesse período que pude transformar algo aparentemente infértil na melhor plantação que eu poderia fazer.

Durante meus anos de reclusão, pude sentar diante do espelho, simbolicamente, olhar pra dentro de mim e refletir com sinceridade sobre quem eu era, o que eu queria, o que eu fazia, o que era ilusório, o que era útil. Aprendi muito comigo mesmo. Dizem que todos nós temos um mestre interior, que alguns chamam de ‘Eu Superior’. Talvez seja essa a explicação sobre a capacidade do ser humano de meditar, conversar consigo mesmo e superar barreiras. Por vezes, percebemos que nós mesmos é que inventamos barreiras por conta de nossas crenças, hábitos, imaginações, etc. E isso deixa uma lição importante: somos poderosos! Temos poder de determinar muita coisa para nós mesmos. Da mesma forma que nos submetemos a situações indesejadas, podemos fazer o mesmo para situações melhores. Não posso afirmar que controlamos toda nossa vida, mas controlamos, ao menos, como nos sentir diante da vida e o que fazer com a situação que nos é apresentada.

Em tempos de depressão, tapava meu vazio e afogava minha dor com sono, álcool, comida, isolamento, direção em alta velocidade e permeando um universo de cultura ou estilo de vida de companhias que estavam igualmente ruins ou até piores que eu. Estava claro pra mim que nada daquilo que eu estava fazendo resolveria meus problemas, mas eu já não estava querendo solução pro vazio, mas apenas soluções para estes novos problemas que eu adotei. Queria algo que pudesse resolver esse estilo de vida destrutivo. Estava preso, condicionado a viver uma realidade que já não desejava. E não desejava porque percebia, finalmente, que tudo aquilo era igualmente vazio e que não poderia servir pra suprir o meu vazio sobre a vida. Então, ao menos pra mim, resolver o dilema da vida foi simplesmente me recusar a opções rasas e ilusórias. Comecei a ser exigente comigo mesmo e com os outros. Me coloquei contra pessoas e ideias que não favoreciam os meus objetivos de me tornar uma pessoa livre, tranquila, feliz e preenchida.

Não foi fácil e nem foi rápido. A transição não foi exatamente contínua, uma vez que tive diversas recaídas. Porém, descobri que a cada vez que eu caía, ficava mais resistente aos danos e aprendia os sinais de quando eu estava me aproximando de uma recaída. Minha principal meta nos tempos de recuperação era me manter preenchido de pessoas e situações que realmente tinham valor. No fundo, era somente isso que eu queria mesmo, mas, por muitas vezes, na depressão, não tinha essas presenças ou as ignorava por desconfiança ou insegurança. Muitas vezes eu me boicotei, fechando minhas próprias portas e depois me via sem esperança em um mundo sem caminhos para seguir. Quando parei de andar em círculos, comecei a ver meu potencial surtir efeito simplesmente por ter colocado em prática, com confiança, sem medo, sem procrastinação.

Foi isso que me colocou em um estilo de vida funcional. Sempre que me sinto sobrecarregado com algo, meu instinto de defesa contra a depressão me faz agir e criar mais. Me considero uma pessoa muito ativa, quando comparo com as pessoas ao meu redor. De certo que temos atividades muito diferentes, não só pela quantidade, mas pelos objetivos, pela motivação essencial por trás de cada feito. Olho ao meu redor e vejo muita gente de cara amarrada, infelizes com seus empregos, com seus relacionamentos ou mesmo infelizes de maneira geral com a vida ou a sociedade. Raras vezes encontro pessoas que se permitem ser e fazer aquilo que as preenche verdadeiramente. Grande parte das pessoas buscam apenas válvulas de escape, tapando o sol com a peneira. Podem passar o tempo com isso, mas chegarão, cedo ou tarde, a mesma conclusão: de que não viveram e que continuam infelizes, sendo, provavelmente, ainda mais infelizes por terem desperdiçado tempo na contramão da solução.

O resumo é que temos que nos entregar a valores intrínsecos. Não adianta querer que uma garrafa de álcool, rostos conhecidos numa festa, noites de sexo, sono e comida, possam resolver um problema que não nasceu pela escassez de tudo isso. O vazio da vida não é o vazio por álcool, por sexo, por companhia, dinheiro ou sono, mas sim pela transmutação do indivíduo diante da percepção do valor intrínseco da própria vida. Trocando em outras palavras, o recheio que preenche a vida é a própria vida. É sentar-se em harmonia consigo no espelho e estar satisfeito com sua existência, em poder olhar pela janela e ver o céu, respirar, se presentear com uma refeição saborosa, um cuidado de saúde, um refino estético para contemplar sua própria expressão. A vida, no final das contas é dividir uma risada, mesmo que sóbrio, dedicar tempo em conversar, abraçar, sentir, se entregar, se entreter.

A vida é um espetáculo que nós mesmos dirigimos. Contracenamos com muita gente em múltiplos cenários. Cabe a nós, como atores e diretores, definir a mensagem, o timing, a trilha sonora, os planos, os closes, os cortes de cena e assim por diante. No final de tudo teremos um espetáculo digno de se assistir na memória, pelo que fizemos a nós mesmos e aos outros. Isso preenche, isso transborda. É isso que me faz acordar todo dia pra continuar, com disposição mental e física. É isso que me mantém esperançoso pelo meu futuro, independente da condição dos demais. E quando se tem paz, a pressa some e sobra disposição pra correr mais. E pra você, o que é que te satisfaz?

Rodrigo Meyer

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A receita é estar em dia.

Sobreviver com disposição diante do excesso de estímulos está muito relacionado em como você organiza e gerencia o mundo, antes que ele te invada descontroladamente. Com tantas pessoas, tantos ruídos, placas, sons, luzes, carros, comércios, produtos, links, vídeos, livros, ideias, memórias, nossa mente acaba se saturando pelo excesso e tende a falhar. Às vezes a mente humana lida com os excessos buscando simplificações, reduzindo o tempo de atenção ou a complexidade em algo.

Em placas de trânsito, por exemplo, busca-se reduzir o máximo possível da complexidade das formas e cores, já que os motoristas terão pouco tempo pra processar cada uma delas. Pra que facilite ao cérebro do motorista compreender o que fazer nas ruas e estradas, as placas sintetizam imagens e encurtam informações de texto, se posicionando com uma certa margem de distância para que o movimento do carro seja compensado. Além disso cores ajudam a interpretar mais rapidamente o conteúdo, uma vez que nos habituamos a estas combinações. No restante da vida, nem sempre haverão planejamentos a nossa disposição, então teremos que fazer nosso próprio controle das situações.

Quando se abre o navegador do computador, por exemplo, começamos visitando um site, mas logo nos deparamos com um link, uma foto, uma conversa e, mais sites começam a abrir em paralelo com aquilo que gostaríamos de ver ou guardar pra um momento mais oportuno. Em pouco tempo, aquela tela minimalista com um único site, se torna uma biblioteca bagunçada de conteúdos. Às vezes as pessoas mantém aberto até mesmo um conteúdo já visitado, pela praticidade de tê-lo ali pra uma conferência, um compartilhamento futuro, etc. Sem perceber, elas se afogam em uma malha confusa de dados que não as ajuda a ir pra frente. Ficam com os pés presos nessa malha e estão quase sempre irritadiças por isso.

Este tipo de situação pode ocorrer em diversos setores da vida. O grande segredo pra se livrar dessa tensão gerada pelo acúmulo é, exatamente, não permitir o acúmulo. Assim que fizer proveito de um conteúdo, você já pode descartá-lo para ir ao próximo momento, próxima tarefa. Estar em dia com cada um desses conteúdos, te faz perceber que, na verdade, você ganha mais tempo. Torna-se mais eficiente em criar, pensar, interagir e viver, pois dedica menos tempo mental e/ou físico em cada uma dessas atividades. Quando você percebe que está completando uma tarefa com menos tensão e menos esforço, seu cérebro sente-se recompensado por aquela atividade e permanece em um estado melhor para a próxima tarefa. Isso se torna uma sequência de bem-estar associada a sua produtividade e é isso que você vai adorar ter ao lembrar do quanto você tem feito por você mesmo, diante da imensidão de coisas que existem ao redor.

Para muitas pessoas a satisfação pessoal advém do cumprimento dessas metas. E para que as pessoas possam chegar felizes em seus objetivos, elas precisam limpar o caminho para não tropeçar na desorganização ou na desmotivação que isso causa. Um ambiente favorável é aquele onde não temos que nos preocupar com excesso de estímulos para serem processados. Neste tipo de ambiente clean pode-se perceber um aumento substancial do seu bem-estar físico e mental. Não é uma garantia de que você vá se tornar uma pessoa feliz, mas com certeza vai concretizar melhor suas tarefas e isso pode ser um ponto valioso pra te entusiasmar a fazer mais e/ou melhor. Para muitas pessoas, isso ajuda a tornar-se mais satisfeito e feliz.

Para se estar em dia com as coisas, é preciso entender que não teremos como abraçar o mundo de uma vez só e que está tudo bem, afinal essa premissa é a mesma para todo ser humano. Temos que ser conscientes de que o volume de estímulos tende sempre a ser maior do que cada pessoa é capaz de gerenciar. Então, é preciso filtrar o máximo possível com base na necessidade e qualidade. Elimine do seu campo aquilo que não está em uso no momento. Feche as abas de navegador depois de visualizar o conteúdo; procure manter-se desconectado de sites e aplicativos que emanam alertas de mensagens ou atualizações; desligue o celular durante uma tarefa de criação ou concentração; limpe sua mesa de trabalho e guarde tudo que não for utilizar na sua próxima tarefa; mantenha seus livros guardados com algum critério, para que sejam fáceis de encontrar futuramente; mantenha suas tarefas domésticas em dia, como a louça e roupas lavadas, a arrumação do quarto, etc. Enfim, faça seu cérebro perceber um contexto simples na vida, pra que você possa dedicar seu esforço no progresso de outras atividades, ao invés de dispersar energia com o que costumeiramente fica sem ser resolvido.

A mente consciente não percebe grande parte das coisas, mas a mente inconsciente sabe que determinado objeto está em cima da mesa, que determinado livro não terminou de ser lido, que as roupas no varal não foram recolhidas, que a louça ainda não foi lavada e que aquelas abas do navegador ainda permanecem ativas, mesmo que você sequer possa ver todas no estreito espaço da sua tela. Tudo isso acaba perturbando a mente e enfraquece nossa disposição em ser e fazer.

Através do minimalismo, conquistei muito progresso pessoal. Quando não tive mais que me preocupar com um quarto cheio de objetos, uma casa cheia de móveis e uma vida cheia de estímulos desnecessários, minha mente finalmente focou naquilo que era importante pra minha vida. Essa mudança trouxe, inclusive, um bem-estar e facilidade em cumprir as tarefas secundárias de menor importância, como lavar a roupa, a louça, se programar pra ir pagar as contas ou almoçar. Quando tudo isso se torna organizado e simplificado, não se torna uma obrigação chata, mas apenas um momento rápido e fácil. E se sua mente vai bem ao longo dessas centenas de pequenas situações, seu dia se torna um bloco de sucesso. É basicamente isso que te dá tempo e motivação pra fazer algo um pouco maior, já que agora sua vida e sua mente possuem espaço. Mente zen, vida zen. Quando você reduz o tamanho do mundo, formigas podem se tornar gigantes. Crescer como pessoa e progredir em suas atividades, seja trabalho, arte, hobby, estudo ou relacionamentos, está muito relacionado com as suas prioridades e em como você está tranquilo para gerenciar as coisas menores ao redor. Começar a desenhar em uma folha em branco é muito mais fácil do que ter que apagar uma folha primeiro pra só depois poder reutilizá-la.

Rodrigo Meyer

Esse é o título. O texto vem a seguir.

Tão importante quando o texto em si, são os títulos que os representam. Quando você entra em uma livraria e se depara com toda aquela profusão de capas, algo te puxa a atenção pra um livro em particular. Você começa sendo guiado pela capa ou lombada e logo em seguida confere o título pra ver do que se trata. É o título que pode te fazer querer consumir aquele livro ou não. É ele a fronteira entre a capa e o conteúdo. E isso serve também pra conteúdos na internet, como as imagens de miniatura de um link compartilhado e sua respectiva descrição / título que acompanha.

Um título eficiente precisa comunicar um pouco do que o texto vai trazer e ter alguma criatividade pra não ser um rótulo técnico e banal que poderia, facilmente, ser substituído por uma sequência de números ou um código de barras. Existem títulos que são muito mais persuasivos para levar as pessoas a ler um livro ou clicar em um link de conteúdo. Mas, muitas vezes, esses títulos fazem uso de sensacionalismo. Para títulos assim (e também para as imagens que os apresentam), chamamos popularmente na internet atual de “click bait”, ou seja, uma isca de cliques. Basicamente tentam atrair a pessoa com algo muito ‘apetitoso’, despertando não só a curiosidade como um micro-prazer em explorar aquela curiosidade. Contudo, o motivo de seu nome é descoberto a partir daí, pois depois de clicar pra ver o conteúdo, percebe-se que não era tudo aquilo e que o título superestima o momento e conteúdo, transformando ervilhas em elefantes e biribinhas de festa junina em explosões atômicas. E a decepção vem, mas já é tarde demais, pois você já absorveu o conteúdo, deixando sua visualização naquela mídia.

Em tempos onde as pessoas vivem de estatísticas pra suas monetizações de conteúdo, atrair incautos pra suas mídias sensacionalistas é quase que uma unanimidade. De maneira similar, impressos como os tabloides americanos e alguns jornais brasileiros, alicerçaram suas rendas na venda desses entulhos sensacionalistas. As pessoas se impactavam pelo absurdo e adquiriam o material pra sanar a curiosidade.

Uma vez que os criadores de conteúdo sabem como as pessoas vão lidar com esse tipo de mídia, tornam-se responsáveis eticamente perante seu público. É extremamente difícil criar um título pra qualquer coisa que seja. Interpretar um valor, um evento, um livro, um vídeo ou filme do cinema, exige compreensão da essência por trás de toda aquela mensagem. Às vezes uma sequência de conteúdos é absorvida com entusiasmo, porque o autor dos conteúdos é mais forte do que qualquer título. Se Bill Gates lançasse um livro escrito “Livrinho 1 – por Bill Gates”, as pessoas teriam curiosidade de saber o conteúdo desse livro, pois independente do título, o autor é alguém relevante tanto pra fãs quanto pra opositores. As pessoas querem saber o que o homem mais rico do mundo tem a dizer. Talvez o título ruim possa ser até mesmo um motivador adicional para a curiosidade, pois não se espera que um milionário não consiga algo melhor pra suas mídias. Mas, se você é um anônimo e está tentando ganhar visibilidade no meio, você dependerá muito da sua melhor apresentação de suas mídias.

Como criar um conteúdo que seja atrativo sem tornar-se sensacionalista ou apelativo? Esse é o grande embate. Eu procuro repensar bastante os títulos finais de tudo que eu produzo, mas às vezes essa tarefa pode ser mais demorada do que a criação do próprio conteúdo em si e, por isso, muitas vezes sou obrigado a simplificar e deixar títulos mais diretos que estejam relacionados com o objetivo óbvio do texto. Mas a obviedade não é atraente, não é instigante, não é criativa, não é viva. Por vezes, sem querer, os títulos podem parecer um pouco sensacionalistas, devido a natureza do texto e por como certas menções no título se tornam indispensáveis ou mesmo o caminho mais fácil pra descrever seu conteúdo.

Algumas pessoas se acham geniais por conseguirem administrar bem essa exploração de click baits, mas, na verdade, são apenas pessoas sem ética que aceitam com tranquilidade forjar conteúdos para parecerem mais interessantes do que são e lucrarem com esse crescimento fácil. Pessoas desse tipo, não estão preocupadas se seus conteúdos prestam ou não. O objetivo delas não é entregar conteúdos relevantes, mas apenas te fazer absorver esses conteúdos, plantando em você a curiosidade diante do sensacionalismo. Vê-se claramente que isso dá resultados entre uma população que é pouco regrada e que tem uma ingenuidade e credulidade exacerbada. A idiotice humana sempre rendeu muito lucro e poder para uma minoria de exploradores dessas massas idiotizadas. O ser humano que pouco questiona o que se apresenta diante de si é o candidato perfeito pra endossar conteúdos vazios e ajudar a propagá-los.

Se o seu conteúdo estiver a altura de um título atraente e criativo, é possível que ele seja adequado sem cair em algo apelativo ou com prejuízo da ética. Não existe uma fórmula específica. Há de se colocar no papel do público e imaginar como seria se deparar com o título e imagem de algo pela primeira vez. Que impacto e sentimento aquilo causaria em determinados tipos de pessoas? Que outros valores e sentimentos essa combinação suscita a quem vê? Entender a psicologia por trás do que criamos é importante para sabermos como somos vistos e como impactamos o mundo. Que legado estamos deixando? De que maneira estamos buscando nossas supostas vitórias? Essas reflexões são urgentes. Em tempos de internet onde as pessoas tendem a imitar casos famosos, o exemplo é essencial.

Quando você se sente enganado com um título ou imagem sensacionalistas e apelativos, depois de compreender que o conteúdo está distante da proposta inicial, você reage como? Você endossa essa mídia mesmo assim? Você boicota tal mídia? Você inspira outras pessoas a seguirem caminhos melhores? Qual seu papel no mundo? Se todos tivéssemos equilíbrio e ética naquilo que produzimos, não veríamos necessidade de tentar buscar sucesso por meio do egoísmo que é tentarmos vencer a qualquer custo, mesmo que isso envolva pisar e usar os outros. Comece a repensar sua conduta, porque até mesmo os melhores e maiores prédios que a Engenharia pode produzir, ainda podem ruir se o solo em que estão alicerçados for insuficiente pro peso. Diz-se que quanto mais alto subimos, maior será o dano na eventual queda. Então, suba sem colocar sua qualidade estrutural em risco e tente vencer da forma correta, pelos motivos corretos e ao lado das pessoas e não contra elas. Você não precisa explorar ninguém pra vencer. Lembre-se do conceito de Ubuntu, onde o coletivo trabalha pra vencer junto e não pra competir entre si. Se todos se derem as mãos pra chegar em lugares melhores, nunca faltará apoio e sucesso pra todos. O bem-estar maior é quando não só nós vencemos, mas todos ao nosso lado também. Vencer sozinho é egoísmo. Vencer junto é paraíso.

Rodrigo Meyer

Como é ser autônomo?

Existem muitas formas de se bancar a vida e uma delas é pelo trabalho. Entre as possibilidades de trabalho, ser autônomo carrega um peso no termo que nem sempre tem. Às vezes as pessoas pensam que um autônomo é um desempregado ou alguém que faz bicos pra sobreviver. Um autônomo, na verdade, é qualquer pessoa que trabalhe por conta própria, que leve seu próprio serviço ou produto adiante, sem depender de um chefe. O autônomo é, portanto, alguém que tem autonomia em seu trabalho.

Passei uns 15 anos da minha vida trabalhando com Fotografia e uns tantos outros mergulhado em Comunicação, Editoração, Vendas, Design Gráfico, Literatura e outras coisas. Acredito que boa parte dos motivos dessa diversidade está na própria dificuldade que é se manter ativo com esse modelo de trabalho. Quando se é autônomo, todo investimento parte do seu próprio bolso e, quase sempre, você não tem a estrutura necessária pra tornar-se, logo de cara, um grande profissional. Todo começo é difícil e requer resiliência. Mesmo se você gostar muito do que faz e tiver persistência, ainda sim pode se ver derrapando pra fora dos seus objetivos.

Diferente do trabalho convencional de carteira assinada, o autônomo não tem garantias de que no final do mês terá a mesma renda. Apesar da aparente liberdade que é gerir seu próprio negócio, ser o único responsável pelo seu trabalho e ter certos confortos como poder decidir suas regras, você não está imune a realidade. Acima de tudo, ser autônomo é lidar diretamente com clientes e ter que assumir responsabilidades em todas as direções. Ficamos responsáveis por gerir nossas finanças, nossa propaganda, nossa captação de clientes, o atendimento aos clientes e potenciais clientes, o portfólio de nossos serviços, nossa imagem pessoal, nossos espaços de trabalho, nossos colaboradores, nosso fluxo e horário de trabalho, nossa produtividade, nossos riscos e instabilidades diante do mercado, etc.

Ser autônomo é ter que conviver com a possibilidade de que lhe faltem clientes pra cumprir a renda suficiente pra bancar as contas do mês. Muitas vezes, nossos períodos de arrecadação sequer são mensais, exigindo que controlemos os gastos de quando entrou renda pra que ele dure pelos períodos onde não houver trabalho. Claro que o trabalho registrado também tem riscos. Uma empresa que se veja em crise ou pressão financeira pode acabar demitindo funcionários para cortar seus gastos. E mesmo quando bem estruturadas, podem acabar recusando certos profissionais com base em suas limitações e currículo. O imprevisto não é exclusividade do autônomo. A suposta “estabilidade” da qual o emprego formal leva fama, não é tão real assim e, dependendo do tipo de trabalho formal, torna-se até a pior opção pra quem busca qualquer grau de estabilidade.

Desde que você aprenda corretamente o caminho pra trilhar, o trabalho autônomo pode ser uma forma eficiente de vencer financeiramente, desde que você não esteja na contramão de certas premissas do próprio mercado de trabalho e da sociedade em que está atuando, o que já é bastante difícil, principalmente se você buscou o trabalho autônomo pra fugir dos problemas do trabalho formal. Eu nunca quis emprego formal e desde pequeno sempre imaginava que as profissões que eu teria, sejam lá quais fossem, seriam sempre empreendimentos próprios. E eu tentei isso de muitas maneiras, embora lamente muito não ter recebido nenhum apoio nunca, mesmo que fosse meramente simbólico e emocional. As coisas poderiam ter sido muito diferentes, o que não impede que, eventualmente, sejam no futuro.

Quando você é autônomo você precisa entender não só da sua atividade técnica específica como também das questões ao redor do seu negócio. Ser gestor de um produto ou serviço e, também, de si mesmo como funcionário, é ter a cabeça fervilhando de barreiras, dúvidas, pressões e necessidades. Criar algo que seja relevante, assertivo, coerente com o momento, sem deixar sua carteira vazia é um desafio grande. Você acaba aprendendo muita coisa com esse jogo de cintura, mas também perde muito dinheiro e oportunidades experimentando o desconhecido e tentando corrigir suas falhas anteriores.

Enquanto empresas possuem uma equipe de funcionários trabalhando cada um em seus departamentos, o autônomo faz o papel de todos esses funcionários e mais diversos outros. É um esforço grande, muitas vezes fonte de exaustão física, mental ou psicológica e deixa muita gente desmotivada ou deprimida, principalmente quando os retornos financeiros não condizem com todo esforço feito.

Se você tiver o azar de escolher uma atividade que não seja compreendida e/ou valorizada pela sociedade, você pode se ver pressionado a mudar completamente seus objetivos de trabalho caso queira ter clientes. Isso significa, muitas vezes, trabalhar com o que não gosta, produzir coisas que não tem a sua personalidade e até mesmo a executar trabalhos que não são de fato os realizados por aquela profissão. Muitas vezes como fotógrafo, por exemplo, as pessoas queriam apenas imagens ao invés de Fotografia e a isso a Fotografia não se presta. Essas situações faziam o trabalho parecer caro demais, similar quando uma pessoa que está procurando por patins, se depara com os custos da produção e viagem de um foguete pela NASA. São coisas totalmente distintas. Aparentemente são meios de transporte, mas os objetivos e utilidades não se aproximam em nenhum grau.

Compreendidas as limitações culturais e educacionais da sociedade, os próximos dramas do trabalho autônomo estão mais relacionados com nossas próprias limitações. Investir em aprendizado, atualização, equipamentos, softwares, livros, mídias e tudo que envolve existir por completo no mercado, exige condições financeiras e empenho em aprender. Como o dinheiro já é escasso no começo, todo progresso vai a passos de tartaruga, porque você não pode, por exemplo, bancar um curso sem antes ter clientes para ter renda suficiente pra bancar suas contas comuns mais a conta desse curso. Resumindo, é aventurar-se em tentar chegar o mais longe possível, com o mínimo de estrutura.

Hoje em dia com as plataformas digitais, como Youtube e Facebook, o próprio modelo preexistente ajuda a guiar os profissionais pro caminho do sucesso. Mesmo assim, ainda são inúmeros os casos de pessoas que, pelo extremo despreparo, não conseguem sobreviver nas atividades iniciadas e passam anos andando em círculo em tudo que tentam criar. As plataformas não te ensinam a vencer, mas te dão trilhas bem consistentes de como permanecer no caminho. O restante depende muito do produto ou serviço e da forma como você faz uso das ferramentas disponíveis pra engajar seus clientes nessa caminhada. Muita gente desperdiça dinheiro, tempo e imagem, seguindo equívocos gigantes por efeito manada. Veem muita gente errando e acreditam que aquela prática é o normal. Imitam e erram também, ampliando o efeito para os próximos incautos.

Mesmo quando o autônomo vence nos seus objetivos, permanece a dureza do próprio trabalho que, a medida em que cresce, precisa ser mantido com cada vez mais empenho, pra não correr o risco de ruir da noite pro dia. A melhor postura pro autônomo que pretende se consolidar é ir formalizando e diversificando seu trabalho, de forma a ter mais garantias, caso algo saia errado em parte de suas atividades. Todo dinheiro conquistado deve levar em conta os riscos e inconstâncias e tentar sempre superar a meta básica como forma de estocar renda para os momentos de escassez.

Eu sou um grande incentivador pra que mais gente se torne autônoma, em diversos nichos. Contudo, sei que boa parte das pessoas possui medo de começar um negócio próprio e elas parecem ter mais medo ainda de dedicar estudo real e profundo pra uma área. Enquanto as pessoas acreditarem que as atividades são fáceis, nunca as executarão de forma efetiva. Negligenciar investimentos em estudo e estrutura é a receita garantida pra fracassar logo no começo. E, infelizmente, muita gente não aprende com o tombo e corre pra debaixo das asas do trabalho formal pra chorar suas dores.

Ser autônomo pode ser um modelo bem divertido de trabalho, se você gosta mesmo do que faz. A grande sacada pra sair na frente é pensar fora da caixa e acreditar de verdade naquilo que você faz e nos objetivos de seu trabalho. Talvez você não se torne rico, mas com certeza cada dia de trabalho estará bem justificado na sua vida. Acredito que pessoas criativas e ousadas abrem portas que muita gente evita ou sequer vê. E por trás de portas pode não haver nada, como também pode haver tesouros incríveis. O bom jogo é explorar as possibilidades e ser uma pessoa flexível, curiosa e aberta pro incomum, pro diferente, pro novo, pro incerto, pro inesperado. Todos que venceram, tentaram. Todos que desistiram, garantiram o fracasso. Escolha seu lado, escolha suas ferramentas e vamos pra ação!

Rodrigo Meyer

Quem tem tempo livre é privilegiado.

Diante do tédio ou até da solidão, as pessoas podem pensar que esse aparente vazio de atividades ou pessoas é um desprazer ou problema. Mas olhando pro tema de forma mais fria, o tempo livre que advém de certos estilos de vida ou contextos acabam por ser um privilégio.

Em um mundo conturbado onde faltam condições boas de trabalho e socialização, as pessoas, muitas vezes, estão sem tempo para nada. Lhes falta tempo para digerir a comida, para conversar, para pensar, para sentir prazer, para dormir, para viver. Amarradas pelo trabalho excessivo ou por um trabalho que as obriga a permanecer disponíveis por muito tempo, sem poderem ir pra outro lugar ou sem poder iniciar outra atividade, essas pessoas ficam sugadas por realidades pouco proveitosas.

Muitas pessoas acreditam que o benefício do salário ou simplesmente a “sorte” de terem um emprego enquanto muitos estão desempregados, é motivo suficiente pra aceitarem essa ausência de tempo livre. Se esquecem (ou desconhecem) que existem inúmeras outras formas de trabalho. Talvez não resultem no ilusório status como ser um engravatado que vai ao escritório todos os dias ou que preencha uma fantasia mal estruturada como a de trabalhar em algo que elas julguem mais divertido, mais importante ou mais digno, mesmo quando não procede.

Muita gente escolhe encerrar seu tempo extra preso ao trabalho e outras pessoas, por falta de opção ou por não verem as opções que existem. Permanecem em trabalhos que lhes toma muito esforço físico, mental e/ou emocional e lhes deixa com pouco tempo livre pra qualquer coisa de cunho pessoal, como os prazeres, os descansos, os pensamentos, as reflexões, os momentos de cultura, as abstrações sobre a vida, etc.

Uma vida sem tempo livre, torna-se, portanto, uma vida improdutiva. Produz-se o máximo possível dentro do trabalho em que se exerce, mas, ao final das contas, pouco se produz em prol da sociedade ou de si mesmo como indivíduo. O coletivo adoece do ponto de vista social enquanto que os patrões se fortalecem com modalidades de trabalho que pouco tem a ver com pessoas, mas muito tem a cobrar sobre resultados, vendas, dinheiro e uma perseguição alucinada por lucro às custas de quem precisa de empregos pra sobreviver e não quem está disposto a ser uma peça colaborativa em uma atividade por escolha própria.

É tão verdade isso que raros são os países que tentaram alternativas sociais e econômicas como foi o caso da Finlândia, com a ideia de tornar o trabalho facultativo no país. Imagine uma sociedade onde cada pessoas recebe um valor mensal independente de trabalhar ou não. Você pode pensar que receber dinheiro sem trabalhar pode fazer as pessoas desistirem de trabalhar, mas a verdade é que o que se observou é que as pessoas continuam trabalhando, porém, como a renda é igual para todos, as pessoas escolhem trabalhar com o que gostam e não com o que “precisam”. Livres das amarras de seus empregos, elas decidem lidar com aquilo que possuem mais prazer, aptidão ou que lhes faça mais sentido.

É nesse ponto que precisamos tocar. Em outros países, onde isso não é aplicado, as pessoas não possuem tempo para fazer o que realmente acham prioridade, porque sobreviver se torna uma prioridade ainda não garantida, que só é conseguida através da aceitação de um emprego, mesmo que não seja o emprego ideal, afinal, sem emprego a pessoa não tem renda para bancar sua existência em um mundo onde essa é a moeda de troca para os bens e serviços na sociedade.

Mas, ao invés de focar em questões específicas dessas políticas, quero destacar o valor por trás do tempo em si. É deste tempo que muitos não possuem, que vem a oportunidade de, por exemplo, meditarem, criarem arte, se envolverem mais com a vida de seus filhos e parentes, expressarem suas ideias em um livro ou qualquer outra mídia, realizarem seus sonhos e vontades de conhecer outros países e realidades, dedicar tempo para servir a sociedade de forma mais assertiva e constante, como no caso de ONGs ou iniciativas de ajuda social menos formal.

Pense em como a sociedade seria muito mais engajada em se resolver e se entender. Muito mais seria produzido, sem desconforto, sem que seus tempos sejam desperdiçados com o que elas não querem fazer ou não julgam ser uma prioridade pra seus ideais de vida, tanto pessoalmente quanto coletivamente.

Pensar o mundo e mudar paradigmas humanos sobre a existência, passa, invariavelmente, por decisões criativas e inovadoras de se ver o próprio modelo social, o sistema político, o sistema econômico e os modelos sociais e culturais de uma região. A medida em que essas mudanças trazem opções e não pressões, as pessoas passam a entender que o valor humano não é uma utopia distante do bem-estar coletivo. Na verdade, descobrem que, caso se organizem bem, todo mundo pode viver confortavelmente tanto no sentido financeiro e material quanto no sentido de suas aspirações pessoais, sua realidade como indivíduo, sua personalidade, suas questões e dramas emocionais e psicológicos, a medida em que tem uma abertura maior para opções em sua própria vida, podendo resolver outras questões com mais dedicação, menos pressão e maior suporte.

Pensar no coletivo é, no final das contas, pensar no bem-estar de cada indivíduo. E sem tempo livre, não temos nada disso. Sem tempo livre, só nos resta obrigações perante a realidade ao invés de nos colocar no papel de pessoas que criam, que expressam, que pensam, que mudam, que se divertem, que fazem o mundo melhor e que fazem de suas próprias vidas algo melhor. Vamos mudar?! Empodere o coletivo de sua região, seu bairro, sua família, seu grupo de amigos, seu espaço de ação pública, seu grupo artístico, suas mídias de iniciativa política, os espaços de educação e reflexão, as ONGs e qualquer outro espaço de interação e ajuda social ou de suporte pessoal. Vamos em frente!

Rodrigo Meyer

Como é ser workaholic?

Workaholic é um termo adotado pra fazer uma analogia com “alcoholic” (alcoólatra, em inglês). Assim, o workaholic é como um viciado em trabalho (work). Claro que isso não é necessariamente ao pé-da-letra, mas existem também casos de pessoas que adoecem pelo excesso de trabalho ou que passam por situações indesejadas em decorrência do vício em trabalhar. Mas, de forma geral, o termo “workaholic” é usado quase que por humor pra casos mais leves onde as pessoas são muito mais interessadas em trabalhar e produzir do que ficar a esmo. E existem muitos graus disso e também motivos muito distintos pra essa postura.

Eu me considero um workaholic, no sentido de sentir necessidade de criar. Eu estou sempre disposto a fazer alguma coisa. Talvez por eu ver prazer nas coisas que faço, o trabalho não seja um incômodo e, portanto, desejo mais dele. Passei cerca de 17 anos na Fotografia e, incontáveis vezes, fotografei de graça quando não haviam clientes, pois adorava fotografar. Geralmente quem tem uma profissão como essa, estende ela pros momentos pessoais também. Eu viajei bastante pra registrar lugares e sempre estive com a câmera a postos nos momentos de família e relacionamentos. É claro que esses momentos pessoais não eram trabalho, mas eram preenchidos com atividades que demandavam certo esforço.

Ocupar minha mente com tudo isso, seja por dinheiro ou não, fazia parte de quem eu era. Ainda me vejo em situação similar, embora eu tenha aceitado, com muita tranquilidade, o ritmo diferente de atividades de quem está sem trabalho às vezes. Sempre fui autônomo e, por isso, nem sempre estive ocupado com clientes. Preenchi meus dias escrevendo, desenhando, desenvolvendo pinturas digitais, vídeos, composições e todo tipo de criação. Atualmente, com uma predominância maior de trabalhos em design gráfico, me vejo sempre recriando velhas mídias, atualizando projetos e prospectando novos clientes a partir do que já tenho feito.

Cursei faculdade de Comunicação Social e de lá pra cá, tudo que eu fazia estava muito marcado por essa ponte entre o público e algo. Desde a Fotografia, que também é Comunicação, até todas as outras mídias de expressão, sempre estive na busca de encontrar os meios necessários pra viabilizar a aceitação e entendimento do que havia de melhor entre as pessoas, os projetos, os eventos, os conteúdos, as ideias, etc. Acredito que por gostar muito de tudo isso e de ver resultados sólidos brotarem, acabei me entregando full time nessas atividades, mesmo quando eram apenas pra mim. Talvez eu tenha me tornado workaholic apenas por ter encontrado algo que realmente gostasse de fazer. E acho sensato que as pessoas gastem muito tempo naquilo que lhes dá satisfação.

Desde que essas atividades não estejam me privando de saúde física e emocional, acho que é válido. Eu não deixo de vivenciar nada por conta disso. Estou sempre em busca de bons momentos ao lado de quem realmente importa pra mim. Socializando, rindo, dividindo um som, uma conversa, umas risadas e, muitas vezes, me permitindo não fazer absolutamente nada em específico. Dormir, por exemplo, é das coisas que mais gosto de fazer e tem dias que é só o que faço. O que me incomoda é quando quero fazer algo e não tenho opções. O tédio diante da escassez de momentos me deixa até mesmo mais tendencioso ao trabalho excessivo, pra não me ver com tantos momentos vagos.

Às vezes gostaria que certos lugares estivessem abertos em horários fora do convencional e que as pessoas também tivessem essa inquietude e disposição pra aderir a atividades de última hora. Eu sou aquele que diz ‘sim’ pra quase tudo. Essa mentalidade e personalidade, com certeza, tem muito a ver com ser workaholic. Há pessoas que preenchem o vazio do tempo com momentos menos satisfatórios e, claro, passam a desprezar suas próprias realidades, afinal, ninguém vai ter uma vida agradável se fizer de seus dias somente coisas desagradáveis. A vida é apenas a somatória de nossos momentos. Se as pessoas se entregam a banalidades e coisas que não lhes preenchem, certamente sentirão que a vida não está valendo a pena.

A grande satisfação da minha vida é saber que, todo dia, estou fazendo meu melhor e buscando os contextos, pessoas e atividades que me deixam engajado, satisfeito, feliz, etc. Às vezes isso flui pela leitura de um livro, um blog, um canal de vídeo, uma música, uma troca de mensagens, uma conversa de bar, um momento sozinho, a contemplação de um prato de comida diferente, o próprio ato de cozinhar, a arrumação da casa, uma volta de carro pra ouvir música e sair sem rumo, uma visita, a chegada em uma cidade nova, um projeto gráfico pra uma nova mídia, escrever, pensar na vida, abraçar, rir e pairar em outras realidades.

O mundo é diverso e, pra mim, estagnar não leva a nada de bom. Enquanto as pessoas dizem ‘não’ pra tudo e todos, eu me abro pras possibilidades e mergulho de cabeça. Eu quero mais é que a vida aconteça. Eu não tenho medo algum do futuro, mesmo que ele não seja vitorioso ou dentro do idealizado. Eu não me preocupo com o futuro, nem tenho pendências com o passado. Tudo que eu quero é o momento presente e a certeza de que fiz o meu melhor.

Rodrigo Meyer

Perdi momentos em algum lugar. Estou procurando.

Já teve a sensação de estar em busca de uma experiência que não sabe bem o que é, mas que lhe faz falta? Talvez seja uma tentativa de replicar momentos muito bons do passado. Tem dias que me dou conta de que o que estou buscando já não existe mais. Não exatamente os momentos, pessoas e lugares que já passaram, claro, mas a essência desses momentos. Já passaram as fases, as oportunidades, as condições, os contextos, as idades ou qualquer coisa que seja a chave pra experiência em questão.

Nos últimos dias estive mais consciente disso, depois que já vinha arrastando essa sensação por muitos anos. As pessoas, muitas vezes, chamam de ‘nostalgia’, mas não sei dizer se é isso. Eu não me importo tanto que tenham sido ocorrências do passado e nem sou daqueles que vive dizendo que no passado as coisas eram melhores (embora, muitas vezes, até tenham sido mesmo). Mas o caso é que meu apego com esses momentos é uma saudade que poderia, perfeitamente, ser revivida nos tempos atuais, pois não depende de nada excepcional ou exclusivo só daqueles tempos.

Talvez eu esteja sendo simplista demais, pois, mesmo o simples é raro em nossa sociedade. Acredito que eu esteja em busca de momentos que eu perdi e não soube aproveitar. E hoje, com mais noção da realidade, quero a chance de me reposicionar sobre cada um daqueles minutos. Com certeza faria um espetáculo acontecer mesmo nas manhãs mais entediantes.

Sento na beira da cama e fico me perguntando onde é que estão as pessoas que cruzavam apartamentos no centro da cidade, com seus comprimidos, seus dinheiros amassados, suas valiosas compulsões, seus desleixos, suas roupas descosturadas, seus dentes poeticamente imperfeitos, suas manias, suas melancolias, suas doses diárias de sofá e lençol sujo. Onde estão as pessoas que, repetidamente, desperdiçaram tardes comigo em troca de tão pouco. Sim, são momentos simples, mas que deixaram uma marca de satisfação muito grande. Tantos anos depois ainda estou procurando o que é que deixei escapar enquanto segurava meus copos de bebida em outros lugares. Por que é que fui por um caminho e não por outro? Onde estão as pessoas que não sobreviveram a tão pouco?

Mas também não vou adoecer da mente apenas pelo que não vejo mais. Sei que essas pessoas também tiveram seus caminhos alterados e muitas delas já não estão sequer vivas pra contar suas versões. Talvez em algum lugar estejam sorrindo ou assombrando algum buraco no Centro da cidade. Por muito tempo imaginei que eu também teria um desfecho parecido, acreditando que morreria jovem e repentinamente, por álcool ou suicídio.

Durante a infância e adolescência, flertei muitas vezes com varandas e janelas. Meu sonho acordado preferido era me ver saltando delas. Mas eu não vim contar de momentos ruins, embora eu saiba que histórias tristes são sempre boas histórias. Eu queria refletir sobre o tempo, o momento, a saudade e qualquer mistério oculto que esteja entre essas palavras. Talvez eu não chegue a nenhuma conclusão, mas vou me satisfazer tentando.

Semana passada eu percebi que estava pronto pra recomeçar minha vida outra vez. As coisas que eu havia deixado pra trás já não tinham mais peso ou significado e, finalmente, tinha chegado a hora de eu limpar os resíduos dessas realidades. Minha memória estava favorável, me ofertando a certeza de que não errei em amputar coisas e pessoas do meu passado. E isso me motivou a construir coisas novas. Desde então, não parei mais de fazer.

Voltei a gravar trilhas sonoras, jingles e a reviver meu prazer com o piano. Em casa, tudo que não é realmente indispensável, está a venda. Estão surgindo novas pessoas, novos projetos, novos lugares, novos sentimentos. Esse ano concretizo coisas que há muito tempo não fazia. Estava com o talento guardado e provavelmente deixava de colocar em prática por desacreditar que poderia ou que valeria a pena. Hoje eu não me importo mais com as possibilidades de erro ou fracasso. Eu tento, faço, refaço, me mostro sem receio e vejo que isso é a melhor maneira de conseguir algum resultado.

Talvez os momentos perdidos que eu estava procurando sejam essas ações que antes eram mais sonho do que realidade. Talvez fossem aquelas peças gráficas estudadas lá pelos meus 13 ou 15 anos de idade, agora buscando expressão no meu trabalho como designer gráfico. Passados mais de 15 anos na Fotografia e depois da faculdade de Comunicação Social junto com a anterior tentativa de Ciências da Computação, deixei minha marca no passado e agora quero deixar uma marca nova no presente.

Revi tudo que era velho e reciclei o que podia. O restante foi diretamente pro lixo, já transmutado, sem rastro de vida. Hoje, o meu maior apego ao passado é apenas sobre a essência produtiva de cada momento. Mesmo aqueles momentos onde eu pouco fazia, mas que, de alguma forma, absorvi prazer e valor. Hoje eu me sento diante do computador e já não estou preso a coisa alguma. Até o smartphone perdeu a razão de ser.

Voltei a criar, voltei a vender, voltei a fazer acontecer. Estou gravando vídeos, escrevendo livro, criando música, esvaziando a casa e preenchendo a alma. Doei as minhas roupas; quero outras (e poucas). Estou conquistando novos espaços, novos abraços, novos motivos pra seguir meu caminho. Não alimento meu presente de passados, mas elejo o essencial de cada momento vivido e replico eles em coisas novas, pra que eu esteja sempre satisfeito em cada momento. A vida é feita da soma dessas boas memórias e é isso que eu quero fazer dos meus dias.

Chego a conclusão de que só perdi o que precisava ir embora e que agora, o momento oportuno, estou fazendo o possível e até um pouco do inimaginável. Estou encontrando o que sempre esteve comigo, estou deixando muita gente perdida que não entendeu que eu nunca estive em certos lados. Acredito que muita gente me enxerga ainda pelo que eu não fiz, sem saber que por trás de muita dor e inação, tinha muito mais do que um bêbado com um copo na mão. Eu não conto muito dos bastidores da minha vida. Eu prefiro o silêncio pra poder surpreender tal como um ninja.

De toda forma, convido cada um de vocês a descobrir um pouco mais da realidade. Em algum momento esbarraremos e viveremos experiências em comum. Lá você encontrará uma face ou fatia da minha personalidade. Que sobrevivam os capacitados e que não haja tempo de sermos alcançados. O passado durou uma eternidade e ao mesmo tempo escapou rapidamente pelas mãos em cada dia vivido. Hoje eu quero plantar mundos, sem perder a boemia suja daqueles olhos sem fundos. Parece dor, mas eu juro que é alegria. É o prazer de me reconectar a lugares onde eu nunca deixei de estar. Vamos lá?

Rodrigo Meyer