O mundo das coisas comuns e previsíveis.

Eu “não sei” vocês, mas eu sempre vivi querendo ser surpreendido. Nunca me contentei com a mesmice, nunca me interessei pela rotina, pelas coisas comuns, pelas pessoas previsíveis, pelas situações banais. Três décadas e meia depois ainda estou a procura de algo que me surpreenda, principalmente por não ter encontrado muita coisa, apesar de tanto tempo passado.

Pra quem vive nessa realidade, é difícil se interessar pelo que acontece na Terra, porque aqui é o planeta da roda quadrada, onde, geralmente, nada de interessante acontece e tudo é tão óbvio que Nostradamus perderia a função ao tentar prever qualquer coisa, afinal todos já saberiam, com detalhes, o que ocorreria.

Querendo ou não, estou nessa sociedade que me faz bocejar. É fácil saber pra onde estão indo, o que estão pensando, até onde se estendem seus pensamentos, quais são seus preconceitos e suas vontades. Isso sem falar que, nas poucas vezes que algo ou alguém surpreende, uma grande parte é uma surpresa pra pior. Imagine quão restrita é a surpresa boa nessa equação. Simplesmente deixo as expectativas de lado e se algo ruim vier, não terá sido mais do que o já esperado e se algo bom ocorrer, ótimo. Dessa forma, não fecho as portas pras coisas boas, mas também não crio expectativas em vão pro restante. Menos expectativas, mais vida.

É preciso vigiar a nós mesmos, nossa realidade, nossas metas, nossas posturas. Às vezes nos damos conta de nossas falhas em um determinado dia, mas minutos depois já ignoramos o tema todo e seguimos errando. Assim não há progresso. Nisso também não há surpresa, pois não é preciso ser especial pra saber que o ser humano desiste muito rapidamente de suas tentativas de melhorar.

As pessoas acham que não fazer nada é mais cômodo, pois erraram tanto e tantas vezes que qualquer mudança parece um esforço sobre-humano.  É aquela velha analogia de ter varrido tudo pra debaixo do tapete e na hora de encarar aquela sujeira toda tem uma imensidão de lixo acumulado ali por baixo. Por isso, tão mais fácil é ir resolvendo os pequenos problemas ao longo do caminho sem ter que parar nem ter muito esforço pra melhorar. Subir uma escada do primeiro ao segundo andar é mais fácil do que dar um único pulo pra tal altura. Isso ninguém pode negar. E uma boa maneira de melhorar nesses quesitos é começar a rever quais das coisas você ainda é ou faz e aceitar as mudanças que forem úteis e necessárias. Deixe o passado pros arqueólogos.

Pra evitar um mundo comum e previsível, precisamos parar de postar as mesmas frases, de replicar as mesmas imagens, de usar as mesmas cores, de nos prender as mesmas fontes, de conversar com as mesmas pessoas, de tirar as mesmas fotos, com as mesmas poses. Se quisermos mudar o marasmo da repetição inútil e chata de tudo isso, precisamos agir. É preciso que seja extinto o conformismo com o vazio e superficial. Ou você dá sentido forte e verdadeiro à algo ou então é melhor deixar passar brevemente. Não perca tempo nas coisas sem valor. Dedique mais tempo num abraço sincero e apertado do que em horas e mais horas na companhia de quem não soma nada.

Às vezes de madrugada, onde não há carro algum pelas ruas, vejo gente parada no semáforo vermelho, sem a menor necessidade, feito zumbis amarrados a um cabresto. Não conseguem pensar por si só. Estão acostumadas a repetir o “pensamento” e a ação. Estão condicionadas a tudo, mesmo quando não precisam e/ou quando não deveriam. Tenho quase certeza que se colocasse um semáforo vermelho que nunca mudasse pra verde, no portão da casa das pessoas, elas parariam e nunca entrariam em casa. São incapazes de gerir suas próprias realidades. São inaptas pra vida. São só marionetes de algo que nem elas sabem o que é. Aguente o tranco, mas pra mim isso tem nome: desperdício de átomos.

Abro os grupos de Facebook com vontade de ver alguém dividir conhecimento e conteúdo, mas, claro, tudo que encontro por lá é mais do mesmo. É gente atoa que, por não saber o que fazer da própria vida, torna a vida dos outros igualmente inútil. Pela internet falta humor, falta argumento, falta arte, mas sobra preconceito, ignorância, mentes fracas. Todos querem, poucos oferecem. Todos podem, poucos fazem. Nenhuma surpresa.

Te desafio a contabilizar quantos grupos de Facebook possuem o mesmíssimo tema e função. Ao invés das pessoas ampliarem o potencial de um grupo, elas se espalham em milhares de outros idênticos, o que não ajuda, afinal, se faltou propósito para a criação de algo novo, esse novo já começou sem valor algum. União é vital se quiserem colidir com mais opiniões, mais pessoas, mais pontos-de-vista, mais possibilidades, mais diversidade. Tudo bem criar um ouro grupo, se achar que os valores e rumos de outro não satisfaz seus propósitos e ideais, mas criar centenas de grupos idênticos chega a ser patológico.

Abro os vídeos do Youtube e tenho vontade de me balear na cabeça. É um mar de entulho que não agrega absolutamente nada pra minha vida em nenhum aspecto. As pessoas já não conseguem raciocinar enquanto falam. Apenas falam. Chegam ao estado letárgico de apenas narrar o que veem. Olham pra uma parede e começam: “Aqui uma parede branca, do lado de uma parede também branca. E aqui, acima, tem o teto, branco também, como vocês podem ver.”. Fico torcendo pra surgir um guindaste pegando fogo pra interromper aquela inutilidade toda.

Felizmente sou salvo por alguns autores que quase sempre trazem algo legal de se absorver. Mas pense comigo: Não dá pra viver de meia dúzia de gente só. Essas pessoas não são uma fábrica infinita de conteúdo. Só a diversidade nos salvará. Precisamos de bilhões de pessoas produzindo e movimentando o mundo. Seria o equivalente a ler um livro de 200 páginas onde só seis páginas são interessantes e o restante são páginas em branco. Melhorem.

Vou procurar filmes e livros e aí descubro pra que serve a opção de fechar o navegador. Vou ao Google e, independente do que eu digite na busca, os resultados são sempre uma enxurrada de entulho. Notícias falsas, sensacionalismo, lunáticos empurrando produtos, cursos, vendas, mais vendas, vendas de novo e vendas. Se ao menos fossem cursos ou produtos bons. Geralmente é só mais do mesmo em um mundo onde a fraude reina. E, exatamente, as pessoas só podem oferecer o que possuem.

Recentemente um bar com música ao vivo fechou e eu me senti um pouco mais órfão de conteúdo, pois já não existiam opções por aqui onde eu moro e agora tenho que aceitar que a música também está morrendo. Aliás, vale destacar que apesar de ser um bar de música ao vivo, a maior parte das bandas que se apresentavam por lá eram covers, tamanha a previsibilidade do ser humano. Criar, jamais. Imitar, sempre. E ainda há quem chame isso de homenagem às bandas originais. Como uma cópia pode ser uma homenagem à originalidade? Chega de mais do mesmo!

Estamos em 2017 e ainda somos totalmente dependentes do passado. Ligamos o rádio pra ouvir clássicos, pois ninguém está produzindo nada de relevante atualmente. Antigamente os rádios é que apresentavam as músicas ao público e hoje em dia é o público que pede as músicas que quer ouvir na rádio. Assim, só escutam o que já conhecem. Deplorável.

Nos meses recentes fiz uma faxina geral na minha vida, dentro e fora da internet. Uma desconexão com uma tonelada de coisas que só estavam lá paradas, sem nenhuma função. O desvalor de tudo aquilo estava pesando. É o famoso peso morto. Odiamos carregar algo que não nos serve pra nada. É como carregar um guarda-roupas pesado nas costas, apenas pra irmos até o bar e voltar.

Por muitos e muitos anos venho praticando a ideologia do minimalismo com o lema “reduzir, reduzir, reduzir”. Isso tem me aberto muito espaço para criar. As pessoas se questionam como ou porquê tenho tantas atividades, em tantas mídias diferentes, diversas funções e profissões. Eu não consigo olhar pra escassez e não me sentir compelido a preencher com algo pra criar. Isso é o que me faz estar em tantas frentes ao mesmo tempo. Mas como consigo isso? Sobra tempo? Claro que sim. Especialmente porque na prática do minimalismo jogamos fora tudo que não tem serventia real. Depois que eliminamos todo o entulho, sobra tempo, espaço e vontade pra gerir as poucas coisas que de fato nos valem de algo.

Cabe a nós, então, aproveitar o momento e fazer com que essas coisas sejam realmente interessantes, fora do comum, não previsíveis. Não é fácil, especialmente depois que fomos moldados socialmente a viver feito zumbis, copiando tudo, incapazes de sermos nós mesmos e pior que isso, muitas vezes sem nem sabermos quem somos pra poder exercer nossa essência. Estamos literalmente mortos e só haverá alguma chance se um dia resolvemos nos opor a mesmice e começar a abrir os olhos e a mente para o novo, para a diversidade. Surpreenda o mundo, surpreenda-se. Todos saem ganhando.

Rodrigo Meyer

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Porque as pessoas desejam sempre as mesmas coisas?

Em um mundo onde a maioria das sociedades são formadas por modelos de excessivo consumismo, é fácil ver que boa parte desses momentos de desejo de compra são puramente artificiais e se mostram como um claro reflexo da propaganda mal intencionada que é veiculada não só pelas mídias mas pela própria sociedade. Da mesma maneira que as marcas vendem-se como necessárias ou importantes pra vida das pessoas, algumas pessoas, tomadas por essa crença, espalham esse modelo de vida cobrando e pressionando outras pessoas a se adequarem nesses moldes doentes.

Havia um tempo em que os presentes de datas comemorativas eram embrulhados em papel de presente ou nem mesmo eram embrulhados. Hoje em dia os presentes são abertamente dados com as sacolas e embalagens das lojas, com suas marcas estampadas de forma bem visível, afinal é isso que estão doando na verdade. Antigamente, os produtos em si eram o presente, mas hoje, o status de marcas e lojas fazem as vezes de “produto” a ser consumido.

Sempre tínhamos a visão de que certas marcas eram pra público mais abastado financeiramente e que outras marcas eram deixadas como uma opção barata de produtos iguais ou similares. Em todo tipo de produtos ou serviços as pessoas sentem essa depreciação de valor e qualidade (ou de suposta qualidade). E com isso, gera uma certa vontade de compensar o prejuízo social tentando adquirir um desses produtos mais caros. É assim que surgem pessoas dispostas a loucuras como gastar todo o salário de um mês na compra de um único produto, apenas pra ostentar o uso daquela marca. Outros, um pouco menos ousados, buscam as imitações / falsificações que cabem melhor no bolso, mas que falham em outros fatores, tanto do ponto de vista da legalidade quanto da própria qualidade. E, convenhamos, ostentar uma marca da qual você não pode sequer comprar o original devido ao preço caro, é o mesmo que divulgar seu próprio explorador.

Diversas pessoas trabalham em empresas das quais jamais poderiam comprar o produto que elas mesmas fabricam. Empresas de produtos esportivos figuram em crimes de trabalho infantil e exploração de mão-de-obra em contextos de trabalho escravo, sendo o extremo da ironia por produtos tão caros, onde nem a matéria prima é cara e nem a mão-de-obra é dignamente paga.

E porque será que apesar de tanto contexto ruim nessas empresas e produtos, as pessoas continuam desejando sempre ter as mesmas coisas? Uma busca por igualdade através do produto ao invés da equiparação das rendas? Busca por igual status e suposto privilégio social ao invés de buscar real respeito e valorização no meio? Será que ter uma roupa de marca, comer no fast-food da moda, morar na região nobre da cidade ou comprar o carro do momento transforma alguém em algo melhor?

As pessoas não se perguntam muito isso, afinal se o fizessem teriam que admitir que nada disso é feito para elas, mas apenas pra mostrar pra sociedade que elas venceram. Traumas e complexos as fazem devolver exageros na postura e no consumo, pra cobrir a diferença entre não ter tido condições no passado para as possibilidades financeiras do presente. Alguns, cientes de que não poderão sequer chegar nesse ganho financeiro, compram as falsificações no camelô apenas pra desfrutar entre os amigos de igual situação social um “sub-status” dentro desse grupo social em particular.

Se resolvermos nossas fraquezas psicológicas, superarmos o passado e revermos o valor real das coisas, entenderemos que pra sermos mais prósperos não precisamos nos render a status ou marcas de renome. Não precisamos fazer o que a maioria faz e nem precisamos pensar como a maioria pensa. Qualquer ganho social, seja do ponto de vista financeiro ou de outros tipos, não precisam vir acompanhados dos mesmos vícios que todos os demais tiveram ao cruzar com aquelas realidades.

Você pode achar uma roupa bonita, dentro do seu estilo, sem que tenha que se render à formatos predefinidos do que é bonito e bom pra uma roupa, conforme as regras que plantaram em sua mente apenas pra explorar seu bolso. Em tempos de internet onde podemos acessar conteúdos de empresas tão distintas entre si, temos duas situações principais: por um lado colidimos entre nossas realidades e realidades opostas, mas o lado bom disso é que podemos, contudo, ter opções e reafirmarmos a possibilidade de substituir certas coisas por outras. O conhecimento é poder em muitos sentidos.

Esse desejo que muitas pessoas mal sabem de onde vem e que alguns até acreditam que são desejos legítimos e demandas reais por produtos e marcas, é, na verdade, uma grande indústria de trabalho psicológico explorando nichos e grupos cada vez mais específicos de pessoas, massificando de forma geral o consumo, levando cada pessoa a achar que precisa de uma ou outra coisa, conforme o que ela pode ter e, contudo, a desejar também o que não pode ter, pra que isso se torne, então, muito mais valorizado perante os que podem comprar, pois nasce, então, uma competição de que, se o pobre deseja e não pode ter, é papel de quem tem dinheiro pra tal, comprar pra demonstrar poder e oprimir, consciente ou inconscientemente, os que estão abaixo.

Talvez as pessoas nunca tenham se dado conta, mas existe essa batalha constante entre ter e não ter. As pessoas que conseguem adquirir um produto, serviço, cargo ou posição social de qualquer tipo, sentem-se com uma ferramenta de poder nas mãos capaz de diferenciá-los dos demais sem que eles precisem fazer nada de especial ou útil. São diferenciados apenas por poder destacar a diferença na posse, de forma opressiva, ostentando e mostrando ao mundo que poucos podem ter e a maioria não pode. É o estilo de vida das vitrines de shopping da classe média e alta em que não se aceita bem a entrada de pobres, especialmente os negros, pra figurarem ao lado de seus maiores opositores.

Os oprimidos deveriam, portanto, pensar que manter desejos e consumos por essa massa de desprazer que se fantasiam de empresas, produtos e clientes, é altamente danoso pra si mesmo. Em resumo, é Síndrome de Estocolmo, quando o oprimido sente-se admirado ou apaixonado pelo seu próprio opressor, passando a defendê-lo. Isso alimenta um contexto social onde empresas pouco éticas e quase sempre ilícitas e desnecessárias, lucram bilhões às custas dos pontos fracos (especialmente os psicológicos) das sociedades em que elas exploram.

Você tem, contudo, o poder de diminuir ou até eliminar isso de nosso meio, bastando que se oponha na prática. Cesse o consumo, o apoio, a propaganda gratuita estampada nos produtos que usa, a gana de querer igualar-se à outros por questões equivocadas como status e padrão social. A liberdade que você gostaria de ter e não tem, às vezes é conseguida por uma mudança de postura como essa. Talvez você não venha a enriquecer, mas independente disso, você não precisa apoiar quem lucra às custas de opressões de classes. Lembre-se que, embora grande parte dos consumidores de marcas caras sejam pessoas ricas, quem produz muito daquilo são pessoas em situações pouco dignas ou indignas e às vezes até ilícitas, em trabalho escravo e/ou infantil.

Você se sentiria confortável de gastar mais de R$ 500,00 num produto em que apenas 1 centavo é destinado a pessoa que fabricou tal produto? Talvez fique ainda pior se te contar que pra ela ganhar este único centavo por produto, ela precisasse passar horas enfurnada numa sala sem iluminação, sentada ao chão, sem condições de higiene ou segurança de trabalho, sem alimentação adequada, sem perspectivas de vida, sem outras escolhas. Tudo se agrava quando esse “funcionário” é uma criança de 7, 10 ou no máximo 14 anos, que nunca teve oportunidade de desfrutar a infância, dividir seu tempo com a família ou mesmo de poder planejar saídas pra sua própria situação. Em casos assim, a escolha da empresa em aceitar tais contextos é que determina o que existirá ou não em termos de modelos de trabalho.

Se nos enxergamos como inaptos pra certos produtos e serviços, fica fácil entender que, por vezes, quem os fabrica ou serve também não possuem condições de comprá-los. Pode haver sistema mais injusto e doente que este? Portanto não há motivos sadios pra se apoiar isso. Se eventualmente se sentir em situação de fraquejo diante dessas questões, busque repensar um pouco seus valores e suas reais necessidades na vida. Avalie se o que está fazendo em seus hábitos de consumo não são apenas uma tentativa falha de compensar complexos e traumas do passado. Sempre que achar necessário, busque ajuda de pessoas mais esclarecidas sobre o assunto, bons amigos que possam ser parâmetro e incentivo pra condutas melhores ou até mesmo de psicólogos e terapeutas que possam te ajudar a superar suas questões internas, pra que você realmente progrida socialmente e pessoalmente, ao invés de se enroscar em situações ilusórias sobre qualidade de vida. Tristes são as sociedades que confundem qualidade de vida com poder de consumo e que confundem consumo com consumismo e futilidade.

Rodrigo Meyer

Seu futuro pode ser diferente do seu passado.

Existe, infelizmente, uma crença de que estamos condenados a nossa realidade do momento. Mas, as coisas não são assim. Esse pessimismo e/ou imediatismo é um equívoco diante das possibilidades reais. Inclusive, quem mantém esse pensamento equivocado está apenas dificultando que coisas novas e melhores aconteçam no futuro.

A sociedade brasileira e tantas outras, em similar ou pior situação estão acostumadas que tudo piora e nenhum benefício chega até as pessoas que mais precisam. E alimentam-se de esperança apenas quando algo positivo significativo acontece. Valorizar as possibilidades apenas quando estamos em vantagem não é útil se quisermos viver bem e termos melhores chances pra nós mesmos.

Mas, lembre-se que a proposta não é que você forje ilusões sobre o futuro, nem mesmo sobre o presente, como fazem os otimistas. Não devemos ser nem otimistas, nem pessimistas. Acompanhar as realidades já é suficiente pra que possamos decidir quais opções seguir, pois veremos elas à nossa frente, tal como de fato são ou o mais aproximado possível. Já falei em outro texto sobre a importância da postura realista.

Por pior que tenha sido nosso passado, com as mazelas da vida, as dores, os medos, os traumas, os rompimentos emocionais, eventuais situações de doença física, pobreza material ou experiências desconfortantes, temos sempre que lembrar que tudo isso não é garantia de que sempre será assim. Não significa que um toque mágico vai brotar e fazer tudo mudar, mas significa que, suas ações podem eventualmente te tirar dessas condições. E claro, não são nenhuma garantia também, afinal o que fazemos está dependendo do que podemos fazer, do que temos coragem de fazer, do que temos condições, vontade, visão, capacidade, etc.

Não existe fórmula pro sucesso, mas em tudo que pudermos aprender melhor sobre nós mesmos e sobre a realidade que nos cerca ajudará pra sairmos das situações que não desejamos que continuem. É sempre importante estar de olhos abertos, mente aberta e acreditar cada dia mais em você mesmo e no potencial que pode desenvolver ao longo do tempo. Frequentemente, dependendo da sua situação, será necessário abrir os braços e aceitar ajuda de quem puder lhe oferecer. Não há nada de ruim nesse ato e só demonstra que você está pronto para as mudanças e soluções que poderão vir a seguir.

Se você está vivenciando desemprego, por exemplo, não significa que não poderá estar trabalhando em breve. Se está enfrentando superação de traumas ou depressão, tem um caminho pela frente de tentativas que vão te levar para condições melhores. Embora estejamos sempre ansiosos pelas soluções de problemas grandes assim, não podemos fixar o pensamento na urgência do tempo, porque essas situações podem levar tempos diferentes pra serem solucionadas, dependendo de cada caso. A combinação entre a situação e a pessoa vão formar particularidades na equação e que, inclusive, podem se alterar ao longo do processo todo.

O mais importante pra que nosso amanhã seja melhor que nosso presente é entendermos quais são os problemas que temos ou que nos cercam. Uma vez que saibamos disso, temos que tentar apontar valores, condutas ou iniciativas que nos levem pra escolhas de transformação, de ajuda ou superação. Às vezes o acolhimento junto à algum parente de confiança, um profissional da área médica ou psicológica, um terapeuta, um advogado ou, dependendo da sua situação, um agente de Serviço Social.

Muitas pessoas que hoje estão tranquilas e bem-sucedidas, já passaram por situações difíceis no passado. Lembro-me sempre que o ator Keanu Reeves, que muitos admiram e conhecem pela trilogia de filme ‘Matrix’ e tantos outros, já teve a experiência de ser morador de rua. Apesar de todo sucesso, ele se mostrou uma pessoa simples, dividindo o metrô com os demais, sem extravagâncias. Pode ser que o contato com a dificuldade junto à outros moradores de rua tenha contribuído pra uma conduta mais assertiva diante da fama, mas sabemos que isso não é nenhuma regra, afinal várias outras personalidades que vieram de situações difíceis, às vezes compensam o passado, ostentando riqueza ou até mesmo esnobando as pessoas abaixo. Tudo vai depender do estado psicológico de cada indivíduo e de como ele superou ou não os problemas do passado.

Algumas pessoas se sentem tímidas ou envergonhadas de irem de uma situação melhor para uma pior. É como se estivessem deslocadas de si mesmas, pois se acostumaram a viver num padrão de vida ou em uma situação pessoal mais confortável e, de repente, se veem, de certa forma, humilhadas por terem que se submeter a situações mais difíceis de vida. Acontece muito isso com quem perde o emprego e é obrigado a rever toda sua realidade de hábitos, consumos e até mesmo de socialização.

Andando pelas ruas de São Paulo e também de algumas outras cidades, conheci muito morador de rua. Em cada um deles, situações diferentes. Embora todos eles aparentemente na mesma situação, no momento, cada um teve um passado diferente. Já conheci gente que foi pras ruas depois de serem trapaceados pela família em troca de dinheiro, músicos profissionais, intelectuais, poliglotas e vários outros que, por uma razão ou outra, acabaram sem nada e tendo que se render às ruas. Mas, tendo vindo de baixo ou de cima, o fato é que pro momento presente, encontram-se pelas ruas e, a partir disso, cabe a cada um fazer as possíveis escolhas a cada dia que surge.

Para pessoas em situação de vício com drogas, pode ser ainda mais complexo, pois é difícil até mesmo controlar as opções que se tem ao redor, por questões do momento, do tempo, das reações psicológicas diante da droga ou mesmo da limitação social que existe, por conta do afastamento que as pessoas tem diante desse meio. É muito mais comum vermos, por exemplo, alcoólatras serem melhor recebidos do que dependentes químicos de outras substâncias. A classe média e alta empanturrada de remédios controlados é muito mais aceita socialmente do que os entorpecidos de classes sociais abaixo.

As barreiras pelas frente serão geralmente essas. Preconceito social, restrição de oportunidades de trabalho e socialização, a própria limitação física, alimentícia e psicológica diante do modelo de vida e questões ao redor disso, como abrigo, ocorrências isoladas do convívio diário e até mesmo alguns detalhes sobre as políticas públicas sobre as pessoas nessas condições e a cidade no geral.

O que será do nosso amanhã é, porém, a somatória de nossas ações junto com as oportunidades que o meio nos dá. Se unirmos a superação psicológica dos problemas com a iniciativa da busca de ajuda, já teremos quase todo caminho percorrido rumo à transformação. Eu sou especialmente grato pelo momento em que fui alavancado da depressão no passado por quem me enxergou como alguém e teve paciência e vontade de permanecer do lado até que eu estivesse bem. Eu tive momentos incríveis de muita diversão, prazeres físicos e psicológicos de todo tipo e satisfações na vida como a concretização de estudos, aprendizado de idiomas, autovalorização como pessoa e como potencial profissional, entre tantas outras coisas. Passei de derrotado e sem esperança pra alguém que cultivou uma visão melhor sobre a vida e sobre si mesmo.

O grande salto na transformação dos nossos dias está em como lidamos com o que temos ao nosso redor. Eu fui suficientemente flexível pra aceitar possibilidades. E, por isso mesmo, as possibilidades que existiam ao meu redor surgiram. Tive a oportunidade de me tornar fotógrafo profissional, tendo experiências únicas durante o curso de Fotografia que não teria em nenhum outro curso atual, em razão das ocorrências que são próprias do momento. E isso me fez perceber que muitas portas estão abertas ao nosso redor, mas frequentemente não as vemos, porque não as entendemos como portas para aquilo que achamos que precisamos no momento. Temos que mudar nosso entendimento da equação pra sermos mais bem-sucedidos nas nossas tentativas de se erguer.

Às vezes as pessoas acham que a única porta válida pra quem está desempregado é uma oferta de emprego em um cargo em que ela já gostaria de estar pro resto da vida. Se esquecem, assim, que às vezes o mero contato com uma pessoa, em uma situação que não está diretamente relacionada à essa vaga de emprego desejada, pode ser o elo indispensável pra que a pessoa se aproxime da meta principal. A vida não é uma linha entre dois pontos, mas sim uma complexa teia de relações. Você não pode, nunca, descartar as oportunidades que surgem sem antes estar aberto ao potencial delas. Claro que você não precisa atuar em tudo que surge pela sua frente, mas precisa, sobretudo, conhecer e estar aberto pras possibilidades.

Se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci, no momento em que as conheci, da forma que as conheci e pelo intermédio das outras pessoas que tínhamos em comum, nada na minha trajetória teria sido como foi. Os cursos que fiz, os aprendizados que iniciei, os livros que li, as conversas que tive, as viagens que realizei e até mesmo as decisões mais cotidianas sobre meus hábitos e vontades, me levaram onde eu estou hoje. Controlar essa navegação pode não ser tão simples quanto vislumbrar um horizonte ou destino e decidir seguir pra lá. Lembre-se, não estamos vivendo em uma linha reta entre dois pontos.

Você se surpreenderia em quantas pessoas superaram a depressão a partir de um simples ‘sim’ que deram pra oportunidades totalmente desvinculadas com tratamento de depressão. Você se surpreenderia em quantos fotógrafos foram formados a partir de um ‘sim’ para uma amizade despretensiosa. Se surpreenderia em quantas pessoas ganharam a tão desejada credibilidade e valorização apenas por se colocarem em uma postura mais aberta e receptiva diante de momentos. Seu próximo trabalho pode estar atrás daquele emaranhado de conexões de um conhecido que tem um amigo do primo da vó do funcionário de uma outra pessoa, que, essa sim, vai te apresentar pra um projeto que não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho pretendido, mas que em certo momento, vai ser dividido pelo amigo do vizinho que finalmente é o seu elo final pra solução que você buscava desde o começo.

Resumindo: esqueça essa crença de que o futuro não tem solução e que as portas que você encontra pela frente não te servem de nada. A vida é feita de interações. Quanto melhor for seu networking, melhor serão suas possibilidades. Esteja sempre em contato com tudo e com todos e verá como surgem coisas tão diferentes de cada conexão. A diversidade nos leva para novas possibilidades pois cada pessoa tem um universo dentro de si e milhares de outras novas conexões distintas que vão alterar, a cada vez, a trilha que percorremos entre todas essas mais de 7 Bilhões de pessoas que existem no mundo.

Se você despreza a teia, está contrariando a própria matemática da vida e está se boicotando diante do seu próprio sucesso e benefício. Se você começar a desenvolver amor-próprio e se abrir pra situações que te beneficiam, terá as melhores chances de vencer e se dar os melhores resultados possíveis na vida conforme suas realidades gerais. A todo momento eu estou passando e estendendo as mãos, mas, infelizmente, muita gente se fecha e acaba deixando as oportunidades passarem. Eu me sinto grato em perpetuar esse ciclo de transformações por ter entendido o potencial e necessidade de tudo que foi feito pra mim e, depois, por mim. Viveremos melhor se ajudarmos uns aos outros a subir.

Em todo lugar que você estiver, seja grato pelas coisas todas que te beneficiaram ou que podem vir a te beneficiar. Esteja em contato com as pessoas numa relação transparente, seja lá quais forem seus problemas pessoais. Quem tiver mérito pra estar do seu lado, apesar dos seus problemas, estará e quem não estiver, felizmente, irá embora deixando o caminho livre. Não se menospreze pelo modo como você está hoje, porque estar e ser são coisas diferentes. Estamos sempre em constante transformação e o que somos hoje, poderemos não ser amanhã.

Rodrigo Meyer

Porque as profissões da área de criação se tornaram moda?

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Eu sempre fui conectado com as áreas de criação. Dos desenhos e pinturas da infância, os poemas, a literatura, caligrafia, comunicação visual, pintura à óleo e posteriormente a Fotografia e a Comunicação Social profissionalmente, incluindo a parte da publicidade, redação publicitária, design, ilustração, diagramação e diversas outras áreas associadas. Em razão disso eu sempre estive acompanhando os nichos de trabalho, o mercado e as pessoas envolvidas com essas temáticas. E é dessa experiência de uma vida toda que eu pude perceber fases e tendências entre as profissões de criação e as demais.

Por ser fotógrafo há mais de 15 anos, acabei em contato com muita gente da área artística. Conheci gente do teatro, da música, da dança, tatuadores, pintores, desenhistas, maquiadores, modelos e, claro, outros tantos fotógrafos. Com a Comunicação Social, cruzamos com jornalistas, publicitários e outros que seguiram, inclusive, várias dessas mesmas áreas ao mesmo tempo, afinal em tempos de internet, profissão única já é incomum.

Estamos vivenciando há alguns anos um boom da área de criação. E isso não é necessariamente positivo, porque nem todo mundo que está se associando à essa onda, está de fato se capacitando pra se tornar profissional nas atividades que escolhe. E quando falo em se capacitar, não precisa ser sentado na cadeira de uma universidade ou gastando todo o dinheiro do mundo pra aprender uma profissão. Estou simplesmente falando em ir atrás de aprender, seja como for e com quem for, desde que aprenda de fato. E estou acompanhando uma defasagem triste nesse sentido.

Existe um glamour por trás das áreas de criação e isso é culpa de vícios de exposição e pensamentos mal estruturados em nossa sociedade ao longo de várias e várias décadas. Sempre tratamos os profissionais da área de criação como se estivessem à margem da sociedade e que seus trabalhos nunca fossem trabalho de fato. Para grande parte da sociedade, ser um pintor, por exemplo, é tido como exemplo de quem optou por não trabalhar e se encostou em uma atividade divertida como fosse um passatempo. Publicitários são vistos até hoje como aqueles que sentam num sofá e relaxam pra rir e começar a rabiscar ideias criativas. Ainda traçam a visão de que todas as áreas de criação existem por acaso, pois seriam apenas mera diversão. Quem enxerga essas profissões assim, está perdido em ignorância e imaturidade.

Como consequência desse senso comum da sociedade, é gerada uma atração que aproxima à essas áreas muitas pessoas que de fato não querem trabalhar com seriedade. O sujeito que não valoriza o desenho como profissão pensa que se ele não tiver muito interesse em trabalho, ele pode rabiscar umas folhas e essa pode ser sua divertida atividade pra vida. Tem sido assim com a Fotografia (vista como a arte de apertar botão), o Design Gráfico (visto como a arte de brincar no Illustrator Photoshop), a Comunicação em Geral (que pra muitos se resume em postar no Facebook), Modelagem 3D (que alguns acreditam ser simplesmente um efeito de Photoshop pra dar volume à textos), produção de vídeos (visto como apertar botão REC e fazer upload no Youtube) e também na escrita de blogues, livros e outros formatos (onde muitos acreditam que basta copiar e colar uma frase que encontraram em algum lugar da internet e o resto será sucesso garantido).

Mas depois que nosso estômago sossega e para de ficar embrulhado com essa realidade triste, a gente volta a cabeça ao centro e tenta entender esse fenômeno. É claro que se você disser que existem pessoas trabalhando com mera diversão ou com ‘não-trabalho’, muita gente vai crescer os olhos pra cima disso, afinal nossa sociedade, infelizmente, formou muita gente pra perder interesse por trabalho e estudo. Criamos pessoas que se acostumaram a pensar que trabalho sério é sinônimo de escravidão e chatice e que estudos são perda de tempo com a mesma chatice já anunciada.

Essas pessoas nunca foram instigadas a pensar que ter uma profissão não é algo que deveria vir apenas da necessidade forçada de se pagar as contas. Elas nunca viram ao redor as pessoas trabalhando felizes com aquilo que gostavam de fazer. Elas nunca viram alunos no meio escolar se interessando por aquelas aulas que a maioria não estava sequer preparada pra receber. Para muitas das pessoas, em várias partes do mundo e em especial no Brasil, estudo e trabalho são palavras que criam repulsa, desconforto, tédio e insatisfação do começo ao fim. E é assim que ‘memes’ e piadas sobre a chegada da sexta-feira tomam a internet desde sempre. As pessoas comemoram o dia em que finalmente largam o trabalho ou a escola e se jogam no fim-de-semana livres pra fazer algo prazeroso.

Eu nunca tive sequer a noção de que sexta-feira fosse o dia de encerramento da semana de trabalho, até porque na área de criação trabalha-se principalmente nos finais de semana. Enquanto você está dançando e bebendo numa casa noturna, um fotógrafo está lá trabalhando, inclusive em horários incomuns pra maioria dos trabalhos formais. Enquanto você estava curtindo um evento de rua como a Parada Gay, um fotógrafo ou cinegrafista estava lá pra trabalhar. Enquanto alguns estão descansando, outros estão madrugando, escrevendo o texto que precisa chegar antes de todo mundo acordar. Jornalistas, blogueiros, criadores de conteúdo  e social media, publicitários e comunicadores em todas as vertentes, estão sempre ali planejando o que só virá à tona somente depois de pronto.

Infelizmente, as pessoas tendem a simplificar a análise do que elas veem pela frente, acreditando que o trabalho desses profissionais criativos se resume somente ao trabalho final, como o desenho sobre a mesa, a foto clicada, ou o livro na prateleira da livraria. Em outras profissões, feitas às claras, é mais difícil de ignorar o extenso trabalho que está associado a elas. Quando vemos o pizzaiolo, literalmente, com a mão na massa, vemos o trabalho dele quase que por inteiro. Quando vemos um motoboy na rua, vemos o trabalho (e o risco do trabalho) que ele desenvolve. Também é fácil observar o trabalho de um gari, carteiro, pedreiro, repositor de estoque, motorista de ônibus, eletricista, mecânico e outros.

Isso ocorre, claro, porque são profissões em que o trabalho é desempenhado abertamente à nossa frente. Por outro lado, o trabalho das profissões criativas geralmente não é visto, porque as pessoas em geral (mesmo os clientes) não tomam contato com o momento da criação. Você consegue ver o padeiro segurando a massa e levando ela ao forno, mas não consegue ver o que está por trás do clique de um fotógrafo. Você não nota a regulagem do diafragma, velocidade, ISO, distância focal, enquadramento, fotometria, foco, ângulo, entre dezenas de outras questões.

Isso talvez explique o encantamento que muita gente tem com médicos, por exemplo. Essas pessoas não veem o que está por trás do ato de costurar um corpo em uma cirurgia. Parece simples como um bordado e, apesar disso, salva vidas. Peça pra uma costureira trabalhar como médica e morreremos todos assim que as doses de medicação estiverem fora do necessário pro contexto. Da mesma forma um médico que se atreva a costurar roupas, vai desempenhar um trabalho insuficiente pras necessidades daquela atividade. Não conhecemos o que cada profissional faz, à menos que estejamos em contato com essas atividades. E se não forem atividades abertas como a de um motorista ou mecânico, você terá que se dedicar um pouco mais pra descobrir o que está por trás dessas profissões.

Imagine como deve ter soado como mágica quando cientistas da antiguidade dominaram a química e podia, por exemplo, colocar um líquido junto à outro e ter mudanças de cor ou uma erupção de espuma. Se não fosse o extenso estudo sobre o que cada substância faz, porque faz e como faz, não teríamos a valorização do profissional de química. Não vemos os átomos e elementos a olho nu e muito menos podemos visualizar a relação quase que abstrata entre eles. Só nos resta, então, a compreensão do que está por trás do efeito visual final. Isso requer estudo, requer flexibilidade mental e social pra aceitar que é o cientista ou o profissional de cada específica área que sabe o que se passa por trás de toda aquela realidade.

As áreas de criação se tornaram moda justamente quando a tecnologia nos deu a facilidade de fazer certas imitações sem ter o conhecimento real. Podemos simplesmente apertar o botão de gravar do celular e já temos um vídeo. Se quisermos uma fotografia, podemos apertar o botão e até mesmo corrigir vários estragos pelo Photoshop. Temos acesso à programas gráficos, imagens para montagem e todo tipo de recurso de software que nos permite imitar atividades. E com as redes sociais, podemos, inclusive dividir espaço lado a lado com os profissionais e ter a visibilidade do público. Isso nos dá a ilusão de que estamos de fato dentro dessas áreas, profissionalmente.

A internet deu visibilidade extrema pra todo tipo de atividade criativa, quando as pessoas já tinham uma visão deturpada sobre qual era o trabalho dessas áreas e então ficou acentuado quando, por exemplo, criar “marcas”, fanpages, fotografias, textos ou vídeos se tornou a “necessidade” do momento. Acreditam que se todos estão fazendo e todos estão vendo, talvez seja esse o caminho fácil e prazeroso pra se ter trabalho nos tempos modernos da internet. Se esquecem, porém, que antes da internet já existia a Publicidade, a Fotografia, a Literatura, o Design, a Ilustração, o Cinema, etc. E a existência da internet e das tecnologias digitais não elimina, de forma nenhuma, a necessidade de ser profissional para se desempenhar qualquer uma dessas profissões.

Criar é tudo de bom, com certeza. Todo ser humano tem, em algum grau, o impulso de criação, seja em uma ou mais áreas. Todos nós deveríamos estar envolvidos, de alguma forma, com a produção de algo nesse sentido. Mas precisamos, antes, aprender a realidade por trás de cada área de estudo e entender que, assim como dirigir carros não é meramente girar volante pela cidade, as áreas de criação também não são aquela fantasia infantil que a sociedade teve prazer em sustentar e espalhar por tanto tempo no inconsciente coletivo. O problema nunca esteve na popularidade dessas profissões ou mesmo nas atividades em si. O único problema é a colisão catastrófica entre o encantamento por essas atividades criativas e o desconhecimento sobre o que realmente essas atividades são. Quando uma profissão séria e complexa colide com a imaturidade de quem a busca, os resultados são sempre ilusórios e danosos.

Ficarei imensamente feliz de ver novos profissionais chegando na sociedade em todas as áreas, mas terão que entender e se adequar ao necessário pra cada área se quiserem ser respeitados e valorizados como profissionais ou entusiastas no meio. Desde sempre tento ensinar Fotografia pra mais gente, pois meu grande sonho era ver novos fotógrafos surgindo e levando esse estilo de comunicação adiante. Mas, infelizmente, tem sido uma batalha árdua tentar agradar com Fotografia uma massa de gente que vem em busca apenas de aprender a apertar botão. Quando as pessoas descobrem que Fotografia não é, nem de longe, nada parecido com apertar botão, elas correm loucamente pra longe da área, afinal é como quebrar aquela ilusão doce de que áreas criativas são só entretenimento próprio, muita descontração, nenhum estudo ou trabalho e bastante glamour e moleza. Quando elas são obrigadas a ver a realidade por trás da ilusão, encerra a vontade por aquilo, afinal a vontade não era por Fotografia, mas apenas por apertar botão.

Se me dissessem que dormir e comer pudessem ser as únicas atividades “profissionais” da minha vida, certamente eu ficaria encantado também. E, se parar pra pensar, já tem gente encontrando respaldo nessa possibilidade quando sabem que certos programas de televisão pagam prêmios pra encarcerados fazerem basicamente isso enquanto são filmados em tempo integral para entretenimento de massas idiotizadas que, por essas mesmas razões, acabam se encantando com o mundo fantástico da televisão, do não-trabalho, do glamour de não se fazer nada de sério e assim por diante.

É preciso quebrar esse estigma alucinado que grandes mídias propositalmente plantaram na mente das massas e começarmos a buscar, na raiz, a trilha pro nosso novo aprendizado. Precisamos discutir como vamos repensar as escolas, os modelos de reunião familiar, os conteúdos da internet, das rodas de amigos, as conversas de bar, os novos modelos de mídias e de trabalhos. Precisamos ‘reaprender a aprender’. Estamos tão acostumados com falsas definições de termos como ‘escola’, ‘educação’, ‘família’, ‘sociedade’, ‘trabalho’, ‘diversão’, ‘oportunidades’, que temos dificuldade gigantesca em ver qualquer coisa que venha com a definição original / real.

Antes de ensinarmos uma profissão pra alguém, precisamos ensinar tudo que vem antes do entendimento do que é uma profissão de fato. As pessoas só poderão escolher qual profissão querem estudar e seguir se souberem, antes, a realidade por trás dessas atividades. Você não pode ensinar Cinema pra aprendizes que estão buscando essa área de estudo na esperança de apertar o botão REC e mais nada. Se isso estiver nesse nível de entendimento, precisamos emergencialmente reeducar essas pessoas para outras questões anteriores a escolha de profissões e atividades pra vida, senão veremos as pessoas batendo recordes de evasão escolar e forjando profissões das quais nunca entenderam ou estudaram.

Já vemos muito disso, quando alguém compra uma câmera fotográfica e no dia seguinte já se anuncia como fotógrafo pelas redes sociais. Pior do que nada saber sobre a área é cobrar por ela e reforçar a ideia para o público (através dos clientes) de que de fato Fotografia não tem valor, pois basta comprar uma câmera e apertar botão. E, sem perceber, essas pessoas dão dois tiros. Um tiro vai no próprio pé, ao anunciar pra todo o planeta que sua profissão não tem valor nenhum e o outro tiro vai em todos os verdadeiros fotógrafos que, embora façam um trabalho real, são misturados aos não-profissionais e igualmente ignorados e desvalorizados pela visão do público que agora enxerga esse despreparo como sinônimo da área de criação.

Embora seja verdade que ainda restem pessoa que sabem o que os profissionais de criação fazem, é também verdade que essa quantidade é cada vez menor, pois a divulgação contrária é constante e cada vez maior. Cada vez que uma pessoa aprende de verdade uma profissão criativa, outras milhares estão chegando no “mercado” sem ter estudado absolutamente nada e deixando pra sociedade a noção equivocada de como são essas áreas. Como dizem, ‘uma mentira dita mil vezes, torna-se verdade.” e é exatamente esse o triste momento que estamos enfrentando. Profissionais de criação estão desacreditados desde longa data, pois nossa sociedade cresceu alimentando mentiras grotescas acerca dessas áreas e, agora que temos exposição absurda na internet, é praticamente impossível controlar a epidemia que espalha a mentira pra todo canto do planeta, 24 horas por dia.

E o que podemos fazer pra reverter esse estrago? Precisamos, cirurgicamente, pinçar aprendizes pra vida e guiá-los em alguma profissão concreta. Precisamos segurar nas mãos de alguém do começo ao fim e lhes dizer com prioridade sobre tudo o mais que se precisa absorver antes das profissões e somente no futuro, eventualmente, ensinar-lhes a profissão em si. Trabalho de dedicação full time que toma tempo, dinheiro e suor, mas que é a única opção que temos. A palavra ‘aprendiz’ já não pode ser mais sobre um ofício em particular, mas deve, sobretudo, ser sobre todo o entendimento da realidade que nos cerca.

Eu me contorço de orgulho em ver profissionais de outras áreas levando transformações pelo interior das pessoas, pois é essa a ordem correta no longo caminho de aprimoramento social. Você não consegue polir uma estátua antes de lapidá-la, assim como não consegue nem lapidar, se não tiver um bloco bem firme de rocha, extraído da forma certa, do material certo e no local certo. A construção do ser humano apto a desfrutar do potencial de qualquer sociedade passa pela transformação profunda do próprio ser em todas os aspectos. Precisamos falar em muitos outros textos e momentos, com muitas outras mídias e formas de ação, sobre as importâncias maiores da vida humana, antes de pintarmos as fachadas desses templos com questões menores e posteriores como atividades e profissões.

Rodrigo Meyer

Muita gente está migrando pra fora da internet. Saiba os motivos.

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Mesmo quando nem todo mundo ainda teve oportunidade de aderir à internet, já tem muita gente abandonando ela. Isso não significa necessariamente que as pessoas não devam tentar buscar o acesso pra essa ferramenta quando tiverem a oportunidade. A internet precisa ser experimentada para entendermos os potenciais dela e também os impactos negativos que ela pode trazer na vida do usuário dependendo do uso que se faz.

A internet em si não é um problema. Ela é apenas conexões entre pessoas por meio de eletrônicos. Mas o que fazemos dela e como vivemos nossa realidade a partir dos parâmetros “sociais” que estão impregnados nessas tecnologias é que vai transformar a internet em algo danoso. Os sites, serviços, redes sociais, grupos, aplicativos de mensagens, os próprios conteúdos e a facilidade de colocar conteúdo online e interagir com as pessoas acarreta em alguns problemas que chegam de mansinho e de forma quase invisível.

Uns quinze anos atrás a internet era algo relativamente novo e sem forma aqui pelo Brasil. Tentávamos entender ainda tudo que poderíamos fazer com ela, mas sequer tínhamos boas conexões ou bons sistemas operacionais pra poder dar forma em conteúdos tão complexos como eles são hoje. Atualmente, não nos imaginamos sem internet, porque assim que o sinal de conexão cai, ficamos imediatamente sem comunicação, sem contato com nossos conhecidos, com nosso trabalho.

E rapidamente nos damos conta que somos dependentes do Google pra pesquisar uma foto pra começarmos um desenho, porque já desaprendemos a lidar com as coisas de maneira offline. Já não telefonamos pra quase ninguém, exceto em emergências, porque podemos simplesmente escrever uma mensagem pelo Whatsapp ou qualquer messenger ou ainda enviar um vídeo, um comentário, um gif-animado, um convite pra evento em redes sociais, entre outras opções.

Esses dias fui acompanhar os vídeos recentes de uma youtuber e me surpreendi com o “desaparecimento” de todos seus vídeos. Como ela já tinha mais de 80 mil inscritos e estava tendo boa relação com os usuários, a possibilidade mais sensata que imaginei foi que o canal tivesse sido hackeado ou que a pessoa tivesse tido algum problema e o canal havia sido interrompido. Algum tempo depois surgiu um vídeo onde a descrição de texto explicava a ausência dos vídeos anteriores. A youtuber estava enfrentando depressão há certo tempo e se deu conta de que se afastar da internet era o próximo passo pra sua melhoria. Por essa razão ela optou por deixar os vídeos ocultos (sem deletá-los) e cessou de produzir novos vídeos pra se dedicar mais pra vida offline e a resolução do seu problema de depressão.

Achei sensato e isso me impactou de alguma forma, porque geralmente as pessoas acabam buscando a internet como fuga pros problemas. E talvez, por isso mesmo, a internet não se torne um ambiente bom no geral. O modo como estamos e como usamos a internet acabam se misturando em um contexto pouco saudável. E isso tem tirado muita gente da frente dos eletrônicos, porque elas descobrem que online está pior do que offline.

Digo por mim, que já tive experiências muito preciosas com ausência total de eletrônicos. Cheguei a ficar três anos sem televisão, telefone, celular, máquina fotográfica, computador ou internet. Foi um período em que fui obrigado a redescobrir atividades e a ocupar meu tempo de forma mais inteligente. Eu não tinha como procrastinar, porque o tempo só passaria se eu fizesse alguma coisa. Como consequência, eu li mais, escrevi mais, troquei muitas e muitas cartas manuscritas, desenhei, pintei quadros, estive mais envolvido em trabalhos manuais como pequenos reparos ou decoração de ambiente. Até mesmo as atividades físicas aumentaram e eu passei a colher benefícios em vários sentidos.

Eu só fui notar o quão distante estava do meu potencial quando fui obrigado a exercer ele. Meu fôlego era maior, minha paciência era maior, meu tempo era maior. Eu tinha mais resistência física, menos ansiedade, menos cobranças, estava mais envolvido com as coisas simples e conseguia produzir muito mais. Descobri que ir a pé até os correios era gratificante e que buscar um vinho e um pouco de comida mudava o valor do momento.

Hoje em dia fazemos tudo muito rápido e existe, por isso mesmo, uma pressão pra que fiquemos nesse ritmo doido. A internet não espera você terminar de almoçar e já te coloca em estado de alerta pra conferir novas mensagens, novas notícias e todo tipo de conteúdo que pulsa na sua tela. Havia um tempo em que a área de trabalho do computador (a tela de fundo) era relevante. Hoje em dia, podemos admitir, o navegador fica aberto por padrão. Isso mostra o impacto que a internet tem em nossas vidas. Usar o computador já se tornou uma premissa de estar conectado à internet.

Até mesmo os softwares estão cada vez mais amarrados à rede. Baixar fontes exclusivas pro Photoshop ou publicar sua criação diretamente a partir do editor de vídeo já são realidades há bons anos. Você já não escolhe conectar-se na internet. Basta ligar o computador e se o sinal estiver chegando ao modem, o computador conecta-se sozinho. Os celulares se integram pelo wi-fi de casa ou dos comércios e você está sempre recebendo notificações do Instagram, do Facebook, de novos vídeos do Youtube. As propagandas individuais chegam até nós com precisão, porque nós mesmos escolhemos ser os alvos delas.

Configuramos nosso Facebook de forma a dizer tudo que gostamos, tudo que somos, tudo que queremos, temos ou fazemos. Em pouco tempo preenchemos uma enxurrada de valores que são responsáveis pela entrega que as mídias fazem pra nossos equipamentos. Não cogitamos desligar o celular. Apenas recarregamos ele quando a bateria descarrega um pouco e ele permanece sempre ativo, sempre nos dando mais e mais.

Passamos grande parte do nosso tempo dando likes e compartilhando conteúdos em todos os lugares possíveis. Os grupos do Facebook são uma exposição de fanpages que são uma exposição de sites, que são a exposição de empresas e pessoas, tanto pra trabalho quanto pra vida pessoal. Estamos sendo requisitados a todo instante a participar de centenas, senão milhares, de conteúdos por dia. E isso é humanamente impossível. Com isso, nos sentimos sugados, sem tempo, atolados em ansiedade e insatisfação. Não conseguimos mais dar conta de todas as notícias que gostaríamos de ler. Já travamos o navegador por excesso de abas abertas das quais não leremos nem uma fração. E mesmo não lendo as já abertas, abrimos tantas outras, porque simplesmente não podemos evitar que aqueles títulos e imagens chamativas nos levem pra novas necessidades.

A internet é um único lugar e apertado. Mesmo assim, milhões de pessoas estão tentando impor sua presença. Queremos deixar nossa marca e assim disputamos cada segundo, cada centímetro da tela. Estamos perdendo a batalha como quem tenta enxugar gelo. Nunca veremos o gelo seco, por mais que nos esforcemos, porque a internet gera por dia, mais conteúdo do que é possível absorvermos pra uma vida toda. E a cada novo dia ela volta com mais. Esse é um dos principais problemas que está levando muita gente a repensar o uso da ferramenta.

Talvez sejamos mais consistentes e felizes se deixarmos a internet separada das atividades gerais do nosso dia. Podemos desligar o celular ou as notificações de aplicativos enquanto estamos almoçando ou durante uma festa ou presença num bar, por exemplo. Não precisamos manter o celular ligado quando vamos dormir ou assistir um filme. Não precisamos ler ou comer na frente dos computadores e não precisamos limitar as relações sociais pelas redes sociais. A maior rede social que existe é o próprio contato físico e direto entre as pessoas. Não existe realidade maior que olhar nos olhos de alguém enquanto se conversa, sentir o perfume das pessoas, a textura dos móveis a sensação do vento, o andar pela cidade ou o compartilhamento de um abraço em um sofá totalmente offline na frente de uma lareira.

Mas, como já dito, difícil é fazer o simples. O ser humano está descobrindo que ele não conseguirá ficar feliz se ficar se iludindo com tanta correria e artificialidade. A naturalidade das coisas é que nos faz ver prazer e valor nas coisas. Gostamos de estar o mais próximo possível da personalidade das pessoas, seus trejeitos, suas artes, seus movimentos, seus traços de rosto e corpo, seus cheiros, suas vozes. Calor humano é mais do que uma metáfora. Precisamos de fato, sentir a temperatura da pele de outros seres. Precisamos nos humanizar mais, pois, sendo essa nossa essência como humanos, só seremos felizes e saudáveis se mantivermos esses valores todos que nos fazem falta todos os dias enquanto a internet toma nosso tempo, suga nossa alma e adoece nossa mente.

E, claro, quando estiver bem, dê uma passadinha pra fazer uso comedido e produtivo da internet. Menos é mais e se você souber aproveitar bem o pouco, fará ele se tornar todo o necessário.

Rodrigo Meyer

Me acordem desse pesadelo.

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Já escrevi em outros textos sobre quais seriam as prováveis barreiras que deixam as pessoas afastadas da leitura ou cultura. O problema está aí e é só isso que podemos afirmar por enquanto. O acesso a internet ou livros não é garantia de que as pessoas estejam lendo, até porque o acesso não é a única barreira a ser superada. O problema do interesse, o modo como se enxerga a cultura e quais as prioridades pra vida de cada indivíduo, moldam o que ele faz com os recursos que tem ao redor de si.

Embora a internet seja uma ferramenta poderosíssima pra disseminar conhecimento e também pra dar voz à diversidade de pessoas do mundo todo, ela pode ser, infelizmente, nosso maior inimigo também. Se mal utilizada, a internet começa a ser um tiro no nosso próprio pé. Basta imaginar que com o alcance das redes sociais ou de canais do Youtube, muita gente quer expressar alguma coisa, para justificar o fato de estarem online. E isso é um problema quando não se possui um motivo anterior e próprio pra a comunicação ou presença.

As pessoas querem entregar conteúdo, mas não querem consumir conteúdo. No final das contas elas não fazem nenhuma das duas coisas, afinal pra poder entregar algo, você precisa, antes, absorver, processar e planejar a expressão disso pra fora novamente. E isso pouca gente está disposta a fazer. Atualmente as pessoas estão em modo automático, replicando qualquer coisa e interagindo com tudo que veem pela frente, sem nem ao menos pensar no que ali se apresentou. Reflexo disso é que o próprio Youtube decidiu restringir a monetização apenas a canais que tenha acima de 10 mil visualizações. Uma forma de combater o lixo por meio do que as pessoas mais querem ultimamente: monetizar. Claro que isso não é garantia de que conteúdos com mais de 10 mil visualizações não sejam lixo também, mas já retira as monetizações de muito entulho que nasceu só pra fazer peso.

Esses dias estava acompanhando algumas publicações de oferta de trabalho onde o texto deixava bem claro todas as condições da atividade e do contato. E surpreendentemente as pessoas conseguiam ignorar 90% do anúncio e proceder de forma totalmente oposta. No ramo da comunicação, se diz que quando uma mensagem não é compreendida ou não levou ao objetivo idealizado é culpa do comunicador que falhou na criação. Em parte isso é verdade, afinal quem é profissional da comunicação está lá pra entregar a trilha que leva o público pro objetivo daquele conteúdo. E isso envolve projeto, estudo de psicologia, análise de público e muitas outras coisas.

Mas o que pouca gente fala é sobre o quanto está ficando cada vez mais difícil cumprir qualquer tipo de comunicação pra alguns públicos que estão na contramão total do mínimo necessário pra absorver as mensagens.  Claro, talvez eles não sejam o público ideal para tais mensagens, já que sequer conseguem absorvê-la, mas é exatamente esse o ponto em que quero tocar. As pessoas estão deixando de ser o público de uma infinidade de coisas por estarem se desconectando de certos alicerces mínimos de qualquer tipo e formato de interação humana. Não é possível que as pessoas ignorem um neon de 90 metros piscando “não entre no mar” e continuem entrando no mar. Essa analogia não é exagerada. Casos concretos iguais e até piores estão sendo registrados há muito tempo e tem sido desolador pra quem tenta lidar com pessoas, especialmente através da comunicação.

Sim, o ser humano está emburrecendo (e muito) e não tenho certeza se isso poderá melhorar pra todos. As pessoas estão tão ansiosas para fazer alguma coisa de suas vidas, que não estão nem mesmo parando para coisa alguma. Se elas veem uma imagem no feed de notícias do Facebook, elas mal terminam de apontar os olhos pro que viram e já tomam uma ação sobre aquilo. Alguns comentam a primeira coisa que brota na cabeça e não voltam pra rever nem a publicação original nem o que elas mesmas comentaram sobre. E, pior ainda, por isso mesmo não ficam nem sabendo que sua interação foi descartada por não fazer nenhum sentido diante do contexto. Se dedicassem 2 segundos naquilo em que interagiram, veriam, por exemplo, que o comentário não teve nenhum átomo de sentido e que o conteúdo não era, nem de longe, nada parecido com o que elas acharam que fosse. Chega a dar pena do nível catastrófico de danos que essas pessoas levaram na cabeça pra estarem vivendo dessa maneira.

Prefiro acreditar que seja efeito temporário (ou permanente) de drogas, pois se estão sóbrias e vivendo dessa maneira, então prefiro que desliguem o planeta, pois nesse caso seria sinal de que fracassamos de forma irreparável. Custo a acreditar que as pessoas estejam com todas as ferramentas possíveis e imagináveis nas mãos e mesmo assim não consigam fazer absolutamente nada de positivo pra suas realidades. Se estão desempregadas, por exemplo, não conseguem, porém, sequer ler o anúncio de uma vaga de emprego e, claro, acabam não sendo contratadas pra vaga.

Um professor de faculdade me dizia que a Psicologia reversa era o ideal. Se você disser que algo é proibido, as pessoas desejarão e farão. Se você não quer que alguém faça algo, não diga que não pode. E será que isso é sempre assim? Que triste! Existe, claro, o lado positivo em se contrariar, seja por expressão da liberdade ou pela curiosidade diante de algo que pode ser potencialmente bom justamente porque estão tentando nos tirar. Mas o lado ruim é quando as pessoas reagem por oposição automática, sem nenhum valor por trás dessa ação. E isso é preocupante.

Em um tempo de crise financeira e social no país e em várias partes do mundo, é triste ver que, pelo fato das pessoas estarem tanto tempo mergulhadas na ignorância, agora que mais precisam se readequar a vida, não estão conseguindo sequer preencher os requisitos mais simples pra qualquer atividade ou relacionamento que seja. Me chame de exagerado, mas o que tenho observado, infelizmente, são pessoas alucinando pesadamente. Vejo gente lendo o título de uma notícia e enxergando quaisquer outras palavras aleatórias no lugar das palavras reais. Além disso, muitas das pessoas sequer verão o texto do título, mas apenas a imagem que surge junto nos compartilhamentos da internet. E ler a notícia? Jamais. A interação já começa pela reação automática sobre as lembranças e associações diretas das cores e frequências que aquela combinação já conquistou ao longo dos anos na mente da pessoa.

Aquele meu professor de faculdade deu exemplos ótimos sobre a psicologia reversa. Ele citava o caso das lixeiras instaladas pela cidade de São Paulo e como aquilo foi o começo de mais sujeira, na contramão do que se pretendia. As calçadas ficavam imundas e as lixeiras vazias. Motivo? As placas diziam, na época, pra se jogar lixo no lixo. Se tivessem silenciado tais dizeres, teriam mais chance de que jogassem o lixo no lugar devido, talvez. O mesmo acontece também com placas que sinalizam proibição pra estacionamento ou limite de velocidade. Basta anunciar A que as pessoas farão Z. Parece haver uma compulsão doentia pra fazer tudo aquilo que seja o oposto do necessário, do útil, do desejado, do pedido, etc.

Consigo ver inteligência em quem contraria regras idiotas, mas não consigo ver sequer a existência de massa cefálica em quem está nessa automatização sem nenhum motivo consciente ou positivo. Tento ser realista todos os dias e, até onde pude ver, estamos mesmo diante de um emburrecimento grotesco das massas. Está vergonhoso mesmo. Espero que eu esteja apenas passando por um longo pesadelo e que logo mais eu acorde. Não quero que isso tudo que eu estou vendo seja verdade. Tomara que isso tudo seja apenas culpa de uma possível visão distorcida, pessimista ou algo assim. Quero dormir hoje e acordar amanhã sabendo que quando surgir uma vaga de emprego que esteja pedindo expressamente o envio de currículo como condição indispensável pra interação com a vaga, não brote um desempregado que envie um e-mail vazio no lugar do currículo ou que amarre sapatos pelas lixeiras da cidade, tire fotos e diga “pipoca não tem antena” como demonstração de interesse pela vaga que ofertaram. Me belisquem. Devo estar dormindo. Joguem água fria, estapeiem minha cara.

Já faz parte do grupo? Que grupo? Este.

Rodrigo Meyer

Não se sentir útil pode causar depressão.

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A depressão é uma patologia que pode ocorrer por diversas razões. Uma somatória de condições físicas e psicológicas e, possivelmente, até uma predisposição genética para certas características podem ser a abertura pra quadros clínicos de depressão.

O ser humano, por essência, deseja se integrar e se sentir bem no ambiente em que vive ou na vida em geral. Acomodar-se diante de um grupo, uma família ou mesmo entre um par, pode contribuir pra que se sinta valorizado. Mas não é suficiente apenas o apreço das pessoas. Mais do que isso, o ser humano precisa sentir que tem função na vida, necessidade e utilidade. Seja profissionalmente ou não, todo ser humano precisa exercer valor na equação da vida.

Se, eventualmente, o indivíduo nota que não faz diferença se existe ou não, pode sentir-se demasiadamente deslocado, sem espaço, mesmo que não seja expressamente recusado. Mas, por não se sentir útil, pode entender a falta de função no meio como um desvalor, um descarte, uma rejeição. E isso contraria os princípios dos seres sencientes que desejam viver felizes, acolhidos e saudáveis.

Por essa razão, muitas pessoas desenvolvem depressão quando, por exemplo, perdem o emprego ou deixam de conseguir clientes ou atividades para concretizar sua função. E às vezes tais situações se agravam quando esta dificuldade profissional repercute na sua autoconfiança em outros setores da vida, como o relacionamento familiar, as amizades, os romances e também o modo como enxerga a si mesmo em comparação com outras pessoas que estão ativas.

Estar em constante atividade é uma forma de mantermos nossa mente ocupada com objetivos e metas. Tentar buscar melhoria no que se faz acaba sendo um fator de motivação para muita gente. Exemplo do impacto disso é o crescimento alarmante de casos de depressão e suicídio em países muito desenvolvidos, em razão da sensação de que faltam objetivos pra serem conquistados, uma vez que já se tem tudo muito fácil e muito cedo. Embora se tenha amplo esforço em apoio psicológico, familiar e social, o ser humano dessas localidades desaba com certa facilidade se percebe que não precisa se esforçar pra ter o que a maioria do mundo não tem mesmo com amplo esforço.

O ser humano precisa seguir iscas constantemente. Ele pode gerar as próprias ou ir atrás de outras que foram inseridas pelas pessoas ou que estão presentes naturalmente no ambiente ou na vida. Parte desse problema envolve as facilidades da tecnologia que acabam encurtando todo esforço e permitindo que as pessoas cheguem longe rapidamente, sem experimentarem o prazer da vitória ou de se sentirem parte indispensável do processo.

Ter uma máquina que faça tudo por nós é como sentir-se desempregado das atividades mais superficiais. Já não somos necessários pra que as coisas funcionem. E esse é um sinal claro de que precisamos filtrar o que iremos automatizar e com que intensidade. Algumas pessoas sentem-se úteis oferecendo seu trabalho na própria família. Limpando a casa, fazendo reparos ou mesmo planejando reformas e decorações dos ambientes, estas pessoas se ocupam com uma atividade que se torna um objetivo e ao mesmo tempo o torna útil por servir à alguém que precise. Por outro lado, a obrigação dessas tarefas ou o excesso delas pode inverter o jogo.

Morar sozinho pode ser uma situação difícil para algumas pessoas, em razão do sentimento possível de que tudo que há pra ser feito por alí, não cumpre uma necessidade à outra(s) pessoa(s). Por isso, muitos solitários pensam em dividir o ambiente com mais pessoas como forma de atribuir utilidade para aquilo que já faziam por si mesmos. Seja cozinhando, fazendo compras domésticas, limpando, lavando roupas ou até mesmo planejando festas e momentos pra socializar, eles encontram função e sentem-se mais confiantes.

É evidente que é possível sentir-se bem morando sozinho ou mesmo estando sem trabalho. A ausência de uma função clara não é condição que obriga o surgimento da depressão, mas faz o indivíduo refletir com certa constância quais são seus papéis na vida. A sociedade é um grande referencial de valor pros indivíduos modernos e enquadrar-se nela por vontade própria ou por certa obrigação, transforma a visão que temos das nossas próprias opções na vida. Acreditamos que pra se viver bem, precisamos viver inseridos no modelo social. Em parte isso é bem verdade, pois o ser humano é sempre referido como um ser naturalmente social e que, assim como muitos outros animais, só exerce sua plenitude enquanto ser vivo, se estiver também na companhia ou interação com outros semelhantes.

Às vezes trocamos a presença humana por companheiros em forma de gato, cachorro e outros. É uma maneira de se contornar a ausência humana e com certeza pode ser uma maneira eficiente de trocar afeto e interação. Socializar é uma questão um pouco mais profunda do que simplesmente estar em sociedade ou estar ocupando o mesmo espaço que um grupo de seres. Socializar é uma relação complexa de papéis, aceitação e níveis de profundidade e valorização dos seres entre si. Quando a equação não contempla alguém, há uma exclusão, mesmo que seja aleatória e não proposital.

Um professor faz papel útil diante de um aluno que deseja aprender, assim como um médico tem utilidade para um paciente. O mecânico de automóveis desempenha seu papel quando pode arrumá-los. Também desempenhamos papéis quando somos referencial pra filhos ou irmãos no cuidado, educação, apoio, informação e partilha de momentos. Tudo isso engrandece nosso ser e nos faz persistir até mesmo pra não deixar as pessoas que gostamos sem o benefício da nossa intervenção.

Quando o assunto é a mente humana, não há garantias ou fórmulas. O que para alguns pode ser um contexto ideal de vida feliz, pode ser frustrante e desagradável pra outro. A depressão não vem só de uma fonte e certamente não existe um modo único de combatê-la ou evitá-la. A realidade humana está envolta em noções pessoais e nem sempre claras pro próprio indivíduo. A percepção da vida é uma tarefa que todos nós precisamos exercer, mesmo quando não somos requisitados pra isso. É da essência humana questionar a própria existência e viver conforme o que sente emocionalmente.

Uma boa postura diante de outras pessoas que estão enfrentando depressão ou situações similares onde sentem-se deslocadas ou sem utilidade é atribuir reconhecimento pelo que elas estão fazendo e, sempre que possível, incluir essa pessoa em projetos e desafios. A companhia de duas pessoas tentando fazer uma mesma atividade, por exemplo, pode ser uma forma de estímulo e apoio. É comum que amigos ou casais de namorados iniciem juntos atividades físicas ou dietas ou até mesmo que criem atividades profissionais pra dividir os potenciais e habilidades de cada um.

Aliás, famílias e amizades deveriam ser essencialmente assim, pois nada mais sincero na demonstração de afeto do que se engajar junto com outra pessoa pra encarar a vida, manter-se de pé, firme e forte e dar a oportunidade de ambos experimentarem o lado bom de se viver. Sabemos, contudo, que nem sempre teremos as condições pra desenvolver um trabalho ou hobby, mas devemos demonstrar compreensão diante de todos que estão tentando ou desejando isso pra suas vidas, especialmente se for alguém próximo de nosso meio.

Rodrigo Meyer