A complexidade de tudo.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Quando refletimos sobre um assunto qualquer, a primeira impressão é, quase sempre, a mais equivocada possível. Para exemplificar isso, vou fazer uma analogia. Se um indivíduo leigo olha para o céu noturno, ele pode se aperceber da presença do nosso satélite natural, a Lua, e ter a impressão de que o que vê é suficiente. Ao erguer sua mão, aqui da Terra, a Lua parece, facilmente, caber na palma da sua mão. Mas, se esse indivíduo se aproximasse de fato da Lua, ele iria perceber, à medida em que avança, que ela se tornaria substancialmente maior, até o ponto em que, mesmo ainda sem pousar em sua superfície, já seria impossível mantê-la inteira em sua mão. Ele se daria conta de que existe uma relação entre aparência, tamanho real, distância e/ou localização do observador, que transforma, visualmente, o objeto observado conforme cada combinação desses fatores todos. Assim, ele entenderia que objetos enormes, quando vistos de muito longe, parecem pequenos. E que aquilo que parece não abriga o total da realidade de um objeto, cenário ou evento. Faz-se necessário uma aproximação daquilo que se pretende observar e entender, assim como comparações entre o que já se conhece, para traçar uma regra que realmente faça sentido. Em resumo, observar e entender a realidade exige um conhecimento mais profundo que vai além das aparências, das primeiras impressões, etc.

Citada essa analogia e as devidas conclusões, imaginemos isso pra outras áreas, como o entendimento de pessoas, sociedades, ideias, ideologias, conjunturas políticas, econômicas, questões de saúde, relações culturais, a psicologia por trás de cada pessoa ou evento e tudo o mais que quisermos entender de verdade e não apenas nos aplaudirmos pelas nossas primeiras impressões, deduções rasas, equívocos e preconceitos.

O Brasil é um país em que, segundo os dados estatísticos apresentados na última notícia que li há um ou dois anos atrás, tinha cerca de 73% da população figurando na condição de não leitores. Pra piorar essa situação, o desgoverno atual, em 2020, está propondo a taxação adicional de livros. Ou seja, um país que já tem uma bruta crise econômica, com a maior parte da população vivenciando a pobreza e outros tantos retornando para linha abaixo da pobreza (a miséria), agora completa seu plano de devastação, barrando o acesso aos livros que sempre foram caros no Brasil, tornando-os ainda mais inacessíveis. Uma maneira eficiente de cortar o acesso da população à informação e cultura, na tentativa de remover o senso crítico. Os efeitos disso em médio e longo prazo, permitem uma destruição tal do intelecto da população, que, facilitaria e muito a disseminação de fake news (notícias falsas) ainda piores e de um empobrecimento do debate das questões sociais e pessoais, simplesmente cortando o raro acesso à qualquer área de assunto.

Nos últimos 5 ou 10 anos, o Brasil teve diversas livrarias fechadas, simplesmente porque não se sustentaram mais pela pouca demanda. Muitos autores, literalmente, passam fome com aquilo que recebem de direitos autorais ou de suas tentativas de monetizar suas carreiras em quaisquer outras plataformas. Já não haviam muitos leitores por conta da precarização da Educação e da sociedade em geral e pelos preços elevados dos livros que, muitas das vezes, tem tais valores justamente pra compensar a escassez de consumidores e tentar manter o lucro. Porém o efeito disso é o inverso. Quanto mais caro é o livro, mais inacessível ele se torna para a maioria das pessoas e, portanto, menos interesse essas pessoas terão em se aproximar desse universo. Por mais que você instigue nas pessoas o interesse pela leitura, se ela não puder comprar os livros, ela acaba se afastando desse meio.

Na minha infância, eu não tive condições financeiras de investir em livros e o pouco contato que tive foram com livros antigos que meus pais mantinham em casa, sem nunca adicionar itens novos. Os livros que estavam disponíveis para serem lidos eram, geralmente, informações obsoletas, formatos que resumiam conhecimentos gerais mal compilados ou alguns romances que pareciam ter sido escritos em outro século. Aquele típico conteúdo que a maioria dos sebos recusaria de receber mesmo se fosse doação. As raras exceções eu fiz questão de pinçar e preservar.

A televisão, naquela época, era puro entretenimento barato, feito pra ocupar o tempo e encantar adultos e crianças com a chegada das telas coloridas. Jornalismo, muitas vezes, era tão informal e desnecessário quanto é hoje em dia na maioria das mídias ou até mais. Internet não existia e revistas e jornais impressos eram, quase sempre, usados pra forrar o chão contra urina de cachorro e embrulhar objetos na mudança. Assim, olhar pra realidade lá fora era a mesma coisa que ver a Lua e deduzir que ela era pequena o suficiente pra caber na palma da mão. Tínhamos a percepção equivocada de que tudo era simples como pareciam para nossas cabeças desinformadas. Ter crescido curioso foi uma combinação de fatores improváveis. Neste sentido, posso me considerar a pessoa destoante na família. Enquanto descartavam a cultura e informação como se fossem puro lixo, eu tentava preservar e absorver aquilo que encontrava de novo, que me parecesse mais complexo, ter mais camadas de realidade ou significado.

Por uma imensa sorte do acaso, eu cheguei a ter condições de comprar alguns livros pra ampliar minha realidade nos assuntos que eu me sentia mais envolvido. Adorava ler e escrever, mas se eu levasse um caderno de anotações pra viagem em família, isso se tornava um ponto negativo aos olhos dos outros, em especial o meu pai. Na cabeça de quem tem o espírito amargo e a cabeça vazia, raciocinar era quase um crime. Como esperar que desse cenário de ignorâncias geradas e incentivadas, pudesse nascer qualquer melhoria nas condições de vida, na percepção da realidade? Fica óbvio perceber que essas pessoas replicavam um padrão de ignorância e distanciamento da informação, de geração pra geração. Sair desse redemoinho destrutivo me exigiu curiosidade nata acima da média, um esforço gigantesco para me conectar com pessoas e conteúdos que pudessem me tirar da ignorância e a minha constante ajuda à mim mesmo em favorecer esses momentos através de, por exemplo, conversas com professores, contato com pessoa de bairros vizinhos, filtro sistemático dos conteúdos da televisão e aumento da prioridade de se pagar internet, por mais lenta e rudimentar que fosse. Também não foram poucas as vezes que tive que abarrotar meus colegas com perguntas sobre tudo o que eles já sabiam mais que eu sobre determinado assunto.

Muito do que eu conheci começou, literalmente, a partir de verbetes no dicionário e, então, buscando quaisquer referências sobre aquilo em qualquer lugar. Às vezes eu simplesmente lia a enciclopédia saltando de um verbete pra outro, conforme os assuntos que eram apresentados durante o texto. Se não haveria ninguém pra me incentivar a conhecer mais da realidade, eu teria que fazer isso por mim mesmo. Mas, ainda hoje, eu não sei dizer qual foi o fator propulsor dessa vontade e conduta. Eu poderia ter me acomodado na ignorância ao mesmo modo que outras tantas pessoas ao meu redor, mas algum fator, que ainda me é desconhecido, me levou à um desfecho diferente. Pra não cair na mesmas deduções rasas que eu evito, eu preciso olhar pra isso e tentar ver mais de perto. De longe, a primeira impressão sugere alguma característica especial nata, mas o que é que encontramos depois disso? Ainda não tive a oportunidade de me aprofundar nessas questões, mas conheço diversos outros casos em que as pessoas destoam da tendência de seus meios de convívio, dos padrões estabelecidos na família, na escola, na sociedade, no trabalho, etc. Sei, claro, que pessoas são diversas, mas nem sempre sei o que gera cada característica e contexto de um indivíduo sob essa tal diversidade.

Quanto mais eu aprendia sobre diversos temas, mais eu percebia que precisava entender melhor da composição das sociedades, das famílias, das relações, da psicologia por trás de tudo isso, das questões políticas, da História e, talvez, principalmente da própria antropologia, da biologia e de tudo que pudesse explicar a constituição do ser humano. Qualquer oportunidade que eu tinha de viajar, mesmo que fosse pra uma cidade ao lado, eu aproveitava cada segundo. Pra mim, observar a realidade era a principal ferramenta que me permitiria raciocinar à fundo aqueles temas, mastigando novos livros, novos blogs, novos artigos na internet. Visitei muitos sebos, aprendi idiomas, assisti muitos filmes. A internet me salvou, por muito tempo, da falta de esperança. Eu achava que, com o suporte dela, eu entenderia boa parte do mundo, incluindo os livros que poderia comprar a partir dela. Visitei livrarias e tive até a possibilidade peculiar de conhecer donos de editora e autores dos mais variados segmentos e estilos literários. Mas, nada disso me deu o que eu realmente precisava. Faltava nessa equação algo que me desse firmeza naquilo que eu aprendia. Eu que sempre fui autodidata, sinto muito orgulho de ter aprendido tanta coisa sem depender dos sistemas de ensino que eu tanto criticava. Pra mim, o distanciamento da escola e da faculdade, era visto como algo saudável. Porém, era conveniente para meus objetivos na vida, que eu os aturasse pra poder concluir formalmente essas etapas e ser diplomado. Terminei a escola e fiz faculdade, mas me decepcionei muito com a quantidade de tempo investido com pessoas que, infelizmente, nem sempre sabiam o que estavam fazendo ali. Algumas figuras, ganhando rios de dinheiro, chegaram a replicar inverdades baratas enquanto “ensinavam”. Isso só reforçou o meu desapreço por esse sistema de ensino, o modelo social que empurrava gananciosos ignorantes para cargos de professor ou mesmo para a execução dessas profissões todas em outros ambientes.

Por tudo isso que citei, fica fácil ver que o entendimento de qualquer assunto não esbarra só na falta de acesso aos livros ou à escolas e universidades. Em muitos dos casos, mesmo depois de percorrer esse imenso labirinto que, apesar de falho ainda é um privilégio, chegamos tropeçando na verdade. Como é que vamos aprender sobre o mundo, se nem os “profissionais” dedicados às suas especialidades, conseguem nos entregar, pelo menos, a verdade? Temos, então, que aprender a aprender. Temos que filtrar quem é que tem um ensino decente, um respaldo sincero de conhecimento, de intelectualidade, um aprofundamento técnico sobre o assunto e os detalhes em questão. Depois do bacharelado nas universidades, as pessoas podem seguir inúmeros outros níveis de especialização até que possam dominar com mais firmeza uma pequeníssima fatia do conhecimento. Enquanto o generalista entende superficialmente sobre tudo, o especialista usa do conhecimento abrangente como plataforma de salto para dentro de um detalhe. Só assim é que se consegue absorver a complexidade de determinada coisa.

Quando iniciei meus estudos de Fotografia lá pelos 20 anos de idade, eu já tinha contato com diversas outras artes e áreas de comunicação como a escrita, a pintura à óleo, a música (piano, teclado e órgão), mas nunca havia me sentido tão conectado com algo como foi com a Fotografia. Ela se tornou extensão de mim e por quase 20 anos eu desenvolvi essa atividade. Da mesma forma que o acesso à literatura foi escasso na minha infância, a Fotografia me parecia uma realidade de outro mundo, quando eu comecei. E de fato, ainda hoje, percebo que existe uma escassez de demanda por ela em toda a sociedade e que essa escassez foi reforçada com a chegada da internet. Assim como os programas de televisão e noticiários eram rasos e pouco profissionais, a Fotografia, nos últimos 10 anos, pelo menos, se transformou, magicamente, naquilo que ela não é: registro de imagens. E dizer isso para uma sociedade que está convicta da “verdade” que só é verdade na cabeça delas, é a mesma situação de tentar mostrar que a Lua, mesmo parecendo pequena, não cabe na palma da mão. Esse contraste entre a percepção superficial e o real conhecimento de algo é algo que gera um atrito social que desgasta demais as pessoas envolvidas. Se por um lado o leigo que acredita ter a verdade se sente incomodado com a crítica, por outro lado há quem domine o assunto e se sente incomodado com a destruição da verdade, de uma profissão, de uma possibilidade de existência e atuação.

Imagine você, por exemplo, que, da noite pro dia, começassem a propagar a ideia de que livros são simplesmente pesos de porta e nada mais. Imediatamente veríamos escritores e professores revoltados, tal como se tivessem dito para um astrônomo que a Lua não passava de um pequeno objeto menor que a palma da mão. Vivemos numa era de ignorância e, pior do que isso, numa era em que se incentivam as ignorâncias. Embora pareça cômico e exagerado as analogias feitas, na vida real, no cotidiano, em diversos outros assuntos as pessoas agem de igual maneira, tirando conclusões absurdas sobre algo que elas não entendem de fato. E pra onde caminhamos com a predominância dessa cultura? Vamos para um obscurantismo cada vez maior, perdendo qualquer chance de dignidade humana, pois onde o conhecimento é desmerecido em detrimento do avanço da ignorância, o mundo se torna não só mais raso, como mais incompetente para resolver todos os pequenos problemas pessoais ou coletivos. Esse é exatamente o cenário que fomenta mais pobreza, mais doença, mais miséria, mais estelionato, mais preconceito, mais golpe, mais violência, mais desesperança, mais guerra e mais desconfiança. A idade das trevas não levou esse nome por acaso. Hoje vivemos um obscurantismo talvez ainda pior, se considerarmos o ano em que estamos e os supostos avanços tecnológicos e sociais. Se tudo que temos em ferramenta não for utilizado para nos tornar pessoas melhores, mais livres e mais cultas, de nada terá servido. É por meio da lapidação do indivíduo que conseguimos remar na direção contrária do obscurantismo. Quando cada um de nós se recusa, individualmente, a endossar o retrocesso, formamos um coletivo que trabalha numa mesma direção. É esse coletivo que nos garante, apesar das diferenças, chegarmos em alguns consensos em benefício de todos nós.

A complexidade da vida passa, com toda certeza, pela complexidade do indivíduo. Enxergamos somente até onde nossa visão alcança. A complexidade das coisas muda conforme mergulhamos mais à fundo nelas. O indivíduo raso pode ver a vida como algo simples, mas aquele que se presta a ser um pouco mais curioso e estudado, logo descobre que nada na vida é tão simples como parece. As pessoas dedicam anos e mais anos de muito estudo, vivência e testes em todo tipo de área do conhecimento, incluindo o conhecimento do próprio ser humano, da mente, da Psicologia, da Educação, da Sociologia, etc. Um mundo que pretende ser mais fácil de ser vivido precisa, antes de tudo, priorizar que o maior número possível de pessoas sejam alfabetizadas e, mais do que isso, que aprendam a ter pensamento crítico e curiosidade por todas as coisas. Quando isso estiver arraigado dentro de cada ser, aí teremos uma sociedade vitoriosa que fará questão de eliminar a fome, a pobreza, as injustiças sociais, enquanto avança com eficiência no desenvolvimento tecnológico e cultural. Uma sociedade só se torna realmente emancipada, quando ela intenciona a qualidade de vida de seus membros, à começar pelos direitos mais essenciais de acesso à sobrevivência digna, o conhecimento e uma perspectiva de futuro.

Muitos dos que me leem aqui, provavelmente já sabem que eu tenho histórico de depressão. Tenho essa condição há muito tempo, mas, felizmente, estou tendo uma fase boa nas últimas semanas. Ter esse contato com a depressão por tanto tempo me fez perceber o quanto ela me privou da esperança por dias melhores. Então, uma sociedade que priva as pessoas dessa esperança, está, basicamente, causando um dano similar ao da depressão. Mergulhar pessoas num cenário onde elas sintam que não possuem mais espaço nessa sociedade ou nessa vida, é uma maneira de matá-las de dentro pra fora. Mesmo quando eu tenho picos de melhora da minha condição, eu sei que o mundo continua igual na maioria dos países. A crise social, política, ética e humana é proposital na realidade de quem exerce suas psicopatias para extrair lucro fácil e imediato de pessoas exploradas em situação precária de vida, sem sentirem o menor remorso por isso. Nada disso deveria ser novidade pra qualquer pessoa hoje em dia. Porém, na prática, há pessoas qua ainda insistem em abraçar seus próprios algozes porque, infelizmente, elas também gostariam de estar nesses postos se assim pudessem. Como disse Paulo Freire, “Quando a Educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”.

Aquele que não tentar desviar da agenda de idiotização das sociedades e desgovernos, estará fadado a viver em uma realidade potencializada para a destruição, para a infelicidade, para a dor, a violência, a indignidade, a falta de esperança, a extinção de qualquer fagulha de conhecimento que possam salvá-los das mazelas e dos acasos. Sociedades altamente evoluídas já se formaram no nosso mundo e, não foi preciso muito tempo pra que elas se degradassem e sumissem do mapa. Cazuza cantava “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”. Assim tem sido a humanidade com suas eras de destruição e ignorância tentando se reconectar com tecnologias e conhecimentos que já foram extirpados. Haverá um tempo em que as pessoas descobrirão novamente a Fotografia, o Jornalismo, a Política, e diversos outras áreas do conhecimento que hoje parecem tão artificiais e imprestáveis, que, talvez, nem devessem mais carregar os mesmos nomes originais. Na maioria dos países, as sociedades se tornaram qualquer coisa, no pior sentido do termo. A pessoas não só ses mostram racistas, fascistas e golpistas, como chegam a falar abertamente sobre tudo isso com profundo orgulho. Essas pessoas se tornaram aquilo que o mundo fez delas, ao deixá-las apodrecer na mais profunda miséria ética e intelectual. Ninguém que tenha estudado o mínimo sobre a realidade do mundo, aceitaria se deturpar de forma tão imunda, para extrair benefícios tão ilusórios. Só mesmo a psicopatia aliada ao apodrecimento da alma e do intelecto, podem explicar os rumos que o mundo tem tomado todo dia.

A pequena ponta do enorme iceberg que vemos já cheira podre o suficiente para odiarmos todo o resto. E quando pudermos observar a magnitude da origem de todo esse iceberg, nos especializaremos nas inúmeras questões imundas que são compostas das pessoas e ideias mais abjetas possíveis. Não existe beleza depois de certa profundidade na merda. É só falta de perspectiva, sufocamento, nojo e revolta. Esse caminho terá que ser percorrido em algum momento, pois como ele foi ignorado por tantos séculos ou até milênios, acumulou-se o suficiente pra que a maior parte dele se tornasse completamente intocada e desconhecida, mas que, pela ponta em que estamos vivendo hoje, sabemos que é nossa origem e que, por isso mesmo, precisaremos aprender tudo sobre ela se quisermos ter alguma chance de desvendar a complexidade da humanidade, da vida, do momento presente e nossas reais alternativas para o futuro. Ignorar esse nosso desconhecimento sobre o mundo só nos coloca em posição ainda pior, dando tiros cada vez maiores em nossos próprios pés. Ou você faz o necessário pra ajudar a si mesmo, ou estará eternamente lutando contra a maré e fracassando dia após dia, ano após ano, geração após geração. Qual é o presente e o futuro que você quer construir? A resposta pode ser tão simples quanto dizer ‘melhor’ ou ‘pior’, pois seja lá quais forem as ferramentas escolhidas para isso, a ignorância e a falta de aprofundamento no conhecimento jamais darão a solução pretendida. Ou você é do time que acredita equivocadamente que a Lua cabe na palma da sua mão ou você é do time curioso que se propõem a estudar além das primeiras impressões.

Veja, eu não estou dizendo o que é que você tem que estudar ou qual caminho ou sistema de ensino deve escolher. Estou apenas dizendo que você precisa se aprofundar no conhecimento de algo, ao invés de fingir que sabe e se contentar com isso. Na pior das hipóteses, se você não quiser dedicar sua vida ao estudo, você pode, pelo menos, dar espaço para quem faz isso, apoiando alunos, professores e profissionais que dedicam tempo nos assuntos com seriedade. Dar esse espaço significa que você, pelo menos, está favorável ao conhecimento e a melhora do mundo. Basta que você não seja uma pedra no caminho e já estará ajudando muito.

E, lembre-se: embora nem todo conhecimento seja adquirido exclusivamente em escolas e universidades, é sempre necessário que se tenha embasamento, experiência de vida em torno desse tema, contato prático que vá além das teorias e, o mais importante de tudo, uma curiosidade verdadeira que te faça questionar as próprias informações obtidas, pra não cair no terrível beco das informações obsoletas, desatualizadas ou que já foram desmentidas ou ampliadas. Não se contente com a superfície de nada. Muito do que nos ensinaram no colégio sobre História, por exemplo, é completamente defasado e cheio de inverdades. Pode parecer estranho, mas a verdade é que, como diz o ditado popular, “o papel aceita qualquer coisa”. Por isso, mais importante do que apenas ler o que está escrito nele é ter senso crítico e as ferramentas que lhe permitam contestar ou confirmar o que ali foi dito. Quando professores, especialistas ou profissionais trazem uma informação para o seu mundo, a função dele deve incluir a de ensinar a aprender. De nada adianta replicar frases prontas como um papagaio, se não possui pensamento autônomo e crítico por trás disso. Só quem está realmente comprometido com a verdade fará o esforço devido pra ensinar outras pessoas a conhecer e manusear corretamente as ferramentas que nos permitem averiguar e avançar nas informações.

Embora eu tenha um importante conhecimento de Fotografia, eu nem mesmo me senti apto a lecionar, pois percebi rapidamente o quão distante eu estava do necessário. Lecionar envolvia muito mais do que apenas entender de Fotografia. Por mais organizado que eu fosse, exemplificando questões técnicas com analogias, eu não dominava a arte de ser professor, de lidar com o buraco que havia no ensino prévio das pessoas que tentaram ter aulas comigo. Eu simplesmente vi, por experiência própria, que aquilo não funcionaria. Foi assim que parei de lecionar, fiz as pazes com a frustração de não ter conseguido levar a Fotografia pra mais pessoas e, desde então, tento ocupar a minha mente em produzir, primeiramente, pra minha satisfação pessoal e, se sobrar tempo e surgir alguém que realmente tenha aptidão pra entender a complexidade da Fotografia, aí, talvez, dividiremos alguma troca de informações sobre o assunto. Dizem que o conhecimento não serve de nada se não for utilizado para melhorar a vida das pessoas e concordo com isso. Se, por um lado, não posso gerar novos fotógrafos para o mundo, vou gerar, pelo menos, muitas novas fotografias. Vou exercer aquilo que eu conheço e gosto e tentar cativar as pessoas a redescobrirem o mundo, as diversas realidades, com pensamento crítico, com curiosidade, com apreço pela verdade. Essa talvez seja a única maneira, ao meu alcance, de transformar meu conhecimento em melhoria na vida da humanidade. É algo que eu sempre fiz desde o início na Fotografia, na Pintura e na Literatura, mas, provavelmente, não terei o necessário pra levar outras formas de melhoria para o mundo. Venho aprendendo mais todo dia e incentivando outras pessoas que fazem aquilo que eu não faço ou que fazem o mesmo que eu de forma igual ou melhor.

É preciso dar vazão para o conhecimento, o aprofundamento, a especialidade, de diversas outras pessoas, para que o quebra-cabeça se torne cada vez mais completo. O conhecimento é infinito, mas tudo que que puder ser dominado em benefício da humanidade, deverá ser apoiado, feito e replicado. Eu entro com a Fotografia, outro entra com a Astronomia, alguém contribui na História, na Medicina, na Pesquisa, na Educação, na Sociologia e assim por diante. Cada um dá aquilo que tem de melhor para construção do mundo. Essa noite eu tive um sonho onde me sentava no fundo de um ônibus quase lotado. Alguém havia dito uma asneira e logo começaram a pipocar comentários de pessoas concordando e apoiando, enquanto a maioria dos passageiros ignoravam calados. Eu, então, saturei de ouvir todas aquelas mentiras e comecei a despejar críticas raivosas de lá do fundo. Seria esse sonho um desabafo da consciência pelo momento absurdo que estamos vivendo no Brasil e no mundo? É possível que seja isso. Talvez, sem conectar uma coisa com a outra de forma consciente, eu cheguei em um tema semelhante pra esse texto. Agora, relembrando do sonho, vejo como tem sido oportuno ter um espaço pra escrever e ser lido, mesmo que isso seja relativamente pequeno. Se esse pingo de informação e reflexão puder chegar em, pelo menos, mais uma pessoa, já será válido o esforço. Mas é preciso que chegue não só nos olhos, porque ler não é só passar os olhos pelas letras. Também não basta que sejam entendidas as palavras e as frases, pois ler também não é tão simples quanto isso. Ler, de verdade, é ter capacidade de compreender o que está por trás daquelas palavras escritas ou ditas. E isso tem sido raro ultimamente. As pessoas juram de pé junto que leram os textos e mensagens, mas, na prática, ainda estão como aquele coitado observador que ergue a mão pro céu na direção da Lua e chega à conclusão equivocada que já entendeu o suficiente sobre tudo que seus olhos viram.

Confesso estar bastante cansado e com pressa de sair dos mesmos cenários em que estou, pois essa parece ser minha única chance de experimentar qualquer coisa nova e promissora pro meu eu do futuro. Eu quero voltar a fotografar, voltar a sorrir, voltar a sonhar, voltar a explorar o mundo, tentar sentir novamente o amor, aprender mais das mesmas áreas e, talvez, começar em uma área nova do conhecimento. Eu quero me sentir vivo novamente e isso só será possível quando eu tiver a liberdade de acessar todo esse conteúdo e avanço que a maioria dos países nos privam desde muito cedo, com muita força, de muitas maneiras. Quero sentir novamente, o gosto de poder descobrir prazer pelas coisas, sabendo que, se for necessário, posso estar perto de mais ferramentas, mais livros, mais tecnologia, mais conhecimento, mais experiência de vida, própria e alheia. A depressão já me parou muitas vezes, mas eu tenho que aproveitar qualquer momento de trégua para sabotá-la e percorrer um pouco mais de vida, de prazer e de emoção. Todos nós queremos viver e nos sentirmos com, pelo menos, um mínimo de paz e segurança. Por isso, faço tudo que está ao meu alcance para transformar o cenário desfavorável em uma oportunidade criativa e contra a tendência de obscurantismo. Os exploradores não nos querem ver vencer, então temos que partir dessa premissa e desviar do senso comum, do óbvio, da mesmice, do conformismo, da ignorância e da passividade, para construirmos nossa saída pra mundos maiores, melhores e mais livres. Ou você caminha em direção à dignidade ou será prensado por um sistema que te oprime e te emburrece até o ponto em que você se torna aliado fanático do malefício ao invés de resistência. A escolha está na mão de cada um, considerando as diferenças de realidades e oportunidades. Eu fiz a minha escolha, dentro do que estava ao alcance do meu contexto e cabe aos outros fazerem as escolhas que puderem e decidirem fazer.

Rodrigo Meyer – Author

O mundo das coisas comuns e previsíveis.

Eu “não sei” vocês, mas eu sempre vivi querendo ser surpreendido. Nunca me contentei com a mesmice, nunca me interessei pela rotina, pelas coisas comuns, pelas pessoas previsíveis, pelas situações banais. Três décadas e meia depois ainda estou a procura de algo que me surpreenda, principalmente por não ter encontrado muita coisa, apesar de tanto tempo passado.

Pra quem vive nessa realidade, é difícil se interessar pelo que acontece na Terra, porque aqui é o planeta da roda quadrada, onde, geralmente, nada de interessante acontece e tudo é tão óbvio que Nostradamus perderia a função ao tentar prever qualquer coisa, afinal todos já saberiam, com detalhes, o que ocorreria.

Querendo ou não, estou nessa sociedade que me faz bocejar. É fácil saber pra onde estão indo, o que estão pensando, até onde se estendem seus pensamentos, quais são seus preconceitos e suas vontades. Isso sem falar que, nas poucas vezes que algo ou alguém surpreende, uma grande parte é uma surpresa pra pior. Imagine quão restrita é a surpresa boa nessa equação. Simplesmente deixo as expectativas de lado e se algo ruim vier, não terá sido mais do que o já esperado e se algo bom ocorrer, ótimo. Dessa forma, não fecho as portas pras coisas boas, mas também não crio expectativas em vão pro restante. Menos expectativas, mais vida.

É preciso vigiar a nós mesmos, nossa realidade, nossas metas, nossas posturas. Às vezes nos damos conta de nossas falhas em um determinado dia, mas minutos depois já ignoramos o tema todo e seguimos errando. Assim não há progresso. Nisso também não há surpresa, pois não é preciso ser especial pra saber que o ser humano desiste muito rapidamente de suas tentativas de melhorar.

As pessoas acham que não fazer nada é mais cômodo, pois erraram tanto e tantas vezes que qualquer mudança parece um esforço sobre-humano.  É aquela velha analogia de ter varrido tudo pra debaixo do tapete e na hora de encarar aquela sujeira toda tem uma imensidão de lixo acumulado ali por baixo. Por isso, tão mais fácil é ir resolvendo os pequenos problemas ao longo do caminho sem ter que parar nem ter muito esforço pra melhorar. Subir uma escada do primeiro ao segundo andar é mais fácil do que dar um único pulo pra tal altura. Isso ninguém pode negar. E uma boa maneira de melhorar nesses quesitos é começar a rever quais das coisas você ainda é ou faz e aceitar as mudanças que forem úteis e necessárias. Deixe o passado pros arqueólogos.

Pra evitar um mundo comum e previsível, precisamos parar de postar as mesmas frases, de replicar as mesmas imagens, de usar as mesmas cores, de nos prender as mesmas fontes, de conversar com as mesmas pessoas, de tirar as mesmas fotos, com as mesmas poses. Se quisermos mudar o marasmo da repetição inútil e chata de tudo isso, precisamos agir. É preciso que seja extinto o conformismo com o vazio e superficial. Ou você dá sentido forte e verdadeiro à algo ou então é melhor deixar passar brevemente. Não perca tempo nas coisas sem valor. Dedique mais tempo num abraço sincero e apertado do que em horas e mais horas na companhia de quem não soma nada.

Às vezes de madrugada, onde não há carro algum pelas ruas, vejo gente parada no semáforo vermelho, sem a menor necessidade, feito zumbis amarrados a um cabresto. Não conseguem pensar por si só. Estão acostumadas a repetir o “pensamento” e a ação. Estão condicionadas a tudo, mesmo quando não precisam e/ou quando não deveriam. Tenho quase certeza que se colocasse um semáforo vermelho que nunca mudasse pra verde, no portão da casa das pessoas, elas parariam e nunca entrariam em casa. São incapazes de gerir suas próprias realidades. São inaptas pra vida. São só marionetes de algo que nem elas sabem o que é. Aguente o tranco, mas pra mim isso tem nome: desperdício de átomos.

Abro os grupos de Facebook com vontade de ver alguém dividir conhecimento e conteúdo, mas, claro, tudo que encontro por lá é mais do mesmo. É gente atoa que, por não saber o que fazer da própria vida, torna a vida dos outros igualmente inútil. Pela internet falta humor, falta argumento, falta arte, mas sobra preconceito, ignorância, mentes fracas. Todos querem, poucos oferecem. Todos podem, poucos fazem. Nenhuma surpresa.

Te desafio a contabilizar quantos grupos de Facebook possuem o mesmíssimo tema e função. Ao invés das pessoas ampliarem o potencial de um grupo, elas se espalham em milhares de outros idênticos, o que não ajuda, afinal, se faltou propósito para a criação de algo novo, esse novo já começou sem valor algum. União é vital se quiserem colidir com mais opiniões, mais pessoas, mais pontos-de-vista, mais possibilidades, mais diversidade. Tudo bem criar um ouro grupo, se achar que os valores e rumos de outro não satisfaz seus propósitos e ideais, mas criar centenas de grupos idênticos chega a ser patológico.

Abro os vídeos do Youtube e tenho vontade de me balear na cabeça. É um mar de entulho que não agrega absolutamente nada pra minha vida em nenhum aspecto. As pessoas já não conseguem raciocinar enquanto falam. Apenas falam. Chegam ao estado letárgico de apenas narrar o que veem. Olham pra uma parede e começam: “Aqui uma parede branca, do lado de uma parede também branca. E aqui, acima, tem o teto, branco também, como vocês podem ver.”. Fico torcendo pra surgir um guindaste pegando fogo pra interromper aquela inutilidade toda.

Felizmente sou salvo por alguns autores que quase sempre trazem algo legal de se absorver. Mas pense comigo: Não dá pra viver de meia dúzia de gente só. Essas pessoas não são uma fábrica infinita de conteúdo. Só a diversidade nos salvará. Precisamos de bilhões de pessoas produzindo e movimentando o mundo. Seria o equivalente a ler um livro de 200 páginas onde só seis páginas são interessantes e o restante são páginas em branco. Melhorem.

Vou procurar filmes e livros e aí descubro pra que serve a opção de fechar o navegador. Vou ao Google e, independente do que eu digite na busca, os resultados são sempre uma enxurrada de entulho. Notícias falsas, sensacionalismo, lunáticos empurrando produtos, cursos, vendas, mais vendas, vendas de novo e vendas. Se ao menos fossem cursos ou produtos bons. Geralmente é só mais do mesmo em um mundo onde a fraude reina. E, exatamente, as pessoas só podem oferecer o que possuem.

Recentemente um bar com música ao vivo fechou e eu me senti um pouco mais órfão de conteúdo, pois já não existiam opções por aqui onde eu moro e agora tenho que aceitar que a música também está morrendo. Aliás, vale destacar que apesar de ser um bar de música ao vivo, a maior parte das bandas que se apresentavam por lá eram covers, tamanha a previsibilidade do ser humano. Criar, jamais. Imitar, sempre. E ainda há quem chame isso de homenagem às bandas originais. Como uma cópia pode ser uma homenagem à originalidade? Chega de mais do mesmo!

Estamos em 2017 e ainda somos totalmente dependentes do passado. Ligamos o rádio pra ouvir clássicos, pois ninguém está produzindo nada de relevante atualmente. Antigamente os rádios é que apresentavam as músicas ao público e hoje em dia é o público que pede as músicas que quer ouvir na rádio. Assim, só escutam o que já conhecem. Deplorável.

Nos meses recentes fiz uma faxina geral na minha vida, dentro e fora da internet. Uma desconexão com uma tonelada de coisas que só estavam lá paradas, sem nenhuma função. O desvalor de tudo aquilo estava pesando. É o famoso peso morto. Odiamos carregar algo que não nos serve pra nada. É como carregar um guarda-roupas pesado nas costas, apenas pra irmos até o bar e voltar.

Por muitos e muitos anos venho praticando a ideologia do minimalismo com o lema “reduzir, reduzir, reduzir”. Isso tem me aberto muito espaço para criar. As pessoas se questionam como ou porquê tenho tantas atividades, em tantas mídias diferentes, diversas funções e profissões. Eu não consigo olhar pra escassez e não me sentir compelido a preencher com algo pra criar. Isso é o que me faz estar em tantas frentes ao mesmo tempo. Mas como consigo isso? Sobra tempo? Claro que sim. Especialmente porque na prática do minimalismo jogamos fora tudo que não tem serventia real. Depois que eliminamos todo o entulho, sobra tempo, espaço e vontade pra gerir as poucas coisas que de fato nos valem de algo.

Cabe a nós, então, aproveitar o momento e fazer com que essas coisas sejam realmente interessantes, fora do comum, não previsíveis. Não é fácil, especialmente depois que fomos moldados socialmente a viver feito zumbis, copiando tudo, incapazes de sermos nós mesmos e pior que isso, muitas vezes sem nem sabermos quem somos pra poder exercer nossa essência. Estamos literalmente mortos e só haverá alguma chance se um dia resolvemos nos opor a mesmice e começar a abrir os olhos e a mente para o novo, para a diversidade. Surpreenda o mundo, surpreenda-se. Todos saem ganhando.

Rodrigo Meyer

Porque as pessoas desejam sempre as mesmas coisas?

Em um mundo onde a maioria das sociedades são formadas por modelos de excessivo consumismo, é fácil ver que boa parte desses momentos de desejo de compra são puramente artificiais e se mostram como um claro reflexo da propaganda mal intencionada que é veiculada não só pelas mídias mas pela própria sociedade. Da mesma maneira que as marcas vendem-se como necessárias ou importantes pra vida das pessoas, algumas pessoas, tomadas por essa crença, espalham esse modelo de vida cobrando e pressionando outras pessoas a se adequarem nesses moldes doentes.

Havia um tempo em que os presentes de datas comemorativas eram embrulhados em papel de presente ou nem mesmo eram embrulhados. Hoje em dia os presentes são abertamente dados com as sacolas e embalagens das lojas, com suas marcas estampadas de forma bem visível, afinal é isso que estão doando na verdade. Antigamente, os produtos em si eram o presente, mas hoje, o status de marcas e lojas fazem as vezes de “produto” a ser consumido.

Sempre tínhamos a visão de que certas marcas eram pra público mais abastado financeiramente e que outras marcas eram deixadas como uma opção barata de produtos iguais ou similares. Em todo tipo de produtos ou serviços as pessoas sentem essa depreciação de valor e qualidade (ou de suposta qualidade). E com isso, gera uma certa vontade de compensar o prejuízo social tentando adquirir um desses produtos mais caros. É assim que surgem pessoas dispostas a loucuras como gastar todo o salário de um mês na compra de um único produto, apenas pra ostentar o uso daquela marca. Outros, um pouco menos ousados, buscam as imitações / falsificações que cabem melhor no bolso, mas que falham em outros fatores, tanto do ponto de vista da legalidade quanto da própria qualidade. E, convenhamos, ostentar uma marca da qual você não pode sequer comprar o original devido ao preço caro, é o mesmo que divulgar seu próprio explorador.

Diversas pessoas trabalham em empresas das quais jamais poderiam comprar o produto que elas mesmas fabricam. Empresas de produtos esportivos figuram em crimes de trabalho infantil e exploração de mão-de-obra em contextos de trabalho escravo, sendo o extremo da ironia por produtos tão caros, onde nem a matéria prima é cara e nem a mão-de-obra é dignamente paga.

E porque será que apesar de tanto contexto ruim nessas empresas e produtos, as pessoas continuam desejando sempre ter as mesmas coisas? Uma busca por igualdade através do produto ao invés da equiparação das rendas? Busca por igual status e suposto privilégio social ao invés de buscar real respeito e valorização no meio? Será que ter uma roupa de marca, comer no fast-food da moda, morar na região nobre da cidade ou comprar o carro do momento transforma alguém em algo melhor?

As pessoas não se perguntam muito isso, afinal se o fizessem teriam que admitir que nada disso é feito para elas, mas apenas pra mostrar pra sociedade que elas venceram. Traumas e complexos as fazem devolver exageros na postura e no consumo, pra cobrir a diferença entre não ter tido condições no passado para as possibilidades financeiras do presente. Alguns, cientes de que não poderão sequer chegar nesse ganho financeiro, compram as falsificações no camelô apenas pra desfrutar entre os amigos de igual situação social um “sub-status” dentro desse grupo social em particular.

Se resolvermos nossas fraquezas psicológicas, superarmos o passado e revermos o valor real das coisas, entenderemos que pra sermos mais prósperos não precisamos nos render a status ou marcas de renome. Não precisamos fazer o que a maioria faz e nem precisamos pensar como a maioria pensa. Qualquer ganho social, seja do ponto de vista financeiro ou de outros tipos, não precisam vir acompanhados dos mesmos vícios que todos os demais tiveram ao cruzar com aquelas realidades.

Você pode achar uma roupa bonita, dentro do seu estilo, sem que tenha que se render à formatos predefinidos do que é bonito e bom pra uma roupa, conforme as regras que plantaram em sua mente apenas pra explorar seu bolso. Em tempos de internet onde podemos acessar conteúdos de empresas tão distintas entre si, temos duas situações principais: por um lado colidimos entre nossas realidades e realidades opostas, mas o lado bom disso é que podemos, contudo, ter opções e reafirmarmos a possibilidade de substituir certas coisas por outras. O conhecimento é poder em muitos sentidos.

Esse desejo que muitas pessoas mal sabem de onde vem e que alguns até acreditam que são desejos legítimos e demandas reais por produtos e marcas, é, na verdade, uma grande indústria de trabalho psicológico explorando nichos e grupos cada vez mais específicos de pessoas, massificando de forma geral o consumo, levando cada pessoa a achar que precisa de uma ou outra coisa, conforme o que ela pode ter e, contudo, a desejar também o que não pode ter, pra que isso se torne, então, muito mais valorizado perante os que podem comprar, pois nasce, então, uma competição de que, se o pobre deseja e não pode ter, é papel de quem tem dinheiro pra tal, comprar pra demonstrar poder e oprimir, consciente ou inconscientemente, os que estão abaixo.

Talvez as pessoas nunca tenham se dado conta, mas existe essa batalha constante entre ter e não ter. As pessoas que conseguem adquirir um produto, serviço, cargo ou posição social de qualquer tipo, sentem-se com uma ferramenta de poder nas mãos capaz de diferenciá-los dos demais sem que eles precisem fazer nada de especial ou útil. São diferenciados apenas por poder destacar a diferença na posse, de forma opressiva, ostentando e mostrando ao mundo que poucos podem ter e a maioria não pode. É o estilo de vida das vitrines de shopping da classe média e alta em que não se aceita bem a entrada de pobres, especialmente os negros, pra figurarem ao lado de seus maiores opositores.

Os oprimidos deveriam, portanto, pensar que manter desejos e consumos por essa massa de desprazer que se fantasiam de empresas, produtos e clientes, é altamente danoso pra si mesmo. Em resumo, é Síndrome de Estocolmo, quando o oprimido sente-se admirado ou apaixonado pelo seu próprio opressor, passando a defendê-lo. Isso alimenta um contexto social onde empresas pouco éticas e quase sempre ilícitas e desnecessárias, lucram bilhões às custas dos pontos fracos (especialmente os psicológicos) das sociedades em que elas exploram.

Você tem, contudo, o poder de diminuir ou até eliminar isso de nosso meio, bastando que se oponha na prática. Cesse o consumo, o apoio, a propaganda gratuita estampada nos produtos que usa, a gana de querer igualar-se à outros por questões equivocadas como status e padrão social. A liberdade que você gostaria de ter e não tem, às vezes é conseguida por uma mudança de postura como essa. Talvez você não venha a enriquecer, mas independente disso, você não precisa apoiar quem lucra às custas de opressões de classes. Lembre-se que, embora grande parte dos consumidores de marcas caras sejam pessoas ricas, quem produz muito daquilo são pessoas em situações pouco dignas ou indignas e às vezes até ilícitas, em trabalho escravo e/ou infantil.

Você se sentiria confortável de gastar mais de R$ 500,00 num produto em que apenas 1 centavo é destinado a pessoa que fabricou tal produto? Talvez fique ainda pior se te contar que pra ela ganhar este único centavo por produto, ela precisasse passar horas enfurnada numa sala sem iluminação, sentada ao chão, sem condições de higiene ou segurança de trabalho, sem alimentação adequada, sem perspectivas de vida, sem outras escolhas. Tudo se agrava quando esse “funcionário” é uma criança de 7, 10 ou no máximo 14 anos, que nunca teve oportunidade de desfrutar a infância, dividir seu tempo com a família ou mesmo de poder planejar saídas pra sua própria situação. Em casos assim, a escolha da empresa em aceitar tais contextos é que determina o que existirá ou não em termos de modelos de trabalho.

Se nos enxergamos como inaptos pra certos produtos e serviços, fica fácil entender que, por vezes, quem os fabrica ou serve também não possuem condições de comprá-los. Pode haver sistema mais injusto e doente que este? Portanto não há motivos sadios pra se apoiar isso. Se eventualmente se sentir em situação de fraquejo diante dessas questões, busque repensar um pouco seus valores e suas reais necessidades na vida. Avalie se o que está fazendo em seus hábitos de consumo não são apenas uma tentativa falha de compensar complexos e traumas do passado. Sempre que achar necessário, busque ajuda de pessoas mais esclarecidas sobre o assunto, bons amigos que possam ser parâmetro e incentivo pra condutas melhores ou até mesmo de psicólogos e terapeutas que possam te ajudar a superar suas questões internas, pra que você realmente progrida socialmente e pessoalmente, ao invés de se enroscar em situações ilusórias sobre qualidade de vida. Tristes são as sociedades que confundem qualidade de vida com poder de consumo e que confundem consumo com consumismo e futilidade.

Rodrigo Meyer

Seu futuro pode ser diferente do seu passado.

Existe, infelizmente, uma crença de que estamos condenados a nossa realidade do momento. Mas, as coisas não são assim. Esse pessimismo e/ou imediatismo é um equívoco diante das possibilidades reais. Inclusive, quem mantém esse pensamento equivocado está apenas dificultando que coisas novas e melhores aconteçam no futuro.

A sociedade brasileira e tantas outras, em similar ou pior situação estão acostumadas que tudo piora e nenhum benefício chega até as pessoas que mais precisam. E alimentam-se de esperança apenas quando algo positivo significativo acontece. Valorizar as possibilidades apenas quando estamos em vantagem não é útil se quisermos viver bem e termos melhores chances pra nós mesmos.

Mas, lembre-se que a proposta não é que você forje ilusões sobre o futuro, nem mesmo sobre o presente, como fazem os otimistas. Não devemos ser nem otimistas, nem pessimistas. Acompanhar as realidades já é suficiente pra que possamos decidir quais opções seguir, pois veremos elas à nossa frente, tal como de fato são ou o mais aproximado possível. Já falei em outro texto sobre a importância da postura realista.

Por pior que tenha sido nosso passado, com as mazelas da vida, as dores, os medos, os traumas, os rompimentos emocionais, eventuais situações de doença física, pobreza material ou experiências desconfortantes, temos sempre que lembrar que tudo isso não é garantia de que sempre será assim. Não significa que um toque mágico vai brotar e fazer tudo mudar, mas significa que, suas ações podem eventualmente te tirar dessas condições. E claro, não são nenhuma garantia também, afinal o que fazemos está dependendo do que podemos fazer, do que temos coragem de fazer, do que temos condições, vontade, visão, capacidade, etc.

Não existe fórmula pro sucesso, mas em tudo que pudermos aprender melhor sobre nós mesmos e sobre a realidade que nos cerca ajudará pra sairmos das situações que não desejamos que continuem. É sempre importante estar de olhos abertos, mente aberta e acreditar cada dia mais em você mesmo e no potencial que pode desenvolver ao longo do tempo. Frequentemente, dependendo da sua situação, será necessário abrir os braços e aceitar ajuda de quem puder lhe oferecer. Não há nada de ruim nesse ato e só demonstra que você está pronto para as mudanças e soluções que poderão vir a seguir.

Se você está vivenciando desemprego, por exemplo, não significa que não poderá estar trabalhando em breve. Se está enfrentando superação de traumas ou depressão, tem um caminho pela frente de tentativas que vão te levar para condições melhores. Embora estejamos sempre ansiosos pelas soluções de problemas grandes assim, não podemos fixar o pensamento na urgência do tempo, porque essas situações podem levar tempos diferentes pra serem solucionadas, dependendo de cada caso. A combinação entre a situação e a pessoa vão formar particularidades na equação e que, inclusive, podem se alterar ao longo do processo todo.

O mais importante pra que nosso amanhã seja melhor que nosso presente é entendermos quais são os problemas que temos ou que nos cercam. Uma vez que saibamos disso, temos que tentar apontar valores, condutas ou iniciativas que nos levem pra escolhas de transformação, de ajuda ou superação. Às vezes o acolhimento junto à algum parente de confiança, um profissional da área médica ou psicológica, um terapeuta, um advogado ou, dependendo da sua situação, um agente de Serviço Social.

Muitas pessoas que hoje estão tranquilas e bem-sucedidas, já passaram por situações difíceis no passado. Lembro-me sempre que o ator Keanu Reeves, que muitos admiram e conhecem pela trilogia de filme ‘Matrix’ e tantos outros, já teve a experiência de ser morador de rua. Apesar de todo sucesso, ele se mostrou uma pessoa simples, dividindo o metrô com os demais, sem extravagâncias. Pode ser que o contato com a dificuldade junto à outros moradores de rua tenha contribuído pra uma conduta mais assertiva diante da fama, mas sabemos que isso não é nenhuma regra, afinal várias outras personalidades que vieram de situações difíceis, às vezes compensam o passado, ostentando riqueza ou até mesmo esnobando as pessoas abaixo. Tudo vai depender do estado psicológico de cada indivíduo e de como ele superou ou não os problemas do passado.

Algumas pessoas se sentem tímidas ou envergonhadas de irem de uma situação melhor para uma pior. É como se estivessem deslocadas de si mesmas, pois se acostumaram a viver num padrão de vida ou em uma situação pessoal mais confortável e, de repente, se veem, de certa forma, humilhadas por terem que se submeter a situações mais difíceis de vida. Acontece muito isso com quem perde o emprego e é obrigado a rever toda sua realidade de hábitos, consumos e até mesmo de socialização.

Andando pelas ruas de São Paulo e também de algumas outras cidades, conheci muito morador de rua. Em cada um deles, situações diferentes. Embora todos eles aparentemente na mesma situação, no momento, cada um teve um passado diferente. Já conheci gente que foi pras ruas depois de serem trapaceados pela família em troca de dinheiro, músicos profissionais, intelectuais, poliglotas e vários outros que, por uma razão ou outra, acabaram sem nada e tendo que se render às ruas. Mas, tendo vindo de baixo ou de cima, o fato é que pro momento presente, encontram-se pelas ruas e, a partir disso, cabe a cada um fazer as possíveis escolhas a cada dia que surge.

Para pessoas em situação de vício com drogas, pode ser ainda mais complexo, pois é difícil até mesmo controlar as opções que se tem ao redor, por questões do momento, do tempo, das reações psicológicas diante da droga ou mesmo da limitação social que existe, por conta do afastamento que as pessoas tem diante desse meio. É muito mais comum vermos, por exemplo, alcoólatras serem melhor recebidos do que dependentes químicos de outras substâncias. A classe média e alta empanturrada de remédios controlados é muito mais aceita socialmente do que os entorpecidos de classes sociais abaixo.

As barreiras pelas frente serão geralmente essas. Preconceito social, restrição de oportunidades de trabalho e socialização, a própria limitação física, alimentícia e psicológica diante do modelo de vida e questões ao redor disso, como abrigo, ocorrências isoladas do convívio diário e até mesmo alguns detalhes sobre as políticas públicas sobre as pessoas nessas condições e a cidade no geral.

O que será do nosso amanhã é, porém, a somatória de nossas ações junto com as oportunidades que o meio nos dá. Se unirmos a superação psicológica dos problemas com a iniciativa da busca de ajuda, já teremos quase todo caminho percorrido rumo à transformação. Eu sou especialmente grato pelo momento em que fui alavancado da depressão no passado por quem me enxergou como alguém e teve paciência e vontade de permanecer do lado até que eu estivesse bem. Eu tive momentos incríveis de muita diversão, prazeres físicos e psicológicos de todo tipo e satisfações na vida como a concretização de estudos, aprendizado de idiomas, autovalorização como pessoa e como potencial profissional, entre tantas outras coisas. Passei de derrotado e sem esperança pra alguém que cultivou uma visão melhor sobre a vida e sobre si mesmo.

O grande salto na transformação dos nossos dias está em como lidamos com o que temos ao nosso redor. Eu fui suficientemente flexível pra aceitar possibilidades. E, por isso mesmo, as possibilidades que existiam ao meu redor surgiram. Tive a oportunidade de me tornar fotógrafo profissional, tendo experiências únicas durante o curso de Fotografia que não teria em nenhum outro curso atual, em razão das ocorrências que são próprias do momento. E isso me fez perceber que muitas portas estão abertas ao nosso redor, mas frequentemente não as vemos, porque não as entendemos como portas para aquilo que achamos que precisamos no momento. Temos que mudar nosso entendimento da equação pra sermos mais bem-sucedidos nas nossas tentativas de se erguer.

Às vezes as pessoas acham que a única porta válida pra quem está desempregado é uma oferta de emprego em um cargo em que ela já gostaria de estar pro resto da vida. Se esquecem, assim, que às vezes o mero contato com uma pessoa, em uma situação que não está diretamente relacionada à essa vaga de emprego desejada, pode ser o elo indispensável pra que a pessoa se aproxime da meta principal. A vida não é uma linha entre dois pontos, mas sim uma complexa teia de relações. Você não pode, nunca, descartar as oportunidades que surgem sem antes estar aberto ao potencial delas. Claro que você não precisa atuar em tudo que surge pela sua frente, mas precisa, sobretudo, conhecer e estar aberto pras possibilidades.

Se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci, no momento em que as conheci, da forma que as conheci e pelo intermédio das outras pessoas que tínhamos em comum, nada na minha trajetória teria sido como foi. Os cursos que fiz, os aprendizados que iniciei, os livros que li, as conversas que tive, as viagens que realizei e até mesmo as decisões mais cotidianas sobre meus hábitos e vontades, me levaram onde eu estou hoje. Controlar essa navegação pode não ser tão simples quanto vislumbrar um horizonte ou destino e decidir seguir pra lá. Lembre-se, não estamos vivendo em uma linha reta entre dois pontos.

Você se surpreenderia em quantas pessoas superaram a depressão a partir de um simples ‘sim’ que deram pra oportunidades totalmente desvinculadas com tratamento de depressão. Você se surpreenderia em quantos fotógrafos foram formados a partir de um ‘sim’ para uma amizade despretensiosa. Se surpreenderia em quantas pessoas ganharam a tão desejada credibilidade e valorização apenas por se colocarem em uma postura mais aberta e receptiva diante de momentos. Seu próximo trabalho pode estar atrás daquele emaranhado de conexões de um conhecido que tem um amigo do primo da vó do funcionário de uma outra pessoa, que, essa sim, vai te apresentar pra um projeto que não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho pretendido, mas que em certo momento, vai ser dividido pelo amigo do vizinho que finalmente é o seu elo final pra solução que você buscava desde o começo.

Resumindo: esqueça essa crença de que o futuro não tem solução e que as portas que você encontra pela frente não te servem de nada. A vida é feita de interações. Quanto melhor for seu networking, melhor serão suas possibilidades. Esteja sempre em contato com tudo e com todos e verá como surgem coisas tão diferentes de cada conexão. A diversidade nos leva para novas possibilidades pois cada pessoa tem um universo dentro de si e milhares de outras novas conexões distintas que vão alterar, a cada vez, a trilha que percorremos entre todas essas mais de 7 Bilhões de pessoas que existem no mundo.

Se você despreza a teia, está contrariando a própria matemática da vida e está se boicotando diante do seu próprio sucesso e benefício. Se você começar a desenvolver amor-próprio e se abrir pra situações que te beneficiam, terá as melhores chances de vencer e se dar os melhores resultados possíveis na vida conforme suas realidades gerais. A todo momento eu estou passando e estendendo as mãos, mas, infelizmente, muita gente se fecha e acaba deixando as oportunidades passarem. Eu me sinto grato em perpetuar esse ciclo de transformações por ter entendido o potencial e necessidade de tudo que foi feito pra mim e, depois, por mim. Viveremos melhor se ajudarmos uns aos outros a subir.

Em todo lugar que você estiver, seja grato pelas coisas todas que te beneficiaram ou que podem vir a te beneficiar. Esteja em contato com as pessoas numa relação transparente, seja lá quais forem seus problemas pessoais. Quem tiver mérito pra estar do seu lado, apesar dos seus problemas, estará e quem não estiver, felizmente, irá embora deixando o caminho livre. Não se menospreze pelo modo como você está hoje, porque estar e ser são coisas diferentes. Estamos sempre em constante transformação e o que somos hoje, poderemos não ser amanhã.

Rodrigo Meyer

Porque as profissões da área de criação se tornaram moda?

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Eu sempre fui conectado com as áreas de criação. Dos desenhos e pinturas da infância, os poemas, a literatura, caligrafia, comunicação visual, pintura à óleo e posteriormente a Fotografia e a Comunicação Social profissionalmente, incluindo a parte da publicidade, redação publicitária, design, ilustração, diagramação e diversas outras áreas associadas. Em razão disso eu sempre estive acompanhando os nichos de trabalho, o mercado e as pessoas envolvidas com essas temáticas. E é dessa experiência de uma vida toda que eu pude perceber fases e tendências entre as profissões de criação e as demais.

Por ser fotógrafo há mais de 15 anos, acabei em contato com muita gente da área artística. Conheci gente do teatro, da música, da dança, tatuadores, pintores, desenhistas, maquiadores, modelos e, claro, outros tantos fotógrafos. Com a Comunicação Social, cruzamos com jornalistas, publicitários e outros que seguiram, inclusive, várias dessas mesmas áreas ao mesmo tempo, afinal em tempos de internet, profissão única já é incomum.

Estamos vivenciando há alguns anos um boom da área de criação. E isso não é necessariamente positivo, porque nem todo mundo que está se associando à essa onda, está de fato se capacitando pra se tornar profissional nas atividades que escolhe. E quando falo em se capacitar, não precisa ser sentado na cadeira de uma universidade ou gastando todo o dinheiro do mundo pra aprender uma profissão. Estou simplesmente falando em ir atrás de aprender, seja como for e com quem for, desde que aprenda de fato. E estou acompanhando uma defasagem triste nesse sentido.

Existe um glamour por trás das áreas de criação e isso é culpa de vícios de exposição e pensamentos mal estruturados em nossa sociedade ao longo de várias e várias décadas. Sempre tratamos os profissionais da área de criação como se estivessem à margem da sociedade e que seus trabalhos nunca fossem trabalho de fato. Para grande parte da sociedade, ser um pintor, por exemplo, é tido como exemplo de quem optou por não trabalhar e se encostou em uma atividade divertida como fosse um passatempo. Publicitários são vistos até hoje como aqueles que sentam num sofá e relaxam pra rir e começar a rabiscar ideias criativas. Ainda traçam a visão de que todas as áreas de criação existem por acaso, pois seriam apenas mera diversão. Quem enxerga essas profissões assim, está perdido em ignorância e imaturidade.

Como consequência desse senso comum da sociedade, é gerada uma atração que aproxima à essas áreas muitas pessoas que de fato não querem trabalhar com seriedade. O sujeito que não valoriza o desenho como profissão pensa que se ele não tiver muito interesse em trabalho, ele pode rabiscar umas folhas e essa pode ser sua divertida atividade pra vida. Tem sido assim com a Fotografia (vista como a arte de apertar botão), o Design Gráfico (visto como a arte de brincar no Illustrator Photoshop), a Comunicação em Geral (que pra muitos se resume em postar no Facebook), Modelagem 3D (que alguns acreditam ser simplesmente um efeito de Photoshop pra dar volume à textos), produção de vídeos (visto como apertar botão REC e fazer upload no Youtube) e também na escrita de blogues, livros e outros formatos (onde muitos acreditam que basta copiar e colar uma frase que encontraram em algum lugar da internet e o resto será sucesso garantido).

Mas depois que nosso estômago sossega e para de ficar embrulhado com essa realidade triste, a gente volta a cabeça ao centro e tenta entender esse fenômeno. É claro que se você disser que existem pessoas trabalhando com mera diversão ou com ‘não-trabalho’, muita gente vai crescer os olhos pra cima disso, afinal nossa sociedade, infelizmente, formou muita gente pra perder interesse por trabalho e estudo. Criamos pessoas que se acostumaram a pensar que trabalho sério é sinônimo de escravidão e chatice e que estudos são perda de tempo com a mesma chatice já anunciada.

Essas pessoas nunca foram instigadas a pensar que ter uma profissão não é algo que deveria vir apenas da necessidade forçada de se pagar as contas. Elas nunca viram ao redor as pessoas trabalhando felizes com aquilo que gostavam de fazer. Elas nunca viram alunos no meio escolar se interessando por aquelas aulas que a maioria não estava sequer preparada pra receber. Para muitas das pessoas, em várias partes do mundo e em especial no Brasil, estudo e trabalho são palavras que criam repulsa, desconforto, tédio e insatisfação do começo ao fim. E é assim que ‘memes’ e piadas sobre a chegada da sexta-feira tomam a internet desde sempre. As pessoas comemoram o dia em que finalmente largam o trabalho ou a escola e se jogam no fim-de-semana livres pra fazer algo prazeroso.

Eu nunca tive sequer a noção de que sexta-feira fosse o dia de encerramento da semana de trabalho, até porque na área de criação trabalha-se principalmente nos finais de semana. Enquanto você está dançando e bebendo numa casa noturna, um fotógrafo está lá trabalhando, inclusive em horários incomuns pra maioria dos trabalhos formais. Enquanto você estava curtindo um evento de rua como a Parada Gay, um fotógrafo ou cinegrafista estava lá pra trabalhar. Enquanto alguns estão descansando, outros estão madrugando, escrevendo o texto que precisa chegar antes de todo mundo acordar. Jornalistas, blogueiros, criadores de conteúdo  e social media, publicitários e comunicadores em todas as vertentes, estão sempre ali planejando o que só virá à tona somente depois de pronto.

Infelizmente, as pessoas tendem a simplificar a análise do que elas veem pela frente, acreditando que o trabalho desses profissionais criativos se resume somente ao trabalho final, como o desenho sobre a mesa, a foto clicada, ou o livro na prateleira da livraria. Em outras profissões, feitas às claras, é mais difícil de ignorar o extenso trabalho que está associado a elas. Quando vemos o pizzaiolo, literalmente, com a mão na massa, vemos o trabalho dele quase que por inteiro. Quando vemos um motoboy na rua, vemos o trabalho (e o risco do trabalho) que ele desenvolve. Também é fácil observar o trabalho de um gari, carteiro, pedreiro, repositor de estoque, motorista de ônibus, eletricista, mecânico e outros.

Isso ocorre, claro, porque são profissões em que o trabalho é desempenhado abertamente à nossa frente. Por outro lado, o trabalho das profissões criativas geralmente não é visto, porque as pessoas em geral (mesmo os clientes) não tomam contato com o momento da criação. Você consegue ver o padeiro segurando a massa e levando ela ao forno, mas não consegue ver o que está por trás do clique de um fotógrafo. Você não nota a regulagem do diafragma, velocidade, ISO, distância focal, enquadramento, fotometria, foco, ângulo, entre dezenas de outras questões.

Isso talvez explique o encantamento que muita gente tem com médicos, por exemplo. Essas pessoas não veem o que está por trás do ato de costurar um corpo em uma cirurgia. Parece simples como um bordado e, apesar disso, salva vidas. Peça pra uma costureira trabalhar como médica e morreremos todos assim que as doses de medicação estiverem fora do necessário pro contexto. Da mesma forma um médico que se atreva a costurar roupas, vai desempenhar um trabalho insuficiente pras necessidades daquela atividade. Não conhecemos o que cada profissional faz, à menos que estejamos em contato com essas atividades. E se não forem atividades abertas como a de um motorista ou mecânico, você terá que se dedicar um pouco mais pra descobrir o que está por trás dessas profissões.

Imagine como deve ter soado como mágica quando cientistas da antiguidade dominaram a química e podia, por exemplo, colocar um líquido junto à outro e ter mudanças de cor ou uma erupção de espuma. Se não fosse o extenso estudo sobre o que cada substância faz, porque faz e como faz, não teríamos a valorização do profissional de química. Não vemos os átomos e elementos a olho nu e muito menos podemos visualizar a relação quase que abstrata entre eles. Só nos resta, então, a compreensão do que está por trás do efeito visual final. Isso requer estudo, requer flexibilidade mental e social pra aceitar que é o cientista ou o profissional de cada específica área que sabe o que se passa por trás de toda aquela realidade.

As áreas de criação se tornaram moda justamente quando a tecnologia nos deu a facilidade de fazer certas imitações sem ter o conhecimento real. Podemos simplesmente apertar o botão de gravar do celular e já temos um vídeo. Se quisermos uma fotografia, podemos apertar o botão e até mesmo corrigir vários estragos pelo Photoshop. Temos acesso à programas gráficos, imagens para montagem e todo tipo de recurso de software que nos permite imitar atividades. E com as redes sociais, podemos, inclusive dividir espaço lado a lado com os profissionais e ter a visibilidade do público. Isso nos dá a ilusão de que estamos de fato dentro dessas áreas, profissionalmente.

A internet deu visibilidade extrema pra todo tipo de atividade criativa, quando as pessoas já tinham uma visão deturpada sobre qual era o trabalho dessas áreas e então ficou acentuado quando, por exemplo, criar “marcas”, fanpages, fotografias, textos ou vídeos se tornou a “necessidade” do momento. Acreditam que se todos estão fazendo e todos estão vendo, talvez seja esse o caminho fácil e prazeroso pra se ter trabalho nos tempos modernos da internet. Se esquecem, porém, que antes da internet já existia a Publicidade, a Fotografia, a Literatura, o Design, a Ilustração, o Cinema, etc. E a existência da internet e das tecnologias digitais não elimina, de forma nenhuma, a necessidade de ser profissional para se desempenhar qualquer uma dessas profissões.

Criar é tudo de bom, com certeza. Todo ser humano tem, em algum grau, o impulso de criação, seja em uma ou mais áreas. Todos nós deveríamos estar envolvidos, de alguma forma, com a produção de algo nesse sentido. Mas precisamos, antes, aprender a realidade por trás de cada área de estudo e entender que, assim como dirigir carros não é meramente girar volante pela cidade, as áreas de criação também não são aquela fantasia infantil que a sociedade teve prazer em sustentar e espalhar por tanto tempo no inconsciente coletivo. O problema nunca esteve na popularidade dessas profissões ou mesmo nas atividades em si. O único problema é a colisão catastrófica entre o encantamento por essas atividades criativas e o desconhecimento sobre o que realmente essas atividades são. Quando uma profissão séria e complexa colide com a imaturidade de quem a busca, os resultados são sempre ilusórios e danosos.

Ficarei imensamente feliz de ver novos profissionais chegando na sociedade em todas as áreas, mas terão que entender e se adequar ao necessário pra cada área se quiserem ser respeitados e valorizados como profissionais ou entusiastas no meio. Desde sempre tento ensinar Fotografia pra mais gente, pois meu grande sonho era ver novos fotógrafos surgindo e levando esse estilo de comunicação adiante. Mas, infelizmente, tem sido uma batalha árdua tentar agradar com Fotografia uma massa de gente que vem em busca apenas de aprender a apertar botão. Quando as pessoas descobrem que Fotografia não é, nem de longe, nada parecido com apertar botão, elas correm loucamente pra longe da área, afinal é como quebrar aquela ilusão doce de que áreas criativas são só entretenimento próprio, muita descontração, nenhum estudo ou trabalho e bastante glamour e moleza. Quando elas são obrigadas a ver a realidade por trás da ilusão, encerra a vontade por aquilo, afinal a vontade não era por Fotografia, mas apenas por apertar botão.

Se me dissessem que dormir e comer pudessem ser as únicas atividades “profissionais” da minha vida, certamente eu ficaria encantado também. E, se parar pra pensar, já tem gente encontrando respaldo nessa possibilidade quando sabem que certos programas de televisão pagam prêmios pra encarcerados fazerem basicamente isso enquanto são filmados em tempo integral para entretenimento de massas idiotizadas que, por essas mesmas razões, acabam se encantando com o mundo fantástico da televisão, do não-trabalho, do glamour de não se fazer nada de sério e assim por diante.

É preciso quebrar esse estigma alucinado que grandes mídias propositalmente plantaram na mente das massas e começarmos a buscar, na raiz, a trilha pro nosso novo aprendizado. Precisamos discutir como vamos repensar as escolas, os modelos de reunião familiar, os conteúdos da internet, das rodas de amigos, as conversas de bar, os novos modelos de mídias e de trabalhos. Precisamos ‘reaprender a aprender’. Estamos tão acostumados com falsas definições de termos como ‘escola’, ‘educação’, ‘família’, ‘sociedade’, ‘trabalho’, ‘diversão’, ‘oportunidades’, que temos dificuldade gigantesca em ver qualquer coisa que venha com a definição original / real.

Antes de ensinarmos uma profissão pra alguém, precisamos ensinar tudo que vem antes do entendimento do que é uma profissão de fato. As pessoas só poderão escolher qual profissão querem estudar e seguir se souberem, antes, a realidade por trás dessas atividades. Você não pode ensinar Cinema pra aprendizes que estão buscando essa área de estudo na esperança de apertar o botão REC e mais nada. Se isso estiver nesse nível de entendimento, precisamos emergencialmente reeducar essas pessoas para outras questões anteriores a escolha de profissões e atividades pra vida, senão veremos as pessoas batendo recordes de evasão escolar e forjando profissões das quais nunca entenderam ou estudaram.

Já vemos muito disso, quando alguém compra uma câmera fotográfica e no dia seguinte já se anuncia como fotógrafo pelas redes sociais. Pior do que nada saber sobre a área é cobrar por ela e reforçar a ideia para o público (através dos clientes) de que de fato Fotografia não tem valor, pois basta comprar uma câmera e apertar botão. E, sem perceber, essas pessoas dão dois tiros. Um tiro vai no próprio pé, ao anunciar pra todo o planeta que sua profissão não tem valor nenhum e o outro tiro vai em todos os verdadeiros fotógrafos que, embora façam um trabalho real, são misturados aos não-profissionais e igualmente ignorados e desvalorizados pela visão do público que agora enxerga esse despreparo como sinônimo da área de criação.

Embora seja verdade que ainda restem pessoa que sabem o que os profissionais de criação fazem, é também verdade que essa quantidade é cada vez menor, pois a divulgação contrária é constante e cada vez maior. Cada vez que uma pessoa aprende de verdade uma profissão criativa, outras milhares estão chegando no “mercado” sem ter estudado absolutamente nada e deixando pra sociedade a noção equivocada de como são essas áreas. Como dizem, ‘uma mentira dita mil vezes, torna-se verdade.” e é exatamente esse o triste momento que estamos enfrentando. Profissionais de criação estão desacreditados desde longa data, pois nossa sociedade cresceu alimentando mentiras grotescas acerca dessas áreas e, agora que temos exposição absurda na internet, é praticamente impossível controlar a epidemia que espalha a mentira pra todo canto do planeta, 24 horas por dia.

E o que podemos fazer pra reverter esse estrago? Precisamos, cirurgicamente, pinçar aprendizes pra vida e guiá-los em alguma profissão concreta. Precisamos segurar nas mãos de alguém do começo ao fim e lhes dizer com prioridade sobre tudo o mais que se precisa absorver antes das profissões e somente no futuro, eventualmente, ensinar-lhes a profissão em si. Trabalho de dedicação full time que toma tempo, dinheiro e suor, mas que é a única opção que temos. A palavra ‘aprendiz’ já não pode ser mais sobre um ofício em particular, mas deve, sobretudo, ser sobre todo o entendimento da realidade que nos cerca.

Eu me contorço de orgulho em ver profissionais de outras áreas levando transformações pelo interior das pessoas, pois é essa a ordem correta no longo caminho de aprimoramento social. Você não consegue polir uma estátua antes de lapidá-la, assim como não consegue nem lapidar, se não tiver um bloco bem firme de rocha, extraído da forma certa, do material certo e no local certo. A construção do ser humano apto a desfrutar do potencial de qualquer sociedade passa pela transformação profunda do próprio ser em todas os aspectos. Precisamos falar em muitos outros textos e momentos, com muitas outras mídias e formas de ação, sobre as importâncias maiores da vida humana, antes de pintarmos as fachadas desses templos com questões menores e posteriores como atividades e profissões.

Rodrigo Meyer

Muita gente está migrando pra fora da internet. Saiba os motivos.

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Mesmo quando nem todo mundo ainda teve oportunidade de aderir à internet, já tem muita gente abandonando ela. Isso não significa necessariamente que as pessoas não devam tentar buscar o acesso pra essa ferramenta quando tiverem a oportunidade. A internet precisa ser experimentada para entendermos os potenciais dela e também os impactos negativos que ela pode trazer na vida do usuário dependendo do uso que se faz.

A internet em si não é um problema. Ela é apenas conexões entre pessoas por meio de eletrônicos. Mas o que fazemos dela e como vivemos nossa realidade a partir dos parâmetros “sociais” que estão impregnados nessas tecnologias é que vai transformar a internet em algo danoso. Os sites, serviços, redes sociais, grupos, aplicativos de mensagens, os próprios conteúdos e a facilidade de colocar conteúdo online e interagir com as pessoas acarreta em alguns problemas que chegam de mansinho e de forma quase invisível.

Uns quinze anos atrás a internet era algo relativamente novo e sem forma aqui pelo Brasil. Tentávamos entender ainda tudo que poderíamos fazer com ela, mas sequer tínhamos boas conexões ou bons sistemas operacionais pra poder dar forma em conteúdos tão complexos como eles são hoje. Atualmente, não nos imaginamos sem internet, porque assim que o sinal de conexão cai, ficamos imediatamente sem comunicação, sem contato com nossos conhecidos, com nosso trabalho.

E rapidamente nos damos conta que somos dependentes do Google pra pesquisar uma foto pra começarmos um desenho, porque já desaprendemos a lidar com as coisas de maneira offline. Já não telefonamos pra quase ninguém, exceto em emergências, porque podemos simplesmente escrever uma mensagem pelo Whatsapp ou qualquer messenger ou ainda enviar um vídeo, um comentário, um gif-animado, um convite pra evento em redes sociais, entre outras opções.

Esses dias fui acompanhar os vídeos recentes de uma youtuber e me surpreendi com o “desaparecimento” de todos seus vídeos. Como ela já tinha mais de 80 mil inscritos e estava tendo boa relação com os usuários, a possibilidade mais sensata que imaginei foi que o canal tivesse sido hackeado ou que a pessoa tivesse tido algum problema e o canal havia sido interrompido. Algum tempo depois surgiu um vídeo onde a descrição de texto explicava a ausência dos vídeos anteriores. A youtuber estava enfrentando depressão há certo tempo e se deu conta de que se afastar da internet era o próximo passo pra sua melhoria. Por essa razão ela optou por deixar os vídeos ocultos (sem deletá-los) e cessou de produzir novos vídeos pra se dedicar mais pra vida offline e a resolução do seu problema de depressão.

Achei sensato e isso me impactou de alguma forma, porque geralmente as pessoas acabam buscando a internet como fuga pros problemas. E talvez, por isso mesmo, a internet não se torne um ambiente bom no geral. O modo como estamos e como usamos a internet acabam se misturando em um contexto pouco saudável. E isso tem tirado muita gente da frente dos eletrônicos, porque elas descobrem que online está pior do que offline.

Digo por mim, que já tive experiências muito preciosas com ausência total de eletrônicos. Cheguei a ficar três anos sem televisão, telefone, celular, máquina fotográfica, computador ou internet. Foi um período em que fui obrigado a redescobrir atividades e a ocupar meu tempo de forma mais inteligente. Eu não tinha como procrastinar, porque o tempo só passaria se eu fizesse alguma coisa. Como consequência, eu li mais, escrevi mais, troquei muitas e muitas cartas manuscritas, desenhei, pintei quadros, estive mais envolvido em trabalhos manuais como pequenos reparos ou decoração de ambiente. Até mesmo as atividades físicas aumentaram e eu passei a colher benefícios em vários sentidos.

Eu só fui notar o quão distante estava do meu potencial quando fui obrigado a exercer ele. Meu fôlego era maior, minha paciência era maior, meu tempo era maior. Eu tinha mais resistência física, menos ansiedade, menos cobranças, estava mais envolvido com as coisas simples e conseguia produzir muito mais. Descobri que ir a pé até os correios era gratificante e que buscar um vinho e um pouco de comida mudava o valor do momento.

Hoje em dia fazemos tudo muito rápido e existe, por isso mesmo, uma pressão pra que fiquemos nesse ritmo doido. A internet não espera você terminar de almoçar e já te coloca em estado de alerta pra conferir novas mensagens, novas notícias e todo tipo de conteúdo que pulsa na sua tela. Havia um tempo em que a área de trabalho do computador (a tela de fundo) era relevante. Hoje em dia, podemos admitir, o navegador fica aberto por padrão. Isso mostra o impacto que a internet tem em nossas vidas. Usar o computador já se tornou uma premissa de estar conectado à internet.

Até mesmo os softwares estão cada vez mais amarrados à rede. Baixar fontes exclusivas pro Photoshop ou publicar sua criação diretamente a partir do editor de vídeo já são realidades há bons anos. Você já não escolhe conectar-se na internet. Basta ligar o computador e se o sinal estiver chegando ao modem, o computador conecta-se sozinho. Os celulares se integram pelo wi-fi de casa ou dos comércios e você está sempre recebendo notificações do Instagram, do Facebook, de novos vídeos do Youtube. As propagandas individuais chegam até nós com precisão, porque nós mesmos escolhemos ser os alvos delas.

Configuramos nosso Facebook de forma a dizer tudo que gostamos, tudo que somos, tudo que queremos, temos ou fazemos. Em pouco tempo preenchemos uma enxurrada de valores que são responsáveis pela entrega que as mídias fazem pra nossos equipamentos. Não cogitamos desligar o celular. Apenas recarregamos ele quando a bateria descarrega um pouco e ele permanece sempre ativo, sempre nos dando mais e mais.

Passamos grande parte do nosso tempo dando likes e compartilhando conteúdos em todos os lugares possíveis. Os grupos do Facebook são uma exposição de fanpages que são uma exposição de sites, que são a exposição de empresas e pessoas, tanto pra trabalho quanto pra vida pessoal. Estamos sendo requisitados a todo instante a participar de centenas, senão milhares, de conteúdos por dia. E isso é humanamente impossível. Com isso, nos sentimos sugados, sem tempo, atolados em ansiedade e insatisfação. Não conseguimos mais dar conta de todas as notícias que gostaríamos de ler. Já travamos o navegador por excesso de abas abertas das quais não leremos nem uma fração. E mesmo não lendo as já abertas, abrimos tantas outras, porque simplesmente não podemos evitar que aqueles títulos e imagens chamativas nos levem pra novas necessidades.

A internet é um único lugar e apertado. Mesmo assim, milhões de pessoas estão tentando impor sua presença. Queremos deixar nossa marca e assim disputamos cada segundo, cada centímetro da tela. Estamos perdendo a batalha como quem tenta enxugar gelo. Nunca veremos o gelo seco, por mais que nos esforcemos, porque a internet gera por dia, mais conteúdo do que é possível absorvermos pra uma vida toda. E a cada novo dia ela volta com mais. Esse é um dos principais problemas que está levando muita gente a repensar o uso da ferramenta.

Talvez sejamos mais consistentes e felizes se deixarmos a internet separada das atividades gerais do nosso dia. Podemos desligar o celular ou as notificações de aplicativos enquanto estamos almoçando ou durante uma festa ou presença num bar, por exemplo. Não precisamos manter o celular ligado quando vamos dormir ou assistir um filme. Não precisamos ler ou comer na frente dos computadores e não precisamos limitar as relações sociais pelas redes sociais. A maior rede social que existe é o próprio contato físico e direto entre as pessoas. Não existe realidade maior que olhar nos olhos de alguém enquanto se conversa, sentir o perfume das pessoas, a textura dos móveis a sensação do vento, o andar pela cidade ou o compartilhamento de um abraço em um sofá totalmente offline na frente de uma lareira.

Mas, como já dito, difícil é fazer o simples. O ser humano está descobrindo que ele não conseguirá ficar feliz se ficar se iludindo com tanta correria e artificialidade. A naturalidade das coisas é que nos faz ver prazer e valor nas coisas. Gostamos de estar o mais próximo possível da personalidade das pessoas, seus trejeitos, suas artes, seus movimentos, seus traços de rosto e corpo, seus cheiros, suas vozes. Calor humano é mais do que uma metáfora. Precisamos de fato, sentir a temperatura da pele de outros seres. Precisamos nos humanizar mais, pois, sendo essa nossa essência como humanos, só seremos felizes e saudáveis se mantivermos esses valores todos que nos fazem falta todos os dias enquanto a internet toma nosso tempo, suga nossa alma e adoece nossa mente.

E, claro, quando estiver bem, dê uma passadinha pra fazer uso comedido e produtivo da internet. Menos é mais e se você souber aproveitar bem o pouco, fará ele se tornar todo o necessário.

Rodrigo Meyer

Me acordem desse pesadelo.

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Já escrevi em outros textos sobre quais seriam as prováveis barreiras que deixam as pessoas afastadas da leitura ou cultura. O problema está aí e é só isso que podemos afirmar por enquanto. O acesso a internet ou livros não é garantia de que as pessoas estejam lendo, até porque o acesso não é a única barreira a ser superada. O problema do interesse, o modo como se enxerga a cultura e quais as prioridades pra vida de cada indivíduo, moldam o que ele faz com os recursos que tem ao redor de si.

Embora a internet seja uma ferramenta poderosíssima pra disseminar conhecimento e também pra dar voz à diversidade de pessoas do mundo todo, ela pode ser, infelizmente, nosso maior inimigo também. Se mal utilizada, a internet começa a ser um tiro no nosso próprio pé. Basta imaginar que com o alcance das redes sociais ou de canais do Youtube, muita gente quer expressar alguma coisa, para justificar o fato de estarem online. E isso é um problema quando não se possui um motivo anterior e próprio pra a comunicação ou presença.

As pessoas querem entregar conteúdo, mas não querem consumir conteúdo. No final das contas elas não fazem nenhuma das duas coisas, afinal pra poder entregar algo, você precisa, antes, absorver, processar e planejar a expressão disso pra fora novamente. E isso pouca gente está disposta a fazer. Atualmente as pessoas estão em modo automático, replicando qualquer coisa e interagindo com tudo que veem pela frente, sem nem ao menos pensar no que ali se apresentou. Reflexo disso é que o próprio Youtube decidiu restringir a monetização apenas a canais que tenha acima de 10 mil visualizações. Uma forma de combater o lixo por meio do que as pessoas mais querem ultimamente: monetizar. Claro que isso não é garantia de que conteúdos com mais de 10 mil visualizações não sejam lixo também, mas já retira as monetizações de muito entulho que nasceu só pra fazer peso.

Esses dias estava acompanhando algumas publicações de oferta de trabalho onde o texto deixava bem claro todas as condições da atividade e do contato. E surpreendentemente as pessoas conseguiam ignorar 90% do anúncio e proceder de forma totalmente oposta. No ramo da comunicação, se diz que quando uma mensagem não é compreendida ou não levou ao objetivo idealizado é culpa do comunicador que falhou na criação. Em parte isso é verdade, afinal quem é profissional da comunicação está lá pra entregar a trilha que leva o público pro objetivo daquele conteúdo. E isso envolve projeto, estudo de psicologia, análise de público e muitas outras coisas.

Mas o que pouca gente fala é sobre o quanto está ficando cada vez mais difícil cumprir qualquer tipo de comunicação pra alguns públicos que estão na contramão total do mínimo necessário pra absorver as mensagens.  Claro, talvez eles não sejam o público ideal para tais mensagens, já que sequer conseguem absorvê-la, mas é exatamente esse o ponto em que quero tocar. As pessoas estão deixando de ser o público de uma infinidade de coisas por estarem se desconectando de certos alicerces mínimos de qualquer tipo e formato de interação humana. Não é possível que as pessoas ignorem um neon de 90 metros piscando “não entre no mar” e continuem entrando no mar. Essa analogia não é exagerada. Casos concretos iguais e até piores estão sendo registrados há muito tempo e tem sido desolador pra quem tenta lidar com pessoas, especialmente através da comunicação.

Sim, o ser humano está emburrecendo (e muito) e não tenho certeza se isso poderá melhorar pra todos. As pessoas estão tão ansiosas para fazer alguma coisa de suas vidas, que não estão nem mesmo parando para coisa alguma. Se elas veem uma imagem no feed de notícias do Facebook, elas mal terminam de apontar os olhos pro que viram e já tomam uma ação sobre aquilo. Alguns comentam a primeira coisa que brota na cabeça e não voltam pra rever nem a publicação original nem o que elas mesmas comentaram sobre. E, pior ainda, por isso mesmo não ficam nem sabendo que sua interação foi descartada por não fazer nenhum sentido diante do contexto. Se dedicassem 2 segundos naquilo em que interagiram, veriam, por exemplo, que o comentário não teve nenhum átomo de sentido e que o conteúdo não era, nem de longe, nada parecido com o que elas acharam que fosse. Chega a dar pena do nível catastrófico de danos que essas pessoas levaram na cabeça pra estarem vivendo dessa maneira.

Prefiro acreditar que seja efeito temporário (ou permanente) de drogas, pois se estão sóbrias e vivendo dessa maneira, então prefiro que desliguem o planeta, pois nesse caso seria sinal de que fracassamos de forma irreparável. Custo a acreditar que as pessoas estejam com todas as ferramentas possíveis e imagináveis nas mãos e mesmo assim não consigam fazer absolutamente nada de positivo pra suas realidades. Se estão desempregadas, por exemplo, não conseguem, porém, sequer ler o anúncio de uma vaga de emprego e, claro, acabam não sendo contratadas pra vaga.

Um professor de faculdade me dizia que a Psicologia reversa era o ideal. Se você disser que algo é proibido, as pessoas desejarão e farão. Se você não quer que alguém faça algo, não diga que não pode. E será que isso é sempre assim? Que triste! Existe, claro, o lado positivo em se contrariar, seja por expressão da liberdade ou pela curiosidade diante de algo que pode ser potencialmente bom justamente porque estão tentando nos tirar. Mas o lado ruim é quando as pessoas reagem por oposição automática, sem nenhum valor por trás dessa ação. E isso é preocupante.

Em um tempo de crise financeira e social no país e em várias partes do mundo, é triste ver que, pelo fato das pessoas estarem tanto tempo mergulhadas na ignorância, agora que mais precisam se readequar a vida, não estão conseguindo sequer preencher os requisitos mais simples pra qualquer atividade ou relacionamento que seja. Me chame de exagerado, mas o que tenho observado, infelizmente, são pessoas alucinando pesadamente. Vejo gente lendo o título de uma notícia e enxergando quaisquer outras palavras aleatórias no lugar das palavras reais. Além disso, muitas das pessoas sequer verão o texto do título, mas apenas a imagem que surge junto nos compartilhamentos da internet. E ler a notícia? Jamais. A interação já começa pela reação automática sobre as lembranças e associações diretas das cores e frequências que aquela combinação já conquistou ao longo dos anos na mente da pessoa.

Aquele meu professor de faculdade deu exemplos ótimos sobre a psicologia reversa. Ele citava o caso das lixeiras instaladas pela cidade de São Paulo e como aquilo foi o começo de mais sujeira, na contramão do que se pretendia. As calçadas ficavam imundas e as lixeiras vazias. Motivo? As placas diziam, na época, pra se jogar lixo no lixo. Se tivessem silenciado tais dizeres, teriam mais chance de que jogassem o lixo no lugar devido, talvez. O mesmo acontece também com placas que sinalizam proibição pra estacionamento ou limite de velocidade. Basta anunciar A que as pessoas farão Z. Parece haver uma compulsão doentia pra fazer tudo aquilo que seja o oposto do necessário, do útil, do desejado, do pedido, etc.

Consigo ver inteligência em quem contraria regras idiotas, mas não consigo ver sequer a existência de massa cefálica em quem está nessa automatização sem nenhum motivo consciente ou positivo. Tento ser realista todos os dias e, até onde pude ver, estamos mesmo diante de um emburrecimento grotesco das massas. Está vergonhoso mesmo. Espero que eu esteja apenas passando por um longo pesadelo e que logo mais eu acorde. Não quero que isso tudo que eu estou vendo seja verdade. Tomara que isso tudo seja apenas culpa de uma possível visão distorcida, pessimista ou algo assim. Quero dormir hoje e acordar amanhã sabendo que quando surgir uma vaga de emprego que esteja pedindo expressamente o envio de currículo como condição indispensável pra interação com a vaga, não brote um desempregado que envie um e-mail vazio no lugar do currículo ou que amarre sapatos pelas lixeiras da cidade, tire fotos e diga “pipoca não tem antena” como demonstração de interesse pela vaga que ofertaram. Me belisquem. Devo estar dormindo. Joguem água fria, estapeiem minha cara.

Já faz parte do grupo? Que grupo? Este.

Rodrigo Meyer

Não se sentir útil pode causar depressão.

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A depressão é uma patologia que pode ocorrer por diversas razões. Uma somatória de condições físicas e psicológicas e, possivelmente, até uma predisposição genética para certas características podem ser a abertura pra quadros clínicos de depressão.

O ser humano, por essência, deseja se integrar e se sentir bem no ambiente em que vive ou na vida em geral. Acomodar-se diante de um grupo, uma família ou mesmo entre um par, pode contribuir pra que se sinta valorizado. Mas não é suficiente apenas o apreço das pessoas. Mais do que isso, o ser humano precisa sentir que tem função na vida, necessidade e utilidade. Seja profissionalmente ou não, todo ser humano precisa exercer valor na equação da vida.

Se, eventualmente, o indivíduo nota que não faz diferença se existe ou não, pode sentir-se demasiadamente deslocado, sem espaço, mesmo que não seja expressamente recusado. Mas, por não se sentir útil, pode entender a falta de função no meio como um desvalor, um descarte, uma rejeição. E isso contraria os princípios dos seres sencientes que desejam viver felizes, acolhidos e saudáveis.

Por essa razão, muitas pessoas desenvolvem depressão quando, por exemplo, perdem o emprego ou deixam de conseguir clientes ou atividades para concretizar sua função. E às vezes tais situações se agravam quando esta dificuldade profissional repercute na sua autoconfiança em outros setores da vida, como o relacionamento familiar, as amizades, os romances e também o modo como enxerga a si mesmo em comparação com outras pessoas que estão ativas.

Estar em constante atividade é uma forma de mantermos nossa mente ocupada com objetivos e metas. Tentar buscar melhoria no que se faz acaba sendo um fator de motivação para muita gente. Exemplo do impacto disso é o crescimento alarmante de casos de depressão e suicídio em países muito desenvolvidos, em razão da sensação de que faltam objetivos pra serem conquistados, uma vez que já se tem tudo muito fácil e muito cedo. Embora se tenha amplo esforço em apoio psicológico, familiar e social, o ser humano dessas localidades desaba com certa facilidade se percebe que não precisa se esforçar pra ter o que a maioria do mundo não tem mesmo com amplo esforço.

O ser humano precisa seguir iscas constantemente. Ele pode gerar as próprias ou ir atrás de outras que foram inseridas pelas pessoas ou que estão presentes naturalmente no ambiente ou na vida. Parte desse problema envolve as facilidades da tecnologia que acabam encurtando todo esforço e permitindo que as pessoas cheguem longe rapidamente, sem experimentarem o prazer da vitória ou de se sentirem parte indispensável do processo.

Ter uma máquina que faça tudo por nós é como sentir-se desempregado das atividades mais superficiais. Já não somos necessários pra que as coisas funcionem. E esse é um sinal claro de que precisamos filtrar o que iremos automatizar e com que intensidade. Algumas pessoas sentem-se úteis oferecendo seu trabalho na própria família. Limpando a casa, fazendo reparos ou mesmo planejando reformas e decorações dos ambientes, estas pessoas se ocupam com uma atividade que se torna um objetivo e ao mesmo tempo o torna útil por servir à alguém que precise. Por outro lado, a obrigação dessas tarefas ou o excesso delas pode inverter o jogo.

Morar sozinho pode ser uma situação difícil para algumas pessoas, em razão do sentimento possível de que tudo que há pra ser feito por alí, não cumpre uma necessidade à outra(s) pessoa(s). Por isso, muitos solitários pensam em dividir o ambiente com mais pessoas como forma de atribuir utilidade para aquilo que já faziam por si mesmos. Seja cozinhando, fazendo compras domésticas, limpando, lavando roupas ou até mesmo planejando festas e momentos pra socializar, eles encontram função e sentem-se mais confiantes.

É evidente que é possível sentir-se bem morando sozinho ou mesmo estando sem trabalho. A ausência de uma função clara não é condição que obriga o surgimento da depressão, mas faz o indivíduo refletir com certa constância quais são seus papéis na vida. A sociedade é um grande referencial de valor pros indivíduos modernos e enquadrar-se nela por vontade própria ou por certa obrigação, transforma a visão que temos das nossas próprias opções na vida. Acreditamos que pra se viver bem, precisamos viver inseridos no modelo social. Em parte isso é bem verdade, pois o ser humano é sempre referido como um ser naturalmente social e que, assim como muitos outros animais, só exerce sua plenitude enquanto ser vivo, se estiver também na companhia ou interação com outros semelhantes.

Às vezes trocamos a presença humana por companheiros em forma de gato, cachorro e outros. É uma maneira de se contornar a ausência humana e com certeza pode ser uma maneira eficiente de trocar afeto e interação. Socializar é uma questão um pouco mais profunda do que simplesmente estar em sociedade ou estar ocupando o mesmo espaço que um grupo de seres. Socializar é uma relação complexa de papéis, aceitação e níveis de profundidade e valorização dos seres entre si. Quando a equação não contempla alguém, há uma exclusão, mesmo que seja aleatória e não proposital.

Um professor faz papel útil diante de um aluno que deseja aprender, assim como um médico tem utilidade para um paciente. O mecânico de automóveis desempenha seu papel quando pode arrumá-los. Também desempenhamos papéis quando somos referencial pra filhos ou irmãos no cuidado, educação, apoio, informação e partilha de momentos. Tudo isso engrandece nosso ser e nos faz persistir até mesmo pra não deixar as pessoas que gostamos sem o benefício da nossa intervenção.

Quando o assunto é a mente humana, não há garantias ou fórmulas. O que para alguns pode ser um contexto ideal de vida feliz, pode ser frustrante e desagradável pra outro. A depressão não vem só de uma fonte e certamente não existe um modo único de combatê-la ou evitá-la. A realidade humana está envolta em noções pessoais e nem sempre claras pro próprio indivíduo. A percepção da vida é uma tarefa que todos nós precisamos exercer, mesmo quando não somos requisitados pra isso. É da essência humana questionar a própria existência e viver conforme o que sente emocionalmente.

Uma boa postura diante de outras pessoas que estão enfrentando depressão ou situações similares onde sentem-se deslocadas ou sem utilidade é atribuir reconhecimento pelo que elas estão fazendo e, sempre que possível, incluir essa pessoa em projetos e desafios. A companhia de duas pessoas tentando fazer uma mesma atividade, por exemplo, pode ser uma forma de estímulo e apoio. É comum que amigos ou casais de namorados iniciem juntos atividades físicas ou dietas ou até mesmo que criem atividades profissionais pra dividir os potenciais e habilidades de cada um.

Aliás, famílias e amizades deveriam ser essencialmente assim, pois nada mais sincero na demonstração de afeto do que se engajar junto com outra pessoa pra encarar a vida, manter-se de pé, firme e forte e dar a oportunidade de ambos experimentarem o lado bom de se viver. Sabemos, contudo, que nem sempre teremos as condições pra desenvolver um trabalho ou hobby, mas devemos demonstrar compreensão diante de todos que estão tentando ou desejando isso pra suas vidas, especialmente se for alguém próximo de nosso meio.

Rodrigo Meyer

As facilidades estão tirando nossa disposição.

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Apesar de tanta coisa que veio em nosso benefício em termos de facilidades, tecnologias e a própria diversidade, acabamos ficando acomodados e perdemos a disposição em fazer várias coisas que antes nos eram naturais e, eu diria, necessárias. A mente e o corpo, como sabemos, se mal utilizados adoecem e se pouco utilizados atrofiam. E foi mais ou menos nessa direção que as gerações recentes se perderam.

Muita gente trocou as visitas domiciliares por encontros virtuais. As conversas já não dependem de locomoção e planejamento de data. Às vezes unimos o entretenimento coletivo de uma casa noturna ou bar aberto ao público em geral para retomarmos a socialização com um ou outro conhecido. Estes se tornaram os pontos de encontro fora da internet. Mas, frequentemente, vamos apenas aos mesmos lugares e não temos muito interesse de sair pra explorar a cidade, se não houver destinos pré-definidos.

De certa forma, por preguiça, negligenciamos muitas das coisas que compõem o nosso bem-estar físico e emocional. Deixamos de escrever cartas manuscritas e alguns abandonaram até a leitura dos livros físicos em detrimento das versões digitais. A comunicação já não nos obriga a ter caligrafia, porque podemos utilizar fontes de texto para nossos textos virtuais. Já nem lembramos mais como é a nossa letra e estamos, literalmente, desaprendendo a escrever. Um estudo mostrou que a geração que nasceu com a internet, acabou transformando sua escrita manual em letras soltas ao invés de cursiva, em sinal de imitação ao texto virtual.

Produzir um vídeo é tão fácil quanto apertar o botão de gravar do celular ou câmera fotográfica. E estranhamente, o telefone celular já não serve mais como telefone e as câmera fotográficas estão se tornando câmeras de vídeo. Já não paramos para fotografar, queremos logo a criação mais abrangente possível. Gravamos tudo que encontramos pela frente e não organizamos nem planejamos muito. Alimentamos animações em GIF geradas automaticamente por sites. Ótimas facilidades, mas que não estão necessariamente melhorando a produtividade ou qualidade dos conteúdos.

Fazemos muito mais coisas, mas temos muito menos paciência e engajamento por qualquer coisa que não seja sintética, pré-fabricada, artificial e simplificada. A construção de casas já está começando a surgir no sistema de módulos pré-fabricados. As ilustrações estão sendo substituídas por montagens de fotografias preexistentes. Até mesmo os textos e notícias estão sofrendo uma degradação sem precedentes. Diversas mídias já não criam os próprios conteúdos, mas apenas replicam o que conseguem facilmente copiar e colar de outra mídia que encontram pelo caminho.

Acabamos, sem perceber, nos tornando o oposto da produtividade. Compartilhamos o que vemos e não criamos nada. Comemos o que estiver disponível para comprar e não o que escolhermos plantar e/ou cozinhar. A comida já vem com conservantes que conservam tudo, exceto nossa saúde. Ganhamos tempo, mas saímos no prejuízo. Nosso corpo reclama, nossa mente se entristece e ficamos um pouco menos vivos. E isso não é uma questão de mero capricho. O ser humano tem necessidades que, se ignoradas, comprometem a mente, levando para situações de ansiedade, depressão, medo, distimia, transtornos obsessivos e várias outras situações.

Estamos nos tornando tão rápidos quanto essas facilidades de nosso tempo. Mantemos relações cada vez mais descartáveis, como se lidássemos com avatares de redes sociais. Ignoramos pessoas como quem fecha um arquivo que não quer mais ver. Deixamos as pessoas falando sozinhas, pelo costume que adquirimos de poder manter o histórico da conversa para retomarmos posteriormente. Estamos levando pra nossas vidas, a conduta que é típica das facilidades da internet e as demais tecnologias. E estamos nos tornando menos humanos e mais virtuais.

Isso não deveria ser necessariamente ruim, mas o ser humano, adoentado pelos excessos, não está conseguido gerir essas realidades de maneira saudável. Há muita coisa em suas mãos e ele mal sabe como lidar com uma fração delas. Está se enrolando da cabeça aos pés em tudo que tenta fazer, porque a vida tornou-se algo que ele já não reconhece como agradável. Tudo está fácil, mas está também chato, frio e sem desafios. A mente não se sente bem em ser cada vez menos necessária e o corpo já está frágil e preguiçoso para qualquer coisa que não envolva teclas e automação.

Estamos lotando os consultórios médicos e as sessões de terapia psicológica. E isso não precisa ser assim. Precisamos reavaliar nosso modelo de viver a modernidade. Não precisamos abrir mão das tecnologias, mas precisamos aprender a utilizá-las para benefício real e não para nutrir um estilo de vida cego. Se não enxergarmos a luz por traz de tudo que estamos fazendo, absorveremos esse vazio como sinônimo da realidade e, claro, nos sentiremos péssimos em relação a isso tudo. Viver bem está relacionado a fazer bom uso daquilo que se tem. E não podemos tirar da equação a nossa posse mais preciosa: nosso corpo e mente. Vamos olhar com carinho sobre o que estamos fazendo dos nossos dias.

Espero que possamos dançar mais e melhor, suar em atividades braçais, em artesanatos, nutrir o corpo com comida de qualidade, boicotando sempre que possível as comidas enlatadas cheias de corantes e conservantes. Vamos dedicar tempo pra receber nossos amigos, sorrir diante da companhia de animais reais e não só das fotos e vídeos fofos pela internet. Vamos dedicar tempo para abraçar as pessoas em paralelo aos likes que deixamos nos conteúdos. Vamos olhar nos olhos, desfrutar de uma vida sexual mais ativa e com mais sentido, sem as distorções da pornografia industrializada e massificada. Vamos desligar as luzes brancas de LED e relembrar o tom alaranjado das velas. Vamos retomar o lado humano de nossa realidade, pra que as coisas não se tornem uma rotina fria e rude.

Rodrigo Meyer

Interagir com pessoas pode reduzir nossa lista de contatos.

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A imagem que ilustra esse texto é parte da pintura de autorretrato intitulada de “Madame Vigée-Lebrun et sa fille” feita, claro, pela própria Louise Élisabeth Vigée Le Brun (1789)

Parece até estranho que conhecer mais gente faça encolhermos nossa lista de contatos, mas isso pode acontecer porque os filtros são parte das relações humanas. Alguns são mais sensíveis, outros menos, mas todos nós filtramos. E mesmo conhecendo muita gente, acabamos encurtando esse número. É claro que há pessoas que possuem pouco filtro e, seja lá porque motivo for, optam por acumular o maior número possível de contatos.

A princípio, quando conhecemos alguém, seja presencialmente ou pela internet, sabemos pouco da pessoa e, assim, a convivência leva um tempo até revelar algumas nuances. Às vezes a pessoa do lado de lá da relação, tem expectativas das quais não preenchemos e outras vezes somos nós que comparamos as pessoas que chegam com aquilo que esperávamos. Mas, sabemos, manter expectativas não é muito saudável ou útil. Deixe que as pessoas se mostrem tal como são e siga seu caminho sem pesos ou euforias antecipados.

Em épocas mais remotas da internet era comum adicionarmos no extinto Orkut qualquer pessoa que surgisse pela frente, mas não passávamos nosso telefone pra ninguém. Hoje em dia isso se inverteu. Escolhemos quem entra em nossos profiles de rede social, mas o telefone celular está disponível pra qualquer um na face da Terra. Muito provavelmente isso ocorre porque o celular não revela grandes informações acerca da pessoa, enquanto que o profile de Facebook ou outra rede social similar, é praticamente um grande resumo da vivência de cada indivíduo. Além disso, antigamente o celular servia mais para telefonemas e mal tínhamos como escolher quem poderia nos telefonar. Hoje em dia os sistemas operacionais dos smartphones nos permitem controlar as interações que recebemos de forma a barrar aquilo que julgarmos indesejado.

Na vida social fora da internet, temos menos opções de controle, porém as pessoas costumam se impactar mais pelas interações ou rejeições. Ao entrarmos em um comércio, não há botão de bloqueio como nos eletrônicos, mas pode haver uma cara fechada, um sorriso que não se inicia, um atendimento ruim ou um contexto qualquer que não nos agrade. O ser humano tem nas mãos a escolha de lugares, produtos, pessoas, hábitos, hobbies e tudo que quiser idealizar para sua realidade.

Na família há sempre um grupo de pessoas dos quais gostamos menos ou mais. Estamos sempre medindo nossas relações com as pessoas. Às vezes por questões de semelhança nos interesses ou na forma de pensar, às vezes por algo mais sutil como química ou energia, entre outras coisas. Fazemos isso nos contatos profissionais, nas escolas, nos círculos de amizade e onde mais encontremos outros seres.

Mas existem dois lados dessa moeda. Conhecer tanta gente nos faz filtrá-las, mas é dessa maneira que também pinçamos novas pessoas à cada filtro. Então ao longo da vida, nossa lista de contatos cresce sutilmente, mas é sempre um número menor do que o mar de gente que passa por nós. Perdemos muitos contatos pelo meio do caminho. As pessoas ficam, a gente segue. Dizem que quem tem um amigo, tem muito. De fato não é nada fácil perdurar uma amizade em um mundo onde a maioria dos contatos são superficiais e até falsos. Assisto todos os dias as pessoas levando rasteiras dos próprios “amigos”. Isso denota o mal uso do filtro. Conhecer pessoas é bom, mas saber filtrá-las no tempo certo é melhor ainda.

Até a data desse texto, a norma do Facebook estipula um limite de 5 mil contatos possíveis em um profile na rede social. É claro que, algumas pessoas gostariam de adicionar todo o planeta, mas certamente não conseguiriam gerir nem mil pessoas. Quanto mais ampliamos nosso círculo de relações, mais superficial se tornam os contatos, porque temos menos tempo, interesse e conhecimento pra nos aprofundar em cada pessoa. Mas há quem use esse excesso de gente como uma tentativa de estoque, como quem guarda cartões de visita de tudo e todos que conhece. Mas isso não funciona de fato, porque a própria rede social limita a visibilidade da maioria esmagadora desses contatos, simplesmente porque é inviável apresentar tanto conteúdo em uma mesma área que corre conforme os rápidos momentos em que o usuário está conectado para ver seu feed na rede social. Então, torna-se apenas um aglomerado de nomes e quase nenhuma socialização consistente com as pessoas por trás desses avatares. Mal chegamos a ver o que 5 pessoas estão fazendo no Facebook, que dirá 5 mil.

Com o advento das fanpages, pessoas e empresas estenderam suas relações para o mundo de uma maneira mais organizada, mas isso não muda a equação que inviabiliza uma única pessoa ter contato profundo com 5 mil pessoas, 100 mil ou 1 milhão delas. Esses contatos se tornam mais uma relação profissional distante e com mensagens cada vez menos individuais. Me faz lembrar dos discursos em festas de casamento, onde alguém se dirige ao microfone para falar pra uma multidão de 100, 200 ou mil pessoas. De certo que não há agradecimentos e memórias para serem compartilhados com cada uma delas, então ou escolhe-se as pessoas mais relevantes para citar ou faz-se um discurso genérico que sirva à todos.

Mas, as relações humanas de amizade não são contatos de um comício político, uma festa pública na cidade ou uma nota informativa estampada num jornal de grande circulação. Se quisermos atribuir algum valor pessoal para nossos contatos, precisamos reduzir esse número. Ao invés de atirarmos pra todo lado sem acertar ninguém, precisamos ser como um sniper, que mira adequadamente por um tempo maior e traz resultados ao invés da ilusão da quantidade.

Oportunidades de relacionamento amoroso, amizades, parcerias profissionais ou em outras atividades, surgem de muitas maneiras, mas elas se estabelecem de forma sólida e mais realista quando são aprofundadas pelo contato dedicado das partes. Você não precisa abandonar outras opções ao redor, mas precisa investir tempo e atenção naquilo que lhe é valoroso e prioritário. Se imaginarmos dois sócios em uma empresa, por exemplo, a amizade é um ponto crucial para evitar desentendimentos ou trapaças. A confiança é sempre dirigida entre pessoas e não entre profissionais. As profissões são parte das pessoas e ao escolhermos alguém pra atuar profissionalmente, estamos elegendo junto a pessoa completa, com todas suas faces.

Em um casamento, também estamos traçando relações pessoais com o inteiro de uma pessoa. Não existem muitos casos onde o indivíduo não seja tão importante pra traçarmos uma atividade consistente. Na minha visão, qualquer espécie de relação começa da amizade. Busco pra trabalhar comigo pessoas com as quais tenho afinidades emocionais, convivência, interesses em comum, boas memórias, confiança, apoio mútuo, etc. Fico espantado, por exemplo, quando alguém diz que não namoraria amigos. Deveria ser exatamente o inverso. Quem em sã consciência prefere namorar um desconhecido ou um potencial inimigo? Namore e case com um amigo, com certeza! E alguns dizem também pra não misturar negócios e amizades. Pois não há mentira maior. Trabalhe entre amigos sempre! Fuja de relações profissionais que não são alicerçadas em sólida amizade. Confiança e senso de família, afeto e apoio mútuo farão vocês se unirem pra um propósito e lutarem juntos por qualquer dificuldade que surja. Quando não há amizade entre os envolvidos, ao primeiro sinal de dificuldade, pulam pra longe um do outro e abandonam o barco. Essas relações não contribuem para se levar um negócio adiante.

Observe como surgiu a Google e depois compare com a relação difícil na Apple entre Bill Gates (um funcionário da Apple na época) e Steve Jobs (seu chefe). Bill Gates acabou saindo na frente de seu chefe, fundou sua própria empresa e hoje as duas marcas (Apple e Microsoft) figuram afastadas. E diga-se de passagem, se não fosse o generoso empréstimo que Gates deu à Apple, somente a Microsoft teria sobrevivido. Hoje, numa relação confusa, a Apple atende um mercado de elite enquanto a Microsoft abrange a sociedade de forma mais massiva. Estes dois profissionais não dividiriam o mesmo ambiente por muito tempo e não chegariam a experimentar uma amizade sólida enquanto estivessem focados em enriquecer à qualquer custo.

Relações profundas são a chave de qualquer projeto de vida, seja no campo profissional, emocional, familiar, filosófico, religioso, etc. A redução dos contatos é inevitável, mas é saudável se você souber gerir os tais ‘recursos humanos’ sem cair na maneira pejorativa de interpretar isso como faz a maioria das empresas com seus departamentos de contratação. Se você trata as pessoas apenas como uma fonte conveniente de habilidades e prestações de serviços, você está atirando em seu próprio pé. Sociedades poderosas poderão ser construídas se invertermos esse modelo doentio de nos relacionarmos e começarmos a firmar mais valor em cada uma das poucas pessoas que escolhemos para habitar nosso mundo mais profundo.

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Rodrigo Meyer