Permita-se recomeçar.

Ouço muita gente citar o tempo como desculpa para a inação. Alguns dizem ter pouco tempo no dia, outros dizem ter pouca vida pela frente devido a idade e outros dizem que ainda são jovens demais para tomar certas decisões. Em todos os casos, usam o tempo como pretexto para uma inação, para fugir de situações das quais possuem, geralmente, medo.

Quando alguém está em um cenário de insatisfação naquilo que está vivendo, é comum que a pessoa desanime e não veja opções de recomeço. Mas sabe, apesar de tudo, que recomeçar seria algo benéfico, já que apontaria para um caminho de concretização de um ideal ou de uma possibilidade diferente daquela em que se via antes. A barreira para esse recomeço costuma se instalar na mente de muitas pessoas, tornando-as procrastinadoras ou negligentes sobre suas próprias realidades.

Em conversas com algumas pessoas, sondei o quão interessadas elas estavam em adotar recomeços em suas vidas, seja profissionalmente, no campo dos estudos, nos relacionamentos, na vida social, na troca de país, na iniciativa de escrever um livro ou começar um canal no Youtube, aprender a cozinhar ou terminar de ler aqueles livros que elas listaram um dia e nunca mais entraran em contato. Por mais engajado que eu estivesse em mostrar a realidade de todas essas opções, foi notório a reação exacerbada das pessoas em claro sinal de resistência para tudo isso. Algumas pessoas se declaravam desinteressadas de certas mudanças, mas não diziam explicitamente que era por conta de medo. Talvez admitir medo fosse, para algumas, uma maneira intragável de se verem sem a liberdade necessária sobre si mesmas. O medo paralisa e coisas paradas não repercutem. A pessoa que deixa de viver por medo, sofre em silêncio e muitas vezes sem nem saber porque sofre.

Outras pessoas, ainda que interessadas pelas mudanças, sugeriam repetidamente que mudar era difícil, que exigia uma lista de requisitos das quais elas não dispunham. Colidiam com qualquer tentativa minha de demonstrar que esses requisitos eram lendas e que a realidade disponível para as mudanças estava bem acessível. Contudo, eu deixava claro que a maior e única barreira pra determinados casos de mudança era simplesmente o ‘querer’ de cada indivíduo. Não se pode convencer ninguém a mudar se ele não quiser. A mudança, para todo e qualquer cenário da vida começa, primeiro, dentro do próprio indivíduo. É a mudança de paradigma, de pensamento, de postura e de valores que vai determinar as possibilidades de mudança no lado exterior, nas questões práticas da vida.

A exemplo disso, ninguém se atreve a mudar de país, por exemplo, se tudo na mente da pessoa ainda aponta que essa ação é errada, incerta, perigosa, pouco vantajosa, difícil ou impossível, dispendiosa, para poucos ou com qualquer característica de barreira que se atribua. Não ocorre a ação, se a mente não está minimamente alinhada com essa realidade hipotética. É natural que as pessoas tenham dúvidas sobre o dia de amanhã, sobre seus potenciais e sobre questões técnicas acerca daquilo que pretendem mudar, mas isso não é o mesmo que ter medo, insegurança ou desistência. Quando não sabemos nada sobre mudança de hábitos, por exemplo, procuramos a informação, antes de afirmar que é possível ou impossível, fácil ou difícil, interessante ou dispensável. Talvez algumas pessoas não saibam as opções existentes sobre novos modelos de trabalho, sobre como exercitar o corpo, como trocar de sistema operacional no computador, como abrir um comércio, como aprender um idioma, como adquirir o hábito da leitura ou como cozinhar com pouco dinheiro. Talvez não tenham a maior parte das informações que serão necessárias para a mudança em suas vidas, mas é exatamente por isso que a mudança é sinônimo de algo novo, de um passo em direção ao recomeço, ao aprendizado, à experiência, ao futuro, ao desenvolvimento, ao momento em que se olha para algo, se vivencia e se descobre mais daquele contexto. Fugir é que não ajuda em nada para aprender e vivenciar a mudança.

Quando eu era adolescente eu tive contato com softwares de modelagem 3D. Foi algo que me encantou por um tempo, devido as possibilidades de criação realistas de tudo aquilo que estava na minha mente. Embora eu não soubesse nada sobre meu potencial nessa área, nem soubesse nada especificamente das configurações atreladas a modelagem nos softwares, nem tivesse qualquer aspiração definida no campo profissional, eu me vi experimentando algumas opções. Assisti a tutoriais, entendi melhor os atalhos e me habituei a eles. Em pouco tempo, o que era improvável se tornou algo banal. Algum tempo depois, com a prática e o incentivo de um conhecido que também lidava com modelagem 3D, eu comecei a criar cenas mais complexas, experimentar materiais, efeitos, iluminações, recursos para renderização realista e até cheguei a montar um computador todo voltado pra esse alto desempenho requerido pra área. Não me tornei um artista 3D prolífico, nem dominei os softwares aos quais fazia uso, mas tive a grata oportunidade de gerar diversas imagens que me felicitam ainda hoje.

Olhar pra trás e ver que eu fiz algo na área, ativa a nostalgia e um orgulho somado com a memória positiva disso. Saber que fui capaz, que tentei e realizei, traz uma recompensa para o cérebro que me faz sentir prazer e motivação. Com isso eu me tornei muito mais ativo em outras atividades. Uma vez motivado, desenvolvi melhor meus desenhos em papel, minhas pinturas à óleo, minhas pinturas digitais, o desenho vetorial e o Design Gráfico, a própria Literatura e, claro, como fotógrafo, onde ampliei muito mais minha confiança artística, profissional, social, etc. Em resumo, ter me permitido aprender algo difícil como a modelagem 3D, repercutiu em toda a minha vida, porque mesmo que hoje eu não esteja mais modelando, todo o restante que eu faço, faço com motivação, com orgulho, com um histórico na memória e com um rastro de interação com as pessoas que conheci pelo caminho. Ter lembrado disso, me fez inclusive reabrir essa área no momento presente e voltar a estudar 3D, para, eventualmente, trazer essas modelagens como imagens descritivas de cenas nos meus livros ou até mesmo a criação de pequenas animações para os meus projetos paralelos. É improvável (ou pelo menos bastante incerto) que eu me torne um artista de 3D com os rumos que eu escolhi pra minha vida atualmente, porém eu nunca fecho uma porta, enquanto há a remota possibilidade de eu me beneficiar de algo em algum momento futuro.

Entendido o exemplo deixado acima, fica a reflexão para qualquer pessoa, em qualquer área da vida. É preciso estabelecer metas (até mesmo se a única meta for não ter metas definidas). Entender que a vida é dinâmica e que o futuro é uma surpresa constante, nos permite vivenciar mais profundamente cada um dos momentos presentes. Nada sei como será o dia de amanhã, mas quero que o dia de hoje seja o melhor possível. É isso que me coloca em uma postura aberta para a mudança. Se hoje aprendo algo que transforma meu pensamento, minha compreensão, meus valores, minha percepção, meus desejos, meus sonhos, etc., eu caminho, automaticamente, para uma realidade nova, para a mudança. E quando isso acontece automaticamente, acontece sem medos, sem barreiras, sem pesares, sem inseguranças. Mesmo sem saber nada sobre onde o rio vai desaguar, a água da nascente escorre com confiança e se entrega ao rio, percorre o rio, descobre as pedras pelo caminho, se molda por novas margens a cada distância que avança. O rio da nascente já não é o mesmo em nenhum outro ponto do caminho e a água se oxigena justamente por conta desse movimento. De certa forma ela é conduzida por uma série de contextos, mas é a força dela que registra o caminho possível de ser percorrido. Se a água for pouca e fraca, logo evapora, seca e o rio não se forma. Para viver uma vida intensa, com significado e prazer, é preciso deixar a vida acontecer.

Rodrigo Meyer – Author

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Estou de volta.

Sim, eu voltei. Eu estou aqui mais uma vez, porque escrever é o que faço sempre que tenho condições. Foram dias difíceis nos últimos meses e isso é até fácil de imaginar. Mas eu não vim pra reclamar, nem lhes contar histórias tristes. Eu vim anunciar que os textos estão seguindo.

Quem acompanha o blog a mais tempo, sabe que os textos que estão por aqui, fazem parte de um projeto de mais de 600 temas que eu predefini. São artigos escritos com o objetivo de reflexão e transformação social, pessoal e intelectual. É um espaço pra que possamos cutucar temas adormecidos ou desconhecidos, mas de uma maneira mais eficiente. Por aqui, sempre que eu aponto um problema, aponto algumas soluções. Este projeto já conta com metade, cerca de 300 textos, no ar. Você pode descobri-los pela pesquisa na lupa do blog ou através das tags de assuntos.

Este ano será de suma importância que nos voltemos para as artes, para o pensamento, para a reflexão, para o empoderamento, para a resistência com muito intelecto, bom humor, sensatez, equilíbrio (dentro do possível) e mudanças, muitas mudanças. Por aqui, encontram-se leitores de mais de 20 países do mundo e já atingimos quase 6 mil visualizações em tão pouco tempo. Isso denota certo interesse e apreço das pessoas pelos conteúdos que aqui são feitos e pelo modo como eu escrevo. Os textos são criados em momentos onde algo realmenre precisa ser dito, pra que a mensagem seja a mais sincera possível e que traga uma boa trilha de leitura, num começo, meio e fim que acrescente algo pra quem lê ao invés daqueles conteúdos genéricos que vemos aos montes pela internet, onde lotam letras na tela, com repetições vazias, tentando não parecer que só há duas linhas de conteúdo real naquele mar de texto.

Aqui faço as coisas com um propósito real, voltado para transformação social e pesoal, deixando algum insight e esclarecimento sobre as coisas do mundo, do nosso interior, da mente, da sociedade, das vivências, experiências e aprendizados, desmembrando aspectos da socialização, do convívio sadio em sociedade, da quebra de preconceitos, tabus, equívocos, além da transformação pessoal de cada um para atingirem os seus potenciais ao máximo. As reflexões que aqui são apresentadas, não são uma mera maneira de opinar sobre algo, mas são, acima de tudo, a oportunidade de demarcar a estrutura da realidade e das relações humanas, pra que as pessoas possam se redescobrir no meio de algum assunto, fazer as escolhas e mudanças que acharem necessárias e tornarem-se elas mesmas uma célula de propagação da nova vivência, nova experiência, nova conduta, nova mentalidade, nova vida. Somente você pode fazer a mudança. Eu estou aqui pra apontar as portas que eu conheço, mas não posso atravessar as portas por ninguém.

Como forma de orientar melhor o caminho que eu trilho na criação dos textos, além dos temas preexistentes, eu preciso que vocês interajam com os conteúdos, deixando comentários abaixo das publicações, seja no blog ou no Facebook ou que enviem mensagens ou e-mails para tirar dúvidas, pedir temas, enviar sugestões, críticas, elogios, indicações, etc. Essa interação é importante pra que eu siga sendo útil pra você que me lê e para os que estão por vir. Por isso, se houver um texto que você goste, compartilhe pra que mais alguém tenha a oportunidade de entrar em contato com o assunto ou mesmo de descobrir outros assuntos no blog. Assim como é feito pra vocês, é também feito pra mim, pois escrever é minha terapia e parte da minha essência. Quando escrevo, tenho a oportunidade de tirar um peso das costas e tentar levar alguma leveza e estímulo pra outras pessoas.

O ano está começando com notícias desastrosas, mas estarei aqui cheio de novidades, pra evitar de sucumbir. Conte com esse epaço para se concentrar em si mesmo e naquilo que pode fazer por melhoria na sua realidade. Junto com essa plataforma de textos, outras atividades vão ganhar novos patamares de criação e visibilidade. Quem me conheceu um pouco mais, sabe que fui fotógrafo por quase 20 anos e, apesar de ter pausado a atividade em razão da venda dos equipamentos, estou reconstruindo minha vida em outro canto e assim que tudo se estabilizar, pretendo voltar a fotografar. Esses dias eu voltei a desenhar e pintar e já tem algumas obras na minha página de Arte (aqui). Façamos arte, porque teremos que ficar de pé para o que está por vir. Precisamos ficar, antes de tudo, com saúde mental para não perdermos a energia de resistir e lutar pelas mudanças que serão necessárias.

Este texto é só um comunicado de retorno, mas sinta-se à vontade pra ler uns textos aleatórios no blog, pra conhecer um pouco da abordagem que faço nos temas, a linguagem, o modo de estruturar a trilha da mensagem, etc. É um formato sincero, espontâneo e também bem cuidadoso. Fico feliz pela receptividade das pessoas, que já somam quase 6 mil visualizações em tão pouco tempo. Há leitores frequentes e até numerosos de diversos países. Adoraria conhecer mais detalhes sobre a comunidade, se são estrangeiros nativos ou se são brasileiros morando no exterior. Por isso, reitero, é importante a interação.

Obrigado por continuarem presentes. Nos vemos logo mais. Assim que eu tiver mais centrado, entro com um novo artigo. Quem quiser acompanhar um pouco da minha realidade, pode seguir neste Instagram: rodrigomeyer.author.

Grato,
Rodrigo Meyer – Author

Para nos redimir, precisamos ser ouvidos.

Todo ser humano está sujeito a falhas. Às vezes gostaríamos de voltar no tempo pra mudar algumas coisas, como, por exemplo, poder passar mais tempo com certas pessoas, mudar as escolhas de curso, pedir desculpas para alguém ou reaver um trabalho, um cliente, um companheiro de relacionamento, etc. Estes são alguns poucos exemplos da imensidão de possibilidades onde podemos precisar nos redimir em algum momento. Mas, para que possamos nos redimir, as pessoas precisam, necessariamente, nos ouvir.

Muitas das vezes, principalmente se um erro foi grave, a pessoa afetada pode sentir-se tão prejudicada que não deseja nem mesmo mais contato com o autor do dano. É compreensível a situação e faz todo o sentido que uma pessoa se isole de quem lhe causou danos em algum momento. Contudo, pra diversas outras situações, as pessoas parecem agir precipitadamente, tanto quanto aqueles que erraram com ela. É o caso, por exemplo, quando alguém se afasta, antes mesmo de saber os reais motivos de uma determinada ação ou reação de uma pessoa, uma palavra ou uma decisão. Nisso moram muitos problemas.

O modo mais sensato e sadio de se lidar com qualquer situação, seja ela positiva ou negativa, é se colocar a entender a situação, antes mesmo de disferir qualquer emoção ou decisão exacerbada ou definitiva. Coloque-se a ouvir as pessoas sobre o que elas fazem, pensam, são. Entenda os motivos de cada pessoa e entenda, sobretudo, os contextos por trás de cada situação. As pessoas são, normalmente, muito mais complexas do que os estereótipos que as mídias e nossa mente possam retratar em um primeiro momento. Não se pode achar que nossa visão seja sempre suficiente pra entender todas as pessoas, mesmo que você já tenha conhecido centenas de pessoas aparentemente similares ao que você crê que seja a próxima julgada. Por isso, se quiser ser surpreendido e também surpreender, faça o que pouca gente faz: dê ouvidos para quem tenta se redimir.

Lembro de exemplos pra citar que vivenciei na época da faculdade. Tinha uma boa amizade com uma determinada pessoa de um pequeno círculo de convívio. Dividíamos muitas coisas em comum, especialmente o modo de ver a vida, a personalidade, os aspectos culturais e até, talvez, um interesse recíproco. Iniciamos pela amizade e foi isso que desenvolvemos até ali, ao meu ver. Mas, em determinado momento, fui surpreendido por uma situação que, na época, não soube lidar da melhor maneira. Essa pessoa, a quem só tinha coisas boas pra descrever, mostrou-se interessada por um beijo, talvez um relacionamento. Embora eu quisesse, minha primeira reação foi recusar, tamanha era a sinceridade e o modo automático com que eu lidava com aquela amizade. E nisso, moram diversas necessidades de explicações.

Primeiramente, o fato de eu ter recusado um beijo, não significa que não quisesse nada com aquela pessoa. Significou, pra mim, apenas que fui surpreendido por algo além da amizade e que isso me deixou sem a habilidade necessária pra fazer a melhor reação ou dar a melhor resposta. Em segundo lugar, não significa que eu pense que amizades não podem gerar relacionamentos. Na verdade eu penso exatamente o oposto. Pra mim, bons relacionamentos devem vir exatamente de boas amizades, pois se a companheira não for uma boa amiga, esse relacionamento já é pouco valioso e interessante. Meu sonho de vida sempre foi encontrar alguém com quem eu pudesse dividir uma boa amizade a ponto disso se transformar em um relacionamento de casal. Mas, por incrível que pareça, quando isso finalmente ocorreu, eu não lidei da maneira que deveria.

Algumas pessoas, assim como eu neste exemplo dado, podem ter reações estranhas ou improváveis, apesar de suas vontades ou ideais. Naquela situação, por exemplo, tudo que soube fazer pra contornar a surpresa foi dizer que prezava a amizade da pessoa, como justificativa pelo meu recuo. Foi uma situação desconfortável e, infelizmente, claro, a pessoa se sentiu rejeitada e também desconfortável com a situação. Neste momento, o mais sensato seria ter acolhido a pessoa, mas me vi tão sem jeito pela situação que, recuei ainda mais, talvez um pouco envergonhado e sem jeito para lidar com tudo aquilo acontecendo em tão pouco tempo. Por fim, esse episódio acabou gerando um certo distanciamento gradativo até que, com o fim da faculdade e a redução da interação, inclusive pela internet, me vi falho demais para dividir a realidade com diversas pessoas do meu passado e presente. A socialização estava difícil, pois eu estava enfrentando outras questões pessoais na época, inclusive crises de depressão.

Há algum tempo atrás, depois de ter me reerguido um pouco, consegui me por novamente em um cenário pessoal aceitável, onde eu conseguia engolir meus erros do passado e me aceitar, tentando um novo contato com aquela pessoa, pra me explicar ou me redimir. É interessante como podemos nos cobrar tanto, especialmente diante de algo que ocorreu há tanto tempo. Mas essa cobrança é sinal do quanto foi importante aquela situação. Essa é uma pessoa a quem eu tive bastante estima, mas talvez o passar do tempo já não me permita ser ouvido mais. Uma coisa é escrever um texto em um blog e outra, completamente diferente, é conversar ou dividir uma mensagem coerente com alguém, especialmente se estamos em uma situação um pouco confusa e ansiosa ou com a qual não sabemos lidar bem. É como se ainda estivesse, de certa forma, na situação original daquele beijo pedido e não obtido. Esse andar em círculos, falhando com as pessoas, muitas vezes me colocou em desmotivação e também em mais dificuldade de socialização.

Ideal teria sido que eu pudesse ter tido a melhor reação, desde o primeiro episódio. Não ocorreu. Não posso jamais culpar a outra pessoa pelas impressões obtidas, mas, seria interessante conseguir ser ouvido em algum momento depois. Sou consciente do tempo que já percorreu, mas pra que eu possa me redimir de uma situação, eu precisaria ser ouvido para, então, ser compreendido. Tudo bem se isso significar que a pessoa não vá concordar com minhas explicações ou mesmo que não vá receber minhas tentativas de contato. Eu não pretendo insistir, apenas tentar.

Contudo, fica de exemplo pra todas as diversas situações hipotéticas na vida, de como a interação humana pode ser frágil e complexa. Detalhes, falhas e o próprio tempo, transformam algo promissor em algo potencialmente oposto. Em situações desse tipo onde precisamos explicar nossa conduta, justificar nossa pessoa ou até mesmo nos desculpar por uma falha, o principal elemento na equação teria de ser essa postura de troca, onde um se coloca a tentar se comunicar e o outro a tentar ouvir.

Gostaria de ser ouvido quando digo que estou deprimido, quando digo que estou sem trabalho, quando digo que estou perdido. Gostaria de ser ouvido quando me sinto silenciado ou quando estou tão desacreditado, que perdi a visão do paraíso. Nessa vida, já errei inúmeras vezes, sendo a maioria comigo mesmo. Errei quando achava que eu não seria notado pra um relacionamento ou que se algo positivo e recíproco acontecesse, talvez fosse um engano, já que eu vivia pessimista sobre a vida. Muita coisa boa esteve a meu favor em vários setores e momentos da vida, mas eu perdi muitas das portas abertas, por desacreditar em mim mesmo e nas possibilidades da vida. Eu desconfiava imediatamente de qualquer sinal de que as coisas estivessem boas demais pra mim. Como descrito, eu sequer estava preparado pra tais surpresas. E, acredite, eu me surpreendia mesmo.

Mas o tempo não deixa só marcas, ele também ensina. Aliás, os erros são uma poderosa fonte de aprendizado. Todos os reveses da vida nos mostram onde erramos, como erramos, com quem / o que, porque e em qual intensidade. Temos, então, noção de como proceder melhor da próxima vez. Aprendi, inclusive, que estive certo em também recusar a reaproximação de outras pessoas, por conseguir ouvi-las repetidas vezes e perceber que muitas delas não haviam melhorado ou se arrependido de seus erros. Eu sempre fui muito paciente nesse sentido e, por muito tempo, usei, sistematicamente, um método que apelidei de ‘5 estrelas’. Para cada vez que uma pessoa cometesse um deslize importante, eu tirava uma estrela na classificação dela. Enquanto sobrasse 1 estrela intacta, o relacionamento se mantinha, apesar de eu ficar cada vez mais preparado pra lidar com as possibilidades negativas daquela pessoa. Se a pessoa não conseguisse manter nem mesmo a última estrela, essa pessoa estaria cortada da minha convivência em definitivo. Considero isso um bom modo de ser flexível e dar oportunidade pras pessoas se redimirem. Atualmente não faço uso tão sistemático desse método, mas ainda filtro bastante as pessoas, afinal, relacionamentos não podem ser uma chuva de falhas, principalmente se os erros e/ou danos forem muito grandes.

Rodrigo Meyer

Voltas e recomeços.

Depois de dias sem postar, estou de volta com este texto. Aproveito o contexto pra discutir o próprio tema ‘recomeço’ e deixar algumas reflexões.

Por mais que desejemos uniformidade ou constância no nosso bem-estar, a maioria de nós passará por momentos difíceis e por diversos imprevistos. Mas nem todo imprevisto é ruim em si. A vida costuma se apresentar de forma inconstante, porque as pessoas são inconstantes e a própria Natureza é pouco dominada diante de sua grandeza e complexidade. O mais sensato é nos lapidarmos pra adquirir alguma habilidade de resiliência, como uma árvore que retorna para sua posição original depois de ser envergada pelo vento forte.

Por vezes, não é fácil entender e aceitar as coisas como elas são ou parecem ser. Temos sempre que estar um passo adiante da nossa zona de conforto, pois mesmo quando saímos de uma zona de conforto inicial, expandimos essa zona e a cada vez precisamos dar um novo passo pra não ficarmos acomodados naquilo que conquistamos. Eu tenho sentido que fiz grandes progressos por me colocar sempre em desafios. A vida se torna mais difícil quando queremos algo, porém se desistirmos,  a aparente facilidade disso nos mostra que apenas abdicamos de tentar e que não tentar exige nenhum esforço.

Encarei muitas situações incômodas desde sempre, mas sempre estive observando a realidade e a mim mesmo para poder compreender minhas opções. Quanto mais conhecemos o funcionamento das coisas, mais fácil se torna perceber onde e como podemos contornar os problemas. Alguns veem isso como criatividade. Eu acho que é apenas o curso natural das coisas quando se busca saídas. Existe uma frase que diz que ‘a necessidade é a mãe da invenção’.

Tem chegado a hora de eu me reinventar. Estou em busca de recomeços porque preciso deles. Recomeçar pode ser perturbador, porque somos levados de volta ao zero e temos que construir tudo novamente. Mas, por outro lado, temos conosco a experiência e a sabedoria que adquirimos em nossas outras empreitadas. Cada fase da minha vida eu dediquei esforço concentrado em certas atividades e áreas de estudo e tive a oportunidade de mergulhar em muita prática. Eu adquiri o tal de know-how que é tão importante em qualquer setor da vida.

Hoje, tentando maneiras novas de chegar na estabilidade e bem-estar, começo a olhar ao meu redor e a descobrir quais outras coisas estão ao meu alcance. Que outras ferramentas ou maneiras diferentes de usá-las poderão fazer a diferença pra mim? Fico imaginando as pessoas perseguindo sonhos alheios que não as pertencem e vejo muita gente dedicar esforço, tempo e até dinheiro em contextos que são natimortos. Aquilo que as pessoas descobrem tardiamente tende a ser algo obsoleto, pois tudo hoje em dia é muito passageiro. Vejo as pessoas se inspirando em ideias que já não podem mais prosperar ou que já estão saturadas de gente tentando.

Pensar o novo e estar à frente é sair dessa bolha de imitação das massas. Por mais que alguém esteja fazendo sucesso em algo, não significa que imitá-los será garantia de sucesso pra você também. Algumas pessoas iniciaram suas empreitadas em outros tempos, quando aquilo ainda fazia sentido ou quando aquilo ainda era novo o suficiente pra que houvesse pouca gente fazendo e muita gente interessada na novidade. E, atualmente, em um momento em que isso já atingiu um ápice de possibilidades, o futuro já está em outras coisas.

Você pode arriscar a sorte e tentar fazer mais do mesmo. Mas é muito mais garantido investir naquilo que será a próxima realidade, o próximo boom. Mas, não é tão fácil descobrir em que direção isso está. Não sabemos ao certo como será o futuro e nem como nós conseguiremos ou não nos posicionar nestas novas realidades. Tudo que podemos fazer é estarmos flexíveis, de mente aberta e sempre engajados em fazer cada vez mais coisas, arriscar o incerto, tentar o diferente, se permitir ao novo. Mudar pode nos tirar da zona de conforto, mas também pode ser a nossa única chance de conquistarmos algum outro conforto menos ilusório.

A maioria das pessoas não lida bem com a realidade. Elas não aceitam bem o estado em que estão, mas se esquecem que grande parte dessa realidade, às vezes, é fruto das próprias escolhas dessas pessoas. Quando alguém recusa insistentemente a olhar pra verdade diante do espelho e lapidar-se ao necessário, não há como esperar resultados positivos e grandes elogios adiante. Se nada fazem pra se tornarem melhores, como podem querer que o mundo as veja como melhores? Talvez entre eles, numa confusa troca de ilusões, possam brincar de ídolos versus fãs. Mas, fora dessa alucinação coletiva de mal gosto, a verdade é que valem igualmente pouco e vivem igualmente infelizes, sem vida própria e sem motivo válido. São pouco úteis, embora aparentem ser os mais requisitados.

Tão importante quanto saber recomeçar é aceitar com tranquilidade as situações fora do ideal. Não significa se conformar e nem mesmo idealizar isso, mas sim sentir-se bem, apesar disso. Há possibilidade de bem-estar em situações que acharíamos improváveis. Temos que reavaliar nossos padrões, nossas referências e nos colocar com outros olhos e outros sentidos diante das coisas. Algo parecido com aquele ditado que diz que ‘quando a vida te dá limões, faça uma limonada’.

Para seguir adiante com ou sem recomeços, é preciso entender quem se é, como o mundo funciona e quais seus limites e objetivos reais. Faça uma lista, mesmo que mental, de prioridades e estabeleça quais delas são mutáveis. Às vezes o que achamos ser imprescindível para o bem-estar hoje, pode ser descoberto como inútil ou até mesmo prejudicial.

Se não tivermos olhos sinceros pra dentro de nós mesmos e para a sociedade ao nosso entorno, seremos sempre a marionete manipulada que caminha pro abismo com um sorriso no rosto, acreditando ter sido levada ao ápice. Se você não entende bem porque está subindo, você não está no controle e talvez só esteja sendo erguido para um salto livre no abismo. O mesmo pode ser dito pra quem não sabe porque está caindo. Há uma frase que diz que ‘a realidade é do tamanho da sua mente’.

“Errar é humano, repetir o erro é burrice.”

Rodrigo Meyer