Prosa | Cozinhando o tempo.

A foto que ilustra esse texto é marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Às vezes, em um dia qualquer, de madrugada, vou à cozinha pra preparar alguma coisa. Não há muita diversidade, mas gosto de aproveitar o que está disponível pra misturar. Uma frigideira média, fogo alto, um pouco de óleo e as sobras de macarrão, podem ser um bom começo. Enquanto aquece, vou descascando uma cebola e fatiando pra obter os anéis. Em outra frigideira, as cebolas vão com um pouco de ervilhas. Se o dia permite, coloco um pouco de molho shoyu, apesar da bomba de sódio que isso é. Quando a cebola já está suficientemente mole, misturo com o macarrão e o prato está feito. Nada muito original, tão pouco difícil. Mas, a importância está no ato. Cozinhar é meu momento de me desconectar de todo o resto e pensar apenas naquilo que estou fazendo. É um dos raros momentos onde esqueço que a vida está trincada. Deve ser parecido pra quem pratica dança, faz artesanato ou algum esporte.

Sinto que quando o corpo está trabalhando em algo fácil e muito objetivo, há menos chances da mente sair navegando por outros mares. O trabalho manual traz esse contato com a realidade prática das coisas. Não sei se isso funciona da mesma maneira pra todo mundo. Eu encontrei esse refúgio ao acaso. Tem dias que cozinho de madrugada, mas às vezes me serve no final da tarde ou lá pelas nove da manhã. Depende muito mais do meu estado emocional prévio. Às vezes eu nem estou com fome, mas é bom ter algo pra fazer.

Se fosse apenas pra comer, bastaria uma mistura em temperatura ambiente ou vinda direto da geladeira. Nunca fui fã de comida quente. Tomava bebidas geladas inclusive no inverno e sempre tive muita frustração em queimar a língua quando estava desmoronando de fome, porque minha família tinha o hábito de fazer tudo fervendo de forma que ninguém podia jantar ou almoçar quando queria. Provavelmente isso incentivou que eu me dedicasse à cozinha desde muito cedo. Às vezes acordava de madrugada e ia cozinhar qualquer coisa, pra passar o tempo, ouvir um pouco de rádio ou assistir televisão. Nos últimos anos tenho feito isso novamente, com certa frequência. São momentos pra esquercer quem sou e onde estou, me concentrando apenas nos mecânicos atos de preparar a comida.


Já tentei os mesmos resultados por meio do artesanato, da pintura, da caligrafia e da música, mas nada disso me permitia me desconectar, porque eu me via obrigado a racionalizar diversas questões sobre aqueles processos e resultados. Com a comida me pareceu mais automático e descompromissado. Cozinhar parece ter um componente extra. Talvez seja a atenção ao ponto, ao fogo, o cheiro da comida ou qualquer outra coisa que a comida suscita. Então, eu cozinho e deixo esse espaço ser preenchido pelo estalo na panela, o barulho da faca e o ritual exercido pra que tudo dê certo.

Poucas coisas na vida têm essa simplicidade no ato. São coisas arraigadas na cultura média humana. Cozinhar nos lembra de todos os momentos em que dividimos a cozinha com gente querida ou, simplesmente, curamos a fome depois daquela ressaca de bebida. Comer é um ato universal e o momento em que estamos na cozinha nos conecta com esse lado essencial da vida. Também é assim no sono, no sexo ou quando ouvimos os animais ao redor. Talvez, de maneira similar, cozinhar seja um processo de reconexão com as coisas simples da vida humana, da natureza, da essência do que é viver.

Não sei se é exatamente a mesma coisa, mas percebo semelhanças entre o ato de cozinhar e aquelas cenas bucólicas que descrevemos sempre com um ar de poesia. O cheiro de terra molhada, o céu extremamente estrelado, as mesas rústicas de madeira, cidades simples, zonas rurais, pé no chão e pôr-do-sol entre as montanhas. Quando eu viajava pra lugares assim, eu esquecia do tempo, apenas sentindo cada momento e deixando a vida acontecer. Sem poder viajar, por enquanto, eu cozinho, escrevo meus pensamentos e me consolo com a possibilidade de um amanhã diferente.

É bom saber que estou escrevendo por um viés de esperança. Nem sabia que ainda poderia encontrar isso em mim. Talvez esteja dando certo a terapia na cozinha. Às vezes surge um cansaço ou um dilema e eu deixo passar, vou pra outro assunto, até o tempo trazer novidades. Uma noite de sono, um sonho diferente, às vezes, faz o amanhã ser melhor. Eu estava com muitas certezas sobre meus próximos passos, mas de um dia pro outro, uma conversa tirou minha firmeza. Agora estou ponderando o que me será mais fácil e mais palatável. Quero algo simples como o ato de cozinhar. Esse tem sido o meu modo de decidir as coisas na vida, depois de tantas frustrações.

Já não tenho disposição pra planos mirabolantes. Quero a tranquilidade no pensamento e uma vida simples. E isso não quer dizer uma vida sem aventuras ou emoções. Eu quero que a vida seja intensa, mas, sobretudo, que tenha consistência, espontaneidade, sinceridade e dignidade. Seria mágico se alguém me surpreendesse estendendo a mão e dizendo que tudo ficaria bem, mesmo que tivéssemos que atravessar o mundo escorados um no outro. A idade vai chegando e gera uma certa ansiedade estar à deriva. Sou alguém construindo novas portas nessa velha casa. Por algumas ainda se pode entrar, mas outras foram criadas apenas para sair.

Todo dia eu faço escolhas, tropeço, me escuto de perto, ouço novamente, mas nunca chego num veredito final. Eu sei que estou um tanto perdido, sem certezas de onde vou navegar. Os filmes que assisto me espantam com descrições fieis da realidade, quando mostram dramas psicológicos de pessoas mastigando a vida. Fora dos filmes, nos dizem pra mudarmos o foco da narrativa, prestar mais atenção nas coisas boas, nos momentos engraçados, mas eu ainda sigo cozinhando, tentando remendar meu cristal trincado. Talvez um pouco de silêncio na mente ajude. A vida pode não oferecer respostas, então, teremos que inventá-las, se quisermos ter algo pra acreditar que tudo vai melhorar. Mas eu fui teimoso, eu preferi a crueza da realidade e, nesse estilo de vida, não há doces ilusões que me desviem o olhar das coisas azedas e amargas. Talvez, a solução pra vida seja dançar com a ficção.

Podemos tentar largar as coisas ruins do mundo ou deixá-las mais afastadas do olhar e simplesmente nos concentrarmos em pequenas grandes ações. Quando estou muito destoante desse padrão estritamente positivista, sinto que estou fugindo de alguma coisa. Mas, do que é que eu estou fugindo? Quando eu fujo de tudo e de todos, talvez eu esteja fugindo de mim mesmo. Talvez, essa desconexão que eu sinto enquanto cozinho é a também uma fuga da realidade ou das coisas que não quero mais encarar. O mundo que, atualmente, parece intragável, nunca foi muito diferente do que é hoje. Então, a crise atual é só uma crise de saturação. Pode ser que essa minha angústia e a busca por novos lugares, momentos e sonhos, sinalize que algo dentro de mim está sempre me incomodando, me obrigando a correr pra longe de mim mesmo.

Prevejo que ainda tenho muito pra moer nas salas de terapia e escrever é parte desse processo, onde eu coloco pra fora meus pensamentos e questiono meus medos, inseguranças, defeitos, angústias, frustrações, desejos, objetivos e planos. Colocar tudo na minha frente me obriga a ver, a ler o que estou manifestando. Materializar o interior é extremamente importante. Quando vamos analisar a vida, não podemos nos limitar à textos técnicos ou críticas baseadas simplesmente na política e na História. É preciso tocar a natureza humana que nos habita, fazer reflexões profundas sobre nosso próprio ser e ver quais ferramentas temos à disposição para lidar com aquilo que encontramos. Melhorar a vida vai muito além de aplicar as ciências do lado de fora. Essa revolução interna é lenta, sem garantias e pode se arrastar por toda uma vida. Mesmo assim, tal como as revoluções políticas e sociais do lado de fora, devem ser feitas.

Quero que a vida seja um pouco mais palatável, mais fácil, mais amigável. Quero sentir algum prazer diferente, alguma emoção mais profunda, mais calor e um tempero novo, mas, também, a segurança de um trem que me leve pra casa depois de um dia difícil, uma fotografia que seja boa por muito tempo, um chuveiro quente, uma bebida esperando na geladeira, uma cadeira confortável, um abraço de quem se importe com a minha presença e sinta falta da minha ausência. Assim eu imagino que seja essa boa dança com a vida.

Para que eu me aproxime, novamente, dessas possibilidades, eu preciso continuar a sonhar e lapidar a qualidade do meu jardim. Sem os sonhos, todos nós já teríamos desistido de tudo e nos rendido às situações mais indignas, injustas e covardes. Precisamos enxergar nos nossos sonhos o componente da resistência, aquela fagulha que nos empurra pra frente. É importante ter a iniciativa e ir realizando, independente do tamanho dos nossos atos. Se pudermos ouvir o ritmo da música, precisamos nos manter dançando, criando, mudando. Mesmo com diversas saudades, eu não posso ficar preso no passado, senão meu futuro estará condenado. Para a comida não queimar, é preciso mantê-la em movimento. O corpo parado enferruja, assim como a mente, o coração, a razão, a cultura, a luta e a vida.

Estamos todos um pouco (ou muito) perdidos, tentando não adoecer em nossas próprias histórias. Mas viver do passado é sempre tarde demais. Se não vivermos o momento presente, não teremos nada além desse passado que não volta. Se é verdade que já não temos nada pra perder, vamos levando a vida no nosso ritmo até onde for possível. De repente, descobrimos um pedaço de bolo esquecido no fundo da geladeira ou alguém nos convida pra uma realidade diferente. Por mais que achemos que nada bom vai acontecer, temos que manter abertas as portas da alma, pois trancadas elas não nos oxigenam, não nos pulsa vida e não nos atrai nada. Nosso ser também é uma casa e para manter qualquer casa agradável, temos que varrer o chão, lavar as panelas, fazer outra comida, abrir as janelas, deixar o sol entrar, tomar um banho, mover o corpo e continuar nos expressando. E uma casa só emana vida quando tem alguém habitando.

Quando faço um pouco mais por mim, sinto que estou concretizando objetivos, mesmo que eles não sejam nenhum dos meus planos. São pequenas coisas no dia à dia que tornam nossa vida mais arejada, mais valiosa, mais digna de ser vivida. Se houver tempo, faça um macarrão e uma salada de brócolis, assista um filme desconhecido, cante uma música, escreva um texto, se permita algumas danças. Vista sua melhor roupa, confortável ou elegante e faça seu dia parecer especial e, talvez, ele acabe se tornando mesmo.

A bateria do carro descarregou de vez. Não teve mágica que desse conta. Reclamei por uns segundos, mas não havia o que fazer. Em breve eu dou um jeito, mas, por hoje, fiz meu dia terminar melhor. Ao invés de me render ao desprazer, fui comer algo gostoso, fiz um pouco de exercício e sentei pra escrever esse texto. Assim, me pareceu mais produtivo, fazendo algo simples pra que eu esqueça o problema e me mantenha no controle. Estou pegando o jeito da coisa. Se pensarmos demais nos revezes do nosso dia, a gente se afunda. “Cozinhando o tempo” é como nomeei esse modo de levar a vida. Sigo cozinhando o tempo pra ver o que me rende daqui umas horas, amanhã ou no fim do mês. Assim, nem vejo os dias passarem. Agora pouco era semana passada e, magicamente chegamos no começo de Agosto. Esse é meu plano pra chegar vivo do outro lado do mundo. Se a vida não me der muitos motivos pra sorrir, que, pelo menos, eu continue humano em cada minuto, me encantando, sentindo pequenas alegrias, apreciando piadas, aprendendo, ensinando, dividindo o tempo e suavizando o mundo enquanto for possível manter a mão estendida.

O que transmuta a dor da vida é tratar as pessoas com gentileza, oferecer carinho aos animais, olhar com curiosidade pra uma estrela que brilha diferente, descobrir um jogo novo, dar um livro de presente, olhar nos olhos de um amigo ou companhia, abraçar alguém que se sente invisível, entrar na brincadeira de uma criança, sentir o cheiro de uma planta, dormir debaixo do sol, elogiar a arte que te agrada, investir tempo em respirar corretamente, descobrir novas palavras no dicionário, ter sempre em mente que a diversidade é a melhor parte do mundo, cortar o próprio cabelo sem medo do resultado, passar menos tempo com aquilo que te irrita e dar apelidos aos gatos que encontra pela internet. Enfim, ressignificar a vida é se preencher de momentos pequenos, porém, melhores. É isso que eu tenho pra hoje. É isso que eu tive por muito tempo e ainda é isso que eu ainda gostaria de ter, talvez pra sempre.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | O fracasso nosso de cada dia.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, marcada com livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Me cobro todos os dias pelas coisas que acredito que deveria estar fazendo e, por algum motivo, não faço. Me apercebo das minhas falhas, das minhas procrastinações e até mesmo da inconsistência daquilo que consigo produzir. Essa cobrança me faz reavaliar toda a minha vida. Tento descobrir se tenho salvação, se tenho algum talento, se tenho a força necessária pra fazer algo relevante. Mas, ao mesmo tempo, lembro que muito disso não depende de mim. Sei que há um mundo lá fora, cujo sistema ainda é baseado na escassez de oportunidades. É tudo uma questão matemática. Dizem que os prejuízos na vida ocorrem apenas porque acreditamos neles. Mas isso que algumas pessoas dizem não se encontra com dados da realidade.

Recentemente, vi uma notícia que, embora absurda, não me surpreendeu. Dizia que uma moça sem nenhum talento estava, de antemão, contratada por uma enorme emissora de televisão. E pra compensar tudo isso, estava recebendo investimento da própria emissora para ter aulas de atuação, fonoaudióloga e um curso de inglês. Para pessoas como essa moça, vencer na vida não depende de talento algum. Basta que seja da vontade dos poderosos cheio de dinheiro que ela seja sua próxima atriz e eles farão tudo acontecer. Os desavisados poderiam dizer que isso é algo bom, afinal, a emissora está investido em seus funcionários. Mas não se trata disso, pois nenhum outro desconhecido nesse mundo, se não estivesse adequado aos padrões sociais e aos interesses de uma mídia burguesa, elitista, racista e golpista, encontraria espaço para ser financiado em sua carreira. Quantos outros, já com plena formação e domínio no campo do teatro e da atuação em geral, não esperariam, simplesmente, por uma contratação? Quantas pessoas não passam a vida à margem de qualquer oportunidade, apenas porque não são enxergadas como possibilidade? É disso que se trata.

Eu, obviamente, pelo nascimento, já sou aprovado em diversos padrões que o Brasil e o mundo favorece. Sou um indivíduo branco, homem, que, bem ou mal, tive acesso à escola e universidade, não sou o alvo prioritário da polícia, nem vivo sob limitações que são impostas essencialmente pelo racismo. Em um mundo em que as pessoas são separadas por tais critérios, é preciso se apresentar para anunciar os privilégios como abertura de qualquer crítica social que se segue. A vida segue difícil para quase todos, mas, obviamente, segue sempre pior para quem já acorda rejeitado pela sociedade por suas características primárias. Somos uma sociedade que não deu, não dá e não dará, as mesmas oportunidades para pessoas das favelas ou periferias, das etnias rejeitadas por racismo, dos gêneros e/ou características inferiorizados pela homofobia, transfobia, machismo, entre outros. Até aqui, nenhuma novidade. Mas, como essas questões prévias eu já abordei em diversos outros textos e mídias, quero hoje fazer algo diferente, pra falar da minha própria categoria, das minhas características, meus cenários e minhas perspectivas.

Assim como muitos, tento vencer na vida, ter um trabalho, uma fonte de renda, me manter estável, com as contas em dia, sem dívidas, com acesso ao aprendizado, uma internet que preste, os remédios e tratamentos para recuperar meu corpo e minha mente dos estragos que a sociedade e eu mesmo causamos ou deixamos acontecer. Vivo em um contexto onde, apesar da infância simples, consegui algum progresso ou, pelo menos, uma estagnação um pouco mais firme que me impedisse de cair do patamar pelo qual me acostumei. Tive família, tive casa, tive a oportunidade de estudar e tentar trabalhar com aquilo que eu queria. Mesmo que sem incentivo e com o fracasso de várias dessas coisas, ainda posso dizer que foi bom, pois isso é, muitas vezes, bem mais do que possui a maioria da classe trabalhadora. Reconheço, contudo, que essa condição não é segurança, mas, ao contrário, a maior prova de instabilidade. Essa aparente estabilidade é só um degrau ilusório que coloca pessoas pobres um passo mais perto do poder de consumo. Ainda somos explorados, jamais seremos ricos e ainda somos tão dispensáveis quanto qualquer outro que não seja da elite.

Quando falam em classes sociais, costumam citar o exemplo da pirâmide. Mas, eu gosto muito mais de citar um enorme trapézio com uma minúscula esfera em cima, representando a elite, pois a diferença entre o topo do trapézio e sua base é muito mais sutil, tornando-o mais próximo de um retângulo do que de uma pirâmide. Para quem não é realmente muito rico, considere-se dentro do trapézio, mesmo que nas partes mais elevadas. Lembre-se de que a alternância para patamares abaixo é muito mais provável, dado o ângulo de inclinação que se abre em direção à base. Para sair desse trapézio, no entanto, é praticamente impossível. O acesso só acontece no topo e, mesmo assim, o gargalo é bem estreito, filtrando muito poucas pessoas que possam ocupar a pequena esfera da elite. Se tiver dificuldade de visualizar isso em termos práticos, abra seu navegador e comece a procurar por conteúdos no Youtube. Me diga quantos canais você conhece que tenham mais de 20 milhões de inscritos e que possam se dizer realmente ricos? Quantos canais sequer são recomendados pela plataforma, por não terem nem ao menos a quantidade mínima de visualizações? Isso sem falar em quase metade dos brasileiros que sequer tem acesso à internet. Esse é um dos possíveis exemplos do contraste social que vivemos.

A grande maioria da população está de fora das mídias, das boas escolas, das universidades, da televisão, das notícias, dos investimentos, das superproduções, do reconhecimento, dos convites de casamento, das produções culturais, dos grandes shows, das lives famosas no Youtube ou Instagram. Nossas perspectivas de vidas são escassas e podem até se tornarem nulas. Cedo ou tarde, tropeçamos, perdemos nosso emprego, nossos estudos, nossa ilusão de estabilidade, nossos rumos, nossos amigos, nosso mundo, nossa família, nossos sonhos, nossa saúde, nossa condição mental. Ficamos entregues à solidão, ao álcool, às drogas, às noites mal dormidas, ao cansaço, ao descompasso, às incertezas galopantes que amassam nossas histórias e memórias e nos jogam em qualquer abismo. Não nos é dado nenhuma alternativa. Muitos que hoje vivem na rua, já tiveram outra condição de vida. As pessoas não se atentam, não acreditam, não se importam, mas a vida continua a ser a vida e, se não fizermos o bastante, ela nos engole junto com todos ao nosso redor.

Para os que, como eu, vivem de dizer as realidades de um mundo próprio, de um mundo paralelo, de um mundo que, pra muitos, é alternativo, pode ter certeza de que o caminho será sempre amargo. Não haverão créditos, não haverão sorrisos, não haverão apoios ou qualquer mínimo sinal de compromisso com a nossa realidade. Nos querem distantes o máximo de tempo possível. Nossas manias, nossos medos e dramas, são inconvenientes para qualquer um que esteja por cima, em uma situação minimamente melhor. E é triste ver como pisamos uns nos outros, apesar de estarmos tão próximos. Parece mesmo uma briga por espaço, uma disputa para ver quem alcança a melhor parte do lixo. Somos urubus carniceiros, disputando os restos que a elite cuspiu lá de cima. E disputamos com unhas e dentes, com sangue nos olhos, porque tudo nos é tão insuficiente que, qualquer coisa que nos pareça igual ou um pouco mais, nos parece urgente. Mas, caímos todos, por todos os dias, se apedrejarmos as pessoas pensantes, os dignos, os revoltados, os marginalizados, os destoantes. Há quem prefira vestir uma máscara hipócrita e “lamber as bolas” de qualquer famoso que possa lhe abrir as portas, lhe dar uma nota, lhe recomendar, lhe inserir nos seus meios, lhe fazer sentir que é parte do sucesso, mesmo que tudo isso seja falso, só pra impressionar. Essas pessoas, infelizmente, agem assim, para tentar mostrar aos que ficaram pra trás, que agora elas deram certo, subiram na vida e, se continuam pobres, exploradas e oprimidas, pelo menos agora possuem alguma relativa fama, dentro do nicho do nicho do seu submundo na internet, onde elas possam se dizer importantes, mesmo que elas estejam cercadas de gente falsa que fazem o mesmo que elas, pra se sentirem menos merda na vida.

O ser humano parece ter uma tendência em buscar algum reconhecimento e aceitação do coletivo. Talvez isso seja pare do que nos representa enquanto indivíduos sociais, mas sociedades nada mais são que versões maiores das nossas próprias famílias. Não estou dizendo que o sistema imposto na sociedade reflete necessariamente a realidade de cada família, mas que, o caos que a sociedade manifesta é, em última análise, as mazelas não superadas dentro dos grupos familiares menos favoráveis. Muitos de nós foram criados sem muita estrutura, sem afeto, sem presença, sem educação, afogados em preconceitos que desceram até nós de geração em geração, cheio de vícios, medos, traumas, complexos, fraquezas, abusos, incestos, surtos, drogas, loucuras, constantes crises de sentido, de percepção da realidade, de valores, de ética, de construção da nossa suposta maturidade. Quando passamos dos 20 anos, chegamos tropeçando na fase adulta, tento que colocar a nossa consciência inteira em ordem, rever nossa vida toda, encontrar forças em algo e, com muita sorte e escolhas bem feitas, talvez, poderemos ter a chance de nos vermos numa versão nova, reconstruída, mais viva, mais inteligente, mais tranquila e mais esclarecida.

Se habitarmos a fatia dos vitoriosos, nesse sentido, nos veremos livres dos preconceitos que nos plantaram no passado, de todas as dores que nos causaram e das pragas do nosso inconsciente que bloquearam nossa autoestima. Percebe como teremos muito pra superar, vencer, ter sorte e sobreviver? Só seremos alguém minimamente possível de iniciar uma vida digna quando realmente nos dermos conta de que não estivemos e ainda não estamos nessa condição. Haverá de se fazer uma busca, uma reforma, uma demolição e uma reconstrução do nosso próprio ser. Que desperdício de tempo e de energia, alimentar uma sociedade que nos explode de dentro pra fora e depois de fora pra dentro, pra que depois, alguns poucos entre nós, tenha o necessário pra farejar o caminho da reconstrução do que nunca sequer deveria ter sido destruído. Nossas famílias são granadas ativadas, prontas para explodir a qualquer momento. Todos os segundos dessa longa vida, milhões de pessoas serão deformadas e reduzidas à nada, simplesmente porque alguém igualmente destruído resolveu ter a própria família. Ter filhos em um mundo assim despreparado, só não se torna totalmente inaceitável, porque, apesar de todos os danos que são replicados e potencializados, ainda somos todos vítimas de um mesmo sistema que nos joga pra essa condição e depois se recusam a se compadecer dos efeitos nocivos. Tudo que fazem por essa massa de pessoas é colocá-las umas contra as outras e todas sempre debaixo da mesma elite. Assim nos vigiam, nos controlam, nos tratam como números, nos ofendem, nos inferiorizam, nos estupram, nos batem, nos exterminam.

Eu me vejo saturado das minhas quatro décadas de vida. Olho pro meu passado e, por mais que tudo esteja devidamente mastigado, absorvido, compreendido e, de certa forma, superado, não há em mim nenhuma forma de comodismo, de aceitação ou a ilusão de que eu estou completamente renovado. Não estou sequer feliz, nem me sinto digno. Me sinto fracassado, como todos os outros deveriam se sentir, ao verem que estamos todos aqui apenas rastejando por um dia à mais, sem nenhuma certeza de que teremos vontade de ficar pra, quem sabe um dia, voltar a sorrir. Estamos sim em números absurdos de desistentes, alcoólatras, viciados em remédios e outras drogas, afundados em crimes, desempregados, entregues à depressão ou ao suicídio. Se recusam a falar da realidade, apostando simplesmente nos tais “números oficiais” que, todos nós sabemos, não falam absolutamente nada sobre a realidade debaixo deles. Os “números oficiais” escondem, por exemplo, todas as vítimas de violência doméstica que nunca foram contabilizadas em planilha alguma, simplesmente porque nunca chegaram ao ponto da denúncia ou, quando foram denunciadas, as autoridades, simplesmente, não apareceram. Os “números oficiais” não registram todas as pessoas infectadas ou mortas na pandemia, simplesmente porque, além de não haverem testes em massa, a verdade não convém a quem nos explora dentro e fora das mídias. Os “números oficiais” são igualmente inúteis quando tentam falar de casos de depressão, ansiedade e suicídio, em uma população que sequer tem informação ou atendimento pra isso. São milhões de pessoas que, apesar de não pularem de cima de um prédio, se matam por overdose de drogas, por cirrose alcoólica e diversas outras formas de se abreviar a vida. Os números não mostram pessoas que jamais foram entrevistadas, nunca passaram por médicos ou clínicas psiquiátricas, mas que estão deprimidas todos os dias, andando pelas calçadas, sentadas nos bares, deitadas nas beiras das camas, mudando pra outras cidades e desaparecendo de qualquer presunçosa planilha.

É difícil pra muita gente admitir que nada vai bem. Lhes parece muito mais cômodo, talvez, acreditar que seus pequenos ilusórios sucessos são suficientes para justificar toda a sua vida. Se possuem comida e um teto, já nem precisam mais se lembrar das vezes em que ficaram sem saída, sem trabalho, sem dinheiro, sem companhia, sem risada, sem conversa, sem sexo, sem nenhuma alegria. Se não podem estudar, ao menos, podem se gabar de terem sido exploradas em um subemprego que lhes tirou 10 ou mais anos de suas vidas. Se a família é incompleta, desajustada ou sem espaço para poder chamar de família, ignora-se tudo, chora-se no travesseiro, debaixo do chuveiro, em vídeos temporários no Instagram ou Youtube e fazem de conta de que o mundo ainda é apenas um pouco difícil, com seus altos e baixos, mas nada que uma vida inteira jogada no lixo não possa resolver. E, claro, os “números oficiais” também não vão contabilizar quem leva uma vida inteira pra se “suicidar”, pois morte “natural” ou acidental no final da vida, não conta. Para muita gente, está tudo normal, dentro do possível, algo que, pra mim, soa tão absurdo quanto aquela expressão “o novo normal” que querem nos fazer engolir nessa pandemia mal resolvida.

Para toda a população, exceto as elites, toda a vida é uma grande mágoa, uma enorme ferida não cicatrizada e uma dor que, se não incomoda à todos da mesma forma, é porque em alguns ela já doeu por tanto tempo, que se acostumaram. Para um fumante, sua própria roupa não cheira nada diferente, porque esse cheiro já faz parte do que ele sempre sente. Para o alcoólatra, a resistência do organismo ao álcool o torna mais disposto a beber grandes medidas. Assim é a vida pra muita gente, onde os vícios alteram a percepção de tudo. A realidade dos nossos fracassos, nossas situações, por mais reais e óbvias que sejam, passam por nós como se fossem um pouco de água adicionada numa piscina cheia. Sabemos que ela foi despejada, mas é tanta água anterior, que preferimos ignorar do que tentar separar um pedaço da vida de toda nossa vida. Nossa vida é uma sucessão de fracassos e, talvez, por isso mesmo, é que muita gente prefira não cutucar a estrutura pra tentar remover. Se limparmos todo o lixo da nossa vida, o que é que sobra? Talvez, nossas vidas, assim como esse duradouro sistema de sociedade e a própria humanidade, sejam as colunas centrais que sustentam tudo que somos. Remover o lixo, pode colocar toda construção abaixo. Clarice Lispector dizia algo semelhante. E me parece bastante verdade. Somos completamente frágeis, tentando demonstrar alguma força. Mas, nossos medos e nosso instinto de sobrevivência nos transformam, entre outras coisas, em pessoas mais covardes, mais passivas e mais medíocres, devo dizer.

Esse texto não vai te tornar saudável, rico, conhecido, famoso, estável, feliz, digno, livre, corajoso ou qualquer coisa que te coloque pra cima. Esse texto, infelizmente e provavelmente, vai apenas te fazer ver que, muitos de nós estamos numa densa lama, vivenciando erros, momentos grotescos e fracassados, dramas, doenças, descompassos, desconexões com a realidade, injustiças, guerras, pressões e uma infinidade de contextos desnecessários. Não podemos escolher o que ser, o que fazer, o que ter e onde estar. Tudo que temos é esse enorme trapézio, abarcando toda a população como uma massa amorfa, sem personalidade, sem destino, sem rumo, sem dignidade. Para os que estão na base do trapézio, tudo parece muito pior, porque a ambição de quem não tem nada é ter qualquer coisa. Mas, um dia todos eles descobrem que estão compactados como massa onde o único verdadeiro contraste é entre os exploradores e os explorados. Não acordar pra essa simples questão é incentivar que tudo se perpetue do jeito que está. Eu não aceito isso. Que fiquem pra trás os que não quiserem lutar comigo, mas eu não aceito a continuidade desse mundo sob os termos de até então. Que venham outros dias, outras sociedades, outros mundos, por um milagroso insight na consciência ou pela força pesada da revolução.

Enquanto isso me afogo em uma porção maior de álcool, em noites mal dormidas, em horas intermináveis de tédio, olhando os trabalhos passarem bem longe das minhas mãos, sem saber o que farei no dia seguinte, pra não mais depender da ajuda altruísta de quem quer que seja. Quero apenas recomeçar meus dias, longe daqui, de volta ao meu próprio trabalho, pra eu sentir que ainda sou gente, tenho vida, que não sou apenas um número ou, pior que isso, um invisível que nem chega a ser contabilizado. Quero voltar a ser independente, mas de um outro jeito, onde o esforço que eu faço pelos meus dias, pela minha tranquilidade, pela restauração da minha saúde mental e física, dê resultados. Quero viver em uma sociedade onde eu não seja só mais um amontado numa abstração. Quero ser tratado pelo nome, não pelas aspas de qualquer outro que nunca se deu ao trabalho de conhecer meio porcento da minha vida. Quero falar e ser ouvido, quero escrever ou fotografar e ser visto, quero conversar de igual pra igual e ser entendido, quero aprender algo novo, ser aceito, ter espaço na sociedade, socializar, ser recebido.

Enfim, quero tudo o que, provavelmente, nenhum de nós vai ter, à menos que se renda à um nefasto jogo de farsa e fama, onde os mais fracassados sempre bajulam os de cima, apenas porque gostariam de ser com eles um dia ou de tirarem algum proveito em suas companhias. Isso eu não quero. Meu mundo é infinitamente mais sincero. Pra mim, pessoas são só pessoas, por mais incríveis que sejam os seus talentos e pensamentos. Pessoas encarnam, defecam e morrem, como todas as outras e tudo que eu quero é lidar em pé de igualdade, porque, a princípio, somos todos seres humanos. Na minha concepção de mundo só não tem espaço pra fascistas e outras escórias. De resto, não me importo com a hierarquia ilusória, as disputas de ego ou qualquer realidade vazia.

Não importa o quanto eu grite, ninguém vai me ouvir. Vão apenas julgar, ignorar e seguir os dias como se nada tivesse acontecido. Já ouvi muita gente dizer que preferiram não tentar ajudar, porque não saberiam o que dizer ou fazer. Pois eu digo que se não for só uma mentira pra justificar o fato de que não se importam, é, pelo menos, um enorme erro. Toda participação importa pra quem já está afundado há tanto tempo. Não interessa se você não tem todas as ferramentas pra mudar a vida de uma pessoa, pois isso nunca estará em questão. As pessoas profundamente afundadas querem, apenas, que alguém divida o tempo com sinceridade. Querem, simplesmente, sentirem que ainda fazem parte, que ainda são gente, que podem ser alguma coisa diferente. Então, permita que essas pessoas possam, pelo menos, sonhar. Se você aniquila qualquer mínima possibilidade na mente dessas pessoas, você garante, de todas as formas, que a realidade dessas vidas serão reduzidas à pó. Você não precisa ser um especialista pra se importar por alguém. Basta que seja verdadeiramente humano, que tenha empatia e que se interesse de dividir um pouco mais de dignidade com qualquer outro que esteja anulado nessa vida. Talvez, muitos de vocês também estejam igualmente destruídos e por isso possam preferir não somar dois mundos parecidos, acreditando que isso possa piorar. Mas, um ditado alemão diz que “uma dor dividida é uma dor amenizada.”, similar à um provérbio sueco que diz: “Alegria compartilhada é alegria em dobro. Tristeza compartilhada é tristeza pela metade. “.

Apesar desse texto amargo, pesado e cheio de apontamentos difíceis de engolir, quero que vejam isso como uma cobrança, um desabafo, uma maneira de eu colocar pra fora minhas frustrações e fracassos e meu desprezo pelo sistema miserável dessa e de outras tantas sociedades que me consome a cabeça todos os dias. Quem sabe amanhã ou daqui uns dias, com um pouco mais de álcool ou vontade, eu deixe temas melhores, mais divertidos, mais esperançosos. Mas, cada uma das pessoas desse mundo também precisa fazer sua parte nesse processo e abandonar certos padrões e condutas. É difícil viver em uma sociedade que sempre nos cospe e nos bate, mas nunca querem nos ver melhorar, não nos falam verdades, nem nos fazem pensar. Ficam apenas se venerando por entre as máscaras de fachada, sustentando bolhas de ilusão que não favorecem à ninguém ter duas vírgulas de dignidade, originalidade, verdade, espaço e aceitação. Às vezes as pessoas não mostram quem são de verdade, porque, com a fachada da falsidade, se sentem menos horrendas, mesmo que todos ao redor, cedo ou tarde, percebam a ficção. Sejam de verdade, sejam pessoas espontâneas, sejam pessoas que admitem seus fracassos, suas mazelas, seus medos, seus traumas, suas “pisadas de bola”. Desçam do salto, olhem pro lado, vejam outros humanos igualmente perdidos, estendam a mão, dividam o tempo e sejam decentes sem perder a sinceridade.

Não aguento mais olhar pra esse mar de gente que fez da internet um resumo e um sinônimo de toda a vida, quando não se lembram sequer que, do outro lado da tela, existem milhões de pessoas que possuem outras infinitas realidades pra somar, mas que são rejeitadas por gente preconceituosa e mesquinha que acha que sua bolha é tão seleta e divina como aquela minúscula esfera de elite em cima do trapézio social. Eu quero é mais. Eu não vivo pra brincar de carniça, nem pra perder tempo com gente que só é contra o sistema enquanto está por baixo e, na primeira oportunidade de surfar na crista, vai pisar em todos abaixo, tal como fizeram inúmeros outros dentro e fora da mídia e da política. Mudança não se resume à status social ou progressão financeira. De que adianta ter fama e poder de compra, se a cabeça continua a pensar da mesma maneira? A mudança real deriva de um sentimento, um pensamento sobre um modelo de vida ideal, onde as pessoas não sejam simplesmente números numa equação. Sempre que as sociedades trataram pessoas como números, o resultado foi desastroso, gerando episódios históricos de racismo, xenofobia, fascismo, guerra e extermínio. Em casos extremos, foram exatamente os números que viabilizaram, na segunda guerra mundial, o holocausto e outras situações abjetas. Se, ao contrário desses, quisermos fazer uma mudança legítima e digna, precisamos dar legitimidade e dignidade às pessoas. As mudanças na sociedade serão o que as pessoas forem. Construam pessoas melhores, se quiserem um dia verem sociedades melhores, antes ou depois das revoluções.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Pessoas pelo caminho.

A imagem que ilustra esse texto é composta de diversas fotos fictícias, meramente ilustrativas e todas marcadas como livres para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Mesmo inteiro e, apesar de encontrar grande prazer em estar sozinho, às vezes penso quão bom é, também, dividir o silêncio com alguma companhia, onde a mente se encante de ver alguém que eu goste por perto. Quão bom é sentir um bom perfume, estar perto de alguém que olhe nos meus olhos enquanto me fala ou, simplesmente, sob a luz apagada, deixa que a voz chegue sozinha aos meus ouvidos, me forçando a prestar atenção, ao mesmo tempo em que relaxo quase à ponto de dormir. Incríveis sensações que gosto de relembrar com as pessoas que já estiveram comigo ou, tão bom quanto, com pessoas hipotéticas com as quais nunca me relacionei, mas imagino como poderiam ser. É tudo um jogo de saudades e idealizações. No final das contas, o que quero, sei bem, é alguém pra dividir o peso do mundo. Creio, firmemente, que duas pessoas caminham melhor se, ao longo da vida, tiverem alguém pra se refugiar. Pra mim, pessoas são casas, mesmo que extremamente temporárias. Elas são companhias e espaços de segurança com quem podemos contar pra alguma coisa, em algum sentido. E boas casas são o lugar perfeito pra passar o tempo e descansar, quando tudo o mais lá fora deixa de ser conveniente em algum momento. Podem ser apenas amizades comuns ou amizades coloridas, encontros casuais, romances, namoros, casamentos ou qualquer outra definição de companhia.

Nunca estive à procura de pessoas. Elas sempre apareceram espontaneamente na minha vida. Às vezes, eu facilitava o caminho cedendo logo no início, mas eram sempre elas que vinham me procurar. Não sei bem o que cada uma dessas pessoas viram em mim. Algumas diziam se encantar com o meu cabelo, meu olhar ou meu sorriso. Já me elogiaram pelo meu jeito misterioso, curioso e sensível. Já ouvi muitas possibilidades, mas é tudo demasiado fracionado e pequeno, ao meu ver, pra que alguém use como explicação pelo interesse. Talvez essas pessoas não soubessem descrever a química, a sintonia, a atração pelo perfume e o mais primitivo instinto em busca de satisfação da libido. Ou, talvez, seja um emaranhado psicológico agindo em busca de sinais inconscientes de compatibilidade.

Quando penso nas pessoas que cruzaram o meu caminho, fico ponderando se os eventuais próximos relacionamentos ocorrerão com pessoas similares ou se eu serei surpreendido por um futuro completamente novo. Depois que a gente entende que pessoas, além de diversas, também mudam ao longo dos meses e anos, seria bobagem esperar por realidades que só habitam a minha memória de um passado que, provavelmente, já não verei naqueles que cruzarem o meu caminho hoje ou daqui alguns anos. E, a bem da verdade, eu gosto disso. Todas as pessoas que eu conheci, tinham realidades muito distintas e surgiram em momentos da minha vida que também eram bem diversos. Já conheci pessoas diurnas, noturnas e indiferentes. Conheci pessoas de diversas aparências, diversas profissões e classes sociais. A própria mente dessas pessoas já eram um show à parte. A personalidade de todas as companhias sempre me surpreenderam em uma longa paisagem cheia de detalhes. Assim como pareciam interessantes em uma visão panorâmica, revelavam aspectos que demorei tempo demais pra perceber que estavam embutidos. Em muitos dos casos, foi isso que me fez perceber que, por mais bonito que seja um campo, se ele estiver repleto de minas terrestres, já não vale a pena ficar pra passear. Às vezes, quando descobrimos o risco, já é tarde demais e ficamos destroçados por uma dessas “explosões”. Por isso, aproveite o momento enquanto ele for bom, pois não sabemos quanto tempo vai durar.

Eu conheci pessoas com a sexualidade exagerada, pessoas românticas, frias, ingênuas, práticas, traumatizadas, melosas, tímidas, extrovertidas e também pessoas assexuadas. Conheci pessoas que tinham aversão apenas ao beijo, enquanto outras preferiam somente o beijo e nada mais. Conheci pessoas de pouco estudo e outras muito estudadas, pessoas com baixa autoestima, bem-resolvidas, sensíveis, artistas, dançarinas, musicistas, jornalistas, advogadas, desempregadas ou “donas de casa”. Estiverem por perto pessoas budistas, cristãs, umbandistas, kardecistas, bruxas, telemitas, ateístas e, claro, pessoas completamente indefinidas. Estive com pessoas de idades diversas e de muitos lugares. Com algumas dividi pouquíssimo tempo, por duas ou três noites, enquanto outras estiveram do meu lado por anos. As pessoas surgiram e ficaram por diversos motivos. Algumas queriam o amor que eu não tinha pra dar e outras queriam, explicitamente, apenas o sexo. Outras estavam confusas entre os dois mundos, diferente das que estavam bem decididas, mas muito mal intencionadas, fazendo teatro na esperança de me agradarem com uma fachada de mentira. Fui experimentando um pouco de tudo nessa vida, pra perceber a beleza e o horror que está em tudo, inclusive nas várias faces de uma mesma pessoa.

Haviam pessoas que eu raramente vi almoçarem, as que comiam o mundo sem nunca engordar, as que se ornamentavam ao extremo apenas pra trabalhar, as que saíam quase do mesmo jeito que acordavam, que estavam na vida por um pouco de aventura e as que queriam estabilidade. Estive ao lado de gente firme, centrada, maluca, deprimida, energizada, festiva, calada, prestativa, acomodada, megalomaníaca, sensata, xucra, simplista, viciada, alcoólatra, doente, quase morta, inocente e depravada. Havia gente do rock, do punk, do gótico, do samba, das raves, da música clássica e de outros meios. Passaram por mim pessoas tristes, felizes, desajustadas, grosseiras, desonestas, virgens atrasadas, mães, gêmeas, brancas, indígenas, mestiças, negras, asiáticas, de muitos tons, traços e etnias, com seus cabelos em tranças, dreads, longos, curtos ou raspados, pretos, vermelhos, azuis, verdes, cor-de-rosa, castanhos, loiros, ruivos, mistos e alternados.

Passaram na minha vida, pessoas genuínas, “de plástico”, com filhos, sem pais, trabalhadoras compulsivas, largadas, queridas, desgraçadas, lindas ou não tão bem lapidadas, almas boas ou nem tanto e pessoas que me deixaram confuso. Já pagaram as minhas contas e eu já paguei a conta de várias. Teve gente importante, desconhecida e intermediária, geeks, nerds, gamers, cosplayers, fetichistas, garotas de vida dupla, modelos e pessoas avulsas das quais nunca conheci nada. Houve gente que nunca achei que conheceria e que meus inimigos espumam até hoje por sempre terem desejado conhecer, sem nunca conseguir. A vida traça surpresas. Às vezes correr atrás das pessoas pode ser só uma forma de espantá-las ou de transformá-las num tesouro a ser conquistado por quem, antes, nem podiam notá-las. Relacionamentos tem muito do acaso. As pessoas certas, na hora certa, fazem o dia acontecer. Eu nunca fui de fazer planos. Decido minha vida em cima da hora. Se algo me cativa e merece meu tempo, eu fico pra ver o desfecho. Vi muita gente fazer planos gigantes e cheios de detalhes, mas, repentinamente, nada daquilo sequer havia sido possível e todo plano foi inundado de desnecessidade. Não há porque planejar relacionamentos, pois não controlamos o destino, muito menos as pessoas. As coisas fluem em seu modo particular e nosso único papel é se adaptar ao novo momento.

Se eu fosse tentar adivinhar quem seriam as pessoas possíveis pros meus dias atuais ou pro futuro próximo, eu teria que atropelar toda a razão e apostar numa figura randômica de qualquer lugar do mundo. Digo isso porque sei que não espero por ninguém, não tenho grandes exigências, exceto alguns valores e condições mínimas. Quero alguém que corra pelo lado da justiça social, que seja avessa à preconceitos e que esteja disposta a conhecer outros assuntos. Muita gente vai ler, mas não vai entender. Há quem vá olhar pra tudo isso e preferir acreditar em uma máscara, uma linda fachada ilusória, mas, na prática, não vai ter essa premissa, não vai saber como viver essa realidade de vida. As mesmas palavras, pra pessoas diferentes, suscita tantos significados divergentes que é quase que inútil descrever. Prefiro deixar, como sempre, a vida me surpreender. Que venham as pessoas que tiverem de vir e eu decido se o que elas têm pra oferecer é compatível comigo. E que elas façam o mesmo ao me verem passar. Relacionamentos deveriam se resumir à isso. Se há compatibilidade, reciprocidade, interesse e oportunidade, está feito o cenário pra se tentar uma companhia. E, no mais, ninguém é obrigado a ter uma companhia, nem a desejar uma pra se sentir vivo na vida. Façam dos seus momentos algo profundamente sincero, espontâneo e com o máximo de sentido pra você mesmo. Não fique à espera de agradar os outros só pra se encaixar em uma sociedade ou um relacionamento. Viver é, basicamente, o oposto disso. Se sentirá mais gente quando desfrutar, ao mesmo tempo, do prazer que quiser e da dignidade que precisa.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Vermelho Cocaína.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, sendo parte de uma fotografia marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Quem é que sabe os motivos da vida? Algumas coisas acontecem sem que saibamos como reagir. Às vezes, queremos mudar o rumo das coisas, mas o tempo já passou e as coisas não querem mais serem mudadas. Custamos a entender que isso não é uma perda, pois não perdemos o que nunca tivemos. Você foi um desses episódios em um momento onde eu estava completamente perdido e descrente na minha vida.

Nos conhecemos na faculdade e foi fácil fazer amizade contigo. Estávamos conectados pelo que parecia ser um estilo de vida em comum. Tínhamos uma amizade em comum com quem dividíamos algumas noites de bar. Saíamos em pequenos grupos pra dividir a noite em diversos lugares. Era tudo muito bom, porque as companhias me prendiam a atenção. Dividimos muitas risadas, muitas conversas e muitas outras coisas em festas. Eu me encantava com o seu jeito, seu cabelo curto tingido de vermelho. Quando eu te olhava, a noite se preenchia com essa energia marcante. Quando estávamos no nosso restrito grupo, ninguém de fora era convidado. Construímos isso espontaneamente, sem ninguém ter falado.

Entre cigarros e bebidas, estava claro que, frequentemente, havia cocaína. E foi isso que, em pouco tempo, te deixou mais magra ainda. Te dei um apelido carinhoso por isso, porque, visualmente, você parecia muito frágil, muito pequenina. E foi totalmente verdade o que lhe disse certa vez: você sempre foi muito bonita e continuava, mas eu estava realmente preocupado com a progressão da sua magreza. Eu podia dar a volta em seu braço apenas com a minha mão. Você pode ter perdido o compasso com a sua ‘farinha’, mas eu só queria que você analisasse a situação e, se precisasse de ajuda, podia contar comigo, porque eu realmente queria te ver bem. Não toquei mais no assunto, porque, apesar de tudo, era só você quem deveria saber o que fazer da sua vida.

Se tem uma coisa que me lembro, como se fosse hoje, foram de todos os abraços que nos damos. Você parecia gostar que eu fosse maior que você. Talvez tivesse a sensação de ser totalmente acolhida quando se acomodava confortavelmente naqueles abraços. E quando eu te abraçava, eu podia te possuir inteira. Era realmente muito bom ter você apertada em mim. E eu admito, sem nenhum pudor, que, frequentemente, minha mente ia lá pra Lua e eu te imaginava nua, deitada comigo, cumprindo todo o potencial da química e da sintonia. Você me atraía de muitas maneiras, pela sua voz, o que pensava e dizia, seu semblante, seu cabelo, suas roupas, seu estilo de vida, seu jeito de se sentar e alguma coisa que derivava da sua silhueta e do meu imaginário do que seriam os seus dias. Não foi à toa que nos agrupamos desde os primeiros momentos. E nessas idas e vindas de uma noite e outra, acabou surgindo um incômodo dia que até hoje eu não sei bem como descrever.

Estávamos em uma mesa de bar, junto com mais uma ou duas pessoas. Éramos os mesmos de costume e desde sempre já nos sentíamos livres e confortáveis naquele pequeno grupo. Você estava sentada ao meu lado e, gradualmente, se aproximou sugerindo um beijo. Mas eu, apesar de todos os meus desejos e pensamentos, estava realmente muito perdido na vida. Antecipando tristes possibilidades futuras, eu desviei do seu beijo por achar que, se eu cedesse e, depois de um tempo, você não quisesse mais nada comigo, eu acabaria sofrendo e, provavelmente, ia tentar me afastar de você, pra frear o sentimento. E, imaginando tudo isso, eu realmente não queria fazer nada que pudesse eliminar nossa amizade. Foi estranho, eu reconheço, mas a minha vida naquele tempo estava tão perturbada, que eu estava sistematicamente evitando sentimentos e relacionamentos de casal, enquanto, ao mesmo tempo, estava preservando ao máximo qualquer amizade valiosa que surgia.

A minha reação de recusa te frustrou e te deixou, talvez, insegura. E tudo ficou um pouco mais confuso, porque eu te adorava e aquilo doeu em mim também. Eu te acolhi, te dei um abraço, puxei você pra perto de mim e tentei te reconfortar. Não havia nada de errado contigo. Era apenas eu que viajava em incertezas sobre a vida e recusava tudo, até o que não devia. Eu levei um tempo pra organizar tudo isso na minha mente e foi mais longo do que eu queria que fosse. Mesmo que eu tivesse me explicado à tempo, você, talvez, já não me aceitasse. E por não saber como explicar, eu deixei as coisas se perderem no tempo. Não sei o que a vida poderia ter sido, se tivéssemos reagido diferente. Tudo que eu sei é que, assim como você, eu também tinha uma série de questões nos bastidores. Eu fui te procurar, muito tempo depois, pra tentar me redimir ou, pelo menos, me explicar. Mas, nunca houve sua resposta e ficou implícito que só me restava seguir a vida e me conformar. Botei na minha cabeça que, se você não iria sequer me ler, sua opinião sobre o assunto já estava dada e encerrada.

Recentemente, relembrando tudo isso, me bateu a curiosidade. Fui ver que rumo tomou a sua vida. Grande parte dela, ainda me parece igualmente interessante, mas uma parte me deixou dúvidas. Às vezes é difícil distinguir se os seus interesses em determinados assuntos é seu universo pessoal ou mera necessidade da sua profissão. Como eu não vi nada muito claro que mostrasse qualquer posição diferente de tudo aquilo, eu preferi ignorar e deixar tranquilo o que já estava tranquilo. Não posso negar que você é intrigante e que rouba espaço nas minhas melhores memórias. Por isso, prestei esse texto da forma mais sincera que pude e, caso um dia resolva vir falar comigo, saiba que eu tenho tempo, tenho tranquilidade e quase tudo do meu passado já foi organizado e resolvido. Eu só queria mesmo que as pessoas que marcaram minha vida em pequenos grandes momentos estivessem ainda hoje por perto, pra que pudéssemos nos escutar, nos apoiar, como sempre fazíamos. Se ainda houver compatibilidade, eu serei o primeiro a manter a mão estendida. Mas, se nossos mundos forem inconciliáveis, mudemos de jogo e de jogadores, pra tentarmos ganhar nossas próprias próximas partidas.

Não vou me prolongar muito. Quero só dizer que estou de partida pra fora do país, que as condições estão bem estáveis e que, desde que eu percebi que perdi o que não deveria perder, eu tenho vivido sem nenhum medo ou restrição. Quando a gente perde tudo, não tem mais nada pra perder, então, nada mais nos assusta, nem nos impede de tentar. Eu não faço ideia se o destino ainda me reserva algum momento bom, mas eu vou continuar a fotografar tudo que eu puder e tentar conhecer o maior número de lugares desse mundo. Se alguém se sentir confortável de me acompanhar, é só chegar junto.

Enquanto eu escrevia esse texto, essa música me veio à cabeça: “Bem Que Se Quis”, na voz de Marisa Monte.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | A doçura do silêncio.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição utilizando parte da obra “Le Silence” (O Silêncio) de 1842-1843, uma escultura em gesso pintado do escultor francês Antoine-Augustin Préault (1809–1879), mais conhecido como Auguste Préault, exposta no ‘Baltimore Museum of Art’ cuja reprodução fotográfica é livre. A versão original em mármore se encontra no cemitério Pére Lachais, em Paris (França), adornando o topo da tumba de Jacob Roblès.

Tem algo de muito poético no silêncio. Nessa metrópole agitada é difícil encontrar um momento valioso desses. As pessoas parecem não se importar com o benefício que o silêncio traz ou, talvez, evitem o silêncio por se sentirem incomodadas com a pausa reflexiva que ele obriga. Quando estamos em pleno silêncio, sem ruídos que nos desviem a atenção, somos obrigados a lidar apenas com o que temos dentro de nós mesmos. Temos que olhar pra nosso corpo, pro nosso quarto ou pra linha do horizonte e atribuir algum sentimento ou pensamento sobre aquilo. E isso tudo seria completamente natural, se não tivéssemos criado uma infinidade de ruídos propositais para ocupar nossos olhos, nossos ouvidos e todos os outros sentidos.

As placas de comércio pela rua disputam nossa atenção, junto com o barulho dos carros, a música no rádio, os programas de televisão, a timeline das redes sociais e a conversa vazia entre as pessoas aglomeradas na rua, de noite ou de dia. É tudo uma maneira de nos desviar do silêncio. De forma intencional pelas marcas e personalidades buscando visibilidade ou de forma inconsciente pelo próprio público comum, fugindo daquele momento constrangedor que é ficar em silêncio e ter que preenchê-lo com alguma coisa que não venha de fora. É uma busca por automatismos confortáveis. Com o som do carro no último volume, não há espaço para pensar. A mente se ocupa por completo em tentar manter o carro livre de colisões enquanto tenta processar aquele ruído alto que já não é inteligível de fato, porque precisa não ser pra que funcione ao propósito.

Para uma sociedade que, majoritariamente, não fala outro idioma que não o próprio, é conveniente ouvir músicas em outros idiomas, pois aquilo que não é inteligível não permite que se faça uma análise do conteúdo ou uma reflexão. É praticamente isso que nos entregam todos os dias por meio das repetições quase que aleatórias da televisão aberta ou fechada e de uma esmagadora maioria dos conteúdos de internet. Você já deve ter ouvido a expressão de que a televisão faz companhia. É mais ou menos isso para muitas das pessoas. Elas utilizam esses recursos, traçando algum tipo de relação. É assim que fogem sempre do necessário silêncio. Necessário pra uns, pois pra outros é o mais puro terror. Vejo as pessoas correndo do chamado ‘silêncio ensurdecedor’. É compreensível que sintam esse incômodo, porque desligar tudo e prestar atenção em como as coisas realmente são, pode ser uma visão infernal. A realidade quase nunca é bonita, quando existem muitos monstros não dominados ou completamente desconhecidos dentro da mente das pessoas, das mazelas sociais, os dramas psicológicos, os traumas, medos e inseguranças.

Há um universo de gritos que surgem quando o silêncio é possível. São gritos que fazem muitas pessoas perceberem, por exemplo, que estão sozinhas, que são insuficientes, miseráveis, fracas, doentes, equivocadas, desnecessárias, inconsequentes, violentas, preconceituosas, ignorantes. Gritos que deixam a mente pensar, claramente, que essas pessoas estão perdidas, vivendo de aparências, cercada de amigos falsos, gastando dinheiro com o que não é importante e desperdiçando a vida com ilusões que fizeram elas acreditarem que as fariam se sentirem bem.

Mas, nem sempre o silêncio entrega os mesmos gritos. Isso é tudo questão de tempo, de costume e de lapidação. Para outras tantas pessoas, o silêncio é a oportunidade de aquietarem a mente, de terem de volta o tempo roubado pelos ruídos e, finalmente, produzirem algo novo, escrever um texto, ler um livro, fazer uma pintura, ativar memórias, se colocar diante do espelho e tentar encontrar seus erros e acertos. O silêncio pode nos entregar verdades duras, mas também podem ser a única forma de não negligenciarmos nossas realidades, nossas condutas, pensamentos, etc. Em última análise, só quem pode nos salvar é nós mesmos. Muitas pessoas poderão nos apontar as portas disponíveis, mas somente cada indivíduo é que pode atravessar essas portas para sua própria libertação e transformação.

Quando vamos à um psicólogo, analista, terapeuta ou psiquiatra, eles podem nos colocar questões que parecem simples, mas que carregam uma complexidade enorme quando tentamos atribuir uma resposta por nós mesmos. Não são eles que irão nos dizer as respostas para nossos dilemas, conflitos e medos. Eles estão lá apenas para nos fazer pensar, por uma trilha que pareça fazer algum sentido, dentro da linha de trabalho e conhecimento que eles possuem. A exploração da mente humana é, sobretudo, um trabalho de mastigação da realidade, onde somos obrigados a entrar em contato com nossos sentimentos e pensamentos. E não é exatamente isso que o silêncio nos proporciona? E não é exatamente por isso que esses profissionais da mente nos colocam pra falar enquanto nos ouvem pacientemente? É tudo uma questão de silêncio. Temos que nos ouvir, deixar a nossa voz interior falar, seja na frente de um profissional discreto, em uma sala convenientemente silenciosa ou durante alguma oportunidade no cotidiano, enquanto estamos tomando um banho, deitados na cama, parados em frente à janela, apreciando a madrugada ou viajando pra outro canto.

Infelizmente, muitos de nós não conseguem experimentar esses momentos, simplesmente porque vivem cercados de inevitáveis ruídos alheios. Eu mesmo, moro em um local bastante conturbado, em que qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada, o caos parece estar se renovando. É gente gritando o dia inteiro, carros de som no volume máximo vendendo itens que eu nunca quis comprar ou cuspindo uma música ensurdecedora que faz até os vidros da janela tremerem. É pura idiotice tentando chamar atenção. E se os criticamos depois de ficarmos enlouquecidos por não ter um mísero segundo de paz, corremos ainda o risco de sermos visto como os vilões. Nos roubaram o direito do silêncio, da paz, da reflexão, do sono, da dignidade. Não podemos mais nos conectar com nossas questões internas, sem que sejamos incomodados repetidamente por ruídos desnecessários. Somos reféns da falta de respeito alheia e, por fim, também perdemos a paciência que nos permitiria respeitá-los mais ou, pelo menos, detestá-los menos. Estamos em uma micro batalha diária, tentando simplesmente escalar as paredes pra fora do poço. Mas todos os dias somos jogados de volta ao fundo, simplesmente porque o silêncio assusta muitos e é desejado por poucos.

Em diversos países fora do Brasil, existem leis rígidas de regulamentação do silêncio que, felizmente, são levadas à sério na prática. O famoso ditado popular de que “o direito de um termina onde o do outro começa.” continua válido. As pessoas podem se expressar e serem quem elas quiserem, desde que não impeçam outras pessoas de fazerem o que lhes é de direito. E como é importante o direito ao silêncio. É um princípio que, se não está listado entre os Direitos Humanos, deveria ser incluso entre os primeiros itens. O silêncio não é só um capricho ou uma predileção. Ele é, talvez, a nossa única salvação. É por meio do silêncio que tentamos nos manter nos trilhos, de pé, sem desmoronar, sem nos perder pelos labirintos da vida. É nossa chance de, pelo menos, tentar tudo isso, mesmo que ninguém possa nos dar uma garantia de que vá funcionar. O direito ao silêncio é o direito de olharmos pra dentro de nossas próprias consciências, sentir o tempo, o peso e o valor das coisas. Há muito que se pode mudar no mundo coletivo e pessoal apenas pelo exercício do silêncio. E, talvez, por isso mesmo é que nos privam do silêncio em todo canto, a todo momento. Uma reflexão sincera sobre a vida pode nos fazer perceber quem e o que temos que derrubar ou apoiar. Quando vivemos explorados por uma minoria num mundo injusto, quem nos explora faz questão de que a massa de explorados não se aperceba das correntes que os impedem de conquistar a liberdade.

Lembre-se, contudo, que defender o direito ao silêncio, não significa censurar o barulho. As casas noturnas que vivem de tocar música pela madrugada, continuam a existir. Elas são feitas pra isso, construídas pra que o som alto de dentro não vaze pro lado de fora. Isso se chama respeito. Quando as pessoas podem escolher dançar e se divertir em um desses ambientes sem precisar acordar a vizinhança que quer dormir, o direito de ambos está preservado e todo mundo fica satisfeito. Comece a lembrar de todos os lugares onde o silêncio lhe é negado e você entenderá que nesses lugares não querem que você entre em contato com o sincero pensamento. Posso citar, de memória, as aglomerações ruidosas das pseudo-igrejas evangélicas, que empurram pela goela qualquer coisa que as preencha com um mar de ruídos. Melhor ainda se puder embutir o maior número possível de convenientes falácias que roubem a verdade do indivíduo e os devolva apenas o puro creme do preconceito, do comodismo, do fanatismo e da irracionalidade, até o ponto em que todos aqueles que se dizem cristãos, figuraram como os principais eleitores de um político fascista que, a bem da verdade, se visse Cristo pelas ruas, o mataria na primeiríssima oportunidade.

Por onde mais o silêncio não é entregue? Já tentou assistir um típico debate político na televisão, onde as pessoas mais gritam e se xingam do que apresentam suas propostas? O que é que essas pessoas estão fazendo ali, senão preenchendo o tempo do seu ouvido com o máximo de ruído possível? Vence a disputa no circo quem fala mais alto, quem dá a maior carteirada, quem soca mais forte, quem deixa sua orelha mais quente. Vence também os próprios canais de televisão que puxam sua atenção para algo completamente vazio de sentido, enquanto os verdadeiros problemas do mundo continuam acontecendo, longe das câmeras. Mas isso nenhuma grande mídia quer te mostrar, porque é só o constante ruído que importa. Querem te ver estagnado, mais burro, mais dominado, mais passivo e mais acomodado. Não querem que você se rebele e, se não puderem evitar que você sinta ódio por todas as injustiças da vida, tentarão te dizer que, nada disso justifica você quebrar umas vidraças, botar fogo numa praça, confrontar as quadrilhas fardadas ou derrubar os pseudo-políticos que invadiram teu país, tua sociedade, tua vida, tua casa e tua alma. Bom garoto! Um cão adestrado sempre ganha uns biscoitos, mas continua dormindo do lado de fora da casa.

Pois se não querem se conhecer e se libertar, continuem com o barulho, continuem se anulando dentro do seus próprios mundos. Apaguem suas histórias, suas memórias, suas verdades, suas dúvidas, suas indignações, seus incômodos e suas lembranças de injustiças. Se confortem com o som agudo do estalo do chicote, ecoando dia e noite sobre suas cabeças. Continuem a carregar dois pianos nas costas, rastejem por um prato de comida e sintam-se felizes de serem cuspidos na cara em mais um dia miserável, obedecendo aos mesmos modelos de vida, ditados por quem lucra bilhões sugando a vida da maioria. Façam do jeito que quiserem, mas lembrem-se de que varrer os problemas pra debaixo do tapete não os elimina. Cada dia de acúmulo a montanha de sujeira aumenta, atrai pragas e os contamina. Em algum momento, o entulho gerado será tanto que não haverá força suficiente nos braços pra se livrar de tudo aquilo em tempo. O relógio está correndo e eu só sei de tudo isso porque fiquei na doçura do silêncio por tempo suficiente. Volto pra ela sempre que posso e, se as pessoas do meu bairro colaborarem, volto e fico de forma quase permanente.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Os bastidores da estrela.

As imagens que ilustram esse texto são fictícias e meramente ilustrativas, sendo fotografias marcadas como livres para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Por um bom tempo você foi a minha protegida. Eu nunca cuidei de alguém tanto como cuidei de você. Eu te livrei de apertos e enrascadas, paguei seus custos com advogado e estive presente nos seus trabalhos, seus estudos, seus projetos, suas exposições, seus comércios e até mesmo quando você esteve internada. Até minha casa esteve à disposição, pra quando você precisou de moradia. Eu sempre apoiei os seus sonhos e fiz o que os seus “grandes amigos” podiam e não fizeram. Pouca gente quis te ver vencer; pouca gente te ajudou quando você não tinha mais à quem recorrer. Eu estive lá do seu lado nos dias divertidos e nos momentos conturbados.

Nos divertimos muito rindo, bebendo, andando de um lado pro outro, visitando teatros, dividindo a cama e outros lugares. Choramos juntos, fizemos arte, fizemos parte. Ouvimos o que cada um tinha pra dizer, mas só pela metade. Você não se expressava abertamente comigo sobre tudo do seu mundo, porque seu mundo envolvia outras pessoas com quem você também dormia. Isso nunca foi segredo. Assim como eu sabia, você sabia que eu sabia. Eu nunca me importei, na verdade, porque todos nós estávamos vivendo nessa mesma informalidade. Quem talvez tenha se surpreendido, foi teu ex-marido, que, infelizmente, não soube se manter fiel quando esteve casado. Suas fotos de casamento pareciam um evento divertido, com todo aquele improviso, um tempero de rock e o seu jeito prático. Eu adorava isso em você, mas parecia haver um abismo entre o que eu sentia e o que você estava disposta a oferecer. Jamais vou me esquecer que seu ex-marido te agredia e que, quando separada, um dos seus casos também não era das melhores pessoas. Desculpe a sinceridade, mas, para ele, você era só uma pedaço de carne que ele facilmente comeria.

Eu amava o seu cabelo e ele parecia ser importante pra você também. Quando você não se sentia bem com a vida, se destruía, cortando ele de uma forma que viesse a se arrepender. Mas, tudo bem, de qualquer jeito, você se mantinha linda. Eu enchia os meus olhos com a sua imagem, enquanto adorava os seus bem pretinhos, combinando com seu sorriso inigualável. Tinha doçura e humor no seu jeito de falar. Quando você queria, sempre tratava as pessoas da melhor forma possível. Mas, você nem sempre escolhia bem as companhias. Levou calote da colega com quem dividiu moradia e estava sendo roubada pelas costas naqueles comércios que faziam juntas. Foi você mesma quem descobriu e me contou e, não foi exatamente uma surpresa pra mim. Hoje, olhando pra tudo isso, consigo ver que, talvez, você seja uma versão minha. Nós tivemos o péssimo hábito de hipervalorizar as pessoas que nos usavam e nos destruíam. Por algum motivo estranho, ficávamos hipnotizados contemplando quem não merecia. Hoje eu te entendo, porque eu mesmo fiz muito disso na minha vida.

Mas não me arrependo não, pois quando fiz, estava sincero nas minhas intenções e estive ao lado enquanto achei que devia. Fiz de coração, sem esperar nada em troca. Eu queria te ver sorrir todo dia, tentar eliminar as barreiras da sua vida, apenas pra te ver vencer. Você tinha potencial pra muita coisa. Suas artes, em vários ramos, eram sempre aplaudidas de verdade. O que te faltava não era talento, mas um pouco de transparência ou sinceridade. Você tentou ajudar sua mãe, mas nem ela mesma queria. Ela comentava que gostaria de me conhecer, mas esse dia nunca chegou. Talvez tudo tenha acontecido do único jeito que foi possível. E olhar pra esse passado não nos permite mudar aquilo que já vivemos. No fim das contas, você estava tentando descobrir se seu coração amava alguma pessoa nesse mundo, mas, pelo que percebo, você se deu conta de que estava realmente sozinha. Onde estão todas as pessoas que passaram pela sua vida? Foi triste te ver mastigando a depressão, mas eu fiz mais do que estava ao meu alcance em todos os momentos e quando a reciprocidade falhava em momentos cruciais, eu me lembrava de que não estávamos vivendo a mesma vida.

Eu tomei uma decisão difícil e fria de me forçar a ficar longe de você. Eu queria expurgar toda a dependência, todo o apego, todo o desejo e toda a vontade de estar ou falar com você. Pra ser sincero, levou tempo. Nunca quis tanto cuidar de alguém na vida, mas nossos mundos estavam isolados, não estávamos remando pro mesmo lado e você sempre demonstrou com condutas e palavras de que os sentimentos não correspondiam. Eu não insisto em porta fechada, então fui embora e segui a minha vida. Sei que fez bom uso dos presentes pra começar o novo trabalho que você escolheu. Não torço à favor nem contra, pois assim que você foi embora, deixou de ser a minha protegida. Agora você é só uma memória que me faz escrever, pra ressignificar meu passado, as pessoas, os momentos que eu vivi, pra ver se chego o mais saudável possível do outro lado e facilitar a minha própria vida.

Num imenso acaso, quando eu já nem lembrava que você existia, você brotou numa rede social e a resposta que dei foi a única possível. Eu já havia feito tudo que eu podia. Não sei o que se passa pela sua cabeça, mas a vida não permite ensaios. Quando um cristal se trinca pela primeira vez, ele segue trincado pro resto da vida. Mas, certas coisas a gente não escolhe. O coração sente ou não sente, sem pedir licença ou conselho. A vida, nesse sentido, permanece um mistério. Apesar de tudo, obrigado. Isso não é um pedido de desculpas atrasado. Simplesmente eu sei que tudo que eu passei na minha vida me ensinou uma montanha de coisas e também me permitiu momentos muito intensos. É por tudo isso que eu sou grato.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Perdida na cidade cinza.

A imagem que ilustra esse texto é ficcional e meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Você me perguntava coisas que eu não entendia como poderiam ser dúvidas verdadeiras. Você já tinha seus 28 anos, mas ainda parecia uma eterna menina. Sua realidade me parecia contraditória. Você que já sabia bem o que beber, o que fumar e quais comprimidos tomar depois do banho, não sabia, porém, praticamente nada sobre si mesma, sobre o sexo, sobre como jogar esse jogo do flerte ou que rumo tomar pros seus dias. Parecia um pouco cansada de várias regras sociais, mas, ao mesmo tempo, se forçava a acreditar e dividir tempo com aquilo que você chamava de igreja. Eu, muito distante dessa realidade, ironizava suas contradições e te colocava diversas questões pra você brigar sozinha. Parecia que seus lados contraditórios eram a sua maneira de equilibrar a sua vida. Você, talvez, se sentisse na tendência de viver largada demais e, assim, poderia ser útil um outro lado exagerado que pudesse te desacelerar.

Você praticamente não trabalhava. Sua família estava longe, de vida feita, e você resolveu que vir pra esta cidade seria uma boa aventura. Acho que você esperava muito da cidade, mas não esperava quase nada da sua própria vida. Você se dividia entre o curso de artes, rindo e criticando aqueles velhos alucinados, enquanto abria uma clareira na sala de aula, separando à todos conforme a afinidade. E foi assim que nos conhecemos. Estávamos do mesmo lado. Você gastava o dinheiro alheio, ocupava seu tempo dentro e fora de casa, mas sua vida não parecia ter suficiente veneno. Eu te via como uma menina, mesmo a minha memória me dizendo que eu era muito mais novo que você. Estávamos perdidos juntos, mas eu não sabia quais eram os seus labirintos. Eu fui atrás, como quem fareja novidade, qualquer coisa que me tirasse de casa, me levasse pra outro chão de apartamento.

Assim como eu, você não estava disposta a levar a vida a sério. Perceber isso, me fez acreditar que você seria um bom mistério pra desvendar. Eu gostava da sua companhia, porque bastava pra mim que você me oferecesse uma bebida e me deixasse ficar no seu apartamento pra ficarmos o dia todo desocupados, rindo e conversando. Várias vezes você pagou pela minha comida e eu não tinha muito pra retribuir. Então eu ficava, dividia meu tempo, te ensinava informática e ria das suas loucuras. Era tudo que eu tinha. Você era extremamente ansiosa, não parava um minuto calada e de um segundo pro outro decidia fazer outra coisa. Você era perturbada e nem mesmo toda aquela maconha resolvia. Prensado, sem nenhuma qualidade, de qualquer coisa que não se deveria queimar. Mas, pra você, que acendia compulsivamente cigarros de nicotina, não se importava muito com a qualidade do hábito.

Levou tempo até você aceitar mais do que uns beijos. Eu não era nada recatado, mas você parecia estar esperando por um momento idealizado. Acho que todos nós, algum dia, idealizou um romance ou alguma relação pretendida. A gente sempre espera que nossas primeiras vezes em diversas coisas, sejam de maneira satisfatória. Conseguia entender, de certa forma, a sua “demora”. Mas, pelo tempo passado, parecia que você estava escolhendo minuciosamente seu momento ideal. Talvez você tivesse medo ou não tivesse conhecido ninguém interessante. Eu, certamente, não era o sujeito mais incrível, mas você parecia encantada comigo. Eu realmente nunca pensei que você estivesse apaixonada ou idealizando um romance e quando você quis começar sua vida na cama, você pareceu um tanto perdida, preocupada com uma lista de detalhes, me perguntando, cheia de rodeios, os riscos de cada pequeno contato. Confesso que achei um tanto engraçado, mas isso não era um bom sinal. Logo eu vi que estávamos em universos muito diferentes. Não cabe a mim dizer quando e o que cada um aprende, mas, diante do impulso da situação, aquilo certamente teria que ficar pra outra oportunidade. Havia muita coisa que você ainda precisava entender.

A minha vida estava fluindo em outras realidades e eu acabei, não de propósito, me distanciando. Passaram-se muitos e muitos anos e, de repente, sou surpreendido por uma mensagem sua na internet. Conversamos um pouco, ouvi você falar dos rumos que sua vida tomou e fiquei ainda mais surpreso. Parece que as cosias não melhoraram e você tropeçou em relacionamentos ruins que lhe renderam filho(s) e aborto(s). Foi estranho ver que, apesar de tudo que você viveu, sua mente ainda estava interessada por mim, como se você ainda estivesse habitando aquele passado remoto. Não pude lhe oferecer mais do que a verdade dita, então te deixei ciente de que éramos praticamente desconhecidos naquele momento. Há tantas coisas da minha adolescência que eu não tenho memória alguma, que eram grandes as chances de eu não ter lhe reconhecido depois de tanto tempo distante. E, mais do que isso, não era recíproco o sentimento ou a paixão que você mantinha. Você custou a aceitar mais um ‘não’ da vida e insistiu em me escrever. E quando o respeito acaba, já não há nada de bom pra dividir. Ofereci minha amizade, mas isso não lhe era suficiente. Sei que retornou pra sua cidade, acolhida novamente pelos seus pais. Fico feliz que receberam-se todos entre família, pois onde as pessoas se gostam e se ajudam é lar suficiente pra qualquer situação. Eu fui pra frente, porque pra trás nunca teve lugar pra mim. Até nisso somos diferentes.

Sabe, se algum dia calhar de ler esse texto e, apesar de todo sigilo no relato, conseguir se reconhecer nele, saiba que a vida é muito mais do que o passado que arquitetamos e polimos em nossas mentes. Há um universo lá fora, que, desde sempre, precisou ser melhor explorado. Olhe pra sua história, as situações pelas quais passou e veja a falta que fez não ter experimentado o mundo mais à fundo, com mais liberdade. Talvez isso teria mudado cada um dos episódios que aqui eu relatei. O tempo passa e, se tudo correr bem, temos a chance de ressignificar o passado e dar preferência pro momento presente. Se possui curiosidade sobre o que aconteceu com a minha vida, daquela época em diante, eu te conto. Não é nada muito melhor ou pior, apenas diferente. Eu não tive filhos, me tornei fotógrafo porque, deve ter notado, as aulas da escola não tinham nada a ver comigo. Conheci pessoas que me marcaram positivamente, mas que também me deixaram uma dor quase permanente. Conheci pessoas excelentes que morreram muito cedo e outras que, infelizmente, sobrevivem apesar de numerosos anos pesando no mundo. De fato a vida não é justa e o que algumas pessoas chamam de satisfação é apenas ver pessoas decentes desmoronando em fracassos e doenças. A alegria do medíocre é torcer pra que ninguém os vença, ninguém os supere, ninguém os ultrapasse. Então, pro bem da sua própria razão, se mantenha diferente disso, com aquele espírito divertido de quando nos conhecemos. Mas, mais do que isso, se mantenha questionadora, divergente, “gente como a gente”, simples e complexa, conforme o que realmente importa em cada momento, sempre procurando novos rumos, porque a vida só acaba na hora da derradeira partida.

Eu tive de fazer inúmeras pausas e baldeações até chegar em algum mínimo resultado e, devo dizer, não sou nem uma vírgula de tudo que eu já fui um dia. Eu perdi as pessoas que eu mais gostava e tive que aturar o convívio de quem nunca se importou sequer com a minha vida. Para algumas pessoas somos só um objeto ou um número, porque só quando a gente sente verdadeiro afeto por alguém, nossa vontade é ver essa pessoa livre e feliz. Quem dedica tempo aprisionando pessoas ou empurrando elas para constantes abismos, aprisiona também a si mesmo e se arremessa neles junto. A verdadeira salvação, se é que existe, é dedicarmos nosso tempo pra nós mesmos primeiramente e, se houver condição e disposição, ajudar à quem nos parece digno de nossa ajuda. Não estendo a mão pra todos e faço questão de destacar isso, porque diversas vezes em que as pessoas puderam contar comigo, eu não pude contar com elas em nenhum momento, pra coisa alguma. E se não há reciprocidade, não adianta insistir na porta, que essa porta não abre pra qualquer um.

Rodrigo Meyer – Author

O que é ser interessante?

A imagem que ilustra esse texto é baseada numa fotografia de Roman Koval marcada como livre para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

É comum ouvirmos as pessoas dizerem que tal pessoa é interessante, mas é preciso esclarecer que ser interessante ou desinteressante depende completamente dos critérios pessoais de cada indivíduo. Quando alguém acha uma pessoa interessante, significa simplesmente que essa pessoa tem características que suscitam interesse nesse alguém. É uma conexão entre uma demanda e uma oferta, por assim dizer.

Ser interessante pode ser o jeito com que a pessoa fala, o tipo de visão que a pessoa tem, os hábitos, o estilo de vida ou mesmo a aparência. É impossível listar todas as possibilidades que tornam alguém interessante para cada indivíduo, pois o ser humano é essencialmente diverso. As pessoas podem se interessar por detalhes que nem imaginamos que sejam uma questão para alguém. E mesmo se simplificarmos tudo em grandes clichês, já é suficientemente divergente o que cada pessoa prioriza nas relações com outras pessoas, o que as cativa, os que lhes chama atenção.

Quem ainda utiliza a internet na intenção de encontrar fórmulas milagrosas, respostas fáceis e verdades absolutas, está na contramão do mínimo necessário pra compreender a vida, burlar os problemas que surgem e progredir à caminho dos seus objetivos, sejam eles quais forem. Assim, descrever o que significa ser alguém interessante, nunca passará por aqueles artigos de revista para o público pré-adolescente. Essas fantasias ditadas pra gente inexperiente com a vida, servem apenas pra colocar um cabresto num determinado público e induzir que a realidade seja aquilo que ela, na verdade, nunca foi, não é e nunca será, exceto numa camada superficial, posada, artificial, insatisfeita e feita “pra inglês ver”.

A realidade prática da vida está em se conhecer. Quem não se conhece não tem a oportunidade de descobrir o que é que lhe interessa, o que lhe agrada, o que lhe incomoda, o que lhe suscita curiosidade, ou qualquer outro fator. É natural que em uma fase inicial da vida, sejamos todos inexperientes e estejamos descobrindo bem lentamente quem somos e o que o mundo possui à nossa disposição. A vida é feita de experiências. É preciso provar um pouco da diversidade que existe pelo mundo, pra saber o que cada pessoa, lugar ou contexto, lhe causa. E pra que isso seja realmente eficiente, nunca podemos nos acomodar dentro de bolhas. Já nascemos em uma determinada bolha familiar com modelos predefinidos de socialização, de afeto, de ordem, de liberdade, além das questões de âmbito financeiro, espiritual e as inúmeras nuances de questões psicológicas menores ou maiores que entrelaçam cada uma dessas áreas da vida. Isso sem falar das demais bolhas, dentro do nosso círculo de amigos, os colegas de escola, colegas de trabalho, a nossa classe social, o modelo médio de nossa sociedade e país e toda a conjuntura da época vivida. Quebrar essas bolhas todas, exige ter uma postura de navegação livre entre lugares, pessoas, temas, ideias, ideologias, modos de se experimentar o dia, o trabalho, a família, os relacionamentos todos e a nossa relação interna com nós mesmos.

Me lembro sempre do músico João Gordo, da banda Ratos de Porão comentar o quanto a cabeça dele mudou quando ele e os demais membros da banda tiveram a grata oportunidade de se apresentarem em outros países. Diz ele que conforme foi conhecendo novas culturas e pessoas, a cabeça foi se abrindo pra além daquele espaço inicial de convívio e pensamento que eram as cenas alternativas de São Paulo ou arredores. E é compreensível esse tipo de relato, pois o choque de culturas nos obriga a comparar os dois mundos e ver o que temos e o que não temos, o que sabemos e o que não sabemos, o que nos parece normal ou anormal, enquanto pra outros pode ser bem diferente. Esse tipo de contraste obriga a refletir com mais rapidez sobre a limitação da nossa visão ou do nosso pensamento em relação à alguns temas. Trocar experiências com outras sociedades pode ser um meio brusco de aprender sobre a unidade humana no meio da diversidade, mas nem sempre temos essa oportunidade. Para muita gente a vida é restrita à própria cidade e, às vezes, apenas ao próprio bairro. Então, um modo de aprendizado que serve à todos os tipos de pessoas, independente de quão longe elas possam ir ou onde possam estar, é se permitir observar e ouvir.

Aquele que não consegue olhar pro outro com alguma curiosidade, com atenção e com a mente aberta, pouco ou nada vai absorver do conteúdo dessa pessoa. Olhar para um rótulo, um corpo, uma fachada ou uma camada superficial da personalidade ou da vida de alguém nunca é suficiente pra entender porque as coisas são como são e nem o que existe de bom e de ruim no labirinto que cada pessoa é. Se quiser descobrir quão interessante uma pessoa pode ser, é preciso, obviamente, conhecê-la primeiro. E isso não acontece da noite pro dia. Leva tempo entender o que leva uma pessoa à fumar, à beber, à ler os livros que lê, a morar onde mora, à falar como fala, à escrever sobre os temas que escreve e à desejar os objetivos que deseja. Nada é tão simples quanto ter um dicionário pra definir pessoas, coisas, lugares, ideias, ideologias e condutas. O ser humano é único o suficiente pra requerer anos de convívio até conseguir sentir e ver aquilo que o outro sente e vê. Mas, mesmo que demore, é preciso fazer, é preciso, pelo menos, tentar.

Algumas pessoas podem ter a necessidade de se sentirem interessantes diante dos demais. É compreensível que se queira ser percebido como alguém que valha a pena conhecer, que se queira ser desejado ou querido pelas pessoas, mas é preciso entender que ninguém nunca vai ser interessante pra todas as pessoas. Não existe como agradar à todo mundo e nem mesmo é possível agradar muitas pessoas com o mesmo impacto ou pelos mesmos motivos. Mesmo quando uma persona é lida por uma multidão de pessoas como alguém interessante, isso pode se dar por inúmeros motivos diferentes pra cada um dos indivíduos nessa multidão. Então, não fique tentando encontrar uma maneira ideal de ser pra que consiga agradar o maior número possível de pessoas. Isso é o erro mais primário que se pode cometer na hora de viver em busca da satisfação pessoal. Você se sentirá pleno quando descobrir que pode ser interessante à sua maneira natural, pelas coisas que é ou faz de forma espontânea. Quando alguém te apreciar, a conexão estará traçada sem a necessidade de nenhuma ficção criada, nenhum marketing falso, nenhuma pose ou fachada para enganar. Apenas não prometa ser aquilo que você não é e vá construindo o seu mundo no seu ritmo. Pessoas mudam e quem vive de fachada parece sempre estar preso num padrão, porque só pessoas de verdade evoluem conforme o tempo e a situação.

A pessoa que eu sou hoje, por exemplo, já não é mais a pessoa que eu fui há 15 ou 20 anos atrás e nem a que fui nos últimos 5 anos. De fato, mudei de realidade inúmeras outras vezes, mas as mudanças são tão graduais que se tornam imperceptíveis. Quando comparamos grandes blocos de tempo é que percebemos que o começo da escada é muito distante do topo, enquanto é difícil distinguir os degraus que estão lado a lado. Então, a resposta sobre o que seria ser interessante, habita dentro de cada ser. Mas, claro, ninguém precisa se conformar com a realidade que tem hoje e parar no tempo. Não é porque você já é interessante pra alguma pessoa no mundo que sua missão de vida se encerrou. Seu papel é justamente lapidar à você mesmo, primeiro pra si mesmo e depois, pra sociedade em que você vive, na qual você vai deixar algum legado entre seus amigos, seus professores, seus colegas, seus familiares, suas companhias ou até mesmo alguma marca significativa na História pela sua atuação política, social ou vinda do seu trabalho.

É importante, também, que você se sinta interessante pra você mesmo. Não que deva ficar se contemplando como um narcisista, mas é preciso que se sinta satisfeito com aquilo que pensa, aquilo que faz, o modo de vida que leva, etc. Deve ter orgulho da pessoa que você está sendo ou está construindo. Se você tem orgulho da sua honestidade, das coisas que estuda, dos temas pelos quais você tem curiosidade, entre outras coisas, é sinal de que você está sendo interessante pra você mesmo. Muito provavelmente, você vai encontrar pessoas que se identificam com essas suas realidades e temáticas e o interesse poderá ser mútuo. No entanto, é muito comum, também, que pessoas diferentes tenham interesse umas nas outras, justamente pelo componente desconhecido, pela novidade, pela possibilidade de aprender algo que elas talvez não tenham tido grande contato antes. É assim, por exemplo, quando as pessoas conhecem conteúdos ou pessoas de outros países e ficam interessadas de conhecer mais detalhes. Se relacionar com uma pessoa de um país diferente é uma boa oportunidade de se manter uma pessoa aberta, que caminha e se transforma todo dia. Talvez isso lhe torne interessante pra muito mais pessoas do que simplesmente se resumir em um cenário menor.

Por isso, se tiver oportunidade, assista vídeos de outros lugares, leia livros de autores de outros países, converse com pessoas das quais não tem muito contato, procure novos sites na internet pra não ficar ancorado nas mesmas redes sociais, descubra filmes antigos ou fora dos destaques recomendados nas principais mídias. Vá atrás de conhecer a literatura marginal, os artistas de rua, os autores independentes, os artistas do underground, as ideologias que destoam do seu país, outros sistemas de ensino, outros cursos, outros modos de se comunicar, diferentes traços de desenho, outros idiomas, outras portas, outros prédios. Percorra a cidade atrás de lugares menores, se jogue pra dentro de mais casas, vá conhecer como vivem outras pessoas, o que elas comem, o que fazem pra se divertir, onde elas gostam de dançar, as receitas incomuns de bebidas, outros perfumes, outros modelos de relacionamento, outros sentimentos, outras manias e outras memórias, antes que elas sejam esquecidas.

Um dos motivos pelos quais eu escrevo é pra deixar um registro da minha trajetória, das coisas que eu vi, aprendi, me importei, lapidei ou nunca entendi. Escrevo pra contar para as pessoas do hoje ou de um possível longínquo amanhã, que há muito mais pra se fazer da vida do que apenas deixar ela acontecer. Você precisa ir atrás das coisas, para que as coisas possam se mostrar pra você, pra que você possa arregalar os olhos para as coisas completamente novas e aprender a ser uma pessoa melhor, maior, mais criativa, mais reflexiva, mais curiosa, mais apaixonada pelas possibilidades. É só pra isso que estamos nesse mundo. Não vamos sobreviver, na melhor das hipóteses, mais do que uns 130 anos, sendo a média da expectativa de vida, a metade disso. Então, não perca tempo enxugando gelo ou tentando parecer aquilo que você não é. Não perca tempo dando ouvido pra quem não te respeita e nem sonhe em se desgastar com mazelas que são perfeitamente evitáveis. Apenas viva o seu dia explorando as possibilidades e pense o quanto é bom poder falar sozinho, conversar com os seus próprios pensamentos e rir de suas bobagens, inventar frases, piadas, ideias descabidas, planejar um conteúdo novo, guardar um lembrete para uma conversa que você gostaria de ter com alguém sobre algum assunto específico, descobrir um jeito improvável de fazer um artesanato ou simplesmente abrir um canal de vídeo pra tentar fazer uma receita culinária. Dê vazão pra sua vida ser interessante, seja lá o que ‘interessante’ signifique pra você.

Ser interessante, no final da contas, é se deixar acontecer, ser você, exercitar ao máximo o seu potencial na vida, à tua maneira muito própria, muito característica, sem cair no vício ou no conforto de achar que precisa ser sempre a mesma coisa pro resto da vida. Pessoas mudam e, felizmente, a vida também muda pra gente.

Rodrigo Meyer – Author

Nem tudo é comércio.

A imagem que ilustra esse texto é uma arte feita a partir de uma fotografia que, por sua vez, foi marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Grande parte do mundo enfrenta uma significativa proximidade com a pobreza, ficando em uma busca constante por oportunidades e melhores condições. É natural que as pessoas estejam interessadas em trabalhos e fontes de rendas que sejam uma janela aberta para a solução de suas necessidades. A maioria das sociedades enfrenta uma desigualdade social gigante, o que dificulta o acesso à todo tipo de bens e serviços, incluso o acesso à cultura, ao lazer, a educação, etc. Como resultado disso a internet se tornou, assim que foi possível, num aglomerado de usuários disputando espaços de lucratividade.

Em princípio, imaginarmos a internet como estrutura, pode parecer algo muito positivo, cheio de oportunidades de comunicação onde as pessoas teriam, teoricamente, um mesmo nível de acesso à todas as informações, jogos, notícias, meios de troca de mensagens e tudo o mais que pudesse ser imaginado e adaptado pro formato digital. Se inicialmente éramos apenas leitores de grandes portais de notícias, com o tempo pudemos criar nossos próprios sites. De espectadores de áudio e vídeo nos tornamos criadores desses conteúdos. Era tudo pelo entretenimento. Pagávamos a internet para usufruir desse prazer de nos divertirmos no final do dia.

Mas, se todos nós queríamos passar tempo absorvendo esses conteúdos online, então estava gerada a demanda pra que tudo isso virasse um produto à ser oferecido. Apenas os banners de propagandas já não eram mais suficientes para quem entrava nesse modelo de negócio. As assinaturas de conteúdos especiais ou de acesso à sites pagos vinham se tornando a opção de muita gente ganhar dinheiro com a internet. Mas, para se criar um site dessa complexidade, exigia um grande investimento que o usuário comum não podia fazer. Levou tempo até que as pessoas migrassem da internet discada para o padrão atual. As velocidades foram crescendo de tempos em tempos e isso permitiu fenômenos como, por exemplo, assistir vídeos longos no Youtube ou fazer upload de fotografias em boa qualidade, programas de rádio e muito mais.

Passar tanto tempo assim produzindo e editando todos esses conteúdos se tornou uma atividade desgastante buscando por alguma recompensa. As pessoas podiam ganhar alguma visibilidade, se viralizassem algum conteúdo, mas, claramente, a recompensa financeira se tornou a principal meta, já que esse tipo de atividade era tão trabalhosa quanto qualquer outro trabalho convencional. A princípio as pessoas tentaram se manter por meio do comércio paralelo. Se tinham, por exemplo, um blog ou canal de vídeos, a fonte de renda pra essa criação de conteúdo seria um outro trabalho vinculando a mídia à algum pequeno comércio. Há bons anos que isso já ultrapassou até mesmo os modelos de comércio offline. Hoje em dia, vender na internet é tão natural que o incomum mesmo é o comércio físico pela cidade.

Mas, existe um problema nessa história toda. Assim como na vida offline, não é possível que toda a sociedade se torne comerciante, pois outras funções são necessárias. O que a internet faz é passar a impressão de que qualquer um que tenha acesso à internet tenha a oportunidade de se tornar mais uma pessoa à lucrar com ela. Se antes, na era onde a televisão predominava, as pessoas não costumavam sonhar em participar dos conteúdos da televisão, com a internet elas se sentiram aproximadas, de igual pra igual, com todos os demais criadores de conteúdo, comerciantes, celebridades e afins. Até mesmo a política tomou outros rumos por conta da internet e das redes sociais. Nos imaginamos parte dessa sociedade digital, apenas por termos acesso às plataformas de criação e interação. Mas, será que somos todos criadores?

Quando o Youtube nos mostrou os primeiros famosos a pagarem suas contas estritamente com os lucros obtidos na plataforma, toda a sociedade desejou fazer parte dessa realidade também. Era a promessa aparente de que, se alguém conseguiu, todos poderiam conseguir. Mas, muitos usuários não se aperceberam que, assim como na vida offline, a sociedade é sempre marcada por contrastes. Em especial pelo capitalismo, não existe forma de que, nesse sistema, todas as pessoas alcancem o mesmo sucesso, justamente porque o sucesso de uma minoria é conseguido pelo aproveitamento de uma massa de outras pessoas que estarão lá pra consumir e elevar aquelas minorias, enquanto todo o resto permanece invisível ou com baixíssima visibilidade. A ideia de que há espaço pra todos na internet é um mito. Eu adoraria, de verdade, que isso fosse real. Mas isso é tão inexistente quanto a meritocracia dentro ou fora da internet. Acreditar que basta nos esforçarmos pra alcançar nosso lugar ao sol é desconsiderar todo um sistema que é construído pra funcionar de maneira completamente diferente.

Quem realmente ganha muito dinheiro com a internet são as próprias plataformas que lucram com o conteúdo criado pelo usuário até mesmo quando nem ele mesmo ainda pode lucrar. Plataformas como o Youtube, por exemplo, veiculam anúncios em vídeos de canais que ainda não cumpriram os pré-requisitos para serem monetizados. Além disso, quando finalmente começam a monetizar, grande parte desse dinheiro fica com a própria plataforma, deixando o usuário apenas com uma parte do lucro obtido por seu trabalho. Exatamente como ocorre fora da internet, tudo que produzimos é a base de todo o lucro para as empresas, mas o valor devido aos verdadeiros trabalhadores é infinitamente menor e desproporcional. O trabalhador tudo produz, mas não tem direito pleno aos frutos do próprio trabalho, simplesmente porque uma minoria já muito rica, domina os meios de produção (as plataformas, no caso) e mantém o trabalhador mais próximo de ser um mero usuário sem poder de compra ou decisão, do que um verdadeiro trabalhador que domina os rumos do seu próprio trabalho.

Uma vez ciente de tudo isso, podemos agora refletir sobre a terrível tendência que assola o mundo digital. As pessoas se apercebem dessa miséria e desemprego tanto fora quanto dentro da internet e, muitas vezes, passam anos trabalhando de graça, enriquecendo outras pessoas, na esperança de que um dia elas tenham a sorte ou o milagre de serem amplamente reconhecidas diante do grande público. Embora isso seja sim uma possibilidade, ela não é o padrão, mas a exceção. A maioria das pessoas não chegarão aos mesmos patamares de fama e lucratividade, por mais que elas se esforcem pra isso. Simplesmente a equação não fecha. Não existe como cada uma das mais de 7 Bilhões de pessoas do mundo consumirem, sozinhas, 7 Bilhões de conteúdos diários, semanais ou mensais, para que todas elas recebam os lucros advindo das propagandas visualizadas ou das formas derivadas de comércios dessas mídias. É exatamente por isso que existem muito poucos canais na televisão aberta e muito poucos canais de sucesso na internet. É natural que algumas mídias se tornem icônicas e mais famosas que outras, conforme uma série de contextos. Quem conquistou um espaço de destaque na rede e fez algum dinheiro com isso, teve mais tempo e dinheiro pra investir na própria mídia e a cada vez que se tornava mais famoso com um grande número de espectadores, mais recebia atenção e patrocínio de anunciantes interessados em pegar carona nessa fama.

Um anunciante que pretenda tornar seu produto ou serviço visto e desejado por milhões de pessoas, vai escolher justamente as mídias que já alcançaram essa rara fama e vão se manter sempre em torno dos mesmos nomes, conforme a posição no ranking de público. É pura questão de comércio e lucro entre os grandes. Quanto aos pequenos, aos anônimos e aos invisíveis, é dada a ilusão de que podem tentar. E como tentam. Tentam todo dia. Passam a vida desviando de coisas mais concretas, à espera de uma mudança repentina no futuro. Não quero menosprezar o talento e o esforço de ninguém, mas é matematicamente certo de que não haverá vitória pra todos nesse tipo de sistema. E, o que vejo, infelizmente, é muita gente se apercebendo disso, porém tomando decisões pouco sensatas para desviar desse problema. As pessoa começam produzindo um certo conteúdo e quando descobrem que aquilo não dá os frutos pretendidos, começam a apelar para um comércio desenfreado. Vende-se tudo que possa ser desejado e precificado. Vendem os cliques, os comentários, as oportunidades de parceria numa live, a indicação de um simples link para outro artista, músico ou pintor. É tudo sempre uma relação comercial, nunca uma interação sincera e espontânea.

A internet se tornou completamente artificial. Mediante pagamento, as pessoas dizem o que você quiser ouvir, mostram o que você quiser ver e fingem apoiar aquilo que surgir. Se um livro é horrível, pagando algum dinheiro, pode-se ter alguém falando bem dele. Se sua arte é monótona, anuncie ela em uma mídia especializada e o dinheiro fará a mágica. Tudo está à venda e tudo se torna corrompível. Nada mais é verdadeiro e tudo é um imenso jogo de interesses. Onde tem gente buscando fama, tem gente atendendo essa demanda em troca de dinheiro.

Você sabe, a vida prática nesses contextos é o velho teste do sofá. Alguém oferece o que o outro quer e o caminho pro sucesso fica aberto, independente da capacidade real dos indivíduos. Uma lista interminável de celebridades são puramente um investimento de marketing. Assim como as chamadas boy-bands, inúmeras celebridades não eram de verdade, mas apenas um mero produto criado para render lucro em uma fórmula predefinida. Alguns “músicos” chegaram a ser meramente dublês fotográficos e de palco para canções criadas nos bastidores e encenadas com playback nos clipes e shows. Espero que eu não esteja trazendo nenhuma novidade aqui, ao falar dessas realidades. Na internet, as coisas não são muito diferentes. Você pode acreditar que certos conteúdos são famosos por puro mérito, mas a verdade é que a maioria deles recebe um alto investimento por trás, simplesmente pra torná-los visíveis ao grande público. Seja por interesses políticos ou estritamente comerciais, a fama na internet é muito mais dependente do dinheiro prévio do que da sorte de agradar um público repentinamente.

Já disse, não existe milagre que feche a equação. Não há como conhecermos todos os artistas do mundo, nem se dedicássemos uma vida inteira à consumir conteúdos na internet. Figuras específicas são eleitas, patrocinadas, compradas, moldadas e potencializadas para chegar onde os demais não chegam. Há interesses midiáticos, políticos e financeiros por trás de cada um dos raros milionários da internet. Você pode até admirar o conteúdo que eles fazem ou a pessoa que eles são (ou parecem ser), mas, é exatamente por isso que essas mídias são escolhidas para serem o elo de ligação entre as empresas e o grande público que inclui você. Você pode não se importar com as marcas, com as propagandas ou com os políticos, mas todos eles se importam com o que podem obter de você. De forma consciente ou inconsciente, todo mundo está sendo induzido a pensar algum modelo de pensamento, a ter algum tipo de posicionamento, a comprar um determinado produto e assim por diante.

Quando você pensa em plataforma de vídeos, tenho certeza de que você lembra do Youtube e nunca se questionou porque não existe outra grande opção nesse mundo. Querendo ou não, a marca está consolidada na sua memória e no seu emocional. Você aprende a depender da plataforma e a enxergar a plataforma de um jeito que não faz (e nem pretende) com qualquer outra que não seja a tal. É isso que o investimento faz. Quando o Youtube nasceu, ele não pertencia à Google. Logo o projeto ganhou atenção do público e onde há consumidores, há grandes empresas de olho. A Google comprou o Youtube assim que percebeu o potencial da plataforma e assumiu um bom período de prejuízo, simplesmente porque sabia que o que ela lucraria depois, seria infinitamente mais. E hoje, ela dita quem pode ou não pode lucrar com a criação dos vídeos, simplesmente editando, de tempos em tempos, as regras e diretrizes da plataforma, pra impor cada vez metas maiores de inscritos e tempo de visualização, para garantir que apenas projetos realmente promissores que parecem estar conquistando muitos espectadores, possam se tornar uma mídia em que haja interesse de viabilizar. O lucro nunca chegará aos pequenos, mas somente aos que parecem ter algo grandioso que conecte multidões à marcas e políticos.

Para a maioria de nós que sequer tem qualquer noção sobre o funcionamento dessa intrincada “fórmula mágica” de conquistar o grande público, o que nos resta é tentarmos ser coerentes com nossas próprias ideias e usar a ferramenta pseudo-gratuita da internet para promover mudança de pensamento em outras pessoas, mesmo que seja um trabalho de formiga. A internet não é e não deve ser um espaço de mero comércio. Tem potencial pra ser muito mais que isso, pra quem quiser assumir esse compromisso. Você está aqui, me lendo de graça, em troca de absolutamente nada, simplesmente porque, talvez, se interesse pelo que te digo, pelos assuntos que eu exploro, pelas reflexões que eu faço pra minha própria vida. Estamos aqui, dividindo nosso tempo, sem nenhuma pretensão inicial de que isso seja lucrativo ou moldado pra se adequar à qualquer fórmula mágica de fama, lucro ou algo do tipo. É apenas eu escrevendo o que penso, ciente de que, como milhões de outros usuários, provavelmente, nunca viverei da renda ou fama que esse conteúdo possa, eventualmente, me gerar no futuro.

Posso te dizer com tranquilidade de que eu escrevo por aqui há 3 anos e nunca recebi um único centavo com isso, mas mesmo assim gastei muito dinheiro do próprio bolso pra continuar conectado à internet e com um computador ativo. O mundo de coisas que a gente escreve também é baseada nos livros que compramos, nos filmes pagos que assistimos, nos sites da internet que só visitamos graças ao pagamento do boleto mensal do provedor de internet. Nada disso é de graça. Pagamos muito por tudo isso. Somos, antes de tudo, usuários consumidores e, com alguma sorte (ou um investimento profundo), nos tornaremos criadores de conteúdo. Mas, não temos que ficar à espera disso, porque quem cria expectativas, sempre se frustra quando não acontece o que esperava. O melhor que podemos fazer na internet e em toda a vida, é vivermos o momento com sinceridade, cutucar e ampliar nossa própria personalidade, descobrir um mundo ao nosso redor e evitar que nossa vida se torne um incessante trabalho, principalmente se esse trabalho não lhe for remunerado e você ainda tiver que desembolsar uma grande quantia pra se ver conectado, tentando, esperando e, talvez, não vendo nada disso acontecer.

Apesar de tudo isso que eu escrevi, não significa que não podemos apoiar e compartilhar os conteúdos daqueles que gostamos. Há pessoas incríveis na internet, produzindo informação, cultura e entretenimento, por vezes à troco de nada e outras vezes por meio de financiamento coletivo. Hoje em dia com as ferramentas de pagamento para projetos, diversas mídias e pessoas captam colaborações de seu próprio público, pra que continuem a fazer o que elas fazem. Essa é uma maneira interessante de incentivar e tornar possível ou mais viável que pessoas pequenas, sem muita fama ou completamente invisíveis, possam ser reconhecidas. É muito mais realista que muita gente doe um pequeno valor que não interfere em nada no final do mês, mas que quando somado por todos os que apoiam, geram algo expressivo para a pessoa apoiada. Essa equação sim faz sentido, é possível e totalmente recomendável. Ajude as pessoas e projetos que você gosta. E isso nem precisa ser uma ajuda financeira. O simples fato de você se engajar por uma mídia, comentando, absorvendo, compartilhando e recomendando, às vezes vale muito mais que qualquer quantia. Nem tudo na vida é comércio. Muitas pessoas querem apenas serem ouvidas pra levarem uma mensagem adiante, tentar promover alguma mudança no mundo ou se sentirem mais leves socializando e se entretendo com as possibilidades.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Cartas, saudades e novos substantivos.

Esse texto é ficcional, incluindo os personagens e os acontecimentos. Qualquer semelhança com pessoas e episódios reais é mera coincidência. A imagem que ilustra esse texto é meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Que saudade tenho de escrever cartas pra ela. Trocávamos correspondências como se fosse nossa única opção de contato, apesar da internet. Raramente nos víamos online. Me lembro como era gratificante abrir a caixa de correio e encontrar um envelope com a letra dela. Eu dedicava boa parte dos meus dias contemplando cada aspecto. Depois de retirar com o máximo cuidado a novidade da caixa de correio, levava pro quarto pra olhar mais de perto. Apesar da distância percorrida, o envelope se mantinha perfumado. Era como se eu estivesse conectado diretamente à ela, só de olhar para a carta.

Desde a primeira vez, adotei um padrão de corte na lateral, na intenção de preservar o máximo possível, quando fosse extrair a carta. Era caprichoso, quase que devotado. Adorava fechar os olhos e sentir o presente que eu havia ganhado. Observava o tipo de papel, o desenho das letras, o tom da tinta, os desenhos, a assinatura, os anexos cuidadosamente prensados, quase sempre flores ou folhas secas. Era agradável de ler, mas eu evitava de manusear por muito tempo, pois considerava o meu tesouro pessoal. Logo fui atrás de algumas pastas pra arquivar as folhas individualmente. Se tornou um ritual ou hobby e eu investi tempo e dinheiro nisso.

No final da noite, eu me sentava em uma sala fechada, ligava o rádio bem baixinho e deixava um abajur sobre a mesa. Enquanto ia relendo a carta dela, ia rascunhando a minha. Depois, quando acreditava ter dito tudo, fazia uma versão definitiva com a melhor letra que eu conseguia. Nem de longe eu alcançava a personalidade e a leveza da caligrafia dela, mas eu me cobrava pra ser legível e impor alguma beleza no que eu fazia. Fazia questão de escolher o tom da tinta e fechar o envelope logo em seguida, mesmo que só fosse enviar a carta no dia seguinte. Bons momentos em que estar ansioso era uma coisa positiva. Eu ficava entusiasmado, rindo sozinho e, se pudesse reparar, certamente veria brilho nos meus olhos.

Por muitas e muitas vezes repetimos esse processo de esperar pelo próximo contato, dedicar um tempo escolhendo alguns pequenos detalhes, desenhar palavras e prensar junto uma série de sentimentos e desejos. Ficava cada vez mais intensa a energia enviada e recebida naquelas cartas. Os envelopes quase que falavam sozinhos, tinha luz própria. E enxergar essa conexão tão peculiar com alguém, parecia ser a melhor e única forma de se viver a vida. Se pudéssemos, teríamos antecipado nosso relacionamento desde o primeiro dia.

Vivemos bons momentos, isso é inegável. A saudade que sinto hoje, me faz lembrar de cada um desses detalhes, porque tudo foi realmente muito importante. A saudade é exatamente isso. É saber que perdemos algo de imenso valor que queríamos ter por perto. Não quero especular como seria voltar no tempo e nem divagar sobre porque as coisas acontecem do jeito que acontecem. A vida se inicia, cresce, floresce e, claro, termina. Pessoas morrem, isso é natural. Cedo ou tarde, por um motivo ou outro, as pessoas deixam de nos fazer companhia. Lembrar que as pessoas não são eternas enquanto corpos, nos obriga a olhar pra nossa própria vida. Às vezes eu revisito minhas memórias, tentando me banhar desses momentos bonitos. Mas, se por um lado eles tem esse poder de nos encantar, por outro nos obriga a perceber que não temos mais aquilo. E, às vezes, isso dói, mas também há coisas que perdemos que são puro alívio.

Tenho saudade também pelo estilo de vida. Hoje já não tenho para quem escrever e, mesmo que tivesse, creio que não mais faria. Não é o tipo de interação que faz o devido sentido pra maioria das pessoas. Talvez o momento de escrever cartas já tenha passado e eu me tornei um triste saudosista. Talvez eu queira apenas reviver os sentimentos aos quais isso estava atrelado. Eu realmente não sei dizer. Sei apenas que são outros tempos, outras pessoas e até mesmo eu sou diferente. Me tornei alguém transformado por tudo que vi, vivi e venci, mas, sobretudo, por aquilo que não pude ver, não pude viver, muito menos vencer. Somos a soma de nossos acertos e erros, nossos fracassos e glórias. Se vivemos intensamente, é bem provável que tenhamos mais fracassos do que glórias. A vida não ameniza pra quem quer que seja.

O que faço eu com essa saudade? Onde enterro a minha vontade de escrever cartas? Talvez eu encontre outras formas de trocar tesouros, que não sejam simplesmente cartas manuscritas. Já pensei um bocado nisso e fiquei um tempo listando, de improviso, as coisas que eu gostaria de receber ou presentear, se houvesse alguém realmente digno desse momento. Muita gente não entende o valor das coisas, até que tenha recebido elas de alguém importante. Mesmo que seja um papel amassado, uma fotografia, uma peça de roupa ou um livro, tudo isso vira ouro, se nos causa um específico sorriso. São objetos que não possuem um valor especial em si, mas vindos das mãos certas viram tesouro no mesmo segundo. Foi muito bonito enquanto durou a sensação, mas depois de tantos anos, não havia mais nada que justificasse todas aquelas coisas acumuladas. Me livrei de cada uma delas, transmutando e ressignificando. Fica a saudade, claro, mas isso ainda pode ser discutido.

Quando olho pra esse buraco, sei que ele só existe, porque eu fiz disso algo que me ocupava mais do que devia. Se as coisas começam a pesar e nos impedir de seguir a vida, então é hora de mudarmos o valor que damos ao passado e nos empenhar mais naquilo que ainda temos pra fazer no presente. Não precisamos tentar apagar o que vivemos, pois nunca conseguiremos. Temos simplesmente que perceber que as coisas não são tão importantes como pensamos e que o peso delas na nossa mente, depende exatamente disso. Acho que é essa a resposta que eu preciso pra lidar com aquela saudade. Vou olhar pros meus próximos dias, tentando criar um mundo todo novo, longe daquelas velhas manias, aquelas histórias repetitivas. Tenho muito pra viver, muito pra dizer e, se eu não me sabotar, pode ser que eu vença a próxima partida. Vai depender dos novos hábitos que eu cultivar, das palavras escolhidas, das decisões que faço a cada dia. Eu mesmo dizia pra tanta gente quão importante era cuidar do próprio jardim e, por imenso descuido ou até acaso, eu parei de investir na minha própria vida. Mas, estejam avisados, principalmente eu mesmo, de que amanhã fará sol e eu serei minha própria notícia.

Rodrigo Meyer – Author