Para nos redimir, precisamos ser ouvidos.

Todo ser humano está sujeito a falhas. Às vezes gostaríamos de voltar no tempo pra mudar algumas coisas, como, por exemplo, poder passar mais tempo com certas pessoas, mudar as escolhas de curso, pedir desculpas para alguém ou reaver um trabalho, um cliente, um companheiro de relacionamento, etc. Estes são alguns poucos exemplos da imensidão de possibilidades onde podemos precisar nos redimir em algum momento. Mas, para que possamos nos redimir, as pessoas precisam, necessariamente, nos ouvir.

Muitas das vezes, principalmente se um erro foi grave, a pessoa afetada pode sentir-se tão prejudicada que não deseja nem mesmo mais contato com o autor do dano. É compreensível a situação e faz todo o sentido que uma pessoa se isole de quem lhe causou danos em algum momento. Contudo, pra diversas outras situações, as pessoas parecem agir precipitadamente, tanto quanto aqueles que erraram com ela. É o caso, por exemplo, quando alguém se afasta, antes mesmo de saber os reais motivos de uma determinada ação ou reação de uma pessoa, uma palavra ou uma decisão. Nisso moram muitos problemas.

O modo mais sensato e sadio de se lidar com qualquer situação, seja ela positiva ou negativa, é se colocar a entender a situação, antes mesmo de disferir qualquer emoção ou decisão exacerbada ou definitiva. Coloque-se a ouvir as pessoas sobre o que elas fazem, pensam, são. Entenda os motivos de cada pessoa e entenda, sobretudo, os contextos por trás de cada situação. As pessoas são, normalmente, muito mais complexas do que os estereótipos que as mídias e nossa mente possam retratar em um primeiro momento. Não se pode achar que nossa visão seja sempre suficiente pra entender todas as pessoas, mesmo que você já tenha conhecido centenas de pessoas aparentemente similares ao que você crê que seja a próxima julgada. Por isso, se quiser ser surpreendido e também surpreender, faça o que pouca gente faz: dê ouvidos para quem tenta se redimir.

Lembro de exemplos pra citar que vivenciei na época da faculdade. Tinha uma boa amizade com uma determinada pessoa de um pequeno círculo de convívio. Dividíamos muitas coisas em comum, especialmente o modo de ver a vida, a personalidade, os aspectos culturais e até, talvez, um interesse recíproco. Iniciamos pela amizade e foi isso que desenvolvemos até ali, ao meu ver. Mas, em determinado momento, fui surpreendido por uma situação que, na época, não soube lidar da melhor maneira. Essa pessoa, a quem só tinha coisas boas pra descrever, mostrou-se interessada por um beijo, talvez um relacionamento. Embora eu quisesse, minha primeira reação foi recusar, tamanha era a sinceridade e o modo automático com que eu lidava com aquela amizade. E nisso, moram diversas necessidades de explicações.

Primeiramente, o fato de eu ter recusado um beijo, não significa que não quisesse nada com aquela pessoa. Significou, pra mim, apenas que fui surpreendido por algo além da amizade e que isso me deixou sem a habilidade necessária pra fazer a melhor reação ou dar a melhor resposta. Em segundo lugar, não significa que eu pense que amizades não podem gerar relacionamentos. Na verdade eu penso exatamente o oposto. Pra mim, bons relacionamentos devem vir exatamente de boas amizades, pois se a companheira não for uma boa amiga, esse relacionamento já é pouco valioso e interessante. Meu sonho de vida sempre foi encontrar alguém com quem eu pudesse dividir uma boa amizade a ponto disso se transformar em um relacionamento de casal. Mas, por incrível que pareça, quando isso finalmente ocorreu, eu não lidei da maneira que deveria.

Algumas pessoas, assim como eu neste exemplo dado, podem ter reações estranhas ou improváveis, apesar de suas vontades ou ideais. Naquela situação, por exemplo, tudo que soube fazer pra contornar a surpresa foi dizer que prezava a amizade da pessoa, como justificativa pelo meu recuo. Foi uma situação desconfortável e, infelizmente, claro, a pessoa se sentiu rejeitada e também desconfortável com a situação. Neste momento, o mais sensato seria ter acolhido a pessoa, mas me vi tão sem jeito pela situação que, recuei ainda mais, talvez um pouco envergonhado e sem jeito para lidar com tudo aquilo acontecendo em tão pouco tempo. Por fim, esse episódio acabou gerando um certo distanciamento gradativo até que, com o fim da faculdade e a redução da interação, inclusive pela internet, me vi falho demais para dividir a realidade com diversas pessoas do meu passado e presente. A socialização estava difícil, pois eu estava enfrentando outras questões pessoais na época, inclusive crises de depressão.

Há algum tempo atrás, depois de ter me reerguido um pouco, consegui me por novamente em um cenário pessoal aceitável, onde eu conseguia engolir meus erros do passado e me aceitar, tentando um novo contato com aquela pessoa, pra me explicar ou me redimir. É interessante como podemos nos cobrar tanto, especialmente diante de algo que ocorreu há tanto tempo. Mas essa cobrança é sinal do quanto foi importante aquela situação. Essa é uma pessoa a quem eu tive bastante estima, mas talvez o passar do tempo já não me permita ser ouvido mais. Uma coisa é escrever um texto em um blog e outra, completamente diferente, é conversar ou dividir uma mensagem coerente com alguém, especialmente se estamos em uma situação um pouco confusa e ansiosa ou com a qual não sabemos lidar bem. É como se ainda estivesse, de certa forma, na situação original daquele beijo pedido e não obtido. Esse andar em círculos, falhando com as pessoas, muitas vezes me colocou em desmotivação e também em mais dificuldade de socialização.

Ideal teria sido que eu pudesse ter tido a melhor reação, desde o primeiro episódio. Não ocorreu. Não posso jamais culpar a outra pessoa pelas impressões obtidas, mas, seria interessante conseguir ser ouvido em algum momento depois. Sou consciente do tempo que já percorreu, mas pra que eu possa me redimir de uma situação, eu precisaria ser ouvido para, então, ser compreendido. Tudo bem se isso significar que a pessoa não vá concordar com minhas explicações ou mesmo que não vá receber minhas tentativas de contato. Eu não pretendo insistir, apenas tentar.

Contudo, fica de exemplo pra todas as diversas situações hipotéticas na vida, de como a interação humana pode ser frágil e complexa. Detalhes, falhas e o próprio tempo, transformam algo promissor em algo potencialmente oposto. Em situações desse tipo onde precisamos explicar nossa conduta, justificar nossa pessoa ou até mesmo nos desculpar por uma falha, o principal elemento na equação teria de ser essa postura de troca, onde um se coloca a tentar se comunicar e o outro a tentar ouvir.

Gostaria de ser ouvido quando digo que estou deprimido, quando digo que estou sem trabalho, quando digo que estou perdido. Gostaria de ser ouvido quando me sinto silenciado ou quando estou tão desacreditado, que perdi a visão do paraíso. Nessa vida, já errei inúmeras vezes, sendo a maioria comigo mesmo. Errei quando achava que eu não seria notado pra um relacionamento ou que se algo positivo e recíproco acontecesse, talvez fosse um engano, já que eu vivia pessimista sobre a vida. Muita coisa boa esteve a meu favor em vários setores e momentos da vida, mas eu perdi muitas das portas abertas, por desacreditar em mim mesmo e nas possibilidades da vida. Eu desconfiava imediatamente de qualquer sinal de que as coisas estivessem boas demais pra mim. Como descrito, eu sequer estava preparado pra tais surpresas. E, acredite, eu me surpreendia mesmo.

Mas o tempo não deixa só marcas, ele também ensina. Aliás, os erros são uma poderosa fonte de aprendizado. Todos os reveses da vida nos mostram onde erramos, como erramos, com quem / o que, porque e em qual intensidade. Temos, então, noção de como proceder melhor da próxima vez. Aprendi, inclusive, que estive certo em também recusar a reaproximação de outras pessoas, por conseguir ouvi-las repetidas vezes e perceber que muitas delas não haviam melhorado ou se arrependido de seus erros. Eu sempre fui muito paciente nesse sentido e, por muito tempo, usei, sistematicamente, um método que apelidei de ‘5 estrelas’. Para cada vez que uma pessoa cometesse um deslize importante, eu tirava uma estrela na classificação dela. Enquanto sobrasse 1 estrela intacta, o relacionamento se mantinha, apesar de eu ficar cada vez mais preparado pra lidar com as possibilidades negativas daquela pessoa. Se a pessoa não conseguisse manter nem mesmo a última estrela, essa pessoa estaria cortada da minha convivência em definitivo. Considero isso um bom modo de ser flexível e dar oportunidade pras pessoas se redimirem. Atualmente não faço uso tão sistemático desse método, mas ainda filtro bastante as pessoas, afinal, relacionamentos não podem ser uma chuva de falhas, principalmente se os erros e/ou danos forem muito grandes.

Rodrigo Meyer

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É melhor ter saudade do que remorso.

Lembrar do passado é algo recorrente e, por isso, é melhor que sejam boas lembranças. Quando temos saudade é porque queremos voltar a ter bons momentos como os que passaram. Embora seja incômoda a saudade, é melhor do que lembrar do passado e ter arrependimentos e remorsos. Ninguém gosta de lembrar de momentos ruins.

Crescemos cercados de momentos bons e ruins, mas tendemos a lembrar mais das coisas ruins. Essa tendência pode mudar se quisermos. É claro que tudo nos deixa marcas, mas precisamos dedicar nosso tempo em relembrar quantas coisas boas tivemos.

Frequentemente estou relembrando momentos que tive com pessoas que já não fazem mais parte do meu convívio e isso me permite reviver esses momentos como se estivessem acontecendo agora. Reconto piadas, diálogos, revejo imagens, experimento novamente a personalidade das pessoas, os lugares. Tudo isso me preenche, porque foram coisas que me preencheram no passado quando ocorreram pela primeira vez.

Estou sempre reciclando os momentos e vivendo um pouco mais. As coisas boas vão transbordando pela repetição e isso me permite ficar de pé, ficar bem, rir, me sentir grato, entre outras coisas. Ao mesmo tempo, isso deixa menos espaço pra lembranças ruins e minha memória não passeia tanto pelas dores do passado, deixando meu presente mais leve, mais fácil de ser vivido. Acredito que, por isso, evito novas dores também.

O mundo está longe de ser algo agradável, mas algumas pessoas e alguns momentos fazem valer a pena estar por aqui. Precisamos nos cercar dessas pessoas e nos fortalecer de dentro pra fora. Precisamos sorrir mais, abraçar mais, viver mais. E quando chegar a hora de enfrentarmos a realidade dura, estaremos mais dispostos, mais fortes, mais flexíveis, mais pacientes, mais sensatos, mais presentes.

As pessoas quase sempre se esquecem que pra se lutar pelas causas do mundo é preciso, antes de tudo, não abandonar as pessoas pelo caminho. Isso não significa que devemos estar sempre com tudo e com todos. Devemos sempre filtrar as companhias pela qualidade ofertada. Queira distância de pessoas tóxicas e que não acrescentam nada pro seu bem-estar e crescimento. Com as pessoas certas e nos lugares certos, você fará coisas incríveis e se sentirá igualmente incrível.

Há uma frase de Freud que diz:

“Antes de se autodiagnosticar com depressão, verifique se você não está apenas cercado de idiotas.”

E essa é a verdade que precisa ser dita e praticada. Muitos de nós nos sentimos derrotados, cansados e deslocados. Por vezes esses sentimentos e impressões são fruto de companhias ruins que nos degradam, nos cansam, nos inferiorizam, nos intoxicam, nos pressionam e nada acrescentam pro nosso sucesso pessoal ou de qualquer outro tipo. Fique atento e cobre do mundo que ele mude ou você o abandonará. É preciso dizer para as pessoas ruins que se elas não melhorarem, ficarão sozinhas, serão ignoradas.

Tenho inúmeros exemplos pra dar e sei, infelizmente, que nem perdendo o convívio as pessoas mudam. A verdade é que as pessoas só fazem aquilo que querem fazer e só mudam quando estão interessadas e prontas para mudar. A maioria da humanidade não está e não estará tão cedo. Por isso, os que fogem dessas pessoas tortas é que acabam em minoria, evitando o desprazer da companhia dessas outras pessoas. É triste, mas é a realidade. Bom seria se todos se ajudassem e se concentrassem numa melhora sincera de si mesmos. O mundo inteiro seria mais unido e feliz, todos estariam mais satisfeitos com si mesmos e com os outros. Todos sairiam ganhando.

Quer viver bem? Melhore, mude, faça a diferença, preste. Quer sentir incômodo todo dia e ser um incômodo também para os outros? Então é só continuar na contramão do necessário, regredindo, ignorando os próprios problemas e passando reto em toda oportunidade de se transformar, de refletir e de experimentar coisas melhores.

Rodrigo Meyer