Quem é que avalia a genialidade de um gênio?

A imagem que ilustra esse texto, retrata Albert Einstein em seu escritório na Universidade de Berlim.

Quando olhamos os acontecimentos do passado, vez ou outra nos deparamos com figuras que foram classificadas, em algum momento, como gênios. Às vezes cientistas, filósofos, escritores, diretores de cinema, políticos, artistas, etc. A princípio, parece natural que alguém se destaque em determinado setor e seja apontado como um nome importante, uma personalidade de grande conhecimento, sabedoria ou estratégia naquilo que faz ou propõem. Ideias inovadoras surgiram derivadas da iniciativa destes que foram apontados em destaque como inteligentes, vanguardistas, líderes ou gênios. Mas, fica a a pergunta: quem é que avalia a genialidade de um gênio? Pressupondo que o gênio esteja acima da média das pessoas, sua genialidade só poderia ser compreendida por alguém de igual ou superior condição. E se fosse feito por alguém de superior condição, deixaria de enxergar, talvez, como gênios os que estão abaixo de seu patamar. Pensando estritamente na questão da hierarquia simples dos graus, um gênio está sempre acima dos que estão abaixo e, portanto, não cabe aos que estão abaixo medir ou compreender sua genialidade.

Que é certo que existem pessoas diferentes no mudo, isso não há de se negar, mesmo que quisessem. É verdade, também, que muitos dos que foram apontados como especiais em qualidades ou setores, de fato figuram como alguém que detém características e ações acima da média, fora do convencional. Portanto, se isso não muda, então há de haver mudança no modo como interpretamos a constatação da genialidade e da chamada “média da sociedade”. É o momento onde deve-se levar em conta que, entre as pessoas medianas, ou seja, entre as pessoas que detém pouca ou nenhuma variação se comparadas com a maioria de uma população, o parâmetro de classificação são elas próprias. Isso significa que uma pessoa mediana é apta a reconhecer outra pessoa mediana e fazer constatações sobre a similaridade entre estas. E, embora não sejam os alegados ‘gênios’, conseguem, por contraste, diferenciar uma pessoa mediana de um gênio, por conta de não conseguir enquadrar os ‘gênios’ no grupo das pessoas medianas. Em resumo, o simples fato de uma pessoa não se enquadrar no padrão mediano esperado, pode render à ela o título de gênio. E, claro, os gênios não são tidos como abaixo da média, pelo simples fato de que as pessoas medianas, por sua vez, já conseguiram compreender e classificar, a grosso modo, as pessoas que estão abaixo da média / abaixo delas.

Até aqui, pensamentos simples foram dispostos, dados óbvios ou quase óbvios foram esmiuçados a fim de deixar registrado o embasamento para o que desenvolverei a seguir.

Numericamente, a população mundial é sempre tida como mediana, mesmo que ao longo da evolução e história tenham desenvolvido habilidades, conhecimentos e tecnologias. Conforme a humanidade sobe de patamar em conjunto, a média humana também sobe. Bastaria citar que a capacidade do homem pré-histórico, deduz-se, era menor do que a do homem moderno, deixando claro que houve uma progressão coletiva. Assim como as pessoas medianas evoluem, os gênios também, seja pelo progresso individual, seja pela melhoria na capacidade de reconhecimento, aceitação e inclusão das figuras ‘geniais’ em destaque no coletivo mediano. De certa forma, o “gênio” só aparece quando as massas medianas estão minimamente prontas a notá-los e reconhecê-los. Quando digo isso, não significa que os “gênios” deixam de existir se não forem notados, mas que passam a figurar publicamente em destaque dotados do título de genialidade concedido quando há esse suporte das pessoas ditas ‘comuns’.

Há uma frase que diz “para os micróbios, o corpo humano é o Universo”. Muitos de nós, inclusive, nos sentimos particularmente assim, quando olhamos pra imensidão de estrelas, enquanto estamos presos em um planeta do qual não podemos sequer vê-lo por completo, sem ter que agrupar registros e lembranças ao longo de uma extensa e lenta caminhada por todos os cantos geográficos. Na questão da intelectualidade (ou da ‘genialidade’ se preferir), seguimos admirando qualquer coisa que nos pareça maior, porém somente até o ponto em que conseguimos compreender. Ou seja, para um leigo em astronomia, a Lua e o céu estrelado visível é a totalidade do Universo concebido, da mesma forma que a inteligência humana é vista até os limites da observação simples pelas pessoas de inteligência mediana. Ironicamente, a inteligência artificial tem mais chances de potencializar a si mesma do que o próprio ser humano que a criou. Fica a dúvida se isso é mérito da genialidade de quem desenvolveu a inteligência artificial na informática ou se é um acaso da própria Matemática fazendo o que nasceu pra fazer: formar potencial em si mesma de forma infinita, aguardando apenas a compreensão dos humanos.

Para a Matemática, os humanos são derivados e inferiores. Não somos infinitos em potencial e nem temos a precisão nata dela. Somos parte do que ela faz e do que ela é, mas temos pouco conhecimento e controle sobre ela. Precisamos, rapidamente, terceirizar nossas funções cerebrais pra que máquinas, robôs e computadores façam a difícil tarefa de tentar abraçar a imensidão de dados e complexidade das variáveis que dão realidade para a realidade. Em última análise, o Universo é simplesmente a manifestação completa, infinita e precisa de si mesmo, sendo, pelo menos até o momento, demasiado para a compreensão racional do parco ser humano. Nos limitamos, portanto, a contemplar o Universo não pelo que conhecemos dele, mas justamente pelo fato de que não é possível conhecer por completo o que é infinito. Tudo que se pode dizer do infinito é que ele é mais do que se pode compreender, por mais que se compreenda um tanto a mais a cada dia. O infinito é inatingível. Por outro lado, fora dessa poesia filosófica da cosmologia, nos limitando a falar superficialmente da realidade do ser humano e das nossas consciências enquanto cérebros formados e alimentados por conhecimentos, genética e químicas, tudo que sabemos sobre a genialidade humana é que ela é, a princípio, infinita em potencial, porém sem nos deixar ver quão longe ela pode chegar.

De forma divertida e mesmo assim, aparentemente, bem realista, Albert Einstein dizia:

“Só existem duas coisas infinitas: o universo e a ignorância humana. Mas eu não estou bem certo da primeira.”

Einstein, geralmente visto e classificado com um gênio na humanidade, em seu provável posto de visão, nota as falhas da humanidade e, mais do que isso, brinca com a ideia de que a ignorância humana é tanta que alcança a infinitude, mas que, por outro lado, nem o próprio Universo, a que se supõem ser necessariamente infinito, recebe de Einstein o título de infinito com todas as certezas, uma vez que o cientista reconhece a limitação dele em relação a infinitude do Universo, não podendo, portanto notá-la ou comprová-la, provavelmente pelo simples fato de que o infinito não é mensurável, uma vez que não tem limites a serem auferidos em definitivo. Essa simples afirmação de Einstein, nos coloca em reflexão sobre o que podemos observar, compreender, dominar e superar. De certo, a ignorância humana deveria ser possível de ser superada, mas, uma vez que compreendemos a infinitude das coisas, para qualquer direção que seja, recebemos como consequência o fato der que não se pode nunca superar em definitivo uma limitação. Isso vai de encontro ao que disse Sócrates, o filósofo grego:

“Só sei que nada sei.”

Sócrates, de maneira similar à Einstein, reconhece sua ignorância relativa, uma vez que vislumbra do alto da montanha de conhecimento e esclarecimento que subiu, todo o imenso horizonte além ao qual nunca sequer havia tocado ou visto de maneira tão abrangente e integrada. Assim, quando um astrônomo olha para a imensidão do Universo, entende, pelo menos, que aquele infinito é impossível de ser superado, por mais que se avance em estudos e explorações de mais e mais áreas. É preciso que alguém saia da condição de leigo, para erguer-se um pouco acima da multidão para constatar uma obviedade que antes não era percebida. Embora sejam obviedades depois de percebidas, eram ignoradas pelas massas, simplesmente porque difícil mesmo é enxergar o simples. Na vida, as pessoas seguem tentando ver as coisas como se dominassem o Universo, mas não dominam sequer a própria bolha de convívio em seu planeta, seu país, seu bairro, suas casas, suas famílias, seus relacionamentos e o interior de suas próprias mentes. Para não me prolongar demais, encerro esse parágrafo apenas dizendo que aquele que não reconheceu sua própria ignorância é o mais ignorante de todos.

Filosofar sobre a genialidade humana, principalmente quando elencamos só figuras clássicas, praticamente extraídas do mainstream, resulta em um texto um tanto quanto simplista. É verdade, contudo, que não se pode querer abarcar todo um assunto e nem mesmo se aprofundar tão mais longe que isso, quando estamos em um formato de mídia que exige ser conciso e objetivo. Um texto em um blog cumpre sua função enquanto conteúdo digital absorvível em certo contexto e tempo. Há muito que se falar sobre os potenciais humanos, as mudanças de paradigmas, as tecnologias, os aprendizados técnicos e práticos, as sabedorias, as filosofias, as propostas intelectuais e ideológicas de indivíduos e coletividades. Reconhecer que há essa imensidão pela frente é justamente fazer o mesmíssimo papel de Einstein e Sócrates de entrar com a progressão, sem deixar de reconhecer a própria limitação. Enquanto eu escrevo, eu dou voz para minha ignorância, mas também adiciono um pouco de reflexão, sabedoria e transformação a qualquer outro que desejar navegar junto em cada ideia anunciada. No final das contas, o ser humano encontra conforto na oportunidade de se ver acompanhado de outras figuras que acrescentem algum conforto ou que instiguem nele a curiosidade sobre algum tema ou sobre si mesmo. Desvendar os mistérios e as infinitudes dentro e fora de nós, nos permite tocar aquela área de contemplação das coisas geniais, sejam elas próprias ou alheias. É sustentando as discussões sinceras que conseguimos lapidar nossas limitações e sair dos cenários que não apreciamos. Podemos nunca nos vermos como completos, mas nosso desejo constante é tapar nossas incompletudes, mesmo que isso seja uma tarefa infinita. Só não deseja este mergulho constante, quem ainda não conseguiu enxergar em si mesmo a completa ignorância diante da infinita sabedoria. Perto da infinitude do Universo, somos explicitamente insuficientes, mas é exatamente por isso que não podemos parar de nos lapidarmos, senão corremos o risco de nos tornarmos incompatíveis com a coletividade que nos rodeia. Quando os absurdos da ignorância humana não fazem mais parte da maioria de um coletivo, os ignorantes acabam por ser dominados e afastados das questões que demandam competência.

Contudo, quando a ignorância se alastra demais, corre-se o risco de dividir espaços preocupantes com os esclarecidos. Uma sociedade que, por exemplo, é composta de 50% de ignorantes e 50% de esclarecidos, entra num conflito grande tentando dar prevalência para o bom-senso, a verdade e o conhecimento. É nestes cenários catastróficos, que um pouco mais de ignorantes pode acabar por arruinar uma sociedade que, provavelmente, vai tentar gerir o mundo conforme sua limitadíssima visão em oposição aos numericamente derrotados da oposição. Cenários assim podem ser vistos agora mesmo, sem uso de computadores especiais, sem grandes telescópios e sem a necessidade de teorias complexas de gênios como Einstein. Com praticamente nenhum recurso, estamos aptos a ver que, em vários lugares do mundo, as pessoas estão convencidas de que, aquela curta compreensão das coisas, é suficiente pra opinar sobre realidades das quais já foram vistas por pessoas melhor capacitadas. A única dica que posso dar é que procure encontrar sua própria ignorância para poder reconhecê-la. Se você realmente se considera inteligente e apto, vai adorar essa tarefa de observar-se com sinceridade e se, durante a tentativa, descobrir que não quer nem tentar, você já constatou que está inapto. Uma vez inapto, tenha ao menos a qualidade de caráter de deixar essas questões maiores para pessoas maiores e melhor preparadas. Não queira ser o leigo em Astronomia que se considera mais capaz que as pessoas de destaque dessa área. Não queira discordar de uma calculadora antes de ter noção mínima de como a Matemática funciona. Simplesmente não tente vencer naquilo em que você simplesmente não pode. Apenas lapide a si mesmo, amplie seu conhecimento, sua sabedoria e seus métodos de aprendizado. Somente quando se livrar de equívocos primários de lógica e argumentação é que terá os seus primeiros passos válidos rumo à qualquer direção que intente.

Rodrigo Meyer

 

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A diferença entre ideologia e supostos adeptos.

Um erro comum causado pelo preconceito é definir a qualidade de uma ideologia pela qualidade de uma pessoa que se diz adepta de tal ideologia. Não se pode dizer, por exemplo, que a Matemática é uma ideia equivocada, apenas porque um estudioso da matemática leva uma vida pessoal ou pública com condutas pejorativas. São coisas totalmente distintas e isoladas. Neste exemplo, a Matemática nada tem a ver com o indivíduo e, portanto, a qualidade ou veracidade da Matemática independe das características desse indivíduo.

De maneira igual deve-se tratar todas as ideias e ideologias no mundo. Dentro de boas ideias, sempre existiram pessoas que não tinha alinhamento suficiente a tal. Em diversas religiões, por exemplo, vemos, muitas vezes, mensagens de tolerância, bom comportamento, amor ao próximo, transformação pessoal, ao mesmo tempo em que vemos inúmeros casos de pessoas usando o crachá da religião pra cometerem inúmeros crimes e atos contrários aos próprios valores iniciais desta religião. No Brasil, inclusive, reina uma imensidão de hipócritas que se escondem atrás de um suposto cristianismo, pra pautar seus discursos de falsa moralidade e até de posicionamento político. Tragicômico ver, por exemplo, indivíduos que se intitulam cristãos, mas são alinhados com uma posição política de direita, quando, deveriam saber que o próprio Jesus Cristo, esta persona que alguns “cristãos” dizem seguir, é, possivelmente, a pessoa mais de esquerda possível.

No campo da política e das causas sociais, também existem inúmeras contradições berrantes. Entre as pessoas que dizem ser a favor da vida, são frequentes os casos de discursos de violência, pena de morte, entre outras formas de se eliminar a vida. Algumas pessoas dizem ser a favor da liberdade de expressão, desde que essa liberdade seja dada apenas pra elas proferirem discurso de ódio e não pra que todos os indivíduos tenham voz, especialmente os que quase sempre foram ignorados ou silenciados pela sociedade preconceituosa. Também será possível ver algumas pessoas falarem em respeito, desde que somente elas recebam o respeito sem nunca respeitarem os demais. Essas ideologias independem da conduta e do pensamento dos indivíduos. Podem carregar títulos, crachás e até erguer bandeiras para determinado grupo ou ideia, mas, na prática, continuam incoerentes e distantes dessas ideologias.

Por trás desses discursos de fachada, figuram muitas questões sociais, políticas e psicológicas. As pessoas que usurpam de um título ou temática, geralmente fazem isso por decisão fria de controle das pessoas ou por uma certa ignorância generalizada sobre o tema e a vida, de forma que acabam aderindo a estereótipos equivocados e ilusórios de outros indivíduos que fizeram semelhante adesão. É o caso, por exemplo, da pessoa que escolhe determinada religião pra “seguir” ou se dizer adepta, apenas como forma de se enquadrar em um grupo virtual onde reconhece condutas recorrentes que estão alinhadas com suas práticas ou pensamentos reais. Então, mesmo que, por exemplo, determinada religião nada tenha a ver com os ideais morais e políticos de um suposto adepto, ele escolhe essa religião, pois sabe que muitos outros indivíduos similares escolheram aquele rótulo inadequado antes, justamente pra dar nome e falso pretexto pra um encadeamento de ideias ou condutas que são de outro grupo, outro setor ou simplesmente de um aglomerado de indivíduos avulsos.

Um exemplo clássico de patetismo desenfreado é a usurpação da religião pelo grupo racista Ku Klux Klan (por vezes conhecido pela sigla KKK). É duro de acreditar, mas tais indivíduos se consideram cristãos. Imagine só se soubessem que a figura central do Cristianismo, Jesus Cristo, seria uma vítima fácil deles mesmos, posto que esta persona não era um indivíduo de pele clara e muito menos adepto do preconceito e violência. Nos Estados Unidos, de onde se origina essa utópica organização racista, vê-se pessoas alucinando dia e noite, replicando discursos de ódio ao mesmo tempo em que, supostamente, seriam cristãos. Seria pressuposto, pela lógica, que um cristão tivesse afinidade com os ideais e a postura de Jesus Cristo, mas, na verdade, muitos deles, odiariam ou até matariam qualquer indivíduo que tivesse aparência ou postura semelhante a de Jesus. Portanto, não há como dizer que os ideais propagados por Jesus sejam ruins, apenas porque uma quantidade enorme de supostos seguidores fazem exatamente o oposto do que ele propagou. Nem preciso dizer que a própria fundação da Igreja Católica como instituição já é uma aberração pela contradição com a origem do que se convencionou chamar de Cristianismo ou, mais ainda, com as práticas totais e/ou reais da figura de Jesus. Você se surpreenderia com a imensidão da lista de itens que os seguidores póstumos criticam e que na verdade eram as práticas do próprio Jesus.

Saindo um pouco desse exemplo, e abrangendo outros temas, podemos falar também de questões menores e corriqueiras. Você já deve ter visto gente fazer discurso bonito de como é errado e injusto o roubo. Repudiam ladrões, mas não abrem mão de comprar aquela câmera fotográfica advinda de furto ou assalto que estava com um preço mais acessível. Pessoas contraditórias assim são as que querem ter emprego sem serem assaltadas, mas não abrem mão de adquirir televisão por assinatura de forma ilegal, sem pagar pelo serviço. A moralidade pra essas pessoas vale só quando for conveniente e não como um ideal real. Logo a ideologia nada tem a ver de fato com essas pessoas. A ideologia de não roubar passa longe da mente daqueles que aceitam roubar, se for pra benefício próprio e não para perda diante de outro indivíduo. Percebe?

Cabem também nesta estrutura, aqueles que se dizem contra a corrupção, mas são os mesmos que sonegam impostos, furam fila, oferecem propina pra burlar a apreensão do carro, mentem pra uma mídia pra forjar vantagem a determinada ideia ou grupo, entre outras inúmeras possibilidades. No fim das contas essa conduta é o clássico da postura torta de grande parte dos humanos em todo o mundo, em quase todas as eras. Sobra na Terra indivíduos corrompidos, fazendo esse desvio de conduta parecer ser normal, de tão comum que é. Mas, a lógica nos obriga a esclarecer que: comum é diferente de normal. Se muita gente passa a construir rodas quadradas, essa roda não passa a ser normal, mas apenas comum. E pra que estejamos escolados e preparados para a vida, precisamos saber diferenciar uma ideia / ideologia de um indivíduo e/ou suposto adepto / seguidor. Quando você ver alguém criticar uma ideologia política, por conta do que um determinado governo ou país fez ou faz sob aquele rótulo, você já sabe que este alguém pouco ou nada entende do assunto e não tem intelecto e/ou maturidade suficiente pra lidar com tal conteúdo. Para se obter algo sólido e realista, é preciso que o conteúdo venha de alguém que não caia na tolice de misturar uma coisa com outra, pois pré-conceito (origem da palavra ‘preconceito’) e ignorância, que, na prática, são sinônimos, devem ser evitados.

Rodrigo Meyer

Para nos redimir, precisamos ser ouvidos.

Todo ser humano está sujeito a falhas. Às vezes gostaríamos de voltar no tempo pra mudar algumas coisas, como, por exemplo, poder passar mais tempo com certas pessoas, mudar as escolhas de curso, pedir desculpas para alguém ou reaver um trabalho, um cliente, um companheiro de relacionamento, etc. Estes são alguns poucos exemplos da imensidão de possibilidades onde podemos precisar nos redimir em algum momento. Mas, para que possamos nos redimir, as pessoas precisam, necessariamente, nos ouvir.

Muitas das vezes, principalmente se um erro foi grave, a pessoa afetada pode sentir-se tão prejudicada que não deseja nem mesmo mais contato com o autor do dano. É compreensível a situação e faz todo o sentido que uma pessoa se isole de quem lhe causou danos em algum momento. Contudo, pra diversas outras situações, as pessoas parecem agir precipitadamente, tanto quanto aqueles que erraram com ela. É o caso, por exemplo, quando alguém se afasta, antes mesmo de saber os reais motivos de uma determinada ação ou reação de uma pessoa, uma palavra ou uma decisão. Nisso moram muitos problemas.

O modo mais sensato e sadio de se lidar com qualquer situação, seja ela positiva ou negativa, é se colocar a entender a situação, antes mesmo de disferir qualquer emoção ou decisão exacerbada ou definitiva. Coloque-se a ouvir as pessoas sobre o que elas fazem, pensam, são. Entenda os motivos de cada pessoa e entenda, sobretudo, os contextos por trás de cada situação. As pessoas são, normalmente, muito mais complexas do que os estereótipos que as mídias e nossa mente possam retratar em um primeiro momento. Não se pode achar que nossa visão seja sempre suficiente pra entender todas as pessoas, mesmo que você já tenha conhecido centenas de pessoas aparentemente similares ao que você crê que seja a próxima julgada. Por isso, se quiser ser surpreendido e também surpreender, faça o que pouca gente faz: dê ouvidos para quem tenta se redimir.

Lembro de exemplos pra citar que vivenciei na época da faculdade. Tinha uma boa amizade com uma determinada pessoa de um pequeno círculo de convívio. Dividíamos muitas coisas em comum, especialmente o modo de ver a vida, a personalidade, os aspectos culturais e até, talvez, um interesse recíproco. Iniciamos pela amizade e foi isso que desenvolvemos até ali, ao meu ver. Mas, em determinado momento, fui surpreendido por uma situação que, na época, não soube lidar da melhor maneira. Essa pessoa, a quem só tinha coisas boas pra descrever, mostrou-se interessada por um beijo, talvez um relacionamento. Embora eu quisesse, minha primeira reação foi recusar, tamanha era a sinceridade e o modo automático com que eu lidava com aquela amizade. E nisso, moram diversas necessidades de explicações.

Primeiramente, o fato de eu ter recusado um beijo, não significa que não quisesse nada com aquela pessoa. Significou, pra mim, apenas que fui surpreendido por algo além da amizade e que isso me deixou sem a habilidade necessária pra fazer a melhor reação ou dar a melhor resposta. Em segundo lugar, não significa que eu pense que amizades não podem gerar relacionamentos. Na verdade eu penso exatamente o oposto. Pra mim, bons relacionamentos devem vir exatamente de boas amizades, pois se a companheira não for uma boa amiga, esse relacionamento já é pouco valioso e interessante. Meu sonho de vida sempre foi encontrar alguém com quem eu pudesse dividir uma boa amizade a ponto disso se transformar em um relacionamento de casal. Mas, por incrível que pareça, quando isso finalmente ocorreu, eu não lidei da maneira que deveria.

Algumas pessoas, assim como eu neste exemplo dado, podem ter reações estranhas ou improváveis, apesar de suas vontades ou ideais. Naquela situação, por exemplo, tudo que soube fazer pra contornar a surpresa foi dizer que prezava a amizade da pessoa, como justificativa pelo meu recuo. Foi uma situação desconfortável e, infelizmente, claro, a pessoa se sentiu rejeitada e também desconfortável com a situação. Neste momento, o mais sensato seria ter acolhido a pessoa, mas me vi tão sem jeito pela situação que, recuei ainda mais, talvez um pouco envergonhado e sem jeito para lidar com tudo aquilo acontecendo em tão pouco tempo. Por fim, esse episódio acabou gerando um certo distanciamento gradativo até que, com o fim da faculdade e a redução da interação, inclusive pela internet, me vi falho demais para dividir a realidade com diversas pessoas do meu passado e presente. A socialização estava difícil, pois eu estava enfrentando outras questões pessoais na época, inclusive crises de depressão.

Há algum tempo atrás, depois de ter me reerguido um pouco, consegui me por novamente em um cenário pessoal aceitável, onde eu conseguia engolir meus erros do passado e me aceitar, tentando um novo contato com aquela pessoa, pra me explicar ou me redimir. É interessante como podemos nos cobrar tanto, especialmente diante de algo que ocorreu há tanto tempo. Mas essa cobrança é sinal do quanto foi importante aquela situação. Essa é uma pessoa a quem eu tive bastante estima, mas talvez o passar do tempo já não me permita ser ouvido mais. Uma coisa é escrever um texto em um blog e outra, completamente diferente, é conversar ou dividir uma mensagem coerente com alguém, especialmente se estamos em uma situação um pouco confusa e ansiosa ou com a qual não sabemos lidar bem. É como se ainda estivesse, de certa forma, na situação original daquele beijo pedido e não obtido. Esse andar em círculos, falhando com as pessoas, muitas vezes me colocou em desmotivação e também em mais dificuldade de socialização.

Ideal teria sido que eu pudesse ter tido a melhor reação, desde o primeiro episódio. Não ocorreu. Não posso jamais culpar a outra pessoa pelas impressões obtidas, mas, seria interessante conseguir ser ouvido em algum momento depois. Sou consciente do tempo que já percorreu, mas pra que eu possa me redimir de uma situação, eu precisaria ser ouvido para, então, ser compreendido. Tudo bem se isso significar que a pessoa não vá concordar com minhas explicações ou mesmo que não vá receber minhas tentativas de contato. Eu não pretendo insistir, apenas tentar.

Contudo, fica de exemplo pra todas as diversas situações hipotéticas na vida, de como a interação humana pode ser frágil e complexa. Detalhes, falhas e o próprio tempo, transformam algo promissor em algo potencialmente oposto. Em situações desse tipo onde precisamos explicar nossa conduta, justificar nossa pessoa ou até mesmo nos desculpar por uma falha, o principal elemento na equação teria de ser essa postura de troca, onde um se coloca a tentar se comunicar e o outro a tentar ouvir.

Gostaria de ser ouvido quando digo que estou deprimido, quando digo que estou sem trabalho, quando digo que estou perdido. Gostaria de ser ouvido quando me sinto silenciado ou quando estou tão desacreditado, que perdi a visão do paraíso. Nessa vida, já errei inúmeras vezes, sendo a maioria comigo mesmo. Errei quando achava que eu não seria notado pra um relacionamento ou que se algo positivo e recíproco acontecesse, talvez fosse um engano, já que eu vivia pessimista sobre a vida. Muita coisa boa esteve a meu favor em vários setores e momentos da vida, mas eu perdi muitas das portas abertas, por desacreditar em mim mesmo e nas possibilidades da vida. Eu desconfiava imediatamente de qualquer sinal de que as coisas estivessem boas demais pra mim. Como descrito, eu sequer estava preparado pra tais surpresas. E, acredite, eu me surpreendia mesmo.

Mas o tempo não deixa só marcas, ele também ensina. Aliás, os erros são uma poderosa fonte de aprendizado. Todos os reveses da vida nos mostram onde erramos, como erramos, com quem / o que, porque e em qual intensidade. Temos, então, noção de como proceder melhor da próxima vez. Aprendi, inclusive, que estive certo em também recusar a reaproximação de outras pessoas, por conseguir ouvi-las repetidas vezes e perceber que muitas delas não haviam melhorado ou se arrependido de seus erros. Eu sempre fui muito paciente nesse sentido e, por muito tempo, usei, sistematicamente, um método que apelidei de ‘5 estrelas’. Para cada vez que uma pessoa cometesse um deslize importante, eu tirava uma estrela na classificação dela. Enquanto sobrasse 1 estrela intacta, o relacionamento se mantinha, apesar de eu ficar cada vez mais preparado pra lidar com as possibilidades negativas daquela pessoa. Se a pessoa não conseguisse manter nem mesmo a última estrela, essa pessoa estaria cortada da minha convivência em definitivo. Considero isso um bom modo de ser flexível e dar oportunidade pras pessoas se redimirem. Atualmente não faço uso tão sistemático desse método, mas ainda filtro bastante as pessoas, afinal, relacionamentos não podem ser uma chuva de falhas, principalmente se os erros e/ou danos forem muito grandes.

Rodrigo Meyer

A ignorância é casada com a irresponsabilidade.

Ter responsabilidade em algo, pressupõem agir com consciência do que é importante, valoroso, certo, necessário, prudente, etc. Portanto, se formos ignorantes em determinado assunto ou sentido, não teremos os parâmetros para agir com responsabilidade. Seria o mesmo que dizer que sem conhecer como funciona a Física, não há como construir nada seguro na Engenharia. Princípios simples de como a vida e as pessoas funcionam, são necessários para desempenharmos responsabilidade junto a elas.

Agora que está compreendido porque a ignorância está sempre junto com a irresponsabilidade, é preciso pensar se nos portamos de forma responsável ou irresponsável com cada uma das coisas. Se, eventualmente, nos notarmos irresponsáveis, precisamos admitir que estamos ignorando informações sobre o tema. Ser ignorante sobre algo, ao final das contas, é simplesmente ignorar algo, no sentido de não ver, não compreender, não perceber algo. E se temos ignorância diante de tal coisa, somos automaticamente os menos indicados a falar ou tomar decisões sobre.

No meio político, por exemplo, é imprudente e improdutivo deixar que pessoas ignorantes comandem os rumos de uma determinada assunto da sociedade. Da mesma maneira que você não colocaria um leigo em Medicina para atuar como médico, você não colocaria um ignorante em determinado tema pra atuar em nome deste assunto.

O mesmo pode ser dito pra todas as áreas de estudo e atuação na sociedade. Encontraremos muita irresponsabilidade se deixarmos ignorantes regerem ou agirem pela História, Medicina, Arte, Filosofia, Comunicação, Literatura, Informática, Política, Psicologia ou qualquer outra área possível de ser imaginada. A responsabilidade sempre será necessária em toda área concebível, justamente porque se espera que dela se tenha conhecimento e não ignorância.

Flexibilizar a ignorância, apesar de parecer, a princípio, ruim, é necessário e positivo. Trata-se de, por exemplo, considerar que todas as pessoas tem, em algum grau, conhecimento sobre algum assunto. Claro que, muitas vezes, o conhecimento é tão pequeno que é insuficiente pra se apresentar um pensamento consistente, válido ou útil. A exemplo disso, poderia dizer que não posso propor teorias de Astrofísica apenas por saber que a palavra ‘astrofísica’ existe. Seria conhecimento insuficiente pra objetivos tão pretensiosos. Seria necessário, no caso, alguma noção adicional sobre do que trata a Astrofísica, em que ela se baseia, quais as premissas do estudo e o que já foi estudado e proposto antes.

Isso não significa, porém, que uma pessoa está impedida de ter seus pensamentos sobre qualquer assunto. Até mesmo a imaginação sobre o desconhecido é importante e deve estar sempre livre pra ocorrer. Seria como dizer que uma pessoa leiga em Astronomia pode contemplar na imaginação a cena de astronautas e estrelas, sem que isso lhe seja proibido ou ruim. É, inclusive, por meio da imaginação e da curiosidade que desenvolvemos interesse de conhecer mais a fundo determinados assuntos ou pessoas. Muitos de nós aspirou na infância um futuro em alguma profissão quando fossemos adultos.

No dia-a-dia, fazemos coisas similares ao cruzarmos pelos assuntos e ocorrências. Ao lermos um título de uma notícia na rede social, somos levados a consultar na mente tudo que sabemos sobre aquelas palavras, o que elas significam e o que elas suscitam sob aquele específico contexto. Se não conhecemos o contexto, perdemos a condição de avaliar com eficiência aquele conteúdo. Em razão dessas barreiras para o consumo de conteúdo, muita gente se vê desanimada, pois acredita que terá sempre que fazer um grande esforço a cada vez que fitar os olhos pra um título na tela. Mas a verdade é que quanto mais você aprende, mais fácil e rápido fica compreender os novos conteúdos que lhes são apresentados. A razão disso é que uma vez que você aprende sobre conceitos, palavras e combinações, você permite que seu cérebro busque um atalho para acessar uma versão rápida do significado de tudo aquilo assim que nota os sinais daquela realidade que lhe foi apresentada. É o caso, por exemplo, quando um médico consegue fazer um diagnóstico de maneira rápida, baseado apenas na observação dos sintomas. De tanto se deparar com repetidos casos iguais, o cérebro automaticamente associa os sintomas a algum provável quadro médico.

E este é o legado que desejo deixar por hoje. Ao se ver diante de um assunto novo ou que, mesmo não sendo novo, você ainda não tenha conhecimento suficiente, não limite-se na sua dedução, pois ausência de conhecimento suficiente vem acompanhada de conduta irresponsável. Este princípio é universal e é por isso que em toda cultura do mundo, por sabermos, por exemplo, que crianças tem pouco conhecimento sobre determinados assuntos, os adultos se antecipam às crianças de forma a prevenir atitudes danosas e irresponsáveis. Pra ilustrar, imagine que em uma casa com bebês, crianças ou animais, costuma-se colocar tela de proteção nas varandas, esconder as facas em local menos acessível ou mesmo monitorar pra que estes não estejam em contato com a panela quente da cozinha, etc.

Como visto, o conhecimento ajuda a ter uma conduta responsável e, por isso, é papel de quem tem, usar a favor dos demais e de si mesmo. Quando nos deparamos com um grupo de pessoas na sociedade que pouco sabem da realidade, é importante que façamos nossa intervenção com conhecimento, transferindo poder e autonomia pra estes. Assim, construímos pessoas responsáveis e evitamos danos indesejados. Todo conhecimento que você tiver, compartilhe com outras pessoas e ajude cada uma delas a absorver o real sentido das coisas, das palavras, das pessoas, dos valores, etc. Aprofunde o conhecimento dos iniciantes, dos amadores, dos aprendizes, dos leigos. Amplie a conexão entre informação e transformação de pensamento, pois é isso que determina que tipo de ação as pessoas terão sobre si mesmas e o mundo.

Há uma frase bem interessante sobre isso que diz que ‘para burlar uma regra é preciso conhecê-la.’. Usa-se muito isso no segmento da Arte, para dizer que é preciso conhecer os fundamentos pra poder, posteriormente, impor suas mudanças e personalidade como artista, de forma consciente, consistente, etc. De fato, em tudo na vida, quanto mais dominamos um tema, mais controle temos para sermos independentes, criativos, surpreendentes. Para inventar o futuro  de maneira assertiva é preciso conhecer as necessidades do presente e desviar das limitações e erros do passado.

Rodrigo Meyer

Dificulte primeiro, facilite depois.

A imagem que ilustra esse texto traz a mensagem no cartão, em inglês, “Obrigado por ser você mesmo.”.

Vou dividir aqui algo qua aprendi na vida depois de muito me frustrar em ofertar ajuda cedo demais para quem não merecia. Também ocorria de tentar lecionar temas pra quem não estava realmente interessado e outras incompatibilidades similares. Depois de observar o resultado prejudicial que essas iniciativas estavam trazendo, percebi que isso se dava por estar aberto indistintamente por qualquer pessoa que se apresentasse. E faltava nesse ato um filtro.

Percebi que nem todas as pessoas estavam realmente à altura de receber aquilo que se predispunham. Às vezes não eram merecedoras, às vezes não eram confiáveis, às vezes não tinham capacidade, às vezes não tinham real interesse e, às vezes só o que tinham era interesses (no mal sentido). Então comecei a pensar como poderia evitar essas pessoas e passar a oportunidade para pessoas mais oportunas e recíprocas.

Entrou em prática a tática do que eu gosto de chamar de “Dificulte primeiro, facilite depois”. É como uma troca. Primeiro você se torna exigente ao extremo no filtro e diz às pessoas que quem estiver interessado procure. Quando algo é gratuito, muita gente se interessa imediatamente, mas por ser gratuito, também não valorizam como deveriam e muitos até acabam desistindo ou perdendo a atenção ao conteúdo, sem nenhuma culpa ou controle, já que não tiveram que gastar dinheiro algum naquilo. É mais ou menos como dizer que “comida gratuita, as pessoas jogam fora se não tiverem com fome”. Se não custou nada e não é delas, jogam fora com mais facilidade. Se tivessem pago por isso, talvez se interessassem um pouco mais em preservar ou tentar absorver, apesar das dificuldades.

Entendido essa lógica nestas pessoas, comecei a forçá-los a desistir logo de cara, colocando diversos empecilhos. Aliás, a cobrança de valores também é um poderoso filtro, muitas vezes. Mas, de forma geral, para pagantes ou não pagantes, a ideia essencial é dificultar o acesso ao benefício, seja ele qual for. Se você, por exemplo, leciona idiomas gratuitamente, estabeleça épocas únicas de cursos ou limite de vagas por cada grupo de aula. Isso fará as pessoas refletirem se vale a pena o esforço por algo que não querem tanto ou não valorizam tanto. Muitas delas descobrem coisas como: “É gratuito, mas não é tão perto de casa, então não quero.”, “É gratuito, mas só tem 10 vagas por grupo. Deixa as vagas pra quem queira mais que eu.”, “É gratuito, mas as primeiras aulas tem duração muito longa. Não quero.”. Esses foram só alguns dos exemplos hipotéticos de como dificultar o acesso à um benefício.

Uma vez que isso ocorre, essas pessoas menos interessadas e menos engajadas, tornam-se as primeiras a desistir daquela proposta e deixam o caminho livre para quem realmente quer e/ou merece aquela oportunidade. E quando você estiver em contato com essas pessoas, aí sim é a hora da mágica, pra finalizar o processo. Para estas pessoas você oferece todo o conforto e facilidade no que elas precisarem pra se adequar e absorver o benefício que você havia proposto. Então, tomando o exemplo hipotético citado do curso de idiomas, espere algumas vezes as pessoas frequentarem com as tais dificuldades e aquelas que estiverem firmes apesar de tudo, certamente estão lá porque estão muito interessadas e engajadas. E com elas você pode eliminar o filtro e começar a apoiá-las da melhor maneira que puder.

Se em um dia esporádico uma pessoa não pode estar presente por uma urgência ou doença, retribua o esforço dela com um presente ou uma surpresa. Se é um companheiro de trabalho dedicado, aumente seu salário ou dê um dia de folga remunerada mostrando como você aprecia a pessoa e o interesse que ela tem no que faz. Se é uma amizade ou um parente que enfrentou dificuldades pra permanecer do seu lado, demonstre sua admiração por essa postura, por essa honestidade e sentimentos. É assim que você mostra que as pessoas podem ser boas umas pras outras, confiáveis e viver sem pressões, ajudando um ao outro a superar barreiras, objetivos e conquistar espaço.

Antes que me julguem como aquele que nega oportunidades, vou dar dois exemplos que tornam claro o inverso.

Primeiro exemplo: Anunciei um determinado curso que, embora com preço acessível era pago e muita gente que gostaria de fazer não tinha condições de pagar. Ao conhecer essas pessoas, ofereci a proposta de trabalharem em 3 dias distintos em troca da gratuidade do curso. Muitos desistiram, mesmo tendo disponibilidade. Os poucos que aceitaram, vieram desfrutar do curso gratuitamente e, de quebra, aprenderam uma atividade extra que poderia ser útil em torno daquele curso ou potencial carreira adiante.

Segundo exemplo: Anunciei uma vaga de trabalho freelance como trabalho esporádico. O filtro seria sobre a dedicação da pessoa. Se cumprisse um bom trabalho ou tivesse se esforçado o máximo por aquela atividade, mesmo que avulsa, seria chamada pra ser a única opção de profissional sempre que houvessem novos trabalhos. Se houvesse constância no esforço de aprender o que faz e em trabalhar para entregar o melhor resultado que poderia, aí estava classificada pra receber a remuneração real, que era mais de 3 vezes o valor inicial. O sorriso no rosto dessas pessoas é muito gratificante. São pessoas que, como demonstraram, se esforçaram muito em suas carreiras, atingiram grandes potenciais, um bom reconhecimento em suas áreas e estão aí brilhando. Fico muito feliz por isso. Sempre que pude, apoiei essas pessoas em tudo que estava ao meu alcance. Elas mereciam e elas sempre retribuíram com o melhor delas, mesmo que eu fosse um desconhecido. É isso que eu valorizo.

Esse método funciona muito bem para inúmeras situações e setores da vida. Não só em trabalho e estudo. Eu costumo dizer que reciprocidade é arte. E acredito muito que a qualidade das pessoas deve ser priorizada para boas relações. E assim fiz. Para pessoas que não se entregaram com sinceridade e esforço no que faziam, eu fechei portas e mudei meu foco pra outra direção. Fica pra elas a lição de que, a única barreira à um apoio facilitado foi não estarem interessadas ou merecedoras o suficiente, pois cobro sempre nas relações que as pessoas sejam éticas, honestas, sinceras, esforçadas, estudiosas, engajadas, sem preconceitos, desprendidas financeiramente / materialmente, que sejam sensíveis e que estejam no mundo por relações e não por dinheiro. Em boas relações é evidente que o dinheiro faz sempre parte da equação de apoio. A vida é um constante investimento. Eu escolhi investir em pessoas nas quais eu me orgulho, mesmo que elas comecem pequenas, não tenham 1 centavo no bolso ou estejam enfrentando as maiores dificuldades na vida. Esse investimento nunca é caro e sempre dá bons resultados.

“Dificulte primeiro, facilite depois”. Pronto pra aplicar essa tática na sua vida?

Rodrigo Meyer

Se eu morresse amanhã, morreria de consciência tranquila.

Se tem uma coisa que sabemos é das estatísticas das pessoas a beira da morte. Pessoas hospitalizadas em estado terminal ou pessoas em idade avançada. São recorrentes os casos de gente que só se dá conta do que viveu ou deixou de viver quando já não há muito tempo pra reverter. Isso é contato por médicos, parentes, enfermeiros, sociólogos, jornalistas, biógrafos e, claro, pelas próprias pessoas em leito de morte.

O que é que faz isso ser tão recorrente? As pessoas vivem como se nunca fossem morrer, deixando de viver de verdade. Elas se esquecem que as coisas passageiras e superficiais não possuem valor algum. E quando se dão conta desse fato, já é meio tarde pra fazer algo a respeito. Elas passam a vida em torno do que não é importante, acreditando que são pessoas vitoriosas e espertas, até que a Morte chega e varre todos, indistintamente.

Passar pela vida e não observar o que se está fazendo é desperdiçar completamente a oportunidade de estar por aqui. Viver deve ser, antes de tudo, seu maior ato. Sua consciência deve estar sempre tranquila, saboreando os momentos e as conexões com as pessoas e os lugares, de forma que você possa envelhecer seguro, confiante. Deve-se viver com honestidade e intensidade, para que ao chegar em seus últimos momentos de vida, você possa sentir que fez tudo que podia, que fez o seu melhor, que deixou marcas positivas nas pessoas e nos lugares por onde passou.

Viver bem é também morrer bem. Quando você olha pros seus dias anteriores e se orgulha de ter sido quem foi e ter feito o que fez, você venceu. Vence na vida, aquele que, mesmo se não conquistou muitos amigos, ainda pode dizer que foi sincero e útil aos que teve. Vence na vida aquele que não deve nada pra ninguém, que não atravanca o caminho de gente que quer ser livre. Vence na vida aquele que transforma o lugar por onde passou em algo mais digno, mais aberto, mais reflexivo, mais pensante, mais firme, mais estável, mais em justo, mais unido, mais engajado, mais … vivo.

O grande papel da morte na existência do ser humano parece ser de mensurar o que ele fez até ali. Como que um recado de tempos em tempos, pra que ele aprenda a única lição que importa, mesmo que ela tenha que ser repetida 700 vezes em sucessivas encarnações. Por muito menos que isso, somos cobrados durante cada dia de nossas vidas pelos nossos atos, pois a consciência não descansa e o impacto dos nossos equívocos chega em tempo real. Antes mesmo que possamos morrer, a vida vem e nos dá um rompante de lucidez e consciência sobre o quão desnecessários possamos ter sido até aquele momento.

Não há como negar a importância da morte, nesse sentido. Ela vem pra varrer a eventual falha e cobrar de nós um aprendizado. Passam-se gerações e os aprendizados sobre o ‘bom viver’ parecem não progredir na mente das pessoas. Talvez, educadas tardiamente, com o que aprendem de seus parentes na cama de um hospital ou no sofá de casa, não tenham experiência suficiente pra degustar aquelas verdades. Já também um pouco velhos, talvez não tenham mais o fôlego pra transformarem seus vícios de pensamento e realidade. Progridem sempre em direção ao abismo, numa cegueira indiscutível.

Muitos chegam aos 20 anos se achando os donos do mundo, passam aos 30, cientes de que não são ninguém importante, mas seguem como se isso não fosse real. Aos 40 anos possuem plena certeza de que são um estorvo, mas o ego não os permite se arrepender e agir contra. Já viciados, seguem aos 50 e 60 anos cada vez piores, ostentando a podridão como se fossem dignos de algum respeito. Cruzam, sabe-se lá porque, os 70 e 80 anos humilhados por si mesmos, derrotados por não aceitarem o melhor caminho.

Alguns, mais presos ainda, já perdem completamente o sentido, em seus 90 ou mais anos de idade. É tempo de mais pra se pesar na Terra. Cruzar um século sem a pretensão de deixar uma marca positiva nessa era é no mínimo um desperdício de tempo, de vida, de esforço cardíaco, de fígado, de estômago, de cérebro, de alma, de realidade. Vivem infelizes, morrem infelizes. Ninguém sai ganhando.

Um bom momento pra ser relevante ao mundo é hoje mesmo. Não deixe pra amanhã. Amanhã pode ser tarde demais. Amanhã é o tempo dos que já se foram pra longe do necessário dia de hoje. Amanhã é o novo jamais. Pare o que está fazendo e repense sua consciência. Se depois de ter notado que pesou tanto não conseguir ver motivos para mudar, então só lhe resta ser descartado sem ressalvas, sem glórias, em vão. Você descobre o possível desvalor de sua passagem na vida quando ao final dela as pessoas te contam bem diante do defunto, o quanto foi tarde, o quanto errou, o quanto pesou, o quanto foi desnecessário e o quanto não deixará saudade alguma, mesmo que, por educação, diante de alguns, finjam palavras contrárias ou expressem um tradicional silêncio.

Se você é ciente dessa possibilidade e mesmo assim prefere orgulhar-se do caos que deixou ao mundo, então está admitindo pra si mesmo que ser esse entulho é sua única opção. E, qualquer matemático sabe, que essa contradição não fecha a conta. Você não pode sentir orgulho de ser algo que não quer ser. Ninguém é grande sendo desprezível. Ninguém quer ser o pior, a menos que esteja tão doente mentalmente que tenha ojeriza a prazer. Se for o seu caso, busque ajuda pra ontem pois hoje pode ser tarde demais. Se não for o teu caso, tenha uma ótima vida e morra em paz.

Rodrigo Meyer

Silêncios são melhores que ruídos.

Quando o assunto é comunicação e interação, muita gente acredita que diante da impossibilidade de fazer o completo e/ou ideal, qualquer coisa é melhor que nada. E não é bem assim. Vamos pegar a música como analogia. Se você não pode criar algo harmonioso que valha a pena ser ouvido, qualquer tentativa insuficiente não ficará no meio do caminho entre péssimo e ótimo. Um chiado de rádio fora do ar nunca foi 50% bom na escala de música. Tudo que não cumpre bem-estar a quem recepciona, não está minimamente aceitável para aquela finalidade.

Outra analogia seria a própria matemática para a Engenharia. Não tente construir uma peça com medida diferente da necessária ou fora da margem de tolerância. Se aquilo não cumpre a função mínima necessária, não servirá. Não existe como dizer que uma roda cortada ao meio como uma meia-lua, possa ter metade da função de uma roda plena. Aceite.

Por características pessoais, os ruídos são bem mais incômodos pra mim do que pra maioria das pessoas. Entro em profunda irritação com sons estridentes, berros, cães latindo insistentemente, alarmes, muitas pessoas falando ao mesmo tempo e todo tipo de desastre de comunicação. Independente das minhas características, pode-se analisar a questão do ponto de vista da necessidade e eficácia.

Você nunca verá, por exemplo, chover ouro e soluções quando um cachorro passa 4 horas incessantes latindo. O cachorro é o que menos tem culpa nisso. Ele age instintivamente reagindo em defesa de algum suposto estranho ou inimigo, fazendo o papel ao qual ele se vê encaixado, protegendo o território dele.

Você nunca verá alguém com verdadeiro interesse em aprender ou ensinar, debatendo qualquer pseudo-conversa que seja, por meio de gritaria ou com todos falando ao mesmo tempo. Isso não leva a resultado positivo nenhum e é apenas total perda de tempo mesmo. Pessoas que podem escolher como se portar e agem com essas práticas, estão dando vazão pra própria imbecilidade e descontrole. Essa impulsividade descontrolada nunca fez o salário de ninguém aumentar de forma lícita, nem nunca fez com que uma ideia fosse melhor compreendida por ninguém. É só uma chateação a mais de gente que não tem noção e respeito pelos ambientes onde está.

Você também já deve ter visto situações onde as pessoas aumentam o som do carro em tal altura, que pra tal feito precisam de amplificadores e baterias adicionais. Não satisfeitos de apenas gastarem o dinheiro em vão, tentam fazer isso com algo que importuna a quase todo mundo por onde passa. Quem faz isso tem a mentalidade equivocada de que chamar a atenção é sinônimo de sucesso, mas a única verdade que podemos extrair disso tudo é que pessoas assim, com complexo, que precisam colocar uma melancia na cabeça pra aparecer, só conseguem repelir as outras pessoas enquanto atrai somente pessoas vazias e complexadas como essas. Forçar alguém a ouvir o que você está ouvindo não é só egoísmo e necessidade de chamar atenção pra si, mas é uma das formas garantidas de confirmar sua imbecilidade. Não seja essa pessoa, a menos que seu foco seja em fracassar. Se for esse o caso, fracasse longe dos ouvidos de quem não tem culpa pelas suas questões mal resolvidas.

Então, quando você notar que não consegue apresentar algo agradável aos demais, prefira o silêncio. Não consegue evitar que seu alarme dispare todos os dias, pois não tem tempo ou vontade de consertar o defeito? Desligue o alarme, pois se o alarme não está cumprindo a função real dele, então ele não te serviu de absolutamente nada e não faz sentido gastar eletricidade com algo 100% inútil. Poupe o ouvido de seus vizinhos e seja alguém menos detestável.

Quando não conseguir conversar de maneira agradável com alguém, feche a boca e fique em absoluto silêncio. Observar e ouvir vão te dar opções muito valiosas pra compreensão de inúmeras coisas sobre a vida e as pessoas, mesmo que as pessoas estejam simplesmente falando bobagens. Aliás, quando as pessoas estiverem desinteressantes pra você, sinta-se no direito de mudar de companhia, de ambiente, etc. Você não é obrigado a debater com alguém ou ouvir o que as pessoas tem a dizer. Se todas as pessoas do mundo soubessem o valor do silêncio, menos conversas desgastantes seriam traçadas em vão.

Não consegue compor uma música? Cante no chuveiro, cante só pra você, mentalmente ou simplesmente não cante. Que tal transformar sua inabilidade pra cantar em uma dança ou texto? Ou então, se quer persistir na música, aprenda os meios de torná-la melhor. Incentivo completamente que as pessoas busquem seus talentos e desenvolvam suas habilidades, mas não há necessidade de estorvar ninguém com barulhos que não agregam nada. Quando as pessoas tem o mínimo de noção e perdem o egoísmo, superando complexos e fraquezas, fazem um melhor papel na sociedade, estorvam menos e se tornam mais úteis e queridas. Todos saem ganhando.

Os ruídos também estão presentes em outras formas que não o som. Chama-se de ruído tudo aquilo que é secundário e inconveniente. Um ruído é um estímulo ou conjunto de estímulos que fica em torno de algo ou alguém. Excesso de fios e placas numa cidade podem ser considerados ruídos. Chuvisco e granulações em imagens são ruídos. Também são ruídos toda diversidade de pequenas coisas que ocorrem pelo mundo que, quando somadas, tornam-se uma malha de incômodos que destoa da experiência pura ou limpa de algo. Pra quem é mais antenado com a área de Design Gráfico, já deve ter ouvido o termo ‘clean‘ pra se referir a um estilo de gráfico mais “limpo”, com menos elementos ou até mesmo ‘minimalista’. A experiência se torna mais agradável pros olhos e pra mente quando você simplifica e reduz o excesso de informação, a poluição visual e o excesso de estímulos, seja em cores, variações de fontes, quantidade de imagens, formas, texto, texturas, etc. É o caso de dizer que ‘menos é mais’, uma frase bem famosa no meio de criação.

Juízo, pessoal. Nos vemos em breve.

Rodrigo Meyer