Nenhuma ignorância ficará impune.

Independente dos sistemas sociais e das interações humanas, tudo aquilo que existe, traz consigo a inevitável consequência de sua existência. E o que isso quer dizer? Quer dizer que se existe uma fruta pendurada em uma árvore, haverá um momento em que ela cairá do galho ou será digerida por algum pássaro. Da mesma maneira, se uma pessoa chacoalha uma árvore carregada de frutos, alguns frutos poderão cair. Assim como nenhuma ação fica sem reação, a ignorância humana também não percorre sem consequências diretamente relacionadas.

Se pegarmos exemplos simples, já conseguimos demonstrar esse fato. Imagine que uma pessoa tente construir uma casa, porém sem nenhum domínio de engenharia, construção ou mesmo de física básica e empírica. Visualize uma pessoa tentando erguer 3 andares de pedras pesadíssimas, apenas apoiadas numa base frágil de bambu. O simples fato da pessoa desconhecer as propriedades de resistência do bambu, a torna ignorante nessa tentativa e traz como consequência a impossibilidade do feito e/ou um terrível acidente com as pedras quebrando o bambu e vindo toda obra ao chão.

Na vida, nem tudo que exige noção, conhecimento e controle da ignorância, são tarefas tão óbvias como estas. Ainda que estejamos em uma época dito “tecnológica”, ainda temos que enfrentar muita ignorância que sobrevive ou renasce do passado. A informação precisa chegar pra todos, porém vivemos tempos difíceis onde até a pouca informação começa a faltar e falhar. As pessoas já começam a crer, novamente, em ideias como ‘Terra plana’, resgatando um culto à ignorância que parece ser o centro de suas vidas. Haveria tempo pra simplesmente criticar essas pessoas, porém isso não contribuiria em nada para a melhoria do cenário. Deixemos que as críticas vazias fiquem somente entre os ignorantes. Tomemos pra nós, se objetivamos alguma melhora no mundo, o papel de transformar as pessoas ao nosso redor. Ainda que seja difícil fazer despertar o interesse pela cultura, sabedoria, intelectualidade, noção, razoabilidade, realidade, verdade, educação, etc., precisamos, pelo menos, tentar.

Tudo na vida tem um preço intrínseco que é dado automaticamente, conforme cada pessoa interage na realidade. Seja lá quem for e como for, tudo que for feito, pensado ou intencionado, trará uma proporcional consequência. Assim sendo, nada mais inteligente e útil do que tentar pautar suas ideias, ações e intenções em coisas coerentes, produtivas, positivas, que vão te retornar benefícios ao invés de prejuízos, que vão te abrir caminhos ao invés de lhe fechar portas, que vão lhe tornar alguém mais esclarecido ao invés de alguém mais facilmente enganado, que vão lhe dar mais paz ao invés de lhe tornar alguém que muito odeia e se torna inconveniente por isso.

Você pode jogar pedras para o alto, livremente. A liberdade é justamente poder fazer o que se quer, mesmo que seja uma idiotice completa. Contudo, em toda liberdade existe o preço da responsabilidade com a colheita obrigatória das consequências. Nada que fazemos vem sem consequências, mesmo que elas demorem a chegar ou a serem notadas. Inclusive, é justamente entre os ignorantes que estão as pessoas que menos notam a consequência das coisas, sendo isso, portanto, o principal motivo pelas decisões pouco inteligentes destes indivíduos. Quando assistimos conteúdos de humor, rimos, muitas vezes, das trapalhadas que o ser humano consegue fazer ou dizer. De alguma forma, rimos daquilo que nos parece incabível demais pra ser levado a sério. Contudo, séries de desenho animado como “Os Simpsons”, nos faz lembrar que grande parte da sociedade real é passível de piada. Se procurarmos com um pouco mais de sinceridade, certamente encontraremos em muitos de nós, inúmeras atitudes, pensamentos ou intenções, que nos tornam ridículos. Sabendo disso, precisamos estar preparados para lidar com essas questões, muito além do simples ato de rir e esquecer de tudo após o fim de um episódio televisivo.

A ignorância é o que faz, por exemplo, uma pessoa ser vítima fácil de uma notícia falsa ou um estelionatário. Quem desconhece a realidade, acaba por ser como um papel em branco que tudo aceita. Aquele que nada conhece sobre a vida, não tem parâmetros e nem memória pra se orientar sobre o que é suspeito, estranho, problemático, falho, inverídico, perigoso, etc. A criança que nunca viu o fogo agir, certamente, corre o risco de queimar a mão diante da curiosidade pela chama luminosa. O esclarecimento sobre os perigos do fogo e a reiteração de que o fogo é perigoso, através das demonstrações de como ele sobreaquece tudo, como ele destrói as coisas e como ele pode sair de controle se for negligenciado, são formas de instruir uma criança ou leigo sobre o funcionamento do fogo, o uso correto desta ferramenta e as precauções diante do tema. De maneira semelhante, instruir pessoas na sociedade sobre todas as demais questões, as ajudará a lidar melhor naquilo que elas não possuem, inicialmente, nenhuma prática ou afinidade.

Em situações difíceis como a do Brasil nos diversos setores, é preciso, mais do que tudo, investir pesado na transformação das pessoas, no discernimento da realidade, na valorização de si mesmas, na valorização do raciocínio, do conhecimento, da intelectualidade, do embasamento, do discurso, da reflexão e do preparo pra que estas pessoas transformadas sejam também agentes de transformação nos próximos indivíduos. É desse ciclo perpétuo que extrairemos alguma chance de nos tornarmos um coletivo que consegue desfrutar de cada vez mais qualidade de vida. Qualquer país com qualidade de vida (e, claramente, Estados Unidos e Brasil não são um deles), o investimento no que realmente importa é a prioridade sempre. No Brasil, a maioria dos políticos, por questões de agenda ideológica, parece ter como principal atividade a desvalorização de tudo que é urgente, justamente para enfraquecer a mente do brasileiro médio, tornando-o mais fácil de ser controlado e subjugado. É tarefa constante para tais políticos mencionados, ampliar, dia após dia, os mecanismos de cerceamento da autonomia, do aprendizado, da liberdade e da reflexão, tal como os exploradores da vida alheia que colocam cabrestos em cavalos e similares, para melhor poder conduzi-los até o destino, sem que os animais se distraiam com os perigos que os circundam. Aliado ao cabresto, está o freio, um mecanismo covarde colocado na boca do cavalo, que tensiona a língua para que ele desista de uma reação livre, pelo condicionamento à punição que é controlada pelas rédeas do explorador que o monta.

Para se ver próximo da tão sonhada liberdade e qualidade de vida, é preciso se aproximar de tudo que alguém lhe oferece rumo à transformação do seu ser. De nada adiantará ter acesso à uma Universidade, por exemplo, se sua consciência política e social é nula. De nada servirá um salário, se lhe falta discernimento sobre como fazer bom proveito do dinheiro. Toda conquista social deve incluir avanços paralelos em todos os setores. Entender seus direitos, seus valores e seus potenciais, lhe ajudará a tomar decisões mais inteligentes e úteis em tudo que você for fazer ou falar. Quando você tem bem claro na sua mente quais são as prioridades em determinado assunto, você consegue agir de forma coerente, se afastando da ignorância e, portanto, das consequências tristes dela. Em resumo, você ganha qualidade de vida, colhe coisas úteis por saber como plantar coisas úteis. Essa regra de realidade nunca vai mudar. Quanto mais você aprende, mais você reforça essa verdade. E quanto mais verdades um coletivo conhece, mais força tem pra exigir o necessário.

Se você observar a sociedade ao redor, verá um mar de gente errando e errando muito. Embora hajam todos os níveis de equívoco em uma sociedade, se a maior parte da população fica largada ao acaso, o grau dos erros começam a subir pra todos em velocidade espantosa. Por isso, a base é sempre a prioridade de uma ação. Você deve sempre tentar apoiar e instruir as pessoas que estão iniciando a jornada na vida. Repassar seu conhecimento e suas ferramentas de transformação para crianças, adolescentes, cidadãos que estão começando a ter noção de História, de Política, de Sociologia, de Economia, de Trabalho ou qualquer tema primário que afete ele diretamente em sua existência no coletivo. Você nunca conseguirá fazer uma pessoa vencer a si mesma, se negar-lhe o direito de se conhecer e de conhecer o mundo. Se a informação e o esclarecimento não chega em todos os cantos, é papel dos detentores da informação, levar isso a quem não tem. Mas, esteja atento! Isso não pode ser, jamais, um pretexto para o nefasto papel de levar ainda mais alienação às pessoas. Você não pode usar o pretexto da informação, para iludir pessoas, desinformá-las sobre a verdade, convencê-las a força de suas crenças ou preferências pessoais, fomentar pensamentos equivocados ou preconceitos, entre outros lixos tóxicos. Há uma frase de Paulo Freire que diz:

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”

A liberdade conquistada, quando realmente é uma liberdade, visa transformar o entorno em um coletivo igualmente livre. Aquele que desperta de alguma ilusão qualquer que seja, caso veja-se livre pela visão obtida, deseja que o próximo também tenha o direito a esta percepção. Mas, entenda que o direito não é um dever. Retornamos para a ideia de que as pessoas devem ser livres inclusive para errar, senão não é liberdade de fato. Montar uma casa em cima de um frágil bambu é um direito, mas tal ignorância de ato não virá sem uma consequência automática, como já explicado inicialmente. Dito tudo isso, quando uma pessoa conquista o direito de pensar o que quiser, ela arca com as consequências da gerência que faz de seus próprios pensamentos e atos derivados. Agora comece a pensar na consequência de tapar os olhos e a mente diante dos riscos de uma casa em cima de um bambu; de idolatrar políticos imorais que financiam notícias falsas pra tirar proveito fácil de ignorantes que acreditam em tudo; de pseudo-jornalistas que plantam o medo e a discórdia na população ignorante que torna-se facilmente reativa e inconsequente; dos carrascos que riem da cara de seus apoiadores que são pisados e usados em benefício próprio, etc.

A ignorância nunca lhe trará nada de bom, apenas prejuízos. Você nunca se verá livre, próspero, satisfeito, feliz ou com qualidade de vida, por manter-se ignorante sobre as coisas. Não conheço ninguém que prefira ser enganado por um estelionatário ou alguém que prefira ter a casa ruindo ao chão. Se ninguém quer levar prejuízo, porque é que algumas pessoas continuam fazendo as decisões erradas? Porque será que continuam construindo casas em cima de bambus e continuam desinformadas sobre a vida que lhes usa e abusa? A resposta é simples e direta: a ignorância está presente. A boa notícia é que ninguém precisa se contentar com a ignorância, podendo sempre dar espaço pra que ela venha a ser limpa, transformada e substituída em algo que agregue conhecimento, noção, valores, princípios, dignidade, compreensão, visão, velocidade de reação, etc. Quando você investe em você mesmo, se livrando da ignorância, você entende, entre outras coisas, que você é livre pra pensar sozinho, pensar fundo, pensar diferente, pensar de forma mais complexa e completa. Quando você rejeita a ignorância, você se ajuda, você constrói sua vida de maneira mais realista e assertiva. Foi assim com o pedreiro que aprendeu a fazer colunas e vigas, a montar lajes e paredes e a discernir a quantidade necessária de concreto, pra consolidar uma ideia de projeto. Tão importante quanto sonhar / desejar ter a casa construída, é saber como funciona a construção e quais os assuntos que você vai precisar dominar antes de se arriscar debaixo de toneladas de concreto.

Com essa analogia da construção, coloque-se no papel de morador de sua própria vida. Comece a construir sua sociedade, seu bairro, sua escola, sua família, seu grupo de trabalho, seu círculo de amizades, seu espaço de informação e apoio na internet, suas fontes de aprendizado, seu espaços para exercer arte, cultura, reflexão, interpretação de texto, interpretação da realidade, observação crítica e observação criteriosa. Comece a tomar voz para si e comece a ser independente. Como diz o ditado popular, a plantação é opcional às vezes, mas a colheita é sempre obrigatória. Então, escolha com muito carinho as sementes que você vai plantar, porque lá na frente, mesmo que você não tenha capacidade ainda de perceber, virão as consequências de tudo que você foi, fez, pensou, disse e apoiou. Não se deixe levar pelas coisas simplistas, evitando, assim, ser enganado e tropeçar justamente nos problemas que tentaram te vender como soluções. Abra o olho, senão vão implementar ainda mais projetos pra te manter em uma ignorância ainda mais funda. O sonho de muitos exploradores é ver seus explorados convencidos de que não estão sendo explorados, mas apoiados. As vítimas que se deixam levar por essa imensa ilusão, são descritas como tendo a chamada ‘Síndrome de Estocolmo’, onde o oprimido admira seu próprio opressor.

Esse texto se encerra subitamente, justamente pra criar o espaço necessário pra você exercitar sua autonomia e começar a completar o espaço com seus próprios pensamentos, a reflexão de tudo que aqui foi apontado e a oportunidade de, talvez, começar a planejar melhor o que é que você vai construir no presente, pra não se ver ainda mais derrotado no futuro. Seja lá qual for sua condição, estarei aqui pra continuar meu papel de luta, de esforço pela informação. Desejo que todos um dia, cedo ou tarde, encontrem-se no meio da realidade e consigam, pelo menos, compreender que precisam mergulhar mais a fundo e com sincera autonomia, pra conseguir chegar no bem-estar pessoal e coletivo que desejam, mesmo que estejam perdidos por uma vida confusa de conflitos e sentimentos desconexos, mesmo que tenham caído no equívoco do vício pelo ódio gratuito, pelas ações violentas ou desonestas. Se não é possível mudar as sementes plantadas no passado é, porém, possível escolher quais sementes plantar no presente e ter uma colheita melhor no futuro. Faça sua parte e, se precisar, solicite ajuda, sem precisar sentir vergonha, medo ou qualquer outra coisa que seja uma barreira pra sua mudança. Obrigado por ler e até breve.

Rodrigo Meyer

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O lado bom da ignorância.

É difícil imaginar que haja algo de positivo na ignorância, mas existe. Quando nos envolvemos com tantas pessoas e situações, observamos detalhes e refletimos sobre como aquilo pode ajudar a um determinado objetivo.

No caso da ignorância, o lado positivo é justamente quando as pessoas espalham ‘acidentalmente’ ideias que ajudam a combater a ignorância no mundo. Um exemplo simples disso é quando alguém gosta de uma música ou banda e, mesmo nunca tendo conhecido suas letras, compartilha tais conteúdos e ajuda a levar essas mensagens adiante, por torná-las mais visíveis diante do público. Ironicamente, há quem divulgue seus próprios inimigos, por assim dizer. Existem, por exemplo, racistas que divulgam bandas cuja letra e postura são de combate ao racismo. Exemplos cômicos desse tipo estão em todo tipo de conteúdo, já que as pessoas que figuram na ignorância das coisas, pouco discernem sobre aquilo que consomem.

Entre os ignorantes, temos eficientes propagadores de conteúdo, já que eles são motivados por impulsos e não por entendimento complexo daquilo com que se deparam. Quando uma pessoa não fala inglês e está diante de uma música em inglês, pode ser levada a gostar do clima da música, da melodia ou mesmo do aspecto visual de um clipe ou do próprio artista. Assim, fica mais propenso a espalhar esse conteúdo, apesar de não ter refletido sobre o que aquela letra carregava. No caso de ser um conteúdo positivo, a ignorância foi útil, por facilitar a propagação. Mas, claro, ocorre também o contrário, quando não temos domínio de um idioma e acabamos compartilhando conteúdos ruins.

De toda forma, não se pode dizer que não exista um lado positivo na ignorância. Durante minha interação com grupos de amigos, especialmente os que estavam voltados a aprendizados específicos de História, Cultura e similares, brincava muito com a expressão ‘easter egg‘, que para os entusiastas de informática refere-se aos elementos surpresas que eram escondidos dentro de softwares (geralmente) pelas mãos daqueles que estiveram envolvidos na programação desses softwares. Na vida, existem muitos ‘easter eggs‘ espalhados em construções, livros, filmes, desenhos animados, relacionamentos, etc. Desde que o ser humano aprendeu o poder da disseminação das coisas populares, percebeu potencial em embutir suas próprias ideias nestas coisas. Se os autores de certos textos sobre práticas de xamanismo, magia sexual e iluminação espiritual, soubessem que seus originais enterrados no deserto seriam selecionados e compilados para compor a bíblia, certamente teriam produzido e enterrado muito mais, devido ao potencial que tal livro teria de ser espalhado junto com seus conteúdos originais pretendidos.

Acredito muito nessa ferramenta e conheço inúmeros casos onde ela é propositalmente usada para facilitar a propagação. Tal como um vírus que se espalha por uma epidemia, através da movimentação de seus portadores. Na época da ditadura, por exemplo, mesmo com a presença da censura nas mídias, muito se conseguiu comunicar fazendo uso de metáforas para assuntos que não poderiam ser comunicados explicitamente. A mensagem sobrevive, segue imune a censura e ainda por cima é propagada por todos de forma irrestrita, já que não é mal vista nem pelos leigos, nem pelos conhecedores. O doce sabor da ignorância, a favor do combate da própria ignorância.

Embora isso seja mais instigante em determinados contextos, é algo completamente corriqueiro em todo tipo de iniciativa pelo mundo. Se você já dividiu uma roda de amigos e ficou sem entender nada sobre uma conversa ou piada, você sabe como é eficiente a chamada ‘piada interna’, onde somente os envolvidos no assunto original conseguem decifrar o que está sendo dito de forma pública. Assim também foi feito em tempos de guerra quando se codificavam textos, sons ou sinais de código morse. Conteúdos importantes também foram embutidos em pinturas e ornamentos de arquitetura. Obras de inúmeros artistas, como Leonardo Da Vinci, por exemplo, trazem detalhes sobre outros assuntos que, aparentemente, não são o tema apresentado publicamente em tais obras. Nas construções tradicionais de igrejas e castelos, por exemplo, você pode encontrar a chamada ‘geometria sagrada’ que remete a simbolismos através de derivações de certas estruturas geométricas, para comunicar princípios e ensinamentos de outra temática que não a da religião em si a qual esses prédios ou instituições propagam publicamente, em teoria. No caso das igrejas, catedrais e muitos dos castelos, é o exato caso de chamarmos tais adições de ‘easter eggs‘, pelo fato de que seus construtores e arquitetos eram os que embutiam esses conhecimentos secretos pra que perdurassem e só fossem notados pelos que estivessem aptos a tal.

Desde sempre a humanidade ajuda a combater a ignorância sem sequer saber que está trabalhando pra tal objetivo. Quando você se entusiasma por filmes como Matrix, por exemplo, é levado a memorizar e espalhar a cultura em torno do filme, tendo muita informação carregada junto, em detalhes como o nome de um personagem, de uma nave ou o simbolismo por trás de uma cena. Embora tenhamos uma suposta liberdade de comunicar nossos pensamentos e ideias, nem sempre isso será conveniente, pois muita gente leiga poderá se opor e até boicotar determinados conteúdos, se souberem que algo ali possa estar conflitando com sua bolha de impressões sobre a realidade ou mesmo de seus objetivos e interesses principais. Assim, a eficiência no ‘easter egg‘ é justamente passar desapercebido do público comum e depender de outros conhecimentos pra ser encontrado e/ou decifrado. Assim, enquanto a maioria das pessoas não estão prontas pra absorver o conteúdo escondido, elas se ocupam em propagar o conteúdo geral, fortalecendo, assim, a longevidade da informação anexada.

Há um ditado que diz que a melhor forma de esconder um tesouro é deixá-lo exposto. Isso mostra que a maior eficiência no sigilo de uma informação depende tão somente do nível de compreensão das pessoas. Se muita gente passa por uma pedra na rua e não vê nada de relevante nela, nunca terão a intenção de procurar tesouros em algo tão improvável. Por vezes, algo muito popular é banal o suficiente pra se tornar o melhor disfarce ou esconderijo para algo importante. Costumo sempre espalhar a frase “nunca subestime algo ou alguém pela aparência, pois um rei pode se disfarçar de mendigo se lhe for conveniente”. Uma metáfora simples pra dizer que, muito conteúdo de valor pode estar escondido em textos, letras de música, pinturas, softwares, sites, construções, conversas, etc. Aliás, oportuno momento pra dizer quanta coisa incrível eu absorvi na interação com moradores de rua. Enquanto muita gente os evita por conta de suas roupas gastas ou sujas, pessoas sem preconceito podem ter a grata oportunidade de traçar conversas incríveis, pra conhecer histórias, personalidades, conhecimentos, visões de mundo, etc.

Lembro, com sorriso no rosto, das diversas vezes em que vi pessoas na internet compartilhando músicas que basicamente falavam de assuntos aos quais elas mesmas se opunham ideologicamente. Um bom exemplo de como um conteúdo bem construído ou fácil de ser espalhado contagia até mesmo os inimigos a levar nossa mensagem adiante. Eu chamo isso de ‘colocar o inimigo pra trabalhar’. Sempre repito isso por onde passo, pois acredito muito no potencial dos ignorantes de serem úteis para o combate da ignorância no mundo. Sempre coloque os inimigos a seu favor e os faça trabalhar pela sua ideia, sua mensagem, sua arte, seu trabalho, seu objetivo, etc. Por eles não estarem cientes daquilo que estão espalhando junto, estarão mais favoráveis para a ação, sem defesa, sem resistência, sem críticas. Mas, ao mesmo tempo, tome cuidado com essa ideia, pois assim como é usada para espalhar o bem também é para espalhar todo tipo de entulho. Disfarçados e embutidos atrás de instituições, empresas, religiões, ideologias, discursos políticos, estão inúmeras armadilhas para fisgar incautos para que disseminem junto os discursos de ódio, o racismo, o machismo, a xenofobia, o consumismo, a exploração humana e animal, a normalização da degeneração da ética e da justiça, etc.

Portanto, em conclusão, mesmo que a ferramenta esteja acessível, é preciso saber usá-la e não ser vítima dela mesma quando estiver diante de outros utilizadores. Assim, a melhor recomendação é sempre se abster da ignorância e pensar por conta própria, ter independência e disposição pra buscar conhecimento e não ser apenas um papagaio que tudo repete sem reflexão, sem entendimento. Esteja diante dos conteúdos com um olhar curioso e com a mente aberta e neutra. Eliminando os preconceitos de sua mente, você estará apto a descobrir tesouros escondidos na própria realidade e até em você mesmo. Seja como aqueles poucos que não ignoram a pedra na rua por classificá-la como banal. Olhe pra realidade como uma infinitude de coisas e situações abarrotadas de potencial para serem algo mais. Permita-se ouvir uma música e refletir o que aquela letra comunica além das aparências iniciais.

Coloque-se no mundo como se estivesse decifrando códigos ou como se estivesse tentando estar por dentro da realidade em tempos de censura. Você verá que uma obra é sempre muito mais do que parece. Não digo que todo criador tenha embutido propositalmente algum segredo ou significado adicional em suas expressões, mas com certeza toda obra carrega algo de oculto, mesmo que seja apenas por ação inconsciente ou por tradição, tal como um arquiteto moderno que, mesmo se eventualmente não souber do simbolismo da geometria sagrada, poderá replicá-la pela tradição da estética. E mesmo quando não é este o caso, expressões tem sempre algo extra que podemos aprender, se tivermos com os olhos prontos. Até mesmo diante do vazio e do banal, há o que se extrair. Foi exatamente assim que descobri que mesmo na ignorância havia algo de positivo. Eis tudo o que ela me permitiu encontrar.

Rodrigo Meyer

Seu medo, seu inimigo.

Na temática da autossabotagem, o medo ganha disparado. Indivíduos que baseiam suas vidas em uma grade constante de medo, estão sempre paralisados e aquém de seus potenciais. O motivo é muito simples. A medida em que determinam aquilo do qual possuem incerteza, insegurança, receio ou pouca resolução, tornam-se resistentes a isso, no sentido de armar uma postura de defesa, de recusa. E, claro, se recusamos algo, ficamos sem.

O ser humano consegue desenvolver muitas nuances de medo e consegue controlar também como e quando isso o afeta, desde que esteja em domínio na causa do medo ou do tema ao qual ele se refere. Há pessoas, por exemplo, que possuem medo de se envolver emocionalmente com outras e, por isso, recusam as oportunidades, incluso as positivas, apenas porque automatizaram uma defesa. Tal mecanismo de defesa, extensamente conhecido na Psicologia, faz as pessoas serem vítimas de si mesmas, antes de sequer terem a chance de se tornarem aquilo que não queriam inicialmente: tornarem-se vítimas de algo ou alguém.

Mas é claro que nada é tão simples como apenas definir o que sentir ou pensar sobre as coisas. A mente humana gera situações, ideais e estruturas com base em traumas, complexos e outros contextos que fragilizam o indivíduo a ponto de colocá-lo fora da lógica ou da naturalidade. A exemplo disso, algumas pessoas se sabotam, consciente ou inconscientemente, fugindo de monstros imaginários. Há quem sonhe com estilos de vida, empregos e todo tipo de realidade de carreira ou vida pessoal e, quando colocados a exercer essa jornada, recuam sob inúmeros pretextos. Alguns lançam mão do artifício de sentirem-se inaptos ou insuficientes pra tal feito. Vão dizer que não há saída pra eles ou que não podem aderir a algo, simplesmente porque as condições não permitem. É hora de criar mil e uma fantasias pra tornar aquela realidade desejada, porém assustadora, algo inalcançável. Começa, então, um show de desvios pouco racionais.

Sinta-se a vontade pra rir desse caso que vou usar de exemplo. É o primeiro que me vem na mente de forma instantânea. Trata-se de uma pessoa que passou a vida toda se queixando da vida difícil, dos poucos recursos financeiros, ao mesmo tempo em que, sempre que tinha qualquer progresso ou brecha para melhorar de situação, tomava alguma decisão que eliminasse as chances de desfrutar daquilo. Foi o caso, por exemplo, de quando, diante de uma promoção de cargo no emprego, decidiu pedir demissão ao invés de usufruir de um trabalho com melhores condições e muito melhor remunerado. Qualquer pessoa mentalmente saudável e sensata acharia um disparate essa conduta. Mas, pra uma pessoa que morre de medo de tornar-se próspera, qualquer porta pra essa guinada na vida era motivo pra se afastar, sem pensar muito. O único motivo pra se considerar esses medos patológicos é justamente a característica de oposição ao bem-estar da pessoa e da ausência de motivos racionais pra tal. Se pratica, por opção própria, uma conduta que não a ajuda a se sentir melhor ou a viver em melhores condições, então vê-se aí uma situação doentia.

Ainda nesse exemplo citado, a pessoa sentia-se tão apavorada com a ideia de prosperar, que sempre que tinha a sorte de conquistar algum dinheiro, fazia o pior uso possível desse dinheiro, exterminando ele em pouco tempo com algo completamente desnecessário. Uma vez compreendida a estrutura desse tipo de autossabotagem, pode-se imaginar inúmeros outros casos em todas as temáticas da vida, onde as pessoas simplesmente inventam motivos pra continuarem insatisfeitas com a vida. Cutucando suas mentes, voltando ao tempo da infância (provavelmente), frequentemente encontram as razões pelas quais sentem-se pouco merecedoras dos benefícios da vida ou da própria liberdade em viver. Quase sempre é uma interpretação automática da mente depois de associar que a postura ou palavra depreciativas de alguma figura importante (como um pai ou mãe) tenham sido convertidos em uma espécie de impressão sobre si mesmo com base nesse critério. Em resumo, é como se a mente da criança complexada pensasse: “se meus pais não me enalteceram, então eu não tenho valor” ou “se meus pais me diminuíram, então não tenho valor” ou ainda “se meus pais estavam ausentes, é porque eu não era importante pra merecer a presença deles”. Esse tipo de associação fácil é comum, mas é uma falha da mente, especialmente na infância em pessoas com baixa autoestima ou de mente mais frágil.

Contextos similares podem fazer as pessoas terem condutas de autossabotagem sem perceber que tudo aquilo de que fogem, pode simplesmente ser uma fantasia desnecessária. Ao mesmo tempo em que sentem-se mal pelos reveses que elas mesmas criam, não conseguem parar de criar. Essa automação na mente e nas condutas diante das decisões, pensamentos e relacionamentos, pode gerar uma espécie de personagem que toma o lugar do indivíduo, como que se já tivesse se esquecido quem ele é ou poderia ser, depois de ter passado tanto tempo endossando a figura diminuída, frágil, lida como incapaz ou não merecedora. Reverter essa visão e essa automação é uma tarefa que o indivíduo está habilitado a fazer, se assim quiser. O sucesso disso depende de quanta noção e disposição ele tem pra varrer e transformar a si mesmo. Não é fácil encontrar-se diante do espelho e falar umas boas verdades, antes de se estar devidamente imune ao peso delas. O caso é que verdades só pesam para quem as evita. Tão imaginário quanto os equívocos dos complexos é essa visão de que verdades são incômodas. Quando estamos em posição de querer viver melhor ao invés de nos prejudicar, a verdade torna-se algo que desejamos com afinco a ponto de sentirmos prazer e alívio em lidar com ela. E é tão somente isso que deve ser a vida.

Agora que sabemos que o medo é nosso inimigo, se não quisermos paralisar diante de nosso potencial na vida, precisamos reforçar nossas escolhas, nosso pensamento, nossa autoestima, nossa mente, revendo nossos problemas de infância, nossas crenças, nossas aceitações e recusas diante das figuras que julgamos importante, inclusive a que deveria ser a mais importante de todas: nós mesmos. Se tomarmos a iniciativa de nos presentear todos os dias com coisas boas, evitamos de fechar nossas portas para uma jornada melhor, maior ou, pelo menos, mais interessante. Não é o caso de pensar que, apenas tendo autoestima e coerência com nossas decisões, já seremos as pessoas mais sortudas do mundo, mas sempre que estivermos diante de alguma situação de oportunidade, teremos, ao menos, condições de tentarmos, de aceitarmos o que nos vem e fazermos o nosso melhor com aquilo. O que estiver ao nosso alcance, devemos fazer pleno uso e o que não puder, tudo bem. A vida começa a fazer um sentido diferente, quando percebemos que ela não é nem o passado, nem o futuro, mas exatamente o momento vivido em cada ocasião. Sinta-se livre pra desfrutar da vida, pois é basicamente isso que determina o resultado da equação. Uma vida melhor, está atrelada ao quanto pudemos aproveitar dos momentos e ter isso como nosso histórico na mente e nas relações com o mundo. Como em um jogo de xadrez, cada novo passo que damos, interfere nas novas opções que teremos em seguida. Não jogar não nos faz vencer e nos sabotar nos faz perder sem necessidade.

Rodrigo Meyer

O jeito certo de se apontar um problema.

Primeiro, vamos esclarecer que crítica é sempre construtiva, porque crítica não é ofensa. Fazer uma crítica é elencar os pontos positivos e negativos de algo e ponderar o que poderia ser diferente, melhor ou que poderia ser suprimido, adicionado, etc. Entendido isso, o melhor jeito de se apontar um problema é deixando, junto, uma sugestão de solução. Desenvolvamos esse assunto.

É muito oportuno poder observar e identificar aquilo que não funciona bem no mundo, nas pessoas, nas situações, em nós mesmos, nos projetos ou nos produtos e serviços, mas o ser humano quando está sobrecarregado, raramente consegue olhar pra algo sem se envolver emocionalmente ou sem reagir de forma desproporcional. Isso faz com que reaja apenas apontando erros, sem deixar solução alguma. E isso, ironicamente, é mais um erro depositado ao mundo. Se queremos ver soluções no lugar dos erros, devemos agir diferente.

Quando observar, por exemplo, um artista apresentando uma obra, você tem a oportunidade de dar seu ponto de vista, citando os aspectos que lhe agradou e aquilo que notou de falho, insuficiente ou incômodo. Algo simples como dizer “Gostei do conceito e das cores e acho que, por ser uma obra mais figurativa, poderia lapidar o volume ou iluminação nesta região, para uma dimensão mais realista ou mais convincente. A proporção da tela parece bem adequada pro tipo de composição e essa região avermelhada me passou a sensação de um ambiente ou momento feliz.”. Está feita uma crítica eficiente e agora o artista terá a oportunidade de refletir sobre isso, estudar o que achar necessário e tentar melhorias nas próximas criações.

Você pode fazer algo similar em tudo onde tiver algo para acrescentar sobre seu entendimento ou suas impressões sobre algo. Claro que nem sempre é preciso prestar sua opinião, mas se desejar colaborar, a crítica é uma opção. Nem sempre as pessoas que vão receber a crítica estão preparadas pra tal. Muita gente no mundo solicita opiniões já esperando ouvir apenas comentários positivos, elogios, etc. Para este tipo de pessoa, não é fácil adicionar informação e geralmente, por isso mesmo, elas estagnam em suas criações. Se notar que alguém não é receptivo a críticas, você pode simplesmente evitar aquela pessoa e dedicar sua atenção, tempo e conhecimento para quem esteja querendo aprimorar algo.

E as críticas não servem apenas pra avaliar uma tela, um texto, um filme, uma música ou uma apresentação de dança. Este recurso é necessário em tudo que vamos fazer, inclusive dentro de nós mesmos, sob nossa própria análise. A crítica, seja lá de onde venha, deve ser sempre a ponderação realista dos detalhes, dos aspectos, das condições. Podemos, por exemplo, olhar pra dentro de nós e refletir que talvez devamos ser mais cautelosos, mais ousados, menos ousados ou que devamos tentar um outro horário de almoço ou de sono. Mas, isso não pode ser algo arbitrário. Deve sempre ter um propósito de esclarecer e aprimorar. Toda solução sugerida deve ter algum embasamento junto ao que foi observado de problema. Talvez a mudança de um hábito pessoal possa ser percebida como necessária depois de nos vermos mais cansados, tristes ou improdutivos no modelo anterior. E se quisermos ajudar a nós mesmos, eis aí uma boa crítica que podemos fazer.

Assim é com tudo no mundo. Você pode dizer isso ao seu companheiro de trabalho, parceiro de relacionamento, amigo, funcionário de uma loja, ao serviço de atendimento ao consumidor de uma empresa, ao produtor de conteúdo na internet, autor de um livro, um parente, etc. Onde houver gente, há o que ser observado e criticado. Dar seu parecer, especialmente quando solicitado, dará a oportunidade do mundo melhorar, se os responsáveis quiserem aprender algo com o que ouvem das pessoas ao redor. Todos saem ganhando com esse tipo de iniciativa. O mundo só se tornou avesso a críticas porque se acostumou a ouvir ofensa no lugar delas e a acreditar que as ofensas eram as tais críticas. É evidente que ninguém estará interessado de ouvir ofensas, mas, como já dito, críticas não são ofensas. Descarte as ofensas e seja desejoso por críticas o tempo todo. É com elas que poderemos notar algo que não víamos e aprender algo novo.

Se durante nossa alfabetização nunca tivessem corrigido nossas trocas de letras na leitura ou escrita, jamais teríamos nos elevado ao nível de poder ler e escrever corretamente ou com facilidade. É por termos nos permitido aprender desde sempre, que superamos os tropeços e inabilidades da infância e pudemos desfrutar de uma posição melhor quando adultos. Independente do ritmo em que cada um vai, o importante é estar aberto para receber e dar críticas sempre que houver espaço pra tal. Nosso papel na sociedade é muito mais do que apenas nos fecharmos em nós mesmos. Viver em sociedade é justamente o oposto da postura de egoísmo, uma vez que tudo que temos, somos e fazemos tem impacto no mundo e é dependente do entorno. A somatória de como cada indivíduo é, determina como o coletivo será. Essa relação de troca útil e harmoniosa entre as pessoas, é o que te dá instrumentos para vencer. E se você deseja crescer, eis aqui a minha crítica ofertada. Espero que ela seja útil pra você fazer seus ajustes.

Rodrigo Meyer

Receita para suprir o vazio.

Viver é um desafio. A vida é um mistério que precisa ser desvendado, uma vez que não vem com manual de instrução ou com objetivos predeterminados. Se deparar com a vida e ter que decidir o que fazer dela é uma tarefa que, pra muitos de nós, leva todo o tempo e, mesmo assim, pode não chegar em nenhuma solução satisfatória. Fato é que muitas pessoas sentem uma sensação de vazio diante da vida e tentam completar esse vazio com coisas igualmente vazias. Parece óbvio, mas está em alta a necessidade de se dizer obviedades, então digo que se as pessoas querem preencher seus vazios, não devem fazer isso com coisas vazias. Mas, o que são esses vazios?

Quando sentimos um vazio na vida, esse termo pode representar uma sensação de que o sentido para a vida é superficial ou insuficiente ou que a vida não parece ofertar valor apesar das coisas que existem e ocorrem (ou exatamente pelas coisas que existem e ocorrem). Superar essa sensação de vazio na vida é uma tarefa de cunho psicológico e filosófico, por vezes com algum viés da meditação, da postura diante do mundo, dos preceitos de espiritualidade, etc. Mas quando tentamos suprir esse sentido da vida, que é algo tão importante, com paliativos ilusórios, é claro que não haverá resultado satisfatório. É como ter fome e ingerir água pra tentar suprir. Por algum tempo você pode até enganar a fome, enchendo seu estômago de líquido, mas se a nutrição pela comida não ocorre, a água será inútil no final das contas.

Tentar levar uma vida com o máximo de satisfação possível é a meta de qualquer pessoa. A menos que a mente da pessoa esteja demasiadamente adoentada para chegar a corromper essa premissa, entende-se que todo ser humano deseja, a princípio, ter uma vida satisfatória, com tranquilidade, felicidade, conforto, etc. Quando não encontramos essa qualidade de vida, nos colocamos a pensar nas razões para esse insucesso. As pessoas que passam por essa reflexão podem chegar a sentir a vida pesada, desinteressante, cansativa, injusta ou até mesmo desnecessária e insuportável. É o caso de muitos que adentram pra depressão, pra abuso de drogas de todo tipo, incluso os medicamentos e produtos legalizados e as demais substâncias.

Em todo canto se vê pessoas buscando soluções para seus problemas, mas sem buscar soluções realistas. Veem-se com insônia, por exemplo, mas ao invés de resolver a causa da insônia, apenas se dopam com algum medicamento que as faça cair em um sono forçado. É evidente que essa qualidade de sono não reflete o mesmo benefício de um sono que ocorre naturalmente e de forma tranquila. Além disso, o uso constante destas medicações pode fazer as pessoas desenvolverem adicionais problemas na saúde e na mente. Como se não bastasse, condicionam a si mesmas a só dormirem mediante o uso destas substâncias, o que as colocam em uma situação de dependência e infelicidade pela ausência de controle de algo simples como o sono. A percepção desse quadro psicológico, físico e até social, pode transformar essas pessoas em geradoras de seus próprios problemas. A infelicidade e a má saúde plantadas nesse modelo de vida gera ainda mais motivos para a insônia e elas entram em um círculo vicioso de problemas.

Preencher o vazio com vazio não funciona. E como é que eu, na minha posição, poderei dizer o que é que cada pessoa pode ou deve fazer pra suprir seus vazios? Simplesmente não posso. Tudo que me cabe é tentar esmiuçar o tema e entregar algumas informações aprendidas ao longo da vida, sobre medicina, psicologia, meditação, espiritualidade e um pouco de empirismo na busca de minha própria libertação. Eu tive depressão por grande parte da minha vida e nunca havia me imaginado fora desse quadro. Acreditava que estaria fadado a uma morte precoce. Durante grande parte desse percurso eu fiz aquilo que estava mais propenso a fazer: nada. Eu me rendi de forma a ter muitos e muitos anos de sono, isolamento, procrastinação, sedentarismo, pouca ou nula socialização e uma constante vontade de desistir de toda e qualquer atividade. Mas, por incrível que pareça, foi exatamente por não fazer nada que tive tempo de observar, analisar e compreender a situação, minha mente, a realidade do mundo, entre tantas coisas. Foi nesse período que pude transformar algo aparentemente infértil na melhor plantação que eu poderia fazer.

Durante meus anos de reclusão, pude sentar diante do espelho, simbolicamente, olhar pra dentro de mim e refletir com sinceridade sobre quem eu era, o que eu queria, o que eu fazia, o que era ilusório, o que era útil. Aprendi muito comigo mesmo. Dizem que todos nós temos um mestre interior, que alguns chamam de ‘Eu Superior’. Talvez seja essa a explicação sobre a capacidade do ser humano de meditar, conversar consigo mesmo e superar barreiras. Por vezes, percebemos que nós mesmos é que inventamos barreiras por conta de nossas crenças, hábitos, imaginações, etc. E isso deixa uma lição importante: somos poderosos! Temos poder de determinar muita coisa para nós mesmos. Da mesma forma que nos submetemos a situações indesejadas, podemos fazer o mesmo para situações melhores. Não posso afirmar que controlamos toda nossa vida, mas controlamos, ao menos, como nos sentir diante da vida e o que fazer com a situação que nos é apresentada.

Em tempos de depressão, tapava meu vazio e afogava minha dor com sono, álcool, comida, isolamento, direção em alta velocidade e permeando um universo de cultura ou estilo de vida de companhias que estavam igualmente ruins ou até piores que eu. Estava claro pra mim que nada daquilo que eu estava fazendo resolveria meus problemas, mas eu já não estava querendo solução pro vazio, mas apenas soluções para estes novos problemas que eu adotei. Queria algo que pudesse resolver esse estilo de vida destrutivo. Estava preso, condicionado a viver uma realidade que já não desejava. E não desejava porque percebia, finalmente, que tudo aquilo era igualmente vazio e que não poderia servir pra suprir o meu vazio sobre a vida. Então, ao menos pra mim, resolver o dilema da vida foi simplesmente me recusar a opções rasas e ilusórias. Comecei a ser exigente comigo mesmo e com os outros. Me coloquei contra pessoas e ideias que não favoreciam os meus objetivos de me tornar uma pessoa livre, tranquila, feliz e preenchida.

Não foi fácil e nem foi rápido. A transição não foi exatamente contínua, uma vez que tive diversas recaídas. Porém, descobri que a cada vez que eu caía, ficava mais resistente aos danos e aprendia os sinais de quando eu estava me aproximando de uma recaída. Minha principal meta nos tempos de recuperação era me manter preenchido de pessoas e situações que realmente tinham valor. No fundo, era somente isso que eu queria mesmo, mas, por muitas vezes, na depressão, não tinha essas presenças ou as ignorava por desconfiança ou insegurança. Muitas vezes eu me boicotei, fechando minhas próprias portas e depois me via sem esperança em um mundo sem caminhos para seguir. Quando parei de andar em círculos, comecei a ver meu potencial surtir efeito simplesmente por ter colocado em prática, com confiança, sem medo, sem procrastinação.

Foi isso que me colocou em um estilo de vida funcional. Sempre que me sinto sobrecarregado com algo, meu instinto de defesa contra a depressão me faz agir e criar mais. Me considero uma pessoa muito ativa, quando comparo com as pessoas ao meu redor. De certo que temos atividades muito diferentes, não só pela quantidade, mas pelos objetivos, pela motivação essencial por trás de cada feito. Olho ao meu redor e vejo muita gente de cara amarrada, infelizes com seus empregos, com seus relacionamentos ou mesmo infelizes de maneira geral com a vida ou a sociedade. Raras vezes encontro pessoas que se permitem ser e fazer aquilo que as preenche verdadeiramente. Grande parte das pessoas buscam apenas válvulas de escape, tapando o sol com a peneira. Podem passar o tempo com isso, mas chegarão, cedo ou tarde, a mesma conclusão: de que não viveram e que continuam infelizes, sendo, provavelmente, ainda mais infelizes por terem desperdiçado tempo na contramão da solução.

O resumo é que temos que nos entregar a valores intrínsecos. Não adianta querer que uma garrafa de álcool, rostos conhecidos numa festa, noites de sexo, sono e comida, possam resolver um problema que não nasceu pela escassez de tudo isso. O vazio da vida não é o vazio por álcool, por sexo, por companhia, dinheiro ou sono, mas sim pela transmutação do indivíduo diante da percepção do valor intrínseco da própria vida. Trocando em outras palavras, o recheio que preenche a vida é a própria vida. É sentar-se em harmonia consigo no espelho e estar satisfeito com sua existência, em poder olhar pela janela e ver o céu, respirar, se presentear com uma refeição saborosa, um cuidado de saúde, um refino estético para contemplar sua própria expressão. A vida, no final das contas é dividir uma risada, mesmo que sóbrio, dedicar tempo em conversar, abraçar, sentir, se entregar, se entreter.

A vida é um espetáculo que nós mesmos dirigimos. Contracenamos com muita gente em múltiplos cenários. Cabe a nós, como atores e diretores, definir a mensagem, o timing, a trilha sonora, os planos, os closes, os cortes de cena e assim por diante. No final de tudo teremos um espetáculo digno de se assistir na memória, pelo que fizemos a nós mesmos e aos outros. Isso preenche, isso transborda. É isso que me faz acordar todo dia pra continuar, com disposição mental e física. É isso que me mantém esperançoso pelo meu futuro, independente da condição dos demais. E quando se tem paz, a pressa some e sobra disposição pra correr mais. E pra você, o que é que te satisfaz?

Rodrigo Meyer

Ignorância, arrogância, humildade e conhecimento.

A imagem que ilustra este texto apresenta o computador DEC VT100, exposto no Living Computer Museum.

Estamos experimentando tempos onde é preciso dizer obviedades. Precisamos falar das definições de dicionário, das noções básicas sobre os assuntos e coisas do tipo, nada muito diferente do que ocorreu em larga escala ao longo da história da humanidade. Então, fica dito, novamente, que ignorância não é sinônimo de humildade e conhecimento não é arrogância. É claro que, isoladamente, um indivíduo pode vir a expressar conhecimento e arrogância, por exemplo, mas isso não faz uma coisa ser sinônimo da outra. Não é pressuposto que mais conhecimento traga sempre junto uma conduta arrogante no indivíduo. O mesmo se pode dizer da humildade ao lado da ignorância.

O que faz muitas pessoas confundirem os termos é justamente a repetição de casos onde há essas misturas de características. É comum em nossa sociedade encontrarmos sujeitos que se gabam exageradamente de seus conhecimentos, tornando-se pessoas arrogantes, que usam desse suposto domínio de informações para se anunciar com vantagem e em tom de desprezo aos demais. Em um primeiro momento, numa leitura rasa, algumas pessoas conseguem até endossar essa situação como verdadeira, como se um sujeito que tenha (ou pareça ter) mais conhecimento, fosse, de fato, superior em valor ou dignidade. Mas assim que mergulham em uma análise mais realista e profunda, logo notam que o conhecimento suposto em indivíduos arrogantes, não trouxe nada muito além do que a memorização de algumas informações (por vezes equivocadas), pois conhecimento em si, é muito mais amplo e exigente do que isso.

É muito fácil quebrar esse elo entre o arrogante e o conhecimento. São indivíduos que desenvolveram tão pouco a vida e a mente, que, mesmo depois de tanto cruzarem com informações, livros, profissões e cenários de suposta experiência, ainda não absorveram entendimento de sua própria pequenez e ignorância. Já dizia o filósofo, “só sei que nada sei.”. É preciso estudo, absorção e transformação da mente pra se compreender nossas limitações e nossa insuficiência diante do conhecimento, uma vez que ele é infinito. Nada mais despreparado do que um indivíduo que toca o conhecimento e acredita estar em domínio pleno dele. Nestes moldes, o indivíduo cria sua própria ruína, cultivando ilusões e estagnando seu próprio avanço, uma vez que não se pode avançar além da informação completa. Tomar-se como parâmetro de perfeição é, na verdade, tornar-se o melhor exemplo de imperfeição e fracasso. Um bom começo para quem deseja ter algum entendimento da vida é debruçar-se sobre essa questão e começar a focar seus estudos na transformação que eles possibilitam e não nas informações em si.

De forma encadeada, tudo que um indivíduo tem pra poder se perceber em avanço no aprendizado está relacionado ao que ele se torna e não ao que ele consegue reter em memória. Computadores nasceram com a capacidade de reter informações, mas passaram a maior parte de sua história sem poder interpretar os dados que recebiam, exceto pelo viés técnico e matemático. Hoje, especula-se um novo meio de olhar para a informação, especialmente com a chamada ‘Inteligência Artificial’, mas, mesmo esta, no final das contas, muito se distancia da característica nata humana, pois ainda está perpetuando meros padrões matemáticos, ainda que de uma maneira muito mais complexa. Se há alguém que pode se gabar de seus feitos é um computador, pois entre seus semelhantes, seu valor enquanto unidade está justamente na comparação de seu potencial de processamento e retenção de dados. Para seres humanos, que não são cotados por este viés, tal método não se faz útil ou digno.

Do outro lado da corrente, as pessoas ditas ‘humildes’ por muitos, na verdade são apenas pessoas com pouco conhecimento. Mas tornou-se uma expressão comum chamar de ‘humilde’ pessoas leigas, com pouca escolaridade ou até mesmo com pobreza financeira. Entenda que humildade é uma característica da conduta humana e não do quanto essa pessoa possui em bens ou conhecimento. Humildade também não significa posicionar-se como capacho, abaixo de tudo e todos. Humildade, no final das contas, é colocar-se de maneira neutra, ao lado de outra pessoa, sem reduzir-se e sem reduzir ao outro. É não elevar-se, nem elevar ao outro. Estranhamente, a humildade é, na prática, a igualdade. De maneira surpreendente, para muitos, a humildade é se aperceber de sua própria ignorância, mesmo estando ciente do tudo que já conheceu ou foi. É estar a frente de sua própria evolução, sem sentir necessidade de exaltar isso como forma de se impor aos outros, de rebaixá-los ou controlá-los. Também é atitude de humildade quando alguém que nada tem ou nada sabe, permanece respeitoso e sensato diante dos demais, sem querer parecer ser melhor, maior, de mais valor, com mais conhecimento, poder, etc.

O resumo da ópera é que, sempre que o ser humano tenta impor uma característica como forma de coerção ou controle aos demais, está tentando compensar, em vão, sua própria pequenez e incapacidade de aceitar-se como pequeno e incapaz. A frustração ou o complexo de inferioridade faz muita gente forjar personas “maiores” e “melhores”, especialmente nas relações sociais, como tentativa de convencer o mundo de que não são insignificantes ou comuns. Contudo, por se tratar de uma ilusão e de uma conduta doentia, apenas reforça o inverso: a realidade. Para cada vez que alguém lança mão de seu sobrenome, profissão ou dinheiro pra tentar pisar em alguém, evidencia sua própria fragilidade, sua falta de valor, de conhecimento, de evolução, de mérito, etc. É por meio das práticas, pensamentos e decisões que se pode, verdadeiramente, definir quem é quem. Muito além do histórico de aprendizado numa escola, faculdade ou dos percursos de carreira ou posição social, as pessoas são, no final das contas, aquilo que elas tem pra oferecer a si mesmas e ao mundo.

Nunca olhe de cima pra baixo, nem de baixo pra cima. Lado a lado já é suficiente, independente do quanto cada um sabe, quanto cada um viveu e quanto cada um tem de posses ou prestígio social e intelectual.

Rodrigo Meyer

O abismo entre ler, entender e praticar.

Fala-se muito que a leitura é importante pra Cultura e Educação. De fato ela tem um papel importante neste e outros itens, mas, ainda que as estatísticas fossem melhores, nada muda o fato de que não basta apenas as pessoas estarem lendo, pois muita gente consegue passar os olhos pelas linhas de texto, porém poucos conseguem extrair daquilo algum significado consistente, uma compreensão razoável, um entendimento que faça daquele conteúdo algo útil pra transformação da mente e da vida de si mesmos. E igualmente problemático é ler, mas não entender e não praticar. É comum vermos as pessoas adentrando para conhecimentos novos dos quais, supostamente, são interessadas, mas que, na prática, ignoram tudo aquilo.

Assim, há um abismo entre ler, entender e praticar. Exercer um item não pressupõem exercer o outro. Há uma ilusão triste das pessoas associarem leitura com intelectualidade. Chega a ser contraditório alguém se considerar mais sábio ou instruído simplesmente por ter lido mais, uma vez que falta o entendimento de que uma coisa não tem a ver com outra. A intelectualidade, embora possa ser alimentada com o conhecimento ofertado pelos livros, não é dependente destes. Em verdade, existem muitas e muitas pessoas que sequer tiveram a oportunidade de se alfabetizar ou que nem mesmo possuem acesso a livros, textos impressos em geral ou internet. Mas, isso não significa necessariamente que sejam pessoas sem intelectualidade, sem sabedoria, sem conhecimento, sem domínio sobre os assuntos.

Você se surpreenderia em como algumas pessoas que chegaram a cruzar faculdades e a ter prestígio social em grandes mídias, possuem dificuldades crônicas no discernimento de simples composições de ideias, de lógica, de argumentação ou de preparo mental geral pra lidar com certo cenário de dados da realidade. É decepcionante ter que dizer que muitos professores universitários, a quem esperamos, ingenuamente, um preparo intelectual acima da média, por vezes sabem menos que os alunos a quem tentam ensinar. Destaco, inclusive, que muitos são um desserviço para educação, por replicarem aos seus alunos informações equivocadas dos temas que eles deveriam dominar. Me sinto constrangido em ter que dizer que, ao longo do meu percurso de escola e faculdade, foram frequentes os casos em que eu tive que corrigir erros grosseiros de professores ou simplesmente fazer vista grossa e “me conformar” que o ensino no Brasil é lamentável, em muitos sentidos e níveis.

Na hipótese de termos mais leitores e com uma frequência de leitura melhor, ainda estaríamos no abismo da dificuldade de compreensão. Enquanto as escolas se esforçarem apenas pra ensinar as pessoas a grafarem letras e lerem os símbolos grafados, teremos ótimas máquinas de leitura, tal como as que leem códigos de barra ou o moderno QR Code. Aliás, talvez isso explique porque muita gente não se interessa de ler, depois de ter passado pela alfabetização, escola e até mesmo faculdade. É como se o sistema pelo qual passaram não instigasse a perceber benefício em decifrar além das letras. As pessoas acham a leitura maçante, especialmente se aquilo parecer apenas um aglomerado inútil de letras, palavras e frases. Há de se pensar em como as pessoas estão sendo encaminhadas para o ensino, para a cultura, para a reflexão dos assuntos.

Ler pode ser útil, mas, nas mãos erradas, tem papel nulo ou até prejudicial. Há uma frase que diz que “meia informação é mais perigoso do que informação nenhuma”. E isso significa que, entender um assunto de forma incompleta dá uma falsa sensação de domínio para a pessoa, mas não complementa com o mais importante: detalhes, desfechos, poréns, ressalvas, condições, interpretações, sentidos, entre tantas outras coisas.  Seria o mesmo que dizer para uma criança que água é um líquido seguro, mas nunca explicar nada sobre o ‘capítulo 2’ do assunto, sobre o perigo da água fervente. Se a pessoa só aprende as coisas pela metade, está sempre em risco de fazer mal uso da informação.

E, pra finalizar, depois de ler e entender, há de se praticar, pra não ser como muitos que tudo sabem, mas nada fazem, como se fossem médicos a negligenciar a própria saúde. Em situações piores que esta, podemos citar os juízes e advogados que ignoram a justiça e a lei, ou ainda os que mergulham em ativismo social, mas ficam reclusos apenas na teoria. Assim ocorre, aos montes, em todo campo, em todo canto, com todo tipo de gente. O mundo tem solução, mas pouca gente se debruça sobre os problemas pra coletar as soluções. Há muito para se crescer se simplesmente pegarmos aquelas ideias lidas e, eventualmente, compreendidas e colocarmos em prática. Como mágica, da noite pro dia, as coisas se transformariam. Mas, enquanto uma massa de pessoas tomar a decisão exatamente contrária, veremos uma forca avançar pra cima de todos nós, tornando a educação um tema chato, cansativo, que suscita um aumento colossal de evasão escolar, de distanciamento da leitura e da cultura e, principalmente, do distanciamento da reflexão sobre sua própria existência. E esse é o caminho garantido para o desmoronamento social em todos os sentidos.

Gostaria de ver iniciativas e visões diferentes daquela ideia romantizada de que produzir cultura e fortalecer a educação se resume a feitos numéricos de gerar mais alunos alfabetizados, aptos a ler um texto. Gostaria de ver iniciativas com viés filosófico e psicológico, resgatando valor e interesse nas pessoas, não só de consumir informação, mas de serem elas mesmas autoras. E pra isso, claro, precisarão dominar a reflexão e a interpretação como nunca antes. Suscitar mudança social, no final das contas, é suscitar mudança dentro de cada indivíduo, muito além de suas habilidades escolares ou técnicas. Não somos máquinas e não vamos passar nossa vida digerindo código de barra. Antes de sermos leitores de qualquer coisa, precisamos ter a necessidade de absorver alguma coisa, de compreender uma ideia ou sentido para torná-los ferramentas de nossa própria liberdade e felicidade. Sem isso, ainda seremos os velhos diplomados de sempre, aptos para o preconceito, para a intolerância, para a guerra, para a depressão, para a miséria social, para a violência física e psicológica, para a corrupção, para os relacionamentos desarmoniosos e para a degeneração do sentido da vida, em tempos onde viver é o próprio motivo de não queremos pensar na vida.

Rodrigo Meyer