Saudade de pessoas ou de momentos?

Essas são confusões que muita gente faz e não nota. Ao se ver relembrando situações e desejando reviver aquilo, não sabe diferenciar se a saudade que parece estar tendo é da pessoa ou do momento. Por vezes, quando gosta de algo, atribui a sensação de prazer para as pessoas que estavam presentes no momento em que este algo ocorreu. É quase que automática a associação, mas ainda são coisas separadas.

Relembrar de um abraço, uma gargalhada, uma viagem, a experiência de dividir um jantar feito em casa ou mesmo a experiência de prazer que uma pessoa lhe deu em algum momento da sua vida, são memórias que falam de momentos e não necessariamente das pessoas. Podemos querer sentir novamente o benefício de um abraço, de uma viagem, de uma refeição, de ter companhia pra jantar, mesmo que não estejamos precisando ou querendo mais daquelas específicas pessoas que já nos dividiram esses momentos. Se for esse o caso, a saudade é de momentos.

Se a saudade é de pessoas, não importará exatamente os momentos ou os benefícios isolados de cada um deles. Com este tipo de saudade, você sente falta da presença de alguém. Quando vivemos momentos intensos com pessoas que marcaram uma época de nossas vidas, podemos acabar pensando que os impulsos na memória dessa época, são sinais claros de que fomos agraciados por pessoas insubstituíveis. Há de se pensar algumas outras vezes a mais pra distinguirmos o que é que queremos na verdade.

Às vezes chegamos a conhecer e experimentar momentos tão gratificantes que ficamos exigentes e até saudosos do passado. Aquilo que não temos hoje ou não com a mesma intensidade ou frequência, pode ser um grande motivo de saudade. É saudade de momentos. Depois de um certo tempo de vida, se viveu algumas boas histórias, vai poder olhar pra trás, suspirar, sorrir e desabafar, mesmo que em silêncio, sobre como gostaria de passar por mais daquilo novamente. Algo muito saudável, inclusive. Mas se a saudade é sobre pessoas ou se você está confundindo pessoas com momentos, talvez precise ser mais cauteloso e menos impulsivo.

Frequentemente  aquilo que abandonamos uma primeira vez, pode nos fazer pensar no passado. Revisitar mentalmente esses contextos, pode fazer nosso corpo reviver as mesmas sensações físicas e emocionais. É comum, por exemplo, sorrirmos novamente ao lembrar de um momento em que estávamos sorrindo. Emoções são contagiosas e nossa mente é um poderoso gatilho pra todas elas. A princípio parece uma boa ideia reviver uma alegria ao lembrar de outra alegria do passado. Mas se isso te coloca em confusão sobre o que fazer sobre isso, pode ser necessário controlar ou ressignificar as memórias.

Quando você lembra de um jantar em família, com todos reunidos e contando piadas, você sabe dizer se o seu prazer era por um contexto de jantar com um grupo de pessoas dividindo piadas ou se realmente está fazendo conexões com cada uma daquelas pessoas, independente do que ocorria nesse evento? Se tiver a firmeza necessária pra diferenciar, você está realmente pronto pra tomar decisões sobre suas memórias, suas escolhas de vida, suas intervenções no passado, eventualmente trazendo-o para o presente na forma de novos relacionamentos, novas fases de relacionamentos interrompidos ou até mesmo novos desejos e objetivos pras pessoas com quem você já esteve conectado alguma vez.

Na vida, nada é estático. Tudo está em constante movimento. Mesmo quando estamos, de certa maneira, “presos” a certas pessoas, épocas, locais ou situações, tudo isso está pulsando e mudando, caminhando pra novos tempos, novos contextos, novas surpresas, novos desafios. O futuro não vem pra trazer garantias e nada do que queremos hoje pode ser elevado ao status de ‘definitivo’. Isso não significa, porém, que não possam existir relacionamentos duradouros ou até perpétuos. Apenas significa que não há garantias. Tudo que ocorre, incluindo o que perdura pra vida toda e o que se encerra em qualquer outro tempo, são surpresas que nos aguardam.

Por isso, mais importante que formar expectativas sobre o futuro e as pessoas é concentrar-se em olhar pro passado e manter-se resolvido sobre ele, consciente e com uma boa distinção do que vê e sente. Só assim você vai poder tomar as decisões certas pro momento presente.

Diversas vezes eu olhei pra trás e fiquei orgulhoso dos momentos gratificantes que eu vivi, mas muitas das pessoas que protagonizaram estes momentos ao meu lado não são importantes como os momentos foram. Pessoas são, eventualmente, substituíveis, se o objetivo é desfrutar de momentos e não de pessoas. São também substituíveis se quisermos tomar contato com tipos de pessoas e não com indivíduos específicos. Há muito pra se conversar com o coração e ensinar a ele um pouco mais de razão, mas não pra tirar-lhe sentimentos, mas pra dar significado ao que se sente, pra que se possa sentir mais e mais, sempre com a segurança de estar crescendo e se regozijando ao invés de cair na armadilha do ‘simplesmente andar pra trás’.

Toda saudade e saudosismo levanta questões importantes. Não as negligencie, pra não correr o risco de repetir erros da memória ou da História. O cérebro humano é composto por razão e emoção. Nenhuma delas caminha de forma saudável sem a proporcional presença da outra. Se quiser construir um bom futuro, seja um bom interpretador do passado.

Rodrigo Meyer

É melhor ter saudade do que remorso.

Lembrar do passado é algo recorrente e, por isso, é melhor que sejam boas lembranças. Quando temos saudade é porque queremos voltar a ter bons momentos como os que passaram. Embora seja incômoda a saudade, é melhor do que lembrar do passado e ter arrependimentos e remorsos. Ninguém gosta de lembrar de momentos ruins.

Crescemos cercados de momentos bons e ruins, mas tendemos a lembrar mais das coisas ruins. Essa tendência pode mudar se quisermos. É claro que tudo nos deixa marcas, mas precisamos dedicar nosso tempo em relembrar quantas coisas boas tivemos.

Frequentemente estou relembrando momentos que tive com pessoas que já não fazem mais parte do meu convívio e isso me permite reviver esses momentos como se estivessem acontecendo agora. Reconto piadas, diálogos, revejo imagens, experimento novamente a personalidade das pessoas, os lugares. Tudo isso me preenche, porque foram coisas que me preencheram no passado quando ocorreram pela primeira vez.

Estou sempre reciclando os momentos e vivendo um pouco mais. As coisas boas vão transbordando pela repetição e isso me permite ficar de pé, ficar bem, rir, me sentir grato, entre outras coisas. Ao mesmo tempo, isso deixa menos espaço pra lembranças ruins e minha memória não passeia tanto pelas dores do passado, deixando meu presente mais leve, mais fácil de ser vivido. Acredito que, por isso, evito novas dores também.

O mundo está longe de ser algo agradável, mas algumas pessoas e alguns momentos fazem valer a pena estar por aqui. Precisamos nos cercar dessas pessoas e nos fortalecer de dentro pra fora. Precisamos sorrir mais, abraçar mais, viver mais. E quando chegar a hora de enfrentarmos a realidade dura, estaremos mais dispostos, mais fortes, mais flexíveis, mais pacientes, mais sensatos, mais presentes.

As pessoas quase sempre se esquecem que pra se lutar pelas causas do mundo é preciso, antes de tudo, não abandonar as pessoas pelo caminho. Isso não significa que devemos estar sempre com tudo e com todos. Devemos sempre filtrar as companhias pela qualidade ofertada. Queira distância de pessoas tóxicas e que não acrescentam nada pro seu bem-estar e crescimento. Com as pessoas certas e nos lugares certos, você fará coisas incríveis e se sentirá igualmente incrível.

Há uma frase de Freud que diz:

“Antes de se autodiagnosticar com depressão, verifique se você não está apenas cercado de idiotas.”

E essa é a verdade que precisa ser dita e praticada. Muitos de nós nos sentimos derrotados, cansados e deslocados. Por vezes esses sentimentos e impressões são fruto de companhias ruins que nos degradam, nos cansam, nos inferiorizam, nos intoxicam, nos pressionam e nada acrescentam pro nosso sucesso pessoal ou de qualquer outro tipo. Fique atento e cobre do mundo que ele mude ou você o abandonará. É preciso dizer para as pessoas ruins que se elas não melhorarem, ficarão sozinhas, serão ignoradas.

Tenho inúmeros exemplos pra dar e sei, infelizmente, que nem perdendo o convívio as pessoas mudam. A verdade é que as pessoas só fazem aquilo que querem fazer e só mudam quando estão interessadas e prontas para mudar. A maioria da humanidade não está e não estará tão cedo. Por isso, os que fogem dessas pessoas tortas é que acabam em minoria, evitando o desprazer da companhia dessas outras pessoas. É triste, mas é a realidade. Bom seria se todos se ajudassem e se concentrassem numa melhora sincera de si mesmos. O mundo inteiro seria mais unido e feliz, todos estariam mais satisfeitos com si mesmos e com os outros. Todos sairiam ganhando.

Quer viver bem? Melhore, mude, faça a diferença, preste. Quer sentir incômodo todo dia e ser um incômodo também para os outros? Então é só continuar na contramão do necessário, regredindo, ignorando os próprios problemas e passando reto em toda oportunidade de se transformar, de refletir e de experimentar coisas melhores.

Rodrigo Meyer