Perdemos o que abandonamos.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2007, de autoria de Majorly, da ruína da prisão de Birkenau / Auschwitz, na Polônia.

Muitas das coisas na vida são baseadas num sistema de reciprocidade. É natural e automático que as pessoas queiram benefícios pra suas vidas, porém quando elas deixam de fazer o necessário em troca, elas acabam percebendo o distanciamento, o insucesso, etc. Um exemplo fácil é quando uma pessoa leva uma vida de pouco uso do cérebro e incorre em uma velhice com sinais de esclerose, demência, Mal de Alzheimer, entre outros. Médicos recomendam que as pessoas levem uma vida intelectual mais ativa para assegurar que futuramente não estejam nesses cenários citados. É claro que não é apenas a falta do exercício mental que leva pra esses desfechos. As doenças podem ter inúmeros fatores e boa parte é influenciada pela genética em tom de predisposição. Mas, em paralelo à isto, ocorre o chamado ‘fator ambiental’, que é só um nome bonito pra dizer que contextos, substâncias e ocorrências ao longo do crescimento da pessoa em sociedade (ou fora dela), podem funcionar como gatilhos que impulsionam ou ativam as doenças e características do corpo e da mente vindas da predisposição genética ou geradas de forma isolada ao longo da vida.

Se observarmos com um mínimo de atenção, logo vemos que isso se estende para inúmeros outros setores da vida. As amizades, por exemplo, se não cultivamos e não damos o devido valor, com o tempo deixam de existir. Aqueles números massivos de pessoas que os usuários nutrem nas redes sociais ou até mesmo “pessoalmente”, acabam se tornando só mais um número, se não houver um contato real, profundo e constante. A interação humana ganha sentido e valor quando ela consegue deixar um rastro no tempo. Claro que às vezes sentimos que algo já tem grande valor, mesmo que tenha sido breve, porém isso só se mantém intenso se for levado adiante. Perdemos facilmente os amigos, conhecidos, contatos de trabalho, simplesmente porque deixamos de participar da realidade deles e, consequentemente, eles da nossa.

Nos relacionamentos amorosos, vê-se bem como o abandono e o descaso, acabam por gerar a perda desse relacionamento. Mesmo que unidos pela formalidade ou um teto, inúmeros casais deixam de dividir cumplicidade, felicidade, amor e respeito, simplesmente porque alí já não era nutrido nada disso há muito tempo e adoeceu como um prédio em ruínas por falta de manutenção. O desgaste que vemos nas relações com as pessoas e o mundo são exemplos constantes para podermos observar e aprender que quando não somos mais ativos em algo, perdemos o direito da companhia, do desfrute, do amor, da alegria, do prazer, do significado, etc.

Outro exemplo de como perdemos pelo desuso, são os dons, talentos, habilidades ou similares. Se você é um artista e fica sem criar por muito tempo, é natural que você se torne menos capaz ou que tenha mais dificuldade para chegar nos mesmos resultados de antes. Tudo na vida exige que estejamos engajados o tempo todo, para não ficarmos pra trás. Se levarmos esse conceito para cenários políticos e sociais, também podemos perceber que negligenciar certos assuntos do país ou mundo, acaba nos tirando os benefícios, a qualidade de vida, as conquistas, as liberdades. Este ano, no Brasil, vimos como a ausência do pensamento crítico, da desconstrução dos preconceitos e da Educação em geral, pode gerar a ausência de todo ambiente sadio dessas temáticas. De tanto as pessoas negligenciarem a Educação, por exemplo, estão hoje, aos montes, aplaudindo um ignorante, que é fortemente embasado por um outro pseudo-intelectual que diz coisas insanas como “a Terra é plana” e sentem-se felizes de fazer parte de uma quadrilha que, em última instância, são tão ou mais ignorantes que seus próprios seguidores. Isso mostra que, se as pessoas não fazem uso do intelecto, o intelecto deixa de estar disponível pra elas. E quando isso ocorre, é só tristeza, pois não poderão perceber sua própria condição.

Ao menos nos outros setores da vida, nossas perdas podem ser um pouco mais fáceis de se notar, já que nem sempre comprometem a percepção e a intelectualidade. Um artista inativo, por exemplo, pode até reduzir suas habilidades em algum momento, mas, se tudo estiver bem com seu intelecto, ele saberá reconhecer sua condição, as causas disso e, se quiser, retornar para a condição anterior, treinando e se fortalecendo.

Nos últimos tempos eu estive distante de várias atividades práticas, mas nunca das temáticas em si. A Fotografia, por exemplo, que tive de pausar a prática, nunca deixou de fazer parte da minha realidade. Estive sempre aprimorando, estudando, vendo, compartilhando e pensando em Fotografia. Isso mantém minha mente ocupada com as informações, de maneira que o distanciamento não se concretiza. Enquanto sua mente estiver recebendo estímulos para uma determinada área do cérebro, para um certo assunto ou modelo de atividade, aquilo lhe será fortalecido automaticamente. Alguns gostam de fazer uma analogia entre o cérebro e um músculo, pois de maneira simbólica, o cérebro também pode “atrofiar” por falta de uso / exercício. A questão é que a mente humana é muito mais que simplesmente a parte orgânica. A estrutura invisível que não vemos é, talvez, a parte mais poderosa da nossa mente. É por meio dos nossos pensamentos e da organização das nossas sinapses em constelações de significado, que conseguimos definir se teremos uma mente mais poderosa, mais capaz, mais diversa, mais resistente ou se seremos levados a caminhos de degradação.

Gosto de associar a perda de vitalidade / saúde física e mental com a perda de direitos em geral, inclusive os direitos sociais e políticos. Se analisarmos os dois universos sob o mesmo preceito difundido à pouco, veremos que a inação de muitos diante de si mesmos e do mundo, os leva pra um caminho sórdido de Síndrome de Estocolmo, onde são manipulados por seus próprios opressores a se tornarem fiéis escravos, cegos e ignorantes de tudo que lhes ocorre de ruim. Não é de se espantar que recentemente, diante do desastre das Eleições de 2018, regadas à muita fraude, corrupção e Fake News, tenha surgindo a expressão ‘gado demais’ pra definir essa massa de eleitores sendo encaminhados para o abate social e intelectual, em troca de absolutamente nada. O triste é que, pela inação de uns, o prejuízo se estende também para os que sempre lutaram pelo uso e manutenção de seus direitos.

Por isso, fica a lição de que preservar e exercitar é sempre a melhor saída pra você não terminar ignorante, viciado, preconceituoso, fraco, equivocado, inexperiente, sem traquejo, doente, descontrolado e sem razão. Se você não quer se tornar um entulho na sociedade é preciso dedicar-se firme à sua própria transformação, dia após dia. Todo segundo que você abandona o seu potencial, você cava sua própria miséria. Seu sucesso pessoal (que é só o qual você tem algum controle), está relacionado com as ações que você faz pra si e pro mundo, numa relação de observação, contemplação, troca, ação, compreensão, transmutação, etc.

Tão importante quanto não ser teu próprio fardo, é não ser um fardo pra outras pessoas. Empenhe-se em ser alguém melhor todos os dias, longe de falácias, longe de discursos prontos, de bordões viciados e vazios, longe de pessoas mal intencionadas que transbordam ódio e reinam na escassez da intelectualidade, do bom-senso e da utilidade ao mundo. Fuja pra longe daquilo que te reduz, porque no final das contas, tudo que você vai precisar hoje, lá na frente e sempre, é estar de pé e pleno, mesmo que hoje você não ache nada disso tão preocupante ou iminente. As maiores desgraças da humanidade foram justamente as que foram negligenciadas e tratadas inicialmente como ‘não tão problemáticas’, ‘não tão absurdas’, ‘não tão nocivas’, ‘não tão extremas’ até que fosse tarde demais. O arrependimento foi certo e o passado não pode ser desfeito. Então faça algo de bom no momento presente e todos sairão ganhando, inclusive você.

Rodrigo Meyer – Author

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Crônica | A vizinha fantasma.

Saí na varanda, olhei pro outro lado da rua. Que cena cansativa. Em dias normais, a idosa que mora quase que na casa em frente, fingiria arrumar a cortina só pra matar a curiosidade ingrata de saber o que os outros estavam fazendo. Mas hoje, um dia mais intenso, foi um pouco além, mesmo não sendo a primeira vez. Saiu e foi até o portão. Olhou como se tentasse matar o tédio de estar o tempo inteiro largada em casa sozinha. Saiu pra calçada em claro sinal de comprometimento da mente e se prostrou perto do portão do vizinho, surgindo sinistramente com seu rosto espiando pelo canto do portão, pra ver sabe-se lá o que. O que ela esperava encontrar? Uma festa onde todo planeta foi convidado, menos ela? Talvez estivesse depositando apreço demais nos vizinhos, por conta da ausência da própria família. Socialização não tem. Talvez seja isso que lhe falte. Mas, a ruína na mente talvez a faça confusa ou sem memória pra entender ou lembrar que seus parentes não a visitam nunca, exceto uma vez ao ano ou até a cada dois anos, provavelmente pra saberem se ainda está viva. Aos meus olhos ela já estava morta faz tempo. Uma vida vazia é pura ansiedade e sofrimento.

Rodrigo Meyer

Seu medo, seu inimigo.

Na temática da autossabotagem, o medo ganha disparado. Indivíduos que baseiam suas vidas em uma grade constante de medo, estão sempre paralisados e aquém de seus potenciais. O motivo é muito simples. A medida em que determinam aquilo do qual possuem incerteza, insegurança, receio ou pouca resolução, tornam-se resistentes a isso, no sentido de armar uma postura de defesa, de recusa. E, claro, se recusamos algo, ficamos sem.

O ser humano consegue desenvolver muitas nuances de medo e consegue controlar também como e quando isso o afeta, desde que esteja em domínio na causa do medo ou do tema ao qual ele se refere. Há pessoas, por exemplo, que possuem medo de se envolver emocionalmente com outras e, por isso, recusam as oportunidades, incluso as positivas, apenas porque automatizaram uma defesa. Tal mecanismo de defesa, extensamente conhecido na Psicologia, faz as pessoas serem vítimas de si mesmas, antes de sequer terem a chance de se tornarem aquilo que não queriam inicialmente: tornarem-se vítimas de algo ou alguém.

Mas é claro que nada é tão simples como apenas definir o que sentir ou pensar sobre as coisas. A mente humana gera situações, ideais e estruturas com base em traumas, complexos e outros contextos que fragilizam o indivíduo a ponto de colocá-lo fora da lógica ou da naturalidade. A exemplo disso, algumas pessoas se sabotam, consciente ou inconscientemente, fugindo de monstros imaginários. Há quem sonhe com estilos de vida, empregos e todo tipo de realidade de carreira ou vida pessoal e, quando colocados a exercer essa jornada, recuam sob inúmeros pretextos. Alguns lançam mão do artifício de sentirem-se inaptos ou insuficientes pra tal feito. Vão dizer que não há saída pra eles ou que não podem aderir a algo, simplesmente porque as condições não permitem. É hora de criar mil e uma fantasias pra tornar aquela realidade desejada, porém assustadora, algo inalcançável. Começa, então, um show de desvios pouco racionais.

Sinta-se a vontade pra rir desse caso que vou usar de exemplo. É o primeiro que me vem na mente de forma instantânea. Trata-se de uma pessoa que passou a vida toda se queixando da vida difícil, dos poucos recursos financeiros, ao mesmo tempo em que, sempre que tinha qualquer progresso ou brecha para melhorar de situação, tomava alguma decisão que eliminasse as chances de desfrutar daquilo. Foi o caso, por exemplo, de quando, diante de uma promoção de cargo no emprego, decidiu pedir demissão ao invés de usufruir de um trabalho com melhores condições e muito melhor remunerado. Qualquer pessoa mentalmente saudável e sensata acharia um disparate essa conduta. Mas, pra uma pessoa que morre de medo de tornar-se próspera, qualquer porta pra essa guinada na vida era motivo pra se afastar, sem pensar muito. O único motivo pra se considerar esses medos patológicos é justamente a característica de oposição ao bem-estar da pessoa e da ausência de motivos racionais pra tal. Se pratica, por opção própria, uma conduta que não a ajuda a se sentir melhor ou a viver em melhores condições, então vê-se aí uma situação doentia.

Ainda nesse exemplo citado, a pessoa sentia-se tão apavorada com a ideia de prosperar, que sempre que tinha a sorte de conquistar algum dinheiro, fazia o pior uso possível desse dinheiro, exterminando ele em pouco tempo com algo completamente desnecessário. Uma vez compreendida a estrutura desse tipo de autossabotagem, pode-se imaginar inúmeros outros casos em todas as temáticas da vida, onde as pessoas simplesmente inventam motivos pra continuarem insatisfeitas com a vida. Cutucando suas mentes, voltando ao tempo da infância (provavelmente), frequentemente encontram as razões pelas quais sentem-se pouco merecedoras dos benefícios da vida ou da própria liberdade em viver. Quase sempre é uma interpretação automática da mente depois de associar que a postura ou palavra depreciativas de alguma figura importante (como um pai ou mãe) tenham sido convertidos em uma espécie de impressão sobre si mesmo com base nesse critério. Em resumo, é como se a mente da criança complexada pensasse: “se meus pais não me enalteceram, então eu não tenho valor” ou “se meus pais me diminuíram, então não tenho valor” ou ainda “se meus pais estavam ausentes, é porque eu não era importante pra merecer a presença deles”. Esse tipo de associação fácil é comum, mas é uma falha da mente, especialmente na infância em pessoas com baixa autoestima ou de mente mais frágil.

Contextos similares podem fazer as pessoas terem condutas de autossabotagem sem perceber que tudo aquilo de que fogem, pode simplesmente ser uma fantasia desnecessária. Ao mesmo tempo em que sentem-se mal pelos reveses que elas mesmas criam, não conseguem parar de criar. Essa automação na mente e nas condutas diante das decisões, pensamentos e relacionamentos, pode gerar uma espécie de personagem que toma o lugar do indivíduo, como que se já tivesse se esquecido quem ele é ou poderia ser, depois de ter passado tanto tempo endossando a figura diminuída, frágil, lida como incapaz ou não merecedora. Reverter essa visão e essa automação é uma tarefa que o indivíduo está habilitado a fazer, se assim quiser. O sucesso disso depende de quanta noção e disposição ele tem pra varrer e transformar a si mesmo. Não é fácil encontrar-se diante do espelho e falar umas boas verdades, antes de se estar devidamente imune ao peso delas. O caso é que verdades só pesam para quem as evita. Tão imaginário quanto os equívocos dos complexos é essa visão de que verdades são incômodas. Quando estamos em posição de querer viver melhor ao invés de nos prejudicar, a verdade torna-se algo que desejamos com afinco a ponto de sentirmos prazer e alívio em lidar com ela. E é tão somente isso que deve ser a vida.

Agora que sabemos que o medo é nosso inimigo, se não quisermos paralisar diante de nosso potencial na vida, precisamos reforçar nossas escolhas, nosso pensamento, nossa autoestima, nossa mente, revendo nossos problemas de infância, nossas crenças, nossas aceitações e recusas diante das figuras que julgamos importante, inclusive a que deveria ser a mais importante de todas: nós mesmos. Se tomarmos a iniciativa de nos presentear todos os dias com coisas boas, evitamos de fechar nossas portas para uma jornada melhor, maior ou, pelo menos, mais interessante. Não é o caso de pensar que, apenas tendo autoestima e coerência com nossas decisões, já seremos as pessoas mais sortudas do mundo, mas sempre que estivermos diante de alguma situação de oportunidade, teremos, ao menos, condições de tentarmos, de aceitarmos o que nos vem e fazermos o nosso melhor com aquilo. O que estiver ao nosso alcance, devemos fazer pleno uso e o que não puder, tudo bem. A vida começa a fazer um sentido diferente, quando percebemos que ela não é nem o passado, nem o futuro, mas exatamente o momento vivido em cada ocasião. Sinta-se livre pra desfrutar da vida, pois é basicamente isso que determina o resultado da equação. Uma vida melhor, está atrelada ao quanto pudemos aproveitar dos momentos e ter isso como nosso histórico na mente e nas relações com o mundo. Como em um jogo de xadrez, cada novo passo que damos, interfere nas novas opções que teremos em seguida. Não jogar não nos faz vencer e nos sabotar nos faz perder sem necessidade.

Rodrigo Meyer

Receita para suprir o vazio.

Viver é um desafio. A vida é um mistério que precisa ser desvendado, uma vez que não vem com manual de instrução ou com objetivos predeterminados. Se deparar com a vida e ter que decidir o que fazer dela é uma tarefa que, pra muitos de nós, leva todo o tempo e, mesmo assim, pode não chegar em nenhuma solução satisfatória. Fato é que muitas pessoas sentem uma sensação de vazio diante da vida e tentam completar esse vazio com coisas igualmente vazias. Parece óbvio, mas está em alta a necessidade de se dizer obviedades, então digo que se as pessoas querem preencher seus vazios, não devem fazer isso com coisas vazias. Mas, o que são esses vazios?

Quando sentimos um vazio na vida, esse termo pode representar uma sensação de que o sentido para a vida é superficial ou insuficiente ou que a vida não parece ofertar valor apesar das coisas que existem e ocorrem (ou exatamente pelas coisas que existem e ocorrem). Superar essa sensação de vazio na vida é uma tarefa de cunho psicológico e filosófico, por vezes com algum viés da meditação, da postura diante do mundo, dos preceitos de espiritualidade, etc. Mas quando tentamos suprir esse sentido da vida, que é algo tão importante, com paliativos ilusórios, é claro que não haverá resultado satisfatório. É como ter fome e ingerir água pra tentar suprir. Por algum tempo você pode até enganar a fome, enchendo seu estômago de líquido, mas se a nutrição pela comida não ocorre, a água será inútil no final das contas.

Tentar levar uma vida com o máximo de satisfação possível é a meta de qualquer pessoa. A menos que a mente da pessoa esteja demasiadamente adoentada para chegar a corromper essa premissa, entende-se que todo ser humano deseja, a princípio, ter uma vida satisfatória, com tranquilidade, felicidade, conforto, etc. Quando não encontramos essa qualidade de vida, nos colocamos a pensar nas razões para esse insucesso. As pessoas que passam por essa reflexão podem chegar a sentir a vida pesada, desinteressante, cansativa, injusta ou até mesmo desnecessária e insuportável. É o caso de muitos que adentram pra depressão, pra abuso de drogas de todo tipo, incluso os medicamentos e produtos legalizados e as demais substâncias.

Em todo canto se vê pessoas buscando soluções para seus problemas, mas sem buscar soluções realistas. Veem-se com insônia, por exemplo, mas ao invés de resolver a causa da insônia, apenas se dopam com algum medicamento que as faça cair em um sono forçado. É evidente que essa qualidade de sono não reflete o mesmo benefício de um sono que ocorre naturalmente e de forma tranquila. Além disso, o uso constante destas medicações pode fazer as pessoas desenvolverem adicionais problemas na saúde e na mente. Como se não bastasse, condicionam a si mesmas a só dormirem mediante o uso destas substâncias, o que as colocam em uma situação de dependência e infelicidade pela ausência de controle de algo simples como o sono. A percepção desse quadro psicológico, físico e até social, pode transformar essas pessoas em geradoras de seus próprios problemas. A infelicidade e a má saúde plantadas nesse modelo de vida gera ainda mais motivos para a insônia e elas entram em um círculo vicioso de problemas.

Preencher o vazio com vazio não funciona. E como é que eu, na minha posição, poderei dizer o que é que cada pessoa pode ou deve fazer pra suprir seus vazios? Simplesmente não posso. Tudo que me cabe é tentar esmiuçar o tema e entregar algumas informações aprendidas ao longo da vida, sobre medicina, psicologia, meditação, espiritualidade e um pouco de empirismo na busca de minha própria libertação. Eu tive depressão por grande parte da minha vida e nunca havia me imaginado fora desse quadro. Acreditava que estaria fadado a uma morte precoce. Durante grande parte desse percurso eu fiz aquilo que estava mais propenso a fazer: nada. Eu me rendi de forma a ter muitos e muitos anos de sono, isolamento, procrastinação, sedentarismo, pouca ou nula socialização e uma constante vontade de desistir de toda e qualquer atividade. Mas, por incrível que pareça, foi exatamente por não fazer nada que tive tempo de observar, analisar e compreender a situação, minha mente, a realidade do mundo, entre tantas coisas. Foi nesse período que pude transformar algo aparentemente infértil na melhor plantação que eu poderia fazer.

Durante meus anos de reclusão, pude sentar diante do espelho, simbolicamente, olhar pra dentro de mim e refletir com sinceridade sobre quem eu era, o que eu queria, o que eu fazia, o que era ilusório, o que era útil. Aprendi muito comigo mesmo. Dizem que todos nós temos um mestre interior, que alguns chamam de ‘Eu Superior’. Talvez seja essa a explicação sobre a capacidade do ser humano de meditar, conversar consigo mesmo e superar barreiras. Por vezes, percebemos que nós mesmos é que inventamos barreiras por conta de nossas crenças, hábitos, imaginações, etc. E isso deixa uma lição importante: somos poderosos! Temos poder de determinar muita coisa para nós mesmos. Da mesma forma que nos submetemos a situações indesejadas, podemos fazer o mesmo para situações melhores. Não posso afirmar que controlamos toda nossa vida, mas controlamos, ao menos, como nos sentir diante da vida e o que fazer com a situação que nos é apresentada.

Em tempos de depressão, tapava meu vazio e afogava minha dor com sono, álcool, comida, isolamento, direção em alta velocidade e permeando um universo de cultura ou estilo de vida de companhias que estavam igualmente ruins ou até piores que eu. Estava claro pra mim que nada daquilo que eu estava fazendo resolveria meus problemas, mas eu já não estava querendo solução pro vazio, mas apenas soluções para estes novos problemas que eu adotei. Queria algo que pudesse resolver esse estilo de vida destrutivo. Estava preso, condicionado a viver uma realidade que já não desejava. E não desejava porque percebia, finalmente, que tudo aquilo era igualmente vazio e que não poderia servir pra suprir o meu vazio sobre a vida. Então, ao menos pra mim, resolver o dilema da vida foi simplesmente me recusar a opções rasas e ilusórias. Comecei a ser exigente comigo mesmo e com os outros. Me coloquei contra pessoas e ideias que não favoreciam os meus objetivos de me tornar uma pessoa livre, tranquila, feliz e preenchida.

Não foi fácil e nem foi rápido. A transição não foi exatamente contínua, uma vez que tive diversas recaídas. Porém, descobri que a cada vez que eu caía, ficava mais resistente aos danos e aprendia os sinais de quando eu estava me aproximando de uma recaída. Minha principal meta nos tempos de recuperação era me manter preenchido de pessoas e situações que realmente tinham valor. No fundo, era somente isso que eu queria mesmo, mas, por muitas vezes, na depressão, não tinha essas presenças ou as ignorava por desconfiança ou insegurança. Muitas vezes eu me boicotei, fechando minhas próprias portas e depois me via sem esperança em um mundo sem caminhos para seguir. Quando parei de andar em círculos, comecei a ver meu potencial surtir efeito simplesmente por ter colocado em prática, com confiança, sem medo, sem procrastinação.

Foi isso que me colocou em um estilo de vida funcional. Sempre que me sinto sobrecarregado com algo, meu instinto de defesa contra a depressão me faz agir e criar mais. Me considero uma pessoa muito ativa, quando comparo com as pessoas ao meu redor. De certo que temos atividades muito diferentes, não só pela quantidade, mas pelos objetivos, pela motivação essencial por trás de cada feito. Olho ao meu redor e vejo muita gente de cara amarrada, infelizes com seus empregos, com seus relacionamentos ou mesmo infelizes de maneira geral com a vida ou a sociedade. Raras vezes encontro pessoas que se permitem ser e fazer aquilo que as preenche verdadeiramente. Grande parte das pessoas buscam apenas válvulas de escape, tapando o sol com a peneira. Podem passar o tempo com isso, mas chegarão, cedo ou tarde, a mesma conclusão: de que não viveram e que continuam infelizes, sendo, provavelmente, ainda mais infelizes por terem desperdiçado tempo na contramão da solução.

O resumo é que temos que nos entregar a valores intrínsecos. Não adianta querer que uma garrafa de álcool, rostos conhecidos numa festa, noites de sexo, sono e comida, possam resolver um problema que não nasceu pela escassez de tudo isso. O vazio da vida não é o vazio por álcool, por sexo, por companhia, dinheiro ou sono, mas sim pela transmutação do indivíduo diante da percepção do valor intrínseco da própria vida. Trocando em outras palavras, o recheio que preenche a vida é a própria vida. É sentar-se em harmonia consigo no espelho e estar satisfeito com sua existência, em poder olhar pela janela e ver o céu, respirar, se presentear com uma refeição saborosa, um cuidado de saúde, um refino estético para contemplar sua própria expressão. A vida, no final das contas é dividir uma risada, mesmo que sóbrio, dedicar tempo em conversar, abraçar, sentir, se entregar, se entreter.

A vida é um espetáculo que nós mesmos dirigimos. Contracenamos com muita gente em múltiplos cenários. Cabe a nós, como atores e diretores, definir a mensagem, o timing, a trilha sonora, os planos, os closes, os cortes de cena e assim por diante. No final de tudo teremos um espetáculo digno de se assistir na memória, pelo que fizemos a nós mesmos e aos outros. Isso preenche, isso transborda. É isso que me faz acordar todo dia pra continuar, com disposição mental e física. É isso que me mantém esperançoso pelo meu futuro, independente da condição dos demais. E quando se tem paz, a pressa some e sobra disposição pra correr mais. E pra você, o que é que te satisfaz?

Rodrigo Meyer

A receita é estar em dia.

Sobreviver com disposição diante do excesso de estímulos está muito relacionado em como você organiza e gerencia o mundo, antes que ele te invada descontroladamente. Com tantas pessoas, tantos ruídos, placas, sons, luzes, carros, comércios, produtos, links, vídeos, livros, ideias, memórias, nossa mente acaba se saturando pelo excesso e tende a falhar. Às vezes a mente humana lida com os excessos buscando simplificações, reduzindo o tempo de atenção ou a complexidade em algo.

Em placas de trânsito, por exemplo, busca-se reduzir o máximo possível da complexidade das formas e cores, já que os motoristas terão pouco tempo pra processar cada uma delas. Pra que facilite ao cérebro do motorista compreender o que fazer nas ruas e estradas, as placas sintetizam imagens e encurtam informações de texto, se posicionando com uma certa margem de distância para que o movimento do carro seja compensado. Além disso cores ajudam a interpretar mais rapidamente o conteúdo, uma vez que nos habituamos a estas combinações. No restante da vida, nem sempre haverão planejamentos a nossa disposição, então teremos que fazer nosso próprio controle das situações.

Quando se abre o navegador do computador, por exemplo, começamos visitando um site, mas logo nos deparamos com um link, uma foto, uma conversa e, mais sites começam a abrir em paralelo com aquilo que gostaríamos de ver ou guardar pra um momento mais oportuno. Em pouco tempo, aquela tela minimalista com um único site, se torna uma biblioteca bagunçada de conteúdos. Às vezes as pessoas mantém aberto até mesmo um conteúdo já visitado, pela praticidade de tê-lo ali pra uma conferência, um compartilhamento futuro, etc. Sem perceber, elas se afogam em uma malha confusa de dados que não as ajuda a ir pra frente. Ficam com os pés presos nessa malha e estão quase sempre irritadiças por isso.

Este tipo de situação pode ocorrer em diversos setores da vida. O grande segredo pra se livrar dessa tensão gerada pelo acúmulo é, exatamente, não permitir o acúmulo. Assim que fizer proveito de um conteúdo, você já pode descartá-lo para ir ao próximo momento, próxima tarefa. Estar em dia com cada um desses conteúdos, te faz perceber que, na verdade, você ganha mais tempo. Torna-se mais eficiente em criar, pensar, interagir e viver, pois dedica menos tempo mental e/ou físico em cada uma dessas atividades. Quando você percebe que está completando uma tarefa com menos tensão e menos esforço, seu cérebro sente-se recompensado por aquela atividade e permanece em um estado melhor para a próxima tarefa. Isso se torna uma sequência de bem-estar associada a sua produtividade e é isso que você vai adorar ter ao lembrar do quanto você tem feito por você mesmo, diante da imensidão de coisas que existem ao redor.

Para muitas pessoas a satisfação pessoal advém do cumprimento dessas metas. E para que as pessoas possam chegar felizes em seus objetivos, elas precisam limpar o caminho para não tropeçar na desorganização ou na desmotivação que isso causa. Um ambiente favorável é aquele onde não temos que nos preocupar com excesso de estímulos para serem processados. Neste tipo de ambiente clean pode-se perceber um aumento substancial do seu bem-estar físico e mental. Não é uma garantia de que você vá se tornar uma pessoa feliz, mas com certeza vai concretizar melhor suas tarefas e isso pode ser um ponto valioso pra te entusiasmar a fazer mais e/ou melhor. Para muitas pessoas, isso ajuda a tornar-se mais satisfeito e feliz.

Para se estar em dia com as coisas, é preciso entender que não teremos como abraçar o mundo de uma vez só e que está tudo bem, afinal essa premissa é a mesma para todo ser humano. Temos que ser conscientes de que o volume de estímulos tende sempre a ser maior do que cada pessoa é capaz de gerenciar. Então, é preciso filtrar o máximo possível com base na necessidade e qualidade. Elimine do seu campo aquilo que não está em uso no momento. Feche as abas de navegador depois de visualizar o conteúdo; procure manter-se desconectado de sites e aplicativos que emanam alertas de mensagens ou atualizações; desligue o celular durante uma tarefa de criação ou concentração; limpe sua mesa de trabalho e guarde tudo que não for utilizar na sua próxima tarefa; mantenha seus livros guardados com algum critério, para que sejam fáceis de encontrar futuramente; mantenha suas tarefas domésticas em dia, como a louça e roupas lavadas, a arrumação do quarto, etc. Enfim, faça seu cérebro perceber um contexto simples na vida, pra que você possa dedicar seu esforço no progresso de outras atividades, ao invés de dispersar energia com o que costumeiramente fica sem ser resolvido.

A mente consciente não percebe grande parte das coisas, mas a mente inconsciente sabe que determinado objeto está em cima da mesa, que determinado livro não terminou de ser lido, que as roupas no varal não foram recolhidas, que a louça ainda não foi lavada e que aquelas abas do navegador ainda permanecem ativas, mesmo que você sequer possa ver todas no estreito espaço da sua tela. Tudo isso acaba perturbando a mente e enfraquece nossa disposição em ser e fazer.

Através do minimalismo, conquistei muito progresso pessoal. Quando não tive mais que me preocupar com um quarto cheio de objetos, uma casa cheia de móveis e uma vida cheia de estímulos desnecessários, minha mente finalmente focou naquilo que era importante pra minha vida. Essa mudança trouxe, inclusive, um bem-estar e facilidade em cumprir as tarefas secundárias de menor importância, como lavar a roupa, a louça, se programar pra ir pagar as contas ou almoçar. Quando tudo isso se torna organizado e simplificado, não se torna uma obrigação chata, mas apenas um momento rápido e fácil. E se sua mente vai bem ao longo dessas centenas de pequenas situações, seu dia se torna um bloco de sucesso. É basicamente isso que te dá tempo e motivação pra fazer algo um pouco maior, já que agora sua vida e sua mente possuem espaço. Mente zen, vida zen. Quando você reduz o tamanho do mundo, formigas podem se tornar gigantes. Crescer como pessoa e progredir em suas atividades, seja trabalho, arte, hobby, estudo ou relacionamentos, está muito relacionado com as suas prioridades e em como você está tranquilo para gerenciar as coisas menores ao redor. Começar a desenhar em uma folha em branco é muito mais fácil do que ter que apagar uma folha primeiro pra só depois poder reutilizá-la.

Rodrigo Meyer

A autoestima das pessoas de mais idade.

Logo de cara é preciso deixar claro que em todas as idades, inclusive entre os mais idosos, existe diversidade, em termos de autoestima, de qualidade de vida, saúde, contextos, etc. Não há como dizer que alguns exemplos isolados retratam toda a comunidade de idosos. Com este texto eu pretendo tão somente despertar o olhar sobre algumas pessoas, alguns episódios e alguns contextos.

Quando eu era criança, olhava para os idosos e me punha a pensar como seriam essas pessoas em suas juventudes. Talvez essa fosse a maneira de tentar desvendar quem eram essas pessoas no momento presente e porque eram de tal maneira. Na maioria das vezes, via idosos com uma expressão de cansaço, um ar sério ou triste. Algumas raras vezes encontrava alguns em condições diferentes. É de se imaginar que o tempo vivido, a condição de saúde e a própria idade avançada em si desse a estes tais características. Mas é preciso dizer, também, que algumas outras pessoas parecem burlar tudo isso, como se fossem mais resistentes fisicamente e/ou mentalmente.

Ouvia que algumas pessoas ‘envelheciam melhor’, como se prolongassem a juventude por mais tempo que a média das pessoas. Sempre achei isso intrigante. Lembro que quando eu tinha uns 15 anos, aproximadamente, vislumbrei uma moça na calçada, em frente a um salão de cabeleireiro. Alguém havia comentado que se tratava da dona do estabelecimento e que já tinha 70 anos. Na época, não consegui tomar como verdade, porque nunca tinha visto uma pessoa de 70 anos com aquela aparência tão jovem. Eu nunca fui bom em distinguir idades, mas mesmo pra mim, foi fácil ver que a aparência não estava nem próxima do número, segundo o que minha mente conseguia pinçar de referências anteriores. Ela era uma pessoa muito ativa, de postura firme, com um andar fluído, um rosto bonito, um olhar marcante. Uma pessoa realmente bonita e, inclusive, atraente. Embora eu não apreciasse o estilo de suas roupas, era fácil ver que, ao estilo dela, ela caprichava em cada detalhe.

Diversos outros episódios similares foram surgindo com o tempo. Várias das pessoas que eu conheci durante os tempos de ensino, eram pessoas entre 30 e 80 anos. Algumas, mesmo com a mesma idade de outras, destoavam na aparência, principalmente pelo semblante. Enquanto algumas pessoas de 40 anos pareciam irritadas com a vida, outras pareciam estar se divertindo. Sorriso no rosto e brilho nos olhos parecia ser o que movia a beleza e jovialidade de algumas delas, enquanto que em outras, as dores e padrões tóxicos as consumia também fisicamente. Começava a ficar claro pra mim que o modo de vida dessas pessoas tinha um peso na equação.

Devido ao meu apreço por pessoas mais velhas pra dividir conversas e interações mais produtivas, eu socializei com muitas dessas pessoas em diversos contextos. E assim eu pude conhecer de perto a realidade de muitas dessas pessoas. Era interessante ver como a autoestima de algumas ajudava a sentirem-se tranquilas e felizes o suficiente pra externar um semblante melhor. E, claro, rendiam elogios entre os mais atentos. Eu notava, inclusive, em como essas pessoas mudavam de postura sobre si mesmas, sobre a vida, sobre o espaço em que socializavam. Parecia que ganhavam uma carga extra de energia para exercer as tarefas do dia ou até mesmo ficavam mais imunes ao stress e as situações infrutíferas da vida e do trabalho. Muito provavelmente, isso as ajudava a retomar um condicionamento físico, refletido, talvez, pelas regulações de hormônios ou algo do tipo.

Com algumas pessoas, por eu não ter conhecido elas em fases anteriores, não sei dizer se foram transformadas para melhor ou se sempre foram daquele jeito. Também não sei dizer se esse padrão de envelhecimento é raro ou se só me parece incomum por eu não ter conhecido um número maior de pessoas. Tudo que sei é que, a autoestima pesa muito na vitalidade do ser humano. Não é preciso dizer que o fator mental e emocional podem levar pessoas a somatizar doenças ou a levar uma vida cercada de hábitos prejudiciais. Uma boa alimentação, atividade física (inclusive o sexo) são fatores impactantes. Não há como negar que essa jovialidade ajuda inclusive a levarem uma vida mais ativa e estimulante, o que as faz manter o vigor, numa espécie de círculo-vicioso.

Do lado oposto, as pessoas com baixa autoestima, parecem alimentar problemas na mente e no corpo. Por vezes, o aspecto pouco receptivo de seus semblantes, a saúde abalada e a pouca disposição, podem repelir contextos prósperos de socialização, atrações físicas ou até mesmo criar um efeito bola-de-neve onde a condição em que se está baixa a autoestima e as faz deteriorar ainda mais a mente e o corpo, chegando em resultados que vão criar mais descontentamento, repetidamente.

Eu tenho 35 anos e adoraria chegar aos 70 anos com o vigor de algumas dessas pessoas que eu conheci. As pessoas ao meu redor comentam, às vezes, que eu pareço ser mais jovem do que a idade aponta. Eu não sei endossar ou negar isso, pois, como eu disse, tenho dificuldade de diferenciar idades e aparências. Conheci pessoas com a minha idade que tinham aspectos melhores, piores, iguais. Eu não sei como é que deveria ser uma pessoa de 35 anos. Me olho no espelho e fico com a impressão de que o tempo não está passando. A única coisa que me mostra o passar do tempo são os pelos brancos na barba, o cruzar dos meses no calendário e o acúmulo de memórias de situações vividas. Não sei se estou envelhecendo bem do ponto de vista físico, mas sinto que vivi bem a minha vida, fazendo sempre coisas incríveis, dando o meu melhor em tudo. Apesar de eu ter boa autoestima, não sirvo como parâmetro sobre o impacto disso na minha saúde física e mental, pois tive um histórico longo de depressão e deterioração da saúde com comida, álcool e sedentarismo. Felizmente tudo isso ficou pra trás há um bom tempo e é perceptível o impacto dessas mudanças.

Há uma obviedade que precisa ser dita: o bem-estar gera bem-estar e como diz a frase célebre, “mente sã, corpo são.”. Ter a mente jovem ajuda demais. O corpo agradece por cada risada sincera e profunda que você deu e por cada estresse que você evitou, quando viveu apontado pra outras direções melhores e mais úteis.

Rodrigo Meyer

[+18] A pornografia está fabricando impotentes.

Uma das coisas mais comuns na sociedade é o sexo. A maioria das pessoas, sob efeito dos instintos de sua própria natureza humana, expressam desejos sexuais como parte da conduta natural. A curiosidade humana por sexo deriva dessa importância, de maneira similar a curiosidade por alimentos que vem da necessidade de saciar a fome. Com o tempo, o ser humano desenvolveu aspectos sociais relacionados a suas premissas fisiológicas. Por conta de uma sociedade curiosa por sexo, algumas pessoas ofertam isso como parte de uma troca de interesses. Dizem, inclusive, que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo.

Na sociedade de consumo, o sexo se tornou não só um serviço, mas um produto. A princípio isso não é um problema, mas torna-se um problema quando a sociedade fica condicionada a se submeter a estes modelos de vida ou atividade por vício, necessidade financeira, violência ou distúrbios outros. É o caso  da prostituição como busca de sobrevivência, o tráfico de pessoas para prostituição não voluntária, os preconceitos, estupros e outros crimes que apontam pra distúrbios psicológicos e sociais.

A pornografia sempre existiu e já teve até mesmo um status sagrado em certas épocas e culturas. Expressões hindus, gregas, chinesas e de praticamente todo canto do mundo, cruzaram pela pornografia como expressão da realidade humana e até mesmo de conceitos correlacionados a espiritualidade e divindade. A cada época superada, parecia que alguns mitos iam sendo quebrados, mas tantos outros iam sendo gerados. Muitos conflitos, muita opressão e muitos abusos, firmaram períodos da História quase como o resumo dessas populações. O ser humano sempre figurou de forma marcante na substituição da racionalidade em detrimento de seus instintos sexuais mal resolvidos, tanto quanto o da violência e agressividade física e verbal.

Haviam tempos onde as pessoas pagavam pra assistir performances de danças em shows de cabarés e similares, como forma de entretenimento sexual. Em outros tempos, poder gastar umas fichas em máquinas para ver fotogramas de pinturas de pessoas nuas ou em trajes íntimos eram a atração da vez. Não tardou pra que a sociedade flexibilizasse ao ponto de lançar revistas sensuais, filmes e, consequentemente, o próximo passo: a pornografia em si.

O sexo, a prostituição e a violência em torno do tema existiam antes da pornografia, mas foi exatamente o status de mídia e produto em série que criaram novos contextos para o sexo. Antes da internet, as pessoas dependiam basicamente da locação eventual de filmes ou da compra esporádica de revistas impressas. Com a chegada da internet, isso se massificou em quantidade e ritmo. As pessoas sentiram que estavam livres pra absorver e compartilhar muito mais material, sem ter a inconveniência do custo e das limitações sociais pra aquisição e uso dessas mídias.

Com a disseminação da pornografia na internet, as buscas por esse tipo de material alimentaram também um gigantesca indústria de anunciantes. A princípio, vendendo qualquer tipo de produto, mas, com o refinamento dos sistemas, filtrando cada vez mais o estilo dos potenciais consumidores que estavam por ali num site de buscas, num blog de fotos pornográficas ou mesmo nos inúmeros sites de vídeos. Essa é a história resumida da pornografia no mundo, mas o que pouca gente sabe é que isso causou e continua a causar problemas no ser humano. Não é o caso de ser simplista de apontar a pornografia como um malefício em si. Não é ela, a princípio, o problema, mas sim como ela é feita e que mudanças traz na percepção de quem a consome e, igualmente importante, as mudanças que traz até no desempenho físico.

O modelo de pornografia disseminado no mundo é baseado em uma objetificação tremenda da figura feminina, como resultado automático de um crescente machismo na sociedade. Dessa objetificação, abriram-se portas para uma exploração financeira gigantesca que satisfaz todo tipo de desejo, todo tipo de pessoa e sexualidade, mas especialmente de homens héteros. Em todo esse material se vê a tendência de transformar o sexo em algo violento, frio, mecanizado e instantâneo. A busca por conteúdos cada vez mais explícitos e diretos, tiram dessas cenas qualquer outro valor ou contexto, resumindo ao espectador a ideia de que sexo é sinônimo de fricção e penetração, basicamente, com ou sem as condições necessárias pra tal.

Não é meu papel dizer com o que você deve se atrair ou se excitar, já que isso está formado em cada indivíduo por inúmeros aspectos prévios, como sua formação pessoal, personalidade, traumas, complexos, genética, hormônios, fetiches, memórias e também todo o contexto social e de interação íntima que se teve. Contudo, mesmo diante dessa grande diversidade, as pessoas estão caminhando para um funil onde são condicionadas a um mesmo padrão de absorção da pornografia, devido a busca incessante por lucros de quem a produz para essa indústria. Este modelo prevê que um indivíduo gerará lucro enquanto estiver interessado por mais e mais. E para manter esse cliente consumindo constantemente, abre-se mão de um perigoso recurso que é de ofertar conteúdos cada vez mais extremos e distantes da realidade fora da internet. É quando cria-se um abismo entre o que ele absorve como ideal virtual e o que ele encontra de ideal no mundo natural.

Diante deste abismo formado, os consumidores de pornografia começam a perceber que, na vida real, o ser humano médio não tem aquele desempenho e aparência, assim como as pessoas não estão exatamente dispostas a se submeter a tais padrões sexuais, violências e fetiches, pois o desejo por pornografia irreal, extremada e violenta foi plantado, artificialmente, como forma de trazer um ‘algo a mais’ que não se encontra na vida real.

Isso faz o indivíduo buscar por fetiches cada vez mais específicos e a se fechar para realidade comum. Querem que o mundo se adeque ao imaginário das mídias consumidas com personagens caricatos, mas como a sociedade não se transforma na mesma velocidade e/ou direção que a pornografia, então o indivíduo pode acabar sentindo-se pouco estimulado com “apenas” sexo. O que antes seria motivo de satisfação garantida, depois de se acostumar com os extremos da pornografia, pode nem mesmo lhe excitar.

Uma grande parte dos usuários de internet consomem pornografia e, dos que chegam aos consultórios médicos e psicológicos, muitos apresentam disfunções sexuais em decorrência da desconexão mental entre sexo “convencional” e pornografia. Cada vez mais, as pessoas estão precisando artificializar a ereção, a lubrificação ou a excitação física e mental para o sexo, através de produtos e medicamentos, pra conseguirem se envolver com disposição no ato sexual.

Essa barreira é reflexo de um modelo de pornografia (ou de toda pornografia em substituição ao sexo natural), que altera aspectos da ansiedade, atração, fluxo sanguíneo, ritmo, contexto e outras questões. O sexo não é apenas físico. Ele ocorre, principalmente, na mente humana. O interesse e a excitação em uma relação sexual natural, depende de fatores subjetivos que são alimentados na mente. Desde o contexto em que as pessoas se conheceram e buscaram por aproximação, as carícias e seus significados pra cada pessoa em cada contexto, a sensação de entrega e interação com determinada pessoa, o compromisso ou a ausência de compromisso, os objetivos silenciosos por trás do ato, o jogo psicológico de um relacionamento não-físico prévio ou paralelo e a possibilidade da fusão entre prazer físico e prazer emocional entre os envolvidos.

Claro que isso não significa que o sexo precise ser sempre algo além de sexo e prazer físico, mas também não significa que não existam esses elementos na equação. Para cada circunstância da interação humana e até mesmo nos contextos onde uma pessoa esteja sozinha, o sexo adquire diferentes possibilidades ou necessidades. Essa é a graça de conseguirmos transpor a restrição de que sexo seja apenas atividade de reprodução da espécie. Até mesmo algumas outras espécies de animais fazem sexo por entretenimento, por assim dizer. Mas, quando o modelo ao qual a sociedade é conduzida atropela tantas liberdades, direitos e dignidades e, de quebra, ainda arruína a saúde sexual, não há muito mais pra onde piorar.

Em 2017 as pessoas dariam risada do que era considerado sexual em outras épocas e/ou culturas. Um tornozelo a mostra ou um decote simples, poderiam ser estímulos suficientes para as pessoas. O que diriam as pessoas dessas épocas passadas se vissem que, nem mesmo com o sexo explícito, algumas pessoas atuais conseguem se excitar? Assim é a mente humana. É ela quem controla a intensidade das coisas que vê, porque o que ela vê depende do que ela interpreta e sente sobre aquilo.

Uma vez que você se acostuma a ver violência e objetificação desenfreada, você se torna menos sensível a tudo isso e a indústria vem e traz algo ainda mais extremo, pra compensar sua insensibilidade. Esse efeito bola-de-neve mantém muita gente em um círculo vicioso de impotência sexual e até mesmo sob risco de depressão diante de uma vida que não o satisfaz como antes, nem mesmo em algo tão bom quanto o sexo. Talvez as novas gerações possam frear isso pra que não sejam vítimas ainda piores de um modelo de sociedade que vende prejuízos para os compradores ávidos, viciados e insatisfeitos.

Países como a Islândia já não ofertam pornografia e estão numa busca paralela para encerrar a pornografia na internet. Em parte essa visão veio como resultado de uma cultura e construção social alicerçada em desenvolvimento humano, educação e conquistas do movimento feminista, desde a década de 60. Se você não controla como interpreta o mundo, acaba sendo levado pelos ventos de quem controlará por você. E na busca por dinheiro, poder e escapes de violência, farão todo o tipo de situação para perpetuarem essas mídias doentias, motivados apenas pelo descontrole e vício, seja em sexo, dinheiro, violência, poder ou modelos de pensamento.

Para muita gente, o sexo é uma das melhores coisas da vida, assim como dormir, rir e comer. Mas, em muitas das coisas que o ser humano adoentado toca, ele destrói o benefício e fica apenas com os prejuízos que ele mesmo criou ou incentivou. É preciso um pouco de noção, percepção de quem se é, onde se está e pra onde se deseja ir. Quem você gostaria de ser hoje? E amanhã? De que forma suas decisões conscientes estão te ajudando a chegar em seus objetivos? E de que forma seus objetivos refletem sua segurança, sua saúde e seu bem-estar em geral?

Rodrigo Meyer