O lado bom da ignorância.

É difícil imaginar que haja algo de positivo na ignorância, mas existe. Quando nos envolvemos com tantas pessoas e situações, observamos detalhes e refletimos sobre como aquilo pode ajudar a um determinado objetivo.

No caso da ignorância, o lado positivo é justamente quando as pessoas espalham ‘acidentalmente’ ideias que ajudam a combater a ignorância no mundo. Um exemplo simples disso é quando alguém gosta de uma música ou banda e, mesmo nunca tendo conhecido suas letras, compartilha tais conteúdos e ajuda a levar essas mensagens adiante, por torná-las mais visíveis diante do público. Ironicamente, há quem divulgue seus próprios inimigos, por assim dizer. Existem, por exemplo, racistas que divulgam bandas cuja letra e postura são de combate ao racismo. Exemplos cômicos desse tipo estão em todo tipo de conteúdo, já que as pessoas que figuram na ignorância das coisas, pouco discernem sobre aquilo que consomem.

Entre os ignorantes, temos eficientes propagadores de conteúdo, já que eles são motivados por impulsos e não por entendimento complexo daquilo com que se deparam. Quando uma pessoa não fala inglês e está diante de uma música em inglês, pode ser levada a gostar do clima da música, da melodia ou mesmo do aspecto visual de um clipe ou do próprio artista. Assim, fica mais propenso a espalhar esse conteúdo, apesar de não ter refletido sobre o que aquela letra carregava. No caso de ser um conteúdo positivo, a ignorância foi útil, por facilitar a propagação. Mas, claro, ocorre também o contrário, quando não temos domínio de um idioma e acabamos compartilhando conteúdos ruins.

De toda forma, não se pode dizer que não exista um lado positivo na ignorância. Durante minha interação com grupos de amigos, especialmente os que estavam voltados a aprendizados específicos de História, Cultura e similares, brincava muito com a expressão ‘easter egg‘, que para os entusiastas de informática refere-se aos elementos surpresas que eram escondidos dentro de softwares (geralmente) pelas mãos daqueles que estiveram envolvidos na programação desses softwares. Na vida, existem muitos ‘easter eggs‘ espalhados em construções, livros, filmes, desenhos animados, relacionamentos, etc. Desde que o ser humano aprendeu o poder da disseminação das coisas populares, percebeu potencial em embutir suas próprias ideias nestas coisas. Se os autores de certos textos sobre práticas de xamanismo, magia sexual e iluminação espiritual, soubessem que seus originais enterrados no deserto seriam selecionados e compilados para compor a bíblia, certamente teriam produzido e enterrado muito mais, devido ao potencial que tal livro teria de ser espalhado junto com seus conteúdos originais pretendidos.

Acredito muito nessa ferramenta e conheço inúmeros casos onde ela é propositalmente usada para facilitar a propagação. Tal como um vírus que se espalha por uma epidemia, através da movimentação de seus portadores. Na época da ditadura, por exemplo, mesmo com a presença da censura nas mídias, muito se conseguiu comunicar fazendo uso de metáforas para assuntos que não poderiam ser comunicados explicitamente. A mensagem sobrevive, segue imune a censura e ainda por cima é propagada por todos de forma irrestrita, já que não é mal vista nem pelos leigos, nem pelos conhecedores. O doce sabor da ignorância, a favor do combate da própria ignorância.

Embora isso seja mais instigante em determinados contextos, é algo completamente corriqueiro em todo tipo de iniciativa pelo mundo. Se você já dividiu uma roda de amigos e ficou sem entender nada sobre uma conversa ou piada, você sabe como é eficiente a chamada ‘piada interna’, onde somente os envolvidos no assunto original conseguem decifrar o que está sendo dito de forma pública. Assim também foi feito em tempos de guerra quando se codificavam textos, sons ou sinais de código morse. Conteúdos importantes também foram embutidos em pinturas e ornamentos de arquitetura. Obras de inúmeros artistas, como Leonardo Da Vinci, por exemplo, trazem detalhes sobre outros assuntos que, aparentemente, não são o tema apresentado publicamente em tais obras. Nas construções tradicionais de igrejas e castelos, por exemplo, você pode encontrar a chamada ‘geometria sagrada’ que remete a simbolismos através de derivações de certas estruturas geométricas, para comunicar princípios e ensinamentos de outra temática que não a da religião em si a qual esses prédios ou instituições propagam publicamente, em teoria. No caso das igrejas, catedrais e muitos dos castelos, é o exato caso de chamarmos tais adições de ‘easter eggs‘, pelo fato de que seus construtores e arquitetos eram os que embutiam esses conhecimentos secretos pra que perdurassem e só fossem notados pelos que estivessem aptos a tal.

Desde sempre a humanidade ajuda a combater a ignorância sem sequer saber que está trabalhando pra tal objetivo. Quando você se entusiasma por filmes como Matrix, por exemplo, é levado a memorizar e espalhar a cultura em torno do filme, tendo muita informação carregada junto, em detalhes como o nome de um personagem, de uma nave ou o simbolismo por trás de uma cena. Embora tenhamos uma suposta liberdade de comunicar nossos pensamentos e ideias, nem sempre isso será conveniente, pois muita gente leiga poderá se opor e até boicotar determinados conteúdos, se souberem que algo ali possa estar conflitando com sua bolha de impressões sobre a realidade ou mesmo de seus objetivos e interesses principais. Assim, a eficiência no ‘easter egg‘ é justamente passar desapercebido do público comum e depender de outros conhecimentos pra ser encontrado e/ou decifrado. Assim, enquanto a maioria das pessoas não estão prontas pra absorver o conteúdo escondido, elas se ocupam em propagar o conteúdo geral, fortalecendo, assim, a longevidade da informação anexada.

Há um ditado que diz que a melhor forma de esconder um tesouro é deixá-lo exposto. Isso mostra que a maior eficiência no sigilo de uma informação depende tão somente do nível de compreensão das pessoas. Se muita gente passa por uma pedra na rua e não vê nada de relevante nela, nunca terão a intenção de procurar tesouros em algo tão improvável. Por vezes, algo muito popular é banal o suficiente pra se tornar o melhor disfarce ou esconderijo para algo importante. Costumo sempre espalhar a frase “nunca subestime algo ou alguém pela aparência, pois um rei pode se disfarçar de mendigo se lhe for conveniente”. Uma metáfora simples pra dizer que, muito conteúdo de valor pode estar escondido em textos, letras de música, pinturas, softwares, sites, construções, conversas, etc. Aliás, oportuno momento pra dizer quanta coisa incrível eu absorvi na interação com moradores de rua. Enquanto muita gente os evita por conta de suas roupas gastas ou sujas, pessoas sem preconceito podem ter a grata oportunidade de traçar conversas incríveis, pra conhecer histórias, personalidades, conhecimentos, visões de mundo, etc.

Lembro, com sorriso no rosto, das diversas vezes em que vi pessoas na internet compartilhando músicas que basicamente falavam de assuntos aos quais elas mesmas se opunham ideologicamente. Um bom exemplo de como um conteúdo bem construído ou fácil de ser espalhado contagia até mesmo os inimigos a levar nossa mensagem adiante. Eu chamo isso de ‘colocar o inimigo pra trabalhar’. Sempre repito isso por onde passo, pois acredito muito no potencial dos ignorantes de serem úteis para o combate da ignorância no mundo. Sempre coloque os inimigos a seu favor e os faça trabalhar pela sua ideia, sua mensagem, sua arte, seu trabalho, seu objetivo, etc. Por eles não estarem cientes daquilo que estão espalhando junto, estarão mais favoráveis para a ação, sem defesa, sem resistência, sem críticas. Mas, ao mesmo tempo, tome cuidado com essa ideia, pois assim como é usada para espalhar o bem também é para espalhar todo tipo de entulho. Disfarçados e embutidos atrás de instituições, empresas, religiões, ideologias, discursos políticos, estão inúmeras armadilhas para fisgar incautos para que disseminem junto os discursos de ódio, o racismo, o machismo, a xenofobia, o consumismo, a exploração humana e animal, a normalização da degeneração da ética e da justiça, etc.

Portanto, em conclusão, mesmo que a ferramenta esteja acessível, é preciso saber usá-la e não ser vítima dela mesma quando estiver diante de outros utilizadores. Assim, a melhor recomendação é sempre se abster da ignorância e pensar por conta própria, ter independência e disposição pra buscar conhecimento e não ser apenas um papagaio que tudo repete sem reflexão, sem entendimento. Esteja diante dos conteúdos com um olhar curioso e com a mente aberta e neutra. Eliminando os preconceitos de sua mente, você estará apto a descobrir tesouros escondidos na própria realidade e até em você mesmo. Seja como aqueles poucos que não ignoram a pedra na rua por classificá-la como banal. Olhe pra realidade como uma infinitude de coisas e situações abarrotadas de potencial para serem algo mais. Permita-se ouvir uma música e refletir o que aquela letra comunica além das aparências iniciais.

Coloque-se no mundo como se estivesse decifrando códigos ou como se estivesse tentando estar por dentro da realidade em tempos de censura. Você verá que uma obra é sempre muito mais do que parece. Não digo que todo criador tenha embutido propositalmente algum segredo ou significado adicional em suas expressões, mas com certeza toda obra carrega algo de oculto, mesmo que seja apenas por ação inconsciente ou por tradição, tal como um arquiteto moderno que, mesmo se eventualmente não souber do simbolismo da geometria sagrada, poderá replicá-la pela tradição da estética. E mesmo quando não é este o caso, expressões tem sempre algo extra que podemos aprender, se tivermos com os olhos prontos. Até mesmo diante do vazio e do banal, há o que se extrair. Foi exatamente assim que descobri que mesmo na ignorância havia algo de positivo. Eis tudo o que ela me permitiu encontrar.

Rodrigo Meyer

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