Prosa | Vermelho Cocaína.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, sendo parte de uma fotografia marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Quem é que sabe os motivos da vida? Algumas coisas acontecem sem que saibamos como reagir. Às vezes, queremos mudar o rumo das coisas, mas o tempo já passou e as coisas não querem mais serem mudadas. Custamos a entender que isso não é uma perda, pois não perdemos o que nunca tivemos. Você foi um desses episódios em um momento onde eu estava completamente perdido e descrente na minha vida.

Nos conhecemos na faculdade e foi fácil fazer amizade contigo. Estávamos conectados pelo que parecia ser um estilo de vida em comum. Tínhamos uma amizade em comum com quem dividíamos algumas noites de bar. Saíamos em pequenos grupos pra dividir a noite em diversos lugares. Era tudo muito bom, porque as companhias me prendiam a atenção. Dividimos muitas risadas, muitas conversas e muitas outras coisas em festas. Eu me encantava com o seu jeito, seu cabelo curto tingido de vermelho. Quando eu te olhava, a noite se preenchia com essa energia marcante. Quando estávamos no nosso restrito grupo, ninguém de fora era convidado. Construímos isso espontaneamente, sem ninguém ter falado.

Entre cigarros e bebidas, estava claro que, frequentemente, havia cocaína. E foi isso que, em pouco tempo, te deixou mais magra ainda. Te dei um apelido carinhoso por isso, porque, visualmente, você parecia muito frágil, muito pequenina. E foi totalmente verdade o que lhe disse certa vez: você sempre foi muito bonita e continuava, mas eu estava realmente preocupado com a progressão da sua magreza. Eu podia dar a volta em seu braço apenas com a minha mão. Você pode ter perdido o compasso com a sua ‘farinha’, mas eu só queria que você analisasse a situação e, se precisasse de ajuda, podia contar comigo, porque eu realmente queria te ver bem. Não toquei mais no assunto, porque, apesar de tudo, era só você quem deveria saber o que fazer da sua vida.

Se tem uma coisa que me lembro, como se fosse hoje, foram de todos os abraços que nos damos. Você parecia gostar que eu fosse maior que você. Talvez tivesse a sensação de ser totalmente acolhida quando se acomodava confortavelmente naqueles abraços. E quando eu te abraçava, eu podia te possuir inteira. Era realmente muito bom ter você apertada em mim. E eu admito, sem nenhum pudor, que, frequentemente, minha mente ia lá pra Lua e eu te imaginava nua, deitada comigo, cumprindo todo o potencial da química e da sintonia. Você me atraía de muitas maneiras, pela sua voz, o que pensava e dizia, seu semblante, seu cabelo, suas roupas, seu estilo de vida, seu jeito de se sentar e alguma coisa que derivava da sua silhueta e do meu imaginário do que seriam os seus dias. Não foi à toa que nos agrupamos desde os primeiros momentos. E nessas idas e vindas de uma noite e outra, acabou surgindo um incômodo dia que até hoje eu não sei bem como descrever.

Estávamos em uma mesa de bar, junto com mais uma ou duas pessoas. Éramos os mesmos de costume e desde sempre já nos sentíamos livres e confortáveis naquele pequeno grupo. Você estava sentada ao meu lado e, gradualmente, se aproximou sugerindo um beijo. Mas eu, apesar de todos os meus desejos e pensamentos, estava realmente muito perdido na vida. Antecipando tristes possibilidades futuras, eu desviei do seu beijo por achar que, se eu cedesse e, depois de um tempo, você não quisesse mais nada comigo, eu acabaria sofrendo e, provavelmente, ia tentar me afastar de você, pra frear o sentimento. E, imaginando tudo isso, eu realmente não queria fazer nada que pudesse eliminar nossa amizade. Foi estranho, eu reconheço, mas a minha vida naquele tempo estava tão perturbada, que eu estava sistematicamente evitando sentimentos e relacionamentos de casal, enquanto, ao mesmo tempo, estava preservando ao máximo qualquer amizade valiosa que surgia.

A minha reação de recusa te frustrou e te deixou, talvez, insegura. E tudo ficou um pouco mais confuso, porque eu te adorava e aquilo doeu em mim também. Eu te acolhi, te dei um abraço, puxei você pra perto de mim e tentei te reconfortar. Não havia nada de errado contigo. Era apenas eu que viajava em incertezas sobre a vida e recusava tudo, até o que não devia. Eu levei um tempo pra organizar tudo isso na minha mente e foi mais longo do que eu queria que fosse. Mesmo que eu tivesse me explicado à tempo, você, talvez, já não me aceitasse. E por não saber como explicar, eu deixei as coisas se perderem no tempo. Não sei o que a vida poderia ter sido, se tivéssemos reagido diferente. Tudo que eu sei é que, assim como você, eu também tinha uma série de questões nos bastidores. Eu fui te procurar, muito tempo depois, pra tentar me redimir ou, pelo menos, me explicar. Mas, nunca houve sua resposta e ficou implícito que só me restava seguir a vida e me conformar. Botei na minha cabeça que, se você não iria sequer me ler, sua opinião sobre o assunto já estava dada e encerrada.

Recentemente, relembrando tudo isso, me bateu a curiosidade. Fui ver que rumo tomou a sua vida. Grande parte dela, ainda me parece igualmente interessante, mas uma parte me deixou dúvidas. Às vezes é difícil distinguir se os seus interesses em determinados assuntos é seu universo pessoal ou mera necessidade da sua profissão. Como eu não vi nada muito claro que mostrasse qualquer posição diferente de tudo aquilo, eu preferi ignorar e deixar tranquilo o que já estava tranquilo. Não posso negar que você é intrigante e que rouba espaço nas minhas melhores memórias. Por isso, prestei esse texto da forma mais sincera que pude e, caso um dia resolva vir falar comigo, saiba que eu tenho tempo, tenho tranquilidade e quase tudo do meu passado já foi organizado e resolvido. Eu só queria mesmo que as pessoas que marcaram minha vida em pequenos grandes momentos estivessem ainda hoje por perto, pra que pudéssemos nos escutar, nos apoiar, como sempre fazíamos. Se ainda houver compatibilidade, eu serei o primeiro a manter a mão estendida. Mas, se nossos mundos forem inconciliáveis, mudemos de jogo e de jogadores, pra tentarmos ganhar nossas próprias próximas partidas.

Não vou me prolongar muito. Quero só dizer que estou de partida pra fora do país, que as condições estão bem estáveis e que, desde que eu percebi que perdi o que não deveria perder, eu tenho vivido sem nenhum medo ou restrição. Quando a gente perde tudo, não tem mais nada pra perder, então, nada mais nos assusta, nem nos impede de tentar. Eu não faço ideia se o destino ainda me reserva algum momento bom, mas eu vou continuar a fotografar tudo que eu puder e tentar conhecer o maior número de lugares desse mundo. Se alguém se sentir confortável de me acompanhar, é só chegar junto.

Enquanto eu escrevia esse texto, essa música me veio à cabeça: “Bem Que Se Quis”, na voz de Marisa Monte.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Cartas, saudades e novos substantivos.

Esse texto é ficcional, incluindo os personagens e os acontecimentos. Qualquer semelhança com pessoas e episódios reais é mera coincidência. A imagem que ilustra esse texto é meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Que saudade tenho de escrever cartas pra ela. Trocávamos correspondências como se fosse nossa única opção de contato, apesar da internet. Raramente nos víamos online. Me lembro como era gratificante abrir a caixa de correio e encontrar um envelope com a letra dela. Eu dedicava boa parte dos meus dias contemplando cada aspecto. Depois de retirar com o máximo cuidado a novidade da caixa de correio, levava pro quarto pra olhar mais de perto. Apesar da distância percorrida, o envelope se mantinha perfumado. Era como se eu estivesse conectado diretamente à ela, só de olhar para a carta.

Desde a primeira vez, adotei um padrão de corte na lateral, na intenção de preservar o máximo possível, quando fosse extrair a carta. Era caprichoso, quase que devotado. Adorava fechar os olhos e sentir o presente que eu havia ganhado. Observava o tipo de papel, o desenho das letras, o tom da tinta, os desenhos, a assinatura, os anexos cuidadosamente prensados, quase sempre flores ou folhas secas. Era agradável de ler, mas eu evitava de manusear por muito tempo, pois considerava o meu tesouro pessoal. Logo fui atrás de algumas pastas pra arquivar as folhas individualmente. Se tornou um ritual ou hobby e eu investi tempo e dinheiro nisso.

No final da noite, eu me sentava em uma sala fechada, ligava o rádio bem baixinho e deixava um abajur sobre a mesa. Enquanto ia relendo a carta dela, ia rascunhando a minha. Depois, quando acreditava ter dito tudo, fazia uma versão definitiva com a melhor letra que eu conseguia. Nem de longe eu alcançava a personalidade e a leveza da caligrafia dela, mas eu me cobrava pra ser legível e impor alguma beleza no que eu fazia. Fazia questão de escolher o tom da tinta e fechar o envelope logo em seguida, mesmo que só fosse enviar a carta no dia seguinte. Bons momentos em que estar ansioso era uma coisa positiva. Eu ficava entusiasmado, rindo sozinho e, se pudesse reparar, certamente veria brilho nos meus olhos.

Por muitas e muitas vezes repetimos esse processo de esperar pelo próximo contato, dedicar um tempo escolhendo alguns pequenos detalhes, desenhar palavras e prensar junto uma série de sentimentos e desejos. Ficava cada vez mais intensa a energia enviada e recebida naquelas cartas. Os envelopes quase que falavam sozinhos, tinha luz própria. E enxergar essa conexão tão peculiar com alguém, parecia ser a melhor e única forma de se viver a vida. Se pudéssemos, teríamos antecipado nosso relacionamento desde o primeiro dia.

Vivemos bons momentos, isso é inegável. A saudade que sinto hoje, me faz lembrar de cada um desses detalhes, porque tudo foi realmente muito importante. A saudade é exatamente isso. É saber que perdemos algo de imenso valor que queríamos ter por perto. Não quero especular como seria voltar no tempo e nem divagar sobre porque as coisas acontecem do jeito que acontecem. A vida se inicia, cresce, floresce e, claro, termina. Pessoas morrem, isso é natural. Cedo ou tarde, por um motivo ou outro, as pessoas deixam de nos fazer companhia. Lembrar que as pessoas não são eternas enquanto corpos, nos obriga a olhar pra nossa própria vida. Às vezes eu revisito minhas memórias, tentando me banhar desses momentos bonitos. Mas, se por um lado eles tem esse poder de nos encantar, por outro nos obriga a perceber que não temos mais aquilo. E, às vezes, isso dói, mas também há coisas que perdemos que são puro alívio.

Tenho saudade também pelo estilo de vida. Hoje já não tenho para quem escrever e, mesmo que tivesse, creio que não mais faria. Não é o tipo de interação que faz o devido sentido pra maioria das pessoas. Talvez o momento de escrever cartas já tenha passado e eu me tornei um triste saudosista. Talvez eu queira apenas reviver os sentimentos aos quais isso estava atrelado. Eu realmente não sei dizer. Sei apenas que são outros tempos, outras pessoas e até mesmo eu sou diferente. Me tornei alguém transformado por tudo que vi, vivi e venci, mas, sobretudo, por aquilo que não pude ver, não pude viver, muito menos vencer. Somos a soma de nossos acertos e erros, nossos fracassos e glórias. Se vivemos intensamente, é bem provável que tenhamos mais fracassos do que glórias. A vida não ameniza pra quem quer que seja.

O que faço eu com essa saudade? Onde enterro a minha vontade de escrever cartas? Talvez eu encontre outras formas de trocar tesouros, que não sejam simplesmente cartas manuscritas. Já pensei um bocado nisso e fiquei um tempo listando, de improviso, as coisas que eu gostaria de receber ou presentear, se houvesse alguém realmente digno desse momento. Muita gente não entende o valor das coisas, até que tenha recebido elas de alguém importante. Mesmo que seja um papel amassado, uma fotografia, uma peça de roupa ou um livro, tudo isso vira ouro, se nos causa um específico sorriso. São objetos que não possuem um valor especial em si, mas vindos das mãos certas viram tesouro no mesmo segundo. Foi muito bonito enquanto durou a sensação, mas depois de tantos anos, não havia mais nada que justificasse todas aquelas coisas acumuladas. Me livrei de cada uma delas, transmutando e ressignificando. Fica a saudade, claro, mas isso ainda pode ser discutido.

Quando olho pra esse buraco, sei que ele só existe, porque eu fiz disso algo que me ocupava mais do que devia. Se as coisas começam a pesar e nos impedir de seguir a vida, então é hora de mudarmos o valor que damos ao passado e nos empenhar mais naquilo que ainda temos pra fazer no presente. Não precisamos tentar apagar o que vivemos, pois nunca conseguiremos. Temos simplesmente que perceber que as coisas não são tão importantes como pensamos e que o peso delas na nossa mente, depende exatamente disso. Acho que é essa a resposta que eu preciso pra lidar com aquela saudade. Vou olhar pros meus próximos dias, tentando criar um mundo todo novo, longe daquelas velhas manias, aquelas histórias repetitivas. Tenho muito pra viver, muito pra dizer e, se eu não me sabotar, pode ser que eu vença a próxima partida. Vai depender dos novos hábitos que eu cultivar, das palavras escolhidas, das decisões que faço a cada dia. Eu mesmo dizia pra tanta gente quão importante era cuidar do próprio jardim e, por imenso descuido ou até acaso, eu parei de investir na minha própria vida. Mas, estejam avisados, principalmente eu mesmo, de que amanhã fará sol e eu serei minha própria notícia.

Rodrigo Meyer – Author

Custa caro ser feliz.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para reutilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Sentei pra ouvir música, como há várias semanas eu não ouvia. Mas não pude sentir o prazer que isso me dava anos ou décadas atrás. Algo em mim continua desligado, desconectado ou quebrado. Algo em mim grita silêncios, espalha tédio pelo meu dia. Esse algo me faz sentar na mesma cadeira todos os dias e não me deixa sentir descansado. É alguma coisa que me tira da cama para, logo em seguida, me jogar de volta. É algo que me tira o prazer de comer, a vontade de abrir as janelas e às vezes me desencanta até de abrir os olhos. Esses dias o chuveiro de casa queimou e a frieza da água já não me surpreendeu. Talvez, em um contexto normal, eu até reclamasse do azar, mas a verdade é que já não me importo. O chuveiro está queimado, a janela emperrada, a porta empenada e o portão enferrujado. Tudo combina bem com as dores nos joelhos, os olhos cansados, o peso nas costas, a angústia no peito, o frio nos pés.

O mundo parece corroído, lidando com uma vida enferrujada, o trabalho precário, o desemprego, o despejo, a miséria e a falta de perspectiva. Somos um mundo doente, tentando mover as juntas, antes que elas se acabem no atrito. Estamos aflitos e de aflição entendemos bem. Somos uma sociedade vendida como ‘feliz’ por muitos, mas que, na verdade, não está nada bem. Que felicidade é essa que todo ano bate recordes de suicídio, assassinatos, ódio de todo tipo, pobreza, desafeto e desconfiança? Quem é que está feliz de perder a vida todos os dias, de se vender por um prato de comida e não ter nem mesmo garantia de aposentadoria? A felicidade, ao contrário do que dizem os farsantes egoístas, não é uma simples escolha do indivíduo. Dizer tal absurdo, no alto dos seus privilégios sociais é só mais um motivo, entre milhares de outros, pra ninguém abaixo conseguir alcançar o tão desejado caminho da felicidade. Essa gente debocha da dor alheia e difunde a ideia, em mídia aberta, de que o caos não existe e que tudo só depende do olhar que damos às coisas. Nada pode ser mais desonesto e criminoso do que incentivar o conformismo entre os que mais sofrem na sociedade.

Essa gente mesquinha, egoísta, psicopata e desacreditada de todo e qualquer valor na vida, vive pelo dinheiro, poder e fama, pois é tudo que lhe resta na cabeça. Atropelam multidões apenas para apanhar seus próximos centavos. Enquanto isso, eu sento pra ouvir música, mas não sinto mais prazer algum. Também não tenho esperança pelo próximo dia de trabalho e nem sei o que faço nessa sociedade. Talvez eu acorde de um grande pesadelo, mas, por enquanto, tudo me parece real e profundamente amargo. Me enojo pela manhã de ver bandidos fardados abertamente nazistas, debochando das repercussões midiáticas das manifestações antirracistas que percorreram os Estados Unidos e o mundo, repetindo diversas vezes o mesmo ato criminoso que desencadeou tais manifestações. A escolha proposital do momento e dos detalhes de cada ato desses vermes fardados, deixam claro a referência e a intenção. Por isso e por muito mais, eu me sento pra ouvir música, mas já não sou capaz. Eu tento, aproximo os ouvidos, presto atenção, mas nada daquilo cativa a minha mente.

Você que me lê, talvez ainda não esteja do jeito que eu estou. Talvez ainda tenha brilho nos olhos, prazer pulsando pelos poros, virtudes a serem contempladas e dias divertidos à sua espera. Talvez você tenha esperança pelo momento em que essa pandemia propositalmente descontrolada chegue ao fim. Talvez você não adoeça sua cabeça de ver o genocídio na rua ao lado, os cemitérios entupidos e os hospitais colapsados. Talvez você não tenha apreço por nada disso, nem se importe de ver o mundo um pouco mais deteriorado, menos útil e menos mundo. Talvez seja só eu, sozinho no meu imaginário, definhando de dor, de infelicidade, sem saber pra onde vou amanhã, por não ser um daqueles desocupados com indigno título de filósofo ou doutor que brincam de política ao lado de fascistas em um país internacionalmente humilhado, devastado, miserável e indigno.

Sou, talvez, junto com milhões de outros brasileiros, a estranha exceção, a minoria que soma mais de 70% da população, o caso isolado que se vê sempre em toda esquina e a opinião meramente pessoal que, coincidentemente, é a mesma de um imenso coletivo. Dever ser um erro da Matemática, uma falha nas leis da Física e uma ruptura desconhecida com a “verdadeira realidade”. Talvez eu esteja feliz e não saiba, mesmo quando me sento pra ouvir música e sinto absolutamente nada. Por alguma razão misteriosa, olho pela janela e nada mais me importa, entro debaixo do chuveiro de luz apagada, pra não ofuscar essa suposta felicidade brilhante no banheiro. As cortinas estão fechadas, mas deve ser só ornamento pra festejar a euforia que dizem que sinto, mas que não consigo sentir. Deve ser a felicidade que chega sem chegar, a saúde pra nomear doenças, a vida pra representar a morte e assim por diante.

Debaixo das fardas e paletós, sujos de sangue, pólvora e cocaína, a imundice contamina mais que qualquer epidemia. Tem muito dela desde sempre e nos últimos anos foi ainda pior. A imundice se tornou o objetivo de uma classe tão vazia quanto esse mundo sem felicidade alguma. É desse vazio torto de uma parcela doentia, que o mundo se vê apodrecido, morto e sem esperança. Esse ambiente podre no mundo se torna o próprio gatilho que ativa as munições mais pesadas contra a qualidade de vida, a saúde mental, a dignidade humana, a vontade de viver. Nenhuma dessas doenças e mazelas chegam ao acaso e não são nada fáceis de se vencer. Quem me dera se fosse simples como apenas decidir ser feliz, quando nem mesmo a realidade física e química do meu corpo correspondem às alucinações e à falta de caráter desses estercos falantes. Permitir que os imundos tracem qualquer parecer sobre a felicidade da sociedade é dar palco pra quem não deveria sequer estar ocupando espaço físico ou simbólico em canto algum.

Hoje eu acordei, me sentei pra ouvir música e não pude sentir nada. Minha vida está corrompida há décadas e nos raros dias em que existiram sonhos, rapidamente sumiram pra dar espaço pra constante frustração e desejo sincero por vingança e revolução. O tempo passa e ainda estamos na mesma batalha. Batendo todo dia na mesma tecla, contra a alucinação coletiva, contra a barbárie do capitalismo e de sua versão final, o fascismo. Enquanto eu estiver vivo, vou acordar lembrando do que eu preciso, do que eu sinto e do que eu já não consigo mais sentir. Vou me lembrar de cada nome, cada detalhe, cada momento e chegarei cobrando um alto preço pela minha realidade roubada, meus anos de vida não vividos, minha saúde deteriorada e minha raiva acumulada. Só por ironia, me lembrarei de aplicar pesados juros, multas desproporcionais, impostos improdutivos e correções monetárias que façam ervilhas se tornarem o mais novo Universo em expansão. Vai ter poesia, drama, ficção, como toda boa obra de cinema, mas será tudo baseado em fatos reais, como a própria História nos convida para ver e fazer. Se forem necessárias as explosões, como costumam ser nos filmes de guerra, não me oponho. Que venham de todos os tons e megatons. Se um verme me diz que felicidade é questão de escolha, então eu vou dizer pra ele o que é que eu escolho pra me ver mais próximo de ser feliz. Que ele aguente o tranco, porque, como ele mesmo diz, basta assim decidir. Mudanças virão e eu não quero ouvir verme chorando de barriga cheia.

Rodrigo Meyer – Author

Minha ideia sobre bons momentos acompanhado.

Embora seja fácil pra mim citar uma infinidade de cenários que me interessam, é importante antecipar que isso não restringe as possibilidades, nem torna o que foi citado como premissa. O que vem a seguir, demonstra, sobretudo, como as coisas podem ser diversas, diferentes, permeando desde o convencional ao exótico, indo de coisas simples até sonhos que exigem maior preparo. O importante nisso tudo é o que está por trás de cada momento, de cada interação, o que ocorre na mente de cada um, o que se abriga no sentido subjetivo, simbólico, emocional e ideológico por trás. Muito disso traz aspectos de liberdade, de ousadia, de cumplicidade, de transformação, de coragem, de tranquilidade, proteção, mudança, sinceridade, confiança, mistério e também a beleza dos dramas.

Pensar em bons momentos pra se viver, me fazem viajar em realidades das mais diversas. Eu sou uma pessoa diversa. Muito. Eu consigo permear inúmeras realidades e me sentir pleno em todas elas. Eu sei ver o que há de bonito em todo tipo de realidade. Eu consigo transformar a minha vida em diversas outras vidas. Eu sou uma biblioteca à ser escrita, podendo ter uma história diferente em cada livro. Eu não sei qual vai ser a próxima realidade que eu vou vivenciar, mas todas as realidades que me chegam, eu vivo intensamente, entregue totalmente, em sinceridade.

É um bom momento pra mim, andar pela cidade, lado a lado, em dois, em trio, em grupo e chegar recebido e convidado para um apartamento. Apartamentos são diferentes de casas. Eles tem uma atmosfera diferente. Sentar num chão é tão bom quanto sentar num sofá e ambos são mil vezes melhor do que sentar numa cadeira. Eu penso que seja o viés social e informal. Cadeiras são unitárias, enquanto o sofá e o chão são espaços coletivos. Cadeiras são construções formais para fins quase sempre muito específicos, enquanto que os sofás são um recanto de acolhimento, de conforto, de socialização e do imprevisto. Se quer me ver brilhar os olhos, me chame pra sentar no chão, beba junto comigo e me mostre algo bonito. Estejamos alí sem hora pra acabar. Deixa o tempo fluir, enquanto o dono da casa não tiver que sair pra trabalhar. Coloque uma música baixinho, vamos só sentir o momento. Olhares, muitos olhares. Isso é a base da melhor comunicação.

Outra possibilidade encantadora é viajar o mundo. Que eu acorde cedo, tarde ou mesmo de madrugada. Vamos cansar e descansar nas filas de estações de ônibus, nos trens, aeroportos, a pé ou de carro. Não importa como, a gente vai sair e chegar. Será ótimo ver o dia passar. E de repente apertar o passo, pra não perder o horário, mas tudo bem se não chegarmos à tempo e tivermos que mudar os planos. A gente sobrevive, dorme na calçada, segura o sono até podermos sentar, mas a gente faz, porque tudo isso é viver. Conversa comigo, observe as pessoas, vamos rir, vamos brincar, vamos imaginar. Me mande uma mensagem inesperada, no meio da madrugada e me peça pra ir aí. Os melhores dias começam assim. Gente intensa, gente viva, que percebe o segredo da vida nestes pequenos grandes atos. Se nada der certo a gente enfrenta junto. É preciso se entregar pra que coisas incríveis comecem a acontecer.

Também é bom estar em casa, deitado na cama, fazendo coisa nenhuma, recebendo um carinho, ouvindo conversas ao pé do ouvido, dormindo, ouvindo a chuva cair ou uma música de fundo que nos faça sorrir. Dividir uma pizza, uma bebida, um incenso, uma lareira, um vento na janela, uma cadeira na varanda, um chão, meu chão, o chão de quem vier. Vamos sentir a maciez do cobertor e o cheiro diferente que toda casa tem. Vamos redescobrir o sentido do tempo, se permitir sentir-se em casa na casa do outro, abrir a geladeira, tomar um banho, despir-se, usar a internet, convidar mais gente, inventar uma festa ou não ter ninguém e deixar espaço pra fechar os olhos e sentir. Não traga nicotina, tem coisa melhor pra se fumar. Se tens tempo, fica o dia todo, vira o dia, passa uns dias, volte quando precisar voltar.

Gosto também de estar mergulhado na noite, nas ruas, sentindo o movimento, a ação, a incerteza, a novidade, gente diferente, gente estranha, gente feia ou bonita, mas gente, muita gente, por onde possamos nos perder e encontrar novas portas, novos cantos, novas conversas, novas possibilidades. Vamos puxar assunto com alguém que acabamos de conhecer. Olho nos olhos, assistindo a linguagem dos corpos e vendo se tem alguém alí que pode nos acender. Vamos dividir uma mesa, brindar à beleza e descobrir só na hora pra onde vamos ir. Precisamos escutar bem as conversas, ouvir os detalhes. Lá habitam mundos. Pegue no braço, sinta os perfumes. Assim estaremos vivos o suficiente pra morrermos antes do sol nascer. Não deixe a janela aberta. A penumbra filtra o necessário pra que tudo seja mais aceitável. Não precisamos descobrir as coisas como elas são, mas só sentir o que elas podem ser por aquele momento.

Que lindo momento seria se houvesse um piano. Sentar um instante e matar saudade dos tempos de música. Entender que tudo fica mais fácil se estamos despreocupados com a vida. Apenas sentir os dedos encontrando as teclas, como se sempre soubesse onde precisa tocar. Brincar de poeta, inventar melodias, exercitar a alma. Fique por perto, sente na poltrona, use tua droga preferida e entre na viagem daquele momento. Mas não apague, não fique totalmente perdida, deixe pra se perder na sua vez de tocar o piano, de ser arte, fazer arte, fazer parte. Vamos vedar a casa, pra não incomodar os vizinhos ou morar num lugar onde eles apreciem nossos desvios. Que as janelas possam ser de vidro, porque quero olhar as luzes da cidade lá fora ou um espaço de natureza onde o vento agite uns galhos de árvore no meio da escuridão. Se estivermos acordados de dia, que possamos, pelo menos, sentir o laranja da tarde ou algum frio congelante que nos faça sentir melancolia.

Do outro lado da vida, ainda se vive a mesma vida, se não deixamos de ser a mesma pessoa. A vantagem em ser diverso é poder apreciar também um simples momento em família. Vamos visitar uns parentes ou desconhecidos, numa festa de aniversário, num evento beneficente ou qualquer coisa parecida. Vamos conversar com idosos, conhecer histórias, prestar memória, deixar aquilo ser algo bom pra se lembrar. Fazer ser importante pra quem recebe a presença e encontrarmos importância também no que eles podem nos dar. Vamos rir de crianças, das coisas bobas e bonitas que fazem, sentir ternura e relembrar como é bom essa fase. Vamos ver animais, abraçar cavalos, assistir uns patos, libertar passarinhos e inventar nomes pra uns gatos. Vamos espalhar uns panfletos na avenida, nas caixas de correio da vila, nos arredores das escolas. Vamos fotografar, escrever, desenhar, promover, apoiar. Vamos pras ruas em tempos de luta, chutar pra longe as bombas de gás lacrimogêneo. Vamos nos juntar a milhares de outras pessoas com vida. Amarra o coturno, apressa o passo, segura no braço, vamos se entrelaçar formando uma fila.

Em companhia, não fecho as portas pra nada. Não me importa se é um amigo, um mendigo, um perdido ou uma namorada. Por aqui você pode contar comigo, não tem tabu, não tem frescura, não tem perigo. Se está feliz ou triste, se perdeu a saúde ou precisa ser ouvido. Eu não sei qual é o seu momento, mas eu estarei lá pra fazer a minha parte. Pode me contar, eu vou ouvir, me pergunte, eu vou responder. Não tem problema nenhum se você é diferente, se sua vida anda meio perdida ou se você sente que não tem espaço pra se explicar. Aperta minha mão, dá um abraço, perde o medo, não tenha vergonha, fale do seu jeito, no seu tempo, o que achar que deve. Vamos conversar, vamos trocar. Estamos vivos, somos gente de valor, vamos se valorizar. Aceita um convite, deixa eu oferecer uma comida, talvez uma bebida, talvez um conselho pra dar. Me conte sua história, vamos dar a volta por cima, fazer isso ser motivo de glória e não motivo pra chorar. Incômodo são somente os outros que nos ignoram e não sabem nos fazer brilhar. Pode vir, com sua roupa furada, sua bagagem amassada, seu olhar maltratado, seu tesouro quebrado, sua insegurança, sua timidez, seus medos. Traga o que tiver e será suficiente. Aproveita o dia, pois todos merecemos. Fique tranquilo, encontre prazer em ser, em ter alguém pra chamar de amigo.

Há de se ver prazer também em cenários menos entristecidos. Vamos escrever cartas, cruzando distâncias curtas ou transoceânicas. Vamos agradecer, enviar desenhos, flores, histórias, pedaços valiosos de nossas próprias memórias. Vamos levar o nosso dia a dia pra alguém que nos seja importante. Dividir a vida à distância, pode ser tão ou mais vibrante do que pessoalmente. Tudo depende do que estamos fazendo e para quem. Pessoas incríveis encontram prazer e aventura em coisas que pra muitos é pura loucura. Vamos ter ideias, pensar junto, lembrar do outro, enviar um mimo, um presente, uma proposta, uma pergunta, um lembrete, um conselho, um elogio ou uma simples foto tirada na frente do espelho. Nos tornamos mais humanos quando conseguimos ser livres o suficiente pra aceitarmos múltiplos planos. Me surpreenda com um pacote de guloseima que só tem no lugar onde você vive. Eu vou me sentir feliz pela surpresa e lembrar disso vai me fazer me conectar melhor contigo. Não importa que nome isso tenha. Faça isso ser leve, intenso e sempre valerá a pena.

Também gostaria de momentos desafiadores. Conhecer o extremo nos lugares de neve, o calor pesado de grandes desertos e sumir por meio de vilarejos pequenos. Subir montanhas, descobrir cachoeiras, acampar por aí, deixar as aventuras serem elas mesmas. Me chama pra te ver acordando, de cara inchada, se espreguiçar olhando pro horizonte, sentar e contemplar. Vamos sorrir, abraçar, meditar, descobrir que pouca ou muita comida pode ser igualmente suficiente. Vamos lavar os pés no mar, deixar o sal limpar e o vento secar. Corre ali, volta com uma novidade, descobre um lugar, um bar, uma outra cidade. Vamos ficar, vamos partir, vamos dividir. Na praia, no campo e pra onde mais quisermos ir. Isso nos faz saudáveis, nos faz admiráveis, nos faz sorrir.

Trabalhar junto também é possível. Como em um jogo de vôlei, um levanta e o outro corta. Ser equipe, ser parceria é fazer a coisa funcionar de uma maneira que seja boa pra nós. É encontrar uma atividade que nos seja divertida, que dominemos e que tenhamos prazer em nos esforçar. Ver resultados não pode ser só uma meta a ser atingida, mas o cenário de quem tem objetivos pessoais naquela investida. É isso que nos faz investir, nos faz sentir seguros no que fazemos. Levante um dia com uma dúvida, uma proposta, uma pergunta, uma ideia nova. Me apresenta um livro, vamos comprar alguma coisa necessária qualquer pra tentarmos realizar nossos sonhos e loucuras. Faça tudo ser bonito, se empenhe, não se contente com algo inferior. Vamos fazer do trabalho um ato de amor. Se teus olhos não brilham pelo que você faz, vamos mudar de trabalho, vamos correr atrás de mais. Eu não preciso que teu trabalho seja fixo, nem me importaria se tivéssemos que esperar um pouco mais. Eu estou aberto, eu apoio, eu quero ver sorrisos, eu quero fazer parte, inclusive com bastante improviso, porque começar é apostar no que ainda não existe para os outros, mas já é realidade dentro de nós. Se mudamos de cidade, se perdemos a conexão com a realidade, tudo bem, a gente vai encontrar uma forma de nos fazer sermos percebidos, de vencer aquilo, pelo menos, no nosso interno desafio.

Você pode ser quem você quiser, encarar a vida de mil maneiras. Pode ser mãe, aprendiz, solteira, alegre ou infeliz. Você pode gostar de rock, de samba ou ser como eu que gosta de tudo que me faça sentir. Você pode preferir a noite, pra poder dormir de dia, pode inverter o jogo e me arrastar pra debaixo do sol. Eu vou estar lá, admirando a chuva, o vento, o sol, a paisagem, a casa quebrada, a porta velha, a cama improvisada, e também o teu imenso candelabro escondido na cera da vela. Você pode ser de toda forma, qualquer medida, qualquer estilo de vida. Mas, que seja confidente, que se entregue junto, que venha pros momentos pra ser gente como a gente. Que se permita errar, não saber, conhecer muito e me ensinar a ser. Você pode estar comigo, pra correr da noite, no meio de lugares desconhecidos, pode estar na paz de uma escada no alto de um prédio, dividindo um segredo, sendo você mesma um mistério. Pra ser companhia por aqui, é preciso estar sendo algo verdadeiro. Se simpatiza com a minha forma de ser flexível, temos o dobro de possibilidades. E se tua vida for um pouco mais restrita ou concentrada, vou adorar entrar nesses trilhos pra seguirmos juntos a mesma jornada. A vida não precisa ser de um jeito muito específico. A realidade que alguém escolher ter ou mesmo qualquer outra realidade que nos aparecer, eu vou encarar com gosto, vou me sentir protagonista, vou estar lá pra mergulhar fundo, experimentar a realidade daquele mundo. Eu não me incomodo com nada. Tudo que eu conheço da vida é que a vida está aí pra ser explorada.

Talvez você não enxergue em mim, logo de cara, tudo que eu posso ser em qualquer outro momento, em outro cenário, com outro pensamento. Talvez você não perceba que, do jeito que eu vim, é só uma das inúmeras possíveis facetas. Aquilo que somos não é necessariamente aquilo que estamos. A vida é sempre transição (ou não). E está tudo bem em permear mundos diversos. Se não experimentamos em profundidade uma determinada história, uma face da vida deixa de existir. Estamos aqui pra usufruir. Se você se permitir e se estivermos em sintonia pra dizer mais sim do que não, então, temos uma boa razão. Dividir bons momentos em companhia é ser companhia em qualquer momento. Não importa o cenário, nem importa o que é que vamos fazer das nossas vidas. Não sabemos. Chegamos lá e descobrimos o que temos e teremos. É sempre uma surpresa. E fica tudo melhor se quem nos surpreende também acredita nesse ideal. Assim a vida fica cheia de aventuras, até mesmo nos momentos em que nada acontece. Viver, por si só, se nos permitirmos sentir o momento, é aventura suficiente.

Rodrigo Meyer – Author


Redefina os padrões daquilo que não te agrada.

Estar vivo, dentro ou fora da sociedade já nos coloca em um cenário em que precisamos observar e reagir diante das coisas. Tudo que nos cerca e também o que nós mesmos somos, passa pela nossa crítica. Para muita coisa, nossa análise passa desapercebida, pois são rotineiras. Mas para outras coisas, focamos uma grande atenção, principalmente sobre o que nos desagrada.

No campo das pequenas coisas, podemos reagir em desprazer pelo excesso de luz, de calor, da chuva, do céu nublado, do cansaço ou preguiça de cumprir uma atividade mais produtiva no nosso dia, a insatisfação com uma roupa que desbotou, um tropeço na calçada, a falta de bateria suficiente no celular, uma caneta que falha quando precisamos escrever, o barulho inconveniente na rua e por aí vai. Esses são alguns exemplos de coisas que nos traz algum incômodo, mas pouco significativo. Poucas vezes reagimos de forma mais consistente pra planejar mudanças sobre esses cenários. Não é algo que nos demanda muita ação, nem que nos priva de viver o total da nossa vida em outras coisas maiores.

No campo das grandes coisas estão nossas críticas mais incisivas, mesmo que nem sempre coerentes ou justas. Nossa visão sobre as pessoas, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre a política, sobre as relações de trabalho, de ensino, de aprendizado. Estão neste grupo o nosso dinheiro, nossas relações emocionais, nossos medos, nossos traumas, nossas doenças, os vícios, os erros, os acertos, as superações, as conquistas dos nossos objetivos materiais ou de outros setores da vida, nossa segurança, nossa satisfação em estar vivo ou em contato com o mundo com ou sem socialização. Muita coisa é pesada em graus diferentes para cada pessoa, mas certamente esses são exemplos muito comuns de faces da realidade e do nosso ser, que observamos com um grau maior de atenção, mesmo que tenhamos a visão distorcida ou a incompreensão do que cada uma dessas coisas de fato é para nós ou como funcionam.

Por tudo isso, entre pequenas e grandes coisas, nós estamos sempre traçando críticas sobre os padrões. Podemos, por exemplo, estabelecer que um determinado modelo de trabalho é nocivo e que gostaríamos que fosse diferente. A crítica sozinha é só um pensamento ou uma expressão dele, mas pra que algo mude, requer alguma ação. Você pode começar a transformar tudo o que não gosta no mundo, por meio do seu próprio exemplo. Seja vocẽ a mudança que gostaria de encontrar pelo caminho. Um bom caso, fácil de lembrar, foi quando Linus Torvald, um programador, decidiu fazer algo que julgasse melhor do que o que havia de estabelecido em sistemas operacionais. Foi assim que nasceu o Linux, um kernel (uma espécie do miolo de um sistema operacional) que hoje é tão aplaudido pela qualidade e pelo viés open-source e gratuito do projeto, que é a opção da um imenso número de empresas e usuários domésticos pelo mundo todo. Ainda que empresas grandes como Microsoft, Apple, Google e outras, tenham alcançado um enorme mercado nessas temáticas, Linus Torvald agiu e criou aquilo que achava necessário ser criado. O importante não é o tamanho do seu sonho e nem o retorno massivo do seu projeto. Importa mais é que você esteja satisfeito em ter transformado uma face da realidade em algo melhor que atendesse aos seus padrões, às suas expectativas e necessidades.

Em qualquer setor da vida, devemos ter igual iniciativa, transformando o modo como fazemos arte, reestabelecendo o significado da arte, colocando nossos textos e opiniões à frente e ao lado de outros para gerar contraste e renovação, ter uma estratégia inovadora para lidar com nossas amizades, nosso círculo de trabalho, as redes sociais. Temos que conseguir olhar pra um livro mal escrito ou incompleto e conseguir propor uma versão, o seu acréscimo ou supressão. Transforme as coisas e estabeleça o seu nível de qualidade. É importante não se contentar fácil com uma comida sem sabor e ir atrás de temperá-la ou criar seu próprio prato. Quando ocupamos uma casa, personalizamos ela ao nosso gosto. É isso que faz dela o nosso lar. Nascemos nus e desajeitados, crescemos cercados de pessoas nos dizendo como ser, o que acreditar, o que vestir ou comer. E com o tempo, vamos criando pequenos atritos e insatisfações, à medida em que ganhamos identidade, autonomia e percepção sobre nós mesmos. Passamos a querer nossas próprias coisas, do nosso próprio jeito, para nossa própria satisfação.

Nosso corpo, nossas roupas, nossa casa, nossos espaços simbólicos na internet, nossas artes, nossas falas, nossos pensamentos, nossas análises e estudos sobre o mundo, nossas viagens, nossas amizades e tudo que se conecta, de alguma forma, em qualquer grau, conosco, está alí pra ser visto, filtrado e transformado ou recriado. Quando você chega por aqui e se depara com um texto, você não é obrigado a concordar com nada e é, inclusive, incentivado a fazer tua própria interpretação e a ser também um escritor. Seja autor da sua vida, seja o protagonista de sua história, sua mensagem, sua realidade. Crie o seu mundo e apresente seu mundo ao outros. Viver só faz sentido se você acredita muito naquilo que você é e faz. Do contrário, o mundo lhe parecerá um fardo, pois estará sempre tendo que se sujeitar ao que é alheio e não te agrada. O mundo se torna melhor, quando você experimenta ele da sua própria maneira. E pode ser que a sua maneira seja algo interessante pra mais gente também.

Se você pode, comece hoje a dançar, a cantar, a desenhar, a escrever, a caminhar, a aprender algo novo, a ensinar algo para o mundo. Converse da tua própria maneira, com as tuas manias, tuas gírias, teu tom de humor, teus temas preferidos ou até mesmo o silêncio, caso lhe agrade. O padrão de qualidade das coisas, não precisa ser algo que você espera sentado e torce pra dar certo. Você precisa, antes de tudo, torcer pra você mesmo dar certo. Os outros estão fazendo as coisas ao modo deles (ou talvez não) e você não precisa embarcar no modo de ninguém, se isso não contempla suas exigências. Eu, por exemplo, quando me cansei de ver a inundação de conteúdos que eu não acreditava nem valorizava, fui atrás de ser eu mesmo um criador de conteúdo. E quando fazemos isso em sinceridade, pode ter certeza que vai prosperar. As mensagens se espalham, porque elas tocam alguém em algo sutil, mas muito poderoso, que é a conexão interior com uma verdade, com um sentido, com algo subjetivo, com algo inconsciente. O valor de uma pintura, por exemplo, não está necessariamente na qualidade técnica, mas sim em coisas como o traço, a mensagem, o estilo, o seu jeito transparecendo numa série de obras, etc. Isso cativa pessoas por algo que é quase invisível ou pouco compreensível, mas acontece e é poderoso o suficiente pra agradar, pra envolver, pra motivar, pra gerar aceitação. É isso que faz algo ser novo e forte.

Desligue-se dos medos, da inação, da repetição, do ‘mais do mesmo’, das fraquezas, dos complexos, das inseguranças, dos vícios, das manias prejudiciais pra sua vida e comece a ser verbo. Comece a fazer as coisas, a ser, aprender, sentir, criar, ver, entender, transformar. Enfim, viva a sua vida. Você é um indivíduo e o seu modo de fazer as coisas é e sempre será único. Há espaço para infinita diversidade no Universo. As pessoas podem aplaudir e apoiar coisas diferentes simultaneamente, sem que nenhuma delas perca o valor que tem. O valor das coisas está embutido nelas pelo que elas são e não por nenhum tipo de comparação ou competição. Satisfaça-se, porque tua satisfação renova o sentido da sua vida, tira o peso e pode ser inspiração pra outras pessoas.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Emergência médica.

Um imprevisto e lá estava eu. Não tive escolha. E, talvez, não poder escolher seja o pior de tudo. Logo nos primeiros dias o corpo se desintoxicou. Me senti renovado. Ainda que estivesse cheio de incômodos, dores e tédio, ainda era melhor. Em dado momento acordo e me sinto visita no lugar, como se eu fosse o estranho. Não deixa de ser verdade.

A televisão ligada em um pseudo-telejornal. Ela estava sentada assistindo e eu aproveitei o momento pra ver como estava indo. Me fiz de idiota e lhe perguntei algo que eu já sabia detalhe por detalhe. Veio uma resposta hipócrita, cheia de preconceitos e ódio. Vi que nada havia mudado, apesar de tantos anos passados. Não havia esperança alí. Deixei o assunto se encerrar, pra evitar socializar. Fui buscar o que fazer. Alternava entre dormir, comer, ler e matar tempo no smartphone. Tudo ia meio devagar pro meu gosto, mas ao menos havia silêncio.

Mas isso não durou muito. Logo veio à tona a essência de tudo que eu me afastei anos atrás, por não suportar o acúmulo em uma vida inteira. No cômodo ao lado, discutiam asneiras, como se fosse a coisa mais urgente do mundo. Gastavam vinte, trinta minutos inventando motivos pra estarem alí, falando, falando, falando, mesmo que não estivessem dizendo nada. Era como se eu fosse o doente, mas elas que estivessem com o intestino no lugar da boca. Me saturei. Um gatilho instantâneo foi ativado na minha mente e eu me senti no inferno. Escolhi ir embora mesmo sem forças, sem nem comer. Às vezes andar pra trás é melhor que andar pra direção do abismo. Eu voltei pra casa e agradeci por estar sozinho, mesmo sabendo que poderia não aguentar. Não tenho medo da morte, mas sim de ter que aturar esse mundo por muito tempo.

Rodrigo Meyer

Crônica | Aprender ou perder.

Há tempos que não se tinha silêncio pelo bairro. Depois de sucessivas chuvas, devem ter descoberto que ficar em casa, por pior que seja, ainda é melhor que gritar pela rua de manhã até de madrugada. Talvez tenham descoberto que ajudarem a si mesmos seja melhor e, então, foram buscar trabalho, escola ou, pelo menos, ajudar a família em casa. Não. Nada disso. Foi apenas o feriado que esvaziou a cidade. Logo o inferno volta. Faz tempo que não sei o que é andar pela cidade, pois perdi o interesse, desde que parei de fotografar e de consumir. Atualmente eu apenas sonho e tudo que faço me guia pra algum outro lugar bem distante. Eu não sei exatamente pra onde eu vou, mas sei exatamente onde não quero estar. Na vida, todos os passos precisam ser silenciosos, pois estamos sempre rodeados de gente sem luz que anda em círculos pelos moldes do oportunismo. Estão sempre tentando alguma vantagem, mas estão sempre andando pra trás.

Rodrigo Meyer

Crônica | Pitada de esperança.

Um tom desbotado começava a tomar conta do clima da casa. Do lado de fora, a sensação de que alí já não tinha vida. Do lado de dentro, um vazio igual ou pior. O cansaço não permitia pensar de maneira organizada sobre o que fazer com aquilo. Por sorte, o minimalismo ajudou a reduzir as opções. A cada dia que passa, a casa torna-se, cada vez mais, apenas paredes. Quando completamente vazia, será motivo de festa. Talvez eu possa comemorar, talvez eu não esteja mais por aqui. Enquanto o futuro não chega em definitivo pra me dizer, eu sigo acordando e dormindo, sentindo o cheiro de tempero na comida da vizinha. Me parece alguém que gosta de cozinhar. Às vezes dá vontade de me auto-convidar para um momento desses, especialmente nos dias em que está mais frio. Nas outras casas do bairro, tudo parece tão enfadonho e monótono que chego a pensar que por lá nem comida se faz. Quando eu me mudar, quero voltar a cozinhar. Algo tão simples e com um significado tão importante.

Rodrigo Meyer

Crônica | O dia que não nasceu.

Hoje eu não trabalhei, não aguardei pela hora do almoço, não botei o prato em cima da mesa, não entornei o copo de bebida, não sorri. Hoje eu não lavei roupa, não arrumei a casa, não movi nada de lugar, não troquei de roupa, não me olhei no espelho, nem cozinhei. Hoje eu não tomei sol, não andei na rua, não peguei fila, não paguei contas, não socializei. Hoje eu não fiz nada além de acordar, sentir tontura e sentar. Sentei, fiz o meu melhor, resisti mais tempo e me coloquei a dormir novamente, guardando forças pra um momento mais oportuno. Hoje o dia não nasceu e nem sei se deixei alguma semente pra que amanhã nasça. Quem sabe do meu histórico recente, sabe das minhas prioridades. Ninguém se importa. Todos hipócritas. Ao menor sinal de um dedo apontado evidenciando suas hipocrisias, se doem, se armam contra. Adoram dizer que apoiam causas humanas, exceto se precisar fazer algo. O rótulo é mais fácil de carregar e ainda dá um belo status diante da sociedade idiotizada que vive de aparências e mentiras. Se hoje o dia não nasceu, a maior parte da culpa é da sociedade que já tá morta. Acreditam estar vivos, afinal, andam, compram e falam. Apenas não pensam, porque isso revela o lado amargo da realidade. Covardes.

Rodrigo Meyer

Crônica | Pensar é crime.

Por quase todo canto que chego, as pessoas querem que eu abdique do cérebro, da reflexão, do questionamento, da verdade, da curiosidade, do raciocínio, da inteligência e do senso crítico. Se incomodam com tudo isso, porque isso evidenciava aquilo que eles mesmos não querem fazer. E não fazem. Se eu estivesse apenas feito um zumbi rindo de uma asneira qualquer, assistindo algum lixo tóxico da televisão ou internet, gastando meu tempo em conversas de elevador, ou gritando aleatoriamente, estaria camuflado entre estes. Mas, escolhi fazer diferente, escolhi, desde cedo, ser eu mesmo, alguém que já tinha esse impulso nato pela curiosidade e, feliz ou infelizmente, uma inteligência acima da média. Não é algo pra se gabar, ainda mais em um mundo onde tal exceção é um fardo para a socialização e aceitação da sociedade precária. Quando temos visão melhor e mais rápida sobre as coisas, não nos contentamos com a maioria das coisas. Depressão? Claro, veio como um tiro, desde criança. Mas, se eu pudesse escolher estar na média? Não sei. Dizem que os idiotas são mais felizes, justamente porque não veem problema em nada e se contentam com pouco. Mas será que valeria a pena atravancar as possibilidades de progresso e satisfação pessoal, só pra ter essa ilusão de felicidade? Reflexões! Reflexões que só são possíveis justamente porque estou onde estou, sou quem sou e faço o que faço. Eu gosto mesmo é de pensar. Sou contemplador e explorador da vida, no sentido mais aventureiro, nessa trilha de mistérios que é o Universo. Cada vez que eu penso, evidencio um não-pensante, mesmo sem querer. Aquilo que eles não entendem (ou não querem tentar entender), soa como errado, soberba, rispidez, insistência. Durante minha vida toda, simplesmente por escrever, muitos achavam que eu queria ser mais do que era. O que eu sei é que eles queriam ser menos do que poderiam ser. E foram. E todos os lados perdem com isso.

Rodrigo Meyer