Prosa | Pessoas pelo caminho.

A imagem que ilustra esse texto é composta de diversas fotos fictícias, meramente ilustrativas e todas marcadas como livres para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Mesmo inteiro e, apesar de encontrar grande prazer em estar sozinho, às vezes penso quão bom é, também, dividir o silêncio com alguma companhia, onde a mente se encante de ver alguém que eu goste por perto. Quão bom é sentir um bom perfume, estar perto de alguém que olhe nos meus olhos enquanto me fala ou, simplesmente, sob a luz apagada, deixa que a voz chegue sozinha aos meus ouvidos, me forçando a prestar atenção, ao mesmo tempo em que relaxo quase à ponto de dormir. Incríveis sensações que gosto de relembrar com as pessoas que já estiveram comigo ou, tão bom quanto, com pessoas hipotéticas com as quais nunca me relacionei, mas imagino como poderiam ser. É tudo um jogo de saudades e idealizações. No final das contas, o que quero, sei bem, é alguém pra dividir o peso do mundo. Creio, firmemente, que duas pessoas caminham melhor se, ao longo da vida, tiverem alguém pra se refugiar. Pra mim, pessoas são casas, mesmo que extremamente temporárias. Elas são companhias e espaços de segurança com quem podemos contar pra alguma coisa, em algum sentido. E boas casas são o lugar perfeito pra passar o tempo e descansar, quando tudo o mais lá fora deixa de ser conveniente em algum momento. Podem ser apenas amizades comuns ou amizades coloridas, encontros casuais, romances, namoros, casamentos ou qualquer outra definição de companhia.

Nunca estive à procura de pessoas. Elas sempre apareceram espontaneamente na minha vida. Às vezes, eu facilitava o caminho cedendo logo no início, mas eram sempre elas que vinham me procurar. Não sei bem o que cada uma dessas pessoas viram em mim. Algumas diziam se encantar com o meu cabelo, meu olhar ou meu sorriso. Já me elogiaram pelo meu jeito misterioso, curioso e sensível. Já ouvi muitas possibilidades, mas é tudo demasiado fracionado e pequeno, ao meu ver, pra que alguém use como explicação pelo interesse. Talvez essas pessoas não soubessem descrever a química, a sintonia, a atração pelo perfume e o mais primitivo instinto em busca de satisfação da libido. Ou, talvez, seja um emaranhado psicológico agindo em busca de sinais inconscientes de compatibilidade.

Quando penso nas pessoas que cruzaram o meu caminho, fico ponderando se os eventuais próximos relacionamentos ocorrerão com pessoas similares ou se eu serei surpreendido por um futuro completamente novo. Depois que a gente entende que pessoas, além de diversas, também mudam ao longo dos meses e anos, seria bobagem esperar por realidades que só habitam a minha memória de um passado que, provavelmente, já não verei naqueles que cruzarem o meu caminho hoje ou daqui alguns anos. E, a bem da verdade, eu gosto disso. Todas as pessoas que eu conheci, tinham realidades muito distintas e surgiram em momentos da minha vida que também eram bem diversos. Já conheci pessoas diurnas, noturnas e indiferentes. Conheci pessoas de diversas aparências, diversas profissões e classes sociais. A própria mente dessas pessoas já eram um show à parte. A personalidade de todas as companhias sempre me surpreenderam em uma longa paisagem cheia de detalhes. Assim como pareciam interessantes em uma visão panorâmica, revelavam aspectos que demorei tempo demais pra perceber que estavam embutidos. Em muitos dos casos, foi isso que me fez perceber que, por mais bonito que seja um campo, se ele estiver repleto de minas terrestres, já não vale a pena ficar pra passear. Às vezes, quando descobrimos o risco, já é tarde demais e ficamos destroçados por uma dessas “explosões”. Por isso, aproveite o momento enquanto ele for bom, pois não sabemos quanto tempo vai durar.

Eu conheci pessoas com a sexualidade exagerada, pessoas românticas, frias, ingênuas, práticas, traumatizadas, melosas, tímidas, extrovertidas e também pessoas assexuadas. Conheci pessoas que tinham aversão apenas ao beijo, enquanto outras preferiam somente o beijo e nada mais. Conheci pessoas de pouco estudo e outras muito estudadas, pessoas com baixa autoestima, bem-resolvidas, sensíveis, artistas, dançarinas, musicistas, jornalistas, advogadas, desempregadas ou “donas de casa”. Estiverem por perto pessoas budistas, cristãs, umbandistas, kardecistas, bruxas, telemitas, ateístas e, claro, pessoas completamente indefinidas. Estive com pessoas de idades diversas e de muitos lugares. Com algumas dividi pouquíssimo tempo, por duas ou três noites, enquanto outras estiveram do meu lado por anos. As pessoas surgiram e ficaram por diversos motivos. Algumas queriam o amor que eu não tinha pra dar e outras queriam, explicitamente, apenas o sexo. Outras estavam confusas entre os dois mundos, diferente das que estavam bem decididas, mas muito mal intencionadas, fazendo teatro na esperança de me agradarem com uma fachada de mentira. Fui experimentando um pouco de tudo nessa vida, pra perceber a beleza e o horror que está em tudo, inclusive nas várias faces de uma mesma pessoa.

Haviam pessoas que eu raramente vi almoçarem, as que comiam o mundo sem nunca engordar, as que se ornamentavam ao extremo apenas pra trabalhar, as que saíam quase do mesmo jeito que acordavam, que estavam na vida por um pouco de aventura e as que queriam estabilidade. Estive ao lado de gente firme, centrada, maluca, deprimida, energizada, festiva, calada, prestativa, acomodada, megalomaníaca, sensata, xucra, simplista, viciada, alcoólatra, doente, quase morta, inocente e depravada. Havia gente do rock, do punk, do gótico, do samba, das raves, da música clássica e de outros meios. Passaram por mim pessoas tristes, felizes, desajustadas, grosseiras, desonestas, virgens atrasadas, mães, gêmeas, brancas, indígenas, mestiças, negras, asiáticas, de muitos tons, traços e etnias, com seus cabelos em tranças, dreads, longos, curtos ou raspados, pretos, vermelhos, azuis, verdes, cor-de-rosa, castanhos, loiros, ruivos, mistos e alternados.

Passaram na minha vida, pessoas genuínas, “de plástico”, com filhos, sem pais, trabalhadoras compulsivas, largadas, queridas, desgraçadas, lindas ou não tão bem lapidadas, almas boas ou nem tanto e pessoas que me deixaram confuso. Já pagaram as minhas contas e eu já paguei a conta de várias. Teve gente importante, desconhecida e intermediária, geeks, nerds, gamers, cosplayers, fetichistas, garotas de vida dupla, modelos e pessoas avulsas das quais nunca conheci nada. Houve gente que nunca achei que conheceria e que meus inimigos espumam até hoje por sempre terem desejado conhecer, sem nunca conseguir. A vida traça surpresas. Às vezes correr atrás das pessoas pode ser só uma forma de espantá-las ou de transformá-las num tesouro a ser conquistado por quem, antes, nem podiam notá-las. Relacionamentos tem muito do acaso. As pessoas certas, na hora certa, fazem o dia acontecer. Eu nunca fui de fazer planos. Decido minha vida em cima da hora. Se algo me cativa e merece meu tempo, eu fico pra ver o desfecho. Vi muita gente fazer planos gigantes e cheios de detalhes, mas, repentinamente, nada daquilo sequer havia sido possível e todo plano foi inundado de desnecessidade. Não há porque planejar relacionamentos, pois não controlamos o destino, muito menos as pessoas. As coisas fluem em seu modo particular e nosso único papel é se adaptar ao novo momento.

Se eu fosse tentar adivinhar quem seriam as pessoas possíveis pros meus dias atuais ou pro futuro próximo, eu teria que atropelar toda a razão e apostar numa figura randômica de qualquer lugar do mundo. Digo isso porque sei que não espero por ninguém, não tenho grandes exigências, exceto alguns valores e condições mínimas. Quero alguém que corra pelo lado da justiça social, que seja avessa à preconceitos e que esteja disposta a conhecer outros assuntos. Muita gente vai ler, mas não vai entender. Há quem vá olhar pra tudo isso e preferir acreditar em uma máscara, uma linda fachada ilusória, mas, na prática, não vai ter essa premissa, não vai saber como viver essa realidade de vida. As mesmas palavras, pra pessoas diferentes, suscita tantos significados divergentes que é quase que inútil descrever. Prefiro deixar, como sempre, a vida me surpreender. Que venham as pessoas que tiverem de vir e eu decido se o que elas têm pra oferecer é compatível comigo. E que elas façam o mesmo ao me verem passar. Relacionamentos deveriam se resumir à isso. Se há compatibilidade, reciprocidade, interesse e oportunidade, está feito o cenário pra se tentar uma companhia. E, no mais, ninguém é obrigado a ter uma companhia, nem a desejar uma pra se sentir vivo na vida. Façam dos seus momentos algo profundamente sincero, espontâneo e com o máximo de sentido pra você mesmo. Não fique à espera de agradar os outros só pra se encaixar em uma sociedade ou um relacionamento. Viver é, basicamente, o oposto disso. Se sentirá mais gente quando desfrutar, ao mesmo tempo, do prazer que quiser e da dignidade que precisa.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Vermelho Cocaína.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, sendo parte de uma fotografia marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Quem é que sabe os motivos da vida? Algumas coisas acontecem sem que saibamos como reagir. Às vezes, queremos mudar o rumo das coisas, mas o tempo já passou e as coisas não querem mais serem mudadas. Custamos a entender que isso não é uma perda, pois não perdemos o que nunca tivemos. Você foi um desses episódios em um momento onde eu estava completamente perdido e descrente na minha vida.

Nos conhecemos na faculdade e foi fácil fazer amizade contigo. Estávamos conectados pelo que parecia ser um estilo de vida em comum. Tínhamos uma amizade em comum com quem dividíamos algumas noites de bar. Saíamos em pequenos grupos pra dividir a noite em diversos lugares. Era tudo muito bom, porque as companhias me prendiam a atenção. Dividimos muitas risadas, muitas conversas e muitas outras coisas em festas. Eu me encantava com o seu jeito, seu cabelo curto tingido de vermelho. Quando eu te olhava, a noite se preenchia com essa energia marcante. Quando estávamos no nosso restrito grupo, ninguém de fora era convidado. Construímos isso espontaneamente, sem ninguém ter falado.

Entre cigarros e bebidas, estava claro que, frequentemente, havia cocaína. E foi isso que, em pouco tempo, te deixou mais magra ainda. Te dei um apelido carinhoso por isso, porque, visualmente, você parecia muito frágil, muito pequenina. E foi totalmente verdade o que lhe disse certa vez: você sempre foi muito bonita e continuava, mas eu estava realmente preocupado com a progressão da sua magreza. Eu podia dar a volta em seu braço apenas com a minha mão. Você pode ter perdido o compasso com a sua ‘farinha’, mas eu só queria que você analisasse a situação e, se precisasse de ajuda, podia contar comigo, porque eu realmente queria te ver bem. Não toquei mais no assunto, porque, apesar de tudo, era só você quem deveria saber o que fazer da sua vida.

Se tem uma coisa que me lembro, como se fosse hoje, foram de todos os abraços que nos damos. Você parecia gostar que eu fosse maior que você. Talvez tivesse a sensação de ser totalmente acolhida quando se acomodava confortavelmente naqueles abraços. E quando eu te abraçava, eu podia te possuir inteira. Era realmente muito bom ter você apertada em mim. E eu admito, sem nenhum pudor, que, frequentemente, minha mente ia lá pra Lua e eu te imaginava nua, deitada comigo, cumprindo todo o potencial da química e da sintonia. Você me atraía de muitas maneiras, pela sua voz, o que pensava e dizia, seu semblante, seu cabelo, suas roupas, seu estilo de vida, seu jeito de se sentar e alguma coisa que derivava da sua silhueta e do meu imaginário do que seriam os seus dias. Não foi à toa que nos agrupamos desde os primeiros momentos. E nessas idas e vindas de uma noite e outra, acabou surgindo um incômodo dia que até hoje eu não sei bem como descrever.

Estávamos em uma mesa de bar, junto com mais uma ou duas pessoas. Éramos os mesmos de costume e desde sempre já nos sentíamos livres e confortáveis naquele pequeno grupo. Você estava sentada ao meu lado e, gradualmente, se aproximou sugerindo um beijo. Mas eu, apesar de todos os meus desejos e pensamentos, estava realmente muito perdido na vida. Antecipando tristes possibilidades futuras, eu desviei do seu beijo por achar que, se eu cedesse e, depois de um tempo, você não quisesse mais nada comigo, eu acabaria sofrendo e, provavelmente, ia tentar me afastar de você, pra frear o sentimento. E, imaginando tudo isso, eu realmente não queria fazer nada que pudesse eliminar nossa amizade. Foi estranho, eu reconheço, mas a minha vida naquele tempo estava tão perturbada, que eu estava sistematicamente evitando sentimentos e relacionamentos de casal, enquanto, ao mesmo tempo, estava preservando ao máximo qualquer amizade valiosa que surgia.

A minha reação de recusa te frustrou e te deixou, talvez, insegura. E tudo ficou um pouco mais confuso, porque eu te adorava e aquilo doeu em mim também. Eu te acolhi, te dei um abraço, puxei você pra perto de mim e tentei te reconfortar. Não havia nada de errado contigo. Era apenas eu que viajava em incertezas sobre a vida e recusava tudo, até o que não devia. Eu levei um tempo pra organizar tudo isso na minha mente e foi mais longo do que eu queria que fosse. Mesmo que eu tivesse me explicado à tempo, você, talvez, já não me aceitasse. E por não saber como explicar, eu deixei as coisas se perderem no tempo. Não sei o que a vida poderia ter sido, se tivéssemos reagido diferente. Tudo que eu sei é que, assim como você, eu também tinha uma série de questões nos bastidores. Eu fui te procurar, muito tempo depois, pra tentar me redimir ou, pelo menos, me explicar. Mas, nunca houve sua resposta e ficou implícito que só me restava seguir a vida e me conformar. Botei na minha cabeça que, se você não iria sequer me ler, sua opinião sobre o assunto já estava dada e encerrada.

Recentemente, relembrando tudo isso, me bateu a curiosidade. Fui ver que rumo tomou a sua vida. Grande parte dela, ainda me parece igualmente interessante, mas uma parte me deixou dúvidas. Às vezes é difícil distinguir se os seus interesses em determinados assuntos é seu universo pessoal ou mera necessidade da sua profissão. Como eu não vi nada muito claro que mostrasse qualquer posição diferente de tudo aquilo, eu preferi ignorar e deixar tranquilo o que já estava tranquilo. Não posso negar que você é intrigante e que rouba espaço nas minhas melhores memórias. Por isso, prestei esse texto da forma mais sincera que pude e, caso um dia resolva vir falar comigo, saiba que eu tenho tempo, tenho tranquilidade e quase tudo do meu passado já foi organizado e resolvido. Eu só queria mesmo que as pessoas que marcaram minha vida em pequenos grandes momentos estivessem ainda hoje por perto, pra que pudéssemos nos escutar, nos apoiar, como sempre fazíamos. Se ainda houver compatibilidade, eu serei o primeiro a manter a mão estendida. Mas, se nossos mundos forem inconciliáveis, mudemos de jogo e de jogadores, pra tentarmos ganhar nossas próprias próximas partidas.

Não vou me prolongar muito. Quero só dizer que estou de partida pra fora do país, que as condições estão bem estáveis e que, desde que eu percebi que perdi o que não deveria perder, eu tenho vivido sem nenhum medo ou restrição. Quando a gente perde tudo, não tem mais nada pra perder, então, nada mais nos assusta, nem nos impede de tentar. Eu não faço ideia se o destino ainda me reserva algum momento bom, mas eu vou continuar a fotografar tudo que eu puder e tentar conhecer o maior número de lugares desse mundo. Se alguém se sentir confortável de me acompanhar, é só chegar junto.

Enquanto eu escrevia esse texto, essa música me veio à cabeça: “Bem Que Se Quis”, na voz de Marisa Monte.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Os bastidores da estrela.

As imagens que ilustram esse texto são fictícias e meramente ilustrativas, sendo fotografias marcadas como livres para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Por um bom tempo você foi a minha protegida. Eu nunca cuidei de alguém tanto como cuidei de você. Eu te livrei de apertos e enrascadas, paguei seus custos com advogado e estive presente nos seus trabalhos, seus estudos, seus projetos, suas exposições, seus comércios e até mesmo quando você esteve internada. Até minha casa esteve à disposição, pra quando você precisou de moradia. Eu sempre apoiei os seus sonhos e fiz o que os seus “grandes amigos” podiam e não fizeram. Pouca gente quis te ver vencer; pouca gente te ajudou quando você não tinha mais à quem recorrer. Eu estive lá do seu lado nos dias divertidos e nos momentos conturbados.

Nos divertimos muito rindo, bebendo, andando de um lado pro outro, visitando teatros, dividindo a cama e outros lugares. Choramos juntos, fizemos arte, fizemos parte. Ouvimos o que cada um tinha pra dizer, mas só pela metade. Você não se expressava abertamente comigo sobre tudo do seu mundo, porque seu mundo envolvia outras pessoas com quem você também dormia. Isso nunca foi segredo. Assim como eu sabia, você sabia que eu sabia. Eu nunca me importei, na verdade, porque todos nós estávamos vivendo nessa mesma informalidade. Quem talvez tenha se surpreendido, foi teu ex-marido, que, infelizmente, não soube se manter fiel quando esteve casado. Suas fotos de casamento pareciam um evento divertido, com todo aquele improviso, um tempero de rock e o seu jeito prático. Eu adorava isso em você, mas parecia haver um abismo entre o que eu sentia e o que você estava disposta a oferecer. Jamais vou me esquecer que seu ex-marido te agredia e que, quando separada, um dos seus casos também não era das melhores pessoas. Desculpe a sinceridade, mas, para ele, você era só uma pedaço de carne que ele facilmente comeria.

Eu amava o seu cabelo e ele parecia ser importante pra você também. Quando você não se sentia bem com a vida, se destruía, cortando ele de uma forma que viesse a se arrepender. Mas, tudo bem, de qualquer jeito, você se mantinha linda. Eu enchia os meus olhos com a sua imagem, enquanto adorava os seus bem pretinhos, combinando com seu sorriso inigualável. Tinha doçura e humor no seu jeito de falar. Quando você queria, sempre tratava as pessoas da melhor forma possível. Mas, você nem sempre escolhia bem as companhias. Levou calote da colega com quem dividiu moradia e estava sendo roubada pelas costas naqueles comércios que faziam juntas. Foi você mesma quem descobriu e me contou e, não foi exatamente uma surpresa pra mim. Hoje, olhando pra tudo isso, consigo ver que, talvez, você seja uma versão minha. Nós tivemos o péssimo hábito de hipervalorizar as pessoas que nos usavam e nos destruíam. Por algum motivo estranho, ficávamos hipnotizados contemplando quem não merecia. Hoje eu te entendo, porque eu mesmo fiz muito disso na minha vida.

Mas não me arrependo não, pois quando fiz, estava sincero nas minhas intenções e estive ao lado enquanto achei que devia. Fiz de coração, sem esperar nada em troca. Eu queria te ver sorrir todo dia, tentar eliminar as barreiras da sua vida, apenas pra te ver vencer. Você tinha potencial pra muita coisa. Suas artes, em vários ramos, eram sempre aplaudidas de verdade. O que te faltava não era talento, mas um pouco de transparência ou sinceridade. Você tentou ajudar sua mãe, mas nem ela mesma queria. Ela comentava que gostaria de me conhecer, mas esse dia nunca chegou. Talvez tudo tenha acontecido do único jeito que foi possível. E olhar pra esse passado não nos permite mudar aquilo que já vivemos. No fim das contas, você estava tentando descobrir se seu coração amava alguma pessoa nesse mundo, mas, pelo que percebo, você se deu conta de que estava realmente sozinha. Onde estão todas as pessoas que passaram pela sua vida? Foi triste te ver mastigando a depressão, mas eu fiz mais do que estava ao meu alcance em todos os momentos e quando a reciprocidade falhava em momentos cruciais, eu me lembrava de que não estávamos vivendo a mesma vida.

Eu tomei uma decisão difícil e fria de me forçar a ficar longe de você. Eu queria expurgar toda a dependência, todo o apego, todo o desejo e toda a vontade de estar ou falar com você. Pra ser sincero, levou tempo. Nunca quis tanto cuidar de alguém na vida, mas nossos mundos estavam isolados, não estávamos remando pro mesmo lado e você sempre demonstrou com condutas e palavras de que os sentimentos não correspondiam. Eu não insisto em porta fechada, então fui embora e segui a minha vida. Sei que fez bom uso dos presentes pra começar o novo trabalho que você escolheu. Não torço à favor nem contra, pois assim que você foi embora, deixou de ser a minha protegida. Agora você é só uma memória que me faz escrever, pra ressignificar meu passado, as pessoas, os momentos que eu vivi, pra ver se chego o mais saudável possível do outro lado e facilitar a minha própria vida.

Num imenso acaso, quando eu já nem lembrava que você existia, você brotou numa rede social e a resposta que dei foi a única possível. Eu já havia feito tudo que eu podia. Não sei o que se passa pela sua cabeça, mas a vida não permite ensaios. Quando um cristal se trinca pela primeira vez, ele segue trincado pro resto da vida. Mas, certas coisas a gente não escolhe. O coração sente ou não sente, sem pedir licença ou conselho. A vida, nesse sentido, permanece um mistério. Apesar de tudo, obrigado. Isso não é um pedido de desculpas atrasado. Simplesmente eu sei que tudo que eu passei na minha vida me ensinou uma montanha de coisas e também me permitiu momentos muito intensos. É por tudo isso que eu sou grato.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Perdida na cidade cinza.

A imagem que ilustra esse texto é ficcional e meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Você me perguntava coisas que eu não entendia como poderiam ser dúvidas verdadeiras. Você já tinha seus 28 anos, mas ainda parecia uma eterna menina. Sua realidade me parecia contraditória. Você que já sabia bem o que beber, o que fumar e quais comprimidos tomar depois do banho, não sabia, porém, praticamente nada sobre si mesma, sobre o sexo, sobre como jogar esse jogo do flerte ou que rumo tomar pros seus dias. Parecia um pouco cansada de várias regras sociais, mas, ao mesmo tempo, se forçava a acreditar e dividir tempo com aquilo que você chamava de igreja. Eu, muito distante dessa realidade, ironizava suas contradições e te colocava diversas questões pra você brigar sozinha. Parecia que seus lados contraditórios eram a sua maneira de equilibrar a sua vida. Você, talvez, se sentisse na tendência de viver largada demais e, assim, poderia ser útil um outro lado exagerado que pudesse te desacelerar.

Você praticamente não trabalhava. Sua família estava longe, de vida feita, e você resolveu que vir pra esta cidade seria uma boa aventura. Acho que você esperava muito da cidade, mas não esperava quase nada da sua própria vida. Você se dividia entre o curso de artes, rindo e criticando aqueles velhos alucinados, enquanto abria uma clareira na sala de aula, separando à todos conforme a afinidade. E foi assim que nos conhecemos. Estávamos do mesmo lado. Você gastava o dinheiro alheio, ocupava seu tempo dentro e fora de casa, mas sua vida não parecia ter suficiente veneno. Eu te via como uma menina, mesmo a minha memória me dizendo que eu era muito mais novo que você. Estávamos perdidos juntos, mas eu não sabia quais eram os seus labirintos. Eu fui atrás, como quem fareja novidade, qualquer coisa que me tirasse de casa, me levasse pra outro chão de apartamento.

Assim como eu, você não estava disposta a levar a vida a sério. Perceber isso, me fez acreditar que você seria um bom mistério pra desvendar. Eu gostava da sua companhia, porque bastava pra mim que você me oferecesse uma bebida e me deixasse ficar no seu apartamento pra ficarmos o dia todo desocupados, rindo e conversando. Várias vezes você pagou pela minha comida e eu não tinha muito pra retribuir. Então eu ficava, dividia meu tempo, te ensinava informática e ria das suas loucuras. Era tudo que eu tinha. Você era extremamente ansiosa, não parava um minuto calada e de um segundo pro outro decidia fazer outra coisa. Você era perturbada e nem mesmo toda aquela maconha resolvia. Prensado, sem nenhuma qualidade, de qualquer coisa que não se deveria queimar. Mas, pra você, que acendia compulsivamente cigarros de nicotina, não se importava muito com a qualidade do hábito.

Levou tempo até você aceitar mais do que uns beijos. Eu não era nada recatado, mas você parecia estar esperando por um momento idealizado. Acho que todos nós, algum dia, idealizou um romance ou alguma relação pretendida. A gente sempre espera que nossas primeiras vezes em diversas coisas, sejam de maneira satisfatória. Conseguia entender, de certa forma, a sua “demora”. Mas, pelo tempo passado, parecia que você estava escolhendo minuciosamente seu momento ideal. Talvez você tivesse medo ou não tivesse conhecido ninguém interessante. Eu, certamente, não era o sujeito mais incrível, mas você parecia encantada comigo. Eu realmente nunca pensei que você estivesse apaixonada ou idealizando um romance e quando você quis começar sua vida na cama, você pareceu um tanto perdida, preocupada com uma lista de detalhes, me perguntando, cheia de rodeios, os riscos de cada pequeno contato. Confesso que achei um tanto engraçado, mas isso não era um bom sinal. Logo eu vi que estávamos em universos muito diferentes. Não cabe a mim dizer quando e o que cada um aprende, mas, diante do impulso da situação, aquilo certamente teria que ficar pra outra oportunidade. Havia muita coisa que você ainda precisava entender.

A minha vida estava fluindo em outras realidades e eu acabei, não de propósito, me distanciando. Passaram-se muitos e muitos anos e, de repente, sou surpreendido por uma mensagem sua na internet. Conversamos um pouco, ouvi você falar dos rumos que sua vida tomou e fiquei ainda mais surpreso. Parece que as cosias não melhoraram e você tropeçou em relacionamentos ruins que lhe renderam filho(s) e aborto(s). Foi estranho ver que, apesar de tudo que você viveu, sua mente ainda estava interessada por mim, como se você ainda estivesse habitando aquele passado remoto. Não pude lhe oferecer mais do que a verdade dita, então te deixei ciente de que éramos praticamente desconhecidos naquele momento. Há tantas coisas da minha adolescência que eu não tenho memória alguma, que eram grandes as chances de eu não ter lhe reconhecido depois de tanto tempo distante. E, mais do que isso, não era recíproco o sentimento ou a paixão que você mantinha. Você custou a aceitar mais um ‘não’ da vida e insistiu em me escrever. E quando o respeito acaba, já não há nada de bom pra dividir. Ofereci minha amizade, mas isso não lhe era suficiente. Sei que retornou pra sua cidade, acolhida novamente pelos seus pais. Fico feliz que receberam-se todos entre família, pois onde as pessoas se gostam e se ajudam é lar suficiente pra qualquer situação. Eu fui pra frente, porque pra trás nunca teve lugar pra mim. Até nisso somos diferentes.

Sabe, se algum dia calhar de ler esse texto e, apesar de todo sigilo no relato, conseguir se reconhecer nele, saiba que a vida é muito mais do que o passado que arquitetamos e polimos em nossas mentes. Há um universo lá fora, que, desde sempre, precisou ser melhor explorado. Olhe pra sua história, as situações pelas quais passou e veja a falta que fez não ter experimentado o mundo mais à fundo, com mais liberdade. Talvez isso teria mudado cada um dos episódios que aqui eu relatei. O tempo passa e, se tudo correr bem, temos a chance de ressignificar o passado e dar preferência pro momento presente. Se possui curiosidade sobre o que aconteceu com a minha vida, daquela época em diante, eu te conto. Não é nada muito melhor ou pior, apenas diferente. Eu não tive filhos, me tornei fotógrafo porque, deve ter notado, as aulas da escola não tinham nada a ver comigo. Conheci pessoas que me marcaram positivamente, mas que também me deixaram uma dor quase permanente. Conheci pessoas excelentes que morreram muito cedo e outras que, infelizmente, sobrevivem apesar de numerosos anos pesando no mundo. De fato a vida não é justa e o que algumas pessoas chamam de satisfação é apenas ver pessoas decentes desmoronando em fracassos e doenças. A alegria do medíocre é torcer pra que ninguém os vença, ninguém os supere, ninguém os ultrapasse. Então, pro bem da sua própria razão, se mantenha diferente disso, com aquele espírito divertido de quando nos conhecemos. Mas, mais do que isso, se mantenha questionadora, divergente, “gente como a gente”, simples e complexa, conforme o que realmente importa em cada momento, sempre procurando novos rumos, porque a vida só acaba na hora da derradeira partida.

Eu tive de fazer inúmeras pausas e baldeações até chegar em algum mínimo resultado e, devo dizer, não sou nem uma vírgula de tudo que eu já fui um dia. Eu perdi as pessoas que eu mais gostava e tive que aturar o convívio de quem nunca se importou sequer com a minha vida. Para algumas pessoas somos só um objeto ou um número, porque só quando a gente sente verdadeiro afeto por alguém, nossa vontade é ver essa pessoa livre e feliz. Quem dedica tempo aprisionando pessoas ou empurrando elas para constantes abismos, aprisiona também a si mesmo e se arremessa neles junto. A verdadeira salvação, se é que existe, é dedicarmos nosso tempo pra nós mesmos primeiramente e, se houver condição e disposição, ajudar à quem nos parece digno de nossa ajuda. Não estendo a mão pra todos e faço questão de destacar isso, porque diversas vezes em que as pessoas puderam contar comigo, eu não pude contar com elas em nenhum momento, pra coisa alguma. E se não há reciprocidade, não adianta insistir na porta, que essa porta não abre pra qualquer um.

Rodrigo Meyer – Author

[+18] Obrigado pela partida.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e baseada em uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa do Google.

Você chegava no seu carro cor de carmim com os cabelos soltos e ondulados. Tão leve, tão independente, tão feminina. Amava quando você usava o jeans decorado com rasgos pelos joelhos. Te fazia mais garota, mais divertida, mais ousada. Bem me lembro do seu olhar atento, entrando em casa, se recuperando da viagem. Incrível como seu perfume persistia ao tempo. Era um vício aspirar o seu perfume quando te abraçava. Você fazia eu me sentir mais vivo e eu retribuía cada movimento seu.

Bom mesmo era ser surpreendido com seu toque na porta, anunciando sua chegada. Como era bom acordar nessa névoa de sonho, te puxar pra dentro, encostar a porta e te sentir inteira. Matar saudade com os olhos, com as mãos, com você prensada contra a parede, de frente e de costas e notar cada um dos seus ornamentos. Você se produzia toda só pra me ver. Era meu presente, depois de tantos dias longe de casa. E vinha sempre atiçada, como quem estivesse com sede todo esse tempo. Teus olhos brilhavam e tudo em você parecia tão bem escolhido.

Na memória, tenho você em dias diversos, em todas as casas, no cinema, no teu carro. Lá estava você em cima da cama, no sofá, no chão da sala, no jardim, debaixo do chuveiro, no meio do almoço, depois do banho e até quando tínhamos mais gente dividindo o quarto. Você era sempre uma estrela, incansável sereia. Se eu me atirava sobre suas roupas, esfregando o corpo e te beijando, você se contorcia e me colocava pra te admirar. Debaixo da sua blusa, com os ombros de fora, um sutiã branco cheio de detalhes parecia um tesouro à ser descoberto. E como eu ficava feliz de desvendar cada camada. Seus sapatos eram poesia e era impossível não notar como você se sentia usando eles. Se possível fosse, os manteria enquanto te despia. E como era bom perceber o cheiro da sua roupa. Tudo isso fazia eu me sentir especial.

Você gostava de tudo intenso, porque quanto mais desejada, melhor. Com toda intensidade, eu tirava suas calças e te cobria de beijos entre as pernas, até eu me render e te deixar toda nua, impacientemente esperando minha boca molhada devorando a porta da sua casa. Um castelo, devo dizer, cheio de magia. E disso você entendia bem, porque parecia controlar a minha vida. Eu, ciente do que tinha do meu lado, nem precisava me esforçar pra querer fazer todo o esforço possível. Eu simplesmente era compelido a te ver dançar, à querer fundir prazer e prejuízo na mesma equação. E quanto mais eu me esgotava, mais eu queria continuar. Talvez acabássemos mortos por excesso de saudade. E teria valido a pena cada absurdo realizado.

Você sabe que as memórias não se apagam da noite pro dia. Talvez, algumas jamais poderão ser apagadas, porque impregnaram diretamente na alma. Parte de você, alterou a percepção da minha própria vida. Tem você no que eu faço ainda hoje e é por isso que escrevo sem freios, quando lembro do que vivíamos. Tem comigo aquelas tuas graças, seu jeito hilário de parodiar pessoas com seus personagens e também seu jeito inconfundível de falar. Tudo em você era engraçado, porque você enxergava a vida com humor. Tinha isso nos filmes que você gostava, nos bonecos que você moldava, nas artes que sobrepunha às cartas que me enviou. Éramos dois palhaços, rindo um do outro, um para o outro e um com o outro. Éramos imperdíveis e infalíveis. Se hoje eu lembro de você por todas essas coisas, é exatamente isso que eu admiro nas pessoas desde sempre e ainda hoje.

Mas você não soube apenas ser e logo o paraíso te pareceu bom demais pra ser verdade. Começou a imaginar coisas, a ver situações onde não havia, a criar monstros imaginários pra depois passar o dia lutando contra eles. E lutou, até o ponto em que teve que declarar guerra, por debaixo dos panos, talvez por medo, insegurança ou algum fator que eu nunca saberei dizer. Quando você se foi, eu havia pensado que eu estava destruído. Levou tempo, mas depois de uns anos eu percebi que eu tinha vencido duas vezes. Venci quando desfrutei da alegria e do vigor, enquanto ainda existia e depois venci novamente quando você saiu da minha vida, pois já não éramos mais compatíveis, seja lá o que isso tenha sido. O importante é que não prolongamos o que não sobreviveria e voltamos à realidade cinza, cada um com seu próprio plano, tentando se reconectar ao sentido da vida.

Pra você, outros filhos, outros relacionamentos e a volta pra sua casa. Pra mim, outras cidades, outras verdades, outros momentos, novas pessoas, novos aromas, novas intensidades. Não me atrevo a especular ou comparar a vida de cada um. Tudo que posso falar é do que vivemos e do que nos poupamos de viver. Por trás da sua figura engraçada, havia um recheio amargo de preconceito, de racismo e ódio de classes. Se eu tivesse percebido tudo isso desde o início, eu teria te recusado. Mas você foi boa no feitiço, me deixou marcado e conectado por aquilo que temos de mais poderoso e instintivo. Você carregou minhas baterias e me fez transbordar. Mas, pra se viver não podemos atropelar nenhum princípio e, por isso, foi livramento quando você escolheu se afastar. Ninguém é perfeito, mas temos que procurar por compatibilidade e reciprocidade. Décadas depois, cá estou, ainda conseguindo ver que pessoas ruins também tem partes boas. Talvez se aplique, subjetivamente, a ideia de que quanto mais luz incide sobre uma pessoa, mais densa é a sombra por ela projetada.

Pessoas depressivas talvez se pareçam com baterias descarregadas. Se alguém vem nos socorrer, precisamos de muita carga. Mas quando finalmente ganhamos autonomia, a bateria continua a se carregar sozinha, pelo giro do próprio motor. Precisamos manter nosso carro em movimento. E aqui vou eu, levantar voo para a maior de todas as estradas. Tô indo vencer na vida, de um jeito que só eu sei o que significa. Para os que ficam, eu já estou em outro jogo, mas obrigado pelas partidas.

Rodrigo Meyer – Author

[+18] Conto | Eu te agrado?

A imagem que ilustra esse texto é ficcional e meramente ilustrativa, baseada em uma fotografia livre para utilização, conforme os filtros de pesquisa do Google.

Havia chegado na cidade há alguns dias e estava acostumado com a rotina local. Mas, certa vez, enquanto eu improvisava um almoço atrasado em um bar, observei a movimentação de uma turma de turistas recém-chegados. Pareciam entusiasmados e acostumados com o lugar. Eu, de modo costumeiro, sentei em uma mesa bem ao canto de tudo e coloquei minha câmera fotográfica em cima. Apesar do dia claro lá fora, o ambiente escuro e sem iluminação do bar permitia uma conveniente penumbra, especialmente por onde eu estava recostado. Dalí, observava as pessoas indo e vindo, ouvia a conversa rápida dos clientes com o atendente no balcão e a euforia do lado de fora, na calçada.

Não demorou muito pra que entrasse uma moça, aparentemente em dissonância com a tendência do seu grupo de amigos, buscando alguma bebida. Ouvia-se, contudo, a pressa dos amigos, insistindo pra que ela deixasse pra depois e a frustração manifestada deles por verem que ela não os correspondia. Enquanto eu aguardava alguma coisa pra comer, me confortava com um copo de refrigerante. Achei que passaria desapercebido, mas, aparentemente, quanto mais discreto, mais destoante se fica em comparação com o resto das pessoas. Ela se apercebe da minha figura alí sentada, quieto, sozinho e se mostra curiosa em saber algo de mim. Olha e se anuncia pelo semblante, enquanto olho de volta por respeito e simpatia. É curioso ver como é comum que estranhos me cumprimentem em bares e outros comércios. Sei, por experiência de vida, que muitos deles fazem isso intencionalmente, pra sinalizar que estão chegando em paz, que não querem briga ou desconforto e aproveitam esse momento para conferir a reação daqueles a quem cumprimentaram, pra saberem se podem se sentir seguros e confortáveis. Wittgenstein, o (assim chamado) filósofo que se dizia não ser um, se sentiria feliz de ver essas “milagrosas” nuances de comunicação serem percebidas e comentadas.

A moça que se aproximava, parecia ter facilidade para notar o “invisível” também e expressou suas primeiras mensagens assim que notou a câmera de aspecto incomum sobre a mesa. Uma câmera profissional, um verdadeiro “trambolho” aos olhos do público comum, acostumados com os eletrônicos portáteis. Ela comenta algo sobre a câmera e me pergunta se posso fazer um retrato dela. Eu aceito e ela se felicita. Logo se arma, de óculos escuros, em poses e caras junto à uma coluna de madeira dentro do bar. Dada as condições de luz, idealizo uma imagem em preto-e-branco, tirando vantagem do contraste que se forma entre o escuro do ambiente, a pouca luz que vem de fora e o brilho nos óculos. Com o retrato feito, ela se aproxima pra ver o resultado, gosta e se esforça para lembrar corretamente seu endereço de e-mail ou rede social por onde possa receber a foto depois.

Puxando assunto e, visivelmente animada, ela pergunta o que estou bebendo. Surpreende-se de não ser nada alcoólico e tenta saber porque estou sozinho, aparentemente não fazendo coisa alguma. O silêncio é perturbador pra muita gente, pois dá brecha pra que pensem na vida, olhem pra dentro de si mesmas e se apercebam de realidades duras. Escolhem se ocupar com o barulho da música, a correria, a euforia forçada, a bebida, a dança, o sexo, a conversa sem profundidade e qualquer coisa que preencha o tempo. Ela vai ao balcão, pede uma cerveja e me pergunta se pode sentar-se comigo. Sinalizo uma concordância e logo vem ela com sua garrafa, mas não se senta em cadeira alguma. Escolhe ficar de pé, dançando e cantando alguma música. Por conhecer bem a cidade, sei que ela certamente era turista e de um tipo um tanto quanto incomum. Talvez tenha sido a época ou a combinação peculiar com seu grupo de amigos. Intrigada e provocada, se esforça pra ser acolhida e notada até que toma a iniciativa de rebolar perto de mim e de se permitir sentar em meu colo. Retribuo a iniciativa contemplando sua presença e observando sua personalidade. Vira-se de frente pra mim e senta-se novamente em meu colo, tomando o cuidado de deixar o copo sobre a mesa.

De maneira divertida, ela pede um beijo, mas eu não retribuo. Com uma das mãos, seguro-a pelas costas para evitar que ela caia. E isso parece animá-la um pouco mais. Levanta-se e continua a dançar bem perto, às vezes de costas, às vezes de frente e sinaliza que posso tocá-la, que quer se sentir desejada. Nessa reciprocidade informal, sinto o contorno de sua cintura, apalpo sua nádegas e seguro bem firme seus peitos, deixando que ela continue a dançar. Quando se vira de frente, já bem envolvida com o que está fazendo, deixo que ela defina os limites da situação e quando ela me toca entre as pernas pra sentir fisicamente a excitação, retribuo tocando entre as pernas dela, massageando pra observar a reação. Uma satisfação brota na mente por presenciar a espontaneidade e a liberdade que ela se deu naquele dia, com alguém que acabou de conhecer. Não sou o tipo de pessoa que criticaria tal situação, pois penso e vivo uma realidade de vida que é profundamente marcada por liberdades, acasos, mistérios, momentos e pessoas bastante fora dos padrões da sociedade, mas não incentivei nada além daquilo, pois o que eu queria para meu dia não envolvia ter companhia além daquele breve momento no bar. A turma dela novamente aparecia sinalizando pra seguirem adiante, mas ela parecia confrontá-los, insistindo em ficar dançando. Terminou sua bebida, agradeceu pela fotografia e saiu, tão aleatoriamente como entrou.

Depois de um certo tempo, noto que ela havia esquecido os óculos no bar e aviso o atendente pra que ele possa devolvê-los, caso a moça retorne ao bar. Algum tempo depois vou embora. Passado alguns dias, volto pra minha cidade e, com as fotos já editadas, localizo o contato dela e aproveito pra conhecer um pouco mais da sua realidade, seu trabalho, outras fotos, seu estilo de vida. Parecia ser alguém concentrada em se expressar livremente, em diversos sentidos. Parecia estar constantemente viajando e descobrindo novas atividades, novas estéticas, novas realidades. Havia um tanto de arte manifestada nas redes sociais. Fiquei feliz de contribuir com uma fotografia pra ampliar esse mosaico de experiências e memórias que ela estava cultivando.

Por trás de algumas liberdades, às vezes, se escondem algumas prisões. Por experiência de vida pessoal e pela experiência de outras pessoas que conheci, sei que algumas tendências são fruto de um passado dramático. Mas, a vida não é controlável. As pessoas são como são, fazem o que se sentem compelidas a fazer e se encontram em seus momentos de prazer da maneira que a mente organiza ou deixa acontecer. Somos nós mesmos um mosaico por consequência de outros mosaicos. Às vezes eu me pego relembrando de momentos avulsos como esse, em diferentes lugares, diferentes épocas da vida, com diferentes pessoas e isso me faz sentir que quanto mais difícil for o mundo lá fora, mais fundo algumas pessoas irão para as margens, para os modos alternativos de pensamento e de vida. E quando isso perdura por suficiente tempo no meu dia, eu vasculho meus arquivos atrás de outras fotos, pra relembrar pessoas, ideias, sensações, abstrações. Hoje em dia, para a maioria dessas pessoas que ficaram no passado, o que resta são apenas minhas memórias de momentos isolados, pois várias dessas pessoas se revelaram intragáveis depois de um tempo, quando suas máscaras caíram e deixaram à mostra o racismo, o fascismo, o conservadorismo, a falta de empatia, a cabeça fechada, o atropelo à diversos princípios. Ficam no passado, servindo meramente de entretenimento por conveniência, porque nunca puderam ser validadas pelo inteiro que foram enquanto pessoas. Se reduziram a fragmentos, quase sempre por frames sexualizados ou de momentos icônicos de comédia, enquanto os filmes inteiros não valiam o preço do ingresso, nem que fossem de graça ou que nos pagassem para serem assistidos.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Honestidade pra quê?

Até hoje me lembro daquela moça. A hipocrisia batia nos dentes. Apesar de evangélica, escolheu ir a um cartomante. Pra amenizar o papelão, decorou umas perguntas das quais nunca quis saber as respostas. Queria mesmo é saber de macho. Quem fica? Quem vai? Vale a pena tentar mais? Por dentro eu ria, por fora tentava explicar. A moça não entendia, fazia cara de quem estava bem-resolvida, mas era maior sua ansiedade em ouvir a resposta que ela queria do que ouvir a verdade. Por isso, insistia. Me perguntou umas cinco vezes o que é que ela deveria fazer. Não parecia pronta pra entender que estava toda errada, do começo ao fim. Tantos anos enroscada com um palerma e ele nunca havia apresentado ela para a família. Dois hipócritas, tentando fazer harmonia. Foi-se embora, mas fez sinal de que pretendia voltar. Estava realmente ansiosa pra ouvir eu ditar. Mal sabia ela que ditadura não tinha espaço por aqui.

Rodrigo Meyer

[+18] Sexo entre amigos?

Por algum motivo essa é uma dúvida que ainda pulsa na mente de muita gente. Essa insegurança sobre ser viável ou não misturar amizade e sexo é das coisas mais tragicômicas que conheço. Se há alguém com quem você pode compartilhar sexo, certamente essa pessoa é um amigo(a). Não significa, claro, que você só possa fazer sexo se o parceiro(a) for um amigo(a), mas é evidente que problema não terá. Quando alguém me diz que não namoraria ou não ficaria com determinada pessoa por considerá-la um amigo, eu rebato de volta perguntando se ele namoraria com um inimigo, então. A pessoa se desarma na hora e fica sem ter o que responder, afinal é óbvio que se temos atração por alguém e temos uma amizade com tal pessoa, ela é uma pessoa bacana e viável o suficiente pra se dividir sexo, justamente porque não há dissabores ou barreiras emocionais que transformam aquela pessoa no oposto de uma opção viável ou desejável.

Apesar disso soar óbvio, muita gente tem esse tabu ou receio bobo de que amigos não servem pra se relacionar além da amizade. E não passa de um tabu mesmo, que aliás, felizmente, grande parte da sociedade não endossa. Algumas pessoas ainda figuram entre as exceções, talvez por algum trauma, insegurança, complexo, medo ou por puro preconceito constituído na sua formação como pessoa. Mas, uma vez que se alinham com uma visão saudável, isso tende a sumir. Doentio mesmo é manter-se em vigília intensa para nunca se envolver com pessoas que você realmente dedica bons momentos, reciprocidade e que, eventualmente, pode vir a sentirem-se atraídos sexualmente ou, pelo menos, romanticamente. Seja lá qual for o contexto adicional que você veja de interessante, não há nada de incomum ou anormal em desejar partilhar disso junto com a amizade preexistente, bastando que o desenrolar dessa ideia inicial passe pelo menos pelo consenso de todas as partes envolvidas.

As chamadas ‘amizades coloridas’, onde amigos se permitem a relacionamentos sexuais em paralelo a amizade, não são nenhuma novidade. Eu estranho que em 2018, apesar de tanto tempo percorrido, ainda hajam pessoas com tanta privação de liberdade, por vezes acorrentando-se voluntariamente e negando uma realidade mais plena, apenas por inventarem regras que nem mesmo a sociedade possui. Conheço casos isolados que me fizeram bocejar de tão desnecessariamente maçantes. O único lado positivo dessa história é que, provavelmente, essas pessoas não serão frequentes em nossa realidade.

Outra coisa que precisa ser dita e que está bastante atrelada ao tema original é que, amizades sinceras também podem existir entre quaisquer pessoas, independente se é um homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem, ou seja lá qual for a combinação de gênero e atração sexual que normalmente cada indivíduo expressa. Um homem hétero, por exemplo, em termos de atração sexual, está direcionado para mulheres e isso nada impede que este homem e as mulheres a quem ele convive não possam desenvolver uma amizade. É evidente que vejo um discurso contrário a essa realidade, afinal a sociedade ainda é marcada por preconceitos e generalizações. Sei que muita gente diz de maneira convicta de que amizade entre ‘homem e mulher’, por exemplo, não existe, em razão do potencial interesse sexual que estará “inerente” a estes. As pessoas que dizem isso, falam por si mesmas apenas e, se elas não possuem capacidade de gerir amizades reais, por conta desse fator, isso só aponta uma condição exclusiva delas e não de uma sociedade inteira. O mundo, felizmente, não gira em torno de um determinado indivíduo.

O que talvez ocorra é que, por ser completamente natural que haja a possibilidade de atração sexual e/ou sexo entre amigos, quando isso ocorre, parece ser a comprovação, para alguns, de que esse é o inevitável desfecho para amigos naquelas configurações de par. Mas, como dois equívocos não fazem uma verdade, voltamos a destacar que isso não procede. É evidente que pode ocorrer de nos depararmos com pessoas que, de fato, só constroem amizades com outras pessoas tendo esse objetivo sexual e, em uma sociedade machista e fútil, isso pode até mesmo representar um número grande de indivíduos. Mas, mesmo que 99,99% da população de todo planeta tivesse essa conduta doentia, ainda sim, não seria 100% e não faria valer a ideia de que é uma condição nata entre a condição do problema e o desfecho proposto. Aliás, cada vez que alguém reafirma essa ideia preconceituosa de que não pode haver amizade sem que haja necessariamente segundas intenções sexuais em paralelo, está deixando um reforço nesse pensamento e modelo de sociedade, ampliando o número de pessoas que passa a viver sob essa ótica. Quem não se sente confortável com uma ideia que está em tendência na sociedade deve se engajar justamente na propagação das ideias que acredita e quer ver, para que seja exemplo pela palavra e pela prática. Simples assim.

É interessante pensar que se uma sociedade se fecha para estes aspectos completamente naturais dos relacionamentos humanos, não é de se espantar que, quando estão em um namoro ou casamento, frequentemente estão infelizes, convivendo com alguém que, ironicamente, não são amigos ou melhores amigos entre si. É tragicômico ver que as mesmas pessoas que criticam tanto essas misturas entre amigos e parceiros sexuais, passam para o namoro ou casamento com um ar de frustração por se aperceberem que aquele com quem estão dividindo um relacionamento sério, não construiu uma amizade paralela, afinal, estas duas coisas estiveram separadas desde o início, por decisão equivocada deles mesmos. O que pode ser mais desastroso do que esperar saborear um pão, mas não ter incluído na receita a massa. Percebe?

As pessoas assistem com brilho nos olhos os casais que perduraram felizes juntos por muitos anos, até o final da velhice, mas nunca param pra notar o que estaria por trás de alguns destes relacionamentos. Se não é a constituição de uma amizade sincera, não sei mais o que seria, afinal, depois de certa idade, atração sexual é que não será. Se só nos preparamos pra viver a faceta sexual de nosso ser, estamos fadados a um fracasso miserável na vida, a ponto de terminarmos sempre e toda vez, infelizes e insatisfeitos com o mundo, com nós mesmos e com qualquer outro que cruze o nosso caminho, afinal, a vida não é feita só de sexo. Um bom relacionamento é, sobretudo, uma troca de bons momentos, experiências e cuidados. É preciso ter muita sintonia, compaixão, amizade, interesse sincero e transparente pelo bem-estar do outro. Formar um bom relacionamento é construir um espaço  que não sufoca ninguém, mas cativa as partes envolvidas a quererem estar por ali para mais e mais. A vida pode ter muitos mistérios indecifráveis, mas alguns, claramente, são tão explícitos que chega a assustar ver que muita gente ainda não está conseguindo enxergar.

Consigo entender que muita gente esteja amargurada, traumatizada e sem esperanças pela vida, afinal, muitos indivíduos já tiveram experiências pouco frutíferas no campo das relações humanas. Porém, por isso mesmo, é importante estar sempre aberto aos erros cometidos, para não acabar fomentando um cenário que gera estes mesmos episódios mais e mais vezes, num círculo vicioso doentio. Uma sociedade que só replica desafeto, ansiedade, hipervalorização do sexo e subvalorização do afeto e da amizade, certamente está atirando no próprio pé e não está se dando conta. Dessa maneira, vai sempre se incomodar com a dor do ferimento, negligenciando o fato de que foi ela mesma que se sabotou.

Relacionamentos amorosos devem ser exercidos por pessoas aptas, maduras, independentes, livres e seguras de si. Diante de algo tão importante, não se pode achar que a ansiedade do momento vá ser parâmetro útil pra definir como ou com quem se relacionar ou não. Embora não possamos ter muito controle sobre quem nos será uma paixão ou atração sexual, podemos, com toda certeza, escolher nossa conduta diante desses sentimentos. Se algo lhe foge ao controle, nesse sentido, busque ajuda profissional, pois não é saudável e nem faz parte da natureza humana estar sem controle de seus atos por conta desses impulsos citados. Há muita coisa que motiva o ser humano a idealizar ou até aspirar determinadas realidades, mas, se o contexto de um relacionamento não é recíproco ou não nos é conveniente para o bem-estar de uma das partes, é hora de simplesmente buscar outras opções viáveis. Não gaste tempo na sua vida procurando fazer caber o que não cabe. Forçar uma ilusão a se adequar a realidade é o mesmo que plantar o conflito, enquanto poderia estar dedicando tempo e energia pra algo que realmente tem potencial de se concretizar e lhe trazer bons momentos. Pense nisso, faça boas escolhas e, assim, terá melhores chances de ser alguém feliz.

Rodrigo Meyer

E se você encontrasse uma pessoa igual a você?

Sempre ouvimos bastante aquela ideia de que boa parte das pessoas está buscando amigos ou relacionamentos amorosos com um critério de afinidade. É uma das opções. Mas será que as pessoas são sinceras e justas com a verdade ou será que interpretam isso da maneira que as convém? Será que as pessoas buscariam e aceitariam alguém que fosse exatamente como elas? Vamos desenvolver isso.

Normalmente, as pessoas que desejam afinidade com outras expressam uma satisfação quando se deparam com aspectos em comum ou compatíveis, como, por exemplo, o gosto musical, os principais hobbies, espiritualidade e crenças, ou estereótipos do lifestyle. Porém, essas são coisas que não determinam praticamente nada do que uma pessoa de fato é. É possível encontrarmos todo tipo de pessoa com gostos musicais semelhantes, mas que não possuem afinidades sólidas além desse fator de personalidade. Mergulhando mais fundo na essência das pessoas, pode-se perceber que há muitos outros fatores pra se pesar na hora de medir compatibilidade ou afinidade com alguém. Mas, imaginemos que duas pessoas sejam iguais em absolutamente todos os fatores internos. Surgem casos tragicômicos e vou descrever alguns.

Você já deve ter visto várias pessoas que apesar de gostarem de gritar, odeiam quando o grito chega para elas. Gostam de comer e largar a louça suja pra outra pessoa lavar, mas ficam logo incomodados se todos os demais ao redor fazem o mesmo que ela, já que ela nota que não terá pratos limpos para sua próxima expressão de egoísmo em uma refeição futura. Assim, fica claro que essas pessoas não suportariam alguém que fosse exatamente como elas, porque o que elas são, não agrada verdadeiramente nem a elas mesmas. Então, fica a pergunta: se elas não gostam de fato destas características, porque acreditam que outros devem gostar? E porque elas mesmas expressam características que não gostam? Somos um mundo que vive de aparências, lindos rótulos e máscaras, onde muitos tentam tirar vantagem diante dos outros por mero egoísmo.

Refletindo essa lógica, se alguém supostamente é contra a corrupção, não faria sentido se posicionar contra somente com a corrupção alheia ao mesmo tempo que é permissivo com a sua própria corrupção. Percebe? As pessoas que figuram nessas contradições, na verdade, estão apenas expressando egoísmo e hipocrisia e não um valor ou princípio. Elas não são de fato a favor ou contra aquela característica, mas apenas se posicionam contra ou a favor, conforme a conveniência do momento. Se algo vem pra beneficiar a si mesmas, ficam a favor, mas se algo não lhes favorece no contexto, passam a ser contra, mesmo sendo o mesmo tema. Isso é agir por conveniência já que as opiniões e decisões mudam conforme o caso.

Inúmeras vezes vejo as pessoas babando hipocrisia, sonhando com um perfil de uma pessoa pra amizade ou relacionamento amoroso, mas passando reto de toda sua própria realidade. Querem alguém que seja honesto, mesmo elas não sendo. Se esquecem que se alguém for de fato honesto, não vai aceitar um relacionamento com uma pessoa desonesta, pois não vai querer ser conivente com a desonestidade. Por isso, começa a brotar na memória das pessoas frases clássicas da internet, como esta:

“Não exija dos outros aquilo que nem você é.”

Essa expressão evidencia que o ser humano está sempre tentando levar vantagem na hora de obter qualidade dos outros, mas negligencia intensamente a lapidação de si mesmo, pra eliminação de seus defeitos ou aprimoramento sincero de suas qualidades. Numa equação que permanece em contradição, não se chega nunca a um resultado satisfatório. Pessoas que tentam sustentar relacionamentos sem compatibilidade, terminam infelizes, em conflito, por vezes em condutas agressivas ou desvios de conduta como fugas, traições, etc.

As pessoas não precisam de fato serem iguais em tudo e com certeza não existe nenhuma que seja igual a outra. Somos muito diversos e até mesmo onde há muitas semelhanças, há também diferenças inerentes a própria individualidade de cada ser. As pessoas expressam não só uma variação de temas, como também graus ou nuances dentro de cada aspecto. Tudo isso compõe algo irreplicável e, portanto, não corremos o risco de encontrarmos de fato alguém que seja totalmente igual a nós, nem por dentro, nem por fora (já que até gêmeos dito ‘idênticos’ não são totalmente iguais). Mas essa reflexão subjetiva foi proposta pra que pensemos em quem somos atualmente e o que andamos cobrando dos outros. Será que estamos filtrando as pessoas pelas características que realmente importam? Será que estamos priorizando semelhanças superficiais e ignorando totalmente a essência e os princípios das pessoas? Pelo que observo dos relacionamentos que estão fracassando em colisão e desprezo, fica fácil ver que muitos talvez não estejam nem filtrando coisa alguma, que dirá estar fazendo o filtro no que realmente importa.

Um mundo ensinado e estimulado cada vez mais a viver de aparências, já não se envergonha mais em admitir que vive pra sanar requisitos rasos e sem valor, como, por exemplo, encontrar alguém que tenha os padrões que ela deseja na aparência, na escolaridade, no lado financeiro, etc. Embora isso possa ser parte na equação, isso tudo são preferências que não interferem nos princípios. É o tipo de coisa que se ocorrer conforme idealizamos, achamos ótimo, mas, se não ocorrer, tudo bem também. O que temos que prestar atenção real são os princípios. Filtrar as pessoas pelos seus valores ajuda a desviar de pessoas que não possuem nenhuma condição de se relacionar conosco devido a incompatibilidades de primeira importância. É por isso que ‘princípio’ tem esse nome, pois é o que vem antes de tudo e de onde tudo se desenvolve. É como a base ou núcleo.

Eu, por exemplo, quando filtro as pessoas ao meu redor, elenco aquilo que é um princípio e o que é somente uma preferência, pois não vai interferir em nada se a pessoa gosta ou não de se vestir com o mesmo estilo de roupa que o meu, desde que os valores internos dela sejam compatíveis e similares aos meus. Não adiantaria de nada estarmos visualmente semelhantes nas roupas, mas um de nós ser honesto e outro não. É assim que se determina prioridades. E, pelo que me conheço, adoraria alguém que fosse como eu, afinal eu tenho orgulho de ser quem eu sou. Minha personalidade e as coisas que eu tenho por dentro são características que eu realmente gosto e, por isso, gosto tanto em mim quanto gosto nos outros. Estar sincero sobre quem sou e o que busco, ajuda a viver melhor, apesar de não ser recorrente as combinações compatíveis. Se eu tivesse menos filtros importantes, certamente teria mais opções de pessoas pra acolher nesse mundo, porém não seria uma vantagem, pois não formaria um par compatível, nenhum dos envolvidos seria feliz e eu só estaria perdendo meu tempo e tomando o tempo do outro. Por isso, vale sempre aquela frase: “antes só do que mal acompanhado.”.

Respeitar meu tempo, minha liberdade, meus princípios, não me é um problema, mas uma ótima solução. É por conta desse respeito que tenho comigo mesmo, que não me jogo em relacionamentos tóxicos que vão ocupar meus dias e me deixar cada vez mais sem esperança e tempo. Muito melhor que fechar os olhos e sair tateando livros que gostaríamos de encontrar e ler, é abrir os olhos e observar por si mesmo quais são os livros que você realmente quer e os que não quer. Invista seu tempo, seu esforço e sua essência diante das pessoas que já são compatíveis com você e assim você aumentará suas chances de que a pessoa também se interesse por você. Quando você está em sincera harmonia com as pessoas de seu convívio, você já tem um relacionamento de sucesso. Se forem harmônicos para outros aspectos, certamente terão sucesso em outros tipos de relacionamento ou em outros níveis do mesmo relacionamento.

Mas, não esteja numa busca desesperada por isso, pois seu desespero expressa algo que talvez você não queira: outra pessoa desesperada, atropelando tudo e todos para conhecer alguém também. Será uma colisão apressada e não uma apreciação. Deixe que as pessoas te surpreendam e que as coisas fluam no tempo delas. Apenas viva sua vida e siga expressando sua essência natural. Quem gostar de você, estará por perto. Não fique, inclusive, preocupado de, eventualmente, estar sozinho na vida. Vale repetir a frase “quando a gente aprende a ser feliz sozinho, ter alguém se torna uma opção e não uma necessidade.”. Embora o ser humano seja um ser social, muita gente desfruta muito bem seus momentos sozinhos, pois não se sentem ansiosos para ter algo a mais. Socializar não pressupõem que você precise de um relacionamento amoroso, por exemplo, e nem mesmo de estar constantemente com um monte de amigos. Socializar é simplesmente ter um papel social e interagir com essas conexões, sejam elas de qual tipo for. Qualquer coisa além disso é opcional / meras preferências para quem está bem-resolvido.

Presente pra você que leu até aqui: Preciso Dizer.

Rodrigo Meyer

Até que ponto a privacidade importa?

Todo ser humano tem, ou deveria ter, seus momentos pessoais, sua privacidade, seu tempo isolado do restante das pessoas. A depender do modelo de sociedade, isso pode ser mais incisivo ou menos, mas todos nós, em menor ou maior grau, tem ou precisa ter alguma privacidade. Nos tempos modernos, isso pode estar se perdendo devido ao vício em tecnologia em um modelo que incentiva a exposição de dados e a própria imagem.

Nas redes sociais como Facebook, Instagram e similares, parece haver uma disputa por espaço e visualizações que fisga, principalmente, os mais inseguros. As pessoas parecem usar a simbólica aprovação virtual nessas mídias como compensação pela necessidade de se sentirem importantes ou apreciadas na vida real. É uma espécie de efeito colateral da insegurança ou falta  de amor-próprio. A pessoa pode estar carente por atenção e validações positivas, mesmo que sejam apenas representações como o surgimento de um novo inscrito, seguidor ou uma sinalização de ‘like’ em uma mídia ou publicação.

Toda mídia nasce pra ser exposta, mas isso não significa que a exposição precisa ser da pessoa ou de sua privacidade. Uma coisa é um músico fazer um show diante de uma plateia e outra, completamente diferente, é expor publicamente sua rotina, sua imagem fora dos palcos. Mas, vivemos tempos onde os exemplos de sucesso na internet se tornaram uma meta de trabalho pra muita gente. As pessoas querem viver o sonho de poder ganhar dinheiro trabalhando com mídias a partir de suas próprias casas. A princípio isso não tem problema algum, mas começa a ser prejudicial quando as pessoas querem chegar em algum lugar, mas não possuem nada importante para mostrar. Na ausência de uma criação, elas acabam se tornando o próprio conteúdo da mídia.

Parece cômico quando descrevemos isso, mas existem milhares e milhares de pessoas que conquistam visualizações e fãs apenas por se exporem e não por criarem algo. Provavelmente seriam anônimos em tempos anteriores à internet ou às redes sociais virtuais, mas atualmente estão se tornando celebridades que vieram de lugar nenhum e caminham sabe-se lá pra onde. É compreensível que alguém veja um músico, goste do trabalho dele e torne-se interessado de ver seu site, suas fotos ou até mesmo algumas curiosidades de sua vida pessoal, mas o que dizer de alguém que não está produzindo nada? Por qual razão as pessoas estão dando validações à pessoas que ligam suas câmeras de vídeo, gravam qualquer aleatoriedade e sobem esses vídeos para internet em busca de algum sucesso? É preocupante o nível de quem assiste esses “conteúdos” e de que os cria. Estranhamente, essas duas pessoas foram feitas uma para as outras. E são muitas.

Resumidamente, as pessoas descobriram que a mesma curiosidade vazia e doentia que elas possuem das banalidades, outras pessoas também possuem e, então, esse seria um jeito fácil de atrair muita atenção na sociedade, agora que elas podem simplesmente ligar um dispositivo e alcançar milhares de pessoas no mundo, via internet. Com a remuneração vinda de sites como Youtube e similares, as pessoas estão  vidradas em querer chegar o mais rápido possível no objetivo ilusório da fama, da popularidade ou mesmo da riqueza financeira. Isso se torna especialmente danoso quando essas pessoas de fato alcançam essas metas e percebem que é possível ser fútil e ser recompensado com dinheiro, fama ou qualquer que seja o objetivo sonhado pela pessoa. Então, esse sistema incentiva pessoas já enfraquecidas da mente a intensificarem esse modelo de vida. E exemplos não faltam. Recentemente veio à tona o caso de um youtuber que, para conseguir visualizações, apelou para a extrema irresponsabilidade, gravando um vídeo em formato de vlog fazendo sensacionalismo, humor e deboche de uma área no Japão onde costumam ocorrer muitos suicídios. Há algum tempo atrás uma pessoa disparou um tiro em si mesma como forma de “conteúdo” para um vídeo pra internet e acabou morrendo.

Embora a idiotice humana esteja mais evidente nesses casos citados, ela está presente em inúmeras outras situações que talvez sejam menos notadas ou citadas, justamente porque causam menos repercussão social, já que não lidam diretamente com a morte. O ser humano parece ignorar os danos antes que eles se tornem drasticamente um assunto de vida ou morte. Mas você já parou pra pensar em quantas outras coisas “mais leves” essas pessoas já tentaram antes de apelar pra esse tipo de vídeo drástico? Você já pensou no tipo de obstinação que essas pessoas estão, atrás de mais e mais visualizações e lucro, a ponto de ignorar qualquer tipo de valor ou racionalidade, usando a imbecilidade como recurso de pseudo-entretenimento, apenas por saberem que sensacionalismo vazio pode finalmente tirá-las da miséria financeira? Que tipo de mensagem isso passa pra humanidade? Que tipo de pessoas serão formadas a partir desse público assistindo isso?

É fácil perceber que o futuro poderá ser assustador em um mundo onde as pessoas farão qualquer coisa por mais visualizações, mais dinheiro e mais atenção. Se elas já aceitam zombar do suicídio ou arriscarem-se a um tiro de arma apenas para atiçar a curiosidade das pessoas sobre aquele vídeo, imagina no que mais estarão dispostas, quando sentirem a pressão da “concorrência” em uma internet cada vez mais acessível, cada vez mais veloz e cada vez mais rasa. Lembre-se que alguns exemplos são apenas casos pinçados na memória dos últimos tempos e que é difícil mensurar quão mais longe isso vai em termos de quantidade e de má qualidade, mas as estatísticas dessas plataformas de “conteúdo” resumem bem pra onde estão indo a atenção social e o dinheiro. Infelizmente as notícias não são boas.

A privacidade morreu desde que as pessoas decidiram preencher formulários sobre seus gostos musicais, suas marcas preferidas, seus hobbies, seus espaços de trabalho, seus telefones, etc. O Facebook é um imenso compilado da vida de cada membro. A medida em que interagem pela exposição de suas privacidades, removem a última barreira entre elas e os anunciantes. Agora, governos e empresas podem ter, facilmente, informações valiosas pra determinar como manejar o público pra um determinado objetivo. Pode soar como alarmista, mas isso já é feito há muito anos na internet e já existia até mesmo, com menor eficácia, nos tempos de televisão. A internet, infelizmente, conecta o próprio consumidor diretamente com as mídias, fazendo ele se tornar um funcionário eficiente que não só entrega todo seus dados de graça como ainda paga pra fazer isso através das caras mensalidades dos serviços precários de acesso à internet.

Antes da era dos reality shows as pessoas se surpreenderiam de ver pessoas se expondo 24 horas por dia diante das câmeras para um grande público. Foi exatamente essa surpresa que atraiu também a atenção problemática para este tipo de programa nas televisões. O sucesso desse tipo de conteúdo inútil abriu um precedente desastroso pras mídias vindouras na internet. Agora as pessoas podem ter seus próprios reality shows feitos de suas próprias casas. Já não se importam de ligar a câmera e se filmarem almoçando, dormindo, usando o banheiro, viajando, interagindo com parentes. Perceba que a crítica não é para as pessoas que sentem-se livres e à vontade diante dessas atividades a ponto de não se importarem de dividir um vídeo com isso. A crítica é sobre as pessoas estarem se forçando a perder uma privacidade que antes tinham vergonha de expor e agora o fazem estritamente pela pressão pessoal e social de ganhar dinheiro e fama com esse acordo. Cada vez mais se permitem serem pisadas e também de pisar em troca do crescimento das estatísticas dessas mídias. Percebe a diferença?

Eu, por exemplo, não me imaginaria correndo atrás de fama e dinheiro usando minha rotina como ponte. Não é com esse tipo de ação que eu pretendo chegar a mais pessoas ou a algum dinheiro. Sendo bem simplista na analogia, a sociedade atual está fazendo com suas vidas pessoais e profissionais o mesmo que a indústria pornográfica fez com o Cinema: substituíram os roteiros e produções por cenas extremadas de algo que muitas pessoas desejarão ver, não pela qualidade, mas pela curiosidade ou impulso. Aliás, diga-se de passagem, o próprio Cinema fez e faz apelos sexuais para engajar plateias. Imagina quão pior está em mídias que já nasceram sem roteiros ou objetivos consistentes. Me desculpe por relembrar, mas o Youtube já foi palco pra uma pessoa beber água com fezes em um vídeo para viralizar em busca de fama. Se isso não é imbecil o suficiente em todos os sentidos, eu não sei mais o que seria.

Diante de tudo isso que foi dito, ficam algumas perguntas: Até que ponto a privacidade importa? Será que as pessoas realmente valorizam a privacidade? O que sobrará pra desvendarmos se tudo nas pessoas já está exposto de maneira automática praticamente? Quem serão essas pessoas daqui alguns anos, tentando se destacar no meio de outros sensacionalismos extremados? Que tipo de saúde psicológica e física essas pessoas terão debaixo desse modelo de vida que está se tornando tendência internacional? Que tipo de vida pessoal e social essas pessoas terão, se tudo que fazem na intimidade é recheio para o trabalho?

Se tornaram escravas por opção ao trabalhar 24 horas por dia, em condições questionáveis, para gerar um conteúdo dispensável, mas que, infelizmente, outras mentes vazias podem ter disposição de absorver pois vivem como zumbis acorrentados na frente de um celular ou computador. Muitas dessas pessoas já não filtram nem mesmo a privacidade sexual, em um mundo onde a troca dos chamados ‘nudes‘ se tornou tão corriqueira que as pessoas acreditam ser necessário e normal. Acostumadas a se exporem em formulários, interações, fotos e vídeos, chegam a cobrar dos outros que façam o mesmo. Uma triste maneira das pessoas se escolherem entre si com base em estereótipos, rótulos, fotos forjadas e todo tipo de alucinação que figura ao lado da realidade aberta dessas pessoas.

Estamos pulando fases importantes da socialização e da descoberta da vida. Nossas premissas de valor e objetivos estão escorrendo por entre nossas mãos, a medida em que tentamos segurar esse mar de ilusões pautadas em status, dinheiro, poder, aceitação, validação pública, etc. Extremamente danoso, extremamente perigoso, extremamente “humano” nos tempos atuais.

Rodrigo Meyer