Crônica | Honestidade pra quê?

Até hoje me lembro daquela moça. A hipocrisia batia nos dentes. Apesar de evangélica, escolheu ir a um cartomante. Pra amenizar o papelão, decorou umas perguntas das quais nunca quis saber as respostas. Queria mesmo é saber de macho. Quem fica? Quem vai? Vale a pena tentar mais? Por dentro eu ria, por fora tentava explicar. A moça não entendia, fazia cara de quem estava bem-resolvida, mas era maior sua ansiedade em ouvir a resposta que ela queria do que ouvir a verdade. Por isso, insistia. Me perguntou umas cinco vezes o que é que ela deveria fazer. Não parecia pronta pra entender que estava toda errada, do começo ao fim. Tantos anos enroscada com um palerma e ele nunca havia apresentado ela para a família. Dois hipócritas, tentando fazer harmonia. Foi-se embora, mas fez sinal de que pretendia voltar. Estava realmente ansiosa pra ouvir eu ditar. Mal sabia ela que ditadura não tinha espaço por aqui.

Rodrigo Meyer

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[+18] Sexo entre amigos?

Por algum motivo essa é uma dúvida que ainda pulsa na mente de muita gente. Essa insegurança sobre ser viável ou não misturar amizade e sexo é das coisas mais tragicômicas que conheço. Se há alguém com quem você pode compartilhar sexo, certamente essa pessoa é um amigo(a). Não significa, claro, que você só possa fazer sexo se o parceiro(a) for um amigo(a), mas é evidente que problema não terá. Quando alguém me diz que não namoraria ou não ficaria com determinada pessoa por considerá-la um amigo, eu rebato de volta perguntando se ele namoraria com um inimigo, então. A pessoa se desarma na hora e fica sem ter o que responder, afinal é óbvio que se temos atração por alguém e temos uma amizade com tal pessoa, ela é uma pessoa bacana e viável o suficiente pra se dividir sexo, justamente porque não há dissabores ou barreiras emocionais que transformam aquela pessoa no oposto de uma opção viável ou desejável.

Apesar disso soar óbvio, muita gente tem esse tabu ou receio bobo de que amigos não servem pra se relacionar além da amizade. E não passa de um tabu mesmo, que aliás, felizmente, grande parte da sociedade não endossa. Algumas pessoas ainda figuram entre as exceções, talvez por algum trauma, insegurança, complexo, medo ou por puro preconceito constituído na sua formação como pessoa. Mas, uma vez que se alinham com uma visão saudável, isso tende a sumir. Doentio mesmo é manter-se em vigília intensa para nunca se envolver com pessoas que você realmente dedica bons momentos, reciprocidade e que, eventualmente, pode vir a sentirem-se atraídos sexualmente ou, pelo menos, romanticamente. Seja lá qual for o contexto adicional que você veja de interessante, não há nada de incomum ou anormal em desejar partilhar disso junto com a amizade preexistente, bastando que o desenrolar dessa ideia inicial passe pelo menos pelo consenso de todas as partes envolvidas.

As chamadas ‘amizades coloridas’, onde amigos se permitem a relacionamentos sexuais em paralelo a amizade, não são nenhuma novidade. Eu estranho que em 2018, apesar de tanto tempo percorrido, ainda hajam pessoas com tanta privação de liberdade, por vezes acorrentando-se voluntariamente e negando uma realidade mais plena, apenas por inventarem regras que nem mesmo a sociedade possui. Conheço casos isolados que me fizeram bocejar de tão desnecessariamente maçantes. O único lado positivo dessa história é que, provavelmente, essas pessoas não serão frequentes em nossa realidade.

Outra coisa que precisa ser dita e que está bastante atrelada ao tema original é que, amizades sinceras também podem existir entre quaisquer pessoas, independente se é um homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem, ou seja lá qual for a combinação de gênero e atração sexual que normalmente cada indivíduo expressa. Um homem hétero, por exemplo, em termos de atração sexual, está direcionado para mulheres e isso nada impede que este homem e as mulheres a quem ele convive não possam desenvolver uma amizade. É evidente que vejo um discurso contrário a essa realidade, afinal a sociedade ainda é marcada por preconceitos e generalizações. Sei que muita gente diz de maneira convicta de que amizade entre ‘homem e mulher’, por exemplo, não existe, em razão do potencial interesse sexual que estará “inerente” a estes. As pessoas que dizem isso, falam por si mesmas apenas e, se elas não possuem capacidade de gerir amizades reais, por conta desse fator, isso só aponta uma condição exclusiva delas e não de uma sociedade inteira. O mundo, felizmente, não gira em torno de um determinado indivíduo.

O que talvez ocorra é que, por ser completamente natural que haja a possibilidade de atração sexual e/ou sexo entre amigos, quando isso ocorre, parece ser a comprovação, para alguns, de que esse é o inevitável desfecho para amigos naquelas configurações de par. Mas, como dois equívocos não fazem uma verdade, voltamos a destacar que isso não procede. É evidente que pode ocorrer de nos depararmos com pessoas que, de fato, só constroem amizades com outras pessoas tendo esse objetivo sexual e, em uma sociedade machista e fútil, isso pode até mesmo representar um número grande de indivíduos. Mas, mesmo que 99,99% da população de todo planeta tivesse essa conduta doentia, ainda sim, não seria 100% e não faria valer a ideia de que é uma condição nata entre a condição do problema e o desfecho proposto. Aliás, cada vez que alguém reafirma essa ideia preconceituosa de que não pode haver amizade sem que haja necessariamente segundas intenções sexuais em paralelo, está deixando um reforço nesse pensamento e modelo de sociedade, ampliando o número de pessoas que passa a viver sob essa ótica. Quem não se sente confortável com uma ideia que está em tendência na sociedade deve se engajar justamente na propagação das ideias que acredita e quer ver, para que seja exemplo pela palavra e pela prática. Simples assim.

É interessante pensar que se uma sociedade se fecha para estes aspectos completamente naturais dos relacionamentos humanos, não é de se espantar que, quando estão em um namoro ou casamento, frequentemente estão infelizes, convivendo com alguém que, ironicamente, não são amigos ou melhores amigos entre si. É tragicômico ver que as mesmas pessoas que criticam tanto essas misturas entre amigos e parceiros sexuais, passam para o namoro ou casamento com um ar de frustração por se aperceberem que aquele com quem estão dividindo um relacionamento sério, não construiu uma amizade paralela, afinal, estas duas coisas estiveram separadas desde o início, por decisão equivocada deles mesmos. O que pode ser mais desastroso do que esperar saborear um pão, mas não ter incluído na receita a massa. Percebe?

As pessoas assistem com brilho nos olhos os casais que perduraram felizes juntos por muitos anos, até o final da velhice, mas nunca param pra notar o que estaria por trás de alguns destes relacionamentos. Se não é a constituição de uma amizade sincera, não sei mais o que seria, afinal, depois de certa idade, atração sexual é que não será. Se só nos preparamos pra viver a faceta sexual de nosso ser, estamos fadados a um fracasso miserável na vida, a ponto de terminarmos sempre e toda vez, infelizes e insatisfeitos com o mundo, com nós mesmos e com qualquer outro que cruze o nosso caminho, afinal, a vida não é feita só de sexo. Um bom relacionamento é, sobretudo, uma troca de bons momentos, experiências e cuidados. É preciso ter muita sintonia, compaixão, amizade, interesse sincero e transparente pelo bem-estar do outro. Formar um bom relacionamento é construir um espaço  que não sufoca ninguém, mas cativa as partes envolvidas a quererem estar por ali para mais e mais. A vida pode ter muitos mistérios indecifráveis, mas alguns, claramente, são tão explícitos que chega a assustar ver que muita gente ainda não está conseguindo enxergar.

Consigo entender que muita gente esteja amargurada, traumatizada e sem esperanças pela vida, afinal, muitos indivíduos já tiveram experiências pouco frutíferas no campo das relações humanas. Porém, por isso mesmo, é importante estar sempre aberto aos erros cometidos, para não acabar fomentando um cenário que gera estes mesmos episódios mais e mais vezes, num círculo vicioso doentio. Uma sociedade que só replica desafeto, ansiedade, hipervalorização do sexo e subvalorização do afeto e da amizade, certamente está atirando no próprio pé e não está se dando conta. Dessa maneira, vai sempre se incomodar com a dor do ferimento, negligenciando o fato de que foi ela mesma que se sabotou.

Relacionamentos amorosos devem ser exercidos por pessoas aptas, maduras, independentes, livres e seguras de si. Diante de algo tão importante, não se pode achar que a ansiedade do momento vá ser parâmetro útil pra definir como ou com quem se relacionar ou não. Embora não possamos ter muito controle sobre quem nos será uma paixão ou atração sexual, podemos, com toda certeza, escolher nossa conduta diante desses sentimentos. Se algo lhe foge ao controle, nesse sentido, busque ajuda profissional, pois não é saudável e nem faz parte da natureza humana estar sem controle de seus atos por conta desses impulsos citados. Há muita coisa que motiva o ser humano a idealizar ou até aspirar determinadas realidades, mas, se o contexto de um relacionamento não é recíproco ou não nos é conveniente para o bem-estar de uma das partes, é hora de simplesmente buscar outras opções viáveis. Não gaste tempo na sua vida procurando fazer caber o que não cabe. Forçar uma ilusão a se adequar a realidade é o mesmo que plantar o conflito, enquanto poderia estar dedicando tempo e energia pra algo que realmente tem potencial de se concretizar e lhe trazer bons momentos. Pense nisso, faça boas escolhas e, assim, terá melhores chances de ser alguém feliz.

Rodrigo Meyer

E se você encontrasse uma pessoa igual a você?

Sempre ouvimos bastante aquela ideia de que boa parte das pessoas está buscando amigos ou relacionamentos amorosos com um critério de afinidade. É uma das opções. Mas será que as pessoas são sinceras e justas com a verdade ou será que interpretam isso da maneira que as convém? Será que as pessoas buscariam e aceitariam alguém que fosse exatamente como elas? Vamos desenvolver isso.

Normalmente, as pessoas que desejam afinidade com outras expressam uma satisfação quando se deparam com aspectos em comum ou compatíveis, como, por exemplo, o gosto musical, os principais hobbies, espiritualidade e crenças, ou estereótipos do lifestyle. Porém, essas são coisas que não determinam praticamente nada do que uma pessoa de fato é. É possível encontrarmos todo tipo de pessoa com gostos musicais semelhantes, mas que não possuem afinidades sólidas além desse fator de personalidade. Mergulhando mais fundo na essência das pessoas, pode-se perceber que há muitos outros fatores pra se pesar na hora de medir compatibilidade ou afinidade com alguém. Mas, imaginemos que duas pessoas sejam iguais em absolutamente todos os fatores internos. Surgem casos tragicômicos e vou descrever alguns.

Você já deve ter visto várias pessoas que apesar de gostarem de gritar, odeiam quando o grito chega para elas. Gostam de comer e largar a louça suja pra outra pessoa lavar, mas ficam logo incomodados se todos os demais ao redor fazem o mesmo que ela, já que ela nota que não terá pratos limpos para sua próxima expressão de egoísmo em uma refeição futura. Assim, fica claro que essas pessoas não suportariam alguém que fosse exatamente como elas, porque o que elas são, não agrada verdadeiramente nem a elas mesmas. Então, fica a pergunta: se elas não gostam de fato destas características, porque acreditam que outros devem gostar? E porque elas mesmas expressam características que não gostam? Somos um mundo que vive de aparências, lindos rótulos e máscaras, onde muitos tentam tirar vantagem diante dos outros por mero egoísmo.

Refletindo essa lógica, se alguém supostamente é contra a corrupção, não faria sentido se posicionar contra somente com a corrupção alheia ao mesmo tempo que é permissivo com a sua própria corrupção. Percebe? As pessoas que figuram nessas contradições, na verdade, estão apenas expressando egoísmo e hipocrisia e não um valor ou princípio. Elas não são de fato a favor ou contra aquela característica, mas apenas se posicionam contra ou a favor, conforme a conveniência do momento. Se algo vem pra beneficiar a si mesmas, ficam a favor, mas se algo não lhes favorece no contexto, passam a ser contra, mesmo sendo o mesmo tema. Isso é agir por conveniência já que as opiniões e decisões mudam conforme o caso.

Inúmeras vezes vejo as pessoas babando hipocrisia, sonhando com um perfil de uma pessoa pra amizade ou relacionamento amoroso, mas passando reto de toda sua própria realidade. Querem alguém que seja honesto, mesmo elas não sendo. Se esquecem que se alguém for de fato honesto, não vai aceitar um relacionamento com uma pessoa desonesta, pois não vai querer ser conivente com a desonestidade. Por isso, começa a brotar na memória das pessoas frases clássicas da internet, como esta:

“Não exija dos outros aquilo que nem você é.”

Essa expressão evidencia que o ser humano está sempre tentando levar vantagem na hora de obter qualidade dos outros, mas negligencia intensamente a lapidação de si mesmo, pra eliminação de seus defeitos ou aprimoramento sincero de suas qualidades. Numa equação que permanece em contradição, não se chega nunca a um resultado satisfatório. Pessoas que tentam sustentar relacionamentos sem compatibilidade, terminam infelizes, em conflito, por vezes em condutas agressivas ou desvios de conduta como fugas, traições, etc.

As pessoas não precisam de fato serem iguais em tudo e com certeza não existe nenhuma que seja igual a outra. Somos muito diversos e até mesmo onde há muitas semelhanças, há também diferenças inerentes a própria individualidade de cada ser. As pessoas expressam não só uma variação de temas, como também graus ou nuances dentro de cada aspecto. Tudo isso compõe algo irreplicável e, portanto, não corremos o risco de encontrarmos de fato alguém que seja totalmente igual a nós, nem por dentro, nem por fora (já que até gêmeos dito ‘idênticos’ não são totalmente iguais). Mas essa reflexão subjetiva foi proposta pra que pensemos em quem somos atualmente e o que andamos cobrando dos outros. Será que estamos filtrando as pessoas pelas características que realmente importam? Será que estamos priorizando semelhanças superficiais e ignorando totalmente a essência e os princípios das pessoas? Pelo que observo dos relacionamentos que estão fracassando em colisão e desprezo, fica fácil ver que muitos talvez não estejam nem filtrando coisa alguma, que dirá estar fazendo o filtro no que realmente importa.

Um mundo ensinado e estimulado cada vez mais a viver de aparências, já não se envergonha mais em admitir que vive pra sanar requisitos rasos e sem valor, como, por exemplo, encontrar alguém que tenha os padrões que ela deseja na aparência, na escolaridade, no lado financeiro, etc. Embora isso possa ser parte na equação, isso tudo são preferências que não interferem nos princípios. É o tipo de coisa que se ocorrer conforme idealizamos, achamos ótimo, mas, se não ocorrer, tudo bem também. O que temos que prestar atenção real são os princípios. Filtrar as pessoas pelos seus valores ajuda a desviar de pessoas que não possuem nenhuma condição de se relacionar conosco devido a incompatibilidades de primeira importância. É por isso que ‘princípio’ tem esse nome, pois é o que vem antes de tudo e de onde tudo se desenvolve. É como a base ou núcleo.

Eu, por exemplo, quando filtro as pessoas ao meu redor, elenco aquilo que é um princípio e o que é somente uma preferência, pois não vai interferir em nada se a pessoa gosta ou não de se vestir com o mesmo estilo de roupa que o meu, desde que os valores internos dela sejam compatíveis e similares aos meus. Não adiantaria de nada estarmos visualmente semelhantes nas roupas, mas um de nós ser honesto e outro não. É assim que se determina prioridades. E, pelo que me conheço, adoraria alguém que fosse como eu, afinal eu tenho orgulho de ser quem eu sou. Minha personalidade e as coisas que eu tenho por dentro são características que eu realmente gosto e, por isso, gosto tanto em mim quanto gosto nos outros. Estar sincero sobre quem sou e o que busco, ajuda a viver melhor, apesar de não ser recorrente as combinações compatíveis. Se eu tivesse menos filtros importantes, certamente teria mais opções de pessoas pra acolher nesse mundo, porém não seria uma vantagem, pois não formaria um par compatível, nenhum dos envolvidos seria feliz e eu só estaria perdendo meu tempo e tomando o tempo do outro. Por isso, vale sempre aquela frase: “antes só do que mal acompanhado.”.

Respeitar meu tempo, minha liberdade, meus princípios, não me é um problema, mas uma ótima solução. É por conta desse respeito que tenho comigo mesmo, que não me jogo em relacionamentos tóxicos que vão ocupar meus dias e me deixar cada vez mais sem esperança e tempo. Muito melhor que fechar os olhos e sair tateando livros que gostaríamos de encontrar e ler, é abrir os olhos e observar por si mesmo quais são os livros que você realmente quer e os que não quer. Invista seu tempo, seu esforço e sua essência diante das pessoas que já são compatíveis com você e assim você aumentará suas chances de que a pessoa também se interesse por você. Quando você está em sincera harmonia com as pessoas de seu convívio, você já tem um relacionamento de sucesso. Se forem harmônicos para outros aspectos, certamente terão sucesso em outros tipos de relacionamento ou em outros níveis do mesmo relacionamento.

Mas, não esteja numa busca desesperada por isso, pois seu desespero expressa algo que talvez você não queira: outra pessoa desesperada, atropelando tudo e todos para conhecer alguém também. Será uma colisão apressada e não uma apreciação. Deixe que as pessoas te surpreendam e que as coisas fluam no tempo delas. Apenas viva sua vida e siga expressando sua essência natural. Quem gostar de você, estará por perto. Não fique, inclusive, preocupado de, eventualmente, estar sozinho na vida. Vale repetir a frase “quando a gente aprende a ser feliz sozinho, ter alguém se torna uma opção e não uma necessidade.”. Embora o ser humano seja um ser social, muita gente desfruta muito bem seus momentos sozinhos, pois não se sentem ansiosos para ter algo a mais. Socializar não pressupõem que você precise de um relacionamento amoroso, por exemplo, e nem mesmo de estar constantemente com um monte de amigos. Socializar é simplesmente ter um papel social e interagir com essas conexões, sejam elas de qual tipo for. Qualquer coisa além disso é opcional / meras preferências para quem está bem-resolvido.

Presente pra você que leu até aqui: Preciso Dizer.

Rodrigo Meyer

Até que ponto a privacidade importa?

Todo ser humano tem, ou deveria ter, seus momentos pessoais, sua privacidade, seu tempo isolado do restante das pessoas. A depender do modelo de sociedade, isso pode ser mais incisivo ou menos, mas todos nós, em menor ou maior grau, tem ou precisa ter alguma privacidade. Nos tempos modernos, isso pode estar se perdendo devido ao vício em tecnologia em um modelo que incentiva a exposição de dados e a própria imagem.

Nas redes sociais como Facebook, Instagram e similares, parece haver uma disputa por espaço e visualizações que fisga, principalmente, os mais inseguros. As pessoas parecem usar a simbólica aprovação virtual nessas mídias como compensação pela necessidade de se sentirem importantes ou apreciadas na vida real. É uma espécie de efeito colateral da insegurança ou falta  de amor-próprio. A pessoa pode estar carente por atenção e validações positivas, mesmo que sejam apenas representações como o surgimento de um novo inscrito, seguidor ou uma sinalização de ‘like’ em uma mídia ou publicação.

Toda mídia nasce pra ser exposta, mas isso não significa que a exposição precisa ser da pessoa ou de sua privacidade. Uma coisa é um músico fazer um show diante de uma plateia e outra, completamente diferente, é expor publicamente sua rotina, sua imagem fora dos palcos. Mas, vivemos tempos onde os exemplos de sucesso na internet se tornaram uma meta de trabalho pra muita gente. As pessoas querem viver o sonho de poder ganhar dinheiro trabalhando com mídias a partir de suas próprias casas. A princípio isso não tem problema algum, mas começa a ser prejudicial quando as pessoas querem chegar em algum lugar, mas não possuem nada importante para mostrar. Na ausência de uma criação, elas acabam se tornando o próprio conteúdo da mídia.

Parece cômico quando descrevemos isso, mas existem milhares e milhares de pessoas que conquistam visualizações e fãs apenas por se exporem e não por criarem algo. Provavelmente seriam anônimos em tempos anteriores à internet ou às redes sociais virtuais, mas atualmente estão se tornando celebridades que vieram de lugar nenhum e caminham sabe-se lá pra onde. É compreensível que alguém veja um músico, goste do trabalho dele e torne-se interessado de ver seu site, suas fotos ou até mesmo algumas curiosidades de sua vida pessoal, mas o que dizer de alguém que não está produzindo nada? Por qual razão as pessoas estão dando validações à pessoas que ligam suas câmeras de vídeo, gravam qualquer aleatoriedade e sobem esses vídeos para internet em busca de algum sucesso? É preocupante o nível de quem assiste esses “conteúdos” e de que os cria. Estranhamente, essas duas pessoas foram feitas uma para as outras. E são muitas.

Resumidamente, as pessoas descobriram que a mesma curiosidade vazia e doentia que elas possuem das banalidades, outras pessoas também possuem e, então, esse seria um jeito fácil de atrair muita atenção na sociedade, agora que elas podem simplesmente ligar um dispositivo e alcançar milhares de pessoas no mundo, via internet. Com a remuneração vinda de sites como Youtube e similares, as pessoas estão  vidradas em querer chegar o mais rápido possível no objetivo ilusório da fama, da popularidade ou mesmo da riqueza financeira. Isso se torna especialmente danoso quando essas pessoas de fato alcançam essas metas e percebem que é possível ser fútil e ser recompensado com dinheiro, fama ou qualquer que seja o objetivo sonhado pela pessoa. Então, esse sistema incentiva pessoas já enfraquecidas da mente a intensificarem esse modelo de vida. E exemplos não faltam. Recentemente veio à tona o caso de um youtuber que, para conseguir visualizações, apelou para a extrema irresponsabilidade, gravando um vídeo em formato de vlog fazendo sensacionalismo, humor e deboche de uma área no Japão onde costumam ocorrer muitos suicídios. Há algum tempo atrás uma pessoa disparou um tiro em si mesma como forma de “conteúdo” para um vídeo pra internet e acabou morrendo.

Embora a idiotice humana esteja mais evidente nesses casos citados, ela está presente em inúmeras outras situações que talvez sejam menos notadas ou citadas, justamente porque causam menos repercussão social, já que não lidam diretamente com a morte. O ser humano parece ignorar os danos antes que eles se tornem drasticamente um assunto de vida ou morte. Mas você já parou pra pensar em quantas outras coisas “mais leves” essas pessoas já tentaram antes de apelar pra esse tipo de vídeo drástico? Você já pensou no tipo de obstinação que essas pessoas estão, atrás de mais e mais visualizações e lucro, a ponto de ignorar qualquer tipo de valor ou racionalidade, usando a imbecilidade como recurso de pseudo-entretenimento, apenas por saberem que sensacionalismo vazio pode finalmente tirá-las da miséria financeira? Que tipo de mensagem isso passa pra humanidade? Que tipo de pessoas serão formadas a partir desse público assistindo isso?

É fácil perceber que o futuro poderá ser assustador em um mundo onde as pessoas farão qualquer coisa por mais visualizações, mais dinheiro e mais atenção. Se elas já aceitam zombar do suicídio ou arriscarem-se a um tiro de arma apenas para atiçar a curiosidade das pessoas sobre aquele vídeo, imagina no que mais estarão dispostas, quando sentirem a pressão da “concorrência” em uma internet cada vez mais acessível, cada vez mais veloz e cada vez mais rasa. Lembre-se que alguns exemplos são apenas casos pinçados na memória dos últimos tempos e que é difícil mensurar quão mais longe isso vai em termos de quantidade e de má qualidade, mas as estatísticas dessas plataformas de “conteúdo” resumem bem pra onde estão indo a atenção social e o dinheiro. Infelizmente as notícias não são boas.

A privacidade morreu desde que as pessoas decidiram preencher formulários sobre seus gostos musicais, suas marcas preferidas, seus hobbies, seus espaços de trabalho, seus telefones, etc. O Facebook é um imenso compilado da vida de cada membro. A medida em que interagem pela exposição de suas privacidades, removem a última barreira entre elas e os anunciantes. Agora, governos e empresas podem ter, facilmente, informações valiosas pra determinar como manejar o público pra um determinado objetivo. Pode soar como alarmista, mas isso já é feito há muito anos na internet e já existia até mesmo, com menor eficácia, nos tempos de televisão. A internet, infelizmente, conecta o próprio consumidor diretamente com as mídias, fazendo ele se tornar um funcionário eficiente que não só entrega todo seus dados de graça como ainda paga pra fazer isso através das caras mensalidades dos serviços precários de acesso à internet.

Antes da era dos reality shows as pessoas se surpreenderiam de ver pessoas se expondo 24 horas por dia diante das câmeras para um grande público. Foi exatamente essa surpresa que atraiu também a atenção problemática para este tipo de programa nas televisões. O sucesso desse tipo de conteúdo inútil abriu um precedente desastroso pras mídias vindouras na internet. Agora as pessoas podem ter seus próprios reality shows feitos de suas próprias casas. Já não se importam de ligar a câmera e se filmarem almoçando, dormindo, usando o banheiro, viajando, interagindo com parentes. Perceba que a crítica não é para as pessoas que sentem-se livres e à vontade diante dessas atividades a ponto de não se importarem de dividir um vídeo com isso. A crítica é sobre as pessoas estarem se forçando a perder uma privacidade que antes tinham vergonha de expor e agora o fazem estritamente pela pressão pessoal e social de ganhar dinheiro e fama com esse acordo. Cada vez mais se permitem serem pisadas e também de pisar em troca do crescimento das estatísticas dessas mídias. Percebe a diferença?

Eu, por exemplo, não me imaginaria correndo atrás de fama e dinheiro usando minha rotina como ponte. Não é com esse tipo de ação que eu pretendo chegar a mais pessoas ou a algum dinheiro. Sendo bem simplista na analogia, a sociedade atual está fazendo com suas vidas pessoais e profissionais o mesmo que a indústria pornográfica fez com o Cinema: substituíram os roteiros e produções por cenas extremadas de algo que muitas pessoas desejarão ver, não pela qualidade, mas pela curiosidade ou impulso. Aliás, diga-se de passagem, o próprio Cinema fez e faz apelos sexuais para engajar plateias. Imagina quão pior está em mídias que já nasceram sem roteiros ou objetivos consistentes. Me desculpe por relembrar, mas o Youtube já foi palco pra uma pessoa beber água com fezes em um vídeo para viralizar em busca de fama. Se isso não é imbecil o suficiente em todos os sentidos, eu não sei mais o que seria.

Diante de tudo isso que foi dito, ficam algumas perguntas: Até que ponto a privacidade importa? Será que as pessoas realmente valorizam a privacidade? O que sobrará pra desvendarmos se tudo nas pessoas já está exposto de maneira automática praticamente? Quem serão essas pessoas daqui alguns anos, tentando se destacar no meio de outros sensacionalismos extremados? Que tipo de saúde psicológica e física essas pessoas terão debaixo desse modelo de vida que está se tornando tendência internacional? Que tipo de vida pessoal e social essas pessoas terão, se tudo que fazem na intimidade é recheio para o trabalho?

Se tornaram escravas por opção ao trabalhar 24 horas por dia, em condições questionáveis, para gerar um conteúdo dispensável, mas que, infelizmente, outras mentes vazias podem ter disposição de absorver pois vivem como zumbis acorrentados na frente de um celular ou computador. Muitas dessas pessoas já não filtram nem mesmo a privacidade sexual, em um mundo onde a troca dos chamados ‘nudes‘ se tornou tão corriqueira que as pessoas acreditam ser necessário e normal. Acostumadas a se exporem em formulários, interações, fotos e vídeos, chegam a cobrar dos outros que façam o mesmo. Uma triste maneira das pessoas se escolherem entre si com base em estereótipos, rótulos, fotos forjadas e todo tipo de alucinação que figura ao lado da realidade aberta dessas pessoas.

Estamos pulando fases importantes da socialização e da descoberta da vida. Nossas premissas de valor e objetivos estão escorrendo por entre nossas mãos, a medida em que tentamos segurar esse mar de ilusões pautadas em status, dinheiro, poder, aceitação, validação pública, etc. Extremamente danoso, extremamente perigoso, extremamente “humano” nos tempos atuais.

Rodrigo Meyer

Semi-paixões: imaginando relacionamentos.

A mente humana é interessante. Ela proporciona episódios que nem mesmo ela sabe como ou porquê. É o caso das situações que eu gosto de nomear de ‘semi-paixões’. Talvez sejam mesmo um tipo de paixão ou qualquer coisa abaixo ou acima disso. Talvez sejam coisas da mente, do coração, da alma ou um intrincado jogo de química do corpo humano. Independente de onde venham, fico entusiasmado com as ocorrências.

Estes encantamentos brotam, repentinamente, assim que conhecemos alguém que, por alguma razão, nos pareça incrível, especial, empolgante, etc. Mesmo que muitos não admitam, quando somos tocados por essa ocorrência, nossa mente começa a fantasiar realidades paralelas, pensando em como seria, por exemplo, um relacionamento com tal pessoa. Claro que isso não significa que os objetivos e interesses reais sejam de se relacionar com a pessoa, mas ocorre uma liberdade poética da mente de imaginar universos paralelos sobre algo que foi gratificante o suficiente pra ter potencial pra mais possibilidades, mesmo que só imaginárias.

Em um momento você está sendo apresentado a alguém e, quando se dá conta, já passeou por algumas cenas rápidas. Como seria trabalhar junto com essa pessoa? E como seria dividir uma mesa de bar? O que será que essa pessoa diria pra me fazer rir? Qual seria seu tom de voz e seus trejeitos? E seu estilo de roupa, suas manias e seus hábitos? Como essa pessoa seria em um relacionamento amoroso? Será que seria companheira? Seria divertida?

Sim, a mente passeia por fantasias, sonhos e idealizações. Eis o porque algumas pessoas fantasiam até mesmo sexualmente as pessoas que conhecem. A principio, algo natural e saudável, desde que isso não se torne uma obsessão ou algo não consentido. O ser humano, normalmente, está em busca de interações humanas, seja pra amizade, relações sexuais, romances ou até mesmo para dividir experiências em outros campos, como no trabalho, conhecimento, desenvolvimento espiritual, filosófico, etc. Uma vez que temos a capacidade de imaginar, faremos uso em todo contexto em que estivermos motivados, seja por um episódio gratificante ou por um episódio de drama e ansiedade.

A característica principal desse tipo de ocorrência é que somem rapidamente da mente. Deixamos de sonhar, assim que somos levados a um pouco mais de convívio real com esta pessoa, por uma conversa, uma atividade ou mesmo pelo encerramento do contato, de forma temporária ou definitiva. Não se torna uma perda significativa, pois não chegou a ser uma paixão ou uma amizade consolidada. É um relacionamento curto e o mais superficial possível, exceto pelo nosso poder de imaginação. Eis o porquê não é prejudicial.

Acredito que, em algum momento, todos já tiveram algum tipo de vislumbre imaginário sobre uma pessoa ou uma situação da vida. Sonhar faz parte do ser humano, mesmo que alguns se esforcem mais pra controlar isso e voltar pra realidade. Eu prefiro o sonho. Me permito todos esses presentes, pois sei que logo eles se encaminham para onde for necessário. Se forem apenas admirações temporárias, deixam um prazer no histórico e se, eventualmente, se transformarem em algo maior ou melhor, melhor ainda. Não há como levar prejuízo.

Acredito, inclusive, que saímos fortalecidos dessas experiências, pois aprendemos a lidar com a passagem do tempo, com as expectativas iniciais versus a realidade do desfecho. Aprende-se também que o mundo real pode ser demasiado diferente das nossas vontades idealizadas de relacionamento. Aprendemos, então, finalmente, a sermos um pouco mais maduros e responsáveis com nós mesmos, com as pessoas ao redor e em como levamos a temática em geral. A vida se torna melhor na mente, o corpo agradece e a vida se desgasta menos, pois se expõem a menos realidades infrutíferas, menos atritos e menos frustrações desnecessárias.

Quem sabe algum dia eu leve vários desses episódios vividos para relatos em um livro ou outra mídia. Certamente muito do que eu sou se deve a esse histórico de interações que influenciaram poemas, contos, pinturas e até mesmo o desenvolvimento de várias ideias filosóficas e políticas. O grande diferencial humano é poder escolher quem ele quer ser e por qual viés ele quer construir sua realidade. Na imaginação, o campo é infinito e, pra que tudo termine bem, basta que imaginemos um bem para o final. Ciente disso, muita gente revolucionou a realidade, colocando em prática conceitos idealizados no seu mundo de sonhos e paixões. Ao fazermos algo empolgante, nos sentimos motivados o suficiente pra sustentar isso também na realidade. Espero, então, que todo o conteúdo que eu trago, desperte em você essa busca por ação, por mudança ou por mais imaginação.

Rodrigo Meyer

A autoestima das pessoas de mais idade.

Logo de cara é preciso deixar claro que em todas as idades, inclusive entre os mais idosos, existe diversidade, em termos de autoestima, de qualidade de vida, saúde, contextos, etc. Não há como dizer que alguns exemplos isolados retratam toda a comunidade de idosos. Com este texto eu pretendo tão somente despertar o olhar sobre algumas pessoas, alguns episódios e alguns contextos.

Quando eu era criança, olhava para os idosos e me punha a pensar como seriam essas pessoas em suas juventudes. Talvez essa fosse a maneira de tentar desvendar quem eram essas pessoas no momento presente e porque eram de tal maneira. Na maioria das vezes, via idosos com uma expressão de cansaço, um ar sério ou triste. Algumas raras vezes encontrava alguns em condições diferentes. É de se imaginar que o tempo vivido, a condição de saúde e a própria idade avançada em si desse a estes tais características. Mas é preciso dizer, também, que algumas outras pessoas parecem burlar tudo isso, como se fossem mais resistentes fisicamente e/ou mentalmente.

Ouvia que algumas pessoas ‘envelheciam melhor’, como se prolongassem a juventude por mais tempo que a média das pessoas. Sempre achei isso intrigante. Lembro que quando eu tinha uns 15 anos, aproximadamente, vislumbrei uma moça na calçada, em frente a um salão de cabeleireiro. Alguém havia comentado que se tratava da dona do estabelecimento e que já tinha 70 anos. Na época, não consegui tomar como verdade, porque nunca tinha visto uma pessoa de 70 anos com aquela aparência tão jovem. Eu nunca fui bom em distinguir idades, mas mesmo pra mim, foi fácil ver que a aparência não estava nem próxima do número, segundo o que minha mente conseguia pinçar de referências anteriores. Ela era uma pessoa muito ativa, de postura firme, com um andar fluído, um rosto bonito, um olhar marcante. Uma pessoa realmente bonita e, inclusive, atraente. Embora eu não apreciasse o estilo de suas roupas, era fácil ver que, ao estilo dela, ela caprichava em cada detalhe.

Diversos outros episódios similares foram surgindo com o tempo. Várias das pessoas que eu conheci durante os tempos de ensino, eram pessoas entre 30 e 80 anos. Algumas, mesmo com a mesma idade de outras, destoavam na aparência, principalmente pelo semblante. Enquanto algumas pessoas de 40 anos pareciam irritadas com a vida, outras pareciam estar se divertindo. Sorriso no rosto e brilho nos olhos parecia ser o que movia a beleza e jovialidade de algumas delas, enquanto que em outras, as dores e padrões tóxicos as consumia também fisicamente. Começava a ficar claro pra mim que o modo de vida dessas pessoas tinha um peso na equação.

Devido ao meu apreço por pessoas mais velhas pra dividir conversas e interações mais produtivas, eu socializei com muitas dessas pessoas em diversos contextos. E assim eu pude conhecer de perto a realidade de muitas dessas pessoas. Era interessante ver como a autoestima de algumas ajudava a sentirem-se tranquilas e felizes o suficiente pra externar um semblante melhor. E, claro, rendiam elogios entre os mais atentos. Eu notava, inclusive, em como essas pessoas mudavam de postura sobre si mesmas, sobre a vida, sobre o espaço em que socializavam. Parecia que ganhavam uma carga extra de energia para exercer as tarefas do dia ou até mesmo ficavam mais imunes ao stress e as situações infrutíferas da vida e do trabalho. Muito provavelmente, isso as ajudava a retomar um condicionamento físico, refletido, talvez, pelas regulações de hormônios ou algo do tipo.

Com algumas pessoas, por eu não ter conhecido elas em fases anteriores, não sei dizer se foram transformadas para melhor ou se sempre foram daquele jeito. Também não sei dizer se esse padrão de envelhecimento é raro ou se só me parece incomum por eu não ter conhecido um número maior de pessoas. Tudo que sei é que, a autoestima pesa muito na vitalidade do ser humano. Não é preciso dizer que o fator mental e emocional podem levar pessoas a somatizar doenças ou a levar uma vida cercada de hábitos prejudiciais. Uma boa alimentação, atividade física (inclusive o sexo) são fatores impactantes. Não há como negar que essa jovialidade ajuda inclusive a levarem uma vida mais ativa e estimulante, o que as faz manter o vigor, numa espécie de círculo-vicioso.

Do lado oposto, as pessoas com baixa autoestima, parecem alimentar problemas na mente e no corpo. Por vezes, o aspecto pouco receptivo de seus semblantes, a saúde abalada e a pouca disposição, podem repelir contextos prósperos de socialização, atrações físicas ou até mesmo criar um efeito bola-de-neve onde a condição em que se está baixa a autoestima e as faz deteriorar ainda mais a mente e o corpo, chegando em resultados que vão criar mais descontentamento, repetidamente.

Eu tenho 35 anos e adoraria chegar aos 70 anos com o vigor de algumas dessas pessoas que eu conheci. As pessoas ao meu redor comentam, às vezes, que eu pareço ser mais jovem do que a idade aponta. Eu não sei endossar ou negar isso, pois, como eu disse, tenho dificuldade de diferenciar idades e aparências. Conheci pessoas com a minha idade que tinham aspectos melhores, piores, iguais. Eu não sei como é que deveria ser uma pessoa de 35 anos. Me olho no espelho e fico com a impressão de que o tempo não está passando. A única coisa que me mostra o passar do tempo são os pelos brancos na barba, o cruzar dos meses no calendário e o acúmulo de memórias de situações vividas. Não sei se estou envelhecendo bem do ponto de vista físico, mas sinto que vivi bem a minha vida, fazendo sempre coisas incríveis, dando o meu melhor em tudo. Apesar de eu ter boa autoestima, não sirvo como parâmetro sobre o impacto disso na minha saúde física e mental, pois tive um histórico longo de depressão e deterioração da saúde com comida, álcool e sedentarismo. Felizmente tudo isso ficou pra trás há um bom tempo e é perceptível o impacto dessas mudanças.

Há uma obviedade que precisa ser dita: o bem-estar gera bem-estar e como diz a frase célebre, “mente sã, corpo são.”. Ter a mente jovem ajuda demais. O corpo agradece por cada risada sincera e profunda que você deu e por cada estresse que você evitou, quando viveu apontado pra outras direções melhores e mais úteis.

Rodrigo Meyer

[+18] A pornografia está fabricando impotentes.

Uma das coisas mais comuns na sociedade é o sexo. A maioria das pessoas, sob efeito dos instintos de sua própria natureza humana, expressam desejos sexuais como parte da conduta natural. A curiosidade humana por sexo deriva dessa importância, de maneira similar a curiosidade por alimentos que vem da necessidade de saciar a fome. Com o tempo, o ser humano desenvolveu aspectos sociais relacionados a suas premissas fisiológicas. Por conta de uma sociedade curiosa por sexo, algumas pessoas ofertam isso como parte de uma troca de interesses. Dizem, inclusive, que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo.

Na sociedade de consumo, o sexo se tornou não só um serviço, mas um produto. A princípio isso não é um problema, mas torna-se um problema quando a sociedade fica condicionada a se submeter a estes modelos de vida ou atividade por vício, necessidade financeira, violência ou distúrbios outros. É o caso  da prostituição como busca de sobrevivência, o tráfico de pessoas para prostituição não voluntária, os preconceitos, estupros e outros crimes que apontam pra distúrbios psicológicos e sociais.

A pornografia sempre existiu e já teve até mesmo um status sagrado em certas épocas e culturas. Expressões hindus, gregas, chinesas e de praticamente todo canto do mundo, cruzaram pela pornografia como expressão da realidade humana e até mesmo de conceitos correlacionados a espiritualidade e divindade. A cada época superada, parecia que alguns mitos iam sendo quebrados, mas tantos outros iam sendo gerados. Muitos conflitos, muita opressão e muitos abusos, firmaram períodos da História quase como o resumo dessas populações. O ser humano sempre figurou de forma marcante na substituição da racionalidade em detrimento de seus instintos sexuais mal resolvidos, tanto quanto o da violência e agressividade física e verbal.

Haviam tempos onde as pessoas pagavam pra assistir performances de danças em shows de cabarés e similares, como forma de entretenimento sexual. Em outros tempos, poder gastar umas fichas em máquinas para ver fotogramas de pinturas de pessoas nuas ou em trajes íntimos eram a atração da vez. Não tardou pra que a sociedade flexibilizasse ao ponto de lançar revistas sensuais, filmes e, consequentemente, o próximo passo: a pornografia em si.

O sexo, a prostituição e a violência em torno do tema existiam antes da pornografia, mas foi exatamente o status de mídia e produto em série que criaram novos contextos para o sexo. Antes da internet, as pessoas dependiam basicamente da locação eventual de filmes ou da compra esporádica de revistas impressas. Com a chegada da internet, isso se massificou em quantidade e ritmo. As pessoas sentiram que estavam livres pra absorver e compartilhar muito mais material, sem ter a inconveniência do custo e das limitações sociais pra aquisição e uso dessas mídias.

Com a disseminação da pornografia na internet, as buscas por esse tipo de material alimentaram também um gigantesca indústria de anunciantes. A princípio, vendendo qualquer tipo de produto, mas, com o refinamento dos sistemas, filtrando cada vez mais o estilo dos potenciais consumidores que estavam por ali num site de buscas, num blog de fotos pornográficas ou mesmo nos inúmeros sites de vídeos. Essa é a história resumida da pornografia no mundo, mas o que pouca gente sabe é que isso causou e continua a causar problemas no ser humano. Não é o caso de ser simplista de apontar a pornografia como um malefício em si. Não é ela, a princípio, o problema, mas sim como ela é feita e que mudanças traz na percepção de quem a consome e, igualmente importante, as mudanças que traz até no desempenho físico.

O modelo de pornografia disseminado no mundo é baseado em uma objetificação tremenda da figura feminina, como resultado automático de um crescente machismo na sociedade. Dessa objetificação, abriram-se portas para uma exploração financeira gigantesca que satisfaz todo tipo de desejo, todo tipo de pessoa e sexualidade, mas especialmente de homens héteros. Em todo esse material se vê a tendência de transformar o sexo em algo violento, frio, mecanizado e instantâneo. A busca por conteúdos cada vez mais explícitos e diretos, tiram dessas cenas qualquer outro valor ou contexto, resumindo ao espectador a ideia de que sexo é sinônimo de fricção e penetração, basicamente, com ou sem as condições necessárias pra tal.

Não é meu papel dizer com o que você deve se atrair ou se excitar, já que isso está formado em cada indivíduo por inúmeros aspectos prévios, como sua formação pessoal, personalidade, traumas, complexos, genética, hormônios, fetiches, memórias e também todo o contexto social e de interação íntima que se teve. Contudo, mesmo diante dessa grande diversidade, as pessoas estão caminhando para um funil onde são condicionadas a um mesmo padrão de absorção da pornografia, devido a busca incessante por lucros de quem a produz para essa indústria. Este modelo prevê que um indivíduo gerará lucro enquanto estiver interessado por mais e mais. E para manter esse cliente consumindo constantemente, abre-se mão de um perigoso recurso que é de ofertar conteúdos cada vez mais extremos e distantes da realidade fora da internet. É quando cria-se um abismo entre o que ele absorve como ideal virtual e o que ele encontra de ideal no mundo natural.

Diante deste abismo formado, os consumidores de pornografia começam a perceber que, na vida real, o ser humano médio não tem aquele desempenho e aparência, assim como as pessoas não estão exatamente dispostas a se submeter a tais padrões sexuais, violências e fetiches, pois o desejo por pornografia irreal, extremada e violenta foi plantado, artificialmente, como forma de trazer um ‘algo a mais’ que não se encontra na vida real.

Isso faz o indivíduo buscar por fetiches cada vez mais específicos e a se fechar para realidade comum. Querem que o mundo se adeque ao imaginário das mídias consumidas com personagens caricatos, mas como a sociedade não se transforma na mesma velocidade e/ou direção que a pornografia, então o indivíduo pode acabar sentindo-se pouco estimulado com “apenas” sexo. O que antes seria motivo de satisfação garantida, depois de se acostumar com os extremos da pornografia, pode nem mesmo lhe excitar.

Uma grande parte dos usuários de internet consomem pornografia e, dos que chegam aos consultórios médicos e psicológicos, muitos apresentam disfunções sexuais em decorrência da desconexão mental entre sexo “convencional” e pornografia. Cada vez mais, as pessoas estão precisando artificializar a ereção, a lubrificação ou a excitação física e mental para o sexo, através de produtos e medicamentos, pra conseguirem se envolver com disposição no ato sexual.

Essa barreira é reflexo de um modelo de pornografia (ou de toda pornografia em substituição ao sexo natural), que altera aspectos da ansiedade, atração, fluxo sanguíneo, ritmo, contexto e outras questões. O sexo não é apenas físico. Ele ocorre, principalmente, na mente humana. O interesse e a excitação em uma relação sexual natural, depende de fatores subjetivos que são alimentados na mente. Desde o contexto em que as pessoas se conheceram e buscaram por aproximação, as carícias e seus significados pra cada pessoa em cada contexto, a sensação de entrega e interação com determinada pessoa, o compromisso ou a ausência de compromisso, os objetivos silenciosos por trás do ato, o jogo psicológico de um relacionamento não-físico prévio ou paralelo e a possibilidade da fusão entre prazer físico e prazer emocional entre os envolvidos.

Claro que isso não significa que o sexo precise ser sempre algo além de sexo e prazer físico, mas também não significa que não existam esses elementos na equação. Para cada circunstância da interação humana e até mesmo nos contextos onde uma pessoa esteja sozinha, o sexo adquire diferentes possibilidades ou necessidades. Essa é a graça de conseguirmos transpor a restrição de que sexo seja apenas atividade de reprodução da espécie. Até mesmo algumas outras espécies de animais fazem sexo por entretenimento, por assim dizer. Mas, quando o modelo ao qual a sociedade é conduzida atropela tantas liberdades, direitos e dignidades e, de quebra, ainda arruína a saúde sexual, não há muito mais pra onde piorar.

Em 2017 as pessoas dariam risada do que era considerado sexual em outras épocas e/ou culturas. Um tornozelo a mostra ou um decote simples, poderiam ser estímulos suficientes para as pessoas. O que diriam as pessoas dessas épocas passadas se vissem que, nem mesmo com o sexo explícito, algumas pessoas atuais conseguem se excitar? Assim é a mente humana. É ela quem controla a intensidade das coisas que vê, porque o que ela vê depende do que ela interpreta e sente sobre aquilo.

Uma vez que você se acostuma a ver violência e objetificação desenfreada, você se torna menos sensível a tudo isso e a indústria vem e traz algo ainda mais extremo, pra compensar sua insensibilidade. Esse efeito bola-de-neve mantém muita gente em um círculo vicioso de impotência sexual e até mesmo sob risco de depressão diante de uma vida que não o satisfaz como antes, nem mesmo em algo tão bom quanto o sexo. Talvez as novas gerações possam frear isso pra que não sejam vítimas ainda piores de um modelo de sociedade que vende prejuízos para os compradores ávidos, viciados e insatisfeitos.

Países como a Islândia já não ofertam pornografia e estão numa busca paralela para encerrar a pornografia na internet. Em parte essa visão veio como resultado de uma cultura e construção social alicerçada em desenvolvimento humano, educação e conquistas do movimento feminista, desde a década de 60. Se você não controla como interpreta o mundo, acaba sendo levado pelos ventos de quem controlará por você. E na busca por dinheiro, poder e escapes de violência, farão todo o tipo de situação para perpetuarem essas mídias doentias, motivados apenas pelo descontrole e vício, seja em sexo, dinheiro, violência, poder ou modelos de pensamento.

Para muita gente, o sexo é uma das melhores coisas da vida, assim como dormir, rir e comer. Mas, em muitas das coisas que o ser humano adoentado toca, ele destrói o benefício e fica apenas com os prejuízos que ele mesmo criou ou incentivou. É preciso um pouco de noção, percepção de quem se é, onde se está e pra onde se deseja ir. Quem você gostaria de ser hoje? E amanhã? De que forma suas decisões conscientes estão te ajudando a chegar em seus objetivos? E de que forma seus objetivos refletem sua segurança, sua saúde e seu bem-estar em geral?

Rodrigo Meyer