Prosa | O fracasso nosso de cada dia.

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Me cobro todos os dias pelas coisas que acredito que deveria estar fazendo e, por algum motivo, não faço. Me apercebo das minhas falhas, das minhas procrastinações e até mesmo da inconsistência daquilo que consigo produzir. Essa cobrança me faz reavaliar toda a minha vida. Tento descobrir se tenho salvação, se tenho algum talento, se tenho a força necessária pra fazer algo relevante. Mas, ao mesmo tempo, lembro que muito disso não depende de mim. Sei que há um mundo lá fora, cujo sistema ainda é baseado na escassez de oportunidades. É tudo uma questão matemática. Dizem que os prejuízos na vida ocorrem apenas porque acreditamos neles. Mas isso que algumas pessoas dizem não se encontra com dados da realidade.

Recentemente, vi uma notícia que, embora absurda, não me surpreendeu. Dizia que uma moça sem nenhum talento estava, de antemão, contratada por uma enorme emissora de televisão. E pra compensar tudo isso, estava recebendo investimento da própria emissora para ter aulas de atuação, fonoaudióloga e um curso de inglês. Para pessoas como essa moça, vencer na vida não depende de talento algum. Basta que seja da vontade dos poderosos cheio de dinheiro que ela seja sua próxima atriz e eles farão tudo acontecer. Os desavisados poderiam dizer que isso é algo bom, afinal, a emissora está investido em seus funcionários. Mas não se trata disso, pois nenhum outro desconhecido nesse mundo, se não estivesse adequado aos padrões sociais e aos interesses de uma mídia burguesa, elitista, racista e golpista, encontraria espaço para ser financiado em sua carreira. Quantos outros, já com plena formação e domínio no campo do teatro e da atuação em geral, não esperariam, simplesmente, por uma contratação? Quantas pessoas não passam a vida à margem de qualquer oportunidade, apenas porque não são enxergadas como possibilidade? É disso que se trata.

Eu, obviamente, pelo nascimento, já sou aprovado em diversos padrões que o Brasil e o mundo favorece. Sou um indivíduo branco, homem, que, bem ou mal, tive acesso à escola e universidade, não sou o alvo prioritário da polícia, nem vivo sob limitações que são impostas essencialmente pelo racismo. Em um mundo em que as pessoas são separadas por tais critérios, é preciso se apresentar para anunciar os privilégios como abertura de qualquer crítica social que se segue. A vida segue difícil para quase todos, mas, obviamente, segue sempre pior para quem já acorda rejeitado pela sociedade por suas características primárias. Somos uma sociedade que não deu, não dá e não dará, as mesmas oportunidades para pessoas das favelas ou periferias, das etnias rejeitadas por racismo, dos gêneros e/ou características inferiorizados pela homofobia, transfobia, machismo, entre outros. Até aqui, nenhuma novidade. Mas, como essas questões prévias eu já abordei em diversos outros textos e mídias, quero hoje fazer algo diferente, pra falar da minha própria categoria, das minhas características, meus cenários e minhas perspectivas.

Assim como muitos, tento vencer na vida, ter um trabalho, uma fonte de renda, me manter estável, com as contas em dia, sem dívidas, com acesso ao aprendizado, uma internet que preste, os remédios e tratamentos para recuperar meu corpo e minha mente dos estragos que a sociedade e eu mesmo causamos ou deixamos acontecer. Vivo em um contexto onde, apesar da infância simples, consegui algum progresso ou, pelo menos, uma estagnação um pouco mais firme que me impedisse de cair do patamar pelo qual me acostumei. Tive família, tive casa, tive a oportunidade de estudar e tentar trabalhar com aquilo que eu queria. Mesmo que sem incentivo e com o fracasso de várias dessas coisas, ainda posso dizer que foi bom, pois isso é, muitas vezes, bem mais do que possui a maioria da classe trabalhadora. Reconheço, contudo, que essa condição não é segurança, mas, ao contrário, a maior prova de instabilidade. Essa aparente estabilidade é só um degrau ilusório que coloca pessoas pobres um passo mais perto do poder de consumo. Ainda somos explorados, jamais seremos ricos e ainda somos tão dispensáveis quanto qualquer outro que não seja da elite.

Quando falam em classes sociais, costumam citar o exemplo da pirâmide. Mas, eu gosto muito mais de citar um enorme trapézio com uma minúscula esfera em cima, representando a elite, pois a diferença entre o topo do trapézio e sua base é muito mais sutil, tornando-o mais próximo de um retângulo do que de uma pirâmide. Para quem não é realmente muito rico, considere-se dentro do trapézio, mesmo que nas partes mais elevadas. Lembre-se de que a alternância para patamares abaixo é muito mais provável, dado o ângulo de inclinação que se abre em direção à base. Para sair desse trapézio, no entanto, é praticamente impossível. O acesso só acontece no topo e, mesmo assim, o gargalo é bem estreito, filtrando muito poucas pessoas que possam ocupar a pequena esfera da elite. Se tiver dificuldade de visualizar isso em termos práticos, abra seu navegador e comece a procurar por conteúdos no Youtube. Me diga quantos canais você conhece que tenham mais de 20 milhões de inscritos e que possam se dizer realmente ricos? Quantos canais sequer são recomendados pela plataforma, por não terem nem ao menos a quantidade mínima de visualizações? Isso sem falar em quase metade dos brasileiros que sequer tem acesso à internet. Esse é um dos possíveis exemplos do contraste social que vivemos.

A grande maioria da população está de fora das mídias, das boas escolas, das universidades, da televisão, das notícias, dos investimentos, das superproduções, do reconhecimento, dos convites de casamento, das produções culturais, dos grandes shows, das lives famosas no Youtube ou Instagram. Nossas perspectivas de vidas são escassas e podem até se tornarem nulas. Cedo ou tarde, tropeçamos, perdemos nosso emprego, nossos estudos, nossa ilusão de estabilidade, nossos rumos, nossos amigos, nosso mundo, nossa família, nossos sonhos, nossa saúde, nossa condição mental. Ficamos entregues à solidão, ao álcool, às drogas, às noites mal dormidas, ao cansaço, ao descompasso, às incertezas galopantes que amassam nossas histórias e memórias e nos jogam em qualquer abismo. Não nos é dado nenhuma alternativa. Muitos que hoje vivem na rua, já tiveram outra condição de vida. As pessoas não se atentam, não acreditam, não se importam, mas a vida continua a ser a vida e, se não fizermos o bastante, ela nos engole junto com todos ao nosso redor.

Para os que, como eu, vivem de dizer as realidades de um mundo próprio, de um mundo paralelo, de um mundo que, pra muitos, é alternativo, pode ter certeza de que o caminho será sempre amargo. Não haverão créditos, não haverão sorrisos, não haverão apoios ou qualquer mínimo sinal de compromisso com a nossa realidade. Nos querem distantes o máximo de tempo possível. Nossas manias, nossos medos e dramas, são inconvenientes para qualquer um que esteja por cima, em uma situação minimamente melhor. E é triste ver como pisamos uns nos outros, apesar de estarmos tão próximos. Parece mesmo uma briga por espaço, uma disputa para ver quem alcança a melhor parte do lixo. Somos urubus carniceiros, disputando os restos que a elite cuspiu lá de cima. E disputamos com unhas e dentes, com sangue nos olhos, porque tudo nos é tão insuficiente que, qualquer coisa que nos pareça igual ou um pouco mais, nos parece urgente. Mas, caímos todos, por todos os dias, se apedrejarmos as pessoas pensantes, os dignos, os revoltados, os marginalizados, os destoantes. Há quem prefira vestir uma máscara hipócrita e “lamber as bolas” de qualquer famoso que possa lhe abrir as portas, lhe dar uma nota, lhe recomendar, lhe inserir nos seus meios, lhe fazer sentir que é parte do sucesso, mesmo que tudo isso seja falso, só pra impressionar. Essas pessoas, infelizmente, agem assim, para tentar mostrar aos que ficaram pra trás, que agora elas deram certo, subiram na vida e, se continuam pobres, exploradas e oprimidas, pelo menos agora possuem alguma relativa fama, dentro do nicho do nicho do seu submundo na internet, onde elas possam se dizer importantes, mesmo que elas estejam cercadas de gente falsa que fazem o mesmo que elas, pra se sentirem menos merda na vida.

O ser humano parece ter uma tendência em buscar algum reconhecimento e aceitação do coletivo. Talvez isso seja pare do que nos representa enquanto indivíduos sociais, mas sociedades nada mais são que versões maiores das nossas próprias famílias. Não estou dizendo que o sistema imposto na sociedade reflete necessariamente a realidade de cada família, mas que, o caos que a sociedade manifesta é, em última análise, as mazelas não superadas dentro dos grupos familiares menos favoráveis. Muitos de nós foram criados sem muita estrutura, sem afeto, sem presença, sem educação, afogados em preconceitos que desceram até nós de geração em geração, cheio de vícios, medos, traumas, complexos, fraquezas, abusos, incestos, surtos, drogas, loucuras, constantes crises de sentido, de percepção da realidade, de valores, de ética, de construção da nossa suposta maturidade. Quando passamos dos 20 anos, chegamos tropeçando na fase adulta, tento que colocar a nossa consciência inteira em ordem, rever nossa vida toda, encontrar forças em algo e, com muita sorte e escolhas bem feitas, talvez, poderemos ter a chance de nos vermos numa versão nova, reconstruída, mais viva, mais inteligente, mais tranquila e mais esclarecida.

Se habitarmos a fatia dos vitoriosos, nesse sentido, nos veremos livres dos preconceitos que nos plantaram no passado, de todas as dores que nos causaram e das pragas do nosso inconsciente que bloquearam nossa autoestima. Percebe como teremos muito pra superar, vencer, ter sorte e sobreviver? Só seremos alguém minimamente possível de iniciar uma vida digna quando realmente nos dermos conta de que não estivemos e ainda não estamos nessa condição. Haverá de se fazer uma busca, uma reforma, uma demolição e uma reconstrução do nosso próprio ser. Que desperdício de tempo e de energia, alimentar uma sociedade que nos explode de dentro pra fora e depois de fora pra dentro, pra que depois, alguns poucos entre nós, tenha o necessário pra farejar o caminho da reconstrução do que nunca sequer deveria ter sido destruído. Nossas famílias são granadas ativadas, prontas para explodir a qualquer momento. Todos os segundos dessa longa vida, milhões de pessoas serão deformadas e reduzidas à nada, simplesmente porque alguém igualmente destruído resolveu ter a própria família. Ter filhos em um mundo assim despreparado, só não se torna totalmente inaceitável, porque, apesar de todos os danos que são replicados e potencializados, ainda somos todos vítimas de um mesmo sistema que nos joga pra essa condição e depois se recusam a se compadecer dos efeitos nocivos. Tudo que fazem por essa massa de pessoas é colocá-las umas contra as outras e todas sempre debaixo da mesma elite. Assim nos vigiam, nos controlam, nos tratam como números, nos ofendem, nos inferiorizam, nos estupram, nos batem, nos exterminam.

Eu me vejo saturado das minhas quatro décadas de vida. Olho pro meu passado e, por mais que tudo esteja devidamente mastigado, absorvido, compreendido e, de certa forma, superado, não há em mim nenhuma forma de comodismo, de aceitação ou a ilusão de que eu estou completamente renovado. Não estou sequer feliz, nem me sinto digno. Me sinto fracassado, como todos os outros deveriam se sentir, ao verem que estamos todos aqui apenas rastejando por um dia à mais, sem nenhuma certeza de que teremos vontade de ficar pra, quem sabe um dia, voltar a sorrir. Estamos sim em números absurdos de desistentes, alcoólatras, viciados em remédios e outras drogas, afundados em crimes, desempregados, entregues à depressão ou ao suicídio. Se recusam a falar da realidade, apostando simplesmente nos tais “números oficiais” que, todos nós sabemos, não falam absolutamente nada sobre a realidade debaixo deles. Os “números oficiais” escondem, por exemplo, todas as vítimas de violência doméstica que nunca foram contabilizadas em planilha alguma, simplesmente porque nunca chegaram ao ponto da denúncia ou, quando foram denunciadas, as autoridades, simplesmente, não apareceram. Os “números oficiais” não registram todas as pessoas infectadas ou mortas na pandemia, simplesmente porque, além de não haverem testes em massa, a verdade não convém a quem nos explora dentro e fora das mídias. Os “números oficiais” são igualmente inúteis quando tentam falar de casos de depressão, ansiedade e suicídio, em uma população que sequer tem informação ou atendimento pra isso. São milhões de pessoas que, apesar de não pularem de cima de um prédio, se matam por overdose de drogas, por cirrose alcoólica e diversas outras formas de se abreviar a vida. Os números não mostram pessoas que jamais foram entrevistadas, nunca passaram por médicos ou clínicas psiquiátricas, mas que estão deprimidas todos os dias, andando pelas calçadas, sentadas nos bares, deitadas nas beiras das camas, mudando pra outras cidades e desaparecendo de qualquer presunçosa planilha.

É difícil pra muita gente admitir que nada vai bem. Lhes parece muito mais cômodo, talvez, acreditar que seus pequenos ilusórios sucessos são suficientes para justificar toda a sua vida. Se possuem comida e um teto, já nem precisam mais se lembrar das vezes em que ficaram sem saída, sem trabalho, sem dinheiro, sem companhia, sem risada, sem conversa, sem sexo, sem nenhuma alegria. Se não podem estudar, ao menos, podem se gabar de terem sido exploradas em um subemprego que lhes tirou 10 ou mais anos de suas vidas. Se a família é incompleta, desajustada ou sem espaço para poder chamar de família, ignora-se tudo, chora-se no travesseiro, debaixo do chuveiro, em vídeos temporários no Instagram ou Youtube e fazem de conta de que o mundo ainda é apenas um pouco difícil, com seus altos e baixos, mas nada que uma vida inteira jogada no lixo não possa resolver. E, claro, os “números oficiais” também não vão contabilizar quem leva uma vida inteira pra se “suicidar”, pois morte “natural” ou acidental no final da vida, não conta. Para muita gente, está tudo normal, dentro do possível, algo que, pra mim, soa tão absurdo quanto aquela expressão “o novo normal” que querem nos fazer engolir nessa pandemia mal resolvida.

Para toda a população, exceto as elites, toda a vida é uma grande mágoa, uma enorme ferida não cicatrizada e uma dor que, se não incomoda à todos da mesma forma, é porque em alguns ela já doeu por tanto tempo, que se acostumaram. Para um fumante, sua própria roupa não cheira nada diferente, porque esse cheiro já faz parte do que ele sempre sente. Para o alcoólatra, a resistência do organismo ao álcool o torna mais disposto a beber grandes medidas. Assim é a vida pra muita gente, onde os vícios alteram a percepção de tudo. A realidade dos nossos fracassos, nossas situações, por mais reais e óbvias que sejam, passam por nós como se fossem um pouco de água adicionada numa piscina cheia. Sabemos que ela foi despejada, mas é tanta água anterior, que preferimos ignorar do que tentar separar um pedaço da vida de toda nossa vida. Nossa vida é uma sucessão de fracassos e, talvez, por isso mesmo, é que muita gente prefira não cutucar a estrutura pra tentar remover. Se limparmos todo o lixo da nossa vida, o que é que sobra? Talvez, nossas vidas, assim como esse duradouro sistema de sociedade e a própria humanidade, sejam as colunas centrais que sustentam tudo que somos. Remover o lixo, pode colocar toda construção abaixo. Clarice Lispector dizia algo semelhante. E me parece bastante verdade. Somos completamente frágeis, tentando demonstrar alguma força. Mas, nossos medos e nosso instinto de sobrevivência nos transformam, entre outras coisas, em pessoas mais covardes, mais passivas e mais medíocres, devo dizer.

Esse texto não vai te tornar saudável, rico, conhecido, famoso, estável, feliz, digno, livre, corajoso ou qualquer coisa que te coloque pra cima. Esse texto, infelizmente e provavelmente, vai apenas te fazer ver que, muitos de nós estamos numa densa lama, vivenciando erros, momentos grotescos e fracassados, dramas, doenças, descompassos, desconexões com a realidade, injustiças, guerras, pressões e uma infinidade de contextos desnecessários. Não podemos escolher o que ser, o que fazer, o que ter e onde estar. Tudo que temos é esse enorme trapézio, abarcando toda a população como uma massa amorfa, sem personalidade, sem destino, sem rumo, sem dignidade. Para os que estão na base do trapézio, tudo parece muito pior, porque a ambição de quem não tem nada é ter qualquer coisa. Mas, um dia todos eles descobrem que estão compactados como massa onde o único verdadeiro contraste é entre os exploradores e os explorados. Não acordar pra essa simples questão é incentivar que tudo se perpetue do jeito que está. Eu não aceito isso. Que fiquem pra trás os que não quiserem lutar comigo, mas eu não aceito a continuidade desse mundo sob os termos de até então. Que venham outros dias, outras sociedades, outros mundos, por um milagroso insight na consciência ou pela força pesada da revolução.

Enquanto isso me afogo em uma porção maior de álcool, em noites mal dormidas, em horas intermináveis de tédio, olhando os trabalhos passarem bem longe das minhas mãos, sem saber o que farei no dia seguinte, pra não mais depender da ajuda altruísta de quem quer que seja. Quero apenas recomeçar meus dias, longe daqui, de volta ao meu próprio trabalho, pra eu sentir que ainda sou gente, tenho vida, que não sou apenas um número ou, pior que isso, um invisível que nem chega a ser contabilizado. Quero voltar a ser independente, mas de um outro jeito, onde o esforço que eu faço pelos meus dias, pela minha tranquilidade, pela restauração da minha saúde mental e física, dê resultados. Quero viver em uma sociedade onde eu não seja só mais um amontado numa abstração. Quero ser tratado pelo nome, não pelas aspas de qualquer outro que nunca se deu ao trabalho de conhecer meio porcento da minha vida. Quero falar e ser ouvido, quero escrever ou fotografar e ser visto, quero conversar de igual pra igual e ser entendido, quero aprender algo novo, ser aceito, ter espaço na sociedade, socializar, ser recebido.

Enfim, quero tudo o que, provavelmente, nenhum de nós vai ter, à menos que se renda à um nefasto jogo de farsa e fama, onde os mais fracassados sempre bajulam os de cima, apenas porque gostariam de ser com eles um dia ou de tirarem algum proveito em suas companhias. Isso eu não quero. Meu mundo é infinitamente mais sincero. Pra mim, pessoas são só pessoas, por mais incríveis que sejam os seus talentos e pensamentos. Pessoas encarnam, defecam e morrem, como todas as outras e tudo que eu quero é lidar em pé de igualdade, porque, a princípio, somos todos seres humanos. Na minha concepção de mundo só não tem espaço pra fascistas e outras escórias. De resto, não me importo com a hierarquia ilusória, as disputas de ego ou qualquer realidade vazia.

Não importa o quanto eu grite, ninguém vai me ouvir. Vão apenas julgar, ignorar e seguir os dias como se nada tivesse acontecido. Já ouvi muita gente dizer que preferiram não tentar ajudar, porque não saberiam o que dizer ou fazer. Pois eu digo que se não for só uma mentira pra justificar o fato de que não se importam, é, pelo menos, um enorme erro. Toda participação importa pra quem já está afundado há tanto tempo. Não interessa se você não tem todas as ferramentas pra mudar a vida de uma pessoa, pois isso nunca estará em questão. As pessoas profundamente afundadas querem, apenas, que alguém divida o tempo com sinceridade. Querem, simplesmente, sentirem que ainda fazem parte, que ainda são gente, que podem ser alguma coisa diferente. Então, permita que essas pessoas possam, pelo menos, sonhar. Se você aniquila qualquer mínima possibilidade na mente dessas pessoas, você garante, de todas as formas, que a realidade dessas vidas serão reduzidas à pó. Você não precisa ser um especialista pra se importar por alguém. Basta que seja verdadeiramente humano, que tenha empatia e que se interesse de dividir um pouco mais de dignidade com qualquer outro que esteja anulado nessa vida. Talvez, muitos de vocês também estejam igualmente destruídos e por isso possam preferir não somar dois mundos parecidos, acreditando que isso possa piorar. Mas, um ditado alemão diz que “uma dor dividida é uma dor amenizada.”, similar à um provérbio sueco que diz: “Alegria compartilhada é alegria em dobro. Tristeza compartilhada é tristeza pela metade. “.

Apesar desse texto amargo, pesado e cheio de apontamentos difíceis de engolir, quero que vejam isso como uma cobrança, um desabafo, uma maneira de eu colocar pra fora minhas frustrações e fracassos e meu desprezo pelo sistema miserável dessa e de outras tantas sociedades que me consome a cabeça todos os dias. Quem sabe amanhã ou daqui uns dias, com um pouco mais de álcool ou vontade, eu deixe temas melhores, mais divertidos, mais esperançosos. Mas, cada uma das pessoas desse mundo também precisa fazer sua parte nesse processo e abandonar certos padrões e condutas. É difícil viver em uma sociedade que sempre nos cospe e nos bate, mas nunca querem nos ver melhorar, não nos falam verdades, nem nos fazem pensar. Ficam apenas se venerando por entre as máscaras de fachada, sustentando bolhas de ilusão que não favorecem à ninguém ter duas vírgulas de dignidade, originalidade, verdade, espaço e aceitação. Às vezes as pessoas não mostram quem são de verdade, porque, com a fachada da falsidade, se sentem menos horrendas, mesmo que todos ao redor, cedo ou tarde, percebam a ficção. Sejam de verdade, sejam pessoas espontâneas, sejam pessoas que admitem seus fracassos, suas mazelas, seus medos, seus traumas, suas “pisadas de bola”. Desçam do salto, olhem pro lado, vejam outros humanos igualmente perdidos, estendam a mão, dividam o tempo e sejam decentes sem perder a sinceridade.

Não aguento mais olhar pra esse mar de gente que fez da internet um resumo e um sinônimo de toda a vida, quando não se lembram sequer que, do outro lado da tela, existem milhões de pessoas que possuem outras infinitas realidades pra somar, mas que são rejeitadas por gente preconceituosa e mesquinha que acha que sua bolha é tão seleta e divina como aquela minúscula esfera de elite em cima do trapézio social. Eu quero é mais. Eu não vivo pra brincar de carniça, nem pra perder tempo com gente que só é contra o sistema enquanto está por baixo e, na primeira oportunidade de surfar na crista, vai pisar em todos abaixo, tal como fizeram inúmeros outros dentro e fora da mídia e da política. Mudança não se resume à status social ou progressão financeira. De que adianta ter fama e poder de compra, se a cabeça continua a pensar da mesma maneira? A mudança real deriva de um sentimento, um pensamento sobre um modelo de vida ideal, onde as pessoas não sejam simplesmente números numa equação. Sempre que as sociedades trataram pessoas como números, o resultado foi desastroso, gerando episódios históricos de racismo, xenofobia, fascismo, guerra e extermínio. Em casos extremos, foram exatamente os números que viabilizaram, na segunda guerra mundial, o holocausto e outras situações abjetas. Se, ao contrário desses, quisermos fazer uma mudança legítima e digna, precisamos dar legitimidade e dignidade às pessoas. As mudanças na sociedade serão o que as pessoas forem. Construam pessoas melhores, se quiserem um dia verem sociedades melhores, antes ou depois das revoluções.

Rodrigo Meyer – Author

A complexidade de tudo.

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Quando refletimos sobre um assunto qualquer, a primeira impressão é, quase sempre, a mais equivocada possível. Para exemplificar isso, vou fazer uma analogia. Se um indivíduo leigo olha para o céu noturno, ele pode se aperceber da presença do nosso satélite natural, a Lua, e ter a impressão de que o que vê é suficiente. Ao erguer sua mão, aqui da Terra, a Lua parece, facilmente, caber na palma da sua mão. Mas, se esse indivíduo se aproximasse de fato da Lua, ele iria perceber, à medida em que avança, que ela se tornaria substancialmente maior, até o ponto em que, mesmo ainda sem pousar em sua superfície, já seria impossível mantê-la inteira em sua mão. Ele se daria conta de que existe uma relação entre aparência, tamanho real, distância e/ou localização do observador, que transforma, visualmente, o objeto observado conforme cada combinação desses fatores todos. Assim, ele entenderia que objetos enormes, quando vistos de muito longe, parecem pequenos. E que aquilo que parece não abriga o total da realidade de um objeto, cenário ou evento. Faz-se necessário uma aproximação daquilo que se pretende observar e entender, assim como comparações entre o que já se conhece, para traçar uma regra que realmente faça sentido. Em resumo, observar e entender a realidade exige um conhecimento mais profundo que vai além das aparências, das primeiras impressões, etc.

Citada essa analogia e as devidas conclusões, imaginemos isso pra outras áreas, como o entendimento de pessoas, sociedades, ideias, ideologias, conjunturas políticas, econômicas, questões de saúde, relações culturais, a psicologia por trás de cada pessoa ou evento e tudo o mais que quisermos entender de verdade e não apenas nos aplaudirmos pelas nossas primeiras impressões, deduções rasas, equívocos e preconceitos.

O Brasil é um país em que, segundo os dados estatísticos apresentados na última notícia que li há um ou dois anos atrás, tinha cerca de 73% da população figurando na condição de não leitores. Pra piorar essa situação, o desgoverno atual, em 2020, está propondo a taxação adicional de livros. Ou seja, um país que já tem uma bruta crise econômica, com a maior parte da população vivenciando a pobreza e outros tantos retornando para linha abaixo da pobreza (a miséria), agora completa seu plano de devastação, barrando o acesso aos livros que sempre foram caros no Brasil, tornando-os ainda mais inacessíveis. Uma maneira eficiente de cortar o acesso da população à informação e cultura, na tentativa de remover o senso crítico. Os efeitos disso em médio e longo prazo, permitem uma destruição tal do intelecto da população, que, facilitaria e muito a disseminação de fake news (notícias falsas) ainda piores e de um empobrecimento do debate das questões sociais e pessoais, simplesmente cortando o raro acesso à qualquer área de assunto.

Nos últimos 5 ou 10 anos, o Brasil teve diversas livrarias fechadas, simplesmente porque não se sustentaram mais pela pouca demanda. Muitos autores, literalmente, passam fome com aquilo que recebem de direitos autorais ou de suas tentativas de monetizar suas carreiras em quaisquer outras plataformas. Já não haviam muitos leitores por conta da precarização da Educação e da sociedade em geral e pelos preços elevados dos livros que, muitas das vezes, tem tais valores justamente pra compensar a escassez de consumidores e tentar manter o lucro. Porém o efeito disso é o inverso. Quanto mais caro é o livro, mais inacessível ele se torna para a maioria das pessoas e, portanto, menos interesse essas pessoas terão em se aproximar desse universo. Por mais que você instigue nas pessoas o interesse pela leitura, se ela não puder comprar os livros, ela acaba se afastando desse meio.

Na minha infância, eu não tive condições financeiras de investir em livros e o pouco contato que tive foram com livros antigos que meus pais mantinham em casa, sem nunca adicionar itens novos. Os livros que estavam disponíveis para serem lidos eram, geralmente, informações obsoletas, formatos que resumiam conhecimentos gerais mal compilados ou alguns romances que pareciam ter sido escritos em outro século. Aquele típico conteúdo que a maioria dos sebos recusaria de receber mesmo se fosse doação. As raras exceções eu fiz questão de pinçar e preservar.

A televisão, naquela época, era puro entretenimento barato, feito pra ocupar o tempo e encantar adultos e crianças com a chegada das telas coloridas. Jornalismo, muitas vezes, era tão informal e desnecessário quanto é hoje em dia na maioria das mídias ou até mais. Internet não existia e revistas e jornais impressos eram, quase sempre, usados pra forrar o chão contra urina de cachorro e embrulhar objetos na mudança. Assim, olhar pra realidade lá fora era a mesma coisa que ver a Lua e deduzir que ela era pequena o suficiente pra caber na palma da mão. Tínhamos a percepção equivocada de que tudo era simples como pareciam para nossas cabeças desinformadas. Ter crescido curioso foi uma combinação de fatores improváveis. Neste sentido, posso me considerar a pessoa destoante na família. Enquanto descartavam a cultura e informação como se fossem puro lixo, eu tentava preservar e absorver aquilo que encontrava de novo, que me parecesse mais complexo, ter mais camadas de realidade ou significado.

Por uma imensa sorte do acaso, eu cheguei a ter condições de comprar alguns livros pra ampliar minha realidade nos assuntos que eu me sentia mais envolvido. Adorava ler e escrever, mas se eu levasse um caderno de anotações pra viagem em família, isso se tornava um ponto negativo aos olhos dos outros, em especial o meu pai. Na cabeça de quem tem o espírito amargo e a cabeça vazia, raciocinar era quase um crime. Como esperar que desse cenário de ignorâncias geradas e incentivadas, pudesse nascer qualquer melhoria nas condições de vida, na percepção da realidade? Fica óbvio perceber que essas pessoas replicavam um padrão de ignorância e distanciamento da informação, de geração pra geração. Sair desse redemoinho destrutivo me exigiu curiosidade nata acima da média, um esforço gigantesco para me conectar com pessoas e conteúdos que pudessem me tirar da ignorância e a minha constante ajuda à mim mesmo em favorecer esses momentos através de, por exemplo, conversas com professores, contato com pessoa de bairros vizinhos, filtro sistemático dos conteúdos da televisão e aumento da prioridade de se pagar internet, por mais lenta e rudimentar que fosse. Também não foram poucas as vezes que tive que abarrotar meus colegas com perguntas sobre tudo o que eles já sabiam mais que eu sobre determinado assunto.

Muito do que eu conheci começou, literalmente, a partir de verbetes no dicionário e, então, buscando quaisquer referências sobre aquilo em qualquer lugar. Às vezes eu simplesmente lia a enciclopédia saltando de um verbete pra outro, conforme os assuntos que eram apresentados durante o texto. Se não haveria ninguém pra me incentivar a conhecer mais da realidade, eu teria que fazer isso por mim mesmo. Mas, ainda hoje, eu não sei dizer qual foi o fator propulsor dessa vontade e conduta. Eu poderia ter me acomodado na ignorância ao mesmo modo que outras tantas pessoas ao meu redor, mas algum fator, que ainda me é desconhecido, me levou à um desfecho diferente. Pra não cair na mesmas deduções rasas que eu evito, eu preciso olhar pra isso e tentar ver mais de perto. De longe, a primeira impressão sugere alguma característica especial nata, mas o que é que encontramos depois disso? Ainda não tive a oportunidade de me aprofundar nessas questões, mas conheço diversos outros casos em que as pessoas destoam da tendência de seus meios de convívio, dos padrões estabelecidos na família, na escola, na sociedade, no trabalho, etc. Sei, claro, que pessoas são diversas, mas nem sempre sei o que gera cada característica e contexto de um indivíduo sob essa tal diversidade.

Quanto mais eu aprendia sobre diversos temas, mais eu percebia que precisava entender melhor da composição das sociedades, das famílias, das relações, da psicologia por trás de tudo isso, das questões políticas, da História e, talvez, principalmente da própria antropologia, da biologia e de tudo que pudesse explicar a constituição do ser humano. Qualquer oportunidade que eu tinha de viajar, mesmo que fosse pra uma cidade ao lado, eu aproveitava cada segundo. Pra mim, observar a realidade era a principal ferramenta que me permitiria raciocinar à fundo aqueles temas, mastigando novos livros, novos blogs, novos artigos na internet. Visitei muitos sebos, aprendi idiomas, assisti muitos filmes. A internet me salvou, por muito tempo, da falta de esperança. Eu achava que, com o suporte dela, eu entenderia boa parte do mundo, incluindo os livros que poderia comprar a partir dela. Visitei livrarias e tive até a possibilidade peculiar de conhecer donos de editora e autores dos mais variados segmentos e estilos literários. Mas, nada disso me deu o que eu realmente precisava. Faltava nessa equação algo que me desse firmeza naquilo que eu aprendia. Eu que sempre fui autodidata, sinto muito orgulho de ter aprendido tanta coisa sem depender dos sistemas de ensino que eu tanto criticava. Pra mim, o distanciamento da escola e da faculdade, era visto como algo saudável. Porém, era conveniente para meus objetivos na vida, que eu os aturasse pra poder concluir formalmente essas etapas e ser diplomado. Terminei a escola e fiz faculdade, mas me decepcionei muito com a quantidade de tempo investido com pessoas que, infelizmente, nem sempre sabiam o que estavam fazendo ali. Algumas figuras, ganhando rios de dinheiro, chegaram a replicar inverdades baratas enquanto “ensinavam”. Isso só reforçou o meu desapreço por esse sistema de ensino, o modelo social que empurrava gananciosos ignorantes para cargos de professor ou mesmo para a execução dessas profissões todas em outros ambientes.

Por tudo isso que citei, fica fácil ver que o entendimento de qualquer assunto não esbarra só na falta de acesso aos livros ou à escolas e universidades. Em muitos dos casos, mesmo depois de percorrer esse imenso labirinto que, apesar de falho ainda é um privilégio, chegamos tropeçando na verdade. Como é que vamos aprender sobre o mundo, se nem os “profissionais” dedicados às suas especialidades, conseguem nos entregar, pelo menos, a verdade? Temos, então, que aprender a aprender. Temos que filtrar quem é que tem um ensino decente, um respaldo sincero de conhecimento, de intelectualidade, um aprofundamento técnico sobre o assunto e os detalhes em questão. Depois do bacharelado nas universidades, as pessoas podem seguir inúmeros outros níveis de especialização até que possam dominar com mais firmeza uma pequeníssima fatia do conhecimento. Enquanto o generalista entende superficialmente sobre tudo, o especialista usa do conhecimento abrangente como plataforma de salto para dentro de um detalhe. Só assim é que se consegue absorver a complexidade de determinada coisa.

Quando iniciei meus estudos de Fotografia lá pelos 20 anos de idade, eu já tinha contato com diversas outras artes e áreas de comunicação como a escrita, a pintura à óleo, a música (piano, teclado e órgão), mas nunca havia me sentido tão conectado com algo como foi com a Fotografia. Ela se tornou extensão de mim e por quase 20 anos eu desenvolvi essa atividade. Da mesma forma que o acesso à literatura foi escasso na minha infância, a Fotografia me parecia uma realidade de outro mundo, quando eu comecei. E de fato, ainda hoje, percebo que existe uma escassez de demanda por ela em toda a sociedade e que essa escassez foi reforçada com a chegada da internet. Assim como os programas de televisão e noticiários eram rasos e pouco profissionais, a Fotografia, nos últimos 10 anos, pelo menos, se transformou, magicamente, naquilo que ela não é: registro de imagens. E dizer isso para uma sociedade que está convicta da “verdade” que só é verdade na cabeça delas, é a mesma situação de tentar mostrar que a Lua, mesmo parecendo pequena, não cabe na palma da mão. Esse contraste entre a percepção superficial e o real conhecimento de algo é algo que gera um atrito social que desgasta demais as pessoas envolvidas. Se por um lado o leigo que acredita ter a verdade se sente incomodado com a crítica, por outro lado há quem domine o assunto e se sente incomodado com a destruição da verdade, de uma profissão, de uma possibilidade de existência e atuação.

Imagine você, por exemplo, que, da noite pro dia, começassem a propagar a ideia de que livros são simplesmente pesos de porta e nada mais. Imediatamente veríamos escritores e professores revoltados, tal como se tivessem dito para um astrônomo que a Lua não passava de um pequeno objeto menor que a palma da mão. Vivemos numa era de ignorância e, pior do que isso, numa era em que se incentivam as ignorâncias. Embora pareça cômico e exagerado as analogias feitas, na vida real, no cotidiano, em diversos outros assuntos as pessoas agem de igual maneira, tirando conclusões absurdas sobre algo que elas não entendem de fato. E pra onde caminhamos com a predominância dessa cultura? Vamos para um obscurantismo cada vez maior, perdendo qualquer chance de dignidade humana, pois onde o conhecimento é desmerecido em detrimento do avanço da ignorância, o mundo se torna não só mais raso, como mais incompetente para resolver todos os pequenos problemas pessoais ou coletivos. Esse é exatamente o cenário que fomenta mais pobreza, mais doença, mais miséria, mais estelionato, mais preconceito, mais golpe, mais violência, mais desesperança, mais guerra e mais desconfiança. A idade das trevas não levou esse nome por acaso. Hoje vivemos um obscurantismo talvez ainda pior, se considerarmos o ano em que estamos e os supostos avanços tecnológicos e sociais. Se tudo que temos em ferramenta não for utilizado para nos tornar pessoas melhores, mais livres e mais cultas, de nada terá servido. É por meio da lapidação do indivíduo que conseguimos remar na direção contrária do obscurantismo. Quando cada um de nós se recusa, individualmente, a endossar o retrocesso, formamos um coletivo que trabalha numa mesma direção. É esse coletivo que nos garante, apesar das diferenças, chegarmos em alguns consensos em benefício de todos nós.

A complexidade da vida passa, com toda certeza, pela complexidade do indivíduo. Enxergamos somente até onde nossa visão alcança. A complexidade das coisas muda conforme mergulhamos mais à fundo nelas. O indivíduo raso pode ver a vida como algo simples, mas aquele que se presta a ser um pouco mais curioso e estudado, logo descobre que nada na vida é tão simples como parece. As pessoas dedicam anos e mais anos de muito estudo, vivência e testes em todo tipo de área do conhecimento, incluindo o conhecimento do próprio ser humano, da mente, da Psicologia, da Educação, da Sociologia, etc. Um mundo que pretende ser mais fácil de ser vivido precisa, antes de tudo, priorizar que o maior número possível de pessoas sejam alfabetizadas e, mais do que isso, que aprendam a ter pensamento crítico e curiosidade por todas as coisas. Quando isso estiver arraigado dentro de cada ser, aí teremos uma sociedade vitoriosa que fará questão de eliminar a fome, a pobreza, as injustiças sociais, enquanto avança com eficiência no desenvolvimento tecnológico e cultural. Uma sociedade só se torna realmente emancipada, quando ela intenciona a qualidade de vida de seus membros, à começar pelos direitos mais essenciais de acesso à sobrevivência digna, o conhecimento e uma perspectiva de futuro.

Muitos dos que me leem aqui, provavelmente já sabem que eu tenho histórico de depressão. Tenho essa condição há muito tempo, mas, felizmente, estou tendo uma fase boa nas últimas semanas. Ter esse contato com a depressão por tanto tempo me fez perceber o quanto ela me privou da esperança por dias melhores. Então, uma sociedade que priva as pessoas dessa esperança, está, basicamente, causando um dano similar ao da depressão. Mergulhar pessoas num cenário onde elas sintam que não possuem mais espaço nessa sociedade ou nessa vida, é uma maneira de matá-las de dentro pra fora. Mesmo quando eu tenho picos de melhora da minha condição, eu sei que o mundo continua igual na maioria dos países. A crise social, política, ética e humana é proposital na realidade de quem exerce suas psicopatias para extrair lucro fácil e imediato de pessoas exploradas em situação precária de vida, sem sentirem o menor remorso por isso. Nada disso deveria ser novidade pra qualquer pessoa hoje em dia. Porém, na prática, há pessoas qua ainda insistem em abraçar seus próprios algozes porque, infelizmente, elas também gostariam de estar nesses postos se assim pudessem. Como disse Paulo Freire, “Quando a Educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”.

Aquele que não tentar desviar da agenda de idiotização das sociedades e desgovernos, estará fadado a viver em uma realidade potencializada para a destruição, para a infelicidade, para a dor, a violência, a indignidade, a falta de esperança, a extinção de qualquer fagulha de conhecimento que possam salvá-los das mazelas e dos acasos. Sociedades altamente evoluídas já se formaram no nosso mundo e, não foi preciso muito tempo pra que elas se degradassem e sumissem do mapa. Cazuza cantava “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”. Assim tem sido a humanidade com suas eras de destruição e ignorância tentando se reconectar com tecnologias e conhecimentos que já foram extirpados. Haverá um tempo em que as pessoas descobrirão novamente a Fotografia, o Jornalismo, a Política, e diversos outras áreas do conhecimento que hoje parecem tão artificiais e imprestáveis, que, talvez, nem devessem mais carregar os mesmos nomes originais. Na maioria dos países, as sociedades se tornaram qualquer coisa, no pior sentido do termo. A pessoas não só ses mostram racistas, fascistas e golpistas, como chegam a falar abertamente sobre tudo isso com profundo orgulho. Essas pessoas se tornaram aquilo que o mundo fez delas, ao deixá-las apodrecer na mais profunda miséria ética e intelectual. Ninguém que tenha estudado o mínimo sobre a realidade do mundo, aceitaria se deturpar de forma tão imunda, para extrair benefícios tão ilusórios. Só mesmo a psicopatia aliada ao apodrecimento da alma e do intelecto, podem explicar os rumos que o mundo tem tomado todo dia.

A pequena ponta do enorme iceberg que vemos já cheira podre o suficiente para odiarmos todo o resto. E quando pudermos observar a magnitude da origem de todo esse iceberg, nos especializaremos nas inúmeras questões imundas que são compostas das pessoas e ideias mais abjetas possíveis. Não existe beleza depois de certa profundidade na merda. É só falta de perspectiva, sufocamento, nojo e revolta. Esse caminho terá que ser percorrido em algum momento, pois como ele foi ignorado por tantos séculos ou até milênios, acumulou-se o suficiente pra que a maior parte dele se tornasse completamente intocada e desconhecida, mas que, pela ponta em que estamos vivendo hoje, sabemos que é nossa origem e que, por isso mesmo, precisaremos aprender tudo sobre ela se quisermos ter alguma chance de desvendar a complexidade da humanidade, da vida, do momento presente e nossas reais alternativas para o futuro. Ignorar esse nosso desconhecimento sobre o mundo só nos coloca em posição ainda pior, dando tiros cada vez maiores em nossos próprios pés. Ou você faz o necessário pra ajudar a si mesmo, ou estará eternamente lutando contra a maré e fracassando dia após dia, ano após ano, geração após geração. Qual é o presente e o futuro que você quer construir? A resposta pode ser tão simples quanto dizer ‘melhor’ ou ‘pior’, pois seja lá quais forem as ferramentas escolhidas para isso, a ignorância e a falta de aprofundamento no conhecimento jamais darão a solução pretendida. Ou você é do time que acredita equivocadamente que a Lua cabe na palma da sua mão ou você é do time curioso que se propõem a estudar além das primeiras impressões.

Veja, eu não estou dizendo o que é que você tem que estudar ou qual caminho ou sistema de ensino deve escolher. Estou apenas dizendo que você precisa se aprofundar no conhecimento de algo, ao invés de fingir que sabe e se contentar com isso. Na pior das hipóteses, se você não quiser dedicar sua vida ao estudo, você pode, pelo menos, dar espaço para quem faz isso, apoiando alunos, professores e profissionais que dedicam tempo nos assuntos com seriedade. Dar esse espaço significa que você, pelo menos, está favorável ao conhecimento e a melhora do mundo. Basta que você não seja uma pedra no caminho e já estará ajudando muito.

E, lembre-se: embora nem todo conhecimento seja adquirido exclusivamente em escolas e universidades, é sempre necessário que se tenha embasamento, experiência de vida em torno desse tema, contato prático que vá além das teorias e, o mais importante de tudo, uma curiosidade verdadeira que te faça questionar as próprias informações obtidas, pra não cair no terrível beco das informações obsoletas, desatualizadas ou que já foram desmentidas ou ampliadas. Não se contente com a superfície de nada. Muito do que nos ensinaram no colégio sobre História, por exemplo, é completamente defasado e cheio de inverdades. Pode parecer estranho, mas a verdade é que, como diz o ditado popular, “o papel aceita qualquer coisa”. Por isso, mais importante do que apenas ler o que está escrito nele é ter senso crítico e as ferramentas que lhe permitam contestar ou confirmar o que ali foi dito. Quando professores, especialistas ou profissionais trazem uma informação para o seu mundo, a função dele deve incluir a de ensinar a aprender. De nada adianta replicar frases prontas como um papagaio, se não possui pensamento autônomo e crítico por trás disso. Só quem está realmente comprometido com a verdade fará o esforço devido pra ensinar outras pessoas a conhecer e manusear corretamente as ferramentas que nos permitem averiguar e avançar nas informações.

Embora eu tenha um importante conhecimento de Fotografia, eu nem mesmo me senti apto a lecionar, pois percebi rapidamente o quão distante eu estava do necessário. Lecionar envolvia muito mais do que apenas entender de Fotografia. Por mais organizado que eu fosse, exemplificando questões técnicas com analogias, eu não dominava a arte de ser professor, de lidar com o buraco que havia no ensino prévio das pessoas que tentaram ter aulas comigo. Eu simplesmente vi, por experiência própria, que aquilo não funcionaria. Foi assim que parei de lecionar, fiz as pazes com a frustração de não ter conseguido levar a Fotografia pra mais pessoas e, desde então, tento ocupar a minha mente em produzir, primeiramente, pra minha satisfação pessoal e, se sobrar tempo e surgir alguém que realmente tenha aptidão pra entender a complexidade da Fotografia, aí, talvez, dividiremos alguma troca de informações sobre o assunto. Dizem que o conhecimento não serve de nada se não for utilizado para melhorar a vida das pessoas e concordo com isso. Se, por um lado, não posso gerar novos fotógrafos para o mundo, vou gerar, pelo menos, muitas novas fotografias. Vou exercer aquilo que eu conheço e gosto e tentar cativar as pessoas a redescobrirem o mundo, as diversas realidades, com pensamento crítico, com curiosidade, com apreço pela verdade. Essa talvez seja a única maneira, ao meu alcance, de transformar meu conhecimento em melhoria na vida da humanidade. É algo que eu sempre fiz desde o início na Fotografia, na Pintura e na Literatura, mas, provavelmente, não terei o necessário pra levar outras formas de melhoria para o mundo. Venho aprendendo mais todo dia e incentivando outras pessoas que fazem aquilo que eu não faço ou que fazem o mesmo que eu de forma igual ou melhor.

É preciso dar vazão para o conhecimento, o aprofundamento, a especialidade, de diversas outras pessoas, para que o quebra-cabeça se torne cada vez mais completo. O conhecimento é infinito, mas tudo que que puder ser dominado em benefício da humanidade, deverá ser apoiado, feito e replicado. Eu entro com a Fotografia, outro entra com a Astronomia, alguém contribui na História, na Medicina, na Pesquisa, na Educação, na Sociologia e assim por diante. Cada um dá aquilo que tem de melhor para construção do mundo. Essa noite eu tive um sonho onde me sentava no fundo de um ônibus quase lotado. Alguém havia dito uma asneira e logo começaram a pipocar comentários de pessoas concordando e apoiando, enquanto a maioria dos passageiros ignoravam calados. Eu, então, saturei de ouvir todas aquelas mentiras e comecei a despejar críticas raivosas de lá do fundo. Seria esse sonho um desabafo da consciência pelo momento absurdo que estamos vivendo no Brasil e no mundo? É possível que seja isso. Talvez, sem conectar uma coisa com a outra de forma consciente, eu cheguei em um tema semelhante pra esse texto. Agora, relembrando do sonho, vejo como tem sido oportuno ter um espaço pra escrever e ser lido, mesmo que isso seja relativamente pequeno. Se esse pingo de informação e reflexão puder chegar em, pelo menos, mais uma pessoa, já será válido o esforço. Mas é preciso que chegue não só nos olhos, porque ler não é só passar os olhos pelas letras. Também não basta que sejam entendidas as palavras e as frases, pois ler também não é tão simples quanto isso. Ler, de verdade, é ter capacidade de compreender o que está por trás daquelas palavras escritas ou ditas. E isso tem sido raro ultimamente. As pessoas juram de pé junto que leram os textos e mensagens, mas, na prática, ainda estão como aquele coitado observador que ergue a mão pro céu na direção da Lua e chega à conclusão equivocada que já entendeu o suficiente sobre tudo que seus olhos viram.

Confesso estar bastante cansado e com pressa de sair dos mesmos cenários em que estou, pois essa parece ser minha única chance de experimentar qualquer coisa nova e promissora pro meu eu do futuro. Eu quero voltar a fotografar, voltar a sorrir, voltar a sonhar, voltar a explorar o mundo, tentar sentir novamente o amor, aprender mais das mesmas áreas e, talvez, começar em uma área nova do conhecimento. Eu quero me sentir vivo novamente e isso só será possível quando eu tiver a liberdade de acessar todo esse conteúdo e avanço que a maioria dos países nos privam desde muito cedo, com muita força, de muitas maneiras. Quero sentir novamente, o gosto de poder descobrir prazer pelas coisas, sabendo que, se for necessário, posso estar perto de mais ferramentas, mais livros, mais tecnologia, mais conhecimento, mais experiência de vida, própria e alheia. A depressão já me parou muitas vezes, mas eu tenho que aproveitar qualquer momento de trégua para sabotá-la e percorrer um pouco mais de vida, de prazer e de emoção. Todos nós queremos viver e nos sentirmos com, pelo menos, um mínimo de paz e segurança. Por isso, faço tudo que está ao meu alcance para transformar o cenário desfavorável em uma oportunidade criativa e contra a tendência de obscurantismo. Os exploradores não nos querem ver vencer, então temos que partir dessa premissa e desviar do senso comum, do óbvio, da mesmice, do conformismo, da ignorância e da passividade, para construirmos nossa saída pra mundos maiores, melhores e mais livres. Ou você caminha em direção à dignidade ou será prensado por um sistema que te oprime e te emburrece até o ponto em que você se torna aliado fanático do malefício ao invés de resistência. A escolha está na mão de cada um, considerando as diferenças de realidades e oportunidades. Eu fiz a minha escolha, dentro do que estava ao alcance do meu contexto e cabe aos outros fazerem as escolhas que puderem e decidirem fazer.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | A Séria Dona Silvéria.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, sendo parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Essa é uma crônica com um certo ritmo de leitura particular que favorece constantes casos de rimas, mas livre o suficiente pra desviar quando for conveniente. Esse texto tenta misturar um componente dramático, uma crítica social às condições da aposentadoria, os padrões sociais de uma geração, temperando com humor e algumas ironias. O texto não se propõem a ser sério ou polido, mas simplesmente diferente e divertido. Os personagens e os eventos são fictícios e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


Lá vai Dona Silvéria, com seus setenta e nove anos, as mesmas olheiras dos últimos quarenta vividos, mas com um pouco mais de pele amorfa ao redor do umbigo. Da última vez que contaram, haviam quase todos os dentes, exceto os que já caíram na fase adulta e os que se seguiram apodrecendo por dentro. Já não se vê prosperidade no bolso de Dona Silvéria. Tem ferida não cicatrizada e gordura entupindo artéria. Ela sabe onde mora, sabe o dia do nascimento, mas não recorda onde guardou o fermento. Dona Silvéria é teimosa, mas esqueceu como é que se teima direito. Deve estar com algum defeito. Se tivesse mais saúde, aí a teimosia subia e vencia. Pelo menos era isso que o marido dizia.

Hoje à tarde, Dona Silvéria podou as plantas, cortou no talo, picou e varreu até as tantas. A terra molhou e escorreu no ralo. Dona Silvéria nem notou e saiu passando mangueira, água e sabão por todo lado. Tinha barro azulado, tinha terra fazendo bolha. Dona Silvéria não enxergava e no fim do dia, pisou numa rolha. Que dor, que angústia, que pobre da Dona Silvéria. Não pode nem mais fazer bagunça, que o acaso lhe depreda. Amanhã tem coisa nova, é dia do lixeiro passar. Novidade assim na semana, Dona Silvéria não perde, marca até na geladeira. Hoje mesmo já coleta o lixo pela metade e deixa o resto pra segunda-feira. Deve ter motivo nessa loucura ou é pretexto pra ficar doente e procurar a cura.

Já são oitenta e cinco potes de vidro alinhados pela cozinha. Diz Dona Silvéria que vai usá-los, qualquer dia, quando menos se espera. As plantas no canteiro passam o dia inteiro esperando a hora da miséria. Eis que chega a tesoura, enferrujada, depenando folha, da verdinha e da amarelada. O chão de cimento no quintal já nem dá pra chamá-lo de tal. De tanta água que choveu por cima, afundou pelos cantos e pelas trincas. Tem água acumulada nas deformidades do terreno. A água empoça e Dona Silvéria não pode fazer nada. Todo dia parece que sai café de lá de dentro. O cheiro promete mais do mesmo: Água suja e pão bolorento. Que delícia, que alegria. Tem geleia pra por por cima.

A janela tá descascada, muito sol, pouco verniz, abre pouco e fecha na marra. A vassoura sustenta o varal, o chinelo segura a porta, enquanto a própria porta segura as paredes esfareladas entre a cozinha e o quintal. A janela parece ter vidro, mas a luz se recusa a passar. Acho que vidro também envelhece. Não é possível que desde sempre, a casa não viu o sol entrar. Dos tijolos caem remendos, massa corrida, limo, terra, teia de aranha e até mosquito. A casa de Dona Silvéria tá um brinco, daqueles que infecciona a orelha e custa cinco. No quarto se escuta madeira rangendo, mesmo que não tenha vento. É o peso da casa, já meio inclinada, com as telhas vermelhas que já são meio cinzas e aquele monte de caixa montada e empilhada.

O guarda-roupa tem um cheiro que não é perfume. Tem um clima tenso de enterro, a madeira pesada, do tempo que se se fazia móvel na base da machadada. A maçaneta do quarto já não importa, porque ninguém abre ou fecha aquela porta. O mesmo se diz das cortinas, com cheiro de mofo e manchas esquisitas. Dona Silvéria, veja esse nome. Dizem que a velha é séria e que a irmã, ainda mais velha, chamava Silvia. O nome dos pais, só ela sabe, mas nunca conta. Enrola todo mundo, devolve perguntas e sai no meio da conversa como se estivesse tonta. Outro dia veio carteiro, com a mesma mala azul de sempre, mas, Dona Silvéria jurava que era diferente. Que mala bonita, ela dizia. E ele concordava calado, pra não perder muito tempo.

Precisa ver o que ela cozinha. A vizinhança até para o que tá fazendo, só pra sentir aquela fumacinha. Ficam preocupados se é incêndio ou algum veneno, porque o cheiro é esquisito e solta muita fumaça. A janela da cozinha faz como sempre: embaça. Se o fogão esquenta demais ou de menos, ela resolve dobrando a comida ou pondo água por cima. Não existe receita que dê errado. Basta comer sem ver, antes que esfrie. A geladeira é pura inovação. Embaixo ela lava e atrás ela seca. Vaza e esquenta, mas pelo menos a cor é bonita: azul piscina, pra combinar com a pia, encardida pelo tempo.

Na sala, o sofá não cabe totalmente. Ele tapa um pouco da passagem, mas, em compensação, não tem a mesa de centro. O quadro na parede é bordado, igual o tapete, pendurado na cadeira, pra não encharcar quando a água da geladeira acumula na cozinha e resolve viajar. Tecnologia de ponta, nessa casa, é a televisão. Você liga em cima, ajusta a antena, gira o botão. Tudo em perfeita sincronia com o tempo em que música se chamava canção. A imagem até que serve. Tem ruído, é desbotada, mas ninguém percebe. Dona Silvéria, pelo menos, nunca reclama. Com tanto que tenha som, ela assiste qualquer programa.

Dona Silvéria quer companhia, mandou a vizinha trazer umas mudas de planta desconhecida, pra ver se cultiva. Outro dia lhe deram uma samambaia e dois tipos de orquídea. Pra ela era tudo mato. Picou tudo e jogou inseticida. Não deu nem pro gasto. A jardinagem de Dona Silvéria é do tempo que derrubava coqueiro no braço. Nunca mais levaram flores. Tentaram colocar uns cactos, mas, Dona Silvéria não se adaptou aos espinhos. Teve que tirar todos com faca de pão, até deixar os malditos pelados. Não tem nada que dure muito na casa dela, além dela.

As roupas quando ficam imprestáveis, ela remenda com outro tecido, só pra não comprar modelo novo. Diz ela que as roupas de hoje em dia não são pra moça séria. Dona Silvéria não gosta muito de inovação, prefere o velho e bom ‘mais do mesmo’ com um toque de sandália no verão. Pra ventilar as unhas e não apertar os ossos, seu calçado é mais confortável do que deveria. Ela se incomoda de ter os dedos do pé à mostra, pois diz que isso é coisa de mulher da vida. Mas não teve escolha. Era isso ou a dor nas juntas. Comprou na cor que combina com qualquer tom: marrom, que é cor de respeito, gente sóbria, nada de tom luminoso, muito menos vermelho. Conferiu até no espelho. Às vezes esquece, sai de casa de pantufa e só percebe quando a sola antiderrapante agarra no asfalto e quase a derruba.

Dona Silvéria jurava que quando estivesse aposentada, sua vida seria mais fácil. Mas, agora, tem tantos problemas e tão pouca energia nas veias. Quando o gato da vizinha chega no seu quintal, ela olha lá fora se não deixou roupa no varal. Ela acha que o gato rouba toalhas, mas na verdade ela é quem recolhe a roupa e acaba esquecendo. Coitado do gato que não ganha nem carinho, mas, pelo menos, também não come aquele pão bolorento. Por sorte é da vizinha, porque se fosse de Dona Silvéria, era capaz de ficar ao relento. Também não tem cachorro nem outro bicho qualquer. Ela prefere o silêncio. O que dizer? Ela pensa que todo bicho é barulhento como seu José.

Dona Silvéria mora na casa 37, de muros baixos, do jeito que construíram no começo da sua vida. Pra época, era o que havia de mais recomendável, talvez até moderno. Hoje, tá meio destoante, mas ainda serve pra morar gente. Dona Silvéria nem conheceu essa tal de internet, que é como a tv, só que diferente. Ela tá preocupada se a tv vai acabar, porque a novela dela ainda não terminou e ainda vai demorar. Depois que alguém explicou, parece que ela ficou tranquila. Ela não quer comprar esse aparelho de internet. Ela já tem televisão e tem tudo que precisa.

Seu Jucélio, marido dela, já morreu há muito tempo. Ela tem uma foto dele, num retrato de casamento. Quando alguém visita ela, ela conversa sobre o tempo, diz que vai passar café e passa o resto do dia esquentando as sobras que ninguém quer. Toda hora é hora de fazer e beber café. Só de manhã são umas três vezes, depois no almoço e na sobremesa. De tarde é hora do lanche, de novo e outra vez, até que chega o horário da janta e tem mais café. É tudo aguado, mas se juntar tudo, deve dar o mesmo resultado do concentrado. Pelo menos não são coados na meia. Dona Silvéria já aderiu ao filtro de papel. Custa mais caro, mas não apodrece porque é descartável e não precisa lavar.

A vida dela é assim. Muito disso, um tanto daquilo, várias manias. Mas, com setenta e nove anos de vida, parece tranquila. Tem gente pior na mesma vila. Dona Vânia, por exemplo, já passa dos oitenta e seis e, quase não levanta da cama. É puro drama. Melhor rir um pouco da Dona Silvéria, meio pobre, meio confusa, mas moça séria. O tom da sandália atesta e o gato da vizinha também concorda. Se Dona Silvéria fosse bem diferente, não rendia essa história, que parece que foi feita de presente.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | A doçura do silêncio.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição utilizando parte da obra “Le Silence” (O Silêncio) de 1842-1843, uma escultura em gesso pintado do escultor francês Antoine-Augustin Préault (1809–1879), mais conhecido como Auguste Préault, exposta no ‘Baltimore Museum of Art’ cuja reprodução fotográfica é livre. A versão original em mármore se encontra no cemitério Pére Lachais, em Paris (França), adornando o topo da tumba de Jacob Roblès.

Tem algo de muito poético no silêncio. Nessa metrópole agitada é difícil encontrar um momento valioso desses. As pessoas parecem não se importar com o benefício que o silêncio traz ou, talvez, evitem o silêncio por se sentirem incomodadas com a pausa reflexiva que ele obriga. Quando estamos em pleno silêncio, sem ruídos que nos desviem a atenção, somos obrigados a lidar apenas com o que temos dentro de nós mesmos. Temos que olhar pra nosso corpo, pro nosso quarto ou pra linha do horizonte e atribuir algum sentimento ou pensamento sobre aquilo. E isso tudo seria completamente natural, se não tivéssemos criado uma infinidade de ruídos propositais para ocupar nossos olhos, nossos ouvidos e todos os outros sentidos.

As placas de comércio pela rua disputam nossa atenção, junto com o barulho dos carros, a música no rádio, os programas de televisão, a timeline das redes sociais e a conversa vazia entre as pessoas aglomeradas na rua, de noite ou de dia. É tudo uma maneira de nos desviar do silêncio. De forma intencional pelas marcas e personalidades buscando visibilidade ou de forma inconsciente pelo próprio público comum, fugindo daquele momento constrangedor que é ficar em silêncio e ter que preenchê-lo com alguma coisa que não venha de fora. É uma busca por automatismos confortáveis. Com o som do carro no último volume, não há espaço para pensar. A mente se ocupa por completo em tentar manter o carro livre de colisões enquanto tenta processar aquele ruído alto que já não é inteligível de fato, porque precisa não ser pra que funcione ao propósito.

Para uma sociedade que, majoritariamente, não fala outro idioma que não o próprio, é conveniente ouvir músicas em outros idiomas, pois aquilo que não é inteligível não permite que se faça uma análise do conteúdo ou uma reflexão. É praticamente isso que nos entregam todos os dias por meio das repetições quase que aleatórias da televisão aberta ou fechada e de uma esmagadora maioria dos conteúdos de internet. Você já deve ter ouvido a expressão de que a televisão faz companhia. É mais ou menos isso para muitas das pessoas. Elas utilizam esses recursos, traçando algum tipo de relação. É assim que fogem sempre do necessário silêncio. Necessário pra uns, pois pra outros é o mais puro terror. Vejo as pessoas correndo do chamado ‘silêncio ensurdecedor’. É compreensível que sintam esse incômodo, porque desligar tudo e prestar atenção em como as coisas realmente são, pode ser uma visão infernal. A realidade quase nunca é bonita, quando existem muitos monstros não dominados ou completamente desconhecidos dentro da mente das pessoas, das mazelas sociais, os dramas psicológicos, os traumas, medos e inseguranças.

Há um universo de gritos que surgem quando o silêncio é possível. São gritos que fazem muitas pessoas perceberem, por exemplo, que estão sozinhas, que são insuficientes, miseráveis, fracas, doentes, equivocadas, desnecessárias, inconsequentes, violentas, preconceituosas, ignorantes. Gritos que deixam a mente pensar, claramente, que essas pessoas estão perdidas, vivendo de aparências, cercada de amigos falsos, gastando dinheiro com o que não é importante e desperdiçando a vida com ilusões que fizeram elas acreditarem que as fariam se sentirem bem.

Mas, nem sempre o silêncio entrega os mesmos gritos. Isso é tudo questão de tempo, de costume e de lapidação. Para outras tantas pessoas, o silêncio é a oportunidade de aquietarem a mente, de terem de volta o tempo roubado pelos ruídos e, finalmente, produzirem algo novo, escrever um texto, ler um livro, fazer uma pintura, ativar memórias, se colocar diante do espelho e tentar encontrar seus erros e acertos. O silêncio pode nos entregar verdades duras, mas também podem ser a única forma de não negligenciarmos nossas realidades, nossas condutas, pensamentos, etc. Em última análise, só quem pode nos salvar é nós mesmos. Muitas pessoas poderão nos apontar as portas disponíveis, mas somente cada indivíduo é que pode atravessar essas portas para sua própria libertação e transformação.

Quando vamos à um psicólogo, analista, terapeuta ou psiquiatra, eles podem nos colocar questões que parecem simples, mas que carregam uma complexidade enorme quando tentamos atribuir uma resposta por nós mesmos. Não são eles que irão nos dizer as respostas para nossos dilemas, conflitos e medos. Eles estão lá apenas para nos fazer pensar, por uma trilha que pareça fazer algum sentido, dentro da linha de trabalho e conhecimento que eles possuem. A exploração da mente humana é, sobretudo, um trabalho de mastigação da realidade, onde somos obrigados a entrar em contato com nossos sentimentos e pensamentos. E não é exatamente isso que o silêncio nos proporciona? E não é exatamente por isso que esses profissionais da mente nos colocam pra falar enquanto nos ouvem pacientemente? É tudo uma questão de silêncio. Temos que nos ouvir, deixar a nossa voz interior falar, seja na frente de um profissional discreto, em uma sala convenientemente silenciosa ou durante alguma oportunidade no cotidiano, enquanto estamos tomando um banho, deitados na cama, parados em frente à janela, apreciando a madrugada ou viajando pra outro canto.

Infelizmente, muitos de nós não conseguem experimentar esses momentos, simplesmente porque vivem cercados de inevitáveis ruídos alheios. Eu mesmo, moro em um local bastante conturbado, em que qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada, o caos parece estar se renovando. É gente gritando o dia inteiro, carros de som no volume máximo vendendo itens que eu nunca quis comprar ou cuspindo uma música ensurdecedora que faz até os vidros da janela tremerem. É pura idiotice tentando chamar atenção. E se os criticamos depois de ficarmos enlouquecidos por não ter um mísero segundo de paz, corremos ainda o risco de sermos visto como os vilões. Nos roubaram o direito do silêncio, da paz, da reflexão, do sono, da dignidade. Não podemos mais nos conectar com nossas questões internas, sem que sejamos incomodados repetidamente por ruídos desnecessários. Somos reféns da falta de respeito alheia e, por fim, também perdemos a paciência que nos permitiria respeitá-los mais ou, pelo menos, detestá-los menos. Estamos em uma micro batalha diária, tentando simplesmente escalar as paredes pra fora do poço. Mas todos os dias somos jogados de volta ao fundo, simplesmente porque o silêncio assusta muitos e é desejado por poucos.

Em diversos países fora do Brasil, existem leis rígidas de regulamentação do silêncio que, felizmente, são levadas à sério na prática. O famoso ditado popular de que “o direito de um termina onde o do outro começa.” continua válido. As pessoas podem se expressar e serem quem elas quiserem, desde que não impeçam outras pessoas de fazerem o que lhes é de direito. E como é importante o direito ao silêncio. É um princípio que, se não está listado entre os Direitos Humanos, deveria ser incluso entre os primeiros itens. O silêncio não é só um capricho ou uma predileção. Ele é, talvez, a nossa única salvação. É por meio do silêncio que tentamos nos manter nos trilhos, de pé, sem desmoronar, sem nos perder pelos labirintos da vida. É nossa chance de, pelo menos, tentar tudo isso, mesmo que ninguém possa nos dar uma garantia de que vá funcionar. O direito ao silêncio é o direito de olharmos pra dentro de nossas próprias consciências, sentir o tempo, o peso e o valor das coisas. Há muito que se pode mudar no mundo coletivo e pessoal apenas pelo exercício do silêncio. E, talvez, por isso mesmo é que nos privam do silêncio em todo canto, a todo momento. Uma reflexão sincera sobre a vida pode nos fazer perceber quem e o que temos que derrubar ou apoiar. Quando vivemos explorados por uma minoria num mundo injusto, quem nos explora faz questão de que a massa de explorados não se aperceba das correntes que os impedem de conquistar a liberdade.

Lembre-se, contudo, que defender o direito ao silêncio, não significa censurar o barulho. As casas noturnas que vivem de tocar música pela madrugada, continuam a existir. Elas são feitas pra isso, construídas pra que o som alto de dentro não vaze pro lado de fora. Isso se chama respeito. Quando as pessoas podem escolher dançar e se divertir em um desses ambientes sem precisar acordar a vizinhança que quer dormir, o direito de ambos está preservado e todo mundo fica satisfeito. Comece a lembrar de todos os lugares onde o silêncio lhe é negado e você entenderá que nesses lugares não querem que você entre em contato com o sincero pensamento. Posso citar, de memória, as aglomerações ruidosas das pseudo-igrejas evangélicas, que empurram pela goela qualquer coisa que as preencha com um mar de ruídos. Melhor ainda se puder embutir o maior número possível de convenientes falácias que roubem a verdade do indivíduo e os devolva apenas o puro creme do preconceito, do comodismo, do fanatismo e da irracionalidade, até o ponto em que todos aqueles que se dizem cristãos, figuraram como os principais eleitores de um político fascista que, a bem da verdade, se visse Cristo pelas ruas, o mataria na primeiríssima oportunidade.

Por onde mais o silêncio não é entregue? Já tentou assistir um típico debate político na televisão, onde as pessoas mais gritam e se xingam do que apresentam suas propostas? O que é que essas pessoas estão fazendo ali, senão preenchendo o tempo do seu ouvido com o máximo de ruído possível? Vence a disputa no circo quem fala mais alto, quem dá a maior carteirada, quem soca mais forte, quem deixa sua orelha mais quente. Vence também os próprios canais de televisão que puxam sua atenção para algo completamente vazio de sentido, enquanto os verdadeiros problemas do mundo continuam acontecendo, longe das câmeras. Mas isso nenhuma grande mídia quer te mostrar, porque é só o constante ruído que importa. Querem te ver estagnado, mais burro, mais dominado, mais passivo e mais acomodado. Não querem que você se rebele e, se não puderem evitar que você sinta ódio por todas as injustiças da vida, tentarão te dizer que, nada disso justifica você quebrar umas vidraças, botar fogo numa praça, confrontar as quadrilhas fardadas ou derrubar os pseudo-políticos que invadiram teu país, tua sociedade, tua vida, tua casa e tua alma. Bom garoto! Um cão adestrado sempre ganha uns biscoitos, mas continua dormindo do lado de fora da casa.

Pois se não querem se conhecer e se libertar, continuem com o barulho, continuem se anulando dentro do seus próprios mundos. Apaguem suas histórias, suas memórias, suas verdades, suas dúvidas, suas indignações, seus incômodos e suas lembranças de injustiças. Se confortem com o som agudo do estalo do chicote, ecoando dia e noite sobre suas cabeças. Continuem a carregar dois pianos nas costas, rastejem por um prato de comida e sintam-se felizes de serem cuspidos na cara em mais um dia miserável, obedecendo aos mesmos modelos de vida, ditados por quem lucra bilhões sugando a vida da maioria. Façam do jeito que quiserem, mas lembrem-se de que varrer os problemas pra debaixo do tapete não os elimina. Cada dia de acúmulo a montanha de sujeira aumenta, atrai pragas e os contamina. Em algum momento, o entulho gerado será tanto que não haverá força suficiente nos braços pra se livrar de tudo aquilo em tempo. O relógio está correndo e eu só sei de tudo isso porque fiquei na doçura do silêncio por tempo suficiente. Volto pra ela sempre que posso e, se as pessoas do meu bairro colaborarem, volto e fico de forma quase permanente.

Rodrigo Meyer – Author

O que é ser interessante?

A imagem que ilustra esse texto é baseada numa fotografia de Roman Koval marcada como livre para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

É comum ouvirmos as pessoas dizerem que tal pessoa é interessante, mas é preciso esclarecer que ser interessante ou desinteressante depende completamente dos critérios pessoais de cada indivíduo. Quando alguém acha uma pessoa interessante, significa simplesmente que essa pessoa tem características que suscitam interesse nesse alguém. É uma conexão entre uma demanda e uma oferta, por assim dizer.

Ser interessante pode ser o jeito com que a pessoa fala, o tipo de visão que a pessoa tem, os hábitos, o estilo de vida ou mesmo a aparência. É impossível listar todas as possibilidades que tornam alguém interessante para cada indivíduo, pois o ser humano é essencialmente diverso. As pessoas podem se interessar por detalhes que nem imaginamos que sejam uma questão para alguém. E mesmo se simplificarmos tudo em grandes clichês, já é suficientemente divergente o que cada pessoa prioriza nas relações com outras pessoas, o que as cativa, os que lhes chama atenção.

Quem ainda utiliza a internet na intenção de encontrar fórmulas milagrosas, respostas fáceis e verdades absolutas, está na contramão do mínimo necessário pra compreender a vida, burlar os problemas que surgem e progredir à caminho dos seus objetivos, sejam eles quais forem. Assim, descrever o que significa ser alguém interessante, nunca passará por aqueles artigos de revista para o público pré-adolescente. Essas fantasias ditadas pra gente inexperiente com a vida, servem apenas pra colocar um cabresto num determinado público e induzir que a realidade seja aquilo que ela, na verdade, nunca foi, não é e nunca será, exceto numa camada superficial, posada, artificial, insatisfeita e feita “pra inglês ver”.

A realidade prática da vida está em se conhecer. Quem não se conhece não tem a oportunidade de descobrir o que é que lhe interessa, o que lhe agrada, o que lhe incomoda, o que lhe suscita curiosidade, ou qualquer outro fator. É natural que em uma fase inicial da vida, sejamos todos inexperientes e estejamos descobrindo bem lentamente quem somos e o que o mundo possui à nossa disposição. A vida é feita de experiências. É preciso provar um pouco da diversidade que existe pelo mundo, pra saber o que cada pessoa, lugar ou contexto, lhe causa. E pra que isso seja realmente eficiente, nunca podemos nos acomodar dentro de bolhas. Já nascemos em uma determinada bolha familiar com modelos predefinidos de socialização, de afeto, de ordem, de liberdade, além das questões de âmbito financeiro, espiritual e as inúmeras nuances de questões psicológicas menores ou maiores que entrelaçam cada uma dessas áreas da vida. Isso sem falar das demais bolhas, dentro do nosso círculo de amigos, os colegas de escola, colegas de trabalho, a nossa classe social, o modelo médio de nossa sociedade e país e toda a conjuntura da época vivida. Quebrar essas bolhas todas, exige ter uma postura de navegação livre entre lugares, pessoas, temas, ideias, ideologias, modos de se experimentar o dia, o trabalho, a família, os relacionamentos todos e a nossa relação interna com nós mesmos.

Me lembro sempre do músico João Gordo, da banda Ratos de Porão comentar o quanto a cabeça dele mudou quando ele e os demais membros da banda tiveram a grata oportunidade de se apresentarem em outros países. Diz ele que conforme foi conhecendo novas culturas e pessoas, a cabeça foi se abrindo pra além daquele espaço inicial de convívio e pensamento que eram as cenas alternativas de São Paulo ou arredores. E é compreensível esse tipo de relato, pois o choque de culturas nos obriga a comparar os dois mundos e ver o que temos e o que não temos, o que sabemos e o que não sabemos, o que nos parece normal ou anormal, enquanto pra outros pode ser bem diferente. Esse tipo de contraste obriga a refletir com mais rapidez sobre a limitação da nossa visão ou do nosso pensamento em relação à alguns temas. Trocar experiências com outras sociedades pode ser um meio brusco de aprender sobre a unidade humana no meio da diversidade, mas nem sempre temos essa oportunidade. Para muita gente a vida é restrita à própria cidade e, às vezes, apenas ao próprio bairro. Então, um modo de aprendizado que serve à todos os tipos de pessoas, independente de quão longe elas possam ir ou onde possam estar, é se permitir observar e ouvir.

Aquele que não consegue olhar pro outro com alguma curiosidade, com atenção e com a mente aberta, pouco ou nada vai absorver do conteúdo dessa pessoa. Olhar para um rótulo, um corpo, uma fachada ou uma camada superficial da personalidade ou da vida de alguém nunca é suficiente pra entender porque as coisas são como são e nem o que existe de bom e de ruim no labirinto que cada pessoa é. Se quiser descobrir quão interessante uma pessoa pode ser, é preciso, obviamente, conhecê-la primeiro. E isso não acontece da noite pro dia. Leva tempo entender o que leva uma pessoa à fumar, à beber, à ler os livros que lê, a morar onde mora, à falar como fala, à escrever sobre os temas que escreve e à desejar os objetivos que deseja. Nada é tão simples quanto ter um dicionário pra definir pessoas, coisas, lugares, ideias, ideologias e condutas. O ser humano é único o suficiente pra requerer anos de convívio até conseguir sentir e ver aquilo que o outro sente e vê. Mas, mesmo que demore, é preciso fazer, é preciso, pelo menos, tentar.

Algumas pessoas podem ter a necessidade de se sentirem interessantes diante dos demais. É compreensível que se queira ser percebido como alguém que valha a pena conhecer, que se queira ser desejado ou querido pelas pessoas, mas é preciso entender que ninguém nunca vai ser interessante pra todas as pessoas. Não existe como agradar à todo mundo e nem mesmo é possível agradar muitas pessoas com o mesmo impacto ou pelos mesmos motivos. Mesmo quando uma persona é lida por uma multidão de pessoas como alguém interessante, isso pode se dar por inúmeros motivos diferentes pra cada um dos indivíduos nessa multidão. Então, não fique tentando encontrar uma maneira ideal de ser pra que consiga agradar o maior número possível de pessoas. Isso é o erro mais primário que se pode cometer na hora de viver em busca da satisfação pessoal. Você se sentirá pleno quando descobrir que pode ser interessante à sua maneira natural, pelas coisas que é ou faz de forma espontânea. Quando alguém te apreciar, a conexão estará traçada sem a necessidade de nenhuma ficção criada, nenhum marketing falso, nenhuma pose ou fachada para enganar. Apenas não prometa ser aquilo que você não é e vá construindo o seu mundo no seu ritmo. Pessoas mudam e quem vive de fachada parece sempre estar preso num padrão, porque só pessoas de verdade evoluem conforme o tempo e a situação.

A pessoa que eu sou hoje, por exemplo, já não é mais a pessoa que eu fui há 15 ou 20 anos atrás e nem a que fui nos últimos 5 anos. De fato, mudei de realidade inúmeras outras vezes, mas as mudanças são tão graduais que se tornam imperceptíveis. Quando comparamos grandes blocos de tempo é que percebemos que o começo da escada é muito distante do topo, enquanto é difícil distinguir os degraus que estão lado a lado. Então, a resposta sobre o que seria ser interessante, habita dentro de cada ser. Mas, claro, ninguém precisa se conformar com a realidade que tem hoje e parar no tempo. Não é porque você já é interessante pra alguma pessoa no mundo que sua missão de vida se encerrou. Seu papel é justamente lapidar à você mesmo, primeiro pra si mesmo e depois, pra sociedade em que você vive, na qual você vai deixar algum legado entre seus amigos, seus professores, seus colegas, seus familiares, suas companhias ou até mesmo alguma marca significativa na História pela sua atuação política, social ou vinda do seu trabalho.

É importante, também, que você se sinta interessante pra você mesmo. Não que deva ficar se contemplando como um narcisista, mas é preciso que se sinta satisfeito com aquilo que pensa, aquilo que faz, o modo de vida que leva, etc. Deve ter orgulho da pessoa que você está sendo ou está construindo. Se você tem orgulho da sua honestidade, das coisas que estuda, dos temas pelos quais você tem curiosidade, entre outras coisas, é sinal de que você está sendo interessante pra você mesmo. Muito provavelmente, você vai encontrar pessoas que se identificam com essas suas realidades e temáticas e o interesse poderá ser mútuo. No entanto, é muito comum, também, que pessoas diferentes tenham interesse umas nas outras, justamente pelo componente desconhecido, pela novidade, pela possibilidade de aprender algo que elas talvez não tenham tido grande contato antes. É assim, por exemplo, quando as pessoas conhecem conteúdos ou pessoas de outros países e ficam interessadas de conhecer mais detalhes. Se relacionar com uma pessoa de um país diferente é uma boa oportunidade de se manter uma pessoa aberta, que caminha e se transforma todo dia. Talvez isso lhe torne interessante pra muito mais pessoas do que simplesmente se resumir em um cenário menor.

Por isso, se tiver oportunidade, assista vídeos de outros lugares, leia livros de autores de outros países, converse com pessoas das quais não tem muito contato, procure novos sites na internet pra não ficar ancorado nas mesmas redes sociais, descubra filmes antigos ou fora dos destaques recomendados nas principais mídias. Vá atrás de conhecer a literatura marginal, os artistas de rua, os autores independentes, os artistas do underground, as ideologias que destoam do seu país, outros sistemas de ensino, outros cursos, outros modos de se comunicar, diferentes traços de desenho, outros idiomas, outras portas, outros prédios. Percorra a cidade atrás de lugares menores, se jogue pra dentro de mais casas, vá conhecer como vivem outras pessoas, o que elas comem, o que fazem pra se divertir, onde elas gostam de dançar, as receitas incomuns de bebidas, outros perfumes, outros modelos de relacionamento, outros sentimentos, outras manias e outras memórias, antes que elas sejam esquecidas.

Um dos motivos pelos quais eu escrevo é pra deixar um registro da minha trajetória, das coisas que eu vi, aprendi, me importei, lapidei ou nunca entendi. Escrevo pra contar para as pessoas do hoje ou de um possível longínquo amanhã, que há muito mais pra se fazer da vida do que apenas deixar ela acontecer. Você precisa ir atrás das coisas, para que as coisas possam se mostrar pra você, pra que você possa arregalar os olhos para as coisas completamente novas e aprender a ser uma pessoa melhor, maior, mais criativa, mais reflexiva, mais curiosa, mais apaixonada pelas possibilidades. É só pra isso que estamos nesse mundo. Não vamos sobreviver, na melhor das hipóteses, mais do que uns 130 anos, sendo a média da expectativa de vida, a metade disso. Então, não perca tempo enxugando gelo ou tentando parecer aquilo que você não é. Não perca tempo dando ouvido pra quem não te respeita e nem sonhe em se desgastar com mazelas que são perfeitamente evitáveis. Apenas viva o seu dia explorando as possibilidades e pense o quanto é bom poder falar sozinho, conversar com os seus próprios pensamentos e rir de suas bobagens, inventar frases, piadas, ideias descabidas, planejar um conteúdo novo, guardar um lembrete para uma conversa que você gostaria de ter com alguém sobre algum assunto específico, descobrir um jeito improvável de fazer um artesanato ou simplesmente abrir um canal de vídeo pra tentar fazer uma receita culinária. Dê vazão pra sua vida ser interessante, seja lá o que ‘interessante’ signifique pra você.

Ser interessante, no final da contas, é se deixar acontecer, ser você, exercitar ao máximo o seu potencial na vida, à tua maneira muito própria, muito característica, sem cair no vício ou no conforto de achar que precisa ser sempre a mesma coisa pro resto da vida. Pessoas mudam e, felizmente, a vida também muda pra gente.

Rodrigo Meyer – Author

Nem tudo é comércio.

A imagem que ilustra esse texto é uma arte feita a partir de uma fotografia que, por sua vez, foi marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Grande parte do mundo enfrenta uma significativa proximidade com a pobreza, ficando em uma busca constante por oportunidades e melhores condições. É natural que as pessoas estejam interessadas em trabalhos e fontes de rendas que sejam uma janela aberta para a solução de suas necessidades. A maioria das sociedades enfrenta uma desigualdade social gigante, o que dificulta o acesso à todo tipo de bens e serviços, incluso o acesso à cultura, ao lazer, a educação, etc. Como resultado disso a internet se tornou, assim que foi possível, num aglomerado de usuários disputando espaços de lucratividade.

Em princípio, imaginarmos a internet como estrutura, pode parecer algo muito positivo, cheio de oportunidades de comunicação onde as pessoas teriam, teoricamente, um mesmo nível de acesso à todas as informações, jogos, notícias, meios de troca de mensagens e tudo o mais que pudesse ser imaginado e adaptado pro formato digital. Se inicialmente éramos apenas leitores de grandes portais de notícias, com o tempo pudemos criar nossos próprios sites. De espectadores de áudio e vídeo nos tornamos criadores desses conteúdos. Era tudo pelo entretenimento. Pagávamos a internet para usufruir desse prazer de nos divertirmos no final do dia.

Mas, se todos nós queríamos passar tempo absorvendo esses conteúdos online, então estava gerada a demanda pra que tudo isso virasse um produto à ser oferecido. Apenas os banners de propagandas já não eram mais suficientes para quem entrava nesse modelo de negócio. As assinaturas de conteúdos especiais ou de acesso à sites pagos vinham se tornando a opção de muita gente ganhar dinheiro com a internet. Mas, para se criar um site dessa complexidade, exigia um grande investimento que o usuário comum não podia fazer. Levou tempo até que as pessoas migrassem da internet discada para o padrão atual. As velocidades foram crescendo de tempos em tempos e isso permitiu fenômenos como, por exemplo, assistir vídeos longos no Youtube ou fazer upload de fotografias em boa qualidade, programas de rádio e muito mais.

Passar tanto tempo assim produzindo e editando todos esses conteúdos se tornou uma atividade desgastante buscando por alguma recompensa. As pessoas podiam ganhar alguma visibilidade, se viralizassem algum conteúdo, mas, claramente, a recompensa financeira se tornou a principal meta, já que esse tipo de atividade era tão trabalhosa quanto qualquer outro trabalho convencional. A princípio as pessoas tentaram se manter por meio do comércio paralelo. Se tinham, por exemplo, um blog ou canal de vídeos, a fonte de renda pra essa criação de conteúdo seria um outro trabalho vinculando a mídia à algum pequeno comércio. Há bons anos que isso já ultrapassou até mesmo os modelos de comércio offline. Hoje em dia, vender na internet é tão natural que o incomum mesmo é o comércio físico pela cidade.

Mas, existe um problema nessa história toda. Assim como na vida offline, não é possível que toda a sociedade se torne comerciante, pois outras funções são necessárias. O que a internet faz é passar a impressão de que qualquer um que tenha acesso à internet tenha a oportunidade de se tornar mais uma pessoa à lucrar com ela. Se antes, na era onde a televisão predominava, as pessoas não costumavam sonhar em participar dos conteúdos da televisão, com a internet elas se sentiram aproximadas, de igual pra igual, com todos os demais criadores de conteúdo, comerciantes, celebridades e afins. Até mesmo a política tomou outros rumos por conta da internet e das redes sociais. Nos imaginamos parte dessa sociedade digital, apenas por termos acesso às plataformas de criação e interação. Mas, será que somos todos criadores?

Quando o Youtube nos mostrou os primeiros famosos a pagarem suas contas estritamente com os lucros obtidos na plataforma, toda a sociedade desejou fazer parte dessa realidade também. Era a promessa aparente de que, se alguém conseguiu, todos poderiam conseguir. Mas, muitos usuários não se aperceberam que, assim como na vida offline, a sociedade é sempre marcada por contrastes. Em especial pelo capitalismo, não existe forma de que, nesse sistema, todas as pessoas alcancem o mesmo sucesso, justamente porque o sucesso de uma minoria é conseguido pelo aproveitamento de uma massa de outras pessoas que estarão lá pra consumir e elevar aquelas minorias, enquanto todo o resto permanece invisível ou com baixíssima visibilidade. A ideia de que há espaço pra todos na internet é um mito. Eu adoraria, de verdade, que isso fosse real. Mas isso é tão inexistente quanto a meritocracia dentro ou fora da internet. Acreditar que basta nos esforçarmos pra alcançar nosso lugar ao sol é desconsiderar todo um sistema que é construído pra funcionar de maneira completamente diferente.

Quem realmente ganha muito dinheiro com a internet são as próprias plataformas que lucram com o conteúdo criado pelo usuário até mesmo quando nem ele mesmo ainda pode lucrar. Plataformas como o Youtube, por exemplo, veiculam anúncios em vídeos de canais que ainda não cumpriram os pré-requisitos para serem monetizados. Além disso, quando finalmente começam a monetizar, grande parte desse dinheiro fica com a própria plataforma, deixando o usuário apenas com uma parte do lucro obtido por seu trabalho. Exatamente como ocorre fora da internet, tudo que produzimos é a base de todo o lucro para as empresas, mas o valor devido aos verdadeiros trabalhadores é infinitamente menor e desproporcional. O trabalhador tudo produz, mas não tem direito pleno aos frutos do próprio trabalho, simplesmente porque uma minoria já muito rica, domina os meios de produção (as plataformas, no caso) e mantém o trabalhador mais próximo de ser um mero usuário sem poder de compra ou decisão, do que um verdadeiro trabalhador que domina os rumos do seu próprio trabalho.

Uma vez ciente de tudo isso, podemos agora refletir sobre a terrível tendência que assola o mundo digital. As pessoas se apercebem dessa miséria e desemprego tanto fora quanto dentro da internet e, muitas vezes, passam anos trabalhando de graça, enriquecendo outras pessoas, na esperança de que um dia elas tenham a sorte ou o milagre de serem amplamente reconhecidas diante do grande público. Embora isso seja sim uma possibilidade, ela não é o padrão, mas a exceção. A maioria das pessoas não chegarão aos mesmos patamares de fama e lucratividade, por mais que elas se esforcem pra isso. Simplesmente a equação não fecha. Não existe como cada uma das mais de 7 Bilhões de pessoas do mundo consumirem, sozinhas, 7 Bilhões de conteúdos diários, semanais ou mensais, para que todas elas recebam os lucros advindo das propagandas visualizadas ou das formas derivadas de comércios dessas mídias. É exatamente por isso que existem muito poucos canais na televisão aberta e muito poucos canais de sucesso na internet. É natural que algumas mídias se tornem icônicas e mais famosas que outras, conforme uma série de contextos. Quem conquistou um espaço de destaque na rede e fez algum dinheiro com isso, teve mais tempo e dinheiro pra investir na própria mídia e a cada vez que se tornava mais famoso com um grande número de espectadores, mais recebia atenção e patrocínio de anunciantes interessados em pegar carona nessa fama.

Um anunciante que pretenda tornar seu produto ou serviço visto e desejado por milhões de pessoas, vai escolher justamente as mídias que já alcançaram essa rara fama e vão se manter sempre em torno dos mesmos nomes, conforme a posição no ranking de público. É pura questão de comércio e lucro entre os grandes. Quanto aos pequenos, aos anônimos e aos invisíveis, é dada a ilusão de que podem tentar. E como tentam. Tentam todo dia. Passam a vida desviando de coisas mais concretas, à espera de uma mudança repentina no futuro. Não quero menosprezar o talento e o esforço de ninguém, mas é matematicamente certo de que não haverá vitória pra todos nesse tipo de sistema. E, o que vejo, infelizmente, é muita gente se apercebendo disso, porém tomando decisões pouco sensatas para desviar desse problema. As pessoa começam produzindo um certo conteúdo e quando descobrem que aquilo não dá os frutos pretendidos, começam a apelar para um comércio desenfreado. Vende-se tudo que possa ser desejado e precificado. Vendem os cliques, os comentários, as oportunidades de parceria numa live, a indicação de um simples link para outro artista, músico ou pintor. É tudo sempre uma relação comercial, nunca uma interação sincera e espontânea.

A internet se tornou completamente artificial. Mediante pagamento, as pessoas dizem o que você quiser ouvir, mostram o que você quiser ver e fingem apoiar aquilo que surgir. Se um livro é horrível, pagando algum dinheiro, pode-se ter alguém falando bem dele. Se sua arte é monótona, anuncie ela em uma mídia especializada e o dinheiro fará a mágica. Tudo está à venda e tudo se torna corrompível. Nada mais é verdadeiro e tudo é um imenso jogo de interesses. Onde tem gente buscando fama, tem gente atendendo essa demanda em troca de dinheiro.

Você sabe, a vida prática nesses contextos é o velho teste do sofá. Alguém oferece o que o outro quer e o caminho pro sucesso fica aberto, independente da capacidade real dos indivíduos. Uma lista interminável de celebridades são puramente um investimento de marketing. Assim como as chamadas boy-bands, inúmeras celebridades não eram de verdade, mas apenas um mero produto criado para render lucro em uma fórmula predefinida. Alguns “músicos” chegaram a ser meramente dublês fotográficos e de palco para canções criadas nos bastidores e encenadas com playback nos clipes e shows. Espero que eu não esteja trazendo nenhuma novidade aqui, ao falar dessas realidades. Na internet, as coisas não são muito diferentes. Você pode acreditar que certos conteúdos são famosos por puro mérito, mas a verdade é que a maioria deles recebe um alto investimento por trás, simplesmente pra torná-los visíveis ao grande público. Seja por interesses políticos ou estritamente comerciais, a fama na internet é muito mais dependente do dinheiro prévio do que da sorte de agradar um público repentinamente.

Já disse, não existe milagre que feche a equação. Não há como conhecermos todos os artistas do mundo, nem se dedicássemos uma vida inteira à consumir conteúdos na internet. Figuras específicas são eleitas, patrocinadas, compradas, moldadas e potencializadas para chegar onde os demais não chegam. Há interesses midiáticos, políticos e financeiros por trás de cada um dos raros milionários da internet. Você pode até admirar o conteúdo que eles fazem ou a pessoa que eles são (ou parecem ser), mas, é exatamente por isso que essas mídias são escolhidas para serem o elo de ligação entre as empresas e o grande público que inclui você. Você pode não se importar com as marcas, com as propagandas ou com os políticos, mas todos eles se importam com o que podem obter de você. De forma consciente ou inconsciente, todo mundo está sendo induzido a pensar algum modelo de pensamento, a ter algum tipo de posicionamento, a comprar um determinado produto e assim por diante.

Quando você pensa em plataforma de vídeos, tenho certeza de que você lembra do Youtube e nunca se questionou porque não existe outra grande opção nesse mundo. Querendo ou não, a marca está consolidada na sua memória e no seu emocional. Você aprende a depender da plataforma e a enxergar a plataforma de um jeito que não faz (e nem pretende) com qualquer outra que não seja a tal. É isso que o investimento faz. Quando o Youtube nasceu, ele não pertencia à Google. Logo o projeto ganhou atenção do público e onde há consumidores, há grandes empresas de olho. A Google comprou o Youtube assim que percebeu o potencial da plataforma e assumiu um bom período de prejuízo, simplesmente porque sabia que o que ela lucraria depois, seria infinitamente mais. E hoje, ela dita quem pode ou não pode lucrar com a criação dos vídeos, simplesmente editando, de tempos em tempos, as regras e diretrizes da plataforma, pra impor cada vez metas maiores de inscritos e tempo de visualização, para garantir que apenas projetos realmente promissores que parecem estar conquistando muitos espectadores, possam se tornar uma mídia em que haja interesse de viabilizar. O lucro nunca chegará aos pequenos, mas somente aos que parecem ter algo grandioso que conecte multidões à marcas e políticos.

Para a maioria de nós que sequer tem qualquer noção sobre o funcionamento dessa intrincada “fórmula mágica” de conquistar o grande público, o que nos resta é tentarmos ser coerentes com nossas próprias ideias e usar a ferramenta pseudo-gratuita da internet para promover mudança de pensamento em outras pessoas, mesmo que seja um trabalho de formiga. A internet não é e não deve ser um espaço de mero comércio. Tem potencial pra ser muito mais que isso, pra quem quiser assumir esse compromisso. Você está aqui, me lendo de graça, em troca de absolutamente nada, simplesmente porque, talvez, se interesse pelo que te digo, pelos assuntos que eu exploro, pelas reflexões que eu faço pra minha própria vida. Estamos aqui, dividindo nosso tempo, sem nenhuma pretensão inicial de que isso seja lucrativo ou moldado pra se adequar à qualquer fórmula mágica de fama, lucro ou algo do tipo. É apenas eu escrevendo o que penso, ciente de que, como milhões de outros usuários, provavelmente, nunca viverei da renda ou fama que esse conteúdo possa, eventualmente, me gerar no futuro.

Posso te dizer com tranquilidade de que eu escrevo por aqui há 3 anos e nunca recebi um único centavo com isso, mas mesmo assim gastei muito dinheiro do próprio bolso pra continuar conectado à internet e com um computador ativo. O mundo de coisas que a gente escreve também é baseada nos livros que compramos, nos filmes pagos que assistimos, nos sites da internet que só visitamos graças ao pagamento do boleto mensal do provedor de internet. Nada disso é de graça. Pagamos muito por tudo isso. Somos, antes de tudo, usuários consumidores e, com alguma sorte (ou um investimento profundo), nos tornaremos criadores de conteúdo. Mas, não temos que ficar à espera disso, porque quem cria expectativas, sempre se frustra quando não acontece o que esperava. O melhor que podemos fazer na internet e em toda a vida, é vivermos o momento com sinceridade, cutucar e ampliar nossa própria personalidade, descobrir um mundo ao nosso redor e evitar que nossa vida se torne um incessante trabalho, principalmente se esse trabalho não lhe for remunerado e você ainda tiver que desembolsar uma grande quantia pra se ver conectado, tentando, esperando e, talvez, não vendo nada disso acontecer.

Apesar de tudo isso que eu escrevi, não significa que não podemos apoiar e compartilhar os conteúdos daqueles que gostamos. Há pessoas incríveis na internet, produzindo informação, cultura e entretenimento, por vezes à troco de nada e outras vezes por meio de financiamento coletivo. Hoje em dia com as ferramentas de pagamento para projetos, diversas mídias e pessoas captam colaborações de seu próprio público, pra que continuem a fazer o que elas fazem. Essa é uma maneira interessante de incentivar e tornar possível ou mais viável que pessoas pequenas, sem muita fama ou completamente invisíveis, possam ser reconhecidas. É muito mais realista que muita gente doe um pequeno valor que não interfere em nada no final do mês, mas que quando somado por todos os que apoiam, geram algo expressivo para a pessoa apoiada. Essa equação sim faz sentido, é possível e totalmente recomendável. Ajude as pessoas e projetos que você gosta. E isso nem precisa ser uma ajuda financeira. O simples fato de você se engajar por uma mídia, comentando, absorvendo, compartilhando e recomendando, às vezes vale muito mais que qualquer quantia. Nem tudo na vida é comércio. Muitas pessoas querem apenas serem ouvidas pra levarem uma mensagem adiante, tentar promover alguma mudança no mundo ou se sentirem mais leves socializando e se entretendo com as possibilidades.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Saudade ou tranquilidade?

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Um pouco de saudade faz bem, mas, tal como o fiapo de um tecido, nunca sabemos quão longo será, até que tenhamos terminado de puxar. Se envolver numa memória de saudade é sempre um risco. Começamos com um pensamento curto, como um flashback e ficamos mastigando isso como se estivéssemos novamente naquele cenário, naquele tempo. Vários são os dias que eu sou tomado por lembranças do passado, mas, feliz ou infelizmente, elas são muito curtas. Na minha memória, as pessoas se converteram em pedaços isolados de cenas. Certamente as mais marcantes, tanto boas quanto ruins. E mesmo que as cenas logo se acabem, o sentimento pode durar muito mais. Isso é parte do que é a saudade.

Tenho saudade dos lugares onde dancei, dos bares onde bebi, das risadas que dei, das companhias com quem dormi, os lugares por onde viajei. Tenho saudade de mim mesmo quando eu era mais jovem, mais vivo e mais inteiro. Saudade também pelos livros que li, os filmes, as madrugadas, os momentos sozinhos dirigindo na estrada e os apartamentos-portais que visitei e assim os apelidei, de forma humorada, porque neles eu me transportava pra outros mundos e realidades, enquanto perdia a noção do tempo. Percebo que a saudade tem um componente dramático, feito de incerteza. Não sabemos se vamos experimentar novamente aquelas realidades e, talvez, por isso nos apegamos aos momentos que já vivenciamos. É a tentativa de continuar a obter prazer com o que já não está presente além da mente.

Mas, saudade demais machuca e nos deixa mergulhados em uma realidade que vicia. Quanto mais olhamos pra trás, mais abandonamos o presente. Se nos entregarmos ao saudosismo, sem adicionar novas realidades, corremos o risco de paralisar a vida e sobreviver apenas de memórias que nunca saciarão nossa fome. A saudade é um desabafo gritando para a linha do horizonte nossa vontade de que tudo se materializasse na nossa frente e que vivêssemos tudo aquilo outra vez. Saudade é, sobretudo, um sentimento não resolvido, que está nos perfurando de forma recorrente, até que tenhamos mais furos do que partes pra serem furadas. O excesso de saudade elimina nossa própria pessoa da equação e nos faz dependentes de nossas próprias memórias. Talvez seja válido dizer que a saudade é como a abstinência por uma droga. A crise vem porque já estávamos viciados e ao não ter aquilo de que somos dependentes, ficamos transtornados, sem saber lidar com a realidade nos dizendo ‘não’.

É verdade: tenho saudades. Mas, antes de tudo, tenho saudades do tempo em que eu ainda não tinha saudade alguma. Houve esse tempo, onde eu era apenas alguém projetando minhas expectativas sobre o futuro, na maior inocência, podendo, apesar do mundo, viver o momento presente da época, sem me preocupar se amanhã algo me tiraria a paz, me faria falta ou algo assim. Essa saudade é uma saudade diferente. É querer voltar no tempo, mas não pra correr atrás dos nossos vícios e desejos mal resolvidos, mas sim nos livrarmos de tudo isso e sermos apenas alguém que aprecia o exato segundo de algo, sem se perguntar mais nada. Quem, hoje em dia, pode se dar ao luxo de dizer que vive dessa forma?

Quanto mais o mundo se atropela à caminho do seu estado insustentável final, mais nos vemos dependentes de uma salvação, de algo que nos dê um mínimo de prazer, um pingo de dignidade, uma faísca de alegria e uma migalha de tranquilidade. Estamos fugindo do futuro porque percebemos, desde sempre, que estamos no caminho errado para um destino que não vale nem ao menos descrever. Estamos aficionados por qualquer exceção que o mundo possa nos prometer. Se não podemos voltar no tempo, queremos que o momento presente seja nosso novo vício. E disso também surgem problemas, pois continuamos dependentes de um prazer que parece não vir de lugar algum. Estamos sempre idealizando cenários onde nossa vida seja menos dolorida, mais humana, mais divertida e mais sólida. Mas tudo não passa de desejos e sonhos. São planos que não sabemos sequer como começar a concretizar. Estamos naufragando num mar gelado chamado ‘sociedade’, enquanto olhamos ao redor procurando uma boia, um pedaço de terra firme, um barco ou qualquer coisa que nos prometa mais que a mesma água fria.

Olhamos as redes sociais atrás de novidades e ficamos engajados nesse sistema de cliques e comentários, como se algo pudesse brotar no meio da tela e nos estender a mão. Agarrados ao celular, estamos tendo nossa energia mental sugada, pela constante atenção que damos à inúteis notificações. Sua operadora de celular tem mais 5 novos SPAMs na caixa de mensagens, suas redes sociais querem te avisar que alguém fez uma publicação e que talvez você possa se interessar de rever seu próprio conteúdo de 10 anos atrás. Talvez, o abismo que a sociedade atual está ainda não tenha nome, mas, certamente, tem a internet como principal cenário. Não que a vida offline seja menos problemática, mas justamente porque toda ela está representada dentro da internet. O que acontece no mundo lá fora é a mesma coisa que a internet está replicando de inúmeras maneiras, incluso os excessos, as mentiras, as disputas, as guerras, as mazelas, os discursos de ódio, as ilusões e fantasias, as crises psicológicas, sociais e políticas. A internet se tornou o lugar onde vamos para viver um segundo round da mesma realidade. Assim, torna-se compreensível alguém sentir saudade.

Estamos esperando por uma trégua, mas o mundo não parece minimamente pronto ou interessado pra nos conceder. Temos que nos aliviar das dores com as próprias dores. Temos que aprender a sentir prazer com aquilo que só machuca. É como se tivéssemos transformado a vida num jogo sadomasoquista. Queremos ver até onde conseguimos apanhar ou bater, antes que a vida nos destrua de vez. Assim como a saudade revela nosso vício por um prazer inalcançável, esse novo modelo de vida na internet também nos faz entrar em conflito por ideais de sociedade e autorrealização que estão, ao meu ver, incoerentes com o que hoje é praticado pelo usuário padrão.

Um dia desses estava conversando sobre a vontade de largar tudo e ir viver isolado. Como seria o mundo distante das cidades, das pessoas e, claro, da internet? Que impactos positivos teria ao viver como um eremita ou como um monge budista? Por mais repentino que isso pareça, esses pensamentos frequentemente pulsaram em mim desde a adolescência. Penso no que as pessoas ganhariam se deixassem de lado todas essas construções viciadas de sociedade, pra ir viver, novamente, o sentido puro das coisas, contemplando o momento, sem pensar no passado ou no futuro. Acho que, assim, deixaríamos de ter saudade e viveríamos muito melhor. Talvez fosse de grande ajuda para a ansiedade, depressão, crises existenciais, brigas, intrigas, conflitos sazonais, síndromes, medos, fobias, inseguranças, vícios, dramas e tudo o mais. Ou, talvez, tudo isso seja apenas especulações e mais idealizações que podem nunca se concretizar.

Será que todo o caos no mundo é causado por um enorme equívoco chamado ‘sociedade’ ou será que ainda há esperança de construirmos uma sociedade justa, digna e feliz, desde que escolhamos os modelos certos? Nos apontam como seres sociais o tempo todo, mas talvez nossa verdadeira habilidade seja de buscar nossa paz pelo importante exercício de ficarmos sozinhos. Poderíamos, tentar trilhar um caminho com menos estrutura e mais espontaneidade, menos planos e mais sinceridade, menos dramas e mais felicidade. Quão longe chegaríamos em um modelo assim? Essas reflexões surgem porque todo aquele que um dia sentiu saudade, ficou sequelado ou, pelo menos, com uma cicatriz. A dor de ter vivido dias melhores e se perceber defasado, num mundo que não faz pausas é fruto de uma percepção que pra alguns é real e pra outros é subjetiva. De certa forma, não perdemos nada, exatamente. Não somos donos do nosso passado, nem mesmo da nossa vida. Um dia morreremos todos e teremos que aceitar esse desfecho. Não estamos no controle de nada e cada dia que passa estamos mais próximos do nosso próprio fim. Superar as perdas e aceitar construir novos momentos é um caminho possível que ressignifica certos conceitos, muda nossa perspectiva de vida, muda nossas sensações e se não apaga as memórias, pode, ao menos, torná-las menos dolorosas ou até mesmo inofensivas. Pra viver os benefícios de uma sociedade, somos obrigados a viver também uma lista interminável de prejuízos.

Será que essa é a deixa para substituirmos a pesada saudade por uma necessária tranquilidade? Não era exatamente isso que tentávamos alcançar com a própria saudade? Se simplesmente pararmos de esperar pelo que não volta, já encurtamos nosso caminho, indo diretamente para aquilo que já sabemos que nos faz bem agora. No final das contas, o que queríamos não era exatamente nos sentir vivos e despreocupados? De que outra forma podemos alcançar esse objetivo, se ficarmos presos nesse padrão de sociedade? Eu não vejo futuro algum em entrar em conflito constante, pra terminar a vida sem experimentar os resultados dos meus esforços. Eu quero viver o benefício hoje, porque depois de morto, nossos esforços só terão serventia para os que vierem depois. Se por um lado esse pensamento parece um tanto egoísta, por outro, é verdade que as pessoas podem aderir à mudança da percepção subjetiva por elas mesmas também. Para que não tenhamos que pensar nem no passado e nem no amanhã, talvez devêssemos deixar a escolha pela mudança de vida para cada indivíduo. Você escolheria se isolar da sociedade? Valeria a pena ficar pra ver algum modelo organizado de coletivo que pudesse entregar dignidade, tranquilidade e felicidade?

Mesmo que não tenhamos uma resposta definitiva, precisamos ter esse assunto na mente, se quisermos ser decentes com nós mesmos e com o resto da humanidade. O indivíduo que não tem dúvidas sobre as dores pessoais e alheias, não está se debruçando o suficiente no tema, o que denotaria uma falha primordial de caráter e/ou uma profunda deficiência no senso de humanidade. Enquanto vocês pensam um pouco mais sobre a vida individual e coletiva, eu vou tentar viver um dia diferente, pra ver se algum insight surge pra melhorar minha perspectiva de vida. Não me desejem sorte, nem morte. Me desejem uma vida bem vivida.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | O navio está partindo.

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Nos acostumamos com o cheiro da nossa própria casa e nem percebemos como ela destoa de qualquer outro lugar, até que visitamos alguém e sentimos o cheiro característico de lá. Até a comida tem cheiro diferente. Pode ser o mesmo prato que você costuma comer, mas cheira diferente. Deve ter algo impregnado nos móveis, nas panelas, na transpiração dos moradores. A minha casa tem cheiro próprio, como a casa de todo mundo deve ter.

Para quem é fumante, por exemplo, acho que já não percebe o cheiro de cigarro permeando tudo, desde os poros da pele até a roupa e as paredes. O mesmo pode-se dizer de quem tem animais de estimação. A maioria dos seres é treinada desde o nascimento a reconhecer os cheiros familiares e a comparar com qualquer outro cheiro diferente. Os cheiros conhecidos desde o começo representam uma certa segurança, enquanto que os cheiros diferentes, vem de fora, são estranhos, são potenciais ameaças e, portanto, nos incomodamos com eles.

Todo mundo já ouviu falar da predileção que as pessoas possuem pela comida da mãe, da avó ou de quem as criou. Somos alimentados por esses temperos e cheiros desde o nascimento. Convivemos nesse ambiente e nos acostumamos com esse padrão. Torna-se o novo normal. E a memória afetiva traduz isso na forma de predileção e prazer pela comida ou cheiro dessa origem. E tudo isso soa um pouco estranho, pois o sal é similar pra todos, tal como a pimenta ou outro ingrediente qualquer. Mas cheira diferente, tem gosto diferente. Deve ser o modo costumeiro de cozinhar, o odor impregnado no fogão, na madeira dos armários, no teto da casa e sei lá mais o que.

Ainda mais estranho é que, apesar de notarmos o cheiro e sabor característico da nossa casa e de outras casas, quando vamos à um restaurante, parece que tudo é neutro. Claro que as coisas tem cheiro e sabor, mas, de alguma forma, parece que chega à um consenso que agrade à todos os públicos, afinal é isso que se pretende quando se atende diferentes famílias, acostumadas com o cheiro e sabor de suas casas ou da mesma comida desde a infância. Talvez a constante limpeza dos ambientes impeça qualquer um dos cheiros de impregnar pela repetição, pelo acúmulo. E isso explica boa parte do sabor das chapas engorduradas dos botecos.

Repetição parece ser o que garante a impregnação do cheiro e o reconhecimento pela memória olfativa. São tantos sentimentos que voltam à tona quando reconhecemos um perfume de alguém. Quando me acostumava por tempo suficiente com alguma companhia, certamente é porque havia sintonia com o cheiro da pessoa. Isso é parte da chamada ‘química’. Algumas pessoas sequer usam um perfume, mas todas elas tem um cheiro próprio, único. E quando gostamos, nos conectamos. Talvez, em última análise, gostamos das pessoas porque elas nos trazem prazer pelos diversos sentidos humanos. A voz de uma pessoa, o cheiro, a textura da pele e tudo o mais, vão compondo uma zona de conforto, onde nos sintamos em segurança, protegidos numa bolha bem pequena. Nosso refúgio se torna nossa casa, as pessoas a quem nos conectamos. Pra muita gente, talvez, se desconectar desses cenários e pessoas é como uma ameaça.

Estamos todos buscando qualquer referência de segurança, por trás de um abraço, um olhar, um som, um cheiro, um sabor, um modo de fazer as coisas, um estilo visual. A sociedade começa a se separar em tribos desde sempre, buscando o convívio com os seus. É assim na formação de famílias, clãs, vilas, cidades, países e planetas. É assim também nas culturas e subculturas, nos nichos de música e estilo de vida. Eu, por exemplo, estou sempre em conexão com a atmosfera de onde eu passei a maior parte da minha vida, dos bares e casas noturnas que frequentei, das pessoas que conheci, das músicas que ouvi, das roupas que vesti. Mesmo que estejamos no ano de 2020, ainda é recorrente a necessidade de uma atmosfera dos anos 80. E como é bom ver as pessoas vestindo preto pra todo lado, uma predominância de coturnos, franjas em linha reta ou um corte em V e todos aqueles detalhes comuns no meio gótico, pós-punk, rock e afins.

Somos seres sociais, mas somos seres que buscam uma específica atmosfera. Estamos debaixo do mesmo céu, aparentemente, mas na verdade nossas bolhas nos separam completamente para dentro de realidades onde tudo é muito nosso e muito nós. Frequentadores assíduos de certos lugares se tornam parte do lugar, seja enquanto vivos ou mesmo depois de mortos. Inúmeros casos são vistos e contados de desencarnados que permanecem no mesmo lugar habitual, atrás de algo que reconhecem, gostam e/ou precisam. Às vezes a droga, o álcool, a energia específica das pessoas ou, simplesmente, aquela memória afetiva. Definitivamente, nossa consciência ultrapassa nosso cérebro. Por mais que se apague a parte física dessa equação, tudo já está enraizado na própria alma ou consciência, dentro e fora do corpo. A consciência não depende da matéria, mas é a matéria que depende da consciência.

Quanto tempo será que leva para nos acostumarmos com novos lugares, novas pessoas, novas comidas e novos cheiros? Quando as pessoas falam sobre a depressão de quem vai morar em outro país e da saudade que esses sentem de casa, não será exatamente isso que existe por trás? Às vezes as pessoas se sentem desconectadas daquilo que reconheciam como seguro, prazeroso e confortável. Talvez seja preciso redescobrir os gostos, mudar o paladar e aceitar que a vida muda, que há outras memórias pra serem formadas. Claro que, diante da novidade, não vamos ter as referências maternais ou da infância. O passado não se repete se o futuro for diferente do habitual. Mas, assim como aprendemos a frequentar e gostar de lugares ao longo da nossa vida, podemos experimentar o prazer por essa constância em qualquer lugar que pudermos ficar tempo o suficiente. Deve ser isso que motiva coletivos a fixarem residência nos lugares.

Moramos quase sempre na mesma casa ou se mudamos de casa, tendemos a ficar no mesmo bairro ou zona. Raramente nos mudamos pra muito longe, raramente trocamos nossa zona de conforto por algo novo que ainda não nos diz nada. Mas, pra quem quer fugir das lembranças, mudar de ares talvez seja a melhor opção. Ao se desconectar dos mesmos objetos, dos mesmos cheiros, das mesmas paisagens, dos mesmos lugares e das mesmas pessoas, temos a oportunidade de nos ver, de alguma forma, um pouco mais livres, quase como se fôssemos uma folha em branco, limpos para sermos preenchidos com coisas que, finalmente, vamos escolher. Se nosso passado é imutável, ao menos nosso presente e futuro podem ser construídos de um jeito diferente.

Mudar é importante, nos dá energia de organizar a vida do nosso jeito, descobrir que outra vida podemos ter. Eu estourei a minha bolha desde muito cedo e, à cada vez que uma nova bolha se formava, eu a estourava. Nunca permaneci muito tempo em lugar algum, porque estava tentando me encontrar. E quando eu percebia que não estava entre os meus, eu me afastava e seguia sozinho até outra bolha começar a se formar. O motivo pelo qual nunca me encontrei profundamente em nada e ninguém, talvez seja por causa dessa ruptura desde cedo. Por não ter um padrão a ser mantido ou perseguido, nunca encontrava algo que se encaixasse, pois não havia um padrão determinado para encaixe. Sem essa referência do que eu deveria encontrar no mundo pra me sentir confortável, percebi que não tenho que procurar isso nas pessoas ou nos lugares, mas, construir eu mesmo, meu padrão desde o zero. Assim, meu mundo é muito meu e eu sou muito do meu mundo. E quando o mundo parece demasiado vazio, não é de todo ruim, pois podemos preencher com qualquer coisa que quisermos. Sem vícios e sem apegos, o navio não fica preso no porto, nem compelido a percorrer uma mesma rota predefinida. Um navio que não está preso, nem programado, viaja pra onde a correnteza levar e pra onde impormos alguma direção. Cabe à mim escolher e é só nessa possibilidade que eu deposito todos os resquícios de esperança. Vamos aguardar e ver.

Rodrigo Meyer – Author

Na contramão dos aniversários.

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Pra muita gente, aniversários são, talvez, uma das únicas datas festivas do ano todo. Pra mim, soma-se com o Natal e as festas de Ano Novo como igualmente incômodas. Nunca fui alguém que me sentisse compelido a comemorar nenhum desses eventos. Ao meu ver, não há nada de fato pra se comemorar, mas pra se lamentar. São marcos anuais de um regresso e não de um progresso. Além disso, essas festividades, geralmente, são feitas para os convidados, porque os próprios anfitriões pouco ou nada aproveitam.

Tem anos que eu simplesmente nem me lembro da aproximação do meu aniversário. E, às vezes, quando calha de eu ter que relembrar da data específica, figuro pensando rapidamente sobre isso e logo esqueço. Esses dias, ao acaso, vi um bolo e isso me fez lembrar de festas, até que uma coisa levou à outra e acabei vindo falar disso. Aniversários são, pra mim, uma lembrança triste onde sou obrigado a pensar na quantidade de anos em que eu permaneci sobrevivendo e sofrendo, quando a única coisa que eu realmente gostaria de comemorar era o fim de tudo isso. Ter arrastado uma vida permeada por depressão, praticamente desde sempre, faz com que eu não consiga ter lembranças positivas de nenhum desses eventos, nem de mim mesmo. Assim, o que é que eu teria pra comemorar sobre o meu nascimento?

Muita coisa da minha infância parece bloqueada na memória. Eu sinto como se nem ao menos tivesse vivido em boa parte dos meus dias no passado. Em parte porque não houveram episódios marcantes, mas também porque muita coisa eu fiz questão de esquecer de todas as maneiras que estavam ao meu alcance. Ainda hoje consigo me lembrar de breves cenas, dos lugares em que morei, das pessoas com quem eu conheci e me relacionei. Mas são sempre muito breves e esporádicas na sequência de tempo. Junto com essa memória corroída ou bloqueada, sobrevivem algumas cenas incômodas da minha infância e adolescência que eu preferia não lembrar. Fico arquitetando o que eu diria numa sessão de terapia ou algo assim. Tenho tanta coisa que eu gostaria que se resolvessem, mas que já moeram minha vida há tantos anos, que, não sei mais se faz qualquer diferença agora.

Quase quatro décadas de existência e não tenho nenhuma perspectiva sobre o meu tempo restante de vida. É difícil prever essas coisas. Li e ouvi muita gente dizer que imaginavam que jamais passariam dos 30 anos de idade, mas cruzaram idades elevadas. O estilo de vida exagerado de algumas pessoas, na contramão das probabilidades, os permitiu levar uma vida ativa até os 50 ou 60 anos e alguns, surpreendentemente, passaram da casa dos 90 anos. Pra mim isso parece mais assustador do que positivo, mas nunca sabemos o dia de amanhã. Às vezes alguma coisa muda em nossas vidas e ganhamos vontade de viver.

Na infância, por mero formalismo, minha mãe organizava festas ou, pelo menos, fazia um bolo. Eu nunca fiz questão e até me sentia um tanto constrangido de ter que figurar nesses momentos. E isso foi se ampliando com o passar dos anos, até que as festas deixaram de ocorrer, o bolo acabava sendo ignorado por mim na geladeira e tudo ia se enquadrando como se fosse um dia comum, como todos os outros do ano. Lembro que, às vezes, tudo isso era substituído por um dia de pizza em casa e, quase sempre, isso só representava alguma coisa diferente pra comer, seguido de longas horas de sono e isolamento. Quando eu comecei a trabalhar, pude comprar, esporadicamente, alguns presentes pra dar pra mim mesmo. Não importava se era meu dia de aniversário ou qualquer festividade. Se eu tivesse algum dinheiro sobrando em qualquer época do ano, eu saía pra comprar filmes, livros, alguma roupa, comida e bebida. Meu mundo era só eu, porque eu já não fazia parte do mundo há muito tempo.

Provavelmente trabalhei na maioria dos Sábados, Domingos e Feriados, que era quando as pessoas podiam pausar seus trabalhos pra vir participar do meu trabalho de Fotografia. Também estive à trabalho ou diversão em diversos momentos pelas noites de São Paulo, eventos, viagens, manifestações. A Fotografia me acompanhava todo o dia e dava algum sentido pra minha existência, então, talvez, eu devesse comemorar meus anos trabalhando nela. Se pude me realizar um pouco em alguma coisa nessa vida, certamente foi na Fotografia. Desde que pausei a atividade, a sensação de ser desnecessário na vida aumentou profundamente. Passei a escrever e a fazer outros tipos de arte, mas só o tempo irá dizer o que é que isso tudo tem potencial de ser. Tudo parece um tanto medíocre e sem propósito. A verdade é que muito do que faço fora da Fotografia é uma tentativa de desabafo. Já tentei trabalhar com muitas coisas, mas a verdade é que percebo que não tenho o necessário. Estou apenas dando o melhor de mim, mas pra uma pessoa destruída esse ‘melhor’ ainda é muito aquém do necessário.

Sim, isso me frustra, mas também me faz acordar pra realidade. É importante percebermos quem somos e do que somos capazes. Nada de grandes sonhos ou de supervalorizar a realidade. Assim como a vida e os tais aniversários, não são de fato grande coisa e, às vezes, a melhor forma de lidar com eles é ignorá-los. Nada de especial pra se comemorar, só mais um dia errante entre quase todos do ano inteiro. Dizem que um ano é composto de 365 oportunidades, mas se isso for verdade, certamente minha depressão me obriga a desperdiçar todas elas, porque não consigo aproveitar um dia sequer pra fazer algo que me satisfaça. Sei que estou quebrado por dentro, que minha alma está apagada. A cabeça desistiu de funcionar e já vejo novas consequências terríveis desse tempo todo em que fui esmagado, como se a cada novo ano eu tivesse um peso extra nas costas por não ter me superado no presente, nem ter superado o passado. Um histórico terrível é pendurado na minha frente todos os dias, me fazendo lembrar que estou chegando em quatro décadas de vida, sem ainda ter tido nenhum bom motivo pra comemorar.

Me acostumei a viver sozinho em meu mundo, passando reto pelos dias, bebendo, dormindo e, com sorte, trabalhando. Isso provavelmente me fez ignorar não só os meu aniversários, mas também de esquecer completamente a data de outras pessoas. Frequentemente, só me dei conta do aniversário de colegas ou companhias quando já havia ultrapassado um ou dois meses do ocorrido. E, independente do quanto eu me importava com essas pessoas, lembrar de datas nunca foi algo que minha mente se acostumou a fazer.

Eu não quero parabéns, porque ‘parabéns’ se dá pra quem teve uma conquista. Também não espero por presentes, porque a única coisa que eu realmente preciso e gostaria de receber é saúde mental e perspectiva de vida. Sem isso, nada do que eu pense, planeje ou faça, me trará sentido na vida. Acordo todos os dias com a vontade de voltar a dormir e o próprio sono já não me acolhe há vários anos. Me reviro na cama de um lado pro outro, desviando da dor física. Acordado ou dormindo, estou sempre perdendo. Nessa guerra não existe vitória e a única forma de sairmos dela é confirmarmos nossa derrota diante da vida, aceitando morrer.

Com alguma sorte eu vou levantar um dia e buscar medicação. Faz enorme diferença pra mim saber quem é que vai me atender. Enquanto isso, as pessoas que supostamente lutam do mesmo lado, ignoram, não possuem tempo ou interesse de responder. Fico sem ter esperança pelos próximos passos, sem respostas pra quem eu deveria recorrer. Quem detém a resposta, parece nem saber que eu existo. Há vários dias, talvez mais de um mês, escrevi pro Conselho Federal de Psicologia, buscando por informações que me ajudassem a filtrar um profissional. Mas nem ao menos sei se fui lido, porque nunca tive qualquer reação ao contato. Se essas são as pessoas que representam a Psicologia no Brasil, já dá pra imaginar o tamanho do buraco em que estamos. Se já sabíamos que não havia com quem contarmos entre as pessoas comuns da sociedade, fica ainda mais difícil quando descobrimos que nem mesmo os profissionais podem nos ajudar.

Os dias passam e a vontade de aceitar ajuda passa junto. Um dia estamos dispostos a escrever uma mensagem e no outro parece que aquilo já não faz mais sentido nenhum. Um dia estamos pensando que poderemos nos salvar com a medicação e depois entendemos que nada é tão simples assim. Existe um caminho constante nesse vai e vem, que é típico da depressão e que nos coloca à andar em círculo, sem mudar coisa alguma nos nossos dias. Aquilo que realmente seria importante e urgente, facilmente deixamos de lado, enterramos debaixo do tapete, varremos atrás de uma garrafa de bebida, uma noite de sono, um prato de comida. E vou empurrando meus dias, pra mais um ano de sobrevida, enquanto as pessoas se perguntam porque é que não estou comemorando meu aniversário. São explicações que nem mesmo gostaria de dar e que se juntam à inúmeros outros anexos de frustrações e memórias inglórias. Passei mais tempo explicando, justificando e desabafando minha sobrevida, do que buscando qualquer tipo de ajuda efetiva que me desse a honra de conhecer o que é viver. Já estive medicado e reerguido lá pelos meus 20 anos de idade, mas alguns anos depois eu já não sabia mais o que era viver.

Já não desejo ‘feliz aniversário’ pra ninguém, porque ‘feliz’ é um conceito que já virou mitologia na minha mente. Espero que as pessoas encontrem algum conforto e tranquilidade ou que obtenham sucesso em algo que elas queiram ser, ter ou fazer. Mas sempre me senti desconfortável em desejar felicidade em aniversários, festas de Natal ou Ano Novo, porque tudo isso parece uma grande ficção e falsidade, em especial no mundo destruído em que vivemos, independente de ter ou não depressão. Acho que o mundo precisa ser mais honesto, mais direto, mai realista e dizer aquilo que realmente sente, o que deseja, o que de fato acredita. Não vamos chegar à lugar nenhum alimentando a egrégora da mentira com todos esses depósitos de palavras, símbolos e energias, enquanto, na prática, estamos nos dizimando, todos os dias, em gestos, palavras, pensamentos, sentimentos, tudo do ruim e do pior, apodrecendo o mundo com um modelo de conduta que se opõem diametralmente à felicidade e cava fossos cada vez mais fundos, insustentáveis, cheios de violência, dor, agonia, ansiedade, miséria, guerra, conflito, preconceito, mentira e tudo aquilo que as pessoas fingem que não sabem, mas praticam de perto, e magistralmente, todos os dias.

Rodrigo Meyer – Author

Custa caro ser feliz.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para reutilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Sentei pra ouvir música, como há várias semanas eu não ouvia. Mas não pude sentir o prazer que isso me dava anos ou décadas atrás. Algo em mim continua desligado, desconectado ou quebrado. Algo em mim grita silêncios, espalha tédio pelo meu dia. Esse algo me faz sentar na mesma cadeira todos os dias e não me deixa sentir descansado. É alguma coisa que me tira da cama para, logo em seguida, me jogar de volta. É algo que me tira o prazer de comer, a vontade de abrir as janelas e às vezes me desencanta até de abrir os olhos. Esses dias o chuveiro de casa queimou e a frieza da água já não me surpreendeu. Talvez, em um contexto normal, eu até reclamasse do azar, mas a verdade é que já não me importo. O chuveiro está queimado, a janela emperrada, a porta empenada e o portão enferrujado. Tudo combina bem com as dores nos joelhos, os olhos cansados, o peso nas costas, a angústia no peito, o frio nos pés.

O mundo parece corroído, lidando com uma vida enferrujada, o trabalho precário, o desemprego, o despejo, a miséria e a falta de perspectiva. Somos um mundo doente, tentando mover as juntas, antes que elas se acabem no atrito. Estamos aflitos e de aflição entendemos bem. Somos uma sociedade vendida como ‘feliz’ por muitos, mas que, na verdade, não está nada bem. Que felicidade é essa que todo ano bate recordes de suicídio, assassinatos, ódio de todo tipo, pobreza, desafeto e desconfiança? Quem é que está feliz de perder a vida todos os dias, de se vender por um prato de comida e não ter nem mesmo garantia de aposentadoria? A felicidade, ao contrário do que dizem os farsantes egoístas, não é uma simples escolha do indivíduo. Dizer tal absurdo, no alto dos seus privilégios sociais é só mais um motivo, entre milhares de outros, pra ninguém abaixo conseguir alcançar o tão desejado caminho da felicidade. Essa gente debocha da dor alheia e difunde a ideia, em mídia aberta, de que o caos não existe e que tudo só depende do olhar que damos às coisas. Nada pode ser mais desonesto e criminoso do que incentivar o conformismo entre os que mais sofrem na sociedade.

Essa gente mesquinha, egoísta, psicopata e desacreditada de todo e qualquer valor na vida, vive pelo dinheiro, poder e fama, pois é tudo que lhe resta na cabeça. Atropelam multidões apenas para apanhar seus próximos centavos. Enquanto isso, eu sento pra ouvir música, mas não sinto mais prazer algum. Também não tenho esperança pelo próximo dia de trabalho e nem sei o que faço nessa sociedade. Talvez eu acorde de um grande pesadelo, mas, por enquanto, tudo me parece real e profundamente amargo. Me enojo pela manhã de ver bandidos fardados abertamente nazistas, debochando das repercussões midiáticas das manifestações antirracistas que percorreram os Estados Unidos e o mundo, repetindo diversas vezes o mesmo ato criminoso que desencadeou tais manifestações. A escolha proposital do momento e dos detalhes de cada ato desses vermes fardados, deixam claro a referência e a intenção. Por isso e por muito mais, eu me sento pra ouvir música, mas já não sou capaz. Eu tento, aproximo os ouvidos, presto atenção, mas nada daquilo cativa a minha mente.

Você que me lê, talvez ainda não esteja do jeito que eu estou. Talvez ainda tenha brilho nos olhos, prazer pulsando pelos poros, virtudes a serem contempladas e dias divertidos à sua espera. Talvez você tenha esperança pelo momento em que essa pandemia propositalmente descontrolada chegue ao fim. Talvez você não adoeça sua cabeça de ver o genocídio na rua ao lado, os cemitérios entupidos e os hospitais colapsados. Talvez você não tenha apreço por nada disso, nem se importe de ver o mundo um pouco mais deteriorado, menos útil e menos mundo. Talvez seja só eu, sozinho no meu imaginário, definhando de dor, de infelicidade, sem saber pra onde vou amanhã, por não ser um daqueles desocupados com indigno título de filósofo ou doutor que brincam de política ao lado de fascistas em um país internacionalmente humilhado, devastado, miserável e indigno.

Sou, talvez, junto com milhões de outros brasileiros, a estranha exceção, a minoria que soma mais de 70% da população, o caso isolado que se vê sempre em toda esquina e a opinião meramente pessoal que, coincidentemente, é a mesma de um imenso coletivo. Dever ser um erro da Matemática, uma falha nas leis da Física e uma ruptura desconhecida com a “verdadeira realidade”. Talvez eu esteja feliz e não saiba, mesmo quando me sento pra ouvir música e sinto absolutamente nada. Por alguma razão misteriosa, olho pela janela e nada mais me importa, entro debaixo do chuveiro de luz apagada, pra não ofuscar essa suposta felicidade brilhante no banheiro. As cortinas estão fechadas, mas deve ser só ornamento pra festejar a euforia que dizem que sinto, mas que não consigo sentir. Deve ser a felicidade que chega sem chegar, a saúde pra nomear doenças, a vida pra representar a morte e assim por diante.

Debaixo das fardas e paletós, sujos de sangue, pólvora e cocaína, a imundice contamina mais que qualquer epidemia. Tem muito dela desde sempre e nos últimos anos foi ainda pior. A imundice se tornou o objetivo de uma classe tão vazia quanto esse mundo sem felicidade alguma. É desse vazio torto de uma parcela doentia, que o mundo se vê apodrecido, morto e sem esperança. Esse ambiente podre no mundo se torna o próprio gatilho que ativa as munições mais pesadas contra a qualidade de vida, a saúde mental, a dignidade humana, a vontade de viver. Nenhuma dessas doenças e mazelas chegam ao acaso e não são nada fáceis de se vencer. Quem me dera se fosse simples como apenas decidir ser feliz, quando nem mesmo a realidade física e química do meu corpo correspondem às alucinações e à falta de caráter desses estercos falantes. Permitir que os imundos tracem qualquer parecer sobre a felicidade da sociedade é dar palco pra quem não deveria sequer estar ocupando espaço físico ou simbólico em canto algum.

Hoje eu acordei, me sentei pra ouvir música e não pude sentir nada. Minha vida está corrompida há décadas e nos raros dias em que existiram sonhos, rapidamente sumiram pra dar espaço pra constante frustração e desejo sincero por vingança e revolução. O tempo passa e ainda estamos na mesma batalha. Batendo todo dia na mesma tecla, contra a alucinação coletiva, contra a barbárie do capitalismo e de sua versão final, o fascismo. Enquanto eu estiver vivo, vou acordar lembrando do que eu preciso, do que eu sinto e do que eu já não consigo mais sentir. Vou me lembrar de cada nome, cada detalhe, cada momento e chegarei cobrando um alto preço pela minha realidade roubada, meus anos de vida não vividos, minha saúde deteriorada e minha raiva acumulada. Só por ironia, me lembrarei de aplicar pesados juros, multas desproporcionais, impostos improdutivos e correções monetárias que façam ervilhas se tornarem o mais novo Universo em expansão. Vai ter poesia, drama, ficção, como toda boa obra de cinema, mas será tudo baseado em fatos reais, como a própria História nos convida para ver e fazer. Se forem necessárias as explosões, como costumam ser nos filmes de guerra, não me oponho. Que venham de todos os tons e megatons. Se um verme me diz que felicidade é questão de escolha, então eu vou dizer pra ele o que é que eu escolho pra me ver mais próximo de ser feliz. Que ele aguente o tranco, porque, como ele mesmo diz, basta assim decidir. Mudanças virão e eu não quero ouvir verme chorando de barriga cheia.

Rodrigo Meyer – Author