A complexidade de tudo.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Quando refletimos sobre um assunto qualquer, a primeira impressão é, quase sempre, a mais equivocada possível. Para exemplificar isso, vou fazer uma analogia. Se um indivíduo leigo olha para o céu noturno, ele pode se aperceber da presença do nosso satélite natural, a Lua, e ter a impressão de que o que vê é suficiente. Ao erguer sua mão, aqui da Terra, a Lua parece, facilmente, caber na palma da sua mão. Mas, se esse indivíduo se aproximasse de fato da Lua, ele iria perceber, à medida em que avança, que ela se tornaria substancialmente maior, até o ponto em que, mesmo ainda sem pousar em sua superfície, já seria impossível mantê-la inteira em sua mão. Ele se daria conta de que existe uma relação entre aparência, tamanho real, distância e/ou localização do observador, que transforma, visualmente, o objeto observado conforme cada combinação desses fatores todos. Assim, ele entenderia que objetos enormes, quando vistos de muito longe, parecem pequenos. E que aquilo que parece não abriga o total da realidade de um objeto, cenário ou evento. Faz-se necessário uma aproximação daquilo que se pretende observar e entender, assim como comparações entre o que já se conhece, para traçar uma regra que realmente faça sentido. Em resumo, observar e entender a realidade exige um conhecimento mais profundo que vai além das aparências, das primeiras impressões, etc.

Citada essa analogia e as devidas conclusões, imaginemos isso pra outras áreas, como o entendimento de pessoas, sociedades, ideias, ideologias, conjunturas políticas, econômicas, questões de saúde, relações culturais, a psicologia por trás de cada pessoa ou evento e tudo o mais que quisermos entender de verdade e não apenas nos aplaudirmos pelas nossas primeiras impressões, deduções rasas, equívocos e preconceitos.

O Brasil é um país em que, segundo os dados estatísticos apresentados na última notícia que li há um ou dois anos atrás, tinha cerca de 73% da população figurando na condição de não leitores. Pra piorar essa situação, o desgoverno atual, em 2020, está propondo a taxação adicional de livros. Ou seja, um país que já tem uma bruta crise econômica, com a maior parte da população vivenciando a pobreza e outros tantos retornando para linha abaixo da pobreza (a miséria), agora completa seu plano de devastação, barrando o acesso aos livros que sempre foram caros no Brasil, tornando-os ainda mais inacessíveis. Uma maneira eficiente de cortar o acesso da população à informação e cultura, na tentativa de remover o senso crítico. Os efeitos disso em médio e longo prazo, permitem uma destruição tal do intelecto da população, que, facilitaria e muito a disseminação de fake news (notícias falsas) ainda piores e de um empobrecimento do debate das questões sociais e pessoais, simplesmente cortando o raro acesso à qualquer área de assunto.

Nos últimos 5 ou 10 anos, o Brasil teve diversas livrarias fechadas, simplesmente porque não se sustentaram mais pela pouca demanda. Muitos autores, literalmente, passam fome com aquilo que recebem de direitos autorais ou de suas tentativas de monetizar suas carreiras em quaisquer outras plataformas. Já não haviam muitos leitores por conta da precarização da Educação e da sociedade em geral e pelos preços elevados dos livros que, muitas das vezes, tem tais valores justamente pra compensar a escassez de consumidores e tentar manter o lucro. Porém o efeito disso é o inverso. Quanto mais caro é o livro, mais inacessível ele se torna para a maioria das pessoas e, portanto, menos interesse essas pessoas terão em se aproximar desse universo. Por mais que você instigue nas pessoas o interesse pela leitura, se ela não puder comprar os livros, ela acaba se afastando desse meio.

Na minha infância, eu não tive condições financeiras de investir em livros e o pouco contato que tive foram com livros antigos que meus pais mantinham em casa, sem nunca adicionar itens novos. Os livros que estavam disponíveis para serem lidos eram, geralmente, informações obsoletas, formatos que resumiam conhecimentos gerais mal compilados ou alguns romances que pareciam ter sido escritos em outro século. Aquele típico conteúdo que a maioria dos sebos recusaria de receber mesmo se fosse doação. As raras exceções eu fiz questão de pinçar e preservar.

A televisão, naquela época, era puro entretenimento barato, feito pra ocupar o tempo e encantar adultos e crianças com a chegada das telas coloridas. Jornalismo, muitas vezes, era tão informal e desnecessário quanto é hoje em dia na maioria das mídias ou até mais. Internet não existia e revistas e jornais impressos eram, quase sempre, usados pra forrar o chão contra urina de cachorro e embrulhar objetos na mudança. Assim, olhar pra realidade lá fora era a mesma coisa que ver a Lua e deduzir que ela era pequena o suficiente pra caber na palma da mão. Tínhamos a percepção equivocada de que tudo era simples como pareciam para nossas cabeças desinformadas. Ter crescido curioso foi uma combinação de fatores improváveis. Neste sentido, posso me considerar a pessoa destoante na família. Enquanto descartavam a cultura e informação como se fossem puro lixo, eu tentava preservar e absorver aquilo que encontrava de novo, que me parecesse mais complexo, ter mais camadas de realidade ou significado.

Por uma imensa sorte do acaso, eu cheguei a ter condições de comprar alguns livros pra ampliar minha realidade nos assuntos que eu me sentia mais envolvido. Adorava ler e escrever, mas se eu levasse um caderno de anotações pra viagem em família, isso se tornava um ponto negativo aos olhos dos outros, em especial o meu pai. Na cabeça de quem tem o espírito amargo e a cabeça vazia, raciocinar era quase um crime. Como esperar que desse cenário de ignorâncias geradas e incentivadas, pudesse nascer qualquer melhoria nas condições de vida, na percepção da realidade? Fica óbvio perceber que essas pessoas replicavam um padrão de ignorância e distanciamento da informação, de geração pra geração. Sair desse redemoinho destrutivo me exigiu curiosidade nata acima da média, um esforço gigantesco para me conectar com pessoas e conteúdos que pudessem me tirar da ignorância e a minha constante ajuda à mim mesmo em favorecer esses momentos através de, por exemplo, conversas com professores, contato com pessoa de bairros vizinhos, filtro sistemático dos conteúdos da televisão e aumento da prioridade de se pagar internet, por mais lenta e rudimentar que fosse. Também não foram poucas as vezes que tive que abarrotar meus colegas com perguntas sobre tudo o que eles já sabiam mais que eu sobre determinado assunto.

Muito do que eu conheci começou, literalmente, a partir de verbetes no dicionário e, então, buscando quaisquer referências sobre aquilo em qualquer lugar. Às vezes eu simplesmente lia a enciclopédia saltando de um verbete pra outro, conforme os assuntos que eram apresentados durante o texto. Se não haveria ninguém pra me incentivar a conhecer mais da realidade, eu teria que fazer isso por mim mesmo. Mas, ainda hoje, eu não sei dizer qual foi o fator propulsor dessa vontade e conduta. Eu poderia ter me acomodado na ignorância ao mesmo modo que outras tantas pessoas ao meu redor, mas algum fator, que ainda me é desconhecido, me levou à um desfecho diferente. Pra não cair na mesmas deduções rasas que eu evito, eu preciso olhar pra isso e tentar ver mais de perto. De longe, a primeira impressão sugere alguma característica especial nata, mas o que é que encontramos depois disso? Ainda não tive a oportunidade de me aprofundar nessas questões, mas conheço diversos outros casos em que as pessoas destoam da tendência de seus meios de convívio, dos padrões estabelecidos na família, na escola, na sociedade, no trabalho, etc. Sei, claro, que pessoas são diversas, mas nem sempre sei o que gera cada característica e contexto de um indivíduo sob essa tal diversidade.

Quanto mais eu aprendia sobre diversos temas, mais eu percebia que precisava entender melhor da composição das sociedades, das famílias, das relações, da psicologia por trás de tudo isso, das questões políticas, da História e, talvez, principalmente da própria antropologia, da biologia e de tudo que pudesse explicar a constituição do ser humano. Qualquer oportunidade que eu tinha de viajar, mesmo que fosse pra uma cidade ao lado, eu aproveitava cada segundo. Pra mim, observar a realidade era a principal ferramenta que me permitiria raciocinar à fundo aqueles temas, mastigando novos livros, novos blogs, novos artigos na internet. Visitei muitos sebos, aprendi idiomas, assisti muitos filmes. A internet me salvou, por muito tempo, da falta de esperança. Eu achava que, com o suporte dela, eu entenderia boa parte do mundo, incluindo os livros que poderia comprar a partir dela. Visitei livrarias e tive até a possibilidade peculiar de conhecer donos de editora e autores dos mais variados segmentos e estilos literários. Mas, nada disso me deu o que eu realmente precisava. Faltava nessa equação algo que me desse firmeza naquilo que eu aprendia. Eu que sempre fui autodidata, sinto muito orgulho de ter aprendido tanta coisa sem depender dos sistemas de ensino que eu tanto criticava. Pra mim, o distanciamento da escola e da faculdade, era visto como algo saudável. Porém, era conveniente para meus objetivos na vida, que eu os aturasse pra poder concluir formalmente essas etapas e ser diplomado. Terminei a escola e fiz faculdade, mas me decepcionei muito com a quantidade de tempo investido com pessoas que, infelizmente, nem sempre sabiam o que estavam fazendo ali. Algumas figuras, ganhando rios de dinheiro, chegaram a replicar inverdades baratas enquanto “ensinavam”. Isso só reforçou o meu desapreço por esse sistema de ensino, o modelo social que empurrava gananciosos ignorantes para cargos de professor ou mesmo para a execução dessas profissões todas em outros ambientes.

Por tudo isso que citei, fica fácil ver que o entendimento de qualquer assunto não esbarra só na falta de acesso aos livros ou à escolas e universidades. Em muitos dos casos, mesmo depois de percorrer esse imenso labirinto que, apesar de falho ainda é um privilégio, chegamos tropeçando na verdade. Como é que vamos aprender sobre o mundo, se nem os “profissionais” dedicados às suas especialidades, conseguem nos entregar, pelo menos, a verdade? Temos, então, que aprender a aprender. Temos que filtrar quem é que tem um ensino decente, um respaldo sincero de conhecimento, de intelectualidade, um aprofundamento técnico sobre o assunto e os detalhes em questão. Depois do bacharelado nas universidades, as pessoas podem seguir inúmeros outros níveis de especialização até que possam dominar com mais firmeza uma pequeníssima fatia do conhecimento. Enquanto o generalista entende superficialmente sobre tudo, o especialista usa do conhecimento abrangente como plataforma de salto para dentro de um detalhe. Só assim é que se consegue absorver a complexidade de determinada coisa.

Quando iniciei meus estudos de Fotografia lá pelos 20 anos de idade, eu já tinha contato com diversas outras artes e áreas de comunicação como a escrita, a pintura à óleo, a música (piano, teclado e órgão), mas nunca havia me sentido tão conectado com algo como foi com a Fotografia. Ela se tornou extensão de mim e por quase 20 anos eu desenvolvi essa atividade. Da mesma forma que o acesso à literatura foi escasso na minha infância, a Fotografia me parecia uma realidade de outro mundo, quando eu comecei. E de fato, ainda hoje, percebo que existe uma escassez de demanda por ela em toda a sociedade e que essa escassez foi reforçada com a chegada da internet. Assim como os programas de televisão e noticiários eram rasos e pouco profissionais, a Fotografia, nos últimos 10 anos, pelo menos, se transformou, magicamente, naquilo que ela não é: registro de imagens. E dizer isso para uma sociedade que está convicta da “verdade” que só é verdade na cabeça delas, é a mesma situação de tentar mostrar que a Lua, mesmo parecendo pequena, não cabe na palma da mão. Esse contraste entre a percepção superficial e o real conhecimento de algo é algo que gera um atrito social que desgasta demais as pessoas envolvidas. Se por um lado o leigo que acredita ter a verdade se sente incomodado com a crítica, por outro lado há quem domine o assunto e se sente incomodado com a destruição da verdade, de uma profissão, de uma possibilidade de existência e atuação.

Imagine você, por exemplo, que, da noite pro dia, começassem a propagar a ideia de que livros são simplesmente pesos de porta e nada mais. Imediatamente veríamos escritores e professores revoltados, tal como se tivessem dito para um astrônomo que a Lua não passava de um pequeno objeto menor que a palma da mão. Vivemos numa era de ignorância e, pior do que isso, numa era em que se incentivam as ignorâncias. Embora pareça cômico e exagerado as analogias feitas, na vida real, no cotidiano, em diversos outros assuntos as pessoas agem de igual maneira, tirando conclusões absurdas sobre algo que elas não entendem de fato. E pra onde caminhamos com a predominância dessa cultura? Vamos para um obscurantismo cada vez maior, perdendo qualquer chance de dignidade humana, pois onde o conhecimento é desmerecido em detrimento do avanço da ignorância, o mundo se torna não só mais raso, como mais incompetente para resolver todos os pequenos problemas pessoais ou coletivos. Esse é exatamente o cenário que fomenta mais pobreza, mais doença, mais miséria, mais estelionato, mais preconceito, mais golpe, mais violência, mais desesperança, mais guerra e mais desconfiança. A idade das trevas não levou esse nome por acaso. Hoje vivemos um obscurantismo talvez ainda pior, se considerarmos o ano em que estamos e os supostos avanços tecnológicos e sociais. Se tudo que temos em ferramenta não for utilizado para nos tornar pessoas melhores, mais livres e mais cultas, de nada terá servido. É por meio da lapidação do indivíduo que conseguimos remar na direção contrária do obscurantismo. Quando cada um de nós se recusa, individualmente, a endossar o retrocesso, formamos um coletivo que trabalha numa mesma direção. É esse coletivo que nos garante, apesar das diferenças, chegarmos em alguns consensos em benefício de todos nós.

A complexidade da vida passa, com toda certeza, pela complexidade do indivíduo. Enxergamos somente até onde nossa visão alcança. A complexidade das coisas muda conforme mergulhamos mais à fundo nelas. O indivíduo raso pode ver a vida como algo simples, mas aquele que se presta a ser um pouco mais curioso e estudado, logo descobre que nada na vida é tão simples como parece. As pessoas dedicam anos e mais anos de muito estudo, vivência e testes em todo tipo de área do conhecimento, incluindo o conhecimento do próprio ser humano, da mente, da Psicologia, da Educação, da Sociologia, etc. Um mundo que pretende ser mais fácil de ser vivido precisa, antes de tudo, priorizar que o maior número possível de pessoas sejam alfabetizadas e, mais do que isso, que aprendam a ter pensamento crítico e curiosidade por todas as coisas. Quando isso estiver arraigado dentro de cada ser, aí teremos uma sociedade vitoriosa que fará questão de eliminar a fome, a pobreza, as injustiças sociais, enquanto avança com eficiência no desenvolvimento tecnológico e cultural. Uma sociedade só se torna realmente emancipada, quando ela intenciona a qualidade de vida de seus membros, à começar pelos direitos mais essenciais de acesso à sobrevivência digna, o conhecimento e uma perspectiva de futuro.

Muitos dos que me leem aqui, provavelmente já sabem que eu tenho histórico de depressão. Tenho essa condição há muito tempo, mas, felizmente, estou tendo uma fase boa nas últimas semanas. Ter esse contato com a depressão por tanto tempo me fez perceber o quanto ela me privou da esperança por dias melhores. Então, uma sociedade que priva as pessoas dessa esperança, está, basicamente, causando um dano similar ao da depressão. Mergulhar pessoas num cenário onde elas sintam que não possuem mais espaço nessa sociedade ou nessa vida, é uma maneira de matá-las de dentro pra fora. Mesmo quando eu tenho picos de melhora da minha condição, eu sei que o mundo continua igual na maioria dos países. A crise social, política, ética e humana é proposital na realidade de quem exerce suas psicopatias para extrair lucro fácil e imediato de pessoas exploradas em situação precária de vida, sem sentirem o menor remorso por isso. Nada disso deveria ser novidade pra qualquer pessoa hoje em dia. Porém, na prática, há pessoas qua ainda insistem em abraçar seus próprios algozes porque, infelizmente, elas também gostariam de estar nesses postos se assim pudessem. Como disse Paulo Freire, “Quando a Educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”.

Aquele que não tentar desviar da agenda de idiotização das sociedades e desgovernos, estará fadado a viver em uma realidade potencializada para a destruição, para a infelicidade, para a dor, a violência, a indignidade, a falta de esperança, a extinção de qualquer fagulha de conhecimento que possam salvá-los das mazelas e dos acasos. Sociedades altamente evoluídas já se formaram no nosso mundo e, não foi preciso muito tempo pra que elas se degradassem e sumissem do mapa. Cazuza cantava “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”. Assim tem sido a humanidade com suas eras de destruição e ignorância tentando se reconectar com tecnologias e conhecimentos que já foram extirpados. Haverá um tempo em que as pessoas descobrirão novamente a Fotografia, o Jornalismo, a Política, e diversos outras áreas do conhecimento que hoje parecem tão artificiais e imprestáveis, que, talvez, nem devessem mais carregar os mesmos nomes originais. Na maioria dos países, as sociedades se tornaram qualquer coisa, no pior sentido do termo. A pessoas não só ses mostram racistas, fascistas e golpistas, como chegam a falar abertamente sobre tudo isso com profundo orgulho. Essas pessoas se tornaram aquilo que o mundo fez delas, ao deixá-las apodrecer na mais profunda miséria ética e intelectual. Ninguém que tenha estudado o mínimo sobre a realidade do mundo, aceitaria se deturpar de forma tão imunda, para extrair benefícios tão ilusórios. Só mesmo a psicopatia aliada ao apodrecimento da alma e do intelecto, podem explicar os rumos que o mundo tem tomado todo dia.

A pequena ponta do enorme iceberg que vemos já cheira podre o suficiente para odiarmos todo o resto. E quando pudermos observar a magnitude da origem de todo esse iceberg, nos especializaremos nas inúmeras questões imundas que são compostas das pessoas e ideias mais abjetas possíveis. Não existe beleza depois de certa profundidade na merda. É só falta de perspectiva, sufocamento, nojo e revolta. Esse caminho terá que ser percorrido em algum momento, pois como ele foi ignorado por tantos séculos ou até milênios, acumulou-se o suficiente pra que a maior parte dele se tornasse completamente intocada e desconhecida, mas que, pela ponta em que estamos vivendo hoje, sabemos que é nossa origem e que, por isso mesmo, precisaremos aprender tudo sobre ela se quisermos ter alguma chance de desvendar a complexidade da humanidade, da vida, do momento presente e nossas reais alternativas para o futuro. Ignorar esse nosso desconhecimento sobre o mundo só nos coloca em posição ainda pior, dando tiros cada vez maiores em nossos próprios pés. Ou você faz o necessário pra ajudar a si mesmo, ou estará eternamente lutando contra a maré e fracassando dia após dia, ano após ano, geração após geração. Qual é o presente e o futuro que você quer construir? A resposta pode ser tão simples quanto dizer ‘melhor’ ou ‘pior’, pois seja lá quais forem as ferramentas escolhidas para isso, a ignorância e a falta de aprofundamento no conhecimento jamais darão a solução pretendida. Ou você é do time que acredita equivocadamente que a Lua cabe na palma da sua mão ou você é do time curioso que se propõem a estudar além das primeiras impressões.

Veja, eu não estou dizendo o que é que você tem que estudar ou qual caminho ou sistema de ensino deve escolher. Estou apenas dizendo que você precisa se aprofundar no conhecimento de algo, ao invés de fingir que sabe e se contentar com isso. Na pior das hipóteses, se você não quiser dedicar sua vida ao estudo, você pode, pelo menos, dar espaço para quem faz isso, apoiando alunos, professores e profissionais que dedicam tempo nos assuntos com seriedade. Dar esse espaço significa que você, pelo menos, está favorável ao conhecimento e a melhora do mundo. Basta que você não seja uma pedra no caminho e já estará ajudando muito.

E, lembre-se: embora nem todo conhecimento seja adquirido exclusivamente em escolas e universidades, é sempre necessário que se tenha embasamento, experiência de vida em torno desse tema, contato prático que vá além das teorias e, o mais importante de tudo, uma curiosidade verdadeira que te faça questionar as próprias informações obtidas, pra não cair no terrível beco das informações obsoletas, desatualizadas ou que já foram desmentidas ou ampliadas. Não se contente com a superfície de nada. Muito do que nos ensinaram no colégio sobre História, por exemplo, é completamente defasado e cheio de inverdades. Pode parecer estranho, mas a verdade é que, como diz o ditado popular, “o papel aceita qualquer coisa”. Por isso, mais importante do que apenas ler o que está escrito nele é ter senso crítico e as ferramentas que lhe permitam contestar ou confirmar o que ali foi dito. Quando professores, especialistas ou profissionais trazem uma informação para o seu mundo, a função dele deve incluir a de ensinar a aprender. De nada adianta replicar frases prontas como um papagaio, se não possui pensamento autônomo e crítico por trás disso. Só quem está realmente comprometido com a verdade fará o esforço devido pra ensinar outras pessoas a conhecer e manusear corretamente as ferramentas que nos permitem averiguar e avançar nas informações.

Embora eu tenha um importante conhecimento de Fotografia, eu nem mesmo me senti apto a lecionar, pois percebi rapidamente o quão distante eu estava do necessário. Lecionar envolvia muito mais do que apenas entender de Fotografia. Por mais organizado que eu fosse, exemplificando questões técnicas com analogias, eu não dominava a arte de ser professor, de lidar com o buraco que havia no ensino prévio das pessoas que tentaram ter aulas comigo. Eu simplesmente vi, por experiência própria, que aquilo não funcionaria. Foi assim que parei de lecionar, fiz as pazes com a frustração de não ter conseguido levar a Fotografia pra mais pessoas e, desde então, tento ocupar a minha mente em produzir, primeiramente, pra minha satisfação pessoal e, se sobrar tempo e surgir alguém que realmente tenha aptidão pra entender a complexidade da Fotografia, aí, talvez, dividiremos alguma troca de informações sobre o assunto. Dizem que o conhecimento não serve de nada se não for utilizado para melhorar a vida das pessoas e concordo com isso. Se, por um lado, não posso gerar novos fotógrafos para o mundo, vou gerar, pelo menos, muitas novas fotografias. Vou exercer aquilo que eu conheço e gosto e tentar cativar as pessoas a redescobrirem o mundo, as diversas realidades, com pensamento crítico, com curiosidade, com apreço pela verdade. Essa talvez seja a única maneira, ao meu alcance, de transformar meu conhecimento em melhoria na vida da humanidade. É algo que eu sempre fiz desde o início na Fotografia, na Pintura e na Literatura, mas, provavelmente, não terei o necessário pra levar outras formas de melhoria para o mundo. Venho aprendendo mais todo dia e incentivando outras pessoas que fazem aquilo que eu não faço ou que fazem o mesmo que eu de forma igual ou melhor.

É preciso dar vazão para o conhecimento, o aprofundamento, a especialidade, de diversas outras pessoas, para que o quebra-cabeça se torne cada vez mais completo. O conhecimento é infinito, mas tudo que que puder ser dominado em benefício da humanidade, deverá ser apoiado, feito e replicado. Eu entro com a Fotografia, outro entra com a Astronomia, alguém contribui na História, na Medicina, na Pesquisa, na Educação, na Sociologia e assim por diante. Cada um dá aquilo que tem de melhor para construção do mundo. Essa noite eu tive um sonho onde me sentava no fundo de um ônibus quase lotado. Alguém havia dito uma asneira e logo começaram a pipocar comentários de pessoas concordando e apoiando, enquanto a maioria dos passageiros ignoravam calados. Eu, então, saturei de ouvir todas aquelas mentiras e comecei a despejar críticas raivosas de lá do fundo. Seria esse sonho um desabafo da consciência pelo momento absurdo que estamos vivendo no Brasil e no mundo? É possível que seja isso. Talvez, sem conectar uma coisa com a outra de forma consciente, eu cheguei em um tema semelhante pra esse texto. Agora, relembrando do sonho, vejo como tem sido oportuno ter um espaço pra escrever e ser lido, mesmo que isso seja relativamente pequeno. Se esse pingo de informação e reflexão puder chegar em, pelo menos, mais uma pessoa, já será válido o esforço. Mas é preciso que chegue não só nos olhos, porque ler não é só passar os olhos pelas letras. Também não basta que sejam entendidas as palavras e as frases, pois ler também não é tão simples quanto isso. Ler, de verdade, é ter capacidade de compreender o que está por trás daquelas palavras escritas ou ditas. E isso tem sido raro ultimamente. As pessoas juram de pé junto que leram os textos e mensagens, mas, na prática, ainda estão como aquele coitado observador que ergue a mão pro céu na direção da Lua e chega à conclusão equivocada que já entendeu o suficiente sobre tudo que seus olhos viram.

Confesso estar bastante cansado e com pressa de sair dos mesmos cenários em que estou, pois essa parece ser minha única chance de experimentar qualquer coisa nova e promissora pro meu eu do futuro. Eu quero voltar a fotografar, voltar a sorrir, voltar a sonhar, voltar a explorar o mundo, tentar sentir novamente o amor, aprender mais das mesmas áreas e, talvez, começar em uma área nova do conhecimento. Eu quero me sentir vivo novamente e isso só será possível quando eu tiver a liberdade de acessar todo esse conteúdo e avanço que a maioria dos países nos privam desde muito cedo, com muita força, de muitas maneiras. Quero sentir novamente, o gosto de poder descobrir prazer pelas coisas, sabendo que, se for necessário, posso estar perto de mais ferramentas, mais livros, mais tecnologia, mais conhecimento, mais experiência de vida, própria e alheia. A depressão já me parou muitas vezes, mas eu tenho que aproveitar qualquer momento de trégua para sabotá-la e percorrer um pouco mais de vida, de prazer e de emoção. Todos nós queremos viver e nos sentirmos com, pelo menos, um mínimo de paz e segurança. Por isso, faço tudo que está ao meu alcance para transformar o cenário desfavorável em uma oportunidade criativa e contra a tendência de obscurantismo. Os exploradores não nos querem ver vencer, então temos que partir dessa premissa e desviar do senso comum, do óbvio, da mesmice, do conformismo, da ignorância e da passividade, para construirmos nossa saída pra mundos maiores, melhores e mais livres. Ou você caminha em direção à dignidade ou será prensado por um sistema que te oprime e te emburrece até o ponto em que você se torna aliado fanático do malefício ao invés de resistência. A escolha está na mão de cada um, considerando as diferenças de realidades e oportunidades. Eu fiz a minha escolha, dentro do que estava ao alcance do meu contexto e cabe aos outros fazerem as escolhas que puderem e decidirem fazer.

Rodrigo Meyer – Author

Custa caro ser feliz.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para reutilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Sentei pra ouvir música, como há várias semanas eu não ouvia. Mas não pude sentir o prazer que isso me dava anos ou décadas atrás. Algo em mim continua desligado, desconectado ou quebrado. Algo em mim grita silêncios, espalha tédio pelo meu dia. Esse algo me faz sentar na mesma cadeira todos os dias e não me deixa sentir descansado. É alguma coisa que me tira da cama para, logo em seguida, me jogar de volta. É algo que me tira o prazer de comer, a vontade de abrir as janelas e às vezes me desencanta até de abrir os olhos. Esses dias o chuveiro de casa queimou e a frieza da água já não me surpreendeu. Talvez, em um contexto normal, eu até reclamasse do azar, mas a verdade é que já não me importo. O chuveiro está queimado, a janela emperrada, a porta empenada e o portão enferrujado. Tudo combina bem com as dores nos joelhos, os olhos cansados, o peso nas costas, a angústia no peito, o frio nos pés.

O mundo parece corroído, lidando com uma vida enferrujada, o trabalho precário, o desemprego, o despejo, a miséria e a falta de perspectiva. Somos um mundo doente, tentando mover as juntas, antes que elas se acabem no atrito. Estamos aflitos e de aflição entendemos bem. Somos uma sociedade vendida como ‘feliz’ por muitos, mas que, na verdade, não está nada bem. Que felicidade é essa que todo ano bate recordes de suicídio, assassinatos, ódio de todo tipo, pobreza, desafeto e desconfiança? Quem é que está feliz de perder a vida todos os dias, de se vender por um prato de comida e não ter nem mesmo garantia de aposentadoria? A felicidade, ao contrário do que dizem os farsantes egoístas, não é uma simples escolha do indivíduo. Dizer tal absurdo, no alto dos seus privilégios sociais é só mais um motivo, entre milhares de outros, pra ninguém abaixo conseguir alcançar o tão desejado caminho da felicidade. Essa gente debocha da dor alheia e difunde a ideia, em mídia aberta, de que o caos não existe e que tudo só depende do olhar que damos às coisas. Nada pode ser mais desonesto e criminoso do que incentivar o conformismo entre os que mais sofrem na sociedade.

Essa gente mesquinha, egoísta, psicopata e desacreditada de todo e qualquer valor na vida, vive pelo dinheiro, poder e fama, pois é tudo que lhe resta na cabeça. Atropelam multidões apenas para apanhar seus próximos centavos. Enquanto isso, eu sento pra ouvir música, mas não sinto mais prazer algum. Também não tenho esperança pelo próximo dia de trabalho e nem sei o que faço nessa sociedade. Talvez eu acorde de um grande pesadelo, mas, por enquanto, tudo me parece real e profundamente amargo. Me enojo pela manhã de ver bandidos fardados abertamente nazistas, debochando das repercussões midiáticas das manifestações antirracistas que percorreram os Estados Unidos e o mundo, repetindo diversas vezes o mesmo ato criminoso que desencadeou tais manifestações. A escolha proposital do momento e dos detalhes de cada ato desses vermes fardados, deixam claro a referência e a intenção. Por isso e por muito mais, eu me sento pra ouvir música, mas já não sou capaz. Eu tento, aproximo os ouvidos, presto atenção, mas nada daquilo cativa a minha mente.

Você que me lê, talvez ainda não esteja do jeito que eu estou. Talvez ainda tenha brilho nos olhos, prazer pulsando pelos poros, virtudes a serem contempladas e dias divertidos à sua espera. Talvez você tenha esperança pelo momento em que essa pandemia propositalmente descontrolada chegue ao fim. Talvez você não adoeça sua cabeça de ver o genocídio na rua ao lado, os cemitérios entupidos e os hospitais colapsados. Talvez você não tenha apreço por nada disso, nem se importe de ver o mundo um pouco mais deteriorado, menos útil e menos mundo. Talvez seja só eu, sozinho no meu imaginário, definhando de dor, de infelicidade, sem saber pra onde vou amanhã, por não ser um daqueles desocupados com indigno título de filósofo ou doutor que brincam de política ao lado de fascistas em um país internacionalmente humilhado, devastado, miserável e indigno.

Sou, talvez, junto com milhões de outros brasileiros, a estranha exceção, a minoria que soma mais de 70% da população, o caso isolado que se vê sempre em toda esquina e a opinião meramente pessoal que, coincidentemente, é a mesma de um imenso coletivo. Dever ser um erro da Matemática, uma falha nas leis da Física e uma ruptura desconhecida com a “verdadeira realidade”. Talvez eu esteja feliz e não saiba, mesmo quando me sento pra ouvir música e sinto absolutamente nada. Por alguma razão misteriosa, olho pela janela e nada mais me importa, entro debaixo do chuveiro de luz apagada, pra não ofuscar essa suposta felicidade brilhante no banheiro. As cortinas estão fechadas, mas deve ser só ornamento pra festejar a euforia que dizem que sinto, mas que não consigo sentir. Deve ser a felicidade que chega sem chegar, a saúde pra nomear doenças, a vida pra representar a morte e assim por diante.

Debaixo das fardas e paletós, sujos de sangue, pólvora e cocaína, a imundice contamina mais que qualquer epidemia. Tem muito dela desde sempre e nos últimos anos foi ainda pior. A imundice se tornou o objetivo de uma classe tão vazia quanto esse mundo sem felicidade alguma. É desse vazio torto de uma parcela doentia, que o mundo se vê apodrecido, morto e sem esperança. Esse ambiente podre no mundo se torna o próprio gatilho que ativa as munições mais pesadas contra a qualidade de vida, a saúde mental, a dignidade humana, a vontade de viver. Nenhuma dessas doenças e mazelas chegam ao acaso e não são nada fáceis de se vencer. Quem me dera se fosse simples como apenas decidir ser feliz, quando nem mesmo a realidade física e química do meu corpo correspondem às alucinações e à falta de caráter desses estercos falantes. Permitir que os imundos tracem qualquer parecer sobre a felicidade da sociedade é dar palco pra quem não deveria sequer estar ocupando espaço físico ou simbólico em canto algum.

Hoje eu acordei, me sentei pra ouvir música e não pude sentir nada. Minha vida está corrompida há décadas e nos raros dias em que existiram sonhos, rapidamente sumiram pra dar espaço pra constante frustração e desejo sincero por vingança e revolução. O tempo passa e ainda estamos na mesma batalha. Batendo todo dia na mesma tecla, contra a alucinação coletiva, contra a barbárie do capitalismo e de sua versão final, o fascismo. Enquanto eu estiver vivo, vou acordar lembrando do que eu preciso, do que eu sinto e do que eu já não consigo mais sentir. Vou me lembrar de cada nome, cada detalhe, cada momento e chegarei cobrando um alto preço pela minha realidade roubada, meus anos de vida não vividos, minha saúde deteriorada e minha raiva acumulada. Só por ironia, me lembrarei de aplicar pesados juros, multas desproporcionais, impostos improdutivos e correções monetárias que façam ervilhas se tornarem o mais novo Universo em expansão. Vai ter poesia, drama, ficção, como toda boa obra de cinema, mas será tudo baseado em fatos reais, como a própria História nos convida para ver e fazer. Se forem necessárias as explosões, como costumam ser nos filmes de guerra, não me oponho. Que venham de todos os tons e megatons. Se um verme me diz que felicidade é questão de escolha, então eu vou dizer pra ele o que é que eu escolho pra me ver mais próximo de ser feliz. Que ele aguente o tranco, porque, como ele mesmo diz, basta assim decidir. Mudanças virão e eu não quero ouvir verme chorando de barriga cheia.

Rodrigo Meyer – Author

Conto | A casa 21.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia aleatória de metrópole, marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Todos os dias, voltando pra casa, percorria quase o mesmo caminho. Era inevitável notar uma certa casa, de muros baixos, sempre apagada. Parecia vazia. Não se via, nem ouvia, ninguém. Na frente, o mato tomava conta e as grades do portão já estavam bastante enferrujadas. Um dia resolvi diminuir os passos e olhar mais de perto. Foi quando me dei conta de que o telhado já corria o risco de se desfazer. Buracos no parapeito e uma certa deformação nas telhas, apontavam essa possibilidade.

Era estranho estar ali. Parecia que a casa é quem me observava. Me sentia até um pouco culpado de estar bisbilhotando. Mas, acho que muitas outras pessoas já tiveram a mesma curiosidade. Não seria possível que durante todo aquele tempo em que a casa ficou ao relento estragando, ninguém tivesse nem ao menos percebido que não havia mais gente morando. Dei uma última olhada e segui meu caminho, pensando um pouco sobre quem teria sido o último morador e porque a casa havia sido abandonada. Na falta de respostas, memorizei o endereço pra poder pesquisar mais tarde. Em casa, abrindo o mapa na internet, pude encontrar a rua, mas não existia aquele número. As imagens daquela rua não eram de mais do que dois anos atrás. E por mais que eu tentasse identificar pela arquitetura, não havia casa alguma que se parecesse com aquela.

Olho novamente o endereço, ando pelo mapa, pra tentar me localizar. Confirmo que estou na rua certa e até mesmo reconheço duas casas próximas. Tinha de ser ali. Onde foi parar aquela casa? Contava atentamente o número de cada casa, localizando o 20 e o 22. Do outro lado da rua, eram pra estar os números ímpares, mas seguia do 19 para o 23, sem nenhum sinal da casa 21. Quem olhasse apenas o mapa, talvez imaginasse que o vizinho comprou a casa ao lado e uniu sob o mesmo número. Mas, eu estive pessoalmente e lá estava a casa 21, bem diante dos meus olhos. Talvez fosse o inverso, eu pensei. Devem ter dividido novamente em duas casas, fazendo surgir novamente a casa 21. Mas, em menos de dois anos, como poderiam ter construído e abandonado uma casa que, na aparência, vê-se que está há muito tempo abandonada e deteriorando? Aquilo não se encaixava de jeito algum. Me esforçava pra entender qualquer outra possibilidade.

Achei que estivesse exagerando, afinal, deve haver uma explicação plausível para essa confusão. De certo, eu apenas não estava percebendo o óbvio. Decidi que na noite seguinte eu olharia novamente aquela rua. Tinha que voltar com uma foto, pelo menos, pra não haver dúvidas do que eu via. E assim o fiz. Voltando do trabalho, subindo a ladeira, não saia da minha cabeça esse momento. Entrei na rua com atenção redobrada, como se estivesse entrando em território proibido. E lá estava a casa, do mesmo jeito que ontem. Me aproximei e saquei meu smartphone para fazer umas fotos. Estava um pouco escuro, apenas com uma iluminação de um poste um pouco afastado. Mas era suficiente pra deixar marcado de forma legível o número da casa e a aparência da fachada. Aproveitei e registrei as casas ao lado. Talvez se eu não encontrasse uma resposta lógica, alguém poderia olhar as fotos e sugerir alguma explicação. Por via das dúvidas, pesquisei novamente o site de mapas e a casa continuava ausente. Olhando as imagens que fiz, tentei encontrar, então, as casas vizinhas. E lá estavam elas no site, tal como nas imagens que eu havia registrado presencialmente. Casa 19 e casa 23, vizinhas dividindo o mesmo muro, sem nenhum terreno ou casa 21 entre elas.

Ainda que igualmente estranho, parecia mais plausível que o site tivesse omitido ou censurado aquela casa. Mas que trabalho seria remover uma casa inteira, ao invés de simplesmente desfocar a fachada na imagem do mapa. Por outro lado, de que serviria ao site, eliminar essa casa, enquanto na vida real, ela continuava lá? Qualquer um poderia atestar sua presença, visitando a rua pessoalmente. Eu ainda não tinha uma resposta satisfatória e aquilo foi me incomodando. Ria na frente da tela, de nervoso e confusão. Talvez estivesse enlouquecendo. Alguém mais teria que saber daquela casa. Então, enviei as fotos e o link do site de mapas, pra uma amiga na internet. Se duas pessoas estivessem percebendo a mesma coisa, então teríamos algo concreto sobre o episódio. Alguns minutos depois, minha mensagem é respondida com um tom de humor e surpresa. De fato aquilo era estranho e nenhum de nós dois conseguiu entender bem onde foi parar a tal casa 21.

Rindo para não dar um nó na cabeça, comentei que parecia uma falha na Matrix ou algo assim. Pesquisei na internet se mais alguém já havia dito algo sobre essa casa, mas não encontrei nenhuma imagem ou comentário. Depois de um tempo olhando novamente as fotos e o mapa, volto para falar com minha amiga, mas fico ainda mais perdido ao não encontrar o contato dela. Era com se a conversa não tivesse ocorrido. Procuro pelo nome dela na lista de contatos e não está. Talvez, no meio da agitação, eu tenha conversado com outro contato, por engano. Olho as conversas recentes e a última é de ontem. Nenhum rastro do assunto conversado. Agora sim, senti pânico. Achei que estava enlouquecendo. Sumiu uma casa e agora sumiu uma pessoa. O que é que está acontecendo?

Me levanto da cadeira e sento na beira da cama, esfregando o rosto com as mãos, pra tentar me recompor. Me levanto preocupado, abro a janela e olho pelo bairro, pra ver se noto algo incomum. Tudo parece normal. Talvez eu estivesse sonhando e logo iria acordar. Me belisco, falo pra mim mesmo que quero acordar, mas tudo parece bem real, como sempre foi. Vou ao banheiro e lavo o rosto com água fria, mas nada disso muda a situação. Seria assim, tão repentinamente, que a vida me dobraria? Eu não tinha resposta alguma. Saí de casa sem rumo definido, andei pelo bairro, cheguei à avenida e segui caminhando. De repente os faróis de um carro me cegam por um instante e escuto ele derrapar. Não há tempo de reagir e percebo que vem na minha direção em um piscar de olhos. Da luz para uma imediata escuridão, sem me lembrar de mais nada depois disso, até o momento em que acordo em uma cama, com braços e pernas engessados, um colar cervical e dor pra todo lado.

Olho pro ambiente e não reconheço onde estou. É o quarto de uma casa que não é a minha, nem de ninguém que eu conheça. Não me recordo de ter passado por um hospital e começo a ofegar pensando como fui parar ali. Olho para os móveis no quarto, tentando encontrar minhas roupas ou o meu smartphone, mas não vejo nada que me pareça familiar. Um silêncio agoniante toma conta da casa toda. Sinto como se estivesse sozinho. As janelas estão fechadas e a única luz no ambiente vem do lado de fora do quarto, passando pela porta entreaberta. Chamo em voz alta por alguém, e minha voz ecoa pelo quarto. Não escuto ninguém. Penso que talvez eu tenha morrido e assim seria a realidade depois da morte. Mas, onde estariam os outros desencarnados? Tentei e não consegui me mover pra fora da cama. Estava quase que totalmente imobilizado pelo gesso e a posição. Tento voltar a dormir, na esperança de que mais tarde alguém apareça, mas a mente inquieta atrasa o sono até o corpo ser vencido pelo cansaço.

Depois de ter acordado pela segunda vez, me apercebo imediatamente que não estou mais com gesso algum e nenhuma dor. Ou foi tudo um pesadelo, ou muito tempo havia se passado desde minha última lembrança. O quarto parecia o mesmo, incluindo o terrível silêncio, exceto que agora parecia estar de dia, pela luz que vazava pela janela. Vejo que estou hábil pra caminhar normalmente, me levanto da cama e saio do quarto, tentando entender onde estou. A casa está toda mobiliada, mas tudo tem um aspecto antigo. Deve ser a casa de quem me socorreu. Mas, porque estou aqui e não na minha própria casa? Onde estão meus familiares? Não conheço ninguém que tenha uma casa como esta. Desço até o andar debaixo e encontro a porta da sala. Está destrancada e vou até a calçada, pra ver se reconheço ao menos o bairro. Imediatamente meus olhos arregalam ao ver que estou naquela maldita rua. Me viro pra ver a fachada da casa e é exatamente aquela casa 21. Meu coração acelera e sinto que algo de muito errado está acontecendo. Percorro a rua desesperado, olhando para as casas e retomando na memória o caminho que eu fazia todos os dias pra chegar em casa. Um tanto desorientado, levo um tempo até perceber em qual rua eu deveria entrar pra chegar na minha verdadeira casa. Encontro minha rua, reconheço meus vizinhos, mas não encontro minha casa. Novamente me vejo naquela mesma situação de antes, procurando os números, enquanto olho atento pra dentro da construções.

Toco a campainha das casas que conheço. Talvez alguém que eu conheça possa me explicar. Noto alguma movimentação em uma das casas. Alguém afasta as cortinas discretamente, mas logo fecha. Penso que logo apareceria na porta pra me atender, mas, depois de um bom tempo, vejo que fui ignorado. Aquilo não estava normal. Qualquer um dos meus vizinhos teria vindo falar comigo. Olho pro restante da rua e me lembro perfeitamente de tudo por ali. Apenas a minha casa não está mais. Me pergunto pra onde vou, se saio andando pela cidade, se espero aqui sentado. Tudo que sei é que não posso mais voltar àquela outra casa. Descalço, do jeito que saí da cama, caminhei pelo bairro, até encontrar alguma movimentação maior de pessoas. Reconheço os comércios e toda a cidade, mas não entendo o que aconteceu comigo. Sento em uma calçada, encostado no muro e fico por ali observando o movimento um bom tempo.

O tempo passa e percebo que terei de dormir na rua quando começar a anoitecer. Mas, me lembro de como tantos outros em situação de rua escolhem dormir de dia, pra terem mais segurança. Quando a noite vem, me esforço pra ficar acordado o máximo possível, até que a manhã chegue e eu possa encontrar um lugar pra dormir. Me sinto constrangido e apavorado. Eu tinha um trabalho, uma casa, eu tinha amigos, mas agora parece que estou em outra realidade e minha única opção é tentar sobreviver à todo esse desconhecido. Me pergunto se outras pessoas espalhadas pelas calçadas da cidade, debaixo dos viadutos, também não tiveram histórias bizarramente similares. Me parece mais preocupante não entender do que a eventual revelação dos fatos. Começo a frequentar os mesmos lugares, em busca de manter uma zona de conforto. À medida que novos dias surgem, começo a observar como as coisas funcionam pra quem vive na rua. Imito seus passos, tento fazer parte. E assim eu também desapareço no meio da sociedade. Hoje eu sei. É assim que as casas somem, que as pessoas se tornam invisíveis ou irreconhecíveis. É assim que nos roubam toda a personalidade, a sanidade e a humanidade. Somos expropriados da nossa própria vida, do nosso direito à realidade. Somos como fosse uma vida paralela, uma vida alternativa, uma outra sociedade. Somos pessoas que quase não se lembram mais dos verdadeiros nomes e, quando o passado é questionado, os olhos lacrimejam por sentir que existiram em algum momento, mas que já não sabem dizer se tudo isso foi loucura ou realidade.

Rodrigo Meyer – Author

A receita do caos e a esperança.

A imagem que ilustra esse texto é uma adaptação de uma fotografia de 7 de Maio de 2006 feita em um evento de Democracia Direta, em Glarus, na Suíça.

É difícil não falar de política quando tudo na vida do homem em sociedade é política, querendo ou não. Ao falar do ser humano, temos que, necessariamente, falar sobre política. Mas, engana-se quem pensa que política é somente aquilo que compõem a esfera das ideologias partidárias, dos planos de governo, das eleições e das decisões e repercussões dos assuntos ministrados pela classe dos chamados ‘políticos’.

Em verdade, todo ser é um ser político e não apenas os engravatados que ocupam cargos oficiais em um governo. Quisera eu não precisar falar de política, um dia após o 1º Turno das Eleições brasileiras. Seria tão mais fácil e agradável seguir a vida pensando no próximo livro, na próxima ilustração, no trabalho, na companhia dos amigos, nas viagens e nos prazeres adiados a tanto tempo. Mas, por isso mesmo, é importante erguer os punhos e direcionar um pouco mais de energia, mesmo sabendo o quão desgastante é lidar com a situação do Brasil.

Desde o “descobrimento” do Brasil, com a invasão dos portugueses, a tomada de nossos bens, a destruição e/ou apropriação da cultura indígena e dos negros, em paralelo a escravização destes, até os momentos ditos ‘modernos’, que de modernos não possuem nada, ficamos em situações vergonhosas, desastrosas e incompatíveis com qualquer sonho de progresso que atribuímos aos chamados ‘países de primeiro mundo’. O Brasil tentou por muitas vezes reverter sua própria condição, apostando em iniciativas que nasceram de baixo pra cima, das gerações de pessoas empobrecidas pela exploração, netos dos netos de muita dor e pouco respeito recebido. O Brasil se formou, basicamente, pelo trabalho de quem sobreviveu ou deu a vida por uma esperança de mudança. As pessoas que mudaram esse país, goste você ou não, não foram os banqueiros, nem as pessoas que sistematicamente receberam heranças de nobres, que por sua vez, só se tornaram assim ricos (porque nobres mesmo nunca foram), pela exploração das pessoas. Tempos depois, ainda vemos isso acontecer, sob outros métodos e cenários. Agora, relativizam até mesmo os direitos e salários conquistados, na busca por um retorno à época em que as pessoas tinham o que comer, mas eram escravizadas. Estamos em um país quebrado financeiramente, mas mais do que isso, quebrado moralmente.

Mas, por hoje, não vim falar exatamente desse tipo de política, muito menos sobre economia e mercado. Embora seja verdade que isso tudo é importante, porque é a consequência atual que vivemos, temos que compreender, antes, como chegamos no caos. E pra entender isso, precisamos lembrar de tudo que tentam omitir ou apagar diariamente.

Há alguns dias eu lia o depoimento de um rapaz que quando adolescente sentia orgulho de apoiar um determinado pensamento, chegando a admirar uma figura de liderança desse meio na política brasileira. Os anos se passaram e ele despertou de uma imensa ilusão. Não foi tão simples quanto esperar o tempo passar. Foi necessário que ele tivesse a decência de se valorizar o suficiente pra se desvencilhar de falácias e má informação. Teve que estudar História, Política e se empenhar na sua própria compreensão, descobrindo os motivos que o faziam ter falta de empatia e uma conduta e/ou pensamento simplista demais para os problemas do mundo. Tal rapaz discursava em seu depoimento de arrependimento como um pedido de ‘mea culpa‘, se retratando sobre o seu passado e explicando o erro cometido que culminou na atual mudança de postura.

É bonito ver que uma pessoa, sozinha, por assim dizer, apenas com a ajuda de sua própria curiosidade e força de vontade, conseguiu refletir sobre si mesmo, seus erros, a causa de seus pensamentos equivocados, seus transtornos, seus medos, suas inseguranças e seus preconceitos sobre o mundo. Munido de informações sobre si mesmo, ele percebeu que o melhor caminho era munir-se também de informações aprofundadas sobre o mundo. Eis que nasce alguém novo, disposto a aprender ao invés de replicar bordões e ilusões. Eis que nasce alguém questionador que pensa sozinho e não depende de ninguém ditando o que ele precisa fazer ou pensar. Eis que surge alguém que realmente tem potencial de transformar o mundo.

Observando esse caso isolado de transformação, logo podemos notar que as mudanças são possíveis, mas depende de um esforço sincero. Quando você busca a liberdade de entender mais daquilo que não conhecia, você transforma preconceitos em conhecimentos, ilusões em dados realistas. O inverso disso, sendo a estagnação pura ou o retrocesso, aniquila o potencial humano de se lapidar, de melhorar, de progredir, de evoluir, de adquirir conhecimento e de quebrar os preconceitos. O Brasil chegou num estágio de sufocamento social onde corremos o risco de tristes novos desmembramentos dos fatos que ocorreram, principalmente, de 2014 pra frente. Durante estes anos recentes, o Brasil se viu em uma guerra de corrupção imensa, onde até os que deveriam ser responsáveis pelas prisões, figuraram em crimes de corrupção e prisão (vide o caso do apelidado ‘Japonês da Federal’, pra citar apenas um das centenas de envolvidos). Cruzamos por um processo fraudulento de Impeachment, com votos comprados entre os políticos, recoberto com a certeza de que a corrupção continuaria ainda mais vigorosa, apesar da ‘Operação Lava Jato’. Áudios vazados mencionavam que a corrupção só conseguiria seguir adiante se houvesse “um acordo com o Judiciário, com tudo.”. De lá pra cá, nunca se viu tanta parcialidade, hipocrisia, corrupção e banalização da vida. Viciados em corrupção e dinheiro, os políticos aproveitaram o caso generalizado pra agir ainda mais, já que era tanta confusão, que ninguém teria tempo pra discernir todas as falcatruas que estavam ocorrendo em paralelo.

Enquanto o brasileiro assistia entusiasmado pelas cenas dos próximos capítulos nas sagas diárias dos telejornais ou dos sites de notícias na Internet, os políticos riam em dobro, matando delatores, juiz e até mesmo o delegado que investigava a morte deste juiz. Em uma sucessão de crimes pra queima de arquivo, o recado foi dado: após o aval dos corruptos na Justiça e na Política, todos estariam segurando seus ossos de forma incondicional, tivesse ou não que matar alguns pra isso. Com o juiz, Sérgio Mouro, o mesmo que recebe ilicitamente salário acima do teto permitido por lei, diversos casos convenientemente foram ignorados por ele. Em se tratando de seletividade e hipocrisia, esse parece ganhar de muitos outros. Abraçou de forma notória o partidarismo e fez todo o possível pra inventar um cenário que corroborasse com a teoria que ele e sua turma escolheram pra pintar a caveira de certas figuras políticas. Tanto fez e tanto recebeu respaldo da mídia, que conseguiu não só forjar a condenação de Lula, como mobilizar um mar de incautos a expandir a semente do ódio que nutriam pelo PT.

Tais pessoas, enviesadas pela ideia de que o Partido dos Trabalhadores (PT) representava automaticamente uma ideia ou consenso abraçado por todos os políticos que ali estavam inscritos, formaram um grande número de brasileiros que não tinham disposição de aprender ou discutir verdadeiramente os assuntos políticos, criaram um muro de ignorância, exatamente ao sentido real de ignorar algo. Ignoraram fatos, ignoraram a manipulação política que sofreram, ignoraram as pendências internas de si mesmos, ignoraram as falácias cometidas, o ódio pregado e até mesmo as ‘fake news’ criadas e compartilhadas massivamente pela internet e até mesmo pelas mídias ditas ‘convencionais’. O brasileiro aprendeu de forma completamente distorcida e limitada, que bastava ter ódio à um monstro imaginário e tudo ficaria bem. Foi exatamente esse cenário desastroso de desafeto pelo estudo e reflexão da política que cultivou uma plateia sedenta por manipulação, por discursos de ódio compatíveis, por uma plantação ostensiva de falácias e conceitos pré-fabricados que levasse o eleitor a ficar tão indignado com o cenário desenhado por alguns ao ponto de começaram a achar válido ideias descabidas como, por exemplo, dar voz, poder e espaço pra figuras completamente despreparadas e mal intencionadas como a do candidato à presidência de 2018, Jair Bolsonaro.

Mas, engana-se novamente, quem pensa que esse espaço nasceu simplesmente da repetição sistemática dos discursos de ódio contra os governos anteriores. Esta repetição foi, se muito, apenas o embrulho de um contexto prévio muito maior que estava sendo gestado no brasileiro. Descobrimos em 2018 um abismo aparentemente sem precedentes, composto de um número grande de pessoas abertamente cegas sobre valores e dignidade humana, adeptas de um discurso aberto de xenofobia, racismo, machismo, homofobia, ódio de classes e uma alusão fictícia e pré-fabricada de um suposto combate aos regimes totalitários comunistas. Muito se nota disso, quando se percebe que essas pessoas desconhecem até mesmo que Comunismo nunca se resumiu aos citados regimes totalitários que visualizamos na União Soviética ou em outros exemplos similares. As pessoas que apontam ódio ao Comunismo, tentam, em vão, alçar do fundo da História um cenário que não tem nenhuma conexão com os ideais abraçados pela diversificada esquerda no Brasil e em vários povos do mundo. Independente de qual seja seu posicionamento ideológico, é um poço de ignorância acreditar que é suficiente pautar seus discursos e pensamentos em algo que você simplesmente desconhece e, mais do que isso, replica um discurso se posicionando ardorosamente sobre, sem nem mesmo poder ter coerência ou respaldo de fatos. E quem sai perdendo com isso, além de você mesmo, são todos os demais na sociedade que vão ter que mastigar as consequências da falta de informação, das mentiras e preconceitos plantados, do ódio gerado e, claro, da manipulação ainda mais feroz dos corruptos e sedentos por poder, em cima, justamente, desses que nada sabem sobre aquilo que os está explorando e manipulando no campo da política (pra dizer o mínimo).

Perceba que é natural e sensato as pessoas terem pensamentos diversos, desde que estejam sempre almejando conhecer ao invés de reduzir preconceituosamente uma suposta oposição que desconhecem. Na vida política, em espaços democráticos, por exemplo, vê-se algo em comum com modelos de diferentes vertentes políticas, que é justamente a concordância em se fazer uso dos mecanismos políticos em comum pra preservar, antes de tudo, o direito de todos terem espaço possível na política, restringindo, paralelamente e automaticamente, as opções que derrubam e ameaçam a democracia, como é o caso do fascismo. Por essa simples razão, vertentes ideológicas até mesmo fora do campo da democracia, ainda encontram sintonia com os democratas, no sentido de manterem, pelo menos, o antifascismo como requisito. Não tarda muito pra que as pessoas olhem estas informações apontadas e fiquem assustadas ou receosas sobre o que isso possa significar. Tantas e tantas vezes já se foi feito o discurso depreciativo sobre a auto-gerência ou o Anarquismo, que as pessoas já se esqueceram de que é exatamente nestes modelos que você tem liberdade e autonomia, inclusive pra pensar por conta própria. Ser livre exige muita responsabilidade e, se você recusa ou minimiza o valor de uma ideia que prega justamente a liberdade, você está minando a sua própria liberdade e sua própria coerência. Ao se pautar pelo cerceamento do seu próprio pensamento, você está admitindo um encurtamento de seus potenciais de reflexão, de decisão de sua própria vida e da sua capacidade em ser quem você realmente quer ser.

E onde quero chegar com isso? Gostaria, se possível, conduzir os passos desse texto até o ponto em que você possa perceber que, ter se prestado ao papel sórdido de marionete não fará ninguém ser realmente alguém com potencial de transformar sua própria vida em algo melhor, incluindo nisso, claro, a transformação do seu país. Aqueles que verdadeiramente querem ver uma solução para os problemas do país, precisam, antes de tudo, estarem munidos da autonomia necessária pra pensarem sozinhos, por conta própria, sem apoio de muletas oportunamente criada por manipuladores que vão sugar sua moral, sua índole, seu dinheiro, sua força, seu poder de discernimento, sua educação, sua empatia, seu senso de percepção sobre a aproximação de problemas e até mesmo sobre a percepção do grau dos problemas ao redor. Não seja essa pessoa que cresce sendo levado pelas ideias de qualquer um, espumando seu ódio em discursos rasos que não podem sequer ter comprovação ou respaldo da realidade. Não seja a pessoa que passa vergonha desnecessária na internet e nas conversas de mesa, tentando ensinar a História que nem mesmo você teve paciência de estudar. Faça como o citado sujeito do depoimento que teve a grandeza de rever seus equívocos e começou a estudar política com seriedade, justamente por não aceitar continuar na cegueira, na manipulação, no prejuízo causado pela corrupção dos políticos e nas mentiras e iniciativas nefastas criadas por aqueles que exploram sua mente, seu trabalho, sua família, sua esperança, sua dignidade, sua individualidade e seu valor como ser humano.

Nos próximos momentos, chegaremos ao 2º Turno das Eleições 2018, onde as pessoas precisarão deixar um pouco mais claro aquilo que elas não aceitam pro futuro de si mesmas. Infelizmente, em um cenário como o atual, não tenho como ficar feliz em descrever ou apontar as opções, justamente porque sei que temos opções rivalizadas demais pra conseguir flexibilizar. De um lado temos o que deveria ser inaceitável: um candidato que representa os absurdos do fascismo, com apoio aberto ao horror da Ditadura, tendo como discurso, a homenagem à torturadores, o preconceito violento contra negros, gays, mulheres, índios e minorias em geral. Fosse este qualquer outro candidato de direita concorrendo às eleições, não teria erguido em grande parte da população (não só do Brasil) um repúdio automático expresso em manifestações ao redor do mundo. Você pode achar que essa rejeição é mais um plano mirabolante conspirado por um político opositor, um partido ou um grupo de viés ideológico, mas engana-se duas vezes. E é por não se permitir compreender a fundo quem são as pessoas que expressaram claramente a não aceitação do fascismo como opção política, que você acaba manipulado mais uma vez pelo seu próprio opressor. Ainda que você simpatize ou solidarize com algumas das supostas ideias pregadas ou discursadas por Bolsonaro, precisa, antes de tudo, entender o que te levou a esse desespero que te jogou à um equívoco na interpretação da realidade, no aprendizado sobre fatos históricos, no que é benéfico ou eficiente pra transformação da corrupção do país ou até mesmo no que é útil pra aproximação da sua ideologia na vida até você. Se hoje você pode pensar com liberdade sobre todas essas questões, é porque livros não foram queimados, rasgados ou confiscados, ideias na internet, no rádio e em outras tantas mídias, não foram censuradas, espetáculos de música ou teatro não estão controlados, etc.

Uma figura tão polarizada como a deste candidato do PSL, ao lado de outra figura que tem sido vista como um mascote do Partido dos Trabalhadores (PT), fez com que os ânimos ficassem aflorados. O Brasil conseguiu cair em um contexto de anti-PT muito grande, onde até mesmo a figura de um ex-prefeito que cumpriu resultados na sua gestão, tem sido visto com maus olhos por muitos que aderiram aquela ideia fácil de seguir o vento dos discursos de ódio que pressionaram os últimos presidentes do Brasil. Esse tipo de polarização impensada, coloca na balança figuras com pesos completamente diferentes. Você pode até mesmo não achar ideal o potencial do candidato do PT à presidência e suas propostas de governo, mas o que você não pode negar é que, entre as opções que restaram, ele é o único que pode lhe assegurar a continuidade da sua própria liberdade de escolher próximos candidatos em próximas eleições. Feliz ou infelizmente, em 2018 passamos por eleições atípicas neste primeiro turno e seguirá sendo uma eleição atípica no segundo turno. Diferente de outros anos de eleição, o atual momento nos colocou pra escolher algo muito além do que planos de governo ou até mesmo de ideologia partidária. Estamos diante de um cenário que pode comprometer gravemente a democracia, extirpando ela à força ou maquiado de meios “legais”. Um candidato que não reconhece a legalidade e a democracia, que acredita que pode resolver problemas da grandeza do país por meio da violência, não é só uma pessoa violenta e sem empatia, mas alguém que desconhece sobre como as coisas realmente funcionam. O Brasil já vive um caos generalizado desde a colonização e tudo tem se agravado dia após dia, por falta de investimentos suficientes nas áreas que realmente importam. Negligenciar a base e a causa dos problemas não vai resolver os problemas existentes, vai ampliá-los e ainda trazer novos problemas. Esse é o perigo que muita gente notou e quis distância de forma incondicional.

Você tem nas mãos a oportunidade de tolerar um governo que não aprecia tanto, mas que será tua opção possível na democracia, pra rejeitar o fascismo embutido na única figura que restou como concorrente deste. Infelizmente, quando o mundo fica polarizado, as pessoas ficam apenas com duas opções e isso é desastroso. Queira pra si, sempre, ter todas as opções possíveis e imagináveis. Isso é liberdade, isso é, até mesmo, ser liberal e ter a possibilidade de definir e discutir ideias. Lembre-se que, por mais que você pense pelo ódio, quando você, eventualmente, descobrir que se arrependeu, talvez não encontrará mais as portas abertas pra sair de onde você nunca quis ter entrado. Pense nisso e lembre-se que eu dediquei meu tempo escrevendo tudo isso, justamente porque nenhum dos dois candidatos que figuram no 2º Turno, são alinhados com os meus valores e ideais, mas, certamente, entre estes dois há um deles em que escolho tolerar e esperar pelas próximas Eleições e o outro eu não concordo de maneira nenhuma em ter que engolir, sem opção, fruto de um eleitorado manipulado que venceu pelo ódio e não pelas ideias, pela disseminação das ‘fake news’ que rodeiam a internet há muito mais tempo do que a candidatura de ambos. Eu escrevi esse imenso texto, por me opor sistematicamente ao fascismo e à qualquer porta aberta para tal. Escrevi, porque acredito que boas ideias e ações honestas valem mais do que corrupção e violência. E, finalmente, escrevi tudo isso, porque estudei, porque me permiti pensar sozinho e porque não aceito nada menos que a minha liberdade. Almejo continuar, vivo, respeitado, com espaço para pensar, escrever, refletir, discutir, mudar, evoluir, construir o que possa ser melhor não só pra mim, mas também pra você. Se a sua estrela não brilha, por favor, não tente apagar a minha. Eu prefiro me dispor a ajudar a fazer a sua estrela brilhar também. Liberdade é onde todos tem a oportunidade de vencer, horizontalmente. Opressão é onde um “vence” os demais verticalmente.

Rodrigo Meyer – Author

Honestidade na Segurança Pública?

No Brasil, assim como na maioria dos países do mundo, as instituições de polícia são sinônimo de crime. A diversidade e intensidade de crimes cometidos é tanta que é praticamente indissociável o nome das corporações e dessas profissões em si com tudo o que é abominável. Mas, como também somos um país minado por falta de Cultura e Educação, por aqui também figura uma massa gigantesca de pessoas que sequer sabem discernir entre realidade e ficção ou entre realidade e falácia, ainda mais quando as mídias e os grupelhos políticos usam a própria população como marionetes para assumir um determinado pensamento no lugar destes que não tem autonomia para pensar. É por essa razão que surgem, por exemplo, discursos do tipo “Nem todos são assim. Tem policial honesto.”. Então deixa eu esclarecer algumas coisas bem primárias pra quem ainda é leigo no assunto ‘Segurança Pública’ ou pra quem acha que não é leigo, mas está afundado em equívocos e cegueiras. Falaremos, já de início, de dois tipos de desonestidade. Quais são:

Desonestidade consciente

Primeiro vamos estabelecer que uma parte dos indivíduos dessas instituições já se enquadram automaticamente na desonestidade clássica, por figurarem conscientemente em atos criminosos. Casos não faltam pra exemplificar e, inclusive, muitos registros até se perdem, tanto na vida real quanto na internet, por conta da própria tentativa destes de ocultar os resultados. Mas quem vive o suficiente em torno da realidade, repudiando crime e fascismo, está sempre antenado com o que está ocorrendo dia após dia.

Desonestidade (talvez inconsciente)

Seja por ignorância ou simplesmente por hipocrisia, alguns podem não chegar a ver a extensão da realidade sobre o que são e no que se envolvem. É possível ver figuras se exaltando de raiva ao verem dedos apontados em suas caras, depois de passarem uma vida iludidos na ideia de que eram honestos. Mas será que sabem o que é honestidade? Primeiro, se uma pessoa se classifica como honesta e é contrária a desonestidade, a premissa básica dessa pessoa precisa ser, necessariamente, não compactuar, não ser conivente, não participar e não divulgar aquilo que é desonesto. Partindo desse princípio simples de lógica, que até uma criança pode entender, comecemos esclarecendo algumas coisas:

O ingresso nesse tipo de atividade é facultativo, inclusive no Exército, onde, apesar de haver a obrigatoriedade de se apresentar à Junta de Alistamento, é permitido se recusar a servir por motivo de objeção de consciência. Se é facultativo o ingresso nesse tipo de atividade, então é claro e simples que todo e qualquer indivíduo que entra, faz porque quer, afinal, outras atividades remuneram igual ou melhor e não oferecem os riscos e as corrupções atrelados, majoritariamente, a essa atividade.

Outro aspecto importantíssimo nessa equação é que ninguém que de fato seja honesto tem interesse em entrar pra um sistema, grupo, instituição, organização, atividade ou qualquer outra coisa, depois de estar ciente de que o conjunto está contaminado por corruptos. Seria como entrar pra SS Nazista e ser ingênuo o suficiente pra achar que você vai descumprir ordens desonestas ou abusivas, denunciar superiores ou outros membros da corporação, apenas porque você é o tal ‘honesto sobrevivente’ naquele contexto. Tenho pena de quem pensa raso assim. Provas disso, por exemplo, foi quando a policial militar Andreia Pesseghini (reveja o caso aqui) denunciou 18 outros policiais militares por assaltos a caixas eletrônicos e terminou assassinada junto com o resto da família. Não foi diferente quando Marielle Franco (veja o caso aqui), na função de acompanhar e denunciar os assassinatos, abusos e irregularidades na intervenção em Acari – RJ, cumpriu seu papel e foi executada. A munição estava registrada em nome da Polícia.

É fácil ver que em um ambiente que está tomado por corrupção e impunidade, o crime reina e quem ousa remar contra a maré, corre o risco de ser silenciado. Além disso, inúmeras outras pessoas são rebaixadas de cargo ou simplesmente ignoradas nas suas tentativas de denúncias contra as próprias corporações. Existe até mesmo a premissa em certas instituições de que não se pode denunciar um superior. Com esse pretexto de hierarquia e uma corregedoria falha e muitas vezes intimidada, somente os ingênuos acham que estarão dentro do círculo de criminosos sem serem cúmplices ativos ou passivos dessa criminalidade.

Dentro dessas instituições floresce uma horda de neonazistas assumidos, racistas, assassinos, traficantes de armas, traficantes de drogas, estupradores e todo tipo de bandidagem. E não há nada pra nos surpreendermos com isso, uma vez que a realidade, tanto na própria ação das polícias quanto na imagem gerada socialmente, suscita uma conexão imediata entre crime, fascismo e os desejosos por isso. Mas não são quaisquer criminosos que se enveredam por esse meio, mas sim os que, especificamente, reconhecem-se tão covardes e frouxos que precisam se esconder atrás de um salário, uma farda, uma viatura, uma arma, um colete a prova de balas, uma corporação e uma “licença” artificial plantada para perpetuar poder e opressão sobre as pessoas, como se fosse um cidadão de classe especial ou de melhor valor. Tudo isso lhes confere uma certa segurança e praticidade que eles jamais teriam se fossem bandidos comuns.

E para manter o status quo da criminalidade interna junto com a criminalidade social em geral, os desonestos conscientes manipulam os desonestos inconscientes para atingir os próprios objetivos. Portanto não há como ser honesto e ao mesmo tempo estar sendo parte da engrenagem que movimenta a desonestidade. Um exemplo claro disso é esta notícia:

1. Traficantes mandavam em patrulhas, escalas e transferências de PMs.

Quando as pessoas que mandam no seu trabalho são criminosas e você acata as ordens, você está sendo um desonesto passivo, além de completamente inútil em sua função primária. Na ocasião em que tiveram a ideia de colocar as UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), certamente riram da cara da ingenuidade do brasileiro, pois não demorou a surgir a notícia de que isso foi apenas uma ótima oportunidade pra se gerar ainda mais crime, onde rendia mais de R$ 100 mil reais por mês de corrupção, como uma espécie de pedágio. Difícil á saber a quem denunciar, pois fardados e não fardados inúmeras vezes trocam de posição na hierarquia prática da criminalidade. E aqui vão alguns exemplos:

2. Sargento do Exército é preso por fornecer armas ao tráfico.

3. Homem preso com 19 fuzis no Rio é militar do Exército.

4. Ex-Comandante de UPP no Rio recebia R$ 60 mil Reais em propina, pra facilitar o trabalho de outros criminosos.

É tragicômico ver que muitos dos que se consideram honestos dentro dessas instituições são apenas subordinados numa hierarquia, seguindo ordens. Na Polícia Militar, por exemplo, greves são proibidas e o próprio sistema que constitui a “formação” dos policiais é vergonha pura com muita humilhação e violência, justamente pra deixar claro aos que ingressam, que ali eles estão pra servir aos superiores e não a população. Aquele que entra pra uma instituição sabendo disso e não escolhe a imediata saída, é cúmplice dessa desonestidade. E, por isso mesmo é que figuram em casos icônicos de espancamento e prisão de inocentes em manifestações populares e também nas manifestações de professores. Quem se vê obrigado a baixar a cabeça pra ordens como essas (ou se sente compelido a fazer com ou sem ordem dada), é um desonesto. Difícil é dizer que alguém esteja inconsciente de uma decisão ou ato desse tipo, uma vez que é preciso de muito sendo de realidade pra escolher, cegar alguém com bala de borracha, matar alguém asfixiado por gás lacrimogênio vencido, atropelar manifestantes ou simplesmente forjar um crime qualquer para o pretexto de prender alguém.

Enquanto alguns preferem o conforto de escolher uma profissão desnecessária nos moldes em que ela se apresenta atualmente, o restante da quadrilha agradece pelo reforço dado. Assim é na Polícia Militar, na Polícia Civil, na Polícia Federal, no Exército e também na chamada “Guarda Municipal” ou “Guarda Metropolitana”. Na Polícia Federal, o chamado ‘Japonês da Federal’, ao mesmo tempo em que fingia trabalhar para o combate de crimes, figurava ele mesmo em crimes e acabou preso.

5. Japonês da Federal é preso em Curitiba por facilitar contrabando.

Mas, como nesse meio o crime não é impedimento para “trabalho”, tente não rir ao saber que, mesmo assim, ele segue na atividade:

6. Japonês da Federal, usando tornozeleiras de preso, volta a escoltar presos.

Se você achava que já era difícil denunciar comparsas de dentro dessas quadrilhas, agora sabe que, com ou sem denúncia, eles estão rindo da sua cara. Para eles o crime parece compensar. Você saberia dizer quem realmente está alimentando o crime na sociedade? Serão os criminosos comuns ou será que existe uma guerra inventada para justificar contingente nessas funções? A equação é simples: Se não houver uma sensação de crime na sociedade, por ausência de ocorrências, as polícias se tornam mais figurativas do que necessárias. Mas quando as próprias polícias (incluso o Exército) traficam armas e drogas, alimenta-se um cenário de crimes que justifica uma ação contínua, uma grande circulação de dinheiro, jogos de interesse, disputa de poder e, claro, crimes derivados dessa alimentação. Mas note que, na prática, presídios não são para estes, já que estão lotados apenas dos que cometeram crimes banais.

Tente pensar em como a realidade seria diferente, se as pessoas simplesmente parassem de fabricar crimes na sociedade pra depois fingir que estão a combatê-los, apenas como pretexto pra cometer ainda mais crimes. Seria o paraíso. E alguns países sabem bem disso.

Países como a Islândia, pela primeira vez na história do país, dispararam os 2 únicos tiros, em 2012. E não é a ausência milagrosa de criminalidade que permitiu essa marca excelente, mas justamente por que ao invés de enxugar gelo, a Islândia investiu primeiro nas pessoas e nunca em polícia repressiva ou opressiva, muito menos em matança e fascismo. Aliás crime por lá você não vê nem na polícia, afinal, ninguém gosta de atirar no próprio pé e perder o benefício de se viver em paz. Eles sempre preferiram privilegiar a massa cefálica, a sociologia, psicologia, etc.

Outro caso é a Inglaterra, uma das grandes economias mundiais e com a polícia menos violenta do planeta. Só pra constar, a Inglaterra tem basicamente o tamanho do Estado de São Paulo. E dinheiro não é uma desculpa, afinal o Estados Unidos chafurda em dinheiro e é um país extremamente violento, enquanto que a República Tcheca, que mesmo não sendo uma potência financeira, figura em 6º lugar na lista de países mais pacíficos do mundo. O segredo? Todos esses países que conquistaram esse feito de segurança pública, conseguiram isso com uma chave poderosa chamada “Direitos Humanos”, o mesmo que muitos ignorantes criticam por achar que é aliviar para a criminalidade, quando, na verdade, é a forma mais eficiente de se eliminar a criminalidade. Que curioso não? Não pra mim que estudei o suficiente pra poder falar do tema com tranquilidade, ao invés de repetir bordões falaciosos de gente corrupta, violenta, racista, machista, fascista, opressora, ignorante e sem um pingo de interesse em sentar e ouvir qualquer grama que seja de alguma coisa que lhes possa ensinar a viver melhor.

Fora do hanking dos 10 países que figuram como os mais pacíficos, se você realente quiser fazer diferença no mundo e ajudar pessoas ou servir a sociedade, eu te digo que essas atividades policiais, atualmente, não são, nem de longe, o jeito de se fazer isso. Aliás, é, inclusive, importantíssimo dar o exemplo e deixar de pertencer ou enaltecer esses nichos apodrecidos, pra que some ao time dos que querem ver a Segurança Pública se tornar um assunto real e não só um termo técnico pra mascarar melindres e crimes. Um bom começo pra isso será quando a Polícia Militar no Brasil se desmilitarizar, para que o crime possa ser compreendido e reduzido, ao invés de ser só um fábrica de mais crimes e um clube pra centralizar bandidos. O Brasil é um dos poucos países a ainda arrastar uma polícia militarizada.

7. A Polícia Militar de São Paulo mata mais que criminosos.

8. Em APENAS 5 anos, só a PM de São Paulo matou mais que TODAS as polícias dos Estados Unidos juntas.

9. Conselho da ONU recomenda o fim da Polícia Militar no Brasil.

Pensar em Segurança Pública de verdade exige seguir a receita de sucesso dos países que lideram esse assunto: investir em polícia investigativa e não em polícia repressiva. Investir em Educação, Sociologia, Psicologia e Cultura. Qualquer remendo que não seja na base, será só ‘enxugar gelo’.

Se você não vai ter tempo, disposição, saúde, segurança, estrutura e poder de investigação, pra denunciar e barrar 100% (ou pelo menos a maioria) dos membros corruptos de um grupo, simplesmente não entre pra esse grupo e faça todo seu esforço pra combatê-los do lado de fora. Não se alie àquilo que não faz jus ao ideal da honestidade e do bom-senso. Já existe um número massivo de pessoas nessas atividades e muito poucos do lado contrário, tentando resolver a causa dos problemas ao invés de ser só mais uma peça do problema.

A imagem ruim que as polícias tem no mundo diante da sociedade não é por mero acaso. A estrutura exposta aponta que, seja lá de que tipo você for, lá dentro você é só uma peça desonesto do quebra-cabeça. Isso sem falar na associação direta entre instituições policiais e o conceito de controle, repressão, vigilância. Tudo isso piora quando entende-se que no sistema atual, as polícias não servem ao cidadão comum, sendo praticamente exclusivas a políticos, empresas, ricos, celebridades e, claro, aos bandidos (desde que aliados, com ou sem farda). Com a corrupção consciente, fica ainda mais evidente esse protecionismo seletivo, quando você assiste manifestações onde neonazistas são recebidos e protegidos pela própria polícia ao invés de serem presos. isso também pode ser visto no modus operandi das ações do dia-a-dia, quando a premissa é tratar negro e pobre como imediato suspeito, por vezes, humilhando, torturando, prendendo ou matando. Nas favelas, o game da matança neonazista é ainda mais ativo, justamente porque é uma área que está, geralmente, escondida das grandes mídias e acaba por ser uma forma fácil dos covardes agirem. A própria execução recente de Marielle Franco, depois de ter denunciado essas matanças e irregularidades nas intervenções de Acarí, no Rio de Janeiro, mostra como a tentativa de frear a máquina do crime é indesejada pelo sistema.

Quer pensar em Segurança Pública? Comece pensando que não há espaço pra denúncias e reformas em um lugar onde quem incomoda com a honestidade é apagado pra não voltar a incomodar. O que existe, inclusive é uma premiação pela corrupção. Não é em vão que os policiais que arrastaram o corpo da auxiliar de serviços gerais, Claudia Silva Ferreira (2014), pelo asfalto com a viatura em movimento, não só estão soltos, como ainda um deles foi promovido. A fonte está aqui. Os dois policiais envolvidos nessa ocorrência (Rodrigo Medeiros Boaventura e Zaqueu de Jesus Pereira Bueno) não foram julgados, seguem “trabalhando” normalmente e desde quando o crime aconteceu, já se envolveram, juntos, em mais 8 mortes. Quando um destes, na época tenente, foi promovido a capitão, ficou a imagem de que o crime parece compensar, bastando que você esteja na quadrilha certa. Não é preciso desenhar. Quem tem olhos, vê.

Quando quiser deixar um legado social sobre combate a criminalidade e melhora da condição humana, faça como Marielle Franco, socióloga (formada em Ciências Sociais com mestrado em Administração Pública), feminista, militante dos Direitos Humanos, política eleita e, atualmente, símbolo de resistência contra o caos generalizado no Brasil, inclusive aos olhos internacionais. Pela vida difícil de quem foi cria da favela, é louvável e gratificante o percurso que teve. Mas, como se sabe, no Brasil, honestidade tem um preço caro. Contudo, honestidade não é algo que se escolhe ter ou não ter. Quem tem, tem e exerce, mesmo que isso seja repreendido cedo ou tarde. O que não se pode é ser um covarde que fica atrás de desculpas pra não fazer o necessário. É preciso ter muita coragem pra ser honesto e não se dobrar às opressões, ao fascismo, às corrupções, às pessoas nefastas e aos modelos sujos de convivência na sociedade.

Pra recusar esse modelo de atividade e também essa contribuição nefasta ao sistema é preciso desenvolver autonomia de pensamento. Honestidade e coragem exige se abster de falácias e começar a argumentar com fatos. Se enraivecer por ter uma verdade apontada não vai tornar ninguém melhor ou mais correto nas ideias e nas condutas, mas apenas vai reforçar o idiotismo, o despreparo e a decadência do próprio coletivo que o gerou. Quem se sente saturado do modelo nocivo e falho das polícias e do Exército no Brasil e no mundo, tem a fácil oportunidade de escolher fazer qualquer outra coisa. Enquanto alguns lutam por mais dignidade no trabalho dentro dessas corporações de polícia, outros lutam por mais dignidade humana, apenas pra poderem sobreviver ou viver, sem pobreza, sem matança, sem violência, sem repressão, sem execução. Por aqui a gente não quer que casos como o de Amarildo (veja aqui.) se tornem esquecidos, pra que nenhum outro inocente acabe morto pela polícia e descartado em um caminhão de lixo, rumo ao lixão. Se as pessoas não se importam nem mesmo de matar inocentes, você acha mesmo que elas estarão preocupadas em matar culpados ou os que elas acham que são culpados? É preciso acordar e estudar.

Por todos esses motivos, as próprias polícias, o Exército e os corruptos do governo e das empresas não tem o menor interesse que a criminalidade acabe. Dá muito lucro continuar enxugando gelo, porque é um trabalho infinito onde cada vez mais poder, dinheiro e contingente é colocado em jogo. E quem não tem amor-próprio nenhum pode acabar achando incrível lutar por essa ilusão que é só um esquema de colocar ingênuo pra morrer na linha de frente, enquanto outros, confortavelmente sentam na cadeira e contam o dinheiro dessa corrupção. Quem participa dessa patifaria, seja como desonesto ingênuo ou como desonesto consciente, é um cúmplice. E cumplicidade ao crime é crime também. Onde está aquela tal de honestidade tão falada por alguns?

A bem da verdade, o ideal está num futuro muito muito distante, quando se fala em Brasil. Há países que sequer possuem Exército e a polícia tem um papel mais figurativo do que ativo. Brasil não está apto pra esta etapa e ainda vai se queixar muito da própria desgraça que cultivou. Países como a Holanda estão fechando presídios, faz tempo, por ausência de presos. Há até mesmo o caso de importação de presos de outros países, como forma de tentar desafogar os presídios lotados de determinados países e dar alguma função para os presídios vazios de países onde a criminalidade é quase uma lenda.

Prestar um serviço de utilidade para a população contrasta com a realidade do Brasil onde mulheres estupradas, por exemplo, geralmente não denunciam o ocorrido, porque não querem passar pelo dissabor de serem culpadas nas delegacias, ofendidas pelos policiais, ignoradas, agredidas ou, mais uma vez, assediadas. Essas instituições já não possuem nenhuma credibilidade perante a população comum e isso tende a sumir. O brasileiro já se acostumou a todo tipo de situação e praticamente boceja enquanto o mundo gira. Para alguns locais, dirão que não há viatura disponível, mas mude o discurso e pode ser que, magicamente, brote 20 viaturas em menos de 3 minutos no local. Tudo é uma questão de interesse. Trabalhar, para alguns, depende do contexto. Se não fizer nada for causar uma repercussão grande na mídia e na corporação por negligência básica que gere vexame noticiado e suje ainda mais a imagem imunda da corporação, então aí eles escolhem brincar de trabalhar. Mas se o trabalho for pra algo que facilmente irá ser ignorado por se tratar apenas de um cidadão comum, então dane-se o cidadão e que continue a soneca.

Boas lembranças das aulas de Sociologia, onde, à época, falava-se da realidade de que apenas 14% da favela tinha algum histórico ou conexão com atos ilícitos. Em resumo, favela e crime não tem nenhuma relação direta, exceto na mentalidade idiotizada de racistas e preconceituosos de classe. Ser pobre nunca foi sinônimo de criminalidade. Mas, frequentemente, ser rico, aponta pra incontáveis casos de crime. Agora adivinhe onde os governos e os “líderes” das instituições policiais querem que você atue de forma opressiva? Acertou se disse na comunidade mais pobre e negra do país. Lá onde não há nada pra se combater em criminalidade, é onde eles precisam inventar que há muito a se fazer. Assim podem, por exemplo, ter pretexto pra inserir uma UPP (Unidade Policial Pacificadora) corrupta pra sugar R$ 100 mil reais por mês de corrupção ou mesmo pra alimentar alguns traficantes com armas, pra justificar uma guerra social e dar a oportunidade de neonazistas fardados subirem os morros da favela pra brincar de exterminar negro, mesmo que sejam crianças. Feito um game, são recompensados por matar, por gerar mais corrupção, mais crime e mais lucro. Um lucro temporário, restrito, ilícito, às custas das vidas de todos os demais, que nunca trará segurança pública ou qualidade de vida a ninguém, nem aos próprios corruptos que dormem e acordam ansiosos, sem saber quando vai ser a hora deles de cair.

O mais próximo da honestidade que eu já vi nessas instituições policiais, foi quando um deles, na contramão de todos os demais, tirou o cabresto e resolveu se demitir, por ver que tava lutando do lado errado. Me fale de honestidade quando estiverem em luta pra prender de verdade toda aquela corja que infestou os prédios de Brasília, em golpes, corrupções, acordos com Judiciário, matanças por queima de arquivo, etc. Um cenário que, pra Islândia não é um sonho, mas uma conquista, quando prenderam 26 banqueiros, demitiram todo o governo e seguiram comandando o país de forma exemplar pela própria população. Raramente você verá alguém tocar nesse assunto em outros cantos do mundo, pois isso pode suscitar a vontade de mudança e paraíso, o que, certamente, acabaria com a mamata que os criminosos tentam sustentar.

Me fale de honestidade quando essa honestidade não tiver preço e alguém aceite trabalhar com qualquer outra coisa digna, ganhando igual, menos ou até mais, apenas pra não se dobrar ao que é errado. Não me venha falar de salário, pois a maioria da população ganha um salário indigno e nem por isso escolheram o caminho fraco do crime. E outros, em pobreza pior (senão na miséria), continuam honestos, apesar de tudo. Isso é simplesmente não ter a honestidade vendida, por ter ela como princípio. E princípio não se relativiza, nem fica em segundo plano, por isso chama ‘princípio’, pois sempre vem primeiro.

Eu escolhi não dar tiro no meu próprio pé. Mas todos aqueles que escolheram atirar aleatoriamente ao resto do mundo, já atiraram uma bomba atômica no próprio pé e levaram junto todo o resto da sociedade em uma onda de degeneração da segurança, da qualidade de vida, da dignidade, da esperança, do bom senso, da educação, etc. Longe dessas instituições tem gente corajosa que não se importa se vai viver ou morrer por falar verdades, porque morrer vamos todos nós. É gente que se importa em deixar legado, ser útil a sociedade até o talo. E isso eu faço até com os braços amarrados. Aos inconformados com fatos, podem chorar livremente, mas se tiverem alguma noção, chorem na Cantareira, em São Paulo, pois a seca reina por lá, por culpa do corrupto agronegócio que destruiu a Amazônia e, por isso, os chamados “rios voadores” já não trazem a umidade para regiões como a de São Paulo. Que outros temas você quer debater? Tempo eu tenho.

Pegue mais um link de presente: Gregório Duvivier fala sobre Direitos Humanos.

Rodrigo Meyer

Crônica | Miséria e Luxo.

Na frente da loja de conveniência, um morador de rua sentado. Aos desavisados, parece não esperar nada, mas pra quem vive fora da bolha, eis alguém que decaiu não só pra rua, como pro consumo de droga pesada. Não faz mal a ninguém. A comunidade em torno o conhece e o respeita. É educado mesmo quando não está sóbrio. A droga não transforma, ela só potencializa a essência do indivíduo. Alí está um homem que tinha vergonha da sua condição, de pedir dinheiro, de estar entre os demais. Um dia lhe disse que não precisava ter vergonha de nada daquilo, pois muitos de nós já se encontrou sem saída e o importante é tentar tirar o melhor proveito dos dias. Lágrimas do lado de lá, de alguém que lembrava, claramente, que nunca tinha ouvido ninguém se solidarizar. As pessoas passam reto, não olham nos olhos, mal chegam perto. As madames com seus carros pretos de luxo, abrem a carteira e tentam encontrar alguma nota de baixo valor, quando lhes pedem alguma moeda. Moeda elas não possuem e talvez a menor nota delas seja só de R$ 10 ou R$ 20 reais. “Mendigo inoportuno que não tem máquina de passar cartão de débito”, devem pensar. Ele, sempre volta; elas, raramente. Elas preferem o conforto de casa, como um bunker, trancadas e inseguras, por conta dos monstros que elas mesmas fabricaram. Ele, pede porque não tem; pede porque a abstinência cobra o consumo da droga; pede porque, muito antes, foi esquecido pela sociedade; pede porque, se a vida estivesse, antes, estável, não teria que pedir coisa alguma; pede porque uma minoria da sociedade não abdica dos luxos herdados, dos privilégios e até da corrupção, quando notam que é mais fácil ser egoísta e inútil, do que reconhecer que não tem mérito nenhum aceitar como certo o que foi dado errado. Não trabalharam duro, apenas lapidaram um diamante bruto herdado. E, geralmente, um diamante roubado.

Rodrigo Meyer

Crônica | Sou meu próprio presente.

Acordei sem dor. Sinal do corpo se adaptando. Foi uma ótima noite de sono. Sonhei como geralmente sonho: boas realidades intensas. Eu gosto muito mais é de sonhar. Lá as coisas são mais vivas. Acordado, mesmo na melhor das situações, é tudo sem sal, sem moral, sem aquele toque de mistério, de perspicácia. Meus sonhos são ocorrências inteligentes. Não sei se isso depende da minha inteligência ou se simplesmente sou contemplado com algo maior e melhor que eu. O que eu sei é que eu sempre fui muito grato aos meus sonhos. Aproveitei a oportunidade e sentei na cadeira pra escrever. Essa é a rotina que todo autor deveria ter. Hoje me sobra tempo, mas ainda não estou pleno. Sinto falta de me aconchegar com um café sobre a mesa e criar. O que liberta e dignifica não é o trabalho, mas o apreço por trabalhar. Em um mundo onde a maioria é infeliz com o trabalho obrigatório em uma atividade que detesta, eu prefiro a fome do que um tapa na minha dignidade. Prioridades.

Rodrigo Meyer

Crônica | O homem invisível.

Entrei pela porta de vidro, senti o ar-condicionado. Não havia como eu não ser notado. Mais de 5 câmeras de vigilância e funcionário pra todo lado. No refrigerador, bebidas geladas. Peguei uma e paguei. Do lado de fora, mais gente, mais olhos presentes. Entrei no carro, voltei pra casa. No caminho, as pessoas pela calçada e os escravos da ronda armada. Dentro de casa, os barulhos da porta de entrada se abrindo e da porta do quarto se fechando, avisam os vizinhos que eu voltei. Eu não queria ser notado por ninguém, mas assim como eu os notei, me notaram também. A privacidade não existe. Viver em sociedade é viver observado e julgado. Posso até mesmo me esconder atrás de cortinas e paredes, mas até a minha ausência de imagem vai ser estímulo para lembrarem que eu ainda não saí de casa. Quando eu não quero que me notem, lembram de mim todo dia, mas se eu precisar de silêncio ou ajuda, aí eu consigo finalmente ser invisível.

Rodrigo Meyer

Muita demanda, pouca oferta.

O ser humano, geralmente, está em busca de alguma oportunidade de se destacar em uma atividade, mas as pessoas, frequentemente, possuem preguiça ou desinteresse para específicas atividades ou áreas de estudo e, justamente por isso, estas oportunidades sobram pra quem tenha disposição e interesse de ocupá-las. É como diz a expressão: “A preguiça de uns é o trabalho de outros.”.

Quando tive a oportunidade de entrar pra faculdade de Ciências da Computação, foi interessante ver quão poucas turmas e cursos haviam pra esse segmento. A sala começou com mais de 40 alunos e gradualmente foi esvaziando. No final do curso sobraram apenas umas 5 pessoas que se diplomaram e foram elas que colheram os frutos disso, ao poder brilhar em suas carreiras. Da única pessoa que eu conhecia e mantinha contato nessa fase pós-faculdade, sei que a pessoa fez ótimo proveito da carreira. Estudou pra valer, se concentrou no necessário e teve trabalhos interessantes, inclusive com a oportunidade de reinvestir em si mesma para novos cursos, viagens e aprendizados. Em resumo, em uma sala onde nem todos estavam dispostos a seguir naquela profissão ou estudo, alguns estavam e, por isso, saíram na frente.

Mas a vida é múltipla. Quando saímos de uma área ou nem sequer entramos nela, temos a oportunidade de ir pra outra atividade. Contudo, algumas atividades são tão comuns, que estão saturadas. É o caso da área de Direito, onde muita gente se forma, mas a seleção da OAB filtra, por prova, os melhores, justamente pra não saturar o mercado de gente que vai acabar não tendo espaço pra exercer a profissão pretendida. Diversas outras áreas também se tornaram “febre”, por assim dizer, deixando áreas menos comuns com menos interessados e, portanto, com menos concorrência. A concorrência em si não é ruim, mas quando o mercado se satura exclusivamente de umas poucas profissões, isso desestabiliza a sociedade, pois o mundo não precisa só de meia dúzia de tipos de profissionais, serviços ou produtos. Então, a diversidade é mais saudável e útil para a própria sociedade, tanto coletivamente, quanto pelo benefício pessoal de conseguir se estabelecer profissionalmente como indivíduo.

A realização pessoal de muita gente acaba revista quando notam que, embora gostem de uma determinada área, não conseguem sobreviver com a realidade do mercado gerada em um contexto de saturação ou de desvalorização. Ocorre, também, das pessoas terem expectativas muito otimistas sobre determinada profissão ou área de estudo e acabarem frustradas ao descobrir que, na prática, não é tão glamouroso como pensavam. Tudo isso gera uma adequação quase que automática, colocando pessoas indispostas para fora de uma atividade e segurando as que se adequaram. Não há problema algum em se descobrir incompatível ou desinteressado com determinada área. Tudo que temos que fazer é exatamente nos descobrir, pra podermos fazer escolhas mais assertivas. Foi assim comigo quando abandonei a faculdade de Ciências da Computação por ver que não estava apto a lidar com tanta matemática enquanto ainda tinha que tentar absorver os princípios da computação em si. Admiro quem consegue e sigo interessado pela área, mas só volto à mergulhar nela se eventualmente me sentir apto a lidar com a quantidade de matemática que me freou na época.

Ao invés de me sentir frustrado, eu segui para outro curso. Fiz a faculdade de Comunicação Social e realmente me senti entretido o suficiente pra chegar até o final das aulas. Foi uma experiência muito boa pra mim, especialmente pelos professores que conheci e pelos momentos divididos entre as pessoas da época, pelos corredores, bares e casas noturnas. Mas, meu objetivo neste curso, por já ter conhecimento na área, não era ter determinados tipos de emprego como era pra todos os demais alunos. Pode-se dizer que fui a ‘ovelha-negra’ do curso, mas sigo tirando proveito e trabalhando com isso exatamente no espaço deixado pelos demais. Enquanto eles tentam ocupar uma área que, pra mim, era insatisfatória, discordante e saturada, eu escolhi atuar justamente onde ninguém tinha olhos ou interesse: apoiar pessoas, causas e pequenos negócios com ajuda do conhecimento que eu tinha. Apesar de não ter dinheiro pra gerir minhas próprias iniciativas nesses meios, consegui alavancar muito bem minhas mídias e ideias, até o ponto onde elas só não progrediram pra algo maior, por essa barreira financeira. Isso mostra que ocupar uma área onde outros não querem, pode ser bastante próspero, desde que haja suficiente apoio inicial.

Usando um dos exemplos que eu conheço, por conta da minha proximidade com o tema, cito a própria área de programação e TI, onde os salários propostos pelas empresas podem chegar a fantásticos R$ 100 mil reais por mês, justamente porque existe tanto potencial na informática e tão poucos programadores disponíveis, que um salário alto é a forma que encontraram de tornar a área atraente pra que mais pessoas se formem em computação, análise de sistemas ou alguma coisa relacionada a TI, podendo, assim, ocuparem as vagas que as empresas mais valorizam atualmente. Dessa escassez, pode-se encontrar até mesmo oportunidades como ter o curso de faculdade bancado pela empresa que pretende lhe contratar ou mesmo de ter uma vaga de trabalho praticamente garantida já no segundo ano de faculdade. Além disso, inúmeros brasileiros são tentados a trabalhar como programadores no exterior, justamente pelo combo salário + qualidade de vida de determinado país (frequentemente na Europa) ou, então, por poder estar em uma empresa renomada internacionalmente como Google, Microsoft ou Facebook.

É claro que estar ausente desse mercado não é, por si, sinônimo de preguiça. Há pessoas que simplesmente se esforçaram ao máximo pra tentar, mas não conseguiram, por inúmeras razões possíveis. Algumas pessoas não possuem condição de bancar um curso até o fim, outras não conseguem passar na seleção de uma faculdade pública e outras simplesmente podem ter se visto destoantes do tipo de estudo ou realidade de determinada área ou profissão.

Contudo, em várias outras atividades da vida cotidiana, é sim a preguiça de uns que abre portas para outros profissionais. Quando as pessoas não querem ter que lavar a própria louça, o carro ou casa, estão abrindo uma demanda pra que outras pessoas façam isso. Geralmente, em nossa sociedade discriminatória, esses trabalhos são evitados pelas pessoas com mais renda, renegando as pessoas de menor renda a aderirem a esses trabalhos que ninguém quis fazer, por demanda e por falta de capacitação ou espaço pra outras funções. Assim como existem muitas pessoas que ocupam as vagas de diarista, faxineiro, gari ou lixeiro, por exemplo, por não terem estudos suficientes pra pleitear vagas com exigências maiores de formação escolar, também existem as que migram pra essas áreas quando se veem desempregadas nas áreas em  que estudaram e se formaram, seja por saturação do mercado ou por algum revés pessoal. Fato é que, em ambos os casos, onde muita gente não estiver interessada de fazer algo, alguém virá pra fazer. O grande porém é que em países que discriminam as pessoas e os serviços, a remuneração dessas áreas tende a ser precária, como é o caso do Brasil. Em alguns países no exterior, profissões como a de lixeiro são uma das mais bem remuneradas, justamente porque as pessoas reconhecem a importância desse trabalho, cientes de que, sem isso, estariam no caos. Em tais países, existem lixeiros com faculdade, casa própria, dinheiro excedente pra viajar o mundo, etc.

Há muita coisa que é relativamente fácil de se aprender e executar, mas que muita gente evita, por que tem preguiça mesmo. Quando as pessoas não pensam por conta própria, por exemplo, abrem um enorme espaço pra que colunistas de pseudo-mídias ocupem e determinem o que é que as pessoas devem “pensar”, “concluir” ou replicar aos demais como “adequado” ou “correto”. Outro prejuízo se vê quando as pessoas deixam de exercer seu potencial artístico, por exemplo, ficando sujeitas a serem meras fãs passivas de algum artista. Isso não é saudável e, por vezes, pode ser apenas uma forma de você gastar muito dinheiro pra que outra pessoa faça o que você teve preguiça de se envolver. Noto isso em inúmeros casos de famílias que optam abertamente por babás na criação dos filhos, ficando completamente omissas da função na maternidade e paternidade. Consigo entender a inscrição de filhos pequenos em creches ou em  episódios isolados de tutoria com babás, mas se isso é o padrão de uma família na maioria dos dias, certamente comprometerá a relação entre pais e filhos.

Eu, ao contrário da tendência no mundo, sou daqueles que gosta da fazer tudo (ou quase tudo) por mim mesmo. Eu amo limpar a minha casa, organizar as minhas coisas, solucionar um problema do computador, seja em hardrware ou em software, cozinhar pra mim e, eventualmente, pros outros, fazer as compras no supermercado, pagar as contas, me enveredar pela minha expressão artística e literária, ler e estudar aquilo que ainda não domino pra impor, eu mesmo, tais benefícios aos meus projetos e necessidades. Me propus a estudar Idiomas, Culturas, História, Sociologia, Psicologia, noções gerais e básicas de Medicina, Direito e diversas outras áreas do conhecimento. De certa forma, estar ativo em todas essas coisas, pra finalidades pessoais de conhecimento e lapidação, me motivam ao invés de me deixar em preguiça. Aliás, se eu tivesse 8 mãos e estabilidade financeira, faria muito mais. Por vezes, deixei de expandir minhas ideias, simplesmente porque era, no meu contexto, impossível de se fazer.

Mas, a verdade é que eu não tenho como criticar os preguiçosos, afinal é por conta deles que sobra espaço pra que os demais façam algo, criando suas carreiras e tirando seu sustento na vida. É ótimo que o mundo seja diverso, desde que as pessoas sejam conscientes de que quando escolhem não estudar e não fazer as coisas por conta própria, terão que remunerar bem quem remou contra a maré da sociedade e decidiu estudar e fazer tal coisa. Então, é preciso, pra ontem, valorizar os fotógrafos, os cozinheiros, os lixeiros, os designers gráficos, os pintores, os professores, os músicos, etc. Ou seja, se você gosta e precisa de algo que você não domina, terá que valorizar quem domina, senão tal área tenderá a ficar precarizada até sumir ou se degenerar em qualidade. Se você não investe um valor justo pra que um profissional viva dignamente e possa estudar e se aprimorar na carreira pra te oferecer sempre um serviço cada vez melhor, você está, basicamente, plantando uma realidade onde os serviços e profissionais serão cada vez piores e mais raros. E, se eles se tornam piores, não trazem bom retorno pra quem os contrata. No caso de se tornarem raros, podem se tornar caríssimos e restritos somente aos que realmente entendem o valor daquilo, ao mesmo tempo em que podem pagar por tal valor.

Então, para não dar tiro no próprio pé, é preciso saber sustentar uma modelo de trabalho com remuneração justa. A lógica é simples, mas muita gente não tem paciência ou apreço pra se ver diante dessa realidade incômoda todo dia, por isso raramente refletem sobre essa urgência. E, se muitos não refletem, lembre-se, alguém vai ocupar esse vazio e refletir por eles. Espero que tais substitutos sejam sempre pessoas bem intencionadas e capazes, pois, do contrário, o mundo acabará mergulhado em realidades cada vez piores, como ocorre no Brasil, por exemplo, onde empresas, mídias, políticos e personalidades ditam a asneira conveniente que desejam pra manipular e extrair lucro e poder em cima dos incautos na população.

Inclusive, o fato de muitos não saberem diferenciar uma pessoa capacitada e correta de uma fraude é a demonstração de como tal pessoa se absteve tanto tempo da autonomia de pensamento dos assuntos do mundo, que acabou criado e moldado pelos que vieram pra moldar e ditar a realidade trágica dessa pessoa. E claro, entre indivíduos mal intencionados, um dos primeiros objetivos é fazer o público apontá-lo como líder ou referência, assim ele pode continuar controlando as pessoas com a própria aprovação delas. Alguém que vive esse cenário onde é usado e mesmo assim apoia ou defende seu opressor, diz-se que a pessoa tem Síndrome de Estocolmo. Depois de tudo isso, afinal, de que lado você quer estar?

Rodrigo Meyer

[+18] Sexo entre amigos?

Por algum motivo essa é uma dúvida que ainda pulsa na mente de muita gente. Essa insegurança sobre ser viável ou não misturar amizade e sexo é das coisas mais tragicômicas que conheço. Se há alguém com quem você pode compartilhar sexo, certamente essa pessoa é um amigo(a). Não significa, claro, que você só possa fazer sexo se o parceiro(a) for um amigo(a), mas é evidente que problema não terá. Quando alguém me diz que não namoraria ou não ficaria com determinada pessoa por considerá-la um amigo, eu rebato de volta perguntando se ele namoraria com um inimigo, então. A pessoa se desarma na hora e fica sem ter o que responder, afinal é óbvio que se temos atração por alguém e temos uma amizade com tal pessoa, ela é uma pessoa bacana e viável o suficiente pra se dividir sexo, justamente porque não há dissabores ou barreiras emocionais que transformam aquela pessoa no oposto de uma opção viável ou desejável.

Apesar disso soar óbvio, muita gente tem esse tabu ou receio bobo de que amigos não servem pra se relacionar além da amizade. E não passa de um tabu mesmo, que aliás, felizmente, grande parte da sociedade não endossa. Algumas pessoas ainda figuram entre as exceções, talvez por algum trauma, insegurança, complexo, medo ou por puro preconceito constituído na sua formação como pessoa. Mas, uma vez que se alinham com uma visão saudável, isso tende a sumir. Doentio mesmo é manter-se em vigília intensa para nunca se envolver com pessoas que você realmente dedica bons momentos, reciprocidade e que, eventualmente, pode vir a sentirem-se atraídos sexualmente ou, pelo menos, romanticamente. Seja lá qual for o contexto adicional que você veja de interessante, não há nada de incomum ou anormal em desejar partilhar disso junto com a amizade preexistente, bastando que o desenrolar dessa ideia inicial passe pelo menos pelo consenso de todas as partes envolvidas.

As chamadas ‘amizades coloridas’, onde amigos se permitem a relacionamentos sexuais em paralelo a amizade, não são nenhuma novidade. Eu estranho que em 2018, apesar de tanto tempo percorrido, ainda hajam pessoas com tanta privação de liberdade, por vezes acorrentando-se voluntariamente e negando uma realidade mais plena, apenas por inventarem regras que nem mesmo a sociedade possui. Conheço casos isolados que me fizeram bocejar de tão desnecessariamente maçantes. O único lado positivo dessa história é que, provavelmente, essas pessoas não serão frequentes em nossa realidade.

Outra coisa que precisa ser dita e que está bastante atrelada ao tema original é que, amizades sinceras também podem existir entre quaisquer pessoas, independente se é um homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem, ou seja lá qual for a combinação de gênero e atração sexual que normalmente cada indivíduo expressa. Um homem hétero, por exemplo, em termos de atração sexual, está direcionado para mulheres e isso nada impede que este homem e as mulheres a quem ele convive não possam desenvolver uma amizade. É evidente que vejo um discurso contrário a essa realidade, afinal a sociedade ainda é marcada por preconceitos e generalizações. Sei que muita gente diz de maneira convicta de que amizade entre ‘homem e mulher’, por exemplo, não existe, em razão do potencial interesse sexual que estará “inerente” a estes. As pessoas que dizem isso, falam por si mesmas apenas e, se elas não possuem capacidade de gerir amizades reais, por conta desse fator, isso só aponta uma condição exclusiva delas e não de uma sociedade inteira. O mundo, felizmente, não gira em torno de um determinado indivíduo.

O que talvez ocorra é que, por ser completamente natural que haja a possibilidade de atração sexual e/ou sexo entre amigos, quando isso ocorre, parece ser a comprovação, para alguns, de que esse é o inevitável desfecho para amigos naquelas configurações de par. Mas, como dois equívocos não fazem uma verdade, voltamos a destacar que isso não procede. É evidente que pode ocorrer de nos depararmos com pessoas que, de fato, só constroem amizades com outras pessoas tendo esse objetivo sexual e, em uma sociedade machista e fútil, isso pode até mesmo representar um número grande de indivíduos. Mas, mesmo que 99,99% da população de todo planeta tivesse essa conduta doentia, ainda sim, não seria 100% e não faria valer a ideia de que é uma condição nata entre a condição do problema e o desfecho proposto. Aliás, cada vez que alguém reafirma essa ideia preconceituosa de que não pode haver amizade sem que haja necessariamente segundas intenções sexuais em paralelo, está deixando um reforço nesse pensamento e modelo de sociedade, ampliando o número de pessoas que passa a viver sob essa ótica. Quem não se sente confortável com uma ideia que está em tendência na sociedade deve se engajar justamente na propagação das ideias que acredita e quer ver, para que seja exemplo pela palavra e pela prática. Simples assim.

É interessante pensar que se uma sociedade se fecha para estes aspectos completamente naturais dos relacionamentos humanos, não é de se espantar que, quando estão em um namoro ou casamento, frequentemente estão infelizes, convivendo com alguém que, ironicamente, não são amigos ou melhores amigos entre si. É tragicômico ver que as mesmas pessoas que criticam tanto essas misturas entre amigos e parceiros sexuais, passam para o namoro ou casamento com um ar de frustração por se aperceberem que aquele com quem estão dividindo um relacionamento sério, não construiu uma amizade paralela, afinal, estas duas coisas estiveram separadas desde o início, por decisão equivocada deles mesmos. O que pode ser mais desastroso do que esperar saborear um pão, mas não ter incluído na receita a massa. Percebe?

As pessoas assistem com brilho nos olhos os casais que perduraram felizes juntos por muitos anos, até o final da velhice, mas nunca param pra notar o que estaria por trás de alguns destes relacionamentos. Se não é a constituição de uma amizade sincera, não sei mais o que seria, afinal, depois de certa idade, atração sexual é que não será. Se só nos preparamos pra viver a faceta sexual de nosso ser, estamos fadados a um fracasso miserável na vida, a ponto de terminarmos sempre e toda vez, infelizes e insatisfeitos com o mundo, com nós mesmos e com qualquer outro que cruze o nosso caminho, afinal, a vida não é feita só de sexo. Um bom relacionamento é, sobretudo, uma troca de bons momentos, experiências e cuidados. É preciso ter muita sintonia, compaixão, amizade, interesse sincero e transparente pelo bem-estar do outro. Formar um bom relacionamento é construir um espaço  que não sufoca ninguém, mas cativa as partes envolvidas a quererem estar por ali para mais e mais. A vida pode ter muitos mistérios indecifráveis, mas alguns, claramente, são tão explícitos que chega a assustar ver que muita gente ainda não está conseguindo enxergar.

Consigo entender que muita gente esteja amargurada, traumatizada e sem esperanças pela vida, afinal, muitos indivíduos já tiveram experiências pouco frutíferas no campo das relações humanas. Porém, por isso mesmo, é importante estar sempre aberto aos erros cometidos, para não acabar fomentando um cenário que gera estes mesmos episódios mais e mais vezes, num círculo vicioso doentio. Uma sociedade que só replica desafeto, ansiedade, hipervalorização do sexo e subvalorização do afeto e da amizade, certamente está atirando no próprio pé e não está se dando conta. Dessa maneira, vai sempre se incomodar com a dor do ferimento, negligenciando o fato de que foi ela mesma que se sabotou.

Relacionamentos amorosos devem ser exercidos por pessoas aptas, maduras, independentes, livres e seguras de si. Diante de algo tão importante, não se pode achar que a ansiedade do momento vá ser parâmetro útil pra definir como ou com quem se relacionar ou não. Embora não possamos ter muito controle sobre quem nos será uma paixão ou atração sexual, podemos, com toda certeza, escolher nossa conduta diante desses sentimentos. Se algo lhe foge ao controle, nesse sentido, busque ajuda profissional, pois não é saudável e nem faz parte da natureza humana estar sem controle de seus atos por conta desses impulsos citados. Há muita coisa que motiva o ser humano a idealizar ou até aspirar determinadas realidades, mas, se o contexto de um relacionamento não é recíproco ou não nos é conveniente para o bem-estar de uma das partes, é hora de simplesmente buscar outras opções viáveis. Não gaste tempo na sua vida procurando fazer caber o que não cabe. Forçar uma ilusão a se adequar a realidade é o mesmo que plantar o conflito, enquanto poderia estar dedicando tempo e energia pra algo que realmente tem potencial de se concretizar e lhe trazer bons momentos. Pense nisso, faça boas escolhas e, assim, terá melhores chances de ser alguém feliz.

Rodrigo Meyer