Minha ideia sobre bons momentos acompanhado.

Embora seja fácil pra mim citar uma infinidade de cenários que me interessam, é importante antecipar que isso não restringe as possibilidades, nem torna o que foi citado como premissa. O que vem a seguir, demonstra, sobretudo, como as coisas podem ser diversas, diferentes, permeando desde o convencional ao exótico, indo de coisas simples até sonhos que exigem maior preparo. O importante nisso tudo é o que está por trás de cada momento, de cada interação, o que ocorre na mente de cada um, o que se abriga no sentido subjetivo, simbólico, emocional e ideológico por trás. Muito disso traz aspectos de liberdade, de ousadia, de cumplicidade, de transformação, de coragem, de tranquilidade, proteção, mudança, sinceridade, confiança, mistério e também a beleza dos dramas.

Pensar em bons momentos pra se viver, me fazem viajar em realidades das mais diversas. Eu sou uma pessoa diversa. Muito. Eu consigo permear inúmeras realidades e me sentir pleno em todas elas. Eu sei ver o que há de bonito em todo tipo de realidade. Eu consigo transformar a minha vida em diversas outras vidas. Eu sou uma biblioteca à ser escrita, podendo ter uma história diferente em cada livro. Eu não sei qual vai ser a próxima realidade que eu vou vivenciar, mas todas as realidades que me chegam, eu vivo intensamente, entregue totalmente, em sinceridade.

É um bom momento pra mim, andar pela cidade, lado a lado, em dois, em trio, em grupo e chegar recebido e convidado para um apartamento. Apartamentos são diferentes de casas. Eles tem uma atmosfera diferente. Sentar num chão é tão bom quanto sentar num sofá e ambos são mil vezes melhor do que sentar numa cadeira. Eu penso que seja o viés social e informal. Cadeiras são unitárias, enquanto o sofá e o chão são espaços coletivos. Cadeiras são construções formais para fins quase sempre muito específicos, enquanto que os sofás são um recanto de acolhimento, de conforto, de socialização e do imprevisto. Se quer me ver brilhar os olhos, me chame pra sentar no chão, beba junto comigo e me mostre algo bonito. Estejamos alí sem hora pra acabar. Deixa o tempo fluir, enquanto o dono da casa não tiver que sair pra trabalhar. Coloque uma música baixinho, vamos só sentir o momento. Olhares, muitos olhares. Isso é a base da melhor comunicação.

Outra possibilidade encantadora é viajar o mundo. Que eu acorde cedo, tarde ou mesmo de madrugada. Vamos cansar e descansar nas filas de estações de ônibus, nos trens, aeroportos, a pé ou de carro. Não importa como, a gente vai sair e chegar. Será ótimo ver o dia passar. E de repente apertar o passo, pra não perder o horário, mas tudo bem se não chegarmos à tempo e tivermos que mudar os planos. A gente sobrevive, dorme na calçada, segura o sono até podermos sentar, mas a gente faz, porque tudo isso é viver. Conversa comigo, observe as pessoas, vamos rir, vamos brincar, vamos imaginar. Me mande uma mensagem inesperada, no meio da madrugada e me peça pra ir aí. Os melhores dias começam assim. Gente intensa, gente viva, que percebe o segredo da vida nestes pequenos grandes atos. Se nada der certo a gente enfrenta junto. É preciso se entregar pra que coisas incríveis comecem a acontecer.

Também é bom estar em casa, deitado na cama, fazendo coisa nenhuma, recebendo um carinho, ouvindo conversas ao pé do ouvido, dormindo, ouvindo a chuva cair ou uma música de fundo que nos faça sorrir. Dividir uma pizza, uma bebida, um incenso, uma lareira, um vento na janela, uma cadeira na varanda, um chão, meu chão, o chão de quem vier. Vamos sentir a maciez do cobertor e o cheiro diferente que toda casa tem. Vamos redescobrir o sentido do tempo, se permitir sentir-se em casa na casa do outro, abrir a geladeira, tomar um banho, despir-se, usar a internet, convidar mais gente, inventar uma festa ou não ter ninguém e deixar espaço pra fechar os olhos e sentir. Não traga nicotina, tem coisa melhor pra se fumar. Se tens tempo, fica o dia todo, vira o dia, passa uns dias, volte quando precisar voltar.

Gosto também de estar mergulhado na noite, nas ruas, sentindo o movimento, a ação, a incerteza, a novidade, gente diferente, gente estranha, gente feia ou bonita, mas gente, muita gente, por onde possamos nos perder e encontrar novas portas, novos cantos, novas conversas, novas possibilidades. Vamos puxar assunto com alguém que acabamos de conhecer. Olho nos olhos, assistindo a linguagem dos corpos e vendo se tem alguém alí que pode nos acender. Vamos dividir uma mesa, brindar à beleza e descobrir só na hora pra onde vamos ir. Precisamos escutar bem as conversas, ouvir os detalhes. Lá habitam mundos. Pegue no braço, sinta os perfumes. Assim estaremos vivos o suficiente pra morrermos antes do sol nascer. Não deixe a janela aberta. A penumbra filtra o necessário pra que tudo seja mais aceitável. Não precisamos descobrir as coisas como elas são, mas só sentir o que elas podem ser por aquele momento.

Que lindo momento seria se houvesse um piano. Sentar um instante e matar saudade dos tempos de música. Entender que tudo fica mais fácil se estamos despreocupados com a vida. Apenas sentir os dedos encontrando as teclas, como se sempre soubesse onde precisa tocar. Brincar de poeta, inventar melodias, exercitar a alma. Fique por perto, sente na poltrona, use tua droga preferida e entre na viagem daquele momento. Mas não apague, não fique totalmente perdida, deixe pra se perder na sua vez de tocar o piano, de ser arte, fazer arte, fazer parte. Vamos vedar a casa, pra não incomodar os vizinhos ou morar num lugar onde eles apreciem nossos desvios. Que as janelas possam ser de vidro, porque quero olhar as luzes da cidade lá fora ou um espaço de natureza onde o vento agite uns galhos de árvore no meio da escuridão. Se estivermos acordados de dia, que possamos, pelo menos, sentir o laranja da tarde ou algum frio congelante que nos faça sentir melancolia.

Do outro lado da vida, ainda se vive a mesma vida, se não deixamos de ser a mesma pessoa. A vantagem em ser diverso é poder apreciar também um simples momento em família. Vamos visitar uns parentes ou desconhecidos, numa festa de aniversário, num evento beneficente ou qualquer coisa parecida. Vamos conversar com idosos, conhecer histórias, prestar memória, deixar aquilo ser algo bom pra se lembrar. Fazer ser importante pra quem recebe a presença e encontrarmos importância também no que eles podem nos dar. Vamos rir de crianças, das coisas bobas e bonitas que fazem, sentir ternura e relembrar como é bom essa fase. Vamos ver animais, abraçar cavalos, assistir uns patos, libertar passarinhos e inventar nomes pra uns gatos. Vamos espalhar uns panfletos na avenida, nas caixas de correio da vila, nos arredores das escolas. Vamos fotografar, escrever, desenhar, promover, apoiar. Vamos pras ruas em tempos de luta, chutar pra longe as bombas de gás lacrimogêneo. Vamos nos juntar a milhares de outras pessoas com vida. Amarra o coturno, apressa o passo, segura no braço, vamos se entrelaçar formando uma fila.

Em companhia, não fecho as portas pra nada. Não me importa se é um amigo, um mendigo, um perdido ou uma namorada. Por aqui você pode contar comigo, não tem tabu, não tem frescura, não tem perigo. Se está feliz ou triste, se perdeu a saúde ou precisa ser ouvido. Eu não sei qual é o seu momento, mas eu estarei lá pra fazer a minha parte. Pode me contar, eu vou ouvir, me pergunte, eu vou responder. Não tem problema nenhum se você é diferente, se sua vida anda meio perdida ou se você sente que não tem espaço pra se explicar. Aperta minha mão, dá um abraço, perde o medo, não tenha vergonha, fale do seu jeito, no seu tempo, o que achar que deve. Vamos conversar, vamos trocar. Estamos vivos, somos gente de valor, vamos se valorizar. Aceita um convite, deixa eu oferecer uma comida, talvez uma bebida, talvez um conselho pra dar. Me conte sua história, vamos dar a volta por cima, fazer isso ser motivo de glória e não motivo pra chorar. Incômodo são somente os outros que nos ignoram e não sabem nos fazer brilhar. Pode vir, com sua roupa furada, sua bagagem amassada, seu olhar maltratado, seu tesouro quebrado, sua insegurança, sua timidez, seus medos. Traga o que tiver e será suficiente. Aproveita o dia, pois todos merecemos. Fique tranquilo, encontre prazer em ser, em ter alguém pra chamar de amigo.

Há de se ver prazer também em cenários menos entristecidos. Vamos escrever cartas, cruzando distâncias curtas ou transoceânicas. Vamos agradecer, enviar desenhos, flores, histórias, pedaços valiosos de nossas próprias memórias. Vamos levar o nosso dia a dia pra alguém que nos seja importante. Dividir a vida à distância, pode ser tão ou mais vibrante do que pessoalmente. Tudo depende do que estamos fazendo e para quem. Pessoas incríveis encontram prazer e aventura em coisas que pra muitos é pura loucura. Vamos ter ideias, pensar junto, lembrar do outro, enviar um mimo, um presente, uma proposta, uma pergunta, um lembrete, um conselho, um elogio ou uma simples foto tirada na frente do espelho. Nos tornamos mais humanos quando conseguimos ser livres o suficiente pra aceitarmos múltiplos planos. Me surpreenda com um pacote de guloseima que só tem no lugar onde você vive. Eu vou me sentir feliz pela surpresa e lembrar disso vai me fazer me conectar melhor contigo. Não importa que nome isso tenha. Faça isso ser leve, intenso e sempre valerá a pena.

Também gostaria de momentos desafiadores. Conhecer o extremo nos lugares de neve, o calor pesado de grandes desertos e sumir por meio de vilarejos pequenos. Subir montanhas, descobrir cachoeiras, acampar por aí, deixar as aventuras serem elas mesmas. Me chama pra te ver acordando, de cara inchada, se espreguiçar olhando pro horizonte, sentar e contemplar. Vamos sorrir, abraçar, meditar, descobrir que pouca ou muita comida pode ser igualmente suficiente. Vamos lavar os pés no mar, deixar o sal limpar e o vento secar. Corre ali, volta com uma novidade, descobre um lugar, um bar, uma outra cidade. Vamos ficar, vamos partir, vamos dividir. Na praia, no campo e pra onde mais quisermos ir. Isso nos faz saudáveis, nos faz admiráveis, nos faz sorrir.

Trabalhar junto também é possível. Como em um jogo de vôlei, um levanta e o outro corta. Ser equipe, ser parceria é fazer a coisa funcionar de uma maneira que seja boa pra nós. É encontrar uma atividade que nos seja divertida, que dominemos e que tenhamos prazer em nos esforçar. Ver resultados não pode ser só uma meta a ser atingida, mas o cenário de quem tem objetivos pessoais naquela investida. É isso que nos faz investir, nos faz sentir seguros no que fazemos. Levante um dia com uma dúvida, uma proposta, uma pergunta, uma ideia nova. Me apresenta um livro, vamos comprar alguma coisa necessária qualquer pra tentarmos realizar nossos sonhos e loucuras. Faça tudo ser bonito, se empenhe, não se contente com algo inferior. Vamos fazer do trabalho um ato de amor. Se teus olhos não brilham pelo que você faz, vamos mudar de trabalho, vamos correr atrás de mais. Eu não preciso que teu trabalho seja fixo, nem me importaria se tivéssemos que esperar um pouco mais. Eu estou aberto, eu apoio, eu quero ver sorrisos, eu quero fazer parte, inclusive com bastante improviso, porque começar é apostar no que ainda não existe para os outros, mas já é realidade dentro de nós. Se mudamos de cidade, se perdemos a conexão com a realidade, tudo bem, a gente vai encontrar uma forma de nos fazer sermos percebidos, de vencer aquilo, pelo menos, no nosso interno desafio.

Você pode ser quem você quiser, encarar a vida de mil maneiras. Pode ser mãe, aprendiz, solteira, alegre ou infeliz. Você pode gostar de rock, de samba ou ser como eu que gosta de tudo que me faça sentir. Você pode preferir a noite, pra poder dormir de dia, pode inverter o jogo e me arrastar pra debaixo do sol. Eu vou estar lá, admirando a chuva, o vento, o sol, a paisagem, a casa quebrada, a porta velha, a cama improvisada, e também o teu imenso candelabro escondido na cera da vela. Você pode ser de toda forma, qualquer medida, qualquer estilo de vida. Mas, que seja confidente, que se entregue junto, que venha pros momentos pra ser gente como a gente. Que se permita errar, não saber, conhecer muito e me ensinar a ser. Você pode estar comigo, pra correr da noite, no meio de lugares desconhecidos, pode estar na paz de uma escada no alto de um prédio, dividindo um segredo, sendo você mesma um mistério. Pra ser companhia por aqui, é preciso estar sendo algo verdadeiro. Se simpatiza com a minha forma de ser flexível, temos o dobro de possibilidades. E se tua vida for um pouco mais restrita ou concentrada, vou adorar entrar nesses trilhos pra seguirmos juntos a mesma jornada. A vida não precisa ser de um jeito muito específico. A realidade que alguém escolher ter ou mesmo qualquer outra realidade que nos aparecer, eu vou encarar com gosto, vou me sentir protagonista, vou estar lá pra mergulhar fundo, experimentar a realidade daquele mundo. Eu não me incomodo com nada. Tudo que eu conheço da vida é que a vida está aí pra ser explorada.

Talvez você não enxergue em mim, logo de cara, tudo que eu posso ser em qualquer outro momento, em outro cenário, com outro pensamento. Talvez você não perceba que, do jeito que eu vim, é só uma das inúmeras possíveis facetas. Aquilo que somos não é necessariamente aquilo que estamos. A vida é sempre transição (ou não). E está tudo bem em permear mundos diversos. Se não experimentamos em profundidade uma determinada história, uma face da vida deixa de existir. Estamos aqui pra usufruir. Se você se permitir e se estivermos em sintonia pra dizer mais sim do que não, então, temos uma boa razão. Dividir bons momentos em companhia é ser companhia em qualquer momento. Não importa o cenário, nem importa o que é que vamos fazer das nossas vidas. Não sabemos. Chegamos lá e descobrimos o que temos e teremos. É sempre uma surpresa. E fica tudo melhor se quem nos surpreende também acredita nesse ideal. Assim a vida fica cheia de aventuras, até mesmo nos momentos em que nada acontece. Viver, por si só, se nos permitirmos sentir o momento, é aventura suficiente.

Rodrigo Meyer – Author


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Cultura underground versus estrutura ruim.

No início, toda a contracultura ou a chamada cultura underground apresentava-se em tom de improviso, justamente porque era esse o limite possível naquele contexto. Em um ambiente onde era caro produzir a cultura “padrão”, esse feito limitava a expressão a quem detinha dinheiro ou influência, ou, ao menos, a pessoas que se sujeitavam aos modelos convencionais das grandes mídias ou mídias tradicionais. Criar e difundir conteúdo diferente, na contramão dessa correnteza de ideias moldadas, era achar uma brecha no tempo e no espaço, e fazer acontecer, nas condições que fossem possíveis. Faziam alguma coisa ruim em estrutura ou simplesmente não fariam nada.

Contudo, o cenário de cultura se ampliou significativamente e já não há uma barreira tão limitadora que renegue as pessoas a algo sempre sem qualidade na estrutura ou na técnica. Já é possível, por exemplo, ter um disco de música gravado com pouco recurso e disponibilizar para absorção ou venda via internet, praticamente sem custos. Pode-se ter credibilidade pra se defender uma temática alternativa como opção de negócio viável pra uma casa noturna, um bar, um comércio pautado em um estilo de vida tido como ‘incomum’, etc.

Claro que a cultura, muitas vezes, é exatamente o lado “ruim” que os ambientes ofertam e que o público aprecia, justamente pelo seu estilo, pela tradição, pelo clima do ambiente, pelas referências. Embora o improviso e a personalidade dos lugares tenham peso ímpar nessa equação, isso não significa que as coisas precisem ser ruins em tudo. É possível ter copos limpos, um banheiro onde não se afunde todo o sapato num lago de urina, funcionários minimamente educados e capacitados pra atender o público, etc. E isso é uma observação que faço mesmo sendo um dos que adora ambientes simples e detonados. Dentro da minha realidade de cultura gótica, indie, rock, punk ou qualquer coisa que permeie o meio urbano, é minha cara os becos, beiras de calçadas, esquinas, bairros afastados, apartamentos velhos, casarões sob risco, galpões abandonados, etc. Nem por isso, deixou de ser útil e importante, nos lugares onde isso é possível, um ajuste na estrutura que possa somar pra quem frequenta. Não é preciso sofisticar um lugar pra melhorar sua estrutura, mas não se deve cair no pensamento equivocado de que o ideal de “quanto pior, melhor” é algo pra se levar ao pé da letra e/ou em todos os quesitos.

Se décadas atrás era difícil conseguir ter expressão na sociedade com estas subculturas ou estilos, hoje em dia se tornou algo muito bem recebido dentro dos devidos segmentos. E é claro que isso não elimina a importância ou o papel de apoio pra tudo o mais que surge ainda em condições improvisadas. Ainda há muito underground pra ser expresso, mesmo abaixo de todos esses espaços que já estão bem sucedidos na sociedade. Espaços devem sempre ser gerados, independente de suas condições, afinal toda expressão é um sinal de que alguém quer voz, quer espaço, quer ter seu momento, sua ideia, seu destino, seu valor. Onde quer que olhemos, precisamos entender que tudo é dinâmico e único. Ao mesmo tempo em que alguns cenários querem simplesmente existir, outros já existem e podem progredir, mesmo quando optam por não fazer.

A impressão que tenho, às vezes, é que as pessoas estão, propositalmente, enterrando o investimento na subcultura por medo de ver aquilo se transformar em algo diferente da essência. De certa forma eu entendo esse medo, mas é preciso diferenciar com cautela o que é investir em subcultura / cultura underground e o que é matar a essência ou propósito desse nicho em troca de massificá-lo ou torná-lo a chamada ‘cultura de massa’ ou ‘cultura mainstream‘. Essa competição pra ver quem é mais anônimo ou restrito a pequenos grupos não é algo que deve ser levado a cabo por ninguém que tenha sensatez, afinal o que se espera da cultura, sempre, é difundi-la ao mundo todo, o quanto for possível (desde que isso não contrarie os princípios, claro), afinal, se alguém tem uma mensagem e ideologia expressa em uma letra de música, em um estilo de roupa ou no lefestyle, isso é o que se quer comunicar ao mundo como forma de alavancar reflexões, mudanças, ações, oposições, etc.

Penso que se estamos a nos opor a algo convencional, especialmente o modelo social, de mídia, e estamos tentando quebrar as correntes que limitam a nossa expressão de valores, verdades e ideologias, então devemos ser as pessoas mais engajadas em fazer acontecer essa concretização em nossos próprios espaços. No final das contas, apoiar a cultura alternativa, underground ou a ‘contracultura’ é nada mais que agir pra que a estrutura dela favoreça a permanência do próprio público adepto / simpatizante desses universos.

Relato com tristeza que, muitas vezes, a cultura alternativa se tornou um espaço que abandonou o interesse pelo aprendizado ou pela inovação. Vejo muita gente vestindo os crachás estritamente pela onda ‘cool‘ da aparência exótica e não exatamente pela sinceridade em viver essas realidades em termos de personalidade ou cenário cultural. Muitas dessas pessoas, infelizmente, estão tão viciadas na própria bobagem da pseudo-cultura forjada ao redor do mundo, moldados pelos padrões de pensamento, de moda, de ideias, de conduta, de objetivos, etc., que já não cumprem nenhum papel realista dentro dos cenários alternativos. Há muitos destes perdidos que tornam-se até mesmo famosos nesses meios, apesar da contradição berrante. São tempos onde o underground está perdendo o sentido ou, então, se reinventando em outros cantos ainda mais recentes e anônimos (desta vez por falta de opção).

Observo preocupado os lugares onde a essência é, por exemplo, combate a preconceito, mas borbulham nestes meios figuras completamente opostas a isso. Nada pode ser mais patético e desnecessário, ainda mais pra algo que é tão frágil e restrito como um nicho de subcultura. Talvez o encantamento pelo diferente seja a única coisa que faça essas pessoas se sujeitarem a estar onde sequer são bem-vindas. Talvez muitos destes nem entendam ou nem saibam o que é que cada nicho de cultura ou subcultura representa e, por isso mesmo, é importante que façamos um bom esforço em promover essas realidades, a fim de tornar isso mais visto, mais absorvido e discutido socialmente. Se nunca levarmos o underground pra fora dos subterrâneos da sociedade, talvez estejamos secando a fonte de cultura. Pense que as pessoas não vivem e não criam pra sempre e que a cultura não é só roupa, bebida, música e casa noturna. Vivenciar uma época, uma ideologia ou um estilo de vida é algo que exige das pessoas uma participação geral e full time.

Além de tudo isso que foi levantado é preciso dizer que, mesmo quando nos colocamos em preferência ao underground, a cultura dita ‘padrão’ ainda está ativa e predominante na sociedade, o que nos faz, muitas vezes, ter alguma dependência (seja pouca ou muita) para conseguirmos moldar alguma qualidade de vida, dignidade, etc., afinal, infelizmente, muita coisa ainda está na contramão do que idealizamos e não temos, ainda, todo controle sobre isso. Então, por conclusão, devemos fortalecer os nichos exatamente pra nos vermos a frente de opções que contemplem nossos próprios interesses, nossos objetivos, etc. Claro que não digo isso estritamente sobre os comércios, mas, eles também, afinal são um grande cenário de concentração de pessoas. Eventos e festivais também são  outro modelo similar com faceta de comércio, mas que ainda remete a um aspecto de difusão e comemoração da cultura muito mais do que um simples espaço de venda de ingressos e bebidas.

Em outros textos ainda terei oportunidade de falar sobre outros aspectos dessa temática, em especial sobre as relações humanas, as personalidades e as personagens de cada um nesse grande jogo incógnito que é viver e explorar o significado de tudo. Até breve!

Rodrigo Meyer

Receita para suprir o vazio.

Viver é um desafio. A vida é um mistério que precisa ser desvendado, uma vez que não vem com manual de instrução ou com objetivos predeterminados. Se deparar com a vida e ter que decidir o que fazer dela é uma tarefa que, pra muitos de nós, leva todo o tempo e, mesmo assim, pode não chegar em nenhuma solução satisfatória. Fato é que muitas pessoas sentem uma sensação de vazio diante da vida e tentam completar esse vazio com coisas igualmente vazias. Parece óbvio, mas está em alta a necessidade de se dizer obviedades, então digo que se as pessoas querem preencher seus vazios, não devem fazer isso com coisas vazias. Mas, o que são esses vazios?

Quando sentimos um vazio na vida, esse termo pode representar uma sensação de que o sentido para a vida é superficial ou insuficiente ou que a vida não parece ofertar valor apesar das coisas que existem e ocorrem (ou exatamente pelas coisas que existem e ocorrem). Superar essa sensação de vazio na vida é uma tarefa de cunho psicológico e filosófico, por vezes com algum viés da meditação, da postura diante do mundo, dos preceitos de espiritualidade, etc. Mas quando tentamos suprir esse sentido da vida, que é algo tão importante, com paliativos ilusórios, é claro que não haverá resultado satisfatório. É como ter fome e ingerir água pra tentar suprir. Por algum tempo você pode até enganar a fome, enchendo seu estômago de líquido, mas se a nutrição pela comida não ocorre, a água será inútil no final das contas.

Tentar levar uma vida com o máximo de satisfação possível é a meta de qualquer pessoa. A menos que a mente da pessoa esteja demasiadamente adoentada para chegar a corromper essa premissa, entende-se que todo ser humano deseja, a princípio, ter uma vida satisfatória, com tranquilidade, felicidade, conforto, etc. Quando não encontramos essa qualidade de vida, nos colocamos a pensar nas razões para esse insucesso. As pessoas que passam por essa reflexão podem chegar a sentir a vida pesada, desinteressante, cansativa, injusta ou até mesmo desnecessária e insuportável. É o caso de muitos que adentram pra depressão, pra abuso de drogas de todo tipo, incluso os medicamentos e produtos legalizados e as demais substâncias.

Em todo canto se vê pessoas buscando soluções para seus problemas, mas sem buscar soluções realistas. Veem-se com insônia, por exemplo, mas ao invés de resolver a causa da insônia, apenas se dopam com algum medicamento que as faça cair em um sono forçado. É evidente que essa qualidade de sono não reflete o mesmo benefício de um sono que ocorre naturalmente e de forma tranquila. Além disso, o uso constante destas medicações pode fazer as pessoas desenvolverem adicionais problemas na saúde e na mente. Como se não bastasse, condicionam a si mesmas a só dormirem mediante o uso destas substâncias, o que as colocam em uma situação de dependência e infelicidade pela ausência de controle de algo simples como o sono. A percepção desse quadro psicológico, físico e até social, pode transformar essas pessoas em geradoras de seus próprios problemas. A infelicidade e a má saúde plantadas nesse modelo de vida gera ainda mais motivos para a insônia e elas entram em um círculo vicioso de problemas.

Preencher o vazio com vazio não funciona. E como é que eu, na minha posição, poderei dizer o que é que cada pessoa pode ou deve fazer pra suprir seus vazios? Simplesmente não posso. Tudo que me cabe é tentar esmiuçar o tema e entregar algumas informações aprendidas ao longo da vida, sobre medicina, psicologia, meditação, espiritualidade e um pouco de empirismo na busca de minha própria libertação. Eu tive depressão por grande parte da minha vida e nunca havia me imaginado fora desse quadro. Acreditava que estaria fadado a uma morte precoce. Durante grande parte desse percurso eu fiz aquilo que estava mais propenso a fazer: nada. Eu me rendi de forma a ter muitos e muitos anos de sono, isolamento, procrastinação, sedentarismo, pouca ou nula socialização e uma constante vontade de desistir de toda e qualquer atividade. Mas, por incrível que pareça, foi exatamente por não fazer nada que tive tempo de observar, analisar e compreender a situação, minha mente, a realidade do mundo, entre tantas coisas. Foi nesse período que pude transformar algo aparentemente infértil na melhor plantação que eu poderia fazer.

Durante meus anos de reclusão, pude sentar diante do espelho, simbolicamente, olhar pra dentro de mim e refletir com sinceridade sobre quem eu era, o que eu queria, o que eu fazia, o que era ilusório, o que era útil. Aprendi muito comigo mesmo. Dizem que todos nós temos um mestre interior, que alguns chamam de ‘Eu Superior’. Talvez seja essa a explicação sobre a capacidade do ser humano de meditar, conversar consigo mesmo e superar barreiras. Por vezes, percebemos que nós mesmos é que inventamos barreiras por conta de nossas crenças, hábitos, imaginações, etc. E isso deixa uma lição importante: somos poderosos! Temos poder de determinar muita coisa para nós mesmos. Da mesma forma que nos submetemos a situações indesejadas, podemos fazer o mesmo para situações melhores. Não posso afirmar que controlamos toda nossa vida, mas controlamos, ao menos, como nos sentir diante da vida e o que fazer com a situação que nos é apresentada.

Em tempos de depressão, tapava meu vazio e afogava minha dor com sono, álcool, comida, isolamento, direção em alta velocidade e permeando um universo de cultura ou estilo de vida de companhias que estavam igualmente ruins ou até piores que eu. Estava claro pra mim que nada daquilo que eu estava fazendo resolveria meus problemas, mas eu já não estava querendo solução pro vazio, mas apenas soluções para estes novos problemas que eu adotei. Queria algo que pudesse resolver esse estilo de vida destrutivo. Estava preso, condicionado a viver uma realidade que já não desejava. E não desejava porque percebia, finalmente, que tudo aquilo era igualmente vazio e que não poderia servir pra suprir o meu vazio sobre a vida. Então, ao menos pra mim, resolver o dilema da vida foi simplesmente me recusar a opções rasas e ilusórias. Comecei a ser exigente comigo mesmo e com os outros. Me coloquei contra pessoas e ideias que não favoreciam os meus objetivos de me tornar uma pessoa livre, tranquila, feliz e preenchida.

Não foi fácil e nem foi rápido. A transição não foi exatamente contínua, uma vez que tive diversas recaídas. Porém, descobri que a cada vez que eu caía, ficava mais resistente aos danos e aprendia os sinais de quando eu estava me aproximando de uma recaída. Minha principal meta nos tempos de recuperação era me manter preenchido de pessoas e situações que realmente tinham valor. No fundo, era somente isso que eu queria mesmo, mas, por muitas vezes, na depressão, não tinha essas presenças ou as ignorava por desconfiança ou insegurança. Muitas vezes eu me boicotei, fechando minhas próprias portas e depois me via sem esperança em um mundo sem caminhos para seguir. Quando parei de andar em círculos, comecei a ver meu potencial surtir efeito simplesmente por ter colocado em prática, com confiança, sem medo, sem procrastinação.

Foi isso que me colocou em um estilo de vida funcional. Sempre que me sinto sobrecarregado com algo, meu instinto de defesa contra a depressão me faz agir e criar mais. Me considero uma pessoa muito ativa, quando comparo com as pessoas ao meu redor. De certo que temos atividades muito diferentes, não só pela quantidade, mas pelos objetivos, pela motivação essencial por trás de cada feito. Olho ao meu redor e vejo muita gente de cara amarrada, infelizes com seus empregos, com seus relacionamentos ou mesmo infelizes de maneira geral com a vida ou a sociedade. Raras vezes encontro pessoas que se permitem ser e fazer aquilo que as preenche verdadeiramente. Grande parte das pessoas buscam apenas válvulas de escape, tapando o sol com a peneira. Podem passar o tempo com isso, mas chegarão, cedo ou tarde, a mesma conclusão: de que não viveram e que continuam infelizes, sendo, provavelmente, ainda mais infelizes por terem desperdiçado tempo na contramão da solução.

O resumo é que temos que nos entregar a valores intrínsecos. Não adianta querer que uma garrafa de álcool, rostos conhecidos numa festa, noites de sexo, sono e comida, possam resolver um problema que não nasceu pela escassez de tudo isso. O vazio da vida não é o vazio por álcool, por sexo, por companhia, dinheiro ou sono, mas sim pela transmutação do indivíduo diante da percepção do valor intrínseco da própria vida. Trocando em outras palavras, o recheio que preenche a vida é a própria vida. É sentar-se em harmonia consigo no espelho e estar satisfeito com sua existência, em poder olhar pela janela e ver o céu, respirar, se presentear com uma refeição saborosa, um cuidado de saúde, um refino estético para contemplar sua própria expressão. A vida, no final das contas é dividir uma risada, mesmo que sóbrio, dedicar tempo em conversar, abraçar, sentir, se entregar, se entreter.

A vida é um espetáculo que nós mesmos dirigimos. Contracenamos com muita gente em múltiplos cenários. Cabe a nós, como atores e diretores, definir a mensagem, o timing, a trilha sonora, os planos, os closes, os cortes de cena e assim por diante. No final de tudo teremos um espetáculo digno de se assistir na memória, pelo que fizemos a nós mesmos e aos outros. Isso preenche, isso transborda. É isso que me faz acordar todo dia pra continuar, com disposição mental e física. É isso que me mantém esperançoso pelo meu futuro, independente da condição dos demais. E quando se tem paz, a pressa some e sobra disposição pra correr mais. E pra você, o que é que te satisfaz?

Rodrigo Meyer

Festas, Velocidade, Álcool e Saudade.

Levando em consideração minha infância, contrariando todas as probabilidades eu me vi buscando alívio onde eu menos queria: no caos. Embora fosse sempre alguém tomado de vontades e grande ansiedade, meu freio maior era o convívio social. Não só tinha trauma pelas pessoas e inabilidade nata pra tal, como me sentia totalmente esgotado na presença de multidões ou na obrigação de lidar com as pessoas da maneira esperada. Tive que contornar inúmeras barreiras para realizar algumas atividades que, pra outras pessoas, eram naturais ou bem mais fáceis.

Embora não tivesse nenhum pudor sobre beber, não tinha o costume, pois em casa não faziam e fora de casa eu quase não estava. Quando criança, provei cerveja, algo que parecia um tabu pro pacote de gente que dividia a casa comigo. Contudo, flexibilizando as duas realidades, passei a beber em casa e a improvisar pretextos para receber pessoas específicas. Sempre que eu conseguia algum trocado, juntava para um momento especial no semestre ou no ano, onde pudesse comprar uns doces e uma garrafa de vinho. Logo isso se tornou uma extensão de outros convites e lá estava eu em eventos dos quais eu podia desfrutar a afinidade com o tema predominante, a média dos frequentadores e seus estilos.

Com uns treze anos estava eu descobrindo novas pessoas, novas liberdades, novas realidades. Entre apartamentos de gente quase desempregada, artistas e perdidos, estava eu, como um cão farejando coisas boas. Copos de whisky, caipirinhas feitas na hora, misturas sem receitas e nenhuma comida. A vida era curta pra muitos deles, bem mais velhos que eu. Ainda tão jovem, já compreendia e concordava a pressa e a fuga de todos eles. Entre uma fresta e outra das portas de banheiro, os olhos viam de relance os comprimidos indo e vindo. Esperando uma ou duas horas, alguém surgia fumando algo diferente do veneno comercial.

Deslocado de tudo e de todos, encontrava alguma esperança entre estas poucas exceções que se escondiam entre um acaso e outro. Uma boa maneira de fugir do incômodo de casa era encontrar qualquer outra casa, pra matar o tempo e, quem sabe, começar a me matar bem lentamente. Aquilo era a definição mais próxima do que hoje alimenta certa nostalgia em mim. Gostaria muito de me ver novamente em cada um daqueles cenários para, talvez, fazer tudo diferente, tudo mais cedo, tudo mais intenso e mais inconsequente. Talvez teria me salvado da confusão que veio depois e que até hoje precisa ser muito bem reorganizada pra não pesar demais no coração.

Anhangabaú e todo Centro de São Paulo, ruelas da Avenida Augusta, Avenida Paulista e cantos distantes pra lá do metrô Carrão davam vez pra eu me aproximar do que chegava mais próximo de me definir. Olhando o Movimento Gótico desde cedo e aquele misto de mistério e melancolia, acreditava estar melhor encaixado ali do que em qualquer outro lugar. Pensava eu, ainda um pouco ingênuo, que socializar nesse meio seria como uma salvação do mundo externo. Mal sabia eu que, em todo lugar, o ser humano permeia e contamina. O tempo passa e a gente acredita que uma boa próxima fuga seja mais bebida.

Em certo momento estava indo aos lugares estritamente para beber mergulhado na atmosfera proporcionada. Às vezes um boteco com aspiração a bar, investindo eletricidade em jukeboxes, era suficiente pra eu aturar o que viria pela frente. Sabendo que estaria anestesiado e estimulado pelo mar de álcool, me acomodava bem entre aqueles rostos não tão desconhecidos. Em nichos pequenos, em subculturas, você acaba prestigiando lugares especiais e as pessoas quase sempre são as mesmas e você já as vê como uma certa segurança. Rostos conhecidos em um mundo específico. Parecia mil vezes melhor que me ver estorvado na minha própria casa. Mas, claro, depois de tanto estímulo, o caminho desejado era sempre a segurança do meu próprio quarto, sem trazer junto nenhuma alma desavisada.

Contudo, não era sempre que se conseguia voltar sozinho. Algumas pessoas grudavam pelo caminho e, então, virar um período de sono e oferecer alguma comida era o mais coerente. Mas vinham também almas desencarnadas, encantadas com o que podiam obter dos copos ou na curiosidade por novos lugares. Acredito que vinham dos próprios ambientes dos eventos, onde, em algum momento, desde muito tempo, morriam em cirroses e overdoses.

Como fotógrafo, interessado em registrar muito daquelas realidades, comecei a converter as pessoas conhecidas em modelos fotográficos. E assim arrastei inúmeros pretextos adicionais para mais bebida, mais Fotografia, mais motivos para escapar da vida. Se não estava fácil em momento nenhum, difícil não era uma palavra que incomodava mais. Acaba tentando fazer tudo aquilo que em algum momento não conseguia. Tentar o novo, procurar outros rostos, aceitar convites, dizer sim e ir adiante era minha única forma de terapia. Não sei quem me ajudou mais, se foi o álcool, eu mesmo ou alguma pessoa ao redor. Sei que a combinação foi pelo menos intensa o suficiente para me impulsionar adiante.

Não posso dizer que fui bem-sucedido nas barreiras que tentei pular, mas me tornei melhor saltador, por assim dizer. Hoje, se preciso chegar a algum lugar, já sei que tenho pernas que, em algum momento, já deram saltos importantes. Como a necessidade é mãe da invenção, acredito que quando tiver outra urgência, eu sacudo a poeira e sigo em frente. Afinal foi isso que fiz, desde nascido, pra superar minhas próprias condições.

Talvez por não acompanhar o mundo e estar sempre em fuga, o apreço pela velocidade tenha se manifestado na paixão em dirigir. Não sou piloto profissional, mas poucas coisas na vida me tranquilizam mais que cruzar as ruas vazias da cidade ou simplesmente fugir sem aviso pra alguma estrada que me despeje num vilarejo desconhecido em outro estado. Troquei a fuga com copo por fuga com carro. Quisera eu ter meu disco-voador pra trocar de mundo, mas, por enquanto, o mais longe e profundo é planejar bem como ficar por aqui mesmo, pensando em tudo que me deixou saudade e descobrindo se existe algum outro país ou cidade que acolha esse observador.

Já não bebo com frequência há muitos anos. Sinto como se completasse um ciclo e voltasse aos tempos de adolescente, juntando trocados pra me dar esporádicos presentes. Às vezes não tenho o suficiente pra comprar garrafa nenhuma, mas com um pouco de criatividade eu me livro da secura. Nem mesmo da comida sinto falta. Tem dias que enxergo a realidade tão claramente, que a única coisa que me incomoda é saber que estou onde estou apenas porque muitos outros estão mais doentes.

Costumo sempre pensar que não existe fim pra quem sempre recomeçou e que não é nenhum fracasso ou motivo de vergonha não ter recebido espaço pela sociedade que patologicamente te ignora. Diante dos inúteis e dos afogados nas suas fúteis riquezas mal empregadas, me sinto vitorioso por ter sido sempre sincero, sempre intenso, sempre eu mesmo. Enquanto muitos terão preguiça, medo ou covardia de fazer o necessário, eu estufo o peito pra dizer que deixei de ser muita coisa nessa vida, mas nunca troquei nada disso só pra ser mais um otário com título de especialista. Quem puder dizer o mesmo, sinta-se compreendido, apoiado e elevado. Que se faça forte a tribo dos poucos, porque na multidão, a gente sabe, a mediocridade invade sem ser notada, afinal entre cegos e insensíveis, olham os corpos uns dos outros e não os indivíduos.

Rodrigo Meyer

Porque corto meu próprio cabelo?

Esse não será um texto destoante dos demais conteúdos meus, pois não vim trazer nenhum tutorial de beleza ou dicas do tipo. Vim contar um pouco sobre relações sociais e o descontentamento com certas tradições que pouca gente questiona.

Eu nunca tive o hábito de ir ao cabeleireiro. Quando mais novo, esses momentos eram bem fora da rotina de outros parentes ao redor. Eu simplesmente não me importava muito com isso e estava confortável com a ideia de que cabelos crescem e mudam. Lembro de situações da infância e adolescência onde cortei meu cabelo sem nenhum cuidado específico e me senti bem com o resultado. Isso não quer dizer que eu tinha algum talento pra ser cabeleireiro. Muito pelo contrário. Eu simplesmente não tinha disposição alguma pra todo aquele elaborado processo de moldar um cabelo ou penteado e encontrava na tesoura doméstica a maneira mais breve e simples de agir sobre o assunto.

Depois de crescido, raramente estive num salão pra cortar o cabelo, exceto se precisasse, por exemplo, raspar toda cabeça com uma daquelas máquinas elétricas. Houve um tempo onde manter os cabelos raspados era uma forma de liberdade pra mim, pois me irritava com os cabelos caindo ao olhos. Ainda hoje isso me incomoda e soluciono com um elástico. Já tive cabelos longos até o umbigo, mas o calor me venceu e eu acabei desistindo. Embora fosse libertador não ter que cortar o cabelo nunca, o cabelo longo me fazia passar por irritabilidades no vento, com cabelos voando pela minha cara. Me cansava da aparência dos cabelos presos e, por fim, acabei cortando pra me livrar de tudo isso. Atualmente tenho os cabelos acima dos ombros.

Diferente do que muita gente possa imaginar, cortar os próprios cabelos não é nenhum passo em direção ao caos e não significa que eles ficarão feios. Além dos padrões de beleza serem relativos, é importante destacar a principal característica de um cabelo cortado de maneira informal por você mesmo: eles ficam com aspecto natural como se estivessem um pouco crescidos e revirados.

Quando você corta seu cabelo com um profissional, geralmente ele vai moldar seu cabelo de tal maneira que tudo ali vai parecer um desenho geométrico. Você entra natural e sai meio robotizado. Há estética nisso também, mas não é o que reflete minha personalidade e estilo de vida. Citar famosos como referência seria, ao mesmo tempo, pretensioso e contraditório, pois o estilo deixado aos meus cabelos são bem mais reflexo de um acaso e boemia do que qualquer busca de referência. Talvez no inconsciente isso tenha alguma passagem por certos valores e associações de imagem, mas pra mim, ao dia-a-dia, apenas deixo meus atos e realidades internas se destacarem por cima dessa carcaça.

Somos um mundo abarrotado de gente que se enforca na busca obstinada por padrões estéticos, beleza e padrões sociais. Pra mim, tudo isso me embrulha o estômago. E quando foco meu pensamento na beleza, ironicamente, quase nada do que vejo ao redor se enquadra no que eu julgo belo.  As pessoas se tornaram todas iguais e a personalidade se foi. Por onde eu olho, as pessoas tem o mesmíssimo corte de cabelo, com os mesmos milímetros de dimensão de suas franjas e topetes. Padronizaram as sobrancelhas de tal maneira que, alguns chegam a tatuar uma forma definitiva na região. As pessoas estão se robotizando e se enquadrando em um padrão de estética que não diz nada sobre elas, exceto sobre suas fraquezas diante da padronagem social.

Pra mim, não cortar os cabelos ou cortá-los somente em casa de maneira completamente improvisada é a certeza de que minha essência estará lá, apesar da tesoura. Ao não controlar demasiadamente o que a natureza deixou de marca em mim e apenas moldá-la conforme minha personalidade, é a garantia de me sentir enquadrado no meu próprio universo de satisfação e expressão. É por meio das minhas características únicas que eu serei visto como eu e não como mais um entre tantos outros humanos produzidos em série.

Quando as pessoas tem pouco amor-próprio, elas dão muito mais valor ao externo do que a elas mesmas. Quando isso ocorre, os padrões sociais de estética e conduta tendem a prevalecer para essas pessoas e elas encontram até mesmo um sentimento de pertença coletiva, quando estão inclusas nesses moldes. A mesmice as faz sentir que elas estão finalmente aceitas e em conformidade com o que a sociedade espera delas. Possuem pouca autonomia pra fazer a vida acontecer conforme suas próprias vontades, pois não prezam mais pelos seus interesses. A falta de amor-próprio varre pra longe essa prioridade em si mesmas.

Existem dois motivos para a admiração de quem tem estilo próprio e personalidade. Pode ocorrer por concordância e valorização disso como ideal em cada indivíduo ou pode ocorrer como uma contemplação ao inalcançável, como se viver pautado em personalidade própria fosse algo que a pessoa não tem capacidade ou alcance pra exercer. Eu quando vejo alguém único, me sinto presenteado com arte. A personalidade de alguém que não se dobra a padrões inúteis, me deixa encantado por essa pessoa. Já quando olho alguém que parece ter sido produzido em série, me sinto repelido e decepcionado. Vem em mim uma certeza de que ali está uma pessoa vazia, sem vontade própria, sem conteúdo, sem amor-próprio, sem experiência na vida, sem vivências consistentes, sem grandes prazeres, sem segurança, sem valores, ou seja, sem personalidade.

Não me considero o ápice de originalidade e nem tenho uma personalidade tão profunda como já vi em diversas pessoas. Mas não tomo isso como objetivo ou competição. Tudo que sou, está sendo quase que por acaso. Não interfiro muito em quem eu sou, exceto se for pra me reaproximar de minha própria naturalidade. Tento me tornar mais próximo de mim mesmo a ponto de minha expressão ser automática. Gente que se planeja demais para existir, acaba se esquecendo de quem realmente é.

Sou um grande apreciador de culturas, subculturas, estilos e estéticas, mas desprezo de forma ferrenha a repetição pelo padrão. Me cansa chegar em um bar ou casa noturna e me sentir diante de uma prateleira de supermercado onde tem uma fileira de 100 produtos idênticos lado a lado. Talvez isso não seja tão óbvio quando olhamos as pessoas variando um detalhe ou outro, mas pare pra reparar que, ao longo de uma semana ou mês, basicamente essas pessoas estão rodando em torno de um tema central, uma mesma realidade, com seus mesmos tons de roupa, o mesmo corte de camiseta, mesmo formato de barba, de óculos, de sapato, etc.

Por onde olho, só vejo pessoas que sucumbiram a produtos de massa que, pra viabilizar a produção em série, instituem padrões de consumo de tempos em tempos pra que as pessoas, de forma massiva, absorvam toda aquela produção barata e mecanizada. As pessoas já não definem uma estampa própria para suas camisetas e, muitas vezes, não conseguem sequer se verem livres de uma imensa propaganda da própria marca de suas roupas, estampadas por quase toda área da peça. As pessoas já não vestem uma roupa pelo seu estilo, mas apenas pela marca que possa ser exibida nela para que toda sociedade veja. Não é necessário nem útil citar quais marcas figuram nesses padrões, pois é tão recorrente em nossas sociedades que certamente todos já sabem. Eu é que não preciso dar visibilidade desnecessária pra essas bobagens.

Eu teria vergonha de pagar caro pra ser um outdoor de propaganda gratuita pra qualquer empresa que fosse. Muitos clientes se tornaram tão escravos que aplaudem as próprias empresas que os explora. São explorados na venda, na propaganda, na inserção do padrão social de estética e consumo e, por fim, são explorados até mesmo quando são colocados pra prestar propaganda gratuita a estas mesmas empresas. Quando alguém se apaixona pelo seu próprio opressor, dá-se o nome de Síndrome de Estocolmo. Se for o seu caso, busque ajuda.

Rodrigo Meyer

Onde está Barbarella?

Este texto não fala sobre a personagem vampiresca, nem de outras menções a filmes e histórias em quadrinhos, mas sim de uma pessoa real que, com muita propriedade, vestiu esse apelido pra vivenciar realidades semelhantes. Falo de Barbarella, uma amiga que cruzou minha vida há muitos e muitos anos atrás.

Barbarella era um arabesco que flutuava pela cidade, escondida atrás dos fragmentos de luz. Entre um passo e outro, sentia-se seu perfume, apesar de todo acúmulo de nicotina tragada que lhe acompanhava. Vestida de veludo negro justo, marcava as formas pálidas de seu corpo anoréxico. Entre seus dedos, sentia que estava a um passo de trincá-los apenas por tocar.

Encontrei Barbarella em um acaso dos chats de portais de internet quando nem sequer existiam redes sociais. Atrás de um nome sugestivo, nenhuma foto e talvez um e-mail, cruzava-se o imaginário pela conversa e, com sorte, trocava-se um telefonema ou enviava-se uma fotografia scaneada com má qualidade, mas com muita personalidade. Aquilo era a essência máxima transmitida de cada usuário.

Da internet pra vida real, Barbarella surgiu em um telefonema com um convite pra bebermos. E fomos. Que dia magnífico poder experimentar aquela mente. Pessoa adorável, cheia de atenções, confortos e distorções. Lindamente posta sobre seu coturno e sempre abraçada aos copos de whisky que lhe davam sentido. Do dourado da garrafa ao negro do ambiente, sentia-me prestigiando joias.

Lindos tempos onde Barbarella ainda cortejava jovens, arrastando-os pra seu calaboço travestido de apartamento. Lá onde o sofá já tinha visto do bom de do melhor, as paredes escorriam pequenas obras. Tudo era tão demasiadamente simples e sincero que era impossível não sentir a essência do Movimento Gótico entre um detalhe e outro. O ambiente contemplava um pouco do vitoriano e do caótico urbano. Sempre tudo decadente, mas nunca demasiado.

Vazio como grande parte de seu corpo, tudo era apenas ossos e adornos. Somente o necessário. Aquilo me encantava como nada mais me encantou por muito tempo. Adorava olhar pra ela e sentir a possibilidade de traçar o contorno de seus próprios ossos, carregá-la num abraço ou deixá-la sentada em meu colo, desfrutando mistérios.

Aquilo sim deixa saudade. Deixa meu espírito com vontade de voltar no tempo e morrer de maneira semelhante, por desgaste, repetição, exageros. Lembro de Barbarella como o melhor referencial pra mim mesmo e pro estilo de vida que se escondia entre uma estação de metrô e outra. Andarilhos pelas noites, dividíamos esses bons momentos ouvindo música, bebendo e explorando. Pela manhã, quando já deteriorados com o bater do sol do lado de fora da porta, erguíamos força pra beber mais um pouco e ir embora.

Por muito tempo depois, ainda pensava em Barbarella. Por onde ela estaria? Pela última vez que a vi, parecia muito bem, apesar de todos nós sabermos que não é bem próprio esse termo pra quem sucumbia ao álcool e a anorexia. Estava de pé, ativa, embora estivesse por dentro morrendo a cada dia.

A verdade é que ela não sumiu; ela morreu. Barbarella passou tempos difíceis com as consequências de uma cirrose que a debilitou de vez. Ajudada por sua irmã, segundo o que soubemos, deixou pra trás uma filha de dez ou doze anos e uma marca indelével de seu estilo de vida. Até hoje, quando penso em Barbarella, penso em quem poderia ser ela atualmente. Não encontro outro rosto que se vista tão firmemente. O que ela não tinha nas carnes, tinha na mente. Da vez que lhe vi por último, completava 49 lindos anos de idade e uma vitalidade mórbida que, facilmente, lhe permitia ostentar muito menos idade, ainda que soubéssemos claramente que atrás daquele ar vampiresco o que mais ornava era a idade percorrida com todas aquelas histórias, aquela personalidade repetida, como vinho envelhecido, como tempero maturado.

Barbarella deixou pra mim um outro personagem, muito mais interessante, que nunca canso de explorar nos meus sonhos artísticos, histórias não contadas e na derivação sutil em alguma Fotografia ou conto. Estou sempre procurando por Barbarella em algum bar, alguma esquina silenciosa, um apartamento qualquer, alguém que se apresente primeiro como alma e depois como mulher. E cada vez que não encontro Barbarella, me pergunto onde está ela. Que reencarne logo, se é que já não fez, pois quero experimentá-la outra vez, mesmo que já não tenha os traços tão iguais, a mente tão loquaz e a sutileza doce e fatal do seu perfume. Em cada copo de bebida você está contemplada e convidada para festejar calmamente o lado sombrio da vida. Bom dia, querida.

Rodrigo Meyer

A cultura alternativa está cada vez menos alternativa.

De uma forma ou de outra, a chamada ‘cultura alternativa’ sempre existiu. Ela é como um contraponto da cultura convencional abrangente. Em toda sociedade, existem parâmetros em tudo. As pessoas determinam quais sãos as convenções aceitáveis para roupas, cumprimento de cabelo, cores, profissões, modificações corporais, estilos musicais, decoração dos ambientes, horários, estudo, profissões e tudo mais. É como se existisse uma realidade moldada conforme o que instituíram como “certo” ou “ideal”. Mas a cultura alternativa e as subculturas, existem justamente pra contestar esses padrões, para se desencaixar desse formato, quebrar essas normas e experimentar as próprias realidades.

Nos anos 60 e 70, manter os cabelos cumpridos pra um homem era um ato relevante em uma sociedade chafurdada em preconceitos e regras. Quem se via livre disso, era tido como ‘marginal’ ou desrespeitoso. Bandas de música, especialmente as que dariam seus passos no rock, deixaram legados importantes sobre conduta social e liberdade. Muito do que se vê como alternativo hoje, está de alguma forma conectado com movimentos artísticos em diversas áreas. O movimento punk, o pós-punk, movimento gótico, heavy metal, death rock e tantras outras vertentes e estilos deram, cada um, uma mensagem à sociedade convencional e também às próprias demais subculturas. Muitos desses movimentos foram dissidências de pensamento como forma de explorar novos caminhos ou direções e também de adequar nichos específicos em um modelo aparentemente já consolidado de cultura alternativa.

Em algum momento, chegamos ao máximo da popularização da música nos anos 80 com a vinda dos video-clipes e todo um conceito único que ficou marcado de forma atemporal na História. Os Anos 80 foram mais do que mais uma década no calendário. Eles se tornaram por si só uma realidade, uma entidade, desde o surgimento até hoje (e possivelmente pra sempre). Com a chegada da década posterior, os artistas cada vez mais massificados em shows e apresentações pela televisão, acabaram apresentando o alternativo para os não-alternativos de maneira mais abrangente. Com isso, muita gente supostamente aderiu aos movimentos apresentados sem de fato estar alinhado com os ideais e valores trazidos pelas subculturas. Começa aí um problema grande.

Enquanto a cultura alternativa procura ser a apresentação do diferente e do original, quebrando paradigmas, tabus, preconceitos e padrões sociais, algumas pessoas, encantadas com a possibilidade de fazer fama ou figurar um certo status nesse meio, entraram nesses nichos e literalmente os contaminaram. Cresceu em número e em intensidade os casos de violência, racismo, xenofobia, machismo, homofobia em grupos sociais onde não se pretendia e nem se esperava nada disso florescer. Em grande parte das vezes, os encontros em casas noturnas ou mesmo pelas ruas da cidade se tornaram simplesmente uma competição de quem tinha o melhor visual ou estilo mais aceitável. E isso nos lembra que a sociedade convencional buscava igualmente plantar cobranças e padrões sociais como muitos ditos ‘alternativos’ de hoje em dia tentam fazer no próprio meio underground.

Pelas minhas andanças em São Paulo e outras cidades e também acompanhando essas cenas pela internet, tudo que vejo e continuo a ver é um certo distanciamento do próprio significado de ‘alternativo’. As pessoas estão cada vez mais semelhantes aos moldes sociais, com iguais pensamentos, as mesmas posturas doentias, ausência de questionamento. os mesmos hábitos e condutas pejorativos, as mazelas gerais de uma sociedade fracassada, abandonada e consumida pela intolerância ao novo.

É alarmante o número de pessoas que, por exemplo, se escondem atrás do Movimento Gótico para praticar racismo. Cercados de pretextos, conseguem encontrar nesse meio tudo aquilo que contempla seus preconceitos. Em razão da estética relativamente predominante nessa subcultura, com muitos rostos pálidos, maquiagens embranquecidas para contraste com as roupas pretas, no clima fantasmagórico e sombrio dos filmes clássicos de vampiro (entre outras referências), formou-se um ambiente que cultiva o embranquecimento das peles, pelo baixo ou nulo contato com o sol, protetores solares, roupas de proteção ou até mesmo pessoas buscando intervenções químicas e médicas pra ficarem ainda mais brancas.

Não custou muito a vermos as festas e eventos góticos serem tomados por racistas e neonazistas. Equivocados sobre os alicerces dessas culturas e os motivos por trás da estética, muita gente se viu atraída por esses meios, especialmente por conta da facilidade de exercerem seus preconceitos e terem um pretexto pra disfarçá-los. De maneira semelhante, as festas de BDSM e Fetish, foram tomadas por leigos que viram a oportunidade perfeita de tirar proveito imaginário de um contexto que, pra estes, parece ser totalmente sexual e nada alternativo. Diversas casas noturnas tentaram contornar tal problema, restringindo os públicos pelos preços diferenciados conforme o cumprimento ou não das “regras” de vestuário. De certa forma isso tenta tornar o evento menos atrativo para os que são de fora da subcultura e tornar mais seguro e real para os que são de dentro. Porém, convenhamos, isso acentua a quebra da própria subcultura, uma vez que, novamente, padroniza realidades das quais ela mesma deveria estar contestando.

Nesses meios, figurava em algum momento a busca por diversidade e aceitação do diferente e atualmente, está contaminado de pessoas que estão lá pelos motivos errados. Já não há solidariedade entre os frequentadores, até porque conhecendo-os um pouco sabe-se bem quem é quem e porque estão ali. Grande parte, em busca de satisfazer fetiches pessoais em termos de estética, etnia ou hábitos sociais, aceitam se render à esses eventos mesmo não tendo afinidade com a cultura. Se ambientam de tal maneira que estão sempre presentes nas mesmas festas, nos mesmos endereços, da mesma maneira. São previsíveis como um animal que cai na armadilha toda vez em busca de comida.

Em alguns eventos específicos de rock, anos 80, gótico e death rock, devido ao tipo de música que será apresentada na ocasião, faz-se necessário até mesmo explicitar nos flyers a proibição / rejeição de visitantes neonazistas, tamanha é a certeza de que a música, a estética e a oportunidade atrairão esse tipo de pessoa em um ambiente onde, pelo evento específico da data, muitos outros serão o extremo inverso, podendo suscitar conflitos diretos. Nada disso é, porém, garantia de que não ocorrerão as presenças e os conflitos.

Sobreviventes são as casas que baseiam suas políticas de trabalho em diversidade e segurança e também em preservação das subculturas. Cada vez menos estão conseguindo se manter fixas em seu meio e estão se abrindo pra públicos cada vez mais convencionais. Aos poucos, o que estava alternativo, está tomando dimensões maiores. A princípio isso não é ruim. Fico feliz que estejam difundindo o acesso e a aceitação dessas realidades culturais para mais gente, pois quebra preconceitos também. Por outro lado, pessoas totalmente desinteressadas de aprender com esses meios, acabam contaminando a cena simplesmente para preencher seus próprios objetivos, anteriores e isolados à essas culturas alternativas.

O convencional já conhecemos e recusamos. A sociedade convencional é a sociedade onde meninos vestem azul e meninas vestem rosa, cabelos curtos são para homens e cabelos cumpridos para mulheres. A cultura convencional é aquela onde reina opressão, preconceito, violência, intolerância, desrespeito e ignorância. Mais do mesmo que está aos poucos encontrando espaço onde não deveria. Estamos aos poucos apagando o termo ‘alternativo’ das coisas as quais nos vinculamos em algum momento e que agora parecem ser apenas mais um momento comum do qual não queremos fazer parte.

Mas este não é o fim! Embora tudo isso esteja se transformando nessa direção, os que mantém a coerência diante das cenas, podem plenamente apontar seus novos nichos e vertentes, suas novas casas noturnas, seus espaços diferenciados, seus meios de burlar essa crise cultural e social pela qual todos estamos passando em todos os lugares do mundo. Podemos simplesmente quebrar as correntes com os velhos movimentos, os velhos cenários, assim como quebramos com a sociedade convencional. Em um mundo onde quase tudo se entorta e apodrece, é importante marcar bandeiras e destacar contraste, valores, diferenças. Precisamos cada vez mais reafirmar nosso espaço para que não sejamos esmagados ou misturados a nossos próprios inimigos.

Muitas das vezes a cena underground e a cultura alternativa são mal vistas exatamente por causa dessa presença contaminante de quem não é do meio. O estrago causado por quem está ali pra tirar uns quinze minutos de fama dura bem mais que isso. A apropriação das realidades para fins menos dignos pode colocar as pessoas de volta aos cabrestos pelos quais lutamos tanto tempo pra destruir. Faz-se necessário um pouco mais de reflexão e seriedade entre as próprias pessoas. Que deixem um pouco de lado esses vícios de personalidade por buscas narcisistas de aparência e comecem a se preocupar muito mais com as amizades com que fazem, a qualidade interna das pessoas com as quais dividem os eventos e também a quem atribuem notoriedade e destaque nesse meio. É preciso ter pulso firme e coragem de não só contrariar a sociedade de forma superficial e abstrata, mas, principalmente, contrariar os valores e condutas de cada pessoa dessa sociedade que estejam em desarmonia com o aceitável e proposto.

Vejo ao meu redor, pessoas que flexibilizam os contatos, aceitando neonazistas declarados, apenas por admiração à estética e ao “status” que certas pessoas tiveram na cena. Diziam tanto que a aparência não deveria importar e hoje se veem escravas da aparência. Buscavam aceitação social e usavam a dissonância estética como ruptura de valores e hoje se veem presos à pessoas e posturas nojentas por não conseguirem remar contra a adoração e os padrões visuais que eles mesmos estabeleceram. Correm o risco de serem tão inúteis e indesejados quanto seus supostos opositores do passado ou talvez ainda do presente. Difícil é saber de que lado estão aqueles que, por desinteresse ou cumplicidade, ficam permissivos e acabam apoiando todo tipo de lixo social, em diversos sentidos.

Precisamos ficar atentos, pois quanto mais subimos a montanha, menos gente nos acompanha. Muitos ficam pra trás, não acompanham o ritmo ou não desejam verdadeiramente subir naquele momento. Temos que vigiar nossas trilhas, nossos hábitos, nossos círculos de amizade, nossos trabalhos, objetivos, projetos e conteúdos. Estamos enfrentando batalhas duplas, com tanto inimigo infiltrado. Não fico feliz que isso soe alarmista, pois vai deixar muita gente ansiosa e insatisfeita, mas não há outro modo de pedir cuidado senão dizendo a realidade da situação.

Estamos assim no momento e não vejo um bom crescimento adiante. Parece que estamos perdendo o vigor e estamos rendidos. Números gigantescos de pessoas abandonaram esses meios, tanto por serem verdadeiramente deles e não se identificarem mais com aquilo em que o meio se tornou quanto por não serem de fato desses meios e acabarem cansados de dissimular pra ter tão pouco retorno e felicidade. Mas, velhos figurões ainda estão lá, caricatos ao extremo, com as mesmíssimas roupas, como se praticassem um personagem pra vida toda. Patético. Eu quero a ruptura, eu quero o novo, o diferente, gente de mente viva, que pensa, que age, que faz acontecer. Eu não quero preconceituosos atrás de fantasias feito palhaços de um universo paralelo. Eu espero gente que esteja engajada em viver caminhos maiores, caminhos melhores. O encurtamento do caminho só convém aos que querem reunir novamente as massas pro afunilamento rumo ao abatedouro social. E eu não aceito ter esse final.

Rodrigo Meyer