Crônica | Por trás do fogo.

Na contraluz do fogo, escondido atrás de um laranja vivo, queimava forte o recado dado. De cima pra baixo, de baixo pra cima, pra ambos os lados. Os bons tempos voltaram. Não é o paraíso, pois isso não se pode esperar da Terra com estes hóspedes. Mas é mais uma viagem pra dentro de mim mesmo. O mundo pode acabar e eu ainda estarei de pé. Ruíram todos os outros, porque não sabiam o que era ter valor. Lá embaixo eles rastejam, em busca de sanar o tédio, enquanto eu já sou o meu próprio remédio. Por isso eu venci. Fora daqui, ninguém parece ter percebido que tudo mudou. Pra eles, mudou para pior, pra mim um novo degrau. Já subi muitas escadas. Vez ou outra calejei as mãos e ralei um pouco dos joelhos, mas nunca algo letal como quem rolou em queda livre sucessivas vezes como um vício ou um bug de computador. Ter olhos é tudo nessa vida. Por isso tenho três. Quando dois deles se fecham, o terceiro fica bem acurado. Não sou um privilegiado. Sou apenas alguém que decidiu não atirar no meu próprio pé. Por isso eu subo e eles caem.

Rodrigo Meyer

Eu e o Hiperfoco.

Por conta de uma condição específica, nasci com várias características de uma lista. Entre elas está o Hiperfoco. Me sinto confortável com isso e penso que é devido à esta característica que eu consegui ir tão longe em alguns temas.  O Hiperfoco é a característica ou capacidade de concentrar-se em uma única coisa por muito tempo. Algumas pessoas podem passar horas ou dias mergulhadas no mesmo assunto ou atividade e algumas chegam a levar esse tema pra vida toda. O Hiperfoco pode mudar de tempos em tempos, o que permite que a pessoa desenvolva com intensidade várias áreas do conhecimento.

Em outros textos, contei um pouco da minha experiência com a Literatura. Em certas épocas da minha vida, estive tão focado em escrever que conseguia produzir um livro inteiro em um ou dois dias. Escrever cem ou duzentas páginas não era difícil, mesmo levando-se em conta a qualidade do conteúdo e a coerência da estrutura do idioma. Eu sempre fui apaixonado por expressão. Muita coisa foi levada pelo campo da imagem, pois sempre fui uma pessoa muito visual. Mas, a Literatura sempre me encantou também, principalmente quando me vi aspirando as possibilidades do Cinema com suas histórias e scripts incríveis.

Passei a escrever poemas, frases e livros maiores com dramas ficcionais. Além dessa passagem profunda, nunca deixei de escrever em outras mídias “menores”, como em páginas temáticas e blogs. Atualmente escrevo pra mídias de Fotografia, Viagens, Astronomia, Sociologia, Artes em Geral, Comunicação, Design Gráfico, Empreendorismo, Cultura Underground e diversas outras coisas. Não consigo me imaginar sem tudo isso. Embora sejam áreas relacionadas, cada uma delas tem um universo próprio que exige um domínio e devoção próprios pra você contextualizar aquilo e acertar o conteúdo diante das necessidades do público que forma a demanda.

E porque estou a contar tudo isso? Pode ser uma boa reflexão sobre esforço e qualidade, mesmo que você não tenha a característica nativa do Hiperfoco. Você pode escolher se dedicar em algo que goste ou precise muito e, assim, transformar algo pequeno e superficial em algo maior, mais relevante e mais assertivo. Você pode sair de uma zona de conforto onde pouco ou nada produzia e tornar-se alguém de destaque em um determinado assunto ou segmento. Com este incentivo em mente, talvez você não se torne o melhor de todos, mas certamente vai ser melhor que você mesmo, progredindo suas possibilidades a cada dia. Seu potencial pode ser revisto e isso não é algo que deve ser ignorado.

Muitas das coisas das quais não somos tão bons, podem ser estudadas e aprimoradas ao ponto em que possamos superar as expectativas alheias. Você pode surpreender seus professores, seus colegas de trabalho, seus clientes e a você mesmo, dedicando esforço concentrado em dominar algo. Mas é importante que você filtre o foco em algo que você goste ou precise muito, pois isso será o fator crucial pra te manter preso à esta atividade, mesmo em mergulhos mais fundos e/ou longos.

Apesar de aparentar que eu não estou grande parte do tempo envolto nos textos deste blog, a verdade é que, por entendimento das necessidades da ferramenta, eu me limito a postar no máximo 2 textos por dia, ficando, preferencialmente, restrito em apenas 1. Isso ajuda na visibilidade dos conteúdos e na absorção por parte do público. Eu poderia completar o restante dos temas para fechar a lista de mais de 600 temas que predefini, porém isso seria o mesmo que desperdiçar munição. O meu objetivo com estes textos é de que sejam lidos e aproveitados pelo público, de forma que haja transformação do pensamento ou conduta mediante a reflexão que possa ser feita.

Assim, enquanto eu não posso acelerar demais aqui, uso as outras mídias de temas variados, como uma maneira de continuar criando. Ter uma diversidade de temas para produzir ajuda a me manter na Literatura, porém me desvia um pouco da concentração nos temas, o que, de certa forma, freia um pouco o potencial geral. Ainda sim, pra mim, é melhor do que ficar muito tempo sem escrever. Essa também seria uma recomendação pra quem deseja se ver motivado em algum projeto. Se suas atividades exigem que você seja menos frequente do que gostaria, tente incluir outras atividades ao redor, mesmo que por hobby, pra que você não desacelere. Isso me faz lembrar de uma estratégia semelhante que as pessoas costumam usar em corridas. Quando elas estão correndo pelas calçadas e são obrigadas a diminuir o ritmo para cruzar um semáforo fechado para pedestres, elas mantém o ritmo cardíaco e da atividade física, dando saltinhos para não ter que frear o ritmo geral do corpo. Isso ajuda a manterem-se aptas a seguir a corrida com o mesmo potencial, assim que o semáforo abrir para elas.

Essas foram algumas dicas importantes que podem ajudar pra você, independente de suas características nativas. Acredito que fazendo uso de intervenções criativas você pode transformar problemas em soluções e chegar mais longe. Não tenho o hábito de solicitar, mas como faz algum tempo que não escrevia nesta mídia, seria de grande utilidade se pudesse compartilhar o texto em sua rede social preferida ou indicar o conteúdo pra algum amigo ou colega de trabalho. Isso vai ajudar a mais pessoas passarem pela reflexão deste artigo em específico ou mesmo de poder conhecer os outros textos já publicados. Obrigado.

Rodrigo Meyer

Seu futuro pode ser diferente do seu passado.

Existe, infelizmente, uma crença de que estamos condenados a nossa realidade do momento. Mas, as coisas não são assim. Esse pessimismo e/ou imediatismo é um equívoco diante das possibilidades reais. Inclusive, quem mantém esse pensamento equivocado está apenas dificultando que coisas novas e melhores aconteçam no futuro.

A sociedade brasileira e tantas outras, em similar ou pior situação estão acostumadas que tudo piora e nenhum benefício chega até as pessoas que mais precisam. E alimentam-se de esperança apenas quando algo positivo significativo acontece. Valorizar as possibilidades apenas quando estamos em vantagem não é útil se quisermos viver bem e termos melhores chances pra nós mesmos.

Mas, lembre-se que a proposta não é que você forje ilusões sobre o futuro, nem mesmo sobre o presente, como fazem os otimistas. Não devemos ser nem otimistas, nem pessimistas. Acompanhar as realidades já é suficiente pra que possamos decidir quais opções seguir, pois veremos elas à nossa frente, tal como de fato são ou o mais aproximado possível. Já falei em outro texto sobre a importância da postura realista.

Por pior que tenha sido nosso passado, com as mazelas da vida, as dores, os medos, os traumas, os rompimentos emocionais, eventuais situações de doença física, pobreza material ou experiências desconfortantes, temos sempre que lembrar que tudo isso não é garantia de que sempre será assim. Não significa que um toque mágico vai brotar e fazer tudo mudar, mas significa que, suas ações podem eventualmente te tirar dessas condições. E claro, não são nenhuma garantia também, afinal o que fazemos está dependendo do que podemos fazer, do que temos coragem de fazer, do que temos condições, vontade, visão, capacidade, etc.

Não existe fórmula pro sucesso, mas em tudo que pudermos aprender melhor sobre nós mesmos e sobre a realidade que nos cerca ajudará pra sairmos das situações que não desejamos que continuem. É sempre importante estar de olhos abertos, mente aberta e acreditar cada dia mais em você mesmo e no potencial que pode desenvolver ao longo do tempo. Frequentemente, dependendo da sua situação, será necessário abrir os braços e aceitar ajuda de quem puder lhe oferecer. Não há nada de ruim nesse ato e só demonstra que você está pronto para as mudanças e soluções que poderão vir a seguir.

Se você está vivenciando desemprego, por exemplo, não significa que não poderá estar trabalhando em breve. Se está enfrentando superação de traumas ou depressão, tem um caminho pela frente de tentativas que vão te levar para condições melhores. Embora estejamos sempre ansiosos pelas soluções de problemas grandes assim, não podemos fixar o pensamento na urgência do tempo, porque essas situações podem levar tempos diferentes pra serem solucionadas, dependendo de cada caso. A combinação entre a situação e a pessoa vão formar particularidades na equação e que, inclusive, podem se alterar ao longo do processo todo.

O mais importante pra que nosso amanhã seja melhor que nosso presente é entendermos quais são os problemas que temos ou que nos cercam. Uma vez que saibamos disso, temos que tentar apontar valores, condutas ou iniciativas que nos levem pra escolhas de transformação, de ajuda ou superação. Às vezes o acolhimento junto à algum parente de confiança, um profissional da área médica ou psicológica, um terapeuta, um advogado ou, dependendo da sua situação, um agente de Serviço Social.

Muitas pessoas que hoje estão tranquilas e bem-sucedidas, já passaram por situações difíceis no passado. Lembro-me sempre que o ator Keanu Reeves, que muitos admiram e conhecem pela trilogia de filme ‘Matrix’ e tantos outros, já teve a experiência de ser morador de rua. Apesar de todo sucesso, ele se mostrou uma pessoa simples, dividindo o metrô com os demais, sem extravagâncias. Pode ser que o contato com a dificuldade junto à outros moradores de rua tenha contribuído pra uma conduta mais assertiva diante da fama, mas sabemos que isso não é nenhuma regra, afinal várias outras personalidades que vieram de situações difíceis, às vezes compensam o passado, ostentando riqueza ou até mesmo esnobando as pessoas abaixo. Tudo vai depender do estado psicológico de cada indivíduo e de como ele superou ou não os problemas do passado.

Algumas pessoas se sentem tímidas ou envergonhadas de irem de uma situação melhor para uma pior. É como se estivessem deslocadas de si mesmas, pois se acostumaram a viver num padrão de vida ou em uma situação pessoal mais confortável e, de repente, se veem, de certa forma, humilhadas por terem que se submeter a situações mais difíceis de vida. Acontece muito isso com quem perde o emprego e é obrigado a rever toda sua realidade de hábitos, consumos e até mesmo de socialização.

Andando pelas ruas de São Paulo e também de algumas outras cidades, conheci muito morador de rua. Em cada um deles, situações diferentes. Embora todos eles aparentemente na mesma situação, no momento, cada um teve um passado diferente. Já conheci gente que foi pras ruas depois de serem trapaceados pela família em troca de dinheiro, músicos profissionais, intelectuais, poliglotas e vários outros que, por uma razão ou outra, acabaram sem nada e tendo que se render às ruas. Mas, tendo vindo de baixo ou de cima, o fato é que pro momento presente, encontram-se pelas ruas e, a partir disso, cabe a cada um fazer as possíveis escolhas a cada dia que surge.

Para pessoas em situação de vício com drogas, pode ser ainda mais complexo, pois é difícil até mesmo controlar as opções que se tem ao redor, por questões do momento, do tempo, das reações psicológicas diante da droga ou mesmo da limitação social que existe, por conta do afastamento que as pessoas tem diante desse meio. É muito mais comum vermos, por exemplo, alcoólatras serem melhor recebidos do que dependentes químicos de outras substâncias. A classe média e alta empanturrada de remédios controlados é muito mais aceita socialmente do que os entorpecidos de classes sociais abaixo.

As barreiras pelas frente serão geralmente essas. Preconceito social, restrição de oportunidades de trabalho e socialização, a própria limitação física, alimentícia e psicológica diante do modelo de vida e questões ao redor disso, como abrigo, ocorrências isoladas do convívio diário e até mesmo alguns detalhes sobre as políticas públicas sobre as pessoas nessas condições e a cidade no geral.

O que será do nosso amanhã é, porém, a somatória de nossas ações junto com as oportunidades que o meio nos dá. Se unirmos a superação psicológica dos problemas com a iniciativa da busca de ajuda, já teremos quase todo caminho percorrido rumo à transformação. Eu sou especialmente grato pelo momento em que fui alavancado da depressão no passado por quem me enxergou como alguém e teve paciência e vontade de permanecer do lado até que eu estivesse bem. Eu tive momentos incríveis de muita diversão, prazeres físicos e psicológicos de todo tipo e satisfações na vida como a concretização de estudos, aprendizado de idiomas, autovalorização como pessoa e como potencial profissional, entre tantas outras coisas. Passei de derrotado e sem esperança pra alguém que cultivou uma visão melhor sobre a vida e sobre si mesmo.

O grande salto na transformação dos nossos dias está em como lidamos com o que temos ao nosso redor. Eu fui suficientemente flexível pra aceitar possibilidades. E, por isso mesmo, as possibilidades que existiam ao meu redor surgiram. Tive a oportunidade de me tornar fotógrafo profissional, tendo experiências únicas durante o curso de Fotografia que não teria em nenhum outro curso atual, em razão das ocorrências que são próprias do momento. E isso me fez perceber que muitas portas estão abertas ao nosso redor, mas frequentemente não as vemos, porque não as entendemos como portas para aquilo que achamos que precisamos no momento. Temos que mudar nosso entendimento da equação pra sermos mais bem-sucedidos nas nossas tentativas de se erguer.

Às vezes as pessoas acham que a única porta válida pra quem está desempregado é uma oferta de emprego em um cargo em que ela já gostaria de estar pro resto da vida. Se esquecem, assim, que às vezes o mero contato com uma pessoa, em uma situação que não está diretamente relacionada à essa vaga de emprego desejada, pode ser o elo indispensável pra que a pessoa se aproxime da meta principal. A vida não é uma linha entre dois pontos, mas sim uma complexa teia de relações. Você não pode, nunca, descartar as oportunidades que surgem sem antes estar aberto ao potencial delas. Claro que você não precisa atuar em tudo que surge pela sua frente, mas precisa, sobretudo, conhecer e estar aberto pras possibilidades.

Se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci, no momento em que as conheci, da forma que as conheci e pelo intermédio das outras pessoas que tínhamos em comum, nada na minha trajetória teria sido como foi. Os cursos que fiz, os aprendizados que iniciei, os livros que li, as conversas que tive, as viagens que realizei e até mesmo as decisões mais cotidianas sobre meus hábitos e vontades, me levaram onde eu estou hoje. Controlar essa navegação pode não ser tão simples quanto vislumbrar um horizonte ou destino e decidir seguir pra lá. Lembre-se, não estamos vivendo em uma linha reta entre dois pontos.

Você se surpreenderia em quantas pessoas superaram a depressão a partir de um simples ‘sim’ que deram pra oportunidades totalmente desvinculadas com tratamento de depressão. Você se surpreenderia em quantos fotógrafos foram formados a partir de um ‘sim’ para uma amizade despretensiosa. Se surpreenderia em quantas pessoas ganharam a tão desejada credibilidade e valorização apenas por se colocarem em uma postura mais aberta e receptiva diante de momentos. Seu próximo trabalho pode estar atrás daquele emaranhado de conexões de um conhecido que tem um amigo do primo da vó do funcionário de uma outra pessoa, que, essa sim, vai te apresentar pra um projeto que não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho pretendido, mas que em certo momento, vai ser dividido pelo amigo do vizinho que finalmente é o seu elo final pra solução que você buscava desde o começo.

Resumindo: esqueça essa crença de que o futuro não tem solução e que as portas que você encontra pela frente não te servem de nada. A vida é feita de interações. Quanto melhor for seu networking, melhor serão suas possibilidades. Esteja sempre em contato com tudo e com todos e verá como surgem coisas tão diferentes de cada conexão. A diversidade nos leva para novas possibilidades pois cada pessoa tem um universo dentro de si e milhares de outras novas conexões distintas que vão alterar, a cada vez, a trilha que percorremos entre todas essas mais de 7 Bilhões de pessoas que existem no mundo.

Se você despreza a teia, está contrariando a própria matemática da vida e está se boicotando diante do seu próprio sucesso e benefício. Se você começar a desenvolver amor-próprio e se abrir pra situações que te beneficiam, terá as melhores chances de vencer e se dar os melhores resultados possíveis na vida conforme suas realidades gerais. A todo momento eu estou passando e estendendo as mãos, mas, infelizmente, muita gente se fecha e acaba deixando as oportunidades passarem. Eu me sinto grato em perpetuar esse ciclo de transformações por ter entendido o potencial e necessidade de tudo que foi feito pra mim e, depois, por mim. Viveremos melhor se ajudarmos uns aos outros a subir.

Em todo lugar que você estiver, seja grato pelas coisas todas que te beneficiaram ou que podem vir a te beneficiar. Esteja em contato com as pessoas numa relação transparente, seja lá quais forem seus problemas pessoais. Quem tiver mérito pra estar do seu lado, apesar dos seus problemas, estará e quem não estiver, felizmente, irá embora deixando o caminho livre. Não se menospreze pelo modo como você está hoje, porque estar e ser são coisas diferentes. Estamos sempre em constante transformação e o que somos hoje, poderemos não ser amanhã.

Rodrigo Meyer

A música como ferramenta está sumindo?

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A imagem que ilustra esse texto é parte da fotografia de autoria de Koen Suyk, pela ‘Nationaal Archief’ feita da banda Sex Pistols em uma performance em Paradiso, Amsterdam em Janeiro de 1977. Na imagem estão Johnny Rotten e Steve Jones.

A música tem muitos propósitos e potenciais. A simples criação de uma ou o ato de ouvi-la já são finalidades completas pros seres. Mas a música também é comunicação, arte e ferramenta de transformação. Ela serve até mesmo como terapia. A musicoterapia, já famosa em outros tempos, teve um grande período de esquecimento e hoje em dia parece resguardada à pequenos nichos da sociedade.

Como instrumento de resistência política, ela já fez muita coisa em prol da liberdade, da crítica social, do engajamento político, da motivação pessoal para o enfrentamento das barreiras e da contemplação de dias melhores. Em tempos de censura da comunicação, a flexibilidade da música permitiu que brincássemos com trocadilhos, metáforas e sons simbólicos para todo tipo de mensagens que pudessem expor os fatos e conectar a população com a ação.

Mas, tenho a impressão que, passado os períodos mais turbulentos, as pessoas foram se distanciando dessa ferramenta até o ponto em que deixamos de ver a música como algo além de ritmo pra dançar ou ruído pra preencher a mente e impedir que pensemos na realidade. Se tornou, portanto, o oposto. Grande parte da culpa disso foram das próprias mídias que tentaram abafar o pensamento e a reação popular.

Em um ou outro canto, ainda se produz música com objetivos, mas estão cada vez mais raras. Caminhe pela cidade ou acione qualquer mídia e verá que o que está em voga pela sociedade é o completo desuso da música como ferramenta. Todos conseguem saber qual é a coreografia da vez, os “memes” e os estilos visuais de cada artista da música moderna, mas pergunte à eles algo mais profundo que isso e ficarão travados como estátuas. E corra, porque tocar nessa ferida deixará muita gente em posição de ataque, porque se incomodam de saber que estão varrendo os problemas pra debaixo do tapete por puro comodismo.

Aqui pelo Brasil, se lembrarmos das letras de Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, Chico Buarque, Caetano Veloso, Cazuza, Raul Seixas, Bezerra da Silva, Zé Ramalho e tantos outros, ficaremos nos perguntando o que aconteceu na geração seguinte.

Faça um tour pelas casas noturnas dos últimos 10 anos e procure alguma que tenha bandas ao vivo. A maioria esmagadora delas são covers de bandas estrangeiras consagradas e não se verá muita gente arriscando conteúdo nacional e muito menos autoral. Bandas autorais novas não estão surgindo praticamente. A grande maioria são covers como forma de garantir que haja demanda, pois já sabem do sucesso da banda original a qual fazem referência. E isso só sinaliza que o objetivo maior não é comunicar nada, apenas ter algum pequeno sucesso, visibilidade no pequeno meio social que atuam e algum trocado pra levarem a vida. Os objetivos maiores que esses não passam pela cabeça da maioria que faz essas escolhas na música.

A princípio, tudo bem que seja assim. As pessoas escolhem a música também para trabalho e entretenimento rápido e é bom que, ao menos, as músicas estejam sendo estudadas e passadas adiante. O que me preocupa mais é que essas pessoas não estejam conseguindo ter o mesmo direcionamento que as bandas originais à quem eles fazem os covers. Daqui uns dez anos olharemos ao redor e só conheceremos músicas do passado. Nada novo foi criado. As rádios ainda se valem de tocar os mesmos clássicos de sempre de tal forma que já decoramos todas as letras e ritmos e podemos até listar quais músicas surgirão nos nossos ouvidos, sem nem mesmo conhecer a playlist da emissora de rádio.

Me preocupa ir em casas de cultura underground e encontrar apenas mais do mesmo. Sei que as casas visam o lucro maior possível e, por isso, tentam sempre abranger o conteúdo das noites com algo que as pessoas reconheçam bem e gostem. Mas apresentar novidade não é necessariamente um empecilho para a aproximação do público. A novidade quando bem fomentada, só atrai a curiosidade de quem realmente faz a cena existir e crescer. Tomo por mim, que dava preferência aos lugares mais distantes com música autoral do que a comodidade de estar sempre no mesmo lugar próximo, onde só tocam gravações ou apresentam covers. E no final das contas, com essa iniciativa de trazer o novo, a casa ganha uma conotação diferente, pois ela fica associada com a produção cultural daquele nicho de público. E, de forma oposta, quando apresenta apenas mais do mesmo, ela acaba esquecida na história porque só é frequentada por quem não está focado no lado cultural do evento.

O entretenimento de muitos shows já deixou de ser o show em si. As pessoas querem os artistas pela fama que possuem. Isso explica bem porque as bandas de cover atraem muitas pessoas. É a forma mais próxima de estarem junto ao artista estrangeiro (e às vezes nacional), com o custo mais baixo possível. É como se estivessem ao lado de um representante do artista original. E, infelizmente, essa valorização é deturpada com a mistura de sentimentos e sensações que confundem a estética com o conteúdo, o cover com o original e a personalidade dos artistas originais com a dos artistas covers. Duas pessoas não são iguais nem mesmo quando gêmeas. Imitar é um ótimo exercício para o entretenimento de si mesmo e até dos demais, mas não deve se tornar a única forma de expressão musical de uma geração.

Se temos potencial de aprender a tocar músicas de terceiros, podemos, com toda certeza, nos esforçarmos e chegarmos a ter boas músicas próprias. Se é bom que tenhamos nossos artistas preferidos, é sinal de que a arte deles importa. Então, não podemos deixar de exercer aquilo que admitimos ter valor, caso tenhamos tempo e habilidades pra tal. Me sinto estrangulado de ver pianistas que dedicaram a vida toda a reproduzir obras clássicas sem nunca terem criado suas próprias obras.

Soa como se ninguém mais pudesse ter capacidades autorais depois do que já foi criado e passa a mensagem equivocada de que somente Haendel, Beethoven, Chopin, J.S. Bach e outros grandes nomes da música clássica fossem músicos de verdade. Estes surtariam de ver o cenário musical de hoje, onde as pessoas já não entram pra música com um propósito maior do que replicar. Alguns até transformaram o cover da música clássica como forma de obra quase autoral, fazendo suas versões, dando suas entonações e a preferida personalidade na interpretação dos originais. E isso me parece a desculpa perfeita pra continuarem restritos aos originais.

Pouca gente sabe, mas diversos artistas que depois foram considerados “gênios”, começaram suas carreiras sendo sucessivamente recusados e desprezados pelas casas de espetáculo e do público em geral. Eram tachados como ruins. E isso mostra que a persistência deles advém da real necessidade de fazerem o que fazem. Se um artista em qualquer área (seja música, pintura, literatura, dança ou o que for), tiver verdadeira vontade e necessidade de expressão, ele vai perdurar e chegar em algum lugar com isso. Assim foi com todas as bandas e cantores de sucesso do passado e, se você quiser repetir o feito, precisará ter isso bem claro na sua mente.

E o mais importante é saber que, assim como você supostamente gosta de apreciar as músicas, outras pessoas também gostam. E se a sociedade não estiver produzindo, estaremos todos um pouco mais vazios, tristes, caindo na repetição dos clássicos e amargurando essa ausência de oxigenação cultural. A comunicação é, inclusive, uma expressão forte do momento que o autor vive. E se isso não está ocorrendo, passaremos nossa história em branco, sem poder relembrar os erros e acertos de nossa sociedade.

Corremos o risco de repetir a história pelo abandono da memória dos momentos vividos. A música tem papel ainda mais forte do que a Literatura, pois ela entusiasma de forma instantânea, bastando que estejamos de ouvidos abertos para absorver algo. Assim como a rima das letras ajuda a decorá-la, o ritmo nos faz relembrar de uma música completa sem precisarmos consultar fonte alguma. Essa impregnação da música na nossa mente é que traz o potencial transformador. Pulsa no nosso inconsciente essas mensagens que nos levam a pensar e agir sobre as realidades. Quando nos entusiasmamos ouvindo uma música, em casa, no carro, em um bar ou em uma festa, nos colocamos à disposição de ajudarmos a nós mesmos, tanto individualmente quanto coletivamente. Todos saem ganhando. A cultura musical está nos chamando. Ela está se sentindo solitária.

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Rodrigo Meyer

Habilidades defasadas e o atraso cultural.

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Antes da internet, a cultura mundial podia demorar muito anos antes de permear outro país. Depois da internet sofremos um abalo por essa desigualdade. Enquanto um lado do mundo estava vivendo um atraso cultural, outros estavam usando a internet até mesmo para darem o próximo salto de inovação. E deram. Talvez isso explique porque o brasileiro foi a maior concentração de público nas redes sociais como o extinto Orkut e, depois, o ainda presente Facebook. Parecia uma busca por algo mágico, tão novo que não podiam acreditar. E correram abraçar.

Tentando suprir cada nova defasagem que descobria, o brasileiro começou a seguir as “exigências” citadas nas vagas de emprego para nortear o que era necessário ter em habilidade pra ter melhores chances no mercado de trabalho e na sociedade. Aprenderam inglês, datilografia, informática, internet, Pacote Office, sistemas operacionais novos e, assim, achavam-se sempre em dia. Hoje daríamos risada de tudo isso, porque tudo isso não é mais requisito, nem pré-requisito. Tornou-se uma espécie de “pré-pré-requisito” tão pressuposto quanto precisar estar vivo para ocupar uma vaga de emprego.

As habilidades necessárias pra vencer são cada vez em maior número e devem ser adquiridas em cada vez menos tempo. Nos tempos modernos as crianças já nascem sabendo usar o computador, o smartphone e a internet. Tudo parece instintivo e lógico para todas elas e são elas quem ensinam os mais velhos a entrar pra esse mundo, caso ainda não tenham entrado.

Mas, ter esse contato com as tecnologias é bem diferente de ter reais habilidades e conhecimentos para trabalhar firme. As pessoas sabem, por exemplo navegar na internet, mas não sabem praticamente nada de como se portar na rede. Sabem muito de como acessar sites, mas fazem pouco uso desses sites e ainda menos dos conteúdos em si que brotam deles. Dominam os pacotes de software e tornam-se ótimos apertadores de botão das ferramentas, pois não dão vazão concreta para o potencial dessas mídias. O aprendizado ficou restrito apenas às tecnologias em si e não no uso delas para algo efetivo.

Sabem utilizar o editor de textos, mas não sabem escrever um texto. Sabem utilizar um editor de vídeo, mas não sabem produzir um vídeo funcional. Estão empenhados em explorar a mágica do Photoshop, mas sabem pouco ou nada de edição fotográfica. Dominam as planilhas de Excel, mas são ruins em administração financeira ou coisa similar. Em resumo, o conhecimento só é importante se você souber o que fazer com ele. E esses aprendizados paralelos são apenas ferramentas de suporte para o trabalho principal. Ficam obsoletos e ultrapassados os que não sabem o que estão fazendo.

Se apesar de tudo isso, você ainda estiver defasado no entendimento básico desses recursos, você corre o risco de ficar pra trás, tal como aqueles que deixaram de ver filmes porque não sabiam manejar um videocassete. Cursos de datilografia foram extintos faz muito tempo e ninguém vai te ensinar informática. O mundo não vai te esperar alcançar os avanços dos últimos 30 anos, ainda mais se tiver que ser no seu ritmo. Então, se você deseja fazer parte da realidade e estar ativo nela, precisará compensar o tempo perdido de maneira surpreendente.

Quem se conformou em aprender as velhas linguagens de programação de computador, hoje já encontra enormes barreiras para preencher as vagas atuais até mesmo das empresas mais pequenas de tecnologia. Aliás, atualmente, uma grande parte dos trabalhos são todos relacionados com a produção tecnológica, principalmente por trás das mídias.

Em parte esse avanço é bom, mas muita gente fica desempregada porque não tem condições de acompanhar o ritmo de aprendizado ou sequer oportunidades de ter contato com essas realidades antes que elas já se tornem ultrapassadas. E isso vem transformando o valor de oferta pelas vagas, de duas maneiras bem distintas. Não estão encontrando profissionais aptos para os trabalhos propostos e por isso estão tentando fisgar os profissionais através da oferta de altos salários, na esperança de que esse seja o atrativo que os faça sair de outra empresa ou mesmo de outra profissão. Mas mesmo com salários que chegam à generosos R$ 100.000,00 (Cem Mil Reais) não estão encontrando pessoas para preencher tais vagas. Outras empresas estão lidando com o problema de maneira oposta. Sabendo que estão fadadas ao fracasso caso não se adequem tecnologicamente, começam a explorar o mercado de trabalho, oferecendo salários ridículos em troca de uma montanha de trabalho e exigências. Alguns chegam a virar piada na internet, com seus anúncios.

O fato é que, seja lá qual for o salário, as pessoas não estão aptas para as grandes vagas. A alta tecnologia é sempre novidade a cada ano e talvez até a cada trimestre. Querem especialistas em algo que acabou de surgir. E isso não será possível. Quando alguém se tornar especialista em algo, tal coisa já será obsoleta. Aceleramos o mercado de trabalho num ritmo alucinante onde ninguém consegue ser mais útil com o que sabe no momento. Estamos sempre defasados e somos sempre incompetentes para levar o presente adiante. Não conseguimos mais construir o metro de trilhos à nossa frente e, por isso, o trem está parado.

A maioria dos países defasados em cultura e tecnologia, tropeçaram com a internet por causa da globalização e do nivelamento das exigências ao redor do mundo. As cobranças para uma empresa de aplicativos de celular, por exemplo, serão as mesmas, independente de que país seja o profissional a programar, porque o acesso é internacional e as ferramentas são praticamente as mesmas, devido a compatibilidade com os aparelhos de celular e seus sistemas, além da própria internet, as redes sociais e tudo o mais.

Muitos brasileiros tem viajado para o estrangeiro em busca de aprendizado nas grandes empresas e organizações tal como a NASA, Microsoft, Google, entre outras. Palestras, workshops, intercâmbios e até estágios estão sendo uma realidade cada vez maior nessas buscas ao exterior. E, verdade seja dita, essas empresas estão fisgando os melhores profissionais e deixando os demais países ainda mais perdidos. Muita gente decidiu mudar de vez para fora e trabalhar, morar e formar família em países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Finlândia, Islândia, Canadá, Portugal e vários outros que nem imaginamos que sejam grandes polos de trabalho, dependendo do potencial que o indivíduo tiver.

Aquilo que aprendemos no colégio, já foi alterado e custará a ser atualizado nos novos livros. Somos alimentados com informação errada e vamos ensinar essa informação errada para a próxima geração. A ciência antiga está se redescobrindo e o que era fato antes, hoje já se sabe que não procede. E assim, acumulamos uma horda de adultos que repetem as mesmas bobagens e colidem com o novo até se verem insuficientes para as atuais necessidades. Os vendedores de antigamente que se restringiam a etiquetar preços nos produtos, hoje não podem perder mais tempo com isso pois precisam se dedicar em mil outras importâncias. Grande parte das vendas hoje em dia, são feitas pela internet e um vendedor online ou presencial precisa ser um outro tipo de profissional atualmente.

Temos o potencial de chegar longe, mas se não nos transformarmos à tempo, não seremos nada. Indústrias que antes dependiam do ser humano pra apertar parafusos agora possuem robôs que fazem tudo melhor, mais rápido e com menos custo. Então, quem quiser continuar trabalhando, precisa mostrar valor além de um robô. Precisa fazer o que ele não faz, precisa ser aquele que opera robôs, que os programa, que os retifica. E daqui uns anos, os próprios robôs construirão à eles mesmos. Estamos chegando à um ponto onde precisamos ter valor intrínseco, por dentro, pelo que somos. Nossas habilidades humanas serão indispensáveis quando tudo o mais deixará de ser humano.

Em certos países as máquinas já dominaram o atendimento em mercados e lojas e a figura humana está saindo até mesmo das cozinhas. Garçons, cobradores em caixas e a coleta do lixo, estão automatizados e deixando que as pessoas se concentrem em trabalhos mais mentais do que braçais. Estamos sendo conduzidos para a tecnologia e o pensamento. O grande diferencial, a grande habilidade requerida pro futuro será a nossa mente, o nosso potencial criativo, nossas ideias para transformar a própria tecnologia. Querem os nossos sonhos, nossas invenções, nossos modos diferentes de enxergar. Em 2017 mesmo já vemos as empresas pagarem altas quantias para quem venha os surpreender, afinal, é isso que alimentará todas os produtos e serviços vindouros. O valor já não está no que podemos fazer mas no que podemos pensar. E, infelizmente, a humanidade no geral, está tremendamente defasada no ato de pensar. Corra ter conteúdo, exercite a mente, antes que você se veja desempregado de vez daqui curtos dez anos.

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Rodrigo Meyer

Inglês só depois de um bom Português.

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Bom seria se pudéssemos aprender dois ou mais idiomas de forma natural e desde o começo de nossa alfabetização no idioma nativo. Mas isso geralmente não acontece nem dentro das famílias e nem dentro das escolas. Crescemos absorvendo o Inglês paralelamente, mas quase como um intruso. E isso, em parte, joga as pessoas para uma busca posterior de um curso de idiomas para dar continuidade ao que começaram no colégio.

Antigamente ensinava-se também o Francês e Latim nas escolas e na minha geração nada disso estava perto de acontecer. Quando cursei o colégio, já era um adicional especial haver inglês. É como se estivéssemos desfrutando de qualidade apenas porque existia tal matéria na grade de aulas. Claro que, sempre foi insuficiente e não conheço ninguém que tenha, só com isso, saído do colégio falando inglês.

Mesmo depois de ter tentado aulas em cursos de idiomas, não me tornei fluente. Infelizmente essas escolas não vivem de formar alunos, mas sim de mantê-los sempre incompletos para permanecerem a vida toda amarrados às mensalidades. Os cursos sempre tentavam inventar algo em que pudesse agregar valor nas vendas. Fitas K-7, livros e até a ideia lúdica de que alguns cursos eram melhores que outros porque davam acesso à computadores para a prática do inglês. Hoje eu dou muita risada de tudo aquilo.

O que eu aprendi sozinho, lendo e assistindo vídeos americanos com áudio original, me deixaram mais próximo do idioma do que anos de escola e cursos de idiomas. Não é exatamente que o método não tenha importância, mas que talvez naquelas empresas de vender cursos, o método servia à empresa e não ao cliente.

Desde muito tempo o Inglês era prometido como a diferença no mercado de trabalho. E que você poderia melhorar seu currículo cursando um idioma novo. As pessoas rapidamente seguiram essas recomendações das mídias e nunca se viu tanta gente nos tais cursos. Em alguns ambientes, era mais comum as pessoas perguntarem qual curso de Inglês você fazia do que perguntar se fazia algum curso de Inglês. Para a sociedade dessa época, não cursar outro idioma além da língua nativa era atestado de que não se pretendia ter uma boa carreira profissional.

Décadas depois e isso ainda está presente no nosso modelo de sociedade. Continuam nos vendendo a ideia de que o Inglês é a salvação. Porém, hoje, como muita gente já cursou o tal idioma no passado e ele se tornou mais disseminado nas mídias, na internet e no mundo todo, ficou praticamente impossível que as pessoas não tivessem noção ou até aprofundamento nele. Em razão disso, o público-alvo dos atuais cursos são para classes sociais mais baixas, que não puderam ter os mesmos acessos e que sentem-se bastante deslocadas na hora de socializar ou manejar um software. O apelo das propagandas não cansa de incentivar esses potenciais alunos a acreditar que é melhor cursar Inglês e continuar desempregado, dando despesa aos pais do que desistir do curso e tentar a independência na vida, primeiramente.

Aprender outros idiomas é importante, claro. Mas as prioridades de cada pessoa são ainda mais importantes. E se você adultera a noção dessas prioridades em um público que morre de medo de perder espaço na sociedade, você está fazendo um terrível jogo sujo de manipulação apenas pra tirar dinheiro de que já nem tem muito.

Você nunca verá as empresas se empenharem na divulgação de cursos de Português para os próprios brasileiros. E penso que esse deveria ser, moralmente, o foco dessas empresas todas, porque o brasileiro às vezes se arrisca a aprender o Inglês quando mal domina o idioma nativo. Chega a ser cômico até mesmo na hora em que tentam cumprir com o método dos cursos, pois se não conhecem nem o idioma nativo, como vão fazer associações e trocas com o Inglês? Ficarão duplamente perdidos. Boa coisa não vem daí.

Mas muitos sentem vergonha de não terem cursado Inglês ou de terem pouco domínio nele, apesar do estudo. Deveriam, contudo, ter vergonha maior por não saberem sequer o idioma nativo. Se a base do aprendizado está incompleta e corrompida, que adições farão nessa casa, sem que tudo desmorone terrivelmente?

E centenas de currículos começam a figurar com erros grosseiros de Português anunciando pretensiosamente que possuem Inglês intermediário ou qualquer coisa similar. Alguns, um pouco mais ousados, arriscam até a dizer que são fluentes, mesmo não sendo. E tem se tornado moda, inclusive, recriar o significado de ‘fluente’. Agora, para ser, já não precisa mais ser. Basta incluir alguma desculpa sobre não se poder chegar tão “alto” e você segue autorizado a reconhecer-se como fluente. Também morre perto disso o ‘Inglês avançado’, porque agora todos que eram deste nível, foram promovidos automaticamente para ‘Inglês fluente’. Agora o ‘intermediário’ é qualquer coisa acima do ‘básico’, que por sua vez se resume, atualmente, em conhecer meia dúzia de termos como, play, stop, email, work, like e messenger.

E o mais incrível é que a maioria das pessoas não viajam pra lugar nenhum onde exercerão seu aprendizado e tão pouco conversam com as pessoas para treinar, seja presencialmente ou pela internet. Acreditam que o curso basta e que ostentar esse detalhe no currículo fará, magicamente, elas serem contratadas ou ainda que terão seus salários aumentados com o toque de uma varinha de condão. E assim, os donos de empresas que “lecionam” idiomas, vão engordando os bolsos. Espero que pelo menos façam bom uso do dinheiro e façam duradouras viagens para os respectivos países e que absorvam bem a cultura e a riqueza do idioma com o qual trabalham.

A verdade é que o curso eficiente de um idioma está nas faculdades de Letras de cada país. Fora desse meio, tudo que se faz é evitar os quatro ou cinco anos de faculdade e gastar quatro ou cinco anos em um curso de idiomas inferior e, às vezes, levar até mais anos que isso pra continuar sem saber falar.

A educação escolar do brasileiro já é bem precária e sobram itens na lista de críticas se compararmos com a geração de meus pais que ainda viviam escola pública com orgulho. Também é desastroso se a comparação for entre os países vizinhos ao nosso. Perdemos de lavada em toda América Latina, pois nem com muito mais dinheiro e investimentos conseguimos chegar perto dos índices vizinhos. Há questões culturais envolvidas e, claro, um terrível rastro de corrupção que desmonta nosso país e o transforma apenas em um amontoado de peças soltas, enferrujando. Mas isso é assunto pra outros momentos.

A questão é que, não importa quantas adições modernas façamos, ainda continuamos ignorantes naquilo que pulamos inicialmente. Estamos sempre varrendo os problemas pra debaixo do tapete e sempre quebramos a cara na hora de ter que encarar a limpeza do que deixamos acumular por tanto tempo. A nossa negligência diante da base nos fará ruir constantemente, pois queremos sempre colocar novos andares no prédio, mas a fundação é frágil como papel. Então, encurtando a análise, aprenda quantos idiomas quiser, mas comece pelo seu idioma nativo e assim verá que seu potencial de relacionamento, estudo, trabalho e compreensão das realidades de sua cultura, te colocarão em patamares mais altos do que as propagandas enfadonhas de cursos te sugerem. Dessa forma, todos saem ganhando.

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Rodrigo Meyer

Ter conteúdo é sua salvação.

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Ter conteúdo não exige necessariamente ter escolaridade, estar envolvido em mil projetos ou “grandes” profissões. Ter conteúdo não significa nada além de ter algo interno que possa compartilhar. Quando uma pessoa é rasa demais, isso falta e ela encontra uma barreira que ela mesma criou e que impede a conexão com as coisas e pessoas de maneira mais profunda. A vida torna-se muito desagradável quando as pessoas tentam socializar e essa diferença se coloca no meio.

Quando conhecemos alguém, esperamos desenvolver uma relação, seja de amizade, trabalho, professor e aluno, pais e filhos,  ou mesmo um romance. E pra que isso flua bem, as pessoas envolvidas precisam estar alinhadas em pelo menos alguns objetivos em comum. Se alguém está buscando uma boa conversa, vai ser difícil traçar uma conexão se o outro lado não tiver conteúdo pra adicionar. As boas relações vivem de trocas.

Mesmo se alguém for um aprendiz numa profissão, por exemplo, poderá ter inúmeras outras coisas que troca nessa experiência com quem lhe ensina a atividade. É preciso que as pessoas consigam expor suas vontades, seus interesses e transmitir boas histórias, memórias, opiniões que fazem a diferença, ter conhecimentos gerais e um mar de outras coisas. Por muitas vezes, temos que mudar o rumo de conversas ou mesmo desistir do ensino de certos temas e profissões, quando as pessoas do outro lado não possuem cultura geral mínima pra absorver aquilo que pretendemos passar. E esse game over é triste.

Todos nós que temos acesso frequente à internet, temos a obrigação moral de fazer bom uso dela, pois é um desperdício ofensivo ter essa poderosa ferramenta e não utilizá-la bem, enquanto outros que sequer podem acessá-la penam pelo impacto da falta de informação e socialização em suas vidas. Compartilhar conhecimento, claro, não é feito apenas pela internet, mas esta é, com certeza, uma das ferramentas com maior potencial, pois permite usarmos vídeos, textos, fotografias, animações, links, além de podermos compartilhar diretamente com um grande número de pessoas e deixarmos isso disponível pra qualquer horário que quiserem acessar. Não dá pra negar que tudo isso é muito mais poderoso do que as demais formas de comunicação.

Mesmo assim, a internet não é (e não deve ser) o único meio de aprendizado, senão corremos o risco de definhar nossa própria compreensão do que é aprender. E conteúdo interno é, sobretudo, nossas experiências, nossa visão crítica, nosso humor, nosso jeito diferente de ser e pensar os assuntos, toda a bagagem que coletamos ao longo da vida e os rumos que damos para nossos relacionamentos através disso tudo.

O vocabulário de um indivíduo, por exemplo, cresce à medida em que ele mesmo se coloca diante da leitura e de novas conversas, pois não se pode conhecer palavras novas se nunca for exposto à elas. Ler o dicionário não é nenhum ato absurdo e deve, sempre, ser uma opção pra quando não temos muito traquejo para nos comunicar. Evite, porém, usar excessivamente as palavras que acabou de aprender como se já dominasse o extenso significado e contexto delas, senão corre o risco de parecer artificial e/ou pretensioso demais.

Uma professora da época de faculdade nos propôs de lermos uma certa quantidade de vocábulos do dicionário por dia e ao final do curso de Comunicação Social estaríamos bem distantes de onde começamos, apenas com esse simples ato. Sendo feito de pouco em pouco, diariamente, esse aprendizado não pesaria e como seria fracionado ao longo do curso todo, mesmo se interrompêssemos a prática, teríamos absorvido pelo menos algumas palavras à mais no começo da tentativa. Só tínhamos a ganhar.

Mas, conhecimento não se resume a conhecer palavras. Essas você pode ter facilmente a qualquer momento que quiser, perguntando à alguém ou consultando-as na enciclopédia, na Wikipédia, em um dicionário convencional impresso ou mesmo no Google. O que conta mesmo é o que você faz com as palavras. Mas para fazer algo com elas, é preciso conhecê-las, inevitavelmente. Lendo e escrevendo você pode refletir através de textos, poemas, frases, ou qualquer que seja o formato de conteúdo. E isso não é um mero capricho. Isso é sua vida, são suas chances, sua realidade, suas chaves e também a diferença entre derrotar-se ou ter meios para vencer. E isso se aplica em qualquer setor da vida.

Você pode, eventualmente, estar buscando um emprego novo, um namoro, bons amigos ou mesmo dividir um pouco do seu tempo com familiares ou desconhecidos em uma festa. Não há outro meio de se traçar conexões coerentes e mais profundas se não for através do seu conteúdo e a habilidade que tem de compartilhá-lo. Certa vez me apresentaram a ideia de que se pudéssemos ler as mentes uns dos outros, seríamos todos solitários e deprimidos. E mesmo no modelo de realidade onde não lemos as mentes de ninguém, podemos acabar chegando em similares situações apenas pelo que as pessoas expressam.

Com exceção da timidez, ninguém deveria ter dificuldades em se expressar. Com exceção dos naturalmente misteriosos, ninguém deveria ser confuso em suas expressões e intenções. Com exceção dos afetados por químicas, ninguém deveria perder a lógica ou a cadência em uma ideia proposta. Com exceção dos que não podem fazer mais por si mesmos, ninguém deveria ficar restrito ao vazio da falta de conteúdo.

Aquilo que somos por dentro é nossa salvação. É lá que habitam as trocas fundamentais para um aprendizado, uma conversa, uma análise de nós mesmos, da vida, da filosofia por trás das coisas, do sentido de nascermos ou morrermos. Está também no interno de cada um, as vontades, as ambições, os impulsos criativos, os pensamentos abstratos ou de outros tipos. São eles que nos fazem chegar à conclusões que mudam nossas vidas de uma só vez a cada vez. São essas grandes possibilidades que nos colocam em atividades maiores e melhores. Sem conteúdo interno não teríamos jamais inventado a internet, os computadores, as sociedades e suas culturas. O que expressamos adiante é fruto do que temos dentro de nós. Não há como dividir com o mundo aquilo que não se tem. As relações envelhecem melhor quando estamos cientes de que temos a melhor conexão.

Eu não estou dizendo que o conteúdo interno anula ou inferioriza as conexões emocionais. Mas, mesmo elas, são geradas e sustentadas por causa do conteúdo interno. Tudo que somos como pessoa e tudo que construímos de forma subjetiva entre seres, lugares e coisas, está relacionado ao que conseguimos enxergar para traçar um significado maior, mais profundo e, muitas vezes, intraduzível.

As pessoas rasas frequentemente se assustam ou se incomodam com qualquer quantidade que seja maior do que estão acostumadas a lidar. Uma bandeja suporta muito menos líquido que um balde. Se vertermos apenas metade da água de um balde cheio nela, ela transborda de imediato. Tudo que for vertido em excesso será um incômodo, um atropelo ou até uma angústia. As pessoas não querem sentir que estejam afogadas em coisas das quais elas não podem ou não querem lidar. Isso às faz perceber que são rasas e imediatamente ativam o possível complexo que possuem sobre isso. E se, por outro lado, voltarem a esquecer desse contato, tudo se normaliza e elas voltam a lidar apenas com as gotas de seus interesses. Mas, inevitavelmente vão se deparar com novas situações semelhantes e podem acabar defendendo a ideia de que baldes são excessos. Perigo à vista!

Não serei eu a impedir alguém de mergulhar em tais escolhas, mas o prejuízo pessoal de quem assim escolhe é imenso. Em um aparente benefício, essas pessoas buscam o caminho mais curto e fácil, mas passam a vida toda andando em círculos e chegam a lugar nenhum, enquanto outros, por andarem em linha reta com propósitos e objetivos, chegam mais longe. A velha tática de varrer tudo pra debaixo do tapete não anula a necessidade de ter que lidar com isso mais tarde e ainda amplia o problema, pois é mais fácil varrer umas migalhas por dia do que ter que carregar caçambas delas de uma só vez. No caso das pessoas rasas, o acúmulo é de vazios, que pesam mais que toda matéria do Universo.

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