Na contramão dos aniversários.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Pra muita gente, aniversários são, talvez, uma das únicas datas festivas do ano todo. Pra mim, soma-se com o Natal e as festas de Ano Novo como igualmente incômodas. Nunca fui alguém que me sentisse compelido a comemorar nenhum desses eventos. Ao meu ver, não há nada de fato pra se comemorar, mas pra se lamentar. São marcos anuais de um regresso e não de um progresso. Além disso, essas festividades, geralmente, são feitas para os convidados, porque os próprios anfitriões pouco ou nada aproveitam.

Tem anos que eu simplesmente nem me lembro da aproximação do meu aniversário. E, às vezes, quando calha de eu ter que relembrar da data específica, figuro pensando rapidamente sobre isso e logo esqueço. Esses dias, ao acaso, vi um bolo e isso me fez lembrar de festas, até que uma coisa levou à outra e acabei vindo falar disso. Aniversários são, pra mim, uma lembrança triste onde sou obrigado a pensar na quantidade de anos em que eu permaneci sobrevivendo e sofrendo, quando a única coisa que eu realmente gostaria de comemorar era o fim de tudo isso. Ter arrastado uma vida permeada por depressão, praticamente desde sempre, faz com que eu não consiga ter lembranças positivas de nenhum desses eventos, nem de mim mesmo. Assim, o que é que eu teria pra comemorar sobre o meu nascimento?

Muita coisa da minha infância parece bloqueada na memória. Eu sinto como se nem ao menos tivesse vivido em boa parte dos meus dias no passado. Em parte porque não houveram episódios marcantes, mas também porque muita coisa eu fiz questão de esquecer de todas as maneiras que estavam ao meu alcance. Ainda hoje consigo me lembrar de breves cenas, dos lugares em que morei, das pessoas com quem eu conheci e me relacionei. Mas são sempre muito breves e esporádicas na sequência de tempo. Junto com essa memória corroída ou bloqueada, sobrevivem algumas cenas incômodas da minha infância e adolescência que eu preferia não lembrar. Fico arquitetando o que eu diria numa sessão de terapia ou algo assim. Tenho tanta coisa que eu gostaria que se resolvessem, mas que já moeram minha vida há tantos anos, que, não sei mais se faz qualquer diferença agora.

Quase quatro décadas de existência e não tenho nenhuma perspectiva sobre o meu tempo restante de vida. É difícil prever essas coisas. Li e ouvi muita gente dizer que imaginavam que jamais passariam dos 30 anos de idade, mas cruzaram idades elevadas. O estilo de vida exagerado de algumas pessoas, na contramão das probabilidades, os permitiu levar uma vida ativa até os 50 ou 60 anos e alguns, surpreendentemente, passaram da casa dos 90 anos. Pra mim isso parece mais assustador do que positivo, mas nunca sabemos o dia de amanhã. Às vezes alguma coisa muda em nossas vidas e ganhamos vontade de viver.

Na infância, por mero formalismo, minha mãe organizava festas ou, pelo menos, fazia um bolo. Eu nunca fiz questão e até me sentia um tanto constrangido de ter que figurar nesses momentos. E isso foi se ampliando com o passar dos anos, até que as festas deixaram de ocorrer, o bolo acabava sendo ignorado por mim na geladeira e tudo ia se enquadrando como se fosse um dia comum, como todos os outros do ano. Lembro que, às vezes, tudo isso era substituído por um dia de pizza em casa e, quase sempre, isso só representava alguma coisa diferente pra comer, seguido de longas horas de sono e isolamento. Quando eu comecei a trabalhar, pude comprar, esporadicamente, alguns presentes pra dar pra mim mesmo. Não importava se era meu dia de aniversário ou qualquer festividade. Se eu tivesse algum dinheiro sobrando em qualquer época do ano, eu saía pra comprar filmes, livros, alguma roupa, comida e bebida. Meu mundo era só eu, porque eu já não fazia parte do mundo há muito tempo.

Provavelmente trabalhei na maioria dos Sábados, Domingos e Feriados, que era quando as pessoas podiam pausar seus trabalhos pra vir participar do meu trabalho de Fotografia. Também estive à trabalho ou diversão em diversos momentos pelas noites de São Paulo, eventos, viagens, manifestações. A Fotografia me acompanhava todo o dia e dava algum sentido pra minha existência, então, talvez, eu devesse comemorar meus anos trabalhando nela. Se pude me realizar um pouco em alguma coisa nessa vida, certamente foi na Fotografia. Desde que pausei a atividade, a sensação de ser desnecessário na vida aumentou profundamente. Passei a escrever e a fazer outros tipos de arte, mas só o tempo irá dizer o que é que isso tudo tem potencial de ser. Tudo parece um tanto medíocre e sem propósito. A verdade é que muito do que faço fora da Fotografia é uma tentativa de desabafo. Já tentei trabalhar com muitas coisas, mas a verdade é que percebo que não tenho o necessário. Estou apenas dando o melhor de mim, mas pra uma pessoa destruída esse ‘melhor’ ainda é muito aquém do necessário.

Sim, isso me frustra, mas também me faz acordar pra realidade. É importante percebermos quem somos e do que somos capazes. Nada de grandes sonhos ou de supervalorizar a realidade. Assim como a vida e os tais aniversários, não são de fato grande coisa e, às vezes, a melhor forma de lidar com eles é ignorá-los. Nada de especial pra se comemorar, só mais um dia errante entre quase todos do ano inteiro. Dizem que um ano é composto de 365 oportunidades, mas se isso for verdade, certamente minha depressão me obriga a desperdiçar todas elas, porque não consigo aproveitar um dia sequer pra fazer algo que me satisfaça. Sei que estou quebrado por dentro, que minha alma está apagada. A cabeça desistiu de funcionar e já vejo novas consequências terríveis desse tempo todo em que fui esmagado, como se a cada novo ano eu tivesse um peso extra nas costas por não ter me superado no presente, nem ter superado o passado. Um histórico terrível é pendurado na minha frente todos os dias, me fazendo lembrar que estou chegando em quatro décadas de vida, sem ainda ter tido nenhum bom motivo pra comemorar.

Me acostumei a viver sozinho em meu mundo, passando reto pelos dias, bebendo, dormindo e, com sorte, trabalhando. Isso provavelmente me fez ignorar não só os meu aniversários, mas também de esquecer completamente a data de outras pessoas. Frequentemente, só me dei conta do aniversário de colegas ou companhias quando já havia ultrapassado um ou dois meses do ocorrido. E, independente do quanto eu me importava com essas pessoas, lembrar de datas nunca foi algo que minha mente se acostumou a fazer.

Eu não quero parabéns, porque ‘parabéns’ se dá pra quem teve uma conquista. Também não espero por presentes, porque a única coisa que eu realmente preciso e gostaria de receber é saúde mental e perspectiva de vida. Sem isso, nada do que eu pense, planeje ou faça, me trará sentido na vida. Acordo todos os dias com a vontade de voltar a dormir e o próprio sono já não me acolhe há vários anos. Me reviro na cama de um lado pro outro, desviando da dor física. Acordado ou dormindo, estou sempre perdendo. Nessa guerra não existe vitória e a única forma de sairmos dela é confirmarmos nossa derrota diante da vida, aceitando morrer.

Com alguma sorte eu vou levantar um dia e buscar medicação. Faz enorme diferença pra mim saber quem é que vai me atender. Enquanto isso, as pessoas que supostamente lutam do mesmo lado, ignoram, não possuem tempo ou interesse de responder. Fico sem ter esperança pelos próximos passos, sem respostas pra quem eu deveria recorrer. Quem detém a resposta, parece nem saber que eu existo. Há vários dias, talvez mais de um mês, escrevi pro Conselho Federal de Psicologia, buscando por informações que me ajudassem a filtrar um profissional. Mas nem ao menos sei se fui lido, porque nunca tive qualquer reação ao contato. Se essas são as pessoas que representam a Psicologia no Brasil, já dá pra imaginar o tamanho do buraco em que estamos. Se já sabíamos que não havia com quem contarmos entre as pessoas comuns da sociedade, fica ainda mais difícil quando descobrimos que nem mesmo os profissionais podem nos ajudar.

Os dias passam e a vontade de aceitar ajuda passa junto. Um dia estamos dispostos a escrever uma mensagem e no outro parece que aquilo já não faz mais sentido nenhum. Um dia estamos pensando que poderemos nos salvar com a medicação e depois entendemos que nada é tão simples assim. Existe um caminho constante nesse vai e vem, que é típico da depressão e que nos coloca à andar em círculo, sem mudar coisa alguma nos nossos dias. Aquilo que realmente seria importante e urgente, facilmente deixamos de lado, enterramos debaixo do tapete, varremos atrás de uma garrafa de bebida, uma noite de sono, um prato de comida. E vou empurrando meus dias, pra mais um ano de sobrevida, enquanto as pessoas se perguntam porque é que não estou comemorando meu aniversário. São explicações que nem mesmo gostaria de dar e que se juntam à inúmeros outros anexos de frustrações e memórias inglórias. Passei mais tempo explicando, justificando e desabafando minha sobrevida, do que buscando qualquer tipo de ajuda efetiva que me desse a honra de conhecer o que é viver. Já estive medicado e reerguido lá pelos meus 20 anos de idade, mas alguns anos depois eu já não sabia mais o que era viver.

Já não desejo ‘feliz aniversário’ pra ninguém, porque ‘feliz’ é um conceito que já virou mitologia na minha mente. Espero que as pessoas encontrem algum conforto e tranquilidade ou que obtenham sucesso em algo que elas queiram ser, ter ou fazer. Mas sempre me senti desconfortável em desejar felicidade em aniversários, festas de Natal ou Ano Novo, porque tudo isso parece uma grande ficção e falsidade, em especial no mundo destruído em que vivemos, independente de ter ou não depressão. Acho que o mundo precisa ser mais honesto, mais direto, mai realista e dizer aquilo que realmente sente, o que deseja, o que de fato acredita. Não vamos chegar à lugar nenhum alimentando a egrégora da mentira com todos esses depósitos de palavras, símbolos e energias, enquanto, na prática, estamos nos dizimando, todos os dias, em gestos, palavras, pensamentos, sentimentos, tudo do ruim e do pior, apodrecendo o mundo com um modelo de conduta que se opõem diametralmente à felicidade e cava fossos cada vez mais fundos, insustentáveis, cheios de violência, dor, agonia, ansiedade, miséria, guerra, conflito, preconceito, mentira e tudo aquilo que as pessoas fingem que não sabem, mas praticam de perto, e magistralmente, todos os dias.

Rodrigo Meyer – Author

Depressão convive com amor-próprio?

Normalmente as pessoas tem uma visão curta daquilo que elas mesmas pouco vivenciaram. Muita gente no mundo não tem conhecimento concreto nem da depressão nem do amor-próprio. Não ter cruzado com essas experiências ainda, pode levar a deduções e, como sabemos, deduções sem embasamento em fatos é só preconceito.

O amor-próprio é a estima prioritária que temos por nós mesmos, é nos vermos como dignos, merecedores de respeito, de coisas boas, etc. Assim, ter amor-próprio nos faz querer buscar uma realidade que contemple nosso ser de forma positiva. Todos que possuem amor por si mesmos, desejam ter liberdade, prazer, progresso, dignidade, assim como receber respeito pelos demais. Se perdemos o amor-próprio, começamos a não nos preservar nesse sentido, deixando que pessoas, coisas e situações ruins, façam parte da nossa realidade, sem filtro, sem críticas, sem resistência. Por vezes, relacionamentos são basicamente a união de duas pessoas sem amor-próprio. Uma tolera a outra, apesar do malefício que causam reciprocamente.

Entendido o que é o amor-próprio e a ausência dele, falemos um pouco da depressão. A depressão é uma doença real que afeta um número alarmante de pessoas ao redor do mundo todo. As razões para alguém desenvolver um quadro de depressão podem ser diversas, incluindo combinações. Embora possa existir predisposição genética na equação, frequentemente é o ambiente e as situações vividas que se tornam gatilhos que ativam a manifestação da depressão em si. Quando uma pessoa vive situações na vida das quais não concorda, não sabe como lidar, não controla ou não tem soluções a altura pra resolver, pode se ver cansada, como se estivesse lutando contra a correnteza em vão. É nesse ponto que se observa que, mesmo desejando o melhor pra si, tal pessoa pode se ver sem espaço no mundo, sentindo como se ela estivesse perdendo valor e que tudo parecesse sem esperança.

O senso de preservação da vida e do bem-estar, quando estamos minimamente saudáveis psicologicamente, costuma estar ativado. O ser humano, a princípio, está sempre em busca de prazer e bem-estar. Porém, longe desse ideal, muita gente escapa dessa premissa humana por conta de distúrbios, traumas, complexos ou outras situações. Pode parecer estranha a ideia, mas muita gente que tem amor-próprio colide com a realidade em quase tudo, já que o mundo não corresponde aos seus valores e não é um ambiente no qual alguém saudável desejaria viver. Quando você ama uma pessoa, por exemplo, você quer ver ela livre e feliz, pois qualquer coisa diferente disso não é amor. Da mesma forma, se você ama a si mesmo, quer se ver livre e feliz. E, sabemos, o modo como a sociedade se apresenta, com suas condutas doentias e equivocadas, muitas vezes nos impede exatamente de sermos livres e felizes. Explicando assim, passo a passo, torna-se mais evidente essa conexão entre depressão e amor-próprio.

Há uma frase de Jiddu Krishnamurti que diz “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.”.

Assim, conclui-se que se você quer o melhor pra si, mas a sociedade lhe é tóxica, você não estará bem adaptado a ela. E se estiver bem adaptado a tal sociedade, então, certamente, você não tem amor-próprio. O amor-próprio nos faz buscar mudanças, pois não aceitamos conformados o malefício que nos corrói. Desenvolvemos defesas, criticamos os males do mundo e nos posicionamos de forma ativa pra combatê-los, justamente porque não queremos que os malefícios nos combatam e que destruam o mundo no qual vivemos, pois queremos e precisamos de um mundo positivo. Lembra-se? Amor-próprio é gostar de si, se dar coisas boas, querer se ver livre e feliz.

Lamento se, eventualmente, esse texto suscita lembranças incômodas sobre a realidade ou se quebra um pouco os fios de esperança tão difíceis de serem sustentados nesse mundo adoentado. Sei que muitas das pessoas que cruzam o meu caminho, assim como eu, tiveram depressão ou estão passando por uma agora mesmo. E é exatamente por saber desses contextos e da importância do assunto, que levanto ele diante da internet, sempre que necessário. Gostaria de ter a solução pra isso que muitos de nós vivencia individualmente, mas não tenho. Oportunamente, o próprio Freud dizia “Antes de se autodiagnosticar com depressão, certifique-se de que não está apenas cercado de idiotas.”. Com essa frase, fica fácil entender porque tanta gente se sente cansada, saturada, desiludida da vida e do mundo, sem esperança, sem paciência e até mesmo com pensamentos suicidas. Em um mundo onde as pessoas fazem idiotices, o ambiente se torna tóxico, inóspito, inviável para princípios básicos da saúde mental: liberdade e felicidade.

É difícil caminhar em um ambiente onde as pessoas estão colidindo umas com as outras, transformando-se em barreiras para os demais. Habitamos um mundo que transborda inveja, sabotagem, falta de apoio, preconceito, racismo, fanatismo, alienação, ignorância, violência, hipervalorização da futilidade e pouco apoio aos indivíduos em si, aos seus potenciais, suas necessidades, seus desejos, seus valores. Estatísticas, nada animadoras, colocam o Japão como um dos lugares de maior incidência de suicídios no mundo. Isso se dá, segundo as próprias queixas da população, ao modelo de sociedade que exige muito das pessoas, especialmente em estudo e trabalho, sobrecarregando-as de estresse, pressão social, cobranças familiares e profissionais, gerando um sentimento de que não se é capaz de atender as demandas ‘padrões’ dessa realidade.

Independente de cultura e predominância, em outras regiões do mundo, as taxas de suicídio acompanham motivos similares ou com a mesma estrutura lógica. De forma resumida, a depressão que chega ao extremo do suicídio é um grito de alerta ao mundo de que o mundo não é um lugar viável pra se viver. Explicando a situação em repetidas frases, algumas realidades óbvias do mundo saltam aos nossos olhos. Muitos de nós ignoramos a saúde psicológica das pessoas em detrimento de metas e padrões inventados que, no fundo, causam mais prejuízo do que benefício. Um mundo que permite que cresça o número de pessoas que optam pelo suicídio, apenas pra não ter que abrir mão de certos vícios e/ou modelos de sociedade, de família, de relacionamentos “amorosos” ou de “amizade”, bem como os modelos e relações de trabalho e estudo, certamente está se destruindo. Uma sociedade que aceita carregar o prejuízo da própria destruição, eliminando seus membros em casos evitáveis de suicídio ou outras fugas, certamente é uma sociedade que não ama a si mesma. Se uma sociedade é composta por indivíduos somados, fica claro ver que as pessoas que constroem essa sociedade não possuem amor-próprio, já que fomentam exatamente o cenário do qual lhes dá o maior prejuízo tanto pessoalmente quanto coletivamente (se é que podemos separar uma coisa da outra).

Outra curiosidade é que estas pessoas que plantam e moldam a sociedade pra um ideal inviável e nocivo, ao mesmo tempo em que não possuem amor-próprio, são também por demais egoístas, já que suas ações não levam em conta o malefício causado aos demais. Uma coisa é não estarmos bem com o mundo e com nós mesmos e nos expressarmos de forma a fugir ou nos defender dessa realidade e outra, completamente diferente, é arrastar todos os demais pro buraco pelo modo como escolhemos reagir ao problema ou ao mundo. Eu não pretendo ser insensato a ponto de incentivar o suicídio, mas, entenda o que vou dizer: o suicídio é um jeito menos errado de lidar com a inadequação ao mundo, quando comparado com a conduta do egoísta que, não se importa de causar ainda mais malefício no ambiente e ainda mais dor nas pessoas, arrastando elas pra um cenário ou buraco de violência, abandono, fome, miséria, machismo, cobranças desproporcionais, abusos, desemprego, falta de apoio, doença, disputas doentias, etc. Enfim, não se pode dizer que o suicídio é menos aceitável que a opção de submeter outras pessoas a esse mundo torto projetado por egoístas. Nesse sentido, me vem na memória um trecho de letra cantada por Cazuza onde ele dizia:

“Eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo.”.

Embora o contexto da frase de Cazuza se referisse ao uso pessoal de drogas, é válida a ideia de que, em qualquer que seja nossa escolha de fuga do mundo, não causamos danos diretos aos demais, quando nos voltamos pra opções individuais. Muita gente alega, contudo, que tanto para o caso de abuso de drogas ou suicídio, as famílias e os amigos em torno do indivíduo são também impactados por essa decisão individual. Mas, acredito, no momento, que não se pode controlar o que os outros vão sentir sobre fatos e nem sobre como nos portamos sobre nossa própria vida e experiência. Somos responsáveis somente por nós mesmos. Cada um de nós tem uma vida e dela escolhe o que fazer, como gerir e o que aceita ou não incluir no hall de valores. Querer que uma pessoa se prive de suas fugas com o simples argumento de que outros sofrerão com essa decisão, é um argumento vazio, até porque a pessoa que opta por uma fuga já está sofrendo e não vai deixar de sofrer, mesmo que se coloque mais cobrança e pressão social e familiar pra que ela dê preferência a proteção do sofrimento de terceiros, hipoteticamente no futuro. Nada menos saudável que isso. É como entregar mais um motivo de dor pra quem já está com tanta dor que deseja se ausentar da vida. Sejam conscientes do equívoco e evitem propor isso como argumento a uma pessoa deprimida e/ou suicida.

Apesar das boas intenções de querer ver alguém superar essa situação ruim, quando o assunto é interno a um indivíduo e subjetivo o suficiente pra ser único em cada pessoa, não se deve tentar sobrepor os interesses sociais e/ou de pessoas externas aos interesses do indivíduo em questão. Isso não é, nem de longe, um incentivo ao suicídio, pois, bem ao contrário, visa poupar uma pessoa de mais danos do que ela já carrega, possivelmente desacelerando a chegada de um potencial desfecho suicida. Não coloque mais água em um copo que já está cheio, senão ele vai transbordar. Se queremos frear os casos de suicídio, precisamos parar de sobrecarregar as vítimas de depressão e deixar que elas tenham espaço e condição pra caminharem. Por vezes essas pessoas estão buscando ajuda, mas só estão encontrando pessoas e situações que atrapalham ainda mais seu quadro. O ser humano tem o potencial de abafar ou incentivar coisas tanto em si mesmo quanto nos outros. Assim como os que veem um incêndio em uma floresta podem tentar brecá-lo com um círculo de pedras ou simplesmente colocar inúteis gravetos ao redor das chamas. Na vida é preciso saber se o que fazemos, falamos ou cobramos de um indivíduo ou coletivo, mais atrapalha do que ajuda. De uma coisa eu sei: não falar de suicídio pode até não suscitar a ideia na mente de muita gente, mas é também por não falar disso, que o assunto segue desconhecido e ignorado por grande parte da sociedade e, com toda certeza, isso não ajuda a eliminarmos esse tipo de problema do mundo.

Primeiramente é preciso reconhecer que nossa sociedade é doente, as pessoas estão doentes, seja com depressão, egoísmo, complexo, desvios de conduta, de educação ou de amor-próprio e que, sim, precisamos falar repetidas vezes as obviedades que o mundo insiste em ignorar, seja por preguiça, por ignorância, por conivência doentia e/ou por vício em pseudo-poder. Cada vez que as pessoas se posicionam contra a realidade podre do mundo, elas se aproximam de resolver dois problemas de uma vez só: o caos do ambiente e a propensão a depressão por conta desse ambiente inóspito. As regra é tão simples que nem vou me estender mais por este texto. Estejam certos de que basta agir de forma sensata na vida, que as sociedades se tornam melhores, já que elas são a soma de cada indivíduo. Não plante um mundo inóspito e não terá um mundo inóspito.

Rodrigo Meyer