O tempo que você não tem, lhe foi roubado.

O tempo, além dos ciclos naturais das estações do ano e o movimento dos astros, é também uma construção social. E dentro dessa construção social é comum de vermos as pessoas criarem construções derivadas desse modelo. O tempo é relativo, mas também tem seu fator concreto. Mais importante do que entender o que é o tempo, é saber o que você faz dele.

Quando as pessoas dizem que não possuem tempo para determinada atividade, geralmente isso significa o oposto na realidade. O que ocorre é que as pessoas que sentem-se sem tempo, por vezes, estão apenas cegas de si mesmas, justamente por estarem ocupando o tempo delas com coisas superficiais e que não são reais prioridades. Quando elas notam alguma coisa da qual elas gostariam ou precisariam muito fazer e se apercebem sem tempo, é preciso refletir que outras coisas estão preenchendo o tempo a ponto de não haver espaço para algo que se quer muito

O dia na Terra tem em torno de 24 horas. É bastante tempo para o modo como estamos acostumados a experimentar nossas rotinas. Uma pessoa comum dentro da média, acorda pela manhã, segue para o trabalho ou estudo, pausa para almoçar, encerra o dia lá pelas 19h00 e retorna pra casa ou segue para alguma atividade de cunho pessoal. Considerando o percurso triste de muitos lugares, isso pode se arrastar por mais algumas horas de transporte. Com alguma sorte essa pessoa vai conseguir dormir as recomendadas 8 horas de sono, pra acordar à tempo de ir pro trabalho ou estudo no dia seguinte.

Se você segue essa rotina descrita acima, é muito provável que você esteja cansado. Seu trabalho te ocupa o dia todo, se levar em conta a soma do transporte, da refeição e do sono que te mantém vivo pro próprio trabalho. Em nenhum desses horários você teve lazer ou algum prazer incluso. É provável que não tenha tido sequer o tempo necessário para se questionar sobre sua condição atual e suas possibilidades paralelas. Como buscar alternativas, quando tudo que você tem é a rotina te algemando à um modelo que te cansa e te ocupa o dia todo?

Se você teve tempo e oportunidade pra ler esse texto, provavelmente você está com uma margem nos seu horário ou então teve a grata oportunidade de folgar por alguns dias na semana inicial do ano. Talvez, ainda, você tenha insônia e, ao invés de cumprir suas 8 horas de sono, você se cansa ainda mais diante da internet, em busca de atender o chamado da mente. Eu não tenho como prever com exatidão qual a sua situação, mas posso lhe dizer algo importante sobre tudo isso. Em qualquer cenário que você estiver, uma coisa não muda: o dia continuará tendo 24 horas e você tem nas mãos escolhas e responsabilidade para colocar na balança. Vejamos.

Se você é uma pessoa solteira, sem responsabilidade com cônjuge, filhos e nem lhe é requerido cuidados mais constantes e presenciais para seus pais ou parentes, você já está em vantagem em relação a muita gente. O Brasil é um país onde raramente as pessoas alcançam qualidade de vida e, por isso, mais atribuições de responsabilidade acabam por se tornar um fardo que faz muita gente desistir ou transbordar em condutas e sentimentos indesejados. Se lhe foi dada a condição da escolha sobre esses aspectos da vida, sinta-se agradecido, pois a maternidade ou paternidade, o cuidado de enfermos ou a aceitação de um trabalho que rouba todas as horas do dia em troca de um salário que custeia apenas a sobrevivência, é uma triste realidade de grande parte da sociedade.

Nessa altura você deve estar se perguntando, como é que pode haver tempo de sobra, se acabei de mostrar que a maioria das pessoas não dispõem de tempo suficiente. A verdade é um contexto mutável e não algo fixo e eterno. Se nos apercebermos de nossas funções no mundo, do nosso esforço, nosso potencial, nosso valor, nosso trabalho, nossas relações com o tempo, com as pessoas e com a sociedade, teremos condições de estimular em nós um senso crítico sobre o que não parece justo, certo ou realista sequer. Quando você se dá conta de que está trabalhando simplesmente pra continuar vivo para o próprio trabalho, você está sendo, em certa forma, escravizado pelo trabalho, apesar da ilusão do salário. Digo isso porque seu salário não é dado para você exatamente, mas custeia apenas sua alimentação, sua moradia, seu transporte e evita que você amanheça morto no dia seguinte e deixe de trabalhar por quem “precisa” da sua fracionada mão-de-obra. Se aperceba que você não usufrui do seu salário para nada que seja destinado à você mesmo, como o seu aprendizado, seu lazer, seu relacionamento afetivo com as pessoas, sua exploração da espiritualidade, o cuidado com a saúde do seu corpo e mente, a elaboração de uma rede firme e saudável de amizades, uma pausa para pensar o mundo, pensar você, pensar a vida, questionar os caminhos e os porquês. Perceba que num modelo de vida apertado assim, ocupando todas suas 24 horas, o tempo lhe é roubado. E se lhe roubam o tempo, é porque você tem tempo de sobra pra ser roubado. Ficou mais claro?

Todos nós temos, tivemos e sempre teremos 24 horas do nosso dia, para fazermos nossas escolhas. É claro que, diante de certas responsabilidades éticas, escolhemos, por exemplo, não negligenciar os cuidados com filhos e família, não subestimar o salário que nos permite dar assistência e sobrevivência para aqueles a quem tutelamos e/ou amamos ou simplesmente para cumprir nosso instinto de sobrevivência e nos mantermos vivos e à salvo nas necessidades mais básicas da Pirâmide de Maslow. Mas, acima das urgências de respirar, urinar, comer, se proteger do frio e do calor, dormir, se manter vivo e com o máximo de saúde possível, temos um outro patamar de realidade, que é talvez igualmente importante por mais que não seja exatamente o motivo da nossa sobrevivência como seres orgânicos.

Além da sobrevivência, temos o viver. Viver é infinitamente diferente de sobreviver. Enquanto o sobrevivente pulsa o coração e mantém ativa as ondas cerebrais para ser tachado de vivo, a pessoa que realmente quer viver e não apenas sobreviver, precisa encontrar função e satisfação além da manutenção do organismo, afinal o ser humano não é apenas o próprio corpo. Ser um ser humano é, antes de tudo, ser dotado de uma individualidade, uma consciência, uma personalidade, uma vontade (e aqui permita-me listar também a Vontade, com ‘V’ maiúsculo, em referência a essência de um indivíduo, como anunciado por uma certa vertente de conhecimento). Viver é, sobretudo, abandonar a servidão da sobrevivência e desfrutar a vida ao lado de seus potenciais e anseios. Existimos para nossos próprios propósitos e não temos que nos sujeitar a nenhum modelo imposto de sociedade, trabalho ou relacionamento. As premissas do mundo, são criações de outros seres humanos, tão comuns e/ou especiais como qualquer outro. Somos todos iguais e o problema na administração do nosso tempo e valor está justamente em alguém ser subjugado por outro, pra que o outro faça o que quer do tempo dele, enquanto a vítima segue pressionada a não ter nada, a não ser nada, a não poder querer nada.

As pessoas que detém 24 horas do seu tempo, tem um tesouro nas mãos. Deveriam fazer bom proveito disso, pra não acabarem infelizes, com sentimento de derrota, frustradas, deprimidas, doentes ou distantes dos seus potenciais, sonhos e responsabilidades. Escolhemos vender a nossa força de trabalho, pois acreditamos pouco na nossa autonomia. Desde que eu me conheço por gente, sempre almejei e sempre fui um profissional autônomo. Trabalhar para os outros nunca me foi uma opção a ser considerada. Claro que se eu me sentisse sem nenhuma segurança ou esperança, viria o pensamento de me sujeitar à exploração do trabalho convencional, afinal tentamos sempre nos mantermos ao menos vivos pela sobrevivência e depois pensamos em viver. Mas, enquanto me foi dada a oportunidade de escolher minha própria vida, escolhi arcar com a responsabilidade de viver na incerteza dos ganhos como autônomo, mas desacorrentado da falsa promessa de estabilidade de um salário mensal em uma empresa. Não me arrependo jamais de ter escolhido o meu caminho.

Eu não posso dizer que você tenha as mesmas condições que eu para tomar essa decisão assim, da noite pro dia, mas posso te contar da experiência de inúmeras outras pessoas em diversos contextos sociais e familiares. Posso te dizer que há pessoas que mesmo tendo uma vida relativamente confortável, escolheram ir para as ruas, para morar e explorar a realidade paralela, como também conheço os que abandonaram as ruas ou o risco de estar morando nelas, para coletar materiais recicláveis descartados, para construir sua própria autonomia na vida, sua moradia, seu tempo livre, sua relativa paz. Sorriso no rosto de pessoas tão distintas falam mais sobre quem elas são por dentro, do que o cenário que deduzimos no mundo físico delas. Para algumas pessoas, certas atividades parecem degradantes, para outras é a oportunidade de se sentirem livres. Obviamente, a sensação de encaixe e satisfação dessas pessoas não anula o fato de que outras muitas sentem-se invisibilizadas ou maltratadas pela vida exatamente por estarem na condição ou cenário em que estão. Para muita gente o abandono familiar, a miséria, a ausência de um lar além do improviso nas calçadas, é uma realidade dolorosa que as pessoas tentam contornar por meio da transformação de significado da vida, mas que, quando não conseguem, caem no abuso de álcool e outras drogas, como fuga de suas próprias realidades.

Começar a falar de tempo e terminar falando de classes sociais é o tipo de realidade que precisa ser visitada mais vezes por aqueles que não perceberam a conexão entre assuntos aparentemente desconexos. O texto não desvia sequer do título. O texto tenta suscitar na sua mente consciente, aquilo que o seu inconsciente já sabe. Por meio das críticas e exemplos que trago, eu espero com sinceridade que você levante um dia e perceba que há valor no seu indivíduo, por mais que a vida tenha insistido em mentir pra você, em te reduzir ou te desacreditar. A vida, de um modo mais subjetivo, são as relações humanas pelo mundo. É o que fazemos uns com os outros que determina como será a vida de cada um. Qualidade de vida nada mais é que manter relações positivas e justas entre as pessoas que interagem em um mesmo ambiente. Se cada indivíduo estiver são e feliz, acaba por descobrir que todos possuem 24 horas do dia pra serem cada vez melhores, num nundo cada vez mais consistente, sem ódio, sem preconceito, sem separação de classes, sem pressão, sem guerra sem coisas desnecessárias que ocupam o tempo de muitos.

E nem vou entrar na questão, por hoje, do desperdício de tempo de atividades como a obrigatoriedade ilusória de sair todo fim-de-semana, de dedicar horas do seu dia pra assistir passivamente a timeline do Facebook, Instagram e Youtube. Essa crítica da vida pós-internet é tão conhecida quanto a própria internet e as pessoas são conscientes disso mesmo quando incorrem no vício que elas não gostariam pra si. Disso já falei em outros textos e, se necessário, voltarei com abordagens diferentes futuramente. Retomemos a linha do pensamento.

Após você ter se apercebido do necessário, é hora de fomentar suas mudanças no coletivo. Sozinho, talvez faça boas coisas, mas em conjunto, poderá fazer coisas maiores. Se tornar livre no seu próprio mundo, pode ser uma bela conquista, mas estimular para que todo o mundo seja o seu e de todos os demais, pode ser a melhor coisa que você já fez. Encontre-se com as pessoas que pensam de maneira similar com a sua, esclareça os pontos falhos sobre o assunto, divida apoio, esteja lá para empoderar, para deixar um sorriso, um novo modelo de vida, um teor de esperança, um perfume de vitalidade, um pensamento que vá além da opinião e que permita que mais pessoas sintam-se engajadas como você a querer mais da vida do que apenas sobreviver. De início isso poderá ocupar boa parte do seu tempo, mas é uma boa maneira de ocupá-lo, bem melhor do que se enforcar em horas e mais horas de trabalho sem significado, pra que seu patrão compre um carro novo, reforme a casa, viaje pra praia, abra outra empresa e siga enriquecendo às custas do seu suado trabalho.

Me parece mais justo que você escolha pros seus dias a incerteza no final do mês, porque só se torna difícil quando pouca gente está fazendo. Se todos estivéssemos vivendo em um cenário de trocas entre autônomos pelo mundo todo, seríamos todos livres para sermos quem quiséssemos ser. Seriamos livres para pensar, ler, sentir, escrever, desenhar, construir, sonhar, viver. Viver! Vamos redescobrir o sentido da vida, olhando exatamente para os lugares onde ela não está. Se não há vida no seu trabalho ou nas suas relações sociais, mas apenas sobrevivência, é hora de repensar. Tudo bem se você concluir que não é uma mudança boa para você ou que você não tem os contextos necessários para tomar essa decisão. Eu não estou aqui pra te julgar. Eu vim exatamente pra lhe enxergar, dizer que você existe, que você importa e que você deve ser livre o máximo que puder. Tudo que eu posso fazer por você, na posição em que estou é te provocar reflexões, abrir as portas do meu mundo e sorrir diante da reciprocidade e sintonia que houver. Eu não posso tomar as decisões por ninguém e nem mesmo cobrar as pessoas para que tomem qualquer decisão na vida delas. Somos indivíduos e, como tal, há uma vida em cada um de nós, uma autonomia, uma responsabilidade própria, uma liberdade, um hall de escolhas e ações. Exerça sua individualidade, seja o protagonista da sua vida.

Obrigado pelo seu tempo e espero que o meu tempo dedicado nesse texto tenha gerado algo de útil pra você também, pois foi útil pra mim e só seria uma troca se fosse útil à ambos. Isso é o que fiz desse pequeno momento do meu dia e tenho certeza que ele vai me render mais tempo livre em algum momento lá na frente. Eu escolhi viver e escrevo porque é isso que eu desejo fazer.

Rodrigo Meyer – Author

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Você é rápido ou afobado?

Muita gente não sabe a diferença na prática. Geralmente uma pessoa afobada tenta justificar sua conduta alegando pressa ou falta de paciência. Mas, ironicamente, a pessoa afobada é, frequentemente, aquela que demora mais tempo pra concretizar algo, justamente porque quebra a cara nas tentativas afobadas de fazer tudo de forma não planejada, por atalhos equivocados, entre outras coisas.

Ser rápido pode ser uma vantagem, mas não é algo simples de se conseguir ser. Se tudo que conseguimos é aumentar a velocidade e não o controle, então não estamos sendo mais rápidos de fato, pois, acabaremos barrados, parados, perdendo mais tempo com o desfecho dessa pressa descontrolada. Então, ser rápido, no final das contas, é saber controlar a situação. E, sabe-se que pessoas afobadas ficam incapacitadas de controlar bem qualquer situação. Então, é hora de rever pensamentos, crenças, posturas e tentar corrigir aquilo que te impede de ter o que você quer. Se você quer chegar mais rápido, então pare de ser afobado, senão não chegará mais rápido.

Só pra ilustrar que não é imaginação, vamos a alguns exemplos práticos. Imagine uma pessoa afobada, que tem preguiça de ir até a lixeira descartar um resíduo. Ao invés de dar 5 passos, atira à distância tentando acertar dentro, mas erra. A falta de controle a obriga a gastar os mesmos 5 passos recusados inicialmente e um esforço adicional pra catar o resíduo do chão e colocá-lo novamente na lixeira. Por vezes, pela chateação da falha, perde o controle pela segunda vez ao tentar depositar o resíduo e erra novamente. É cômico e bem comum. Conclusão: se o objetivo era não perder tempo, foi na direção contrária do objetivo. Em uma situação diferente, menos comum, a pessoa desenvolve o controle para poder acertar a lixeira à distância. Tal controle envolve prática, contexto e, mesmo sob controle, nem sempre será viável a conduta mais rápida, por questões de educação, por exemplo, entre outros motivos.

Querer chegar nos resultados, todo mundo quer, mas não são todos que estão dispostos a fazer o necessário pra tal. As pessoas desejam que tudo aconteça magicamente pra que elas possam desfrutar só da parte boa, sem ter que passar pelo esforço. Esse é o pensamento padrão de uma pessoa afobada e, com garantia, não vai resultar nos objetivos imaginados. A vida ensina, cedo ou tarde, que as pessoas precisam entrar no ritmo de suas capacidades e da própria realidade do mundo, ou não exercerão suas capacidades nem conseguirão se relacionar bem com a realidade. Pra evitar frustrações, dores de cabeça e uma gastrite (pra citar só coisas leves), é preciso saber viver e, sobretudo, saber ser. Mesmo em um mundo onde as informações estão acessíveis, muita gente passa reto delas ou, mesmo ao absorvê-las, ignoram a prática daquilo. Mais um exemplo de como pessoas afobadas sabotam a si mesmas.

Quando observo a média das pessoas, me lembro da analogia de um liquidificador ligado sem a tampa. Tudo gira muito rápido, mas voa líquido pra todo canto fora da jarra. Um perfeito exemplo do que não se fazer na vida e na cozinha, a menos que o objetivo seja causar um desastre. Isso está presente entre todo tipo de atividade e lugar. São as pessoas acelerando em vão o carro por ruas onde o trânsito está congestionado, as pessoas que primeiro abrem um negócio e só depois estudam como abrir um negócio, as pessoas que compram um eletrônico antes mesmo de saber se de fato precisam daquilo ou até mesmo as pessoas que comem justamente nos momentos onde possuem menos controle sobre os excessos ou a qualidade do que comem.

Tudo isso são momentos de afobação. Algumas pessoa estão afobadas e outras pessoas são afobadas. Vez ou outra é normal estarmos menos comedidos ou controlados pra traçar a postura ideal nas situações, mas se isso se repete todo dia e em todo tipo de coisa, então já se tornou característica da pessoa e não um momento isolado. Quem são essas pessoas e porque agem assim? De onde vem essa pseudo-pressa de cumprir as atividades? Será mesmo que estão com pressa ou só estão tentando esconder de si mesmos a realidade? Quase tudo de doentio na conduta humana, segundo a Psicologia, aponta uma contradição. Indivíduos nessas condições estão sempre tentando obter resultados, mas sempre do modo oposto ao que seria eficaz. E não se pode dizer que seja falta de conhecimento. É falta de prática mesmo. Para uma prática se tornar automática, é preciso exercitar. O hábito transforma algo aparentemente complexo em algo tão fácil que fica imperceptível. É o caso, por exemplo, de quando usamos o mouse do computador depois de nos acostumarmos a ele. Ninguém que tenha o hábito de usar o mouse fica olhando pro equipamento pra controlar o movimento dele na mesa. Apenas o move instintivamente com a mão.

Entendida a necessidade do controle e da prática para a transformação de si mesmo, é hora de observar quais são as situações em que você se vê andando em círculos, enxugando gelo ou batendo a cabeça em busca de resultados. Comece a se assistir, a se analisar e se julgar, pra entender quem você é e quem você gostaria de ser. Muita gente descobre que seus objetivos são outros ou que seus equívocos iniciais são barreiras desnecessárias. Seja lá onde você se descubra depois disso, terá todas as ferramentas pra cuidar de si mesmo nessa temática. Decidir o que fazer, como e em que ritmo, vai depender dos seus objetivos, seu controle eficiente e o contexto sensato onde tenta atuar. Faça valer sua vida, sua pessoa, sua personalidade, suas ideias, seu potencial e mergulhe no mundo pra criar mais, ser mais, entender mais. Não se limite com autossabotagem, pois esse tipo de tombo não há quem possa ajudar, exceto você mesmo.

Rodrigo Meyer

Escrever ou não escrever? Eis a questão.

Quem lida com a escrita, certamente já se deparou com momentos onde não se sente disposto, inspirado ou com facilidade para escrever. Às vezes também paira alguma incerteza sobre a qualidade ou relevância do que se cria. Tudo isso é natural e não é diferente a nenhum tipo ou nível de autor. Penso, inclusive, que essas situações são ótimos sinais para mudarmos nossa visão do nosso momento pessoal. Enquanto estivermos, de certa forma, barrados para a escrita, devemos acatar esse distanciamento e exercer outra atividade ou até mesmo nenhuma.

Quando nos colocamos a escrever de maneira forçada, caímos na ilusão de acreditar ser produtividade. Na verdade não produzimos mais, pois não progredimos ou não demos continuidade ao que estávamos exercendo quando motivados e satisfeitos. Cumprir quantidade ou periodicidade não é garantia de qualidade e, portanto, isso não é um aumento real da produção. É muito mais produtivo poupar esforços para brilhar no próximo momento favorável, do que estar constantemente tentando fazer a diferença com algo que, no final, não será recebido pelo público e pelo autor como uma diferença de fato, exceto, provavelmente, para pior. Uma queda na qualidade é algo comum e até aceitável se houver uma certa constância no que se faz. Contudo, se notar que está diante de um episódio muito destoante de sua média de criação, é melhor mudar o foco e deixar o tempo resolver.

Pessoalmente tive inúmeros desses momentos, inclusive um bem recente. Há uma semana, aproximadamente, pausei a escrita, pois me sentia cansado pelo calor excessivo e o barulho recorrente na vizinhança. Embora eu seja apaixonado por escrever, a situação ideal é importante pra eu conseguir ser rápido e assertivo no meu modo costumeiro de produzir, na organização das ideias e no resultado final pretendido para determinado tema. Coincidência ou não, assim que tirei o foco da escrita e me voltei pra algumas de minhas outras atividades, me vi muito mais criativo e disposto por lá. Talvez a desmotivação em uma determinada área de criação seja um sinal de que outra área está clamando pra ser executada. Alternando de uma atividade pra outra, sinto como se estivesse sempre vencendo, cada momento em uma coisa diferente. Isso, no final das contas, me deixa satisfeito com o meu histórico de criação geral.

Isso me fez lembrar de uma analogia com algo que descrevi em outro texto, sobre as curvas nas estradas serem projetadas para quebrar a monotonia gerada pela constância da linha reta, pois obriga o motorista a fazer movimentos diferentes de um lado pra outro e controlar outros aspectos da direção com mais atenção. Na vida, penso que seja semelhante. Quando nos colocamos muito tempo em uma certa atividade, é preciso tirar férias ou buscar um momento de lazer. Isso nada mais é que mudar o foco para outra coisa da qual precisamos ou gostamos de fazer. Até mesmo pela Psicologia e Filosofia, fala-se que o ser humano se motiva pelos desafios e novidades e que quando se cai na mesmice, a mente parece perder a concentração ou disposição.

Inúmeras vezes me vi buscando solução pra um projeto e quando não vinha com facilidade, arrastava horas em vão até a desistência. Mas, com uma noite de sono ou uma mudança no período de criação, a solução brotava como mágica. Este seria o cenário ideal pra quem lida com criação, embora saibamos que nem sempre teremos essa liberdade, se tivermos que cumprir a tarefa por trabalho. Nas minhas atividades profissionais, sempre ocorria de agendar uma data com algum cliente e, quando estava próximo do dia, ficava torcendo pra que o cliente ligasse desistindo ou reagendando. Um disparate aos olhos de alguns, mas pra mim era a coisa mais sensata. Isso porque, fora das condições ideais, ninguém ali teria o melhor resultado para o dia. Muito melhor do que cumprir datas é satisfazer o cliente e a nós mesmos. Deixar uma marca positiva envolve não só o resultado do trabalho, mas também o modo como estamos durante o processo para atender as pessoas e compartilhar um bom semblante e uma impressão positiva sobre quem somos e o que fazemos. E, se pararmos pra pensar, isso vale pra todas as áreas da vida, independente se é trabalho ou relacionamento pessoal.

Tenho visitado muito conteúdo pela internet e a proporção de conteúdo ruim encontrada, obviamente, supera facilmente as coisas úteis. Torna-se raro encontrar um texto harmonioso, um assunto incomum, um humor criativo, uma foto que não seja mais do mesmo, uma arte que se possa chamar de ‘autoral’ de verdade, etc. Há vezes em que fico com a impressão de que estou diante de uma falha nos sites, tamanha é a quantidade de coisas que se repetem em tempo real. Pude ver um exemplo triste disso ao montar meu espaço no Pinterest. Visitando o feed para encontrar fotos de determinados temas, vi inúmeros usuários que dispunham de cópias de uma mesma imagem, mas alimentando o site como se aquilo fosse uma inserção nova. Uma coisa é usar o recurso da plataforma pra agrupar e organizar as imagens encontradas numa apresentação simbólica das referências em um álbum (pois é esse o propósito do site) e outra, completamente diferente, é absorver conteúdo do próprio site para recolocar ao ar um novo arquivo mas com o mesmo conteúdo. E quando não são as tais cópias, são imagens com muita semelhança, nas cores, na ideia, no ângulo, na luz, no estilo, etc.

O resumo: o mundo não está criando, só está reproduzindo. Isso é o que acontece quando as pessoas não estão inspiradas a fazer, mas precisam, a todo momento, preencher lacunas imaginárias na internet ou na vida. É a compulsão por criar, sem criar. Vejo isso de forma mais evidente no Youtube, por conta dessa nova tendência de mídia e de trabalho. Por lá, na esperança de atingirem cada vez mais tempo de visualização e dinheiro, as pessoas estão vivendo para a internet full time. Esse excesso de produção de “conteúdo” tem gerado uma tonelada de tráfego de dados desnecessários. Em algum tempo os servidores dessas plataformas serão um cemitério bizarro dos efeitos da compulsão humana em gerar. Do outro lado da moeda, as coisas úteis estão sob risco. Recentemente assisti a notícia de que fanáticos “religiosos” estavam destruindo peças históricas de Nimrud, a antiga cidade síria. Monumentos de valor incalculável viraram pó diante de explosivos e marretas. Enquanto nada se cria de útil, destrói-se o que já foi criado. Nesse ritmo o mundo será um imenso vazio, dentro e fora das cabeças humanas. Estamos cavando nossa própria extinção, como se soubéssemos, consciente ou inconscientemente, que não somos dignos de estar aqui.

Essas situações tristes da vida nos ensina algo que corrobora com o tema inicial desse texto. Mostra que forçar-se a preencher lacunas apenas para crescer infinitamente é o exato caso das células cancerígenas. Sem propósito e sem utilidade, tomam o corpo até a morte. Por essa razão, diante de momentos pouco interessantes, eu faço pausas com o maior orgulho. Paro de escrever, de pintar, de ler ou até de socializar. Volto quando tenho algo relevante pra dividir, algo proveitoso pra mim e pros outros, que seja fruto de uma sincera vontade de expressar, com disposição, com capacidade, com qualidade, com sentido, etc. Na ausência de uma expressão útil em algum momento na vida, um hiato vale ouro.

Rodrigo Meyer

Porque atalhos são mais demorados?

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2006 das Pirâmides de Gizé, no Egito, de autoria de Ricardo Liberato.

Observando a sociedade, vemos muita gente a espera de vantagens. Elas querem, de alguma forma, um benefício que as impulsione além. Porém, quando se tornam tão obcecadas por isso, acabam ficando cegas e não discernem bem as ferramentas disponíveis e a eficiência de cada uma. Por vezes querem tudo pra ontem e brilham os olhos de entusiasmo quando veem um atalho pra supostamente conseguir o que se quer. Eis que são fisgadas pela falta de prudência.

Eu sempre costumo repetir que ‘se atalho fosse bom, já seria o caminho principal”. Se existe um trecho a ser percorrido e é possível escolher um trajeto que leve menos tempo do que o trajeto anterior, há de se pensar porque este trajeto é secundário e não o principal. Se as pessoas não usam o menor caminho como principal caminho, é porque há desvantagens no menor caminho. Por algum motivo, o caminho principal se tornou principal pois era o mais estável. Fazendo uma analogia, algumas jornadas de avião requerem uma parada em determinados países e/ou aeroportos específicos como parte da viagem total. Já imaginou se uma viagem que normalmente leva 12 horas, fosse feita em 7 horas, mudando a rota pra uma linha reta de ponto a ponto, sem paradas? Você consegue imaginar as desvantagens e riscos de se fazer uma alteração desse tipo? Pois bem, quem planeja as escalas de voos imagina.

Outro exemplo bem conhecido são as estradas que passam por montanhas. Ao subir ou descer a serra de carro, frequentemente se passa por curvas, algumas bem fechadas. Porque razão a estrada não é uma linha reta do ponto A para o ponto B? Existem alguns motivos. Um deles, talvez menos conhecido, é a estratégia de prevenção de acidentes, impedindo que o motorista passe muito tempo dirigindo em linha reta, pois isso o acomoda na monotonia e pode ser um risco de acidente bem maior do que obrigá-lo a lidar repetidas vezes com curvas e mudanças de direções. O outro motivo disso, é, claro, que para subir a serra, ângulos menos íngremes são mais fáceis de serem superados pelo carro. Você não verá ninguém brincar de alpinista pilotando um carro, a menos que seja um show de façanhas mortais. E para que se suba gradualmente uma montanha, o vai e vem das curvas conecta a estrada em cada gradação de elevação.

De maneira simplista, tendemos a acreditar que o caminho mais curto é melhor, mas na verdade, a menor distância e tempo não significam melhor caminho e, na verdade, quase sempre não são de fato mais rápidos. Imagine um carro tentando subir a montanha em linha reta. Certamente ele passará tanto tempo tentando sair do chão que seria o último a chegar no destino, se é que conseguiria chegar. E essa é a analogia que deve se carregar pra outras situações da vida.

Tudo que parece muito fácil ou cheio de benefícios adicionais, requer uma atenção sobre como isto será disponibilizado. Há algum tempo atrás lia com sorriso no rosto a notícia de que haviam conseguido o feito do teletransporte. Sim, sob um laboratório, conseguiram transferir madeira de um local ao outro, porém, o processo utilizado não reagrupou decentemente a madeira no destino final, deixando sua composição toda bagunçada, apesar de ter sido um sucesso o teletransporte em si. Esse é um exemplo de como tentar encurtar distâncias por atalhos tem problemas atrelados. Quando finalmente conseguirem executar um teletransporte com segurança, provavelmente este atalho se tornará o caminho principal. Se hoje, pegamos ônibus, trens e aviões para ir de um canto ao outro, talvez no futuro, faça mais sentido usar o teletransporte. Mas enquanto ele não for estável, não será o caminho principal escolhido pelas pessoas e, enquanto for mero atalho, não será tão bom ou útil quanto um caminho principal.

Saindo um pouco desses exemplos com distâncias e transportes, imagine setores da vida onde as pessoas tendem a desejar atalhos. Elas querem, por exemplo, enriquecer mais rapidamente do que apenas esperar que o trabalho ao longo dos anos traga algum retorno financeiro. Elas querem ter um relacionamento sem ter a premissa das fases de envolvimento com as pessoas, do conhecimento, da amizade, etc. Tudo isso só ressalta o despreparo e a ingenuidade dessas pessoas. A ansiedade em ter mais em menos tempo, faz as pessoas atropelarem a ética, a segurança ou outros valores que vão impactar na hora do processo ou desfecho. É o caso, por exemplo, quando as pessoas querem descartar o aprendizado pra ir direto para prática. Vejo muita gente entrar pra uma profissão da noite pro dia, sem estudar o necessário. Caem de paraquedas, desejando que a compra de um simples equipamento ou crachá, lhes farão profissionais habilitados. Com alguma sorte, as pessoas se apercebem da perda de tempo que isso representa. Terão, em algum momento, que voltar ao zero pras estudar o que não estudaram e, certamente, gastando mais tempo e mais dinheiro pra retificar a imagem negativa, os tropeços profissionais por conta do desconhecimento do que se faz, e assim por diante.

Inúmeros são os motivos pra não se buscar atalhos. Ignorar isso não vai te fazer chegar na frente. Embora o empirismo deva ser incentivado, ele nunca pode ser exercido com negligência. Uma coisa é você se colocar a fazer algo novo e experimentar as condições, o processo, os resultados e aprender sobre qual a melhor forma de se fazer ou não tal coisa. Outra, completamente diferente, é se colocar a fazer, buscando especificamente por redução de tempo, de impacto ou de custo. Você pode embrulhar uma pintura à óleo com a tinta ainda fresca, mas certamente vai borrar toda tinta em contato com a embalagem e gastará muito mais tempo pra refazer. Se não tiver disposição pra esperar a tinta secar, terá que aprender algum processo seguro que seque essa pintura em menos tempo. Nesse processo, talvez você descubra que deixar a tela próxima de uma fogueira ajuda a secar mais rápido, porém pode, eventualmente, descobrir que o calor intenso do fogo destrói os pigmentos da tinta ou causa rachaduras nas pinceladas. São essas pequenas possíveis reflexões que devem se fazer antes de promover um atalho a caminho principal.

Durante o avanço da sociedade, muita coisa mudou de processo e pudemos visualizar melhorias significativas na qualidade de vida das pessoas. Mas, em paralelo a isso, sempre se buscou refinar esses processos a fim de se garantir segurança e consistência nos resultados. Pra se viver de maneira inteligente, é preciso respeitar o tempo e o processo das coisas, especialmente no que diz respeito a saúde física e relacionamentos. Tudo que o ser humano deseja ser, ter ou fazer, precisa passar por um filtro simples de reflexão sobre motivos, resultados esperados e resultados obtidos. Assim que paramos de desejar o impossível, paramos de bater a cara no muro. Isso serve não só pra para proteger a nós mesmos de nossa ansiedade e descontrole, mas aos demais ao nosso redor que terão que lidar com o modo como vivemos em sociedade. Quando as pessoas se tornam mais realistas sobre o que desejam e fazem, o mundo se torna mais agradável de se viver, mais estável, mais tranquilo e mais seguro. A partir dessa base sólida é que se constrói a novidade, o futuro.

Vale citar até mesmo países que conquistaram avanços sociais únicos, simplesmente por nunca darem o passo maior que a perna e fortaleceram suas bases ao longo da história antes de desejarem ser o que hoje finalmente são. Assim como uma pirâmide, o maior tempo e esforço é no planejamento da estrutura e na construção da enorme base. É com essa visão que se chega ao cume das possibilidades, das invenções, dos progressos no estudo, etc.

Isso não significa, porém, que você deva se tornar desestimulado a progredir ou a ir além. É exatamente o inverso. É, exatamente, por deixar de buscar atalhos que evitará de andar em círculo ou de cair. Economizar tempo na vida é exatamente percorrer o caminho certo desde o início, pra não ter que refazer o percurso. Invista em você e respeite o valor de sua pessoa e do seu tempo. Nunca se sabote escolhendo opções tentadoras que, no final da contas, são só ilusões e prejuízos. Há uma frase que diz “Se algo está muito fácil, você está fazendo errado.”. Fica a reflexão.

Rodrigo Meyer

Pessoas que observam vivem melhor.

Na maioria das vezes, a realidade que nos cerca não é facilmente vista ou compreendida. Estamos cercados de pessoas e situações, mas tudo isso pode ser tão complexo que passamos desapercebidos com cada detalhe. Ao olharmos uma pessoa, por exemplo, não sabemos muita informação sobre ela e, portanto, não sabemos como ela pode vir a ser em uma interação conosco. Com tudo na vida é assim. Por isso, é importante observar. Quem não gosta ou não tem o hábito de observar, já está em desvantagem.

Imagine, por exemplo, que você precisa resolver um problema elétrico na sua casa. Uma pessoa que não observa o cenário completo e os detalhes, pode não notar um fio desencapado, um chão molhado ou um piso escorregadio. A pessoa pode não se aperceber que as ferramentas que ela precisa não estão mais onde costumavam estar e assim por diante. Não ter a observação em todas essas coisas fará a pessoa correr alguns riscos de eletrocussão, eventualmente, por conta do contato com a água e a eletricidade. Talvez ela perca tempo na sua tarefa por não perceber que as ferramentas não estão tão acessíveis como acreditava estar e, portanto, precisar ir procurar.

Saindo um pouco dessa analogia, vamos entender situações práticas da vida. É observando as pessoas e as situações que podemos nos antecipar a elas e decidir quais as melhores ações ou reações diante daquilo, sem sermos surpreendidos. Essa antecipação permite viver com mais tranquilidade sobre cada evento, cada momento. Se uma pessoa está tentando te enganar, por exemplo, mas você foi observador o suficiente pra notar isso antes de receber um golpe, você sai em vantagem sobre essa pessoa. A pessoa vai gastar tempo e energia tentando te enganar e não conseguirá. Você economiza sua energia, ganha experiência, sabedoria e ainda se livra de uma pessoa enganadora sem nem precisar ter prejuízos.

Observar também te ajuda, por exemplo, a perceber o que as pessoas falam e pensam, mesmo antes de elas te conhecerem. Durante uma conversa na internet ou mesmo antes de qualquer interação, você pode simplesmente ficar paralelo a isso e observar o que é que essa pessoa já disse, já fez, já expressou, já demonstrou apoio ou rejeição. Entender a pessoa por meio da observação é fácil como ligar os pontos. Você monta uma espécie de mapa da situação dessa pessoa, de sua personalidade, sua ideologia, seu pensamento, sua conduta e seus hábitos e, assim, pode definir como lidar com essa pessoa quando, eventualmente, houver uma interação. Se você vê, antecipadamente, situações ruins pela frente, pode partir pra outros rumos da conversa ou simplesmente encurtar esse contato, dando vez pra algo mais favorável.

Como você notou, observar o mundo e as pessoas, te economiza tempo e antecipa problemas sem que você tenha que passar por eles. E, com certeza, essa é uma das melhores vantagens pra quem busca viver melhor. Mas a observação não serve só para antecipar realidades. Ela serve também para rever realidades das quais já estão repercutindo em você, mas que você não havia prestado atenção antes. Então, se você, por exemplo, está em um trabalho em grupo e decide observar esse cenário, você pode, por exemplo, descobrir se as pessoas estão sendo honestas com você, se estão tendo alguma repetição de conduta indesejável ou até mesmo se estão desvirtuando do objetivo do grupo. Em resumo, observar nunca será demasiado. Siga sua vida observando até desbotar os olhos.

Eu, como curioso nato desde criança, observava tudo e todos. Podia passar horas e horas fixo em um lugar, notando a movimentação dos carros, o andar das pessoas, as conversas, o que estavam lendo, assistindo, etc. Observava os trejeitos e manias, os bastidores quase invisíveis das interações sociais entre alunos, professores, membros de família, funcionários de comércios, etc. Para algumas pessoas isso tudo poderia ser maçante ou sem graça, mas pra quem está extraindo vantagens nisso tudo, essa prática é pura satisfação.

Diversas vezes eu fui para lugares estritamente para contemplar, absorver conteúdos, realidades, informações novas, personalidades ou qualquer situação isolada que pudesse agregar experiência de vida pra mim. Pegar um copo de bebida e me acomodar em um canto, me permite relaxar ao mesmo tempo em que alimento minha mente. Ao invés do cansaço de ter que lidar com as situações de interação forçada, fico como se estivesse em segundo plano, quase como se não estivesse ali, sem chamar atenção.

Muito disso fez de mim um artista também. Poder escrever, fotografar, desenhar, pintar, criar música ou qualquer outra atividade de criação e expressão, advém dessa capacidade de observar o mundo. Tudo que faço vem de algum lugar. Embora seja convertido para a criação dentro da minha cabeça, antes disso, houve uma alimentação da mente com muita observação do mundo. A realidade está e sempre estará presente para quem está inserido nela de uma ou outra maneira. O que fazemos disso define o que podemos ou não aprender disso. E sua vida fica imensamente mais fácil quando você não ignora a realidade. Claro que você não precisa estar ansioso e compulsivo por esmiuçar cada mínimo detalhe de tudo. Por vezes, o simples direcionamento da atenção pra algo ou alguém já te permite ver informações suficientes para uma tomada de decisão ou aprendizado, mesmo que não se aprofunde. E, no final das contas, a observação precisa ser algo que lhe dá satisfação tanto no processo em si, quando pelo benefício dos resultados.

Adquire-se maior prazer pela observação quando se nota o quanto sua vida melhora substancialmente com essa prática. Algo simples, que não requer grande esforço e que te faz crescer em vários sentidos e setores. Só o fato de você saber que está precavido ou melhor posicionado, já te deixa mais motivado e tranquilo. Essa condição mental repercute até mesmo no corpo físico e você termina por ser uma pessoa mais saudável que antes. Estar preparado para o que está por vir e saber bem como as coisas funcionam, te elimina a ansiedade, pois elimina a surpresa e a dúvida. Além disso, se você pode se antecipar a um problema, você evita situações de estresse que eventualmente possam ser evitadas. Só consigo elencar vantagens. Se alguém deseja viver melhor do que antes, não pode faltar na checklist o item ‘ser um observador’.

Rodrigo Meyer

No final das contas o que vale é ser feliz.

Depois que você vive 35 anos, tendo passado por alguns relacionamentos, muitos choques com a sórdida realidade, muitas decepções, conflitos, desgastes físicos e mentais, você acaba ponderando qual é o desfecho de tudo isso e como deveria ser o estilo de vida e pensamento. Vou dividir com vocês um pouco da minha caminhada.

Quando eu era criança, estava tão concentrado em minhas próprias realidades, que pouco ou nada queria me envolver com as obrigações ou pressões da família, escola ou sociedade. Eu simplesmente tinha, desde muito cedo, uma personalidade firme. Sempre muito decidido, defendia meu ponto-de-vista e minhas prioridades de maneira bem ‘teimosa’, por assim dizer. Me incomodava com as pessoas mentindo, debochando ou maldizendo.

Vivi em casas com perturbações paranormais e isso me abriu a percepção de mais incômodos. Insatisfeito com a família, com o sistema de ensino nas escolas e os próprios ambientes, fui me tornando cada vez mais fechado e desesperançoso pelas pessoas ao meu redor. Não compreendia os motivos das pessoas, resumindo tudo a estupidez. Contudo, como tinha muito tempo reservado em meu próprio mundo, me dei o benefício de refletir muito mais sobre as coisas. Gostava de cutucar assuntos além do que eram apresentados. Não me satisfazia em ler uma revista ou ver uma foto. Eu queria questionar, abrir detalhes, novas possibilidades, ir além. Talvez tenha sido esse ímpeto de busca que me fez não me conformar nunca com o pensamento raso.

Na adolescência, cursando artes e visitando algumas amizades recém-formadas tentava observar o que ninguém mais se interessava de ver ou pensar. Eu era um curioso nato. Desmontava computadores pra entender como funcionavam por dentro. Esmiuçava os sistemas, os livros, as fotografias, as paisagens, os retratos vivos das pessoas e da sociedade. Eu era, de fato, um observador. Aprendi muita coisa refletindo sobre o que surgia perto de mim. Mas, conhecimento ou reflexão trazem junto um problema. Quando você se apercebe da realidade que o cerca, você se torna decepcionado, infeliz, insatisfeito e inconformado. Mesmo na infância já tinha depressão. A adolescência foi uma fase grave, pois a medida em que ganhava alguma autonomia e mudava meus interesses e atividades, ficava cada vez mais distante da família. Esse contexto todo contribuiu pra que eu acreditasse que perpetuaria minha depressão e que, provavelmente, morreria jovem.

Algumas lembranças são demasiado tristes pra contar, mas fui uma pessoa com muitos impulsos suicidas, especialmente quando me vi esgotado e sem saída. Aos 14 anos tentei alguma oportunidade de morar em outro lugar. Queria independência, queria vida, queria me reconstruir. Não aguentava o ambiente, a vida, as pessoas. Estava claro pra minha mãe que estávamos chegando ao fim. Ela, cansada pelos motivos delas, em uma família que mais parecia um hospício, se enveredou pelo trabalho doméstico e a rotina de acordar cedo. Enquanto isso, eu, noturno desde nascença, madrugava a ponto de cruzar com ela nas escadarias de casa quando ela acordava pro café.

Aos poucos fui me desligando de tudo e de todos. Já não tinha pra onde erguer a mão. A vida se tornou uma mistura de 18 horas de sono, internet precária e a possibilidade de encontrar uma ou outra pessoa que me salvasse de tudo aquilo. Não esperava paraísos. Apenas queria dividir meu tempo com outras pessoas, longe dali, mesmo que fosse pra passar algumas horas em algum bar ou apartamento, bebendo para rir e esquecer. Quando conseguia algum dinheiro, gostava de ir ao centro da cidade explorar alguns sebos. Mesmo que não pudesse comprar tudo que queria, ficava empolgado em descobrir algumas preciosidades.

Entre livros, bebidas, artes e algumas tentativas falhas de aturar a escola, eu me via bem mais interessado no que não tinha. Estava sempre disposto a buscar novidades pra minha rotina. Era o maior inimigo do tédio e aceitava qualquer coisa pra me satisfazer um pouco. Uma companhia incompleta, um quase abraço, um prato repetido de comida, muito refrigerante e, sempre que possível, alguma bebida alcoólica. O tempo foi passando, passando e eu não via nenhuma boa perspectiva. Sinceramente eu romantizava a morte precoce como uma boa solução pra meu histórico desagradável de vida. Não me arrependia de mim, nem do que fiz, mas de ter que dividir o mesmo tempo e mundo com as pessoas em geral. Eram tão poucas pessoas interessantes e raramente algo que pudesse ser algo mais, que eu simplesmente investi em um estilo de vida marcado por essa melancolia, essa vida noturna, esse modo escasso de cruzar com uma ou outra pessoa no ano, sem fazer planos, sem ter nenhuma sensação de que meus dias seriam melhores, mesmo que só um pouco.

Isso começou a mudar um pouco quando conheci alguém que mudaria substancialmente minha vida na época. Além de professora, acabou por ser a pessoa a quem eu manteria uma espécie de casamento. Nos dávamos muito bem, ela era muito divertida, ríamos sem parar e nunca perdíamos nenhuma situação pra fazer uma piada. Eu não saberia dizer se sem a depressão eu ainda seria uma pessoa feliz. Mas sei que, pelos períodos onde me relacionei, foi quando finalmente pude me recompor em todos os setores da vida. Sem a depressão, me via trabalhando, estudando idiomas, socializando mais (ao meu jeito), tendo melhores expectativas para o futuro. O sentimento realmente era de grande felicidade, mas eu não sabia que não perduraria. Com a chegada inesperada da separação, tudo se desligou da noite pro dia. Não fazia sentido manter nada mais. Eu não tinha mais o que me fazia brilhar os olhos e a vida tinha me dado outra decepção mal compreendida.

Depois de tentar entender por longos três anos, era morrer de vez ou tentar renascer. Desde a época do casamento, havia investido no curso de Fotografia e nos meus primeiros equipamentos. Passaria meu tempo livre procurando clientes, amigos e modelos profissionais com os quais eu pudesse distrair a cabeça, mudar o foco da minha mente e tentar levar, finalmente, minha própria vida totalmente independente. Fotografei por uns 17 anos e sigo ativo, embora agora esteja estrategicamente mais parado na Fotografia, dando espaço pra outras áreas de atuação. Não foram anos muito gratos e eu tenho certeza que recaí em depressão, dessa vez, mais vivido, bebendo muito mais, sem nenhuma referência digna de limites. Praticamente fotografava, bebia e dormia, enquanto seguia o curso da Faculdade. Um desastre pra saúde, pra mente e provavelmente pro espírito. Simplesmente não posso dizer que foi realmente bom tudo isso, mas foi o que era bom de se fazer na época, naquela condição.

Destes momentos tristes e sofridos eu ainda carrego memórias e até gosto de pensar nas coisas que vivenciei por conta desse histórico de vida. Sei que teria sido muito melhor ter evitado diversas pessoas e ter diminuído o impacto da bebida e da comida, mas essas coisas não se escolhem quando você está fora de qualquer eixo, mesmo que imaginário. Eu simplesmente sobrevivia e tentava dar algum passo novo que pudesse ser a mágica saída. A verdade é que nunca dei totalmente esse salto, apesar de reconhecer que tive um ano muito bom lá por 2014, por exemplo. Eu praticamente me acostumei tanto com a depressão que isso moldou (ou deturpou) a minha personalidade. Me ver feliz, foi como estar em contato com um estranho. Não sabia como agir, não sabia quem eu era ou como deveria ser. Simplesmente embarquei na onda, aproveitei o entusiasmo e criei de tudo um pouco. Voltei a escrever em diversas mídias, dei um novo rumo pra minha Fotografia e me coloquei a vasculhar, novamente, tudo aquilo que eu realmente sempre quis ser mas nunca havia conseguido. Voltei a desenhar, a sonhar, a abrir portas pra novos contatos, novas parcerias. Devido ao último curso de Faculdade, atuo no momento como Designer Gráfico. Faço disso um pretexto pra ficar motivado, sempre em busca de novidades, reinventando mídias, reforçando o potencial do meu presente e tentando enterrar meu passado.

Estou passando por uma fase diferente atualmente. Não posso dizer que eu esteja em depressão, mas também não estou tendo o melhor dos meus dias, pois o país afundou de tal maneira que estou precisando, constantemente, repensar minhas opções. Carrego comigo muitas cicatrizes, muitas memórias incômodas, mas cada vez que estou criando, minha cabeça muda completamente de lugar e eu me vejo satisfeito em poder simplesmente me expressar. Era pra ter nascido outro livro este ano, mas imprevistos acontecem e acredito que a única hora de escrever é quando tudo favorece. Eu não me cobro de colocar uma frase sequer no ar, se não sentir que estou no momento propício de fazer. Deixar de lado o imediatismo e a impulsividade deveria ser receita pra todo mundo, seja lá em que atividade for. Estou tranquilo, apesar da vida incerta e de não ter ninguém ao redor com quem contar.

Felicidade todos desejam, mas não basta querer pra conseguir. Faz bem pouco tempo que eu consegui absorver a ideia e consequente transformação de que nada mais importa, pois o que vale mesmo é ser feliz. Uma vida triste, cheia de amarguras e conflitos nunca abriria as portas que eu realmente precisava, mas achava que não queria. Me desviei tantas vezes do caminho da tranquilidade e hoje, finalmente, estou de volta ao meu novo eu. Por perto fica quem soma, pessoas vivas, intensas, que não se sujeitam a ser mornas. Fica pelo caminho cada vez mais sabedoria, mudança de hábitos, flexibilidade extra pra lidar com as pequenas idiotices do dia-a-dia e rir, rir demais. Sempre que posso me acabo na risada. Tempo ruim não me leva pra onde eu quero ir. Acordo quando quero ou preciso, faço o que faço e sinto muito orgulho de tudo isso. Tenho buscado outras maneiras de reencontrar com aquela lendária amiga Felicidade. Sumiu por tantos anos da minha vida, que eu já tinha dado ela por utopia.

Não estarei feliz o tempo todo, mas certamente terminarei meus dias com uma média bem positiva. As coisas ruins eu rapidamente esqueço, porque não vai ser eu quem vai carregar um câncer, uma gastrite ou qualquer outra somatização. Comigo, quero boas conversas, pessoas que me façam pensar, que me façam rir além da conta e que eu possa dividir viagens, uma cerveja artesanal, um vinho ou um momento de arte. Eu não estou em busca de mil alucinações, como muitos passam a vida perseguindo em vão. Eu estou satisfeito de ter feito uma interessante história, provavelmente com o desfecho mais inesperado de todos, pra alegria de uns e pra grande surpresa de outros. E você? O que me traz de positivo por hoje?

Rodrigo Meyer

Idade e Maturidade.

Dizem que, por conta de nossa sociedade machista, garotas estão mais sujeitas a desenvolver, mais precocemente, uma certa responsabilidade em relação aos garotos. Claro que essas coisas são diferentes da maturidade em si, e é partindo dessa separação que pretendo iniciar o tema. Primeiramente, isso que a sociedade impõem a maioria das garotas, a partir dos lares, acaba por forçar essas pessoas a “crescerem” em certo sentido, por adquirirem responsabilidades das quais nem sempre estão preparadas ou não são as pessoas a quem deveriam impor tais coisas. Cuidar de irmãos menores, aprender a cozinhar, limpar a casa ou  resolver problemas paralelos enquanto os garotos são apontados como isentos dessas funções, são algumas das coisas que me vem na memória.

Praticamente em todas as famílias que eu conheci a responsabilidade dos afazeres domésticos estavam restritos a mulheres, crianças ou adultas. Já para o homem adulto, frequentemente sobrava o papel de “chefe de família”, isenção de afazeres domésticos e um certo acobertamento da isenção dos garotos. É fácil ver que existe um incentivo forçoso pra que as garotas cresçam sobrecarregadas com essas premissas machistas na sociedade e adquiram, consequentemente, um certo domínio e responsabilidade pra certas questões. Contudo, essa suposta emancipação feminina tão precocemente, não configura maturidade em si. São coisas distintas. A maturidade é o desenvolvimento psicológico e mental aliados para trazer a pessoa, autonomia suficiente pra gerir a visão de mundo e sua presença no mundo. É também maturidade a estabilidade diante da própria condição, o discernimento de certo e errado ou da superação de posturas tidas como ‘infantis’, por exemplo.

Fala-se que as gerações estão amadurecendo cada vez mais cedo. Essa afirmação pode ser uma falácia. É preciso analisar. Embora eu não tenha dados concretos sobre tal afirmação, tenho ressalvas em aceitar isso, pois, pelo que observo, a sociedade em geral, em média, parece estar cada vez mais imatura, apesar da passagem de idade. Mesmo que não fosse esse o caso observado, é sempre importante destacar que aumento de idade não é pressuposto pra chegada da maturidade. Há muitas e muitas pessoas que seguem a vida adulta e envelhecem sem nunca terem amadurecido. O que mais se aponta como crítica social é o que se chama de ‘adultos-crianças’, ou seja, pessoas em idade adulta, mas que ainda são imaturos como crianças.

Para o contexto da nossa sociedade brasileira, e pra muitos lugares do mundo, a idade considerada como final da infância gira em torno dos 10 ou 12 anos, mudando para pré-adolescência e adolescência, a partir disso, chegando, por fim, na fase adulta, tida como 18 a 21 anos. Essas não são apenas convenções sociais aleatórias. Tais faixas etárias definem mudanças de fases bem claras de comportamento e de desenvolvimento humano. Em cada uma dessas fases, cada indivíduo médio vai adquirindo certas capacidades novas, formando seu caráter, sua personalidade e sua autonomia. Parte do que se considera amadurecer é obtido exatamente com essas transições que se dá ao longo das fases. É, portanto, improvável ou até equivocado pensar que uma pessoa fora dessas faixas etárias tenham a mesma maturidade que um adulto. Mas aí entra um trunfo interessante. Nossa sociedade, em grande parte, é cercada de adultos imaturos. Se comparássemos estes adultos com algumas crianças que se desenvolveram bem, provavelmente veremos elas se superarem em maturidade.

Pessoalmente eu pude conhecer pessoas de muitas idades e condições. Gostava de observar bebês, crianças, adolescentes, adultos, idosos. Vi pessoas com deficiências intelectuais, outras de intelecto considerável, outras, pessoas de baixa escolaridade, alta escolaridade, pobres, ricos, inteligentes, todo tipo de profissão, diversos modelos de família e educação e assim por diante. Mesmo com toda essa diversidade, na grande maioria as pessoas tendiam para a média triste de imaturidade, apesar da variação de grau em relação ao contexto e a condição paralela da pessoa, claro. Vi pessoas que apesar da conclusão do estudo, do início das relações sexuais, da conquista de trabalho e até mesmo da busca por casa própria, planos e afins, mostravam-se ainda pessoas imaturas. A responsabilidade e o início das atividades sociais, não tiverem nenhum impacto na maturidade em si. Claro que se tornaram, eventualmente, pessoas com certa habilidade em gerir suas vidas, mas, para muitos dos assuntos mais importantes, fora do escopo de conquistas materiais, pareciam tão perdidas como uma criança, com o agravante de se sentirem aptas por completo, por conta da idade e das vontades novas de interação social, como as amizades, relações sexuais, viagens, namoros, festas, adesão a álcool e drogas e tantas outras coisas.

Acredito que um dos grandes erros da formação cultural de nossa sociedade, em especial no Brasil, que é por onde posso falar com mais propriedade, é a interpretação de que certas coisas são exclusividades de adultos e proibidas a menores de idade. Isso tem um fundo de verdade, mas perde a medida quando pessoas já adultas ainda são imaturas pra decidir sobre estas tais questões reservadas para a “vida adulta”. Igualmente vejo pessoas mais jovens serem emancipadas antes da idade convencional, afinal, sim, pessoas podem, eventualmente, se desenvolverem mais rápido que outras. Os modelos pra isso ocorrer ainda são obscuros. Não se pode dizer, por exemplo, que atribuir responsabilidades adultas a uma criança, a fará acelerar rumo ao amadurecimento. Da mesma forma, a atribuição de contextos infantis para adultos maduros não os regride para a imaturidade. Talvez o que diferencie algumas pessoas de outras, ao final das contas, seja só uma lapidação pessoal e interior, uma tendência natural a cruzar certas fases um pouco antes da média esperada, teoricamente, pra cada faixa etária.

Tudo fica ainda mais confuso de definir, quando sabemos que a fase adulta não parece estabelecer um marco suficiente na maturidade de muita gente, o que nos faz crer que, além de questões naturais de cada indivíduo, deve haver, sim, alguma questão social, educacional ou cultural que interferem nesse ritmo ou nos caminhos percorridos, nas prioridades, nos valores, etc. E pensando bem, é o que mais faz sentido ao meu ver. Se as pessoas conseguem olhar pras condições próprias e o contexto do ambiente, das outras pessoas e das situações, elas conseguem extrair alguma reflexão, algum aprendizado e alguma mudança diante disso tudo. Acredito que crescemos a partir de nossa própria base, embora todo o contexto ao redor seja um incentivador ou molde que nos servem de parâmetro e delimitador de nossos potenciais. Parece que as pessoas com imaturidade se perdem num jogo social ilusório de falsas prioridades e valores e acabam se pautando no que é médio e frequente. Ao verem mais pessoas imaturas, aprendem a replicar o comportamento daqueles a quem leem como referências sociais ou grupais. Algumas vezes as pessoas são influenciadas, inclusive desde a infância, a apontarem líderes, ídolos e outros representantes aos quais elas atribuem valor e significado, por mais deturpadas ou impróprias que sejam aos olhos de uma pessoa mais madura.

Não é atoa que, por exemplo, algumas celebridades e subcelebridades do campo dos esportes, da política, do entretenimento ou de qualquer outra grande área de maior visibilidade estão cercadas por um público composto, em sua maioria, de adultos imaturos ou de crianças e adolescentes. É como se os ícones de exemplo na sociedade fossem escolhidos pela semelhança e/ou pela limitação em discernir melhor os valores e características indesejadas em uma pessoa. E isso, potencialmente, influencia massas, num efeito bola-de-neve, pois há o sentimento de pertença que faz com que pessoas de mente mais fraca tenham a tendência de aderir a coletivos já estabelecidos. Se uma sociedade forma quase sempre grupos imaturos, é isso que se espalha feito epidemia pelo mundo como parâmetro pra mais e mais pessoas. Com base nisso, eu penso que talvez estejamos fadados a uma imaturidade generalizada e crescente, com bem poucas exceções aptas a frear essa catástrofe.

Você pode achar utópico, mas uma criança adulta (ou um adulto imaturo, se preferir), conseguiu, ao mesmo tempo, ser eleito pro cargo de Presidente dos Estados Unidos e ter a prática patética e infantil de lidar com questões de relações internacionais, chamando o líder da Coreia de ‘gordo’, feito um garotinho do pré-primário tentando ofender outras crianças que, como ele, ainda urinam nas calças. Me conte qual é a perspectiva de futuro pra um mundo onde crianças assumem controle de coisas que não possuem maturidade pra lidar? Fica fácil ver que com eleitores imaturos, os ídolos de maior impacto são outros imaturos também, sejam adultos ou não. E assim, Trump foi colocado em cima de uma cadeira a qual nunca poderia sentar. É vergonhoso e deixa muito ser humano deslocado diante da ideia de que fazem parte do mesmo mundo, da mesma espécie humana. Para aliviar o peso da vergonha, temos sempre que recorrer ao estudo da origem dos problemas. Precisamos entender porque algumas pessoa amadurecem e outras se tornam eternas imaturas. E porque algumas amadurecem mais tardiamente que outras? Foi isso que tentei alavancar neste texto.

Pra finalizar, gostaria de suscitar algumas reflexões paralelas que talvez possam ajudar as pessoas de todas as idades a discernirem seus papéis e valores na vida, assim como o papel e valor da própria vida para elas. Então aqui vão algumas perguntas:

Quem é você? Como você se tornou quem você é hoje? Quem você deseja ser? Porque deseja ser? O quanto esse desejo reflete um impulso inconsciente ou pouco embasado no que é importante e necessário no mundo? Você pensa nas pessoas ou só em si mesmo? Você entende as nuances de um relacionamento humano? O que é a sociedade pra você? De que forma você evitará de ser usado pelas pessoas? Você tem estrutura pra não sucumbir diante da realidade sórdida? Enfim, você realmente sabe quem é você ou só acha que tem uma ideia sobre?

Rodrigo Meyer