Crônica | A Séria Dona Silvéria.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, sendo parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Essa é uma crônica com um certo ritmo de leitura particular que favorece constantes casos de rimas, mas livre o suficiente pra desviar quando for conveniente. Esse texto tenta misturar um componente dramático, uma crítica social às condições da aposentadoria, os padrões sociais de uma geração, temperando com humor e algumas ironias. O texto não se propõem a ser sério ou polido, mas simplesmente diferente e divertido. Os personagens e os eventos são fictícios e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


Lá vai Dona Silvéria, com seus setenta e nove anos, as mesmas olheiras dos últimos quarenta vividos, mas com um pouco mais de pele amorfa ao redor do umbigo. Da última vez que contaram, haviam quase todos os dentes, exceto os que já caíram na fase adulta e os que se seguiram apodrecendo por dentro. Já não se vê prosperidade no bolso de Dona Silvéria. Tem ferida não cicatrizada e gordura entupindo artéria. Ela sabe onde mora, sabe o dia do nascimento, mas não recorda onde guardou o fermento. Dona Silvéria é teimosa, mas esqueceu como é que se teima direito. Deve estar com algum defeito. Se tivesse mais saúde, aí a teimosia subia e vencia. Pelo menos era isso que o marido dizia.

Hoje à tarde, Dona Silvéria podou as plantas, cortou no talo, picou e varreu até as tantas. A terra molhou e escorreu no ralo. Dona Silvéria nem notou e saiu passando mangueira, água e sabão por todo lado. Tinha barro azulado, tinha terra fazendo bolha. Dona Silvéria não enxergava e no fim do dia, pisou numa rolha. Que dor, que angústia, que pobre da Dona Silvéria. Não pode nem mais fazer bagunça, que o acaso lhe depreda. Amanhã tem coisa nova, é dia do lixeiro passar. Novidade assim na semana, Dona Silvéria não perde, marca até na geladeira. Hoje mesmo já coleta o lixo pela metade e deixa o resto pra segunda-feira. Deve ter motivo nessa loucura ou é pretexto pra ficar doente e procurar a cura.

Já são oitenta e cinco potes de vidro alinhados pela cozinha. Diz Dona Silvéria que vai usá-los, qualquer dia, quando menos se espera. As plantas no canteiro passam o dia inteiro esperando a hora da miséria. Eis que chega a tesoura, enferrujada, depenando folha, da verdinha e da amarelada. O chão de cimento no quintal já nem dá pra chamá-lo de tal. De tanta água que choveu por cima, afundou pelos cantos e pelas trincas. Tem água acumulada nas deformidades do terreno. A água empoça e Dona Silvéria não pode fazer nada. Todo dia parece que sai café de lá de dentro. O cheiro promete mais do mesmo: Água suja e pão bolorento. Que delícia, que alegria. Tem geleia pra por por cima.

A janela tá descascada, muito sol, pouco verniz, abre pouco e fecha na marra. A vassoura sustenta o varal, o chinelo segura a porta, enquanto a própria porta segura as paredes esfareladas entre a cozinha e o quintal. A janela parece ter vidro, mas a luz se recusa a passar. Acho que vidro também envelhece. Não é possível que desde sempre, a casa não viu o sol entrar. Dos tijolos caem remendos, massa corrida, limo, terra, teia de aranha e até mosquito. A casa de Dona Silvéria tá um brinco, daqueles que infecciona a orelha e custa cinco. No quarto se escuta madeira rangendo, mesmo que não tenha vento. É o peso da casa, já meio inclinada, com as telhas vermelhas que já são meio cinzas e aquele monte de caixa montada e empilhada.

O guarda-roupa tem um cheiro que não é perfume. Tem um clima tenso de enterro, a madeira pesada, do tempo que se se fazia móvel na base da machadada. A maçaneta do quarto já não importa, porque ninguém abre ou fecha aquela porta. O mesmo se diz das cortinas, com cheiro de mofo e manchas esquisitas. Dona Silvéria, veja esse nome. Dizem que a velha é séria e que a irmã, ainda mais velha, chamava Silvia. O nome dos pais, só ela sabe, mas nunca conta. Enrola todo mundo, devolve perguntas e sai no meio da conversa como se estivesse tonta. Outro dia veio carteiro, com a mesma mala azul de sempre, mas, Dona Silvéria jurava que era diferente. Que mala bonita, ela dizia. E ele concordava calado, pra não perder muito tempo.

Precisa ver o que ela cozinha. A vizinhança até para o que tá fazendo, só pra sentir aquela fumacinha. Ficam preocupados se é incêndio ou algum veneno, porque o cheiro é esquisito e solta muita fumaça. A janela da cozinha faz como sempre: embaça. Se o fogão esquenta demais ou de menos, ela resolve dobrando a comida ou pondo água por cima. Não existe receita que dê errado. Basta comer sem ver, antes que esfrie. A geladeira é pura inovação. Embaixo ela lava e atrás ela seca. Vaza e esquenta, mas pelo menos a cor é bonita: azul piscina, pra combinar com a pia, encardida pelo tempo.

Na sala, o sofá não cabe totalmente. Ele tapa um pouco da passagem, mas, em compensação, não tem a mesa de centro. O quadro na parede é bordado, igual o tapete, pendurado na cadeira, pra não encharcar quando a água da geladeira acumula na cozinha e resolve viajar. Tecnologia de ponta, nessa casa, é a televisão. Você liga em cima, ajusta a antena, gira o botão. Tudo em perfeita sincronia com o tempo em que música se chamava canção. A imagem até que serve. Tem ruído, é desbotada, mas ninguém percebe. Dona Silvéria, pelo menos, nunca reclama. Com tanto que tenha som, ela assiste qualquer programa.

Dona Silvéria quer companhia, mandou a vizinha trazer umas mudas de planta desconhecida, pra ver se cultiva. Outro dia lhe deram uma samambaia e dois tipos de orquídea. Pra ela era tudo mato. Picou tudo e jogou inseticida. Não deu nem pro gasto. A jardinagem de Dona Silvéria é do tempo que derrubava coqueiro no braço. Nunca mais levaram flores. Tentaram colocar uns cactos, mas, Dona Silvéria não se adaptou aos espinhos. Teve que tirar todos com faca de pão, até deixar os malditos pelados. Não tem nada que dure muito na casa dela, além dela.

As roupas quando ficam imprestáveis, ela remenda com outro tecido, só pra não comprar modelo novo. Diz ela que as roupas de hoje em dia não são pra moça séria. Dona Silvéria não gosta muito de inovação, prefere o velho e bom ‘mais do mesmo’ com um toque de sandália no verão. Pra ventilar as unhas e não apertar os ossos, seu calçado é mais confortável do que deveria. Ela se incomoda de ter os dedos do pé à mostra, pois diz que isso é coisa de mulher da vida. Mas não teve escolha. Era isso ou a dor nas juntas. Comprou na cor que combina com qualquer tom: marrom, que é cor de respeito, gente sóbria, nada de tom luminoso, muito menos vermelho. Conferiu até no espelho. Às vezes esquece, sai de casa de pantufa e só percebe quando a sola antiderrapante agarra no asfalto e quase a derruba.

Dona Silvéria jurava que quando estivesse aposentada, sua vida seria mais fácil. Mas, agora, tem tantos problemas e tão pouca energia nas veias. Quando o gato da vizinha chega no seu quintal, ela olha lá fora se não deixou roupa no varal. Ela acha que o gato rouba toalhas, mas na verdade ela é quem recolhe a roupa e acaba esquecendo. Coitado do gato que não ganha nem carinho, mas, pelo menos, também não come aquele pão bolorento. Por sorte é da vizinha, porque se fosse de Dona Silvéria, era capaz de ficar ao relento. Também não tem cachorro nem outro bicho qualquer. Ela prefere o silêncio. O que dizer? Ela pensa que todo bicho é barulhento como seu José.

Dona Silvéria mora na casa 37, de muros baixos, do jeito que construíram no começo da sua vida. Pra época, era o que havia de mais recomendável, talvez até moderno. Hoje, tá meio destoante, mas ainda serve pra morar gente. Dona Silvéria nem conheceu essa tal de internet, que é como a tv, só que diferente. Ela tá preocupada se a tv vai acabar, porque a novela dela ainda não terminou e ainda vai demorar. Depois que alguém explicou, parece que ela ficou tranquila. Ela não quer comprar esse aparelho de internet. Ela já tem televisão e tem tudo que precisa.

Seu Jucélio, marido dela, já morreu há muito tempo. Ela tem uma foto dele, num retrato de casamento. Quando alguém visita ela, ela conversa sobre o tempo, diz que vai passar café e passa o resto do dia esquentando as sobras que ninguém quer. Toda hora é hora de fazer e beber café. Só de manhã são umas três vezes, depois no almoço e na sobremesa. De tarde é hora do lanche, de novo e outra vez, até que chega o horário da janta e tem mais café. É tudo aguado, mas se juntar tudo, deve dar o mesmo resultado do concentrado. Pelo menos não são coados na meia. Dona Silvéria já aderiu ao filtro de papel. Custa mais caro, mas não apodrece porque é descartável e não precisa lavar.

A vida dela é assim. Muito disso, um tanto daquilo, várias manias. Mas, com setenta e nove anos de vida, parece tranquila. Tem gente pior na mesma vila. Dona Vânia, por exemplo, já passa dos oitenta e seis e, quase não levanta da cama. É puro drama. Melhor rir um pouco da Dona Silvéria, meio pobre, meio confusa, mas moça séria. O tom da sandália atesta e o gato da vizinha também concorda. Se Dona Silvéria fosse bem diferente, não rendia essa história, que parece que foi feita de presente.

Rodrigo Meyer – Author

Perdemos o que abandonamos.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2007, de autoria de Majorly, da ruína da prisão de Birkenau / Auschwitz, na Polônia.

Muitas das coisas na vida são baseadas num sistema de reciprocidade. É natural e automático que as pessoas queiram benefícios pra suas vidas, porém quando elas deixam de fazer o necessário em troca, elas acabam percebendo o distanciamento, o insucesso, etc. Um exemplo fácil é quando uma pessoa leva uma vida de pouco uso do cérebro e incorre em uma velhice com sinais de esclerose, demência, Mal de Alzheimer, entre outros. Médicos recomendam que as pessoas levem uma vida intelectual mais ativa para assegurar que futuramente não estejam nesses cenários citados. É claro que não é apenas a falta do exercício mental que leva pra esses desfechos. As doenças podem ter inúmeros fatores e boa parte é influenciada pela genética em tom de predisposição. Mas, em paralelo à isto, ocorre o chamado ‘fator ambiental’, que é só um nome bonito pra dizer que contextos, substâncias e ocorrências ao longo do crescimento da pessoa em sociedade (ou fora dela), podem funcionar como gatilhos que impulsionam ou ativam as doenças e características do corpo e da mente vindas da predisposição genética ou geradas de forma isolada ao longo da vida.

Se observarmos com um mínimo de atenção, logo vemos que isso se estende para inúmeros outros setores da vida. As amizades, por exemplo, se não cultivamos e não damos o devido valor, com o tempo deixam de existir. Aqueles números massivos de pessoas que os usuários nutrem nas redes sociais ou até mesmo “pessoalmente”, acabam se tornando só mais um número, se não houver um contato real, profundo e constante. A interação humana ganha sentido e valor quando ela consegue deixar um rastro no tempo. Claro que às vezes sentimos que algo já tem grande valor, mesmo que tenha sido breve, porém isso só se mantém intenso se for levado adiante. Perdemos facilmente os amigos, conhecidos, contatos de trabalho, simplesmente porque deixamos de participar da realidade deles e, consequentemente, eles da nossa.

Nos relacionamentos amorosos, vê-se bem como o abandono e o descaso, acabam por gerar a perda desse relacionamento. Mesmo que unidos pela formalidade ou um teto, inúmeros casais deixam de dividir cumplicidade, felicidade, amor e respeito, simplesmente porque alí já não era nutrido nada disso há muito tempo e adoeceu como um prédio em ruínas por falta de manutenção. O desgaste que vemos nas relações com as pessoas e o mundo são exemplos constantes para podermos observar e aprender que quando não somos mais ativos em algo, perdemos o direito da companhia, do desfrute, do amor, da alegria, do prazer, do significado, etc.

Outro exemplo de como perdemos pelo desuso, são os dons, talentos, habilidades ou similares. Se você é um artista e fica sem criar por muito tempo, é natural que você se torne menos capaz ou que tenha mais dificuldade para chegar nos mesmos resultados de antes. Tudo na vida exige que estejamos engajados o tempo todo, para não ficarmos pra trás. Se levarmos esse conceito para cenários políticos e sociais, também podemos perceber que negligenciar certos assuntos do país ou mundo, acaba nos tirando os benefícios, a qualidade de vida, as conquistas, as liberdades. Este ano, no Brasil, vimos como a ausência do pensamento crítico, da desconstrução dos preconceitos e da Educação em geral, pode gerar a ausência de todo ambiente sadio dessas temáticas. De tanto as pessoas negligenciarem a Educação, por exemplo, estão hoje, aos montes, aplaudindo um ignorante, que é fortemente embasado por um outro pseudo-intelectual que diz coisas insanas como “a Terra é plana” e sentem-se felizes de fazer parte de uma quadrilha que, em última instância, são tão ou mais ignorantes que seus próprios seguidores. Isso mostra que, se as pessoas não fazem uso do intelecto, o intelecto deixa de estar disponível pra elas. E quando isso ocorre, é só tristeza, pois não poderão perceber sua própria condição.

Ao menos nos outros setores da vida, nossas perdas podem ser um pouco mais fáceis de se notar, já que nem sempre comprometem a percepção e a intelectualidade. Um artista inativo, por exemplo, pode até reduzir suas habilidades em algum momento, mas, se tudo estiver bem com seu intelecto, ele saberá reconhecer sua condição, as causas disso e, se quiser, retornar para a condição anterior, treinando e se fortalecendo.

Nos últimos tempos eu estive distante de várias atividades práticas, mas nunca das temáticas em si. A Fotografia, por exemplo, que tive de pausar a prática, nunca deixou de fazer parte da minha realidade. Estive sempre aprimorando, estudando, vendo, compartilhando e pensando em Fotografia. Isso mantém minha mente ocupada com as informações, de maneira que o distanciamento não se concretiza. Enquanto sua mente estiver recebendo estímulos para uma determinada área do cérebro, para um certo assunto ou modelo de atividade, aquilo lhe será fortalecido automaticamente. Alguns gostam de fazer uma analogia entre o cérebro e um músculo, pois de maneira simbólica, o cérebro também pode “atrofiar” por falta de uso / exercício. A questão é que a mente humana é muito mais que simplesmente a parte orgânica. A estrutura invisível que não vemos é, talvez, a parte mais poderosa da nossa mente. É por meio dos nossos pensamentos e da organização das nossas sinapses em constelações de significado, que conseguimos definir se teremos uma mente mais poderosa, mais capaz, mais diversa, mais resistente ou se seremos levados a caminhos de degradação.

Gosto de associar a perda de vitalidade / saúde física e mental com a perda de direitos em geral, inclusive os direitos sociais e políticos. Se analisarmos os dois universos sob o mesmo preceito difundido à pouco, veremos que a inação de muitos diante de si mesmos e do mundo, os leva pra um caminho sórdido de Síndrome de Estocolmo, onde são manipulados por seus próprios opressores a se tornarem fiéis escravos, cegos e ignorantes de tudo que lhes ocorre de ruim. Não é de se espantar que recentemente, diante do desastre das Eleições de 2018, regadas à muita fraude, corrupção e Fake News, tenha surgindo a expressão ‘gado demais’ pra definir essa massa de eleitores sendo encaminhados para o abate social e intelectual, em troca de absolutamente nada. O triste é que, pela inação de uns, o prejuízo se estende também para os que sempre lutaram pelo uso e manutenção de seus direitos.

Por isso, fica a lição de que preservar e exercitar é sempre a melhor saída pra você não terminar ignorante, viciado, preconceituoso, fraco, equivocado, inexperiente, sem traquejo, doente, descontrolado e sem razão. Se você não quer se tornar um entulho na sociedade é preciso dedicar-se firme à sua própria transformação, dia após dia. Todo segundo que você abandona o seu potencial, você cava sua própria miséria. Seu sucesso pessoal (que é só o qual você tem algum controle), está relacionado com as ações que você faz pra si e pro mundo, numa relação de observação, contemplação, troca, ação, compreensão, transmutação, etc.

Tão importante quanto não ser teu próprio fardo, é não ser um fardo pra outras pessoas. Empenhe-se em ser alguém melhor todos os dias, longe de falácias, longe de discursos prontos, de bordões viciados e vazios, longe de pessoas mal intencionadas que transbordam ódio e reinam na escassez da intelectualidade, do bom-senso e da utilidade ao mundo. Fuja pra longe daquilo que te reduz, porque no final das contas, tudo que você vai precisar hoje, lá na frente e sempre, é estar de pé e pleno, mesmo que hoje você não ache nada disso tão preocupante ou iminente. As maiores desgraças da humanidade foram justamente as que foram negligenciadas e tratadas inicialmente como ‘não tão problemáticas’, ‘não tão absurdas’, ‘não tão nocivas’, ‘não tão extremas’ até que fosse tarde demais. O arrependimento foi certo e o passado não pode ser desfeito. Então faça algo de bom no momento presente e todos sairão ganhando, inclusive você.

Rodrigo Meyer – Author