Crônica | Miséria e Luxo.

Na frente da loja de conveniência, um morador de rua sentado. Aos desavisados, parece não esperar nada, mas pra quem vive fora da bolha, eis alguém que decaiu não só pra rua, como pro consumo de droga pesada. Não faz mal a ninguém. A comunidade em torno o conhece e o respeita. É educado mesmo quando não está sóbrio. A droga não transforma, ela só potencializa a essência do indivíduo. Alí está um homem que tinha vergonha da sua condição, de pedir dinheiro, de estar entre os demais. Um dia lhe disse que não precisava ter vergonha de nada daquilo, pois muitos de nós já se encontrou sem saída e o importante é tentar tirar o melhor proveito dos dias. Lágrimas do lado de lá, de alguém que lembrava, claramente, que nunca tinha ouvido ninguém se solidarizar. As pessoas passam reto, não olham nos olhos, mal chegam perto. As madames com seus carros pretos de luxo, abrem a carteira e tentam encontrar alguma nota de baixo valor, quando lhes pedem alguma moeda. Moeda elas não possuem e talvez a menor nota delas seja só de R$ 10 ou R$ 20 reais. “Mendigo inoportuno que não tem máquina de passar cartão de débito”, devem pensar. Ele, sempre volta; elas, raramente. Elas preferem o conforto de casa, como um bunker, trancadas e inseguras, por conta dos monstros que elas mesmas fabricaram. Ele, pede porque não tem; pede porque a abstinência cobra o consumo da droga; pede porque, muito antes, foi esquecido pela sociedade; pede porque, se a vida estivesse, antes, estável, não teria que pedir coisa alguma; pede porque uma minoria da sociedade não abdica dos luxos herdados, dos privilégios e até da corrupção, quando notam que é mais fácil ser egoísta e inútil, do que reconhecer que não tem mérito nenhum aceitar como certo o que foi dado errado. Não trabalharam duro, apenas lapidaram um diamante bruto herdado. E, geralmente, um diamante roubado.

Rodrigo Meyer

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Seu medo, seu inimigo.

Na temática da autossabotagem, o medo ganha disparado. Indivíduos que baseiam suas vidas em uma grade constante de medo, estão sempre paralisados e aquém de seus potenciais. O motivo é muito simples. A medida em que determinam aquilo do qual possuem incerteza, insegurança, receio ou pouca resolução, tornam-se resistentes a isso, no sentido de armar uma postura de defesa, de recusa. E, claro, se recusamos algo, ficamos sem.

O ser humano consegue desenvolver muitas nuances de medo e consegue controlar também como e quando isso o afeta, desde que esteja em domínio na causa do medo ou do tema ao qual ele se refere. Há pessoas, por exemplo, que possuem medo de se envolver emocionalmente com outras e, por isso, recusam as oportunidades, incluso as positivas, apenas porque automatizaram uma defesa. Tal mecanismo de defesa, extensamente conhecido na Psicologia, faz as pessoas serem vítimas de si mesmas, antes de sequer terem a chance de se tornarem aquilo que não queriam inicialmente: tornarem-se vítimas de algo ou alguém.

Mas é claro que nada é tão simples como apenas definir o que sentir ou pensar sobre as coisas. A mente humana gera situações, ideais e estruturas com base em traumas, complexos e outros contextos que fragilizam o indivíduo a ponto de colocá-lo fora da lógica ou da naturalidade. A exemplo disso, algumas pessoas se sabotam, consciente ou inconscientemente, fugindo de monstros imaginários. Há quem sonhe com estilos de vida, empregos e todo tipo de realidade de carreira ou vida pessoal e, quando colocados a exercer essa jornada, recuam sob inúmeros pretextos. Alguns lançam mão do artifício de sentirem-se inaptos ou insuficientes pra tal feito. Vão dizer que não há saída pra eles ou que não podem aderir a algo, simplesmente porque as condições não permitem. É hora de criar mil e uma fantasias pra tornar aquela realidade desejada, porém assustadora, algo inalcançável. Começa, então, um show de desvios pouco racionais.

Sinta-se a vontade pra rir desse caso que vou usar de exemplo. É o primeiro que me vem na mente de forma instantânea. Trata-se de uma pessoa que passou a vida toda se queixando da vida difícil, dos poucos recursos financeiros, ao mesmo tempo em que, sempre que tinha qualquer progresso ou brecha para melhorar de situação, tomava alguma decisão que eliminasse as chances de desfrutar daquilo. Foi o caso, por exemplo, de quando, diante de uma promoção de cargo no emprego, decidiu pedir demissão ao invés de usufruir de um trabalho com melhores condições e muito melhor remunerado. Qualquer pessoa mentalmente saudável e sensata acharia um disparate essa conduta. Mas, pra uma pessoa que morre de medo de tornar-se próspera, qualquer porta pra essa guinada na vida era motivo pra se afastar, sem pensar muito. O único motivo pra se considerar esses medos patológicos é justamente a característica de oposição ao bem-estar da pessoa e da ausência de motivos racionais pra tal. Se pratica, por opção própria, uma conduta que não a ajuda a se sentir melhor ou a viver em melhores condições, então vê-se aí uma situação doentia.

Ainda nesse exemplo citado, a pessoa sentia-se tão apavorada com a ideia de prosperar, que sempre que tinha a sorte de conquistar algum dinheiro, fazia o pior uso possível desse dinheiro, exterminando ele em pouco tempo com algo completamente desnecessário. Uma vez compreendida a estrutura desse tipo de autossabotagem, pode-se imaginar inúmeros outros casos em todas as temáticas da vida, onde as pessoas simplesmente inventam motivos pra continuarem insatisfeitas com a vida. Cutucando suas mentes, voltando ao tempo da infância (provavelmente), frequentemente encontram as razões pelas quais sentem-se pouco merecedoras dos benefícios da vida ou da própria liberdade em viver. Quase sempre é uma interpretação automática da mente depois de associar que a postura ou palavra depreciativas de alguma figura importante (como um pai ou mãe) tenham sido convertidos em uma espécie de impressão sobre si mesmo com base nesse critério. Em resumo, é como se a mente da criança complexada pensasse: “se meus pais não me enalteceram, então eu não tenho valor” ou “se meus pais me diminuíram, então não tenho valor” ou ainda “se meus pais estavam ausentes, é porque eu não era importante pra merecer a presença deles”. Esse tipo de associação fácil é comum, mas é uma falha da mente, especialmente na infância em pessoas com baixa autoestima ou de mente mais frágil.

Contextos similares podem fazer as pessoas terem condutas de autossabotagem sem perceber que tudo aquilo de que fogem, pode simplesmente ser uma fantasia desnecessária. Ao mesmo tempo em que sentem-se mal pelos reveses que elas mesmas criam, não conseguem parar de criar. Essa automação na mente e nas condutas diante das decisões, pensamentos e relacionamentos, pode gerar uma espécie de personagem que toma o lugar do indivíduo, como que se já tivesse se esquecido quem ele é ou poderia ser, depois de ter passado tanto tempo endossando a figura diminuída, frágil, lida como incapaz ou não merecedora. Reverter essa visão e essa automação é uma tarefa que o indivíduo está habilitado a fazer, se assim quiser. O sucesso disso depende de quanta noção e disposição ele tem pra varrer e transformar a si mesmo. Não é fácil encontrar-se diante do espelho e falar umas boas verdades, antes de se estar devidamente imune ao peso delas. O caso é que verdades só pesam para quem as evita. Tão imaginário quanto os equívocos dos complexos é essa visão de que verdades são incômodas. Quando estamos em posição de querer viver melhor ao invés de nos prejudicar, a verdade torna-se algo que desejamos com afinco a ponto de sentirmos prazer e alívio em lidar com ela. E é tão somente isso que deve ser a vida.

Agora que sabemos que o medo é nosso inimigo, se não quisermos paralisar diante de nosso potencial na vida, precisamos reforçar nossas escolhas, nosso pensamento, nossa autoestima, nossa mente, revendo nossos problemas de infância, nossas crenças, nossas aceitações e recusas diante das figuras que julgamos importante, inclusive a que deveria ser a mais importante de todas: nós mesmos. Se tomarmos a iniciativa de nos presentear todos os dias com coisas boas, evitamos de fechar nossas portas para uma jornada melhor, maior ou, pelo menos, mais interessante. Não é o caso de pensar que, apenas tendo autoestima e coerência com nossas decisões, já seremos as pessoas mais sortudas do mundo, mas sempre que estivermos diante de alguma situação de oportunidade, teremos, ao menos, condições de tentarmos, de aceitarmos o que nos vem e fazermos o nosso melhor com aquilo. O que estiver ao nosso alcance, devemos fazer pleno uso e o que não puder, tudo bem. A vida começa a fazer um sentido diferente, quando percebemos que ela não é nem o passado, nem o futuro, mas exatamente o momento vivido em cada ocasião. Sinta-se livre pra desfrutar da vida, pois é basicamente isso que determina o resultado da equação. Uma vida melhor, está atrelada ao quanto pudemos aproveitar dos momentos e ter isso como nosso histórico na mente e nas relações com o mundo. Como em um jogo de xadrez, cada novo passo que damos, interfere nas novas opções que teremos em seguida. Não jogar não nos faz vencer e nos sabotar nos faz perder sem necessidade.

Rodrigo Meyer

O medo de perder nos faz perder.

Algo muito comum de se ver são pessoas recuando em decisões, atividades ou relacionamentos pelo simples medo de perder. O que estas pessoas talvez não racionalizem é que este medo que as faz recuar, também as faz perder. Logo elas que não queriam perder, perdem antecipadamente por decisão delas mesmas. A princípio, uma contradição, mas o que explica isso é que, por trás do ‘medo de perder’, estão condutas automatizadas por traumas e condicionamentos que já afetaram a autonomia da pessoa. Assim, muitas dessas pessoas admitem abertamente estarem conscientes de que estão perdendo, mas preferem a certeza do ‘não’ do que a incerteza entre ‘sim’ e ‘não’, por puro medo da chegada do ‘não’. Mas como é isso? Como pode haver medo do ‘não’ se escolhem antecipadamente ele?

Geralmente, quando uma pessoa está neste contexto, ela traz consigo uma história marcante anterior que gerou esse trauma. Uma pessoa que tem medo de se relacionar por medo de perder o companheiro, evita entrar nesse relacionamento como uma forma de defesa inconsciente e, portanto, automática, devido a uma perda anterior, geralmente muito mais grave que um simples relacionamento de casal. Às vezes uma mulher que perdeu a figura paterna muito cedo ou em uma fase decisiva de sua vida, pode acabar tendo dificuldade de se entregar pra um relacionamento com outra figura masculina ou com qualquer pessoa que represente um vínculo ou laço afetivo muito grande. Ou seja, devido a possibilidade forte de que um relacionamento conduza a pessoa pra um apego ou envolvimento intenso com a outra, isso faz soar um alarme sobre um possível perigo, já que quando esteve apegada e envolvida intensamente com a figura que perdeu originalmente, terminou sofrendo com uma perda ou abandono.

A associação inconsciente nos traumas quase sempre é imprecisa e, devido ao impacto emocional intenso que o traumatizado verteu pra si, isso tudo tem menos racionalidade e mais emoção. A ocorrência original é sempre lida de maneira bastante simbólica e acaba por afetar, no futuro, contextos aparentemente diferentes, mas que, pela Psicologia, estão sempre vinculados como uma espécie de causa e efeito ou de simbolismo para o funcionamento da psique humana.

É fácil lembrar de casos de pessoas que, por exemplo, tiveram uma infância sofrida com problemas financeiros drásticos e que, por isso, desenvolveram algum trauma relacionado. De maneira similar ao exemplo anterior da perda de uma figura de referência, o trauma pela pobreza pode fazer uma pessoa ter medo de perder dinheiro. Torna-se, assim, avarenta ou muito controladora e, sobretudo, gananciosa ou ambiciosa. Embora nesse caso a pessoa esteja ganhando dinheiro ao invés de perder, ocorre um outro tipo de perda que não é financeira, que é a perda do bom uso do dinheiro. Uma vez que tem medo da perder tal riqueza, evita ao máximo aproveitar o que ganha com coisas prazerosas. Mesmo tendo condições, prefere não gastar com nada, já que toda compra potencialmente reduz seu dinheiro. Claro que esse medo é pouco racional, como todo trauma tende a ser, mas a pessoa pouco escolhe sobre isso.

Outro caso fácil de associar são os distúrbios alimentares. Pessoas que em algum momento se traumatizaram por seu peso corporal, podem vir a desenvolver uma obsessão pela magreza, chegando ao extremo da anorexia, por exemplo. Há casos de pessoas que abandonam a alimentação até figurarem em quadros médicos de vida ou morte. É tamanho o medo de engordar, que mesmo estando anoréxicas, podem ainda não ter uma visão correta de si mesmas na mente. Pessoas com este tipo de distúrbio podem ficar obcecadas com a perda de gordura que qualquer mínimo volume no corpo que não seja osso, as faz ficar em alerta automático, desejando ansiosamente por mais redução de medidas. Não é preciso dizer que isso é infindável e leva as pessoas a morte se não houver uma intervenção a tempo. De maneira igual, há pessoas que passaram fome em alguma fase da vida e pelo trauma sofrido desenvolvem uma compulsão por comida até se tornarem obesos mórbidos. Para ambos os casos, o tratamento psicológico do indivíduo é indissociável dos demais cuidados médicos.

Apresentei alguns exemplos de como traumas brecam a vida de um indivíduo. Este medo de perdas, seja de uma companhia afetiva, de um dinheiro, de um padrão corporal, de uma comida ou qualquer que seja o caso, leva a pessoa a ter outras perdas posteriores. É racional entender e respeitar que, por trás da conduta humana adoentada ou enfraquecida, estão questões que fogem ao controle de algumas pessoas e que, por isso, figuram em distúrbios e outras atitudes reativas. É compreensível que elas transformem-se em pessoas com algumas características mais acentuadas e é nosso papel estar de olhos e mente abertos, para poder recepcioná-las sem esperar delas mais do que elas estão dispostas a dar em cada momento. Sei que algumas pessoas não querem lidar com temas difíceis e muitas evitam qualquer tipo de ajuda psicológica, porque não querem tocar na ferida.

Tive a oportunidade de conhecer pessoas diferentes, cada uma com um destes diferentes contextos de trauma e pude ver de perto como isso impacta extensivamente o dia-a-dia delas. Ainda que  se escondam boa parte do tempo atrás de trabalhos, sorrisos e outras atividades, no fundo, vê-se, pelas reações e palavras, que estão em fuga de tudo que cutuque seus traumas de alguma forma. Vivem sob pressão do medo e frustram-se com a vida por estarem sempre em situação desfavorável para a vitória ou a plenitude. O emocional fica abalado, as pessoas podem desabar em depressão, vícios ou somatizar os problemas da mente em doenças e dores pelo corpo. Vi as pessoas armarem mil e uma justificativas para seus erros, medos, manias, vícios e até ataques, tudo fruto de uma vivência conturbada com o próprio inconsciente delas.

O medo afasta as pessoas do equilíbrio de si mesmas. Ele deixa as pessoas em estado de alerta ou paralisadas. Nunca as faz ficar tranquilas e felizes. O medo condiciona a mente humana a fugir de certos contextos, por mais que não seja a conduta ideal na vida. O medo priva as pessoas do bem-estar emocional, mental, social, assim como pode também ser uma terrível armadilha pra controle político e ideológico. É sob medo, que o pior acontece e é sob o medo que perdemos sempre. O primeiro passo pra nos livrarmos das perdas, é superando nossos medos.

Em casos de traumas por situações drásticas, a ajuda psicológica ou a reavaliação de si mesmo sozinho podem ser soluções que, uma vez alcançadas, você se tornará eternamente grato por ter tido a iniciativa de tentar. Para medos de cunho cultural, político e social eu recomendaria o exercício das próprias liberdades, procurando sentir-se pleno de seus direitos e poderes natos como humano livre que pretende ser. Ousar se torna a regra, se quiser superar as barreiras que antes tinham algum efeito sobre seu psicológico. A medida em que você vence monstros imaginários, percebe que eles são apenas isso: imaginários. Quando não conferimos valor ou poder a algo ou alguém que só detinha tal poder por um jogo psicológico, este algo ou alguém se dissolve no nada e, se for sensato, corre, pois, agora, ele é quem deverá ter medo dos que perderam medo dele.

Com este texto espero ter acendido em cada um de vocês uma motivação, um empoderamento para o controle de suas próprias vidas, para que tornem-se pessoas mais vivas, mais felizes, mais independentes, mais firmes psicologicamente e que, através das mudanças pessoais, consigam se tornar boas peças para a transformação social no mundo. Onde quer que você esteja, busque todos os recursos disponíveis para ficar de pé, burlando prejuízos e mergulhando fundo em seus potenciais. Apenas a motivação não garante nosso sucesso, mas sem motivação não chegamos longe.

Rodrigo Meyer