Crônica | O homem invisível.

Entrei pela porta de vidro, senti o ar-condicionado. Não havia como eu não ser notado. Mais de 5 câmeras de vigilância e funcionário pra todo lado. No refrigerador, bebidas geladas. Peguei uma e paguei. Do lado de fora, mais gente, mais olhos presentes. Entrei no carro, voltei pra casa. No caminho, as pessoas pela calçada e os escravos da ronda armada. Dentro de casa, os barulhos da porta de entrada se abrindo e da porta do quarto se fechando, avisam os vizinhos que eu voltei. Eu não queria ser notado por ninguém, mas assim como eu os notei, me notaram também. A privacidade não existe. Viver em sociedade é viver observado e julgado. Posso até mesmo me esconder atrás de cortinas e paredes, mas até a minha ausência de imagem vai ser estímulo para lembrarem que eu ainda não saí de casa. Quando eu não quero que me notem, lembram de mim todo dia, mas se eu precisar de silêncio ou ajuda, aí eu consigo finalmente ser invisível.

Rodrigo Meyer

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