Prosa | Saudade ou tranquilidade?

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Um pouco de saudade faz bem, mas, tal como o fiapo de um tecido, nunca sabemos quão longo será, até que tenhamos terminado de puxar. Se envolver numa memória de saudade é sempre um risco. Começamos com um pensamento curto, como um flashback e ficamos mastigando isso como se estivéssemos novamente naquele cenário, naquele tempo. Vários são os dias que eu sou tomado por lembranças do passado, mas, feliz ou infelizmente, elas são muito curtas. Na minha memória, as pessoas se converteram em pedaços isolados de cenas. Certamente as mais marcantes, tanto boas quanto ruins. E mesmo que as cenas logo se acabem, o sentimento pode durar muito mais. Isso é parte do que é a saudade.

Tenho saudade dos lugares onde dancei, dos bares onde bebi, das risadas que dei, das companhias com quem dormi, os lugares por onde viajei. Tenho saudade de mim mesmo quando eu era mais jovem, mais vivo e mais inteiro. Saudade também pelos livros que li, os filmes, as madrugadas, os momentos sozinhos dirigindo na estrada e os apartamentos-portais que visitei e assim os apelidei, de forma humorada, porque neles eu me transportava pra outros mundos e realidades, enquanto perdia a noção do tempo. Percebo que a saudade tem um componente dramático, feito de incerteza. Não sabemos se vamos experimentar novamente aquelas realidades e, talvez, por isso nos apegamos aos momentos que já vivenciamos. É a tentativa de continuar a obter prazer com o que já não está presente além da mente.

Mas, saudade demais machuca e nos deixa mergulhados em uma realidade que vicia. Quanto mais olhamos pra trás, mais abandonamos o presente. Se nos entregarmos ao saudosismo, sem adicionar novas realidades, corremos o risco de paralisar a vida e sobreviver apenas de memórias que nunca saciarão nossa fome. A saudade é um desabafo gritando para a linha do horizonte nossa vontade de que tudo se materializasse na nossa frente e que vivêssemos tudo aquilo outra vez. Saudade é, sobretudo, um sentimento não resolvido, que está nos perfurando de forma recorrente, até que tenhamos mais furos do que partes pra serem furadas. O excesso de saudade elimina nossa própria pessoa da equação e nos faz dependentes de nossas próprias memórias. Talvez seja válido dizer que a saudade é como a abstinência por uma droga. A crise vem porque já estávamos viciados e ao não ter aquilo de que somos dependentes, ficamos transtornados, sem saber lidar com a realidade nos dizendo ‘não’.

É verdade: tenho saudades. Mas, antes de tudo, tenho saudades do tempo em que eu ainda não tinha saudade alguma. Houve esse tempo, onde eu era apenas alguém projetando minhas expectativas sobre o futuro, na maior inocência, podendo, apesar do mundo, viver o momento presente da época, sem me preocupar se amanhã algo me tiraria a paz, me faria falta ou algo assim. Essa saudade é uma saudade diferente. É querer voltar no tempo, mas não pra correr atrás dos nossos vícios e desejos mal resolvidos, mas sim nos livrarmos de tudo isso e sermos apenas alguém que aprecia o exato segundo de algo, sem se perguntar mais nada. Quem, hoje em dia, pode se dar ao luxo de dizer que vive dessa forma?

Quanto mais o mundo se atropela à caminho do seu estado insustentável final, mais nos vemos dependentes de uma salvação, de algo que nos dê um mínimo de prazer, um pingo de dignidade, uma faísca de alegria e uma migalha de tranquilidade. Estamos fugindo do futuro porque percebemos, desde sempre, que estamos no caminho errado para um destino que não vale nem ao menos descrever. Estamos aficionados por qualquer exceção que o mundo possa nos prometer. Se não podemos voltar no tempo, queremos que o momento presente seja nosso novo vício. E disso também surgem problemas, pois continuamos dependentes de um prazer que parece não vir de lugar algum. Estamos sempre idealizando cenários onde nossa vida seja menos dolorida, mais humana, mais divertida e mais sólida. Mas tudo não passa de desejos e sonhos. São planos que não sabemos sequer como começar a concretizar. Estamos naufragando num mar gelado chamado ‘sociedade’, enquanto olhamos ao redor procurando uma boia, um pedaço de terra firme, um barco ou qualquer coisa que nos prometa mais que a mesma água fria.

Olhamos as redes sociais atrás de novidades e ficamos engajados nesse sistema de cliques e comentários, como se algo pudesse brotar no meio da tela e nos estender a mão. Agarrados ao celular, estamos tendo nossa energia mental sugada, pela constante atenção que damos à inúteis notificações. Sua operadora de celular tem mais 5 novos SPAMs na caixa de mensagens, suas redes sociais querem te avisar que alguém fez uma publicação e que talvez você possa se interessar de rever seu próprio conteúdo de 10 anos atrás. Talvez, o abismo que a sociedade atual está ainda não tenha nome, mas, certamente, tem a internet como principal cenário. Não que a vida offline seja menos problemática, mas justamente porque toda ela está representada dentro da internet. O que acontece no mundo lá fora é a mesma coisa que a internet está replicando de inúmeras maneiras, incluso os excessos, as mentiras, as disputas, as guerras, as mazelas, os discursos de ódio, as ilusões e fantasias, as crises psicológicas, sociais e políticas. A internet se tornou o lugar onde vamos para viver um segundo round da mesma realidade. Assim, torna-se compreensível alguém sentir saudade.

Estamos esperando por uma trégua, mas o mundo não parece minimamente pronto ou interessado pra nos conceder. Temos que nos aliviar das dores com as próprias dores. Temos que aprender a sentir prazer com aquilo que só machuca. É como se tivéssemos transformado a vida num jogo sadomasoquista. Queremos ver até onde conseguimos apanhar ou bater, antes que a vida nos destrua de vez. Assim como a saudade revela nosso vício por um prazer inalcançável, esse novo modelo de vida na internet também nos faz entrar em conflito por ideais de sociedade e autorrealização que estão, ao meu ver, incoerentes com o que hoje é praticado pelo usuário padrão.

Um dia desses estava conversando sobre a vontade de largar tudo e ir viver isolado. Como seria o mundo distante das cidades, das pessoas e, claro, da internet? Que impactos positivos teria ao viver como um eremita ou como um monge budista? Por mais repentino que isso pareça, esses pensamentos frequentemente pulsaram em mim desde a adolescência. Penso no que as pessoas ganhariam se deixassem de lado todas essas construções viciadas de sociedade, pra ir viver, novamente, o sentido puro das coisas, contemplando o momento, sem pensar no passado ou no futuro. Acho que, assim, deixaríamos de ter saudade e viveríamos muito melhor. Talvez fosse de grande ajuda para a ansiedade, depressão, crises existenciais, brigas, intrigas, conflitos sazonais, síndromes, medos, fobias, inseguranças, vícios, dramas e tudo o mais. Ou, talvez, tudo isso seja apenas especulações e mais idealizações que podem nunca se concretizar.

Será que todo o caos no mundo é causado por um enorme equívoco chamado ‘sociedade’ ou será que ainda há esperança de construirmos uma sociedade justa, digna e feliz, desde que escolhamos os modelos certos? Nos apontam como seres sociais o tempo todo, mas talvez nossa verdadeira habilidade seja de buscar nossa paz pelo importante exercício de ficarmos sozinhos. Poderíamos, tentar trilhar um caminho com menos estrutura e mais espontaneidade, menos planos e mais sinceridade, menos dramas e mais felicidade. Quão longe chegaríamos em um modelo assim? Essas reflexões surgem porque todo aquele que um dia sentiu saudade, ficou sequelado ou, pelo menos, com uma cicatriz. A dor de ter vivido dias melhores e se perceber defasado, num mundo que não faz pausas é fruto de uma percepção que pra alguns é real e pra outros é subjetiva. De certa forma, não perdemos nada, exatamente. Não somos donos do nosso passado, nem mesmo da nossa vida. Um dia morreremos todos e teremos que aceitar esse desfecho. Não estamos no controle de nada e cada dia que passa estamos mais próximos do nosso próprio fim. Superar as perdas e aceitar construir novos momentos é um caminho possível que ressignifica certos conceitos, muda nossa perspectiva de vida, muda nossas sensações e se não apaga as memórias, pode, ao menos, torná-las menos dolorosas ou até mesmo inofensivas. Pra viver os benefícios de uma sociedade, somos obrigados a viver também uma lista interminável de prejuízos.

Será que essa é a deixa para substituirmos a pesada saudade por uma necessária tranquilidade? Não era exatamente isso que tentávamos alcançar com a própria saudade? Se simplesmente pararmos de esperar pelo que não volta, já encurtamos nosso caminho, indo diretamente para aquilo que já sabemos que nos faz bem agora. No final das contas, o que queríamos não era exatamente nos sentir vivos e despreocupados? De que outra forma podemos alcançar esse objetivo, se ficarmos presos nesse padrão de sociedade? Eu não vejo futuro algum em entrar em conflito constante, pra terminar a vida sem experimentar os resultados dos meus esforços. Eu quero viver o benefício hoje, porque depois de morto, nossos esforços só terão serventia para os que vierem depois. Se por um lado esse pensamento parece um tanto egoísta, por outro, é verdade que as pessoas podem aderir à mudança da percepção subjetiva por elas mesmas também. Para que não tenhamos que pensar nem no passado e nem no amanhã, talvez devêssemos deixar a escolha pela mudança de vida para cada indivíduo. Você escolheria se isolar da sociedade? Valeria a pena ficar pra ver algum modelo organizado de coletivo que pudesse entregar dignidade, tranquilidade e felicidade?

Mesmo que não tenhamos uma resposta definitiva, precisamos ter esse assunto na mente, se quisermos ser decentes com nós mesmos e com o resto da humanidade. O indivíduo que não tem dúvidas sobre as dores pessoais e alheias, não está se debruçando o suficiente no tema, o que denotaria uma falha primordial de caráter e/ou uma profunda deficiência no senso de humanidade. Enquanto vocês pensam um pouco mais sobre a vida individual e coletiva, eu vou tentar viver um dia diferente, pra ver se algum insight surge pra melhorar minha perspectiva de vida. Não me desejem sorte, nem morte. Me desejem uma vida bem vivida.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | O homem invisível.

Entrei pela porta de vidro, senti o ar-condicionado. Não havia como eu não ser notado. Mais de 5 câmeras de vigilância e funcionário pra todo lado. No refrigerador, bebidas geladas. Peguei uma e paguei. Do lado de fora, mais gente, mais olhos presentes. Entrei no carro, voltei pra casa. No caminho, as pessoas pela calçada e os escravos da ronda armada. Dentro de casa, os barulhos da porta de entrada se abrindo e da porta do quarto se fechando, avisam os vizinhos que eu voltei. Eu não queria ser notado por ninguém, mas assim como eu os notei, me notaram também. A privacidade não existe. Viver em sociedade é viver observado e julgado. Posso até mesmo me esconder atrás de cortinas e paredes, mas até a minha ausência de imagem vai ser estímulo para lembrarem que eu ainda não saí de casa. Quando eu não quero que me notem, lembram de mim todo dia, mas se eu precisar de silêncio ou ajuda, aí eu consigo finalmente ser invisível.

Rodrigo Meyer